sábado, 5 de fevereiro de 2011

Sermão da Primeira Dominga do Advento (1650) - Pe. Antônio Vieira

Sermão da Primeira Dominga do Advento (1650)
PADRE ANTÓNIO VIEIRA
Pregado na Capela Real, no ano de 1650

Obras Escolhidas, vol. XII,
Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1954

Tunc videbunt filium hominis venientem
in nubibus coeli cum potestate magna et
majestate.—S.Lucas, XXI.



I


Abrasado finalmente o Mundo e reduzido a um mar de cinzas tudo o que o esquecimento deste dia edificou sobre a terra... (Dou princípio a este sermão sem princípio, porque já disse Quintiliano que as grandes ações não hão mister exórdio: elas per si mesmas, ou supõem a atenção ou conciliam. Também passo em silêncio a narração portentosa dos sinais que precederão ao juízo, porque esta parte do Evangelho pertence aos que hão-de ser vivos naquele tempo, e não a nós; e o dia de hoje é muito de tratar cada um só do que Ihe pertence). Abrasado, pois, o Mundo, e consumido pela violência do fogo o que a sabedoria dos homens e o esquecimento deste dia levantou e edificou na terra; quando já não se verão nesse formoso e dilatado mapa senão umas poucas cinzas, relíquias de sua grandeza e desengano de nossa vaidade, «soará no ar uma trombeta» espantosa, não metafórica, mas verdadeira (que isso quer dizer a repetição de São Paulo: Canet enim tuba; e obedecendo aos impérios daquela voz o Céu, o Inferno, o Purgatório o Limbo, o mar, a terra, abrir-se-ão em um momento as sepulturas e aparecerão no Mundo os mortos vivos.

Parece-vos muito, que a voz de uma trombeta haja de achar obediência nos mortos? Ora reparai em outro milagre maior, e não vos parecerá grande este. Entrai pelos desertos do Egito, da Tebaida da Palestina; penetrai o mais interior e retirado daquelas soledades. Que é o que vedes? Naquela cova vereis metido um Hilarião, naquela outra um Macário, na outra mais apartada um Pacómio; aqui um Paulo, ali um Jerónimo, acolá um Arsénio; da outra parte, uma Maria Egipcíaca, uma Thais, uma Pelágia, uma Teodora. Homens, mulheres, que é isto? Quem vos trouxe a esse estado? Quem vos antecipou a morte? Quem vos amortalhou nesses cilícios? Quem vos enterrou em vida? Quem vos meteu nessas sepulturas? Quem? Responderá por todos São Jerónimo: Semper mihi videtur insonare tuba illa terribilis: surgite mortui, venite ad judicim. Sabeis quem nos vestiu destas mortalhas, sabeis quem nos fechou nestas sepulturas?__«A lembrança daquela trombeta temerosa que há-de soar no último dia: levantai-vos, mortos, e vinde a juizo». Pois se a voz desta trombeta só imaginada, (pesai bem a consequência) se a voz desta trombeta só imaginada, bastou para enterrar os vivos, que muito que, quando soar verdadeiramente, seja poderosa para desenterrar os mortos?

O meu espanto não é este. O que me espanta, e o que deve assombrar a todos, é que haja de bastar esta trombeta para ressuscitar os mortos, e que não baste para espertar os mortais! Credes, mortais, que há-de haver juízo? Uma de duas é certa: ou o não credes, ou o não tendes. Virá o dia final, e então sentirá nossa insensibilidade sem remédio o que agora pudera ser com proveito. Quanto melhor fora chorar agora e arrepender agora, como faziam aqueles e aquelas penitentes do ermo, do que chorar e arrepender depois, quando para as lágrimas não há-de haver misericórdia, nem para os arrependimentos perdão. Agora vivemos como queremos; e ainda mal, porque depois havemos de ressuscitar como não quiséramos.

II

Grandes coisas e lastimosamente grandes haverá que ver e considerar naquele acto da ressurreição universal! Mas entre todas as considerações a que me parece mais própria deste lugar e mais digna de sentimento, é esta. E quanta gente bem nascida se verá naquele dia mal ressuscitada! Entre a ressurreição natural e a sobrenatural há uma grande diferença: que na ressurreição natural cada um ressuscita como nasce; na ressurreição sobrenatural, cada um ressuscita como vive; na ressurreição natural nasce Pedro e ressuscita Pedro; na ressurreição sobrenatural nasce pescador, e ressuscita príncipe: Sedebitis in regeneratione judicantes duodecim tribus Israel. Oh que grande consolação esta para aqueles a quem não alcançou a fortuna dos altos nascimentos! Bem me parecia a mim que não podia faltar Deus a dar uma grande satisfação no dia do juízo à desigualdade com que nascem os homens, sendo todos da mesma natureza. Não se faz agravo na desigualdade do nascer, a quem se deu a eleição de ressuscitar. A ressurreição é um segundo nascimento com alvedrio.

Tanta propriedade considerou Job neste segundo nascimento, que até outro pai, outra mãe disse que tínhamos na sepultura: Putredini dixi: pater meus es tu; mater mea et soror mea, vermibus. Temos outro pai e outra mãe na sepultura em que jazem nossos ossos, porque ali somos outra vez gerados, de ali saímos outra vez nascidos. Notai agora: Statutum est hominibus semel mori: «Quis Deus que morrêssemos uma só vez», e que nascêssemos duas, porque, como o morrer bem dependia de nosso alvedrio, bastava uma só morte; mas como o nascer bem não estava na nossa mão, eram necessários dois nascimentos, para que pudéssemos emendar no segundo tudo o que nos faltasse no primeiro. Bem pudera Deus fazer que nascessem os homens todos iguais, mas ordenou sua providência, que houvesse no Mundo esta mal sofrida desigualdade, para que a mesma dor do primeiro nascimento nos excitasse à melhoria do segundo.

Homens humildes e desprezados do povo, boa nova! Se a natureza ou a fortuna foi escassa convosco no nascimento, sabei que ainda haveis de nascer outra vez, e tão honradamente como quiserdes; então emendareis a natureza, então vos vingareis da fortuna.

Que maior vingança da fortuna que as mudanças tão notáveis, que se verão naquele dia! Virão naquele dia as almas do grande e do pequeno buscar seus corpos à sepultura, e talvez à mesma Igreja: e que sucederá pela maior parte? O pequeno achará seus ossos em um adro sem pedra nem letreiro, e ressuscitará tão ilustre como as estrelas. O grande, pelo contrário, achará seu corpo embalsamado em caixas de pórfiro, aos ombros de leões, ou elefantes de mármore, com soberbos e magníficos epitáfios, e ressuscitará mais vil que a mesma vileza. Oh que metamorfose tão triste, mas que verdadeira! Vede se há-de dar Deus boa satisfação aos homens da desigualdade com que hoje nascem.

O ser bem nascido, que é uma vaidade que se acaba com a vida, é verdade que o não pôs Deus na nossa mão; mas o ser bem ressuscitado, que é aquela nobreza que há-de durar por toda a eternidade, essa deixou Deus no alvedrio de cada um. No nascimento somos filhos de nossos pais, na ressurreição seremos filhos de nossas obras. E que seja mal ressuscitado por culpa sua quem foi bem nascido sem merecimento seu! Lástima grande. Ressuscitar bem sobre haver nascido mal, é emendar a fortuna; ressuscitar mal sobre haver nascido bem, é pior que degenerar da natureza. Que ressuscite bem David sobre nascer de Jessé, grande glória do filho de um pastor; mas que ressuscite mal Absalão sobre nascer de David, grande afronta do filho de um rei! Se os homens se prezam tanto de ser bem nascidos, como fazem tão pouco caso de ser bem ressuscitados? Nenhuma cousa trazem na boca os grandes mais ordinàriamente, que as obrigações com que nasceram. E aposto eu que mui poucos sabem quais são estas obrígações. Nascer bem é obrigacão de ressuscitar melhor. Estas são as obrigações com que nascestes.

O mais bem nascido homem que houve, nem pode haver, foi Cristo; ninguém teve melhor pai, nem melhor mãe; e foi notar Santo Agostinho que, se Cristo nasceu bem, ressuscitou melhor: Gloriosior est ista ,nativitas, quam illa: illa cortus mortale genuit, ista redidit immortale. Cristo, diz Santo Agostinho, «nasceu mais nobremente no segundo nascimento que no primeiro: no primeiro nascimento nasceu mortal e passível; no segundo, que foi a sua ressurreição, nasceu impassível e imortal» Eis aqui as obrigações dos bem nascidos- nascerem a segunda vez melhor do que nasceram a primeira. Se Deus pusera na mão do homem o nascer, quem houvera, por bom que fosse, que não se fizesse muito melhor?

Pois este é o caso em que estamos. Se havemos de tornar a nascer, porque não trabalharemos muito por nascer muito honradamente? Não nascer honrado no primeiro nascimento, tem a desculpa de que «Deus nos fez» Ipse fecit nos, não nascer honrado no segundo, nenhuma desculpa tem: tem a glória de sermos nós os que nos fizemos: Ipsi nos. Que glória será naquele dia para um homem poder tomar para si em melhor sentido o elogio do grande Baptista: Inter natos mulierum non surrexit majorEntre os nascidos das mulheres nenhum ressuscitou maior». Ser o maior dos nascidos, em quanto nascido, é pequeno louvor e de pouca dura; ser o maior dos nascidos, em quanto ressuscitado, isso é verdadeiramente o ser maior. Na nossa mão está, se o quisermos ser. Nesta vida o mais venturoso pode nascer filho do rei; na outra vida todos os que quiserem podem nascer filhos do mesmo Deus: Dedit eis potestatem filios Dei fieri. E que não sejam isto considerações, senão verdade e Fé católica! Bendito seja aquele Senhor, que é nossa ressurreição e nossa vida: Ego sum resurrectio et vita.

III

Unidas as almas aos corpos e restituidos os homens à sua antiga inteireza, os bem ressuscitados alegres, os mal ressuscitados tristes, começarão a caminhar todos para o lugar do juízo. Será aquela a vez primeira em que o género humano se verá a si mesmo, porque se ajuntarão ali os que são, os que foram, os que hão-de ser, e todos pararão no vale de Josafat. Se o dia não fora de tanto cuidado, muito seria para ver os homens grandes de todas as idades juntos. Mas vejo que me estão perguntando, como é possível que uma multidão tão excessiva como a de todo gênero humano, os homens que se continuaram desde o princíplo até agora, e os que se irão multiplicando sucessivamente até o fim do Mundo; como é possível que aquele número inumerável, aquela multidão quase infinita de homens caiba em um vale? A dúvida é boa, queira Deus que o seja a resposta. Primeiramente digo que nisto de lugares há grande engano: cabe muito mais nos lugares do que nós cuidamos.

No primeiro dia da criação, criou Deus o Céu e a Terra e os elementos, e é certo em boa filosofia, que não ficou nenhum vácuo no Mundo, tudo estava cheio. Com isto ser assim, e parecer que não havia já lugar para caber mais nada, ao terceiro dia vieram as ervas, as plantas, e as árvores; e com serem tantas em número e tão grandes, couberam todas. Ao quarto dia veio o Sol, e sendo aquele imenso planeta cento e sessenta e seis vezes maior que a Terra, coube também o Sol; vieram no mesmo dia as estrelas tantas mil, e cada uma de tantas mil léguas, e couberam as estrelas. Ao quinto dia vieram as aves ao ar, e couberam as aves; vieram os peixes ao mar, e com haver neles tantos monstros de disforme grandeza, couberam os peixes. No sexto dia vieram os animais tantos e tão grandes à Terra, e couteram os animais: finalmente veio o homem, e foi o homem o primeiro que começou a não caber; mas se não coube no Paraiso, coube fora dele. De sorte que, como dizia; nisto de lugares vai grande engano: cabe neles muito mais do que nos parece. E senão, passemos a um exemplo moral, e vejamo-lo em qualquer lugar da república. O dia é do juízo, seja o lugar de um julgador.

Antigamente em um lugar destes que é o que cabia? Cabia o doutor com os seus textos e umas poucas de postilhas, muito usadas, e por isso muito honradas. Cabia mais uma mula mal pensada, se a casa estava muito longe do Limoeiro. Cabiam os filhos honestamente vestidos; mas a pé e com a arte debaixo do braço. Cabia a mulher com poucas jóias, e as criadas, se passavam da unidade, não chegavam ao plural dos gregos. Isto é o que cabia naquele lugar antigamente; e feitas boas contas, parece que não podia caber mais. Andaram os anos, o lugar não cresceu, e tem mostrado a experiência que é muito mais sem comparação o que cabe no mesmo lugar. Primeiramente cabem umas casas, ou pacos, que os não tinham tão grandes os condes do outro tempo; cabe uma livraria de Estado, tamanha como a vaticana, e talvez com os livros tão fechados como ela os tem; cabe um coche com quatro mulas, cabem pajens, cabem lacaios, cabem escudeiros; cabe a mulher em quarto apartado, com donas, com aias e com todos os outros arremedos da fidalguia; cabem os filhos com cavalos e criados, e talvez com o jogo e com outras mocidades de preço; cabem as filhas maiores com dotes e casamentos de mais de marca, as segundas nos mosteiros com grossas tenças; cabem tapeçarias, cabem baixelas, cabem comendas, cabem benefícios, cabem moios de renda; e sobretudo cabem umas mãos muito lavadas e uma consciência muito pura, e infinitas outras cousas, que só na memória e no entendimento não cabem. Não é isto assim? Lá nessas terras por onde eu agora andei, assim é. Pois se tudo isto cabe em um lugar tão pequeno, que grande serviços fazemos nós à Fé em crer que caberemos todos no vale de Josafat? Havemos de caber todos, e se vierem outros tantos mais, para todos há de haver vale e milagre.

De mais desta razão geral que há da parte do lugar, há outras duas da parte das pessoas; uma da parte dos bons, outra da parte dos maus. Os bons poderão caber ali em muito pouco lugar, porque terão o dote da subtileza. Entre os quatro dotes gloriosos há um que se chama subtileza, o qual comunica tal propriedade aos corpos dos bem-aventurados, que todos quantos se hão-de achar no dia do juízo podem caber neste lugar onde eu estou, sem me tirarem dele. Cá no Mundo também há este dote da subtileza, mas com mui diferentes propriedades. A subtileza do Céu introduz a um sem afastar a outro; as subtilezas do Mundo, todo seu cuidado é afastar os outros para se introduzir a si. Por isso não há lugar que dure nem lugar que baste. Muito é que Jacob e Esaú não coubessem em uma casa; mais é que Lot e Abraão não coubessem em uma cidade; muito mais é que Saul e David não coubessem em um reino; mas o que excede toda a admiração é que Caim e Abel não coubessem em todo o Mundo. E porque não cabiam dois homens em tão imenso logar? Pior é a causa que o caso. Caim não cabia com Abel, porque Abel cabia com Deus. Em um homem cabendo com seu Senhor, logo os outros não cabem com ele. Alguma vez será isto soberba dos Abéis, mas ordinàriamente é inveja dos Cains. Se é certo que com a morte se acaba a inveja, fàcilmente caberemos todos no Dia do Juízo. Quereis caber todos? Não acrescenteis lugares, diminuí invejas. Este é o dote da subtileza dos bons.

Da parte dos maus também não há-de haver dificuldade em caber no vale; porque ainda que os maus são tantos, e hoje tão grandes e tão inchados, naquele dia hão-de estar todos muito pequeninos, que no tempo do Dilúvio coubessem na arca de Noé todos os animais do Mundo em suas espécies, crê-o a Fé, porque o diz a Escritura; mas não o compreende o entendimento porque o não alcança a razão. Como pode ser que coubessem em tão pequeno lugar tantos animais, tão grandes e tão feros? O leão, para quem toda a Líbia era pouca campanha; a águia, para quem todo o ar era pouca esfera; O touro, que não cabia na praça; O tigre, que não cabia no bosque; o elefante, que não cabia em si mesmo.

Que todos estes animais e tantos outros de igual fereza e grandeza coubessem juntos em uma arca tão pequena?! Sim, cabiam todos, porque, ainda que a arca era pequena, a tempestade era grande. Alagava Deus naquele tempo a terra com dilúvio universal, que foi a maior calamidade que padeceu o Mundo; e nos tempos dos grandes trabalhos e calamidades até o instinto faz encolher os animais, quanto mais a razão aos homens! Caberão os homens no vale de Josafat, assim como couberam os animais na arca de Noé: Sicut fuit in diebus Noe, sic erit in consummatione saculi. Diz o texto que só com os sinais do fim do Mundo hão-de andar todos os homens secos e mirrados: Arescentibus hominibus pra timore: Se aos homens os há de apertar tanto o receio, quanto os estreitará o juízo! Oh como nos encolheremos todos naquele dia! Oh como estarão pequenos ali os maiores gigantes! A maior maravilha do Dia do Juízo, não é haver de caber todo o Mundo em todo o vale de Josafat; a maravilha maior será que caberão então em uma pequena parte do vale muitos que não cabiam em todo o Mundo. Um Nabucodonosor, um Alexandre Magno, um Júlio César, para quem era estreita a redondeza da Terra, caberão ali em um cantinho.

Uma das cousas notáveis que diz Cristo do Dia do Juízo é que «cairão as estrelas do céu» . StelIæ cadent de cæelo. Se dermos vista aos matemáticos, hão-de achar grande dificuldade neste texto (eu Ihes darei a razão natural dele, quando m'a peçam). Todas as estrelas, menos duas, são maiores que a Terra, e algumas há que são quarenta, oitenta e cento e dez vezes maiores. Pois se as estrelas são maiores que a terra, como hão-de cair e caber cá em baixo? Hão-de caber, porque hão-de cair. Não sabeis que os levantados e os caídos não têm a mesma medida? Pois assim Ihes há-de suceder às estrelas. Agora que estão levantadas, ocupam grandes espaços do Céu; como estiverem caídas, hão-de caber em poucos palmos da Terra. Não há cousa que ocupe menor lugar que um caído. A Terra, em comparação do Céu, é um ponto; o centro, em comparação da Terra, é outro ponto; e Lúcifer, que levantado não cabia no Céu, caído cabe no centro da Terra. Ah Lucíferes do Mundo! Aqueles que levantados nas asas da prosperidade humana em nenhum lugar cabeis hoje, caídos e derrubados naquele dia, cabereis em muito pouco lugar. Estaremos todos ali encolhidos e sumidos dentro em nós mesmos cuidando na conta que havemos de dar a Deus; e quando não houvera outra razão, esta só bastava para não faltar lugar a ninguém. Dêem os homens em cuidar na conta que hão-de dar a Deus, e eu vos prometo que sobejem lugares. O que importa é que o lugar seja bom, que quanto é lugar, vale de Josafat haverá para todos.
IV

Presente enfim no vale todo o gênero humano, correr-se-ão as cortinas do Céu, e aparecerá o Supremo Juiz sobre um trono de resplandecentes nuvens, acompanhado de todas as hierarquias dos anjos, e muito mais de Sua própria Majestade. A primeira coisa que fará será mandar apartar os maus dos bons; e os ministros desta execução serão os anjos: Exibunt angeli, et separabunt malos de medio justorum. Para se entender melhor esta separação havemos de supor com o Profeta Zacarias que, antes dela, não hão-de estar os homens ali juntos confusamente; mas para maior grandeza e distinção do acto, hão-de estar repartidos todos por seus estados: Familia et familia seorsum. A uma parte hão-de estar os papas; a outra os imperadores; a outra os reis; a outra os bispos; a outra os religiosos; e assim dos demais estados do Mundo. Separados todos por esta ordem, conforme o lugar que tiveram nesta vida, então se começará a segunda separação, segundo o estado que hão-de ter na outra, e que há-de durar para sempre.

Sairão pois os anjos; vede que suspensão e que tremor será o dos corações dos homens naquela hora! Sairão os anjos e irão primeiramente ao lugar dos papas. Et separabunt (faz horror só imaginar, que em uma dignidade tão divina e em homens eleitos pelo Espírito Santo há-de haver também que separar). Et separabunt malos de medio justorum: «E separarão os pontífices maus de entre os pontífices bons». Eu bem creio que serão muito raros os que se hão-de condenar; mas haver de dar conta a Deus de todas as almas do Mundo, é um peso tão imenso que não será maravilha que, sendo homens, levasse alguns ao Profundo. Todos nesta vida se chamaram padres santos; mas o Dia do Juízo mostrará que a santidade não consiste no nome, senão nas obras. Nesta vida beatíssimos, na outra malaventurados. Oh que grande miséria!

Sairão após estes outros anjos e irão ao lugar dos bispos e arcebispos: Et separabunt malos de medio justorum. Lá vai aquele porque não deu esmolas; aquele porque enriqueceu os parentes com o património de Cristo; aquele porque, tendo uma esposa, procurou outra melhor dotada; aquele porque faltou com o pasto da doutrina a suas ovelhas; aquele porque proveu as igrejas nos que não tinham mais merecimento que o de serem seus criados; aquele porque na sua diocese morreram tantas almas sem sacramentos; aquele por não residir; aquele por simonias; aquele por irregularidades; aquele por falta de exemplo da vida, e também algum por falta da ciência necessária; empregando o tempo e o estudo em divertimentos, ou da corte e não de prelado, ou do campo e não de pastor.

Valha-me Deus, que confusão tão grande! Mas que alegres e que satisfeitos estarão neste passo, um São Bernardino de Sena, um São Boaventura, um São Domingos, um São Bernardo, e muitos outros varões santos e sesudos, que quando Ihes ofereceram as mitras, não quiseram subir à alteza da dignidade, porque reconheceram a do precipicio. Pelo contrário que tais levarão os corações aqueles miseráveis condenados? Quantas vezes dirão dentro em si mesmos e a vozes: Maldito seja o dia em que nos elegeram e maldito quem nos elegeu! Maldito seja o dia em que nos confirmaram, e maldito quem nos confirmou! Se um homem mal pode dar conta de sua alma, como a dará boa de tantas? Se este peso deu em terra com os maiores atlantes da Igreja, quem não temerá e fugirá dele?

Grande desconsolação é hoje para as igrejas de Portugal não terem bispos; mas pode ser que no dia do juízo seja grande consolação para os bispos de Portugal não chegarem a ter igrejas. De um sacerdote que não quis aceitar um bispado, conta São Jerónimo que, aparecendo depois da morte a um seu tio religioso que assim Iho aconselhara, lhe disse estas palavras: Gratias, Pater, tibi refero ex dissuasione episcopatus: «Dou-vos, Padre, muitas graças porque me persuadistes que não aceitasse aquele bispado»; nam scito quia nunc essem de numero damnatorum si fuissem de numero episcoporum: «Porque sabereis que hoje havia eu de ser do número dos condenados, se então fora do número dos bispos».

Oh quantos sem saberem o que fazem, debaixo do nonte lustroso de uma mitra, andam feitos pretendentes de sua condenação! A este e a muitos outros que não quiseram aceitar bispados, revelou Deus que se haviam de condenar, se chegassem a ser bispos. E quem vos disse a vós que estáveis privilegiados desta condicional? De chegardes a ser bispo, pode ser que não dependa a salvação de outras almas; e de não chegardes a o ser, pode ser que dependa a salvação da vossa. O mais seguro é encolher os ombros e deixar governar a Deus.

Do lugar dos bispos passarão os anjos ao lugar dos religiosos; e entrando naquela multidão infinita das ordens regulares, sem embargo de resplandecerem nelas como sóis as maiores santidades do Mundo, contudo haverá muito que separar; começarão por Judas: Et separabunt malos de medio justorum. Não o digo por me tocar; mas por todas as razões me parece que será este o mais triste espectáculo do Dia do Juízo. Que vão os homens ao Inferno pelo caminho do Inferno, desgraça é, mas não é maravilha; porém ir ao Inferno pelo caminho do Céu, é a maior de todas as misérias Que o rico avarento, vestindo púrpuras e holandas e gastando a vida em banquetes, seja sepultado nos fogos eternos, por seu preço leva o Inferno: Recepisti bona in vita tua; mas que o religioso, amortalhado em um saco, com os seus jejuns, com as suas penitencias, com a sua clausura, com a sua vontade sujeita a outrem, por ter os olhos nas migalhas dos do Mundo, como Lázaro, vá parar nas mesmas penas! Brava desaventura!

O secular distraído, que lhe não veio nunca à memória a conta que havia de dar a Deus, que a não dê boa e se perca, não podia parar noutra cousa o seu descuido; mas que o mesmo religioso que por estes púlpitos vos vem pregar o juízo, possa ser e haja de ser um dos condenados daquele dia! Triste estado é o nosso, se nos não salvamos. Mas de aqui podeis vós também inferir que se isto passa no porto, que será no pego! Se nós (falo dos melhores que eu) se nós, sobre tanto meditar na outra vida, nos perdemos, o vosso descuido e o vosso esquecimento, onde vos há-de levar? Se as Cartuxas, se os Buçacos, se as Arrábidas hão-de tremer no Dia do Juízo, as cortes e vossa corte em que estado se achará?

V



Em todos os estados da corte haverá mais que separar que em nenhuns outros. Mas deixando por agora os demais, em que cada um se pode pregar a si mesmo: chegarão finalmente os anjos ao lugar dos reis. Não se verão ali sitiais, nem outros aparatos de majestade, mas todos sós, e acompanhados sòmente de suas obras, estarão em pé, como réus. Conhecer-se-ão distintamente quais foram os reis de cada reino: quais os de Hungria, quais os de França, quais os de Inglaterra, quais os de Castela, quais os de Portugal. E desta maneira irão os anjos tirando de cada coroa aqueles que foram maus reis: Et separabun malos de medio justorum. Espero eu em Deus que neste dia há-de ser o nosso reino singular entre os do Mundo, e que só dele não hão-de achar os anjos que apartar. Se eu estudara só pelo meu desejo e pela minha esperança, assim o havia de crer; mas quando leio as Escrituras, acho muito que temer e muito que duvidar. Dos reis, como dos outros homens, nós não sabemos quais se salvam nem quais se perdem. Só uma nação houve antigamente, da qual nos consta do texto sagrado quantos foram os reis que se salvaram e quantos os que se perderam. Tremo de o dizer, mas é bem que se saiba distintamente: No povo hebreu, em tempo que era povo de Deus, houve tres reinos: o primeiro foi o reino das Doze Tribos; teve três reis e durou cento e vinte anos; o segundo foi o reino de Judá; teve vinte reis e durou trezentos e noventa e quatro anos o terceiro foi o reino de Israel; teve dezenove reis, e durou duzentos e quarenta e dois anos. Saibamos agora quantos reis foram os que se salvaram e quantos os que se perderam nestes reinos.

No reino das Doze Tribos, de três reis perdeu-se Saul, salvou-se David, de Salomão não se sabe. No reino de Judá, de vinte reis salvaram-se cinco, perderam-se treze, de dois é incerto. No reino de Israel, nem estas tão pequenas excepções teve a desgraça; foram os reis dezenove e todos os dezenove se condenaram. No Dia do Juízo não se poderá cumprir neste reino o Separabunt malos de medio justorum: chegarão os anjos ali não terão que separar, levarão a todos. Oh desgraçados ceptrós! Oh desgraçadas coroas! Oh desgraçados pais! Oh desgraçada descendência! Desde Jeroboão a Oseas dezenove reis coroados: dezenove reis condenados.

Pois por certo que não foi por falta de doutrina nem de auxílios: tinham estes reis conhecimento do verdadeiro Deus; tinham um povo, que era o povo escolhido de Deus, tinham templo, tinham sacerdotes, tinham sacrifícios, viam milagres, ouviam profecias, recebiam favores do Céu, e quando era necessário, não lhes faltavam também castigos; e nada disto bastou. Muito arriscada coisa deve ser o reinar, pois em tantos tempos e em tantos reis, se salvam, ou tão poucos, ou nenhum.

Julguem lá agora os príncipes quais serão as causas disto, que Deus não é injusto. Examinem mais escrupulosamente suas consciências, e olhem a quem as comunicam; considerem muito de vagar as suas obrigações, que são muito mais estreitas do que ordinàriamente cuidam; inquiram muito de propósito sobre os danos públicos e particulares de seus vassalos, e vejam, pondo de parte todo o afecto, se suas orações ou suas omissões podem ser a causa; persuadam-se que hão-de aparecer como qualquer outro homem diante do tribunal da Justiça Divina, onde se Ihes há-de pedir rigorosíssima conta, dia por dia e hora por hora, de quanto fizeram e de quanto o deixaram de fazer. Cuide finalmente e pese, convém, cada um dos príncipes, quão grande desaventura e confusão sua será naquele cadafalso universal do Dia do Juízo, se depois de tanta majestade e adoração nesta vida, vier um anjo e o tomar pela mão, e o tirar para sempre do número dos que se hão-de salvar: Separabunt malos de medio justorum.

Por este modo se irá continuando a separação dos maus em todos os estados do Mundo; e naqueles em que por razão do sangue e do amor é mais natural a união, será mais lastimoso o apartamento. Verdadeiramente, todas as outras circunstâncias daquele ato terão muito de rigorosas, esta parecerá cruel. Apartar-se-ão ali os pais dos filhos: irá para uma parte Abraão e para outra Ismael; apartar-se-ão os irmãos dos irmãos: irá para uma parte Jacob e para outra Esaú; apartar-se-ão as mulheres dos maridos: irá para uma parte Ester e para outra Assuero; apartar-se-ão os amigos dos amigos: (seja o exemplo incerto, já que há tão poucos de verdadeira amizade) irá para uma parte Jónatas e para outra David. Assim se apartarão para nunca mais os que se amam nesta vida e os que tinham tantas razões para se amarem também na outra.

Para nunca mais! Oh! que lastimosa palavra! Se apartar-se de uma terra para outra terra, com esperança de se tornar a ver, causa tanta dor nos que se amam; se apartar-se desta vida para a outra vida, com probabilidade de se verem eternamente, é um transe tão rigoroso; que dor será apartarem-se para nunca mais, com certeza de se não verem em quanto Deus for Deus, aqueles a que a natureza e o amor tinham feito quase a mesma coisa! Certo que tem assaz duro coração quem só pelo não meter nestes apertos não ama a Deus com todo ele.

VI

Feita a separação dos maus e bons, e sossegados os prantos daquele último apartamento que serão tão grandes como a multidão e tão lastimosos como a causa, posto todo o juízo em silêncio e suspensão, começará a se fazer o exame das culpas. Neste passo me havia eu de descer do púlpito, e subir a ele... Quem? Não um anjo, não um profeta, não um apóstolo, mas algum dos condenados do Inferno, como queria o rico avarento que viesse pregar a seus irmãos. Delicta quis intelligit? Quem há neste Mundo que entenda nem conheça os pecados? Isto dizia David, aquele Profeta tão alumiado do Céu. Só um condenado do Inferno, só quem foi julgado por Deus, só quem assistiu ao rigor daquele tribunal tremendo, só quem viu o exame inexcrutável com que ali se penetram e se apuram as consciências, só quem viu a anatomia tão miúda, tão delicada, tão exquisita, que ali se faz do menor pecado e da menor circunstância, só quem viu a sutileza não imaginada com que ali se pesam átomos, se medem instantes, se partem indivisíveis; só este, e nem ainda este bastantemente, poderá declarar o que naquele dia há-de ser.

Muitas vezes me resolvi a deixar totalmente este ponto, contentando-me com confessar que não sei nem me atrevo a falar nele; porque ninguém possa dizer no Dia do Juízo que eu o enganei. Mas como a matéria é tão importante e a principal obrigação deste dia, já que se não pode dizer tudo, nem parte, ao menos quisera que Deus me ajudasse a vos meter hoje na alma dois escrúpulos, que me parecem os mais necessários ao auditório a quem falo: pecados de omissão e pecados de consequência. Estes são os dois escrúpulos que vos quisera hoje advertir e intimar da parte de Deus.

Sabei, Cristãos, sabei príncipes, sabei ministros, que se vos há-de pedir estreita conta do que fizestes, mas muito mais estreita do que deixastes de fazer. Pelo que fizeram, se hão-de condenar muitos; pelo que não fizeram, todos. As culpas por que se condenam os réus são as que se contêm nos relatórios das sentenças: lede agora o relatório da sentença do Dia do Juízo e notai o que diz: Discedite a me, maledicti in ignem æternum: «Ide, malditos, ao fogo eterno».—E porque?—Non dedistis mihi manducare non dedistis mihi potum, non collegistis me, non cooperuistis me, non visitastis me. Cinco cargos, e todos omissões: «porque não destes de comer, porque não destes de beber, porque não recolhestes, porque não visitastes, porque não vestistes». Em suma, que os pecados que ùltimamente hão-de levar os condenados ao Inferno, são os pecados de omissão.

Não se espantem os doutos de uma proposiçao tão universal como esta; porque assim é verdadeira em todo o rigor da teologia. O último pecado e a última disposição por que se hão-de condenar os precitos, é a impenitência final; e a impenitência final é pecado de omissão. Vede que coisas são omissões, e não vos espantareis do que digo. Por uma omissão perde-se uma inspiração, por uma inspiração perde-se um auxílio, por um auxílio perde-se uma contrição, por uma contricão perde-se uma alma; dai conta a Deus de uma alma, por uma omissão.

Desçamos a exemplos mais públicos. Por uma omissão perde-se uma maré, por uma maré perde-se urna viagem, por uma viagem perde-se uma armada, por uma armada perde-se um estado. Dai conta a Deus de uma Índia, dai conta a Deus de um Brasil, por uma omissão. Por uma omissão perde-se um aviso, por um aviso perde-se uma ocasião, por uma ocasião perde-se um negócio, por um negócio perde-se um reino. Dai conta a Deus de tantas casas, dai conta a Deus de tantas vidas, dai conta a Deus de tantas fazendas, dai conta a Deus de tantas honras, por uma omissão. Oh que arriscada salvação! Oh que arriscado ofício é o dos príncipes e o dos ministros. Está o príncipe, está o ministro divertido, sem fazer má obra, sem dizer má palavra, sem ter mau nem bom pensamento; e talvez naquela mesma hora, por culpa de uma omissão, está cometendo maiores danos, maiores estragos, maiores destruições, que todos os malfeitores do Mundo em muitos anos. O salteador na charneca com um tiro mata um homem; o príncipe e o ministro com uma omissão, mata de um golpe uma monarquia. Estes são os escrúpulos de que se não faz nenhum escrúpulo; por isso mesmo são as omissões os mais perigosos de todos os pecados.

A omissão é o pecado que com mais facilidade se comete e com mais dificuldade se conhece; e o que fàcilmente se comete e dificultosamente se conhece, raramente se emenda. A omissão é um pecado que se faz não fazendo; e pecado que nunca é má obra, e algumas vezes pode ser obra boa, ainda os muito escrupulosos vivem muito arriscados em este pecado. Estava o Profeta Elias em um deserto metido em uma cova, aparece-lhe Deus e diz-lhe: Quid hic agis, Elia? « E bem Elias, vós aqui? » — Aqui, Senhor! Pois aonde estou eu? Não estou metido em uma cova? Não estou retirado do Mundo? Não estou sepultado em vida? Quid hic agis? E que faço eu? Não me estou disciplinando, não estou jejuando, não estou contemplando e orando a Deus?—Assim era. Pois se Elias estava fazendo penitência em uma cova, como o repreende Deus e lho estranha tanto? Porque ainda que eram boas obras as que fazia, eram melhores as que deixava de fazer. O que fazia era devoção, o que deixava de fazer era obrigação. Tinha Deus feito a Elias profeta do povo de Israel, tinha-lhe dado ofício público; e estar Elias no deserto quando havia de andar na corte; estar metido em uma cova, quando havia de aparecer na praça; estar contemplando no Céu, quando havia de estar emendando a terra, era muito grande culpa.

A razão é fácil, porque no que fazia Elias salvava a sua alma; no que deixava de fazer perdiam-se muitas. Não digo bem: no que fazia Elias, parecia que salvava a sua alma; no que deixava de fazer, perdia a sua e as dos outros: as dos outros, porque faltava à doutrina; a sua, porque faltava à obrigação. É muito bom exemplo este para a corte e para os ministros que tomam a ocupação por escusa da salvação. Dizem que não tratam de suas almas, porque se não podem retirar. Retirado estava Elias e perdia se; mandam-no vir para a corte para que se salve. Não deixe o ministro de fazer o que tem de obrigação, e pode ser que se salve melhor em um conselho, que em um deserto. Tome por disciplina a diligência, tome por cilício o zelo, tome por contempla,cão o cuidado e tome por abstinência o não tomar, e ele se salvará.

Mas porque se perdem tantos? Os menos maus perdem-se pelo que fazem, que estes são os menos maus; os piores perdem-se pelo que deixam de fazer, que estes são os piores: por omissões, por negligências, por descuidos, por desatenções, por divertimentos, por vagares, por dilações, por eternidades. Eis aqui um pecado de que não fazem escrúpulo os ministros, e um pecado por que se perdem muitos. Mas percam-se eles embora, já que assim o querem; o mal é que se perdem a si e perdem a todos, mas de todos hão-de dar conta a Deus.

Uma das cousas de que se devem acusar e fazer grande escrúpulo os ministros, é dos pecados do tempo. Porque fizeram no mês que vem o que se havia de fazer no passado; porque fizeram amanhã o que se havia de fazer hoje; porque fizeram depois, o que se havia de fazer agora; porque fizeram logo, o que se havia de fazer já. Tão delicadas como isto hão-de ser as consciências dos que governam, em matérias de momento. O ministro que não faz grande escrúpulo de momentos não anda em bom estado: a fazenda pode-se restituir; a fama, ainda que mal, também se restitui, o tempo não tem restituição alguma.

E a que mandamento pertencem estes pecados do tempo? Pertencem ao sétimo; porque ao sétimo mandamento pertencem os danos que se fazem ao próximo e à república, e a uma república não se lhe pode fazer maior dano que furtar-lhe instantes. Ah omissões, ah vagares, ladrões do tempo! Não haverá uma justiça exemplar para estes ladrões? Não haverá quem ponha um libelo contra os vagares? Não haverá quem enforque estes ladrões do tempo, estes salteadores da ocasião, estes destruidores da república? Mas porque na Ordenação não há pena contra estes delinquentes e porque eles às vezes se acolhem a sagrado, por isso a sentença do Dia do Juízo há-de cair principalmente sobre as omissões.

VII

Pecados de consequência é o segundo escrúpulo. Há uns pecados que acabam em si mesmos; ha outros que, depois de acabados, ainda duram em suas consequências. Dizia Job a Deus: Vestigia pedum meorum considerasti: «Considerastes, Senhor, as pegadas de meus pés». Não diz que Ihe considerou os passos, senão as pegadas; porque os passos passam, as pegadas ficam. O que fica dos pecados, é o que Deus mais particularmente examina. Não só se nos há-de pedir conta dos passos, senão das pegadas. Não só se nos há-de pedir conta dos pecados, senão das consequências. Oh que terrível conta será esta! Converteu Cristo, Senhor nosso, a Zaqueu, que era um mercante rico, e as resoluções de sua conversão foram estas: Ecce dimidium bonorum meorum do pauperibus et si quid aliquem defraudavi, reddo quadruplum: «Senhor, eu dou a metade de meus bens aos pobres, e da outra metade pagarei quatro vezes em dobro tudo o que houver tomado».

Aqui reparo: as leis da justa restituição mandam que se pague o alheio em tanta quantidade como se tomou. Pois porque quer Zaqueu que da sua fazenda se paguem e se acrescentem três tantos mais: Et si quid aliquem defraudavi reddo quadruplun? Se para a restituição basta uma parte, as outras três a que fim se dão? Eu o direi: dá-se uma parte para satisfação do pecado, as outras três para satisfação das consequências. Entrou Zaqueu em exame escrupuloso de sua consciência sobre o que tinha roubado, e fez estas contas: Se eu não roubara a Fulano, tivera ele a sua fazenda; se a tivera, não perdera o que perdeu, aquirira o que não aquiriu, não padecera o que padeceu. Ah sim! Pois para que a minha satisfação seja igual à minha culpa, dê-se a cada um quatro vezes tanto como lhe eu houver defraudado. Com a primeira parte se pagará o que Ihe tomei, com a segunda o que perdeu, com a terceira o que não aquiriu, com a quarta o que padeceu.

Eis aqui o que fez Zaqueu. E que se seguiu daqui? Hodie salus huic domui facta est.: «hoje se pôs em estado de salvação esta casa». E se a casa de Zaqueu, para se pôr em estado de salvação, paga três vezes mais do que tomou, em que estado de salvação estarão tantas casas de Portugal, onde se deve tanto, e se gasta tanto, e se esperdiça tanto, e nenhuma coisa se paga? Ora o caso é que muita gente deve de se condenar. Porque na vida poucos pagam, na hora da morte os mais escrupulosos mandam pagar o capital; das consequências, nem na vida, nem na morte há quem faça caso.

E se isto passa na justiça comutativa, onde enfim há número, há peso e há medida; que será na distributiva e na vendicativa? Se isto lhe sucede à justiça na mão das balanças, que será na mão da espada? Quais serão as consequências de um voto injusto em um tribunal? Quais serão as consequências de um voto apaixonado em um conselho? Ajude-me Deus a saber-vo-las representar, pois é matéria tão oculta e de tanta importância.

Consulta-se em um conselho o lugar de um vice-rei, de um general, de um governador, de um prelado, de um ministro superior da fazenda ou justiça. E que sucede? Vota o conselheiro no parente, porque é parente; vota no amigo, porque é amigo; vota no recomendado, porque é recomendado; os mais dignos e os mais beneméritos, porque não têm amizade, nem parentesco, nem valia, ficam de fora. Acontece isto muitas vezes? Queira Deus que alguma vez deixe de ser assim. Agora quisera eu perguntar ao conselheiro que deu este voto e que o assinou, se lhe remordeu a consciência ou se soube o que fazia? Homem cego, homem precipitado, sabes o que fazes? Sabes o que firmas? Sabes que, ainda que o pecado que cometeste contra o juramento de teu cargo seja um só, as consequências que dele se seguem são infinitas e maiores que o mesmo pecado? Sabes que com essa pena te escreves réu de todos os males que fizer, que consentir, e que não estorvar esse homem indigno por quem votaste, e de todos os que deles se seguirem até o fim do Mundo? Oh grande miséria! Miserável é a república onde há tais votos, miseráveis são os povos onde se mandam ministros feitos por tais eleições; mas os conselheiros que neles votaram são os mais miseráveis de todos: os outros levam o proveito, eles ficam com os encargos. Ide comigo.

Se o que elegestes furta (não o ponhamos em condicional, porque claro está que há-de furtar) furta o que elegestes, e furta por si e por todos os seus, como costumam os semelhantes; e Deus há-vos de pedir a conta a vós, porque o vosso voto foi causa de todos aqueles roubos. Prove o que elegestes os ofícios de paz e guerra, nos que têm mais que peitar, deixando os que merecem e os que serviram; e vós haveis de dar a conta a Deus; porque o vosso voto foi causa de todas aquelas injustiças. Oprime o que elegestes os pobres choram as viúvas, padecem os órfãos, clamam os inocentes; e Deus vos há-de condenar a vós, porque o vosso voto foi causa de todas aquelas opressões, de todas aquelas tiranias. Matam-se os homens no governo dos que elegestes, arruínam-se as casas, desonram-se as famílias, vive-se como em Turquia; e vós o haveis de ir pagar ao Inferno, porque o vosso voto foi causa de todos aqueles homicídios, de todas aquelas afrontas, de todos aqueles escandalos. Quebram-se as imunidades da Igreja, maltratam-se os ministros do Evangelho, impedem-se as conversões da Gentilidade para a propagacão da Fé; e vós haveis de penar por isso eternamente, porque o vosso voto foi causa de todos aqueles sacrilégios, de todas aquelas impiedades e da perda irreparável de tantos milhares de almas. Estas são as consequências da parte do indigno que elegestes.

E da parte dos beneméritos que deixastes de fora, quais serão? Ficarem os mesmos beneméritos sem o prémio devido a seus serviços; ficarem seus filhos e netos sem remédio e sem honra, depois de seus pais e avós lho terem ganhado com o sangue, porque vós lh'a tirastes; ficar a república mal servida, os bons escandalizados, os príncipes murmurados, o governo odiado, o mesmo conselho em que assistis ou presidis, infamado, o merecimento sem esperança, o prémio sem justi,ca, o descontentamento com culpa, Deus ofendido, o Rei enganado, a Pátria destruída.

São pesadas e pesadíssimas consequências estas? Pois todas elas nascem daquele voto ou daquela eleição de que vós porventura ficastes sem escrúpulo e de que recebestes as graças (e talvez a propina) com muita alegria. Dir-me-eis que não advertistes tais coisas. Boa escusa para um conselheiro sábio! Se o não advertistes, pecastes, porque o devêreis advertir. Tomara poder confirmar tudo o que tenho dito em particular com exemplos das Escrituras; mas bastara por todos um, que em matérias de pecados de consequência é verdadeiramente formidável.

Matou Caim a Abel, e diz a Escritura, conforme o texto onginal: Vox sanguinum fratris tui clamantium ad me: «Caim, a voz dos sangues de teu irmão Abel está bradando a mim». Notável dizer! O sangue de Abel era um, como era um o mesmo Abel morto. Pois se Abel morto e o sangue de Abel derramado era um, como diz Deus que clamaram contra Caim muitos sangues? Vox sanguinum? Declarou o mistério o Parafraste caldaico temerosamente: Vox sanguinum generationum, quæ futuræ erant de fatre tuo, clamat ad me: Se Caim não matara a Abel, haviam de nascer de Abel quase tantas outras gerações como nasceram de Adão, com que dobradamente se propagasse o género humano; e o sangue ou sangues de todos estes homens que haviam de nascer de Abel, e não nasceram, eram os que clamaram a Deus e pediam vingança contra Caim; porque, matando Caim e arrancando da terra a árvore de que eles haviam de nascer, o mesmo dano lhes fez que se os matara. De sorte que Caim parecia homicida de um só homem, e era homicida de um género humano; o pecado era um, as consequências infinitas.

Pois se Deus castiga nos pecados até as consequências possíveis; e os possíveis hão-de aparecer e ressuscitar no dia do juízo contra vós, não porque foram, nem porque deixaram de ser, senão porque haviam de ser; se os possíveis têm sangue e vozes que clamam ao Céu, que clamores serão os do verdadeiro sangue derramado de verdadeiras veias? Que vozes serão, as de verdadeiras lágrimas, choradas de verdadeiros olhos? Que gemidos serão os de verdadéira dor, saldos de verdadeiros corações? Que serão as viudezas, as orfandades, os desamparos? Que serão as opressões, as destruições, as tiranias? E que serão as consequências de tudo isto, multiplicadas em tantas pessoas, continuada em tantas idades e propagadas em tantas descendências, ou futuras ou possíveis, até o fim do mundo! Há quem faça escrúpulo disto?

Agora entendereis com quanta razão disse São João Crisóstomo: Miror, an fieri possit ut aliquis ex rectoribus sit salvus. É uma das mais notáveis sentenças que se acham escritas nos Santos Padres. Torno a repeti-la: Miror, an fieri possit, ut aliquis ex rectoribus sit salvus: «Admiro-me (diz o grande Crisóstomo) e cheio de espanto considero comigo: se será possível que algum dos que governam se salve!» Esta proposição, e a suposição em que ela se funda, está julgada comummente por hipérbole e encarecimento retórico. Eu, contudo, digo que não é hipérbole nem encarecimento senão verdade moralmente universal em todo o rigor teológico. Impossível moral chamam os teólogos àquilo que muito dificultosamente pode ser e que nunca ou quase nunca sucede.

Neste sentido disse São Paulo: Impossibile est, eos qui semel illuminati et prolapsi sunt, renovari ad poenitentiam. E no mesmo sentido disse Cristo, Senhor nosso: Facilius est camelum per foramen acus transire, quam divitem intrare in regnum coelorum. Donde os Apóstolos tiraram a mesma admiração que São João Crisóstomo, e inferiram a mesma impossibilidade: Auditis autem his, discipuli mirabantur valde, dicentes: quis ergo poterit salvus esse? E o Senhor confirmou a sua ilação, dizendo que «humanamente era impossível, como eles diziam, mas que para Deus tudo é possível»: Apud homines hoc impossibile est.: apud Deum autem omnia possibilia sunt, que foi o mesmo que distinguir o impossível moral e humano, do impossível absoluto, que até em respeito da omnipotência divina não é possível. E como os que governam, pelas obrigações de seus mesmos ofícios e pelas omissões que neles cometem, e pelos danos que por vários modos causam a tantos, os quais danos não param ali, mas se continuam e multiplicam em suas consequências, têm tão dificultosa a salvação, por isso São Crisóstomo, falando lisa, sincera e moralmente, sem encarecimento nem hipérbole, disse que ele se admirava muito e não podia entender como era possível que algum dos que governam se salve: Miror, an fieri possit, ut aliquis ex rectoribus sit salvus.

E para que nós nos não admiremos, e os que governam ou desejam governar tenham tanto medo dos seus ofícios como dos seus desejos, reduzindo a verdade desta sentença à evidência da prática, argumento assim:
Todo o homem que é causa gravemente culpável de algum dano grave, se o não restitui quando pode, não se pode salvar; todos ou quase todos os que governam, são causas gravemente culpáveis de graves danos, e nenhum ou quase nenhum restitui o que pode; logo, nenhum ou quase nenhum dos que governam se pode salvar. Colhe bem a consequência? Pois ainda mal, porque a segunda premissa, de que só se podia duvidar, está tão provada na experiência. Eu vi governar muitos, e vi morrer muitos; nenhum vi governar que não fosse causa culpável de muitos danos; nenhum vi morrer que restituísse o que podia. Sou obrigado, secundum praesentem justitiam, a crer que todos estão no Inferno. Assim o creio dos mortos, assim o temo dos vivos.

VIII

Pedida e tomada a conta a todo o género humano, olhará o Senhor para a mão direita, e com o rosto cheio de glória e alegria, dirá aos bons: Venite benedicti Patris mei, possidete paratum vobis regnum à constitutione mundi. «Vinde, benditos de meu Pai, e possuí o Reino que vos está aparelhado desde o princípio do Mundo!» Quem serão os venturosos sobre que há-de cair esta ditosa sentença? Bendito seja Deus, que todos os que estamos presentes o podemos ser, se quisermos. Como se darão então por bem empregados todos os trabalhos da vida, e quão verdadeiramente parecerá então jugo suave a Lei de Cristo, que hoje julgamos por dificultosa e pesada! Mas ainda mal, porque muitos dos que aqui estamos... Não me atrevo a o dizer; entendei-o vós. Multi sunt vocati, pauci vero electi. Arcta via est, quae ducit ad vitam, et pauci sunt, qui inveniunt eam. Voltando-se depois o Senhor... (não digo bem) não se voltando o Senhor para a mão esquerda, com rosto severo e não compassivo (o que me não atrevera eu a crer, se o não disseram as Escrituras), dirá desta maneira para os maus: Discedite a me, muledicti, in ignem æternum, qui paratus est diabolo, et angelis ejus: «Ide, malditos, ao fogo eterno, que estava aparelhado, não para vós, senão para o Demónio e seus anjos» ; mas já que assim o quisestes, ide. Abriu-se a terra, caíram todos, tornou-se a cerrar para toda a eternidade. Eternidade! eternidade! eternidade!

(Retirado do site Literatura brasileira)

PS: Grifos meus

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

II- O Fim do Sacerdote

II- O Fim do Sacerdote


JESUS CRISTO
FALANDO AO
CORAÇÃO DO SACERDOTE
OU
MEDITAÇÕES ECLESIÁSTICAS
PARA TODOS OS DIAS DO MÊS

Escritas em italiano pelo Missionário e doutor
Bartholomeu do Monte
Traduzidas pelo
Pe. Francisco José Duarte de Macedo
(1910)

I.- Amado filho, quem te deu o ser? quem te conserva a vida? quem te concedeu todas as comodidades temporais de que gozas? quem, as graças do Batismo e dos outros Sacramentos?

Quem teve jamais o amor e a coragem de dar por ti seu próprio sangue? Eu; fui eu quem tudo isto fez por teu amor, para que me desse glória, reconhecendo-Me, amando-Me e imitando-Me; e, se isto fizeres por um breve tempo neste mundo, tenho-te preparada no outro uma glória bem-aventurada por toda a eternidade.

Dize-me, filho, poderia Eu destinar-te a um fim mais sublime? ou, se na tua mão estivera a escolha, poderias tê-lo escolhido mais elevado? Porventura os amigos, os parentes, o mundo que te cega, ou o demônio fizeram ou seriam capazes de fazer tanto por teu amor?

Eu mesmo que mais podia fazer para ganhar o teu coração?

Ah! filho, porque corres após a vaidade e a mentira? porque razão sempre pensas, te empregas, te amofinas em tudo, e só em Mim e por Mim não?!

II.- Considera, filho, como Eu procuro o teu bem? gravei caracteres em tua alma; dei-te privilégios e poderes, e te incumbi ministérios santíssimos; em certo modo, elevando-te ao Sacerdócio, te constituí árbitro de Mim mesmo: e para que? Unicamente para que, vendo-te tão grande na terra, chegasses a ser maior no Céu, pelos méritos da tua santificação, e da do teu próximo.

Separei-te do resto dos homens, para que fosses todo Meu; e assim, desapegado dos cuidados do século, te aplicasses somente ao Meu culto e à salvação do próximo.

Dize-me, filho, terás consciência para gozar as honras do Sacerdócio sem aspirar a uma virtude singular, e sem fazer coisa alguma pela salvação das almas que te entreguei?

Como satisfará aquela necessidade e utilidade da Minha Igreja, para a qual unicamente deveras ser ordenado?

Por que razão inutilizas os teus talentos, deixas ociosos os Meus dons, e frustrados os Meus desígnios?

III. - Ah! amado Sacerdote, lembra-te que o filho honra a seu pai, e o servo a seu senhor; se Eu sou teu Pai, porque Me não amas, se Sou teu Senhor, porque Me não serve? Sabes muito bem que ninguém pode servir a dois senhores. (1)

Renunciastes no batismo às pompas do mundo e ao demônio; protestaste, na recepção da ordem, que Eu havia de ser a tua herança, e te dedicastes inteiramente a Mim; depois assim Me deixas, afastando-te de Mim e do teu fim?

O mundo não te pode dar a paz; tu mesmo o confessas: vives inquieto, e inquieto viverás até que o teu coração descanse inteiramente em Mim. (2)

Deves saber, filho, que não basta para ti o que basta para qualquer cristão: Eu te fiz cristão para ti, e sacerdote para os outros. (3)

Não podes pois dizer: Basta-me salvar a minha alma. Aquele infeliz que escondeu o talento, o perdeu, e se perdeu a si mesmo. De que te servirá na hora da morte teres ganhado o mundo todo, e, não tendo cumprido o teu fim, perderes-te eternamente?

Fruto.- Toma como regra de todas as ações a máxima de São Francisco: Nada mais contra Deus, nada sem Deus, nada senão Deus. O que não serve para a eternidade feliz, é mera vaidade.

São Bernardo tinha sempre em seu coração e repetia muitas vezes com a língua: Bernardo, a que vieste à religião, se te não fazes santo? S. Rainaldo, Arcebispo de Ravenna, desde clérigo tomou por máxima e praxe o seguinte: Eu sou destinado ao culto divino: logo devo servir a Igreja; hei de salvar almas: logo devo arder em verdadeiro zelo: hei de ser douto; logo devo aplicar-me às Letras Sagradas.

Se te moveu a abraçar o estado eclesiástico outro fim, a não ser o serviço de Deus e o bem das almas, teme, chora e emenda o erro. Tens um de dois caminhos: ou viver como bom Sacerdote, e a todo o custo entrar pela porta estreita no Céu, ou, querendo caminhar pela estrada larga, parar no abismo eterno.

Notas:

1- Verum tu sacerdos Dei altissimi, cui placere gestis, mundo, an Deo? Si mundo, cur sacerdos? Si Deo, cur qualis populus, talis et sacerdos? Nam si placere vis mundo, quid tibi prodest sacerdotium? Nec enim potes duobus dominis servire. (Bernardus, Epist. 42)

2- In mundo pressuram, in me pacem habebitis. (Joan., XVI,33) Fecisti nos, Domine, ad te; inquietum est cor nostrum, donec, requiescat in te. (August., Confess., liv. I, capit. 1).

3- Clericus duas res professus es, sanctitatem et clericatum; clericatum propter populum Deus imposuit cervicibus ipsius, cui magis onus est, quam honor. (August., Sermon.)

"PULVIS ES..." - ÉS PÓ

"PULVIS ES..." - ÉS PÓ


Dura palavra esta que a Santa Igreja repete hoje a cada um dos homens lembrando-lhes o nada que somos: "Lembra-te, homem, que és pó" - "Pulvis es". (Liturgia, 4ª f. de cinza)

Do pó, lodo da terra, diz a Escritura, saímos. (Gen. 2,7). Em pó, terra de uma sepultura, mostra-nos a experiência, havemos de nos tornar. E o que se fez de pó e se apresentará um dia reduzido a pó não pode deixar de ser essencialmente pó.

E no entanto, Senhor, é este pó o contínuo objeto de minhas preocupações, de minhas carícias e de meus afetos. Por causa deste pó me desvio tantas vezes do Vosso caminho e desprezo a Vossa graça.

Vaidades deste mundo! Craveja-se o diamante e burila-se o ouro, recortam-se as sedas e harmonizam-se as cores, multiplicam-se as modas e estudam-se os modos... e tudo para adornar, para disfarçar a tristeza realidade do nosso ser. Vaidades, caixas muito elegantes onde se guarda um pouco de pó.

Os salões iluminam-se e enfeitam-se para os bailes. Há flores, músicas e alegrias; um afã de gozo e uma ansiedade de aproveitar o tempo sorvendo todas as gotas da taça dos prazeres. Parece-nos ouvir o convite sedutor de que nos fala o Sábio: "Enchemo-nos de vinho precioso e banhemo-nos em perfumes. Corroemo-nos de rosas antes que murchem e deixemos em toda parte os sinais de nossa alegria." (Sap. 2,8) Senhor, e o homem passa a vida assim esbanjando o tempo e arruinando as forças, malbaratando as economias e sacrificando não raro a própria alma, para atenuar um pouco a sensação desagradável que sente ao tocar a terra de que é feito, para esquecer que é pó?!... Repita-lhe pois a Vossa Igreja: "Lembra-te que és pó".

Pó que pretende valer alguma coisa, sobrepondo-se aos outros e preferindo-se aos outros e preferindo-se ao próprio Deus, é o homem nas arrogâncias do seu orgulho e nas presunções da sua soberba. E no entanto eu sei que pó que se eleva é poeira arrastada pelo vento sem forma nem estabilidade, fadada a cair nas estradas onde todos o pisam ou nos campos onde macula a beleza das flores.

Senhor, eu preciso tanto de me convencer praticamente desta verdade, eloquente lição da fé e da experiência! Este punhado de cinzas com que o Sacerdote traça em minha fronte uma cruz, não é só um símbolo, é realmente a mesma substância do meu corpo. Pouco importa o receptuário que a contém, que ela esteja em uma bandeja de ouro ou em uma salva de cristal, é sempre cinza. O caso pode ser muito precioso, o conteúdo é sempre desprezível.

Mas, se assim é, como se explicam as Vossas predileções por este homem e os Vossos esforços por atraí-lo ao Vosso Coração? estou quase a protestar contra esta Vossa atitude. Pó não quisera ver eu nem debaixo de Vosso pés divinos, que devem pisar alcatifas de flores, como pois consenti-lo em Vossas mãos, sendo o objeto dos Vossos amores! Também não me atrevo a pedir-Vos que o lanceis para longe, porque bem sei como ele arderia nas chamas eternas. Não entendo, mas não posso contradizer Vossa palavra, nem contrariar Vossos desejos.

Que a fé me apresente este pó resplandecendo a glória da Vossa bondade e testemunhando a grandeza do Vosso poder na participação eterna da natureza divina, e encontrarei significado ao Vosso proceder. E não é isto o que ela me ensina, afirmando "eu creio na ressurreição da carne?" (Credo)

De lá do fundo destas sepulturas se levantará um dia, ao som majestoso do Vosso triunfo, este pó, reconstruindo o corpo de onde se desagregara com a morte. Corpo porém vivo, para viver eternamente.

Corpo dotado de prerrogativas que mais o aproximam do espírito, e do espírito na elevação da bem-aventurança celeste. Ele não ocupará mais um lugar no espaço nem pagará mais o ingrato tributo à dor e no sofrimento, locomovendo-se com a agilidade e com a subtileza do imponderável. Corpo humano, que, sendo receptáculo de uma glória, se fará com ela também glorioso.

Sou pó - "pulvis es" -. Mas pó que em Vossas mãos se tornou homem, e junto ao Vosso coração participa da grandeza de Vossa divindade.

(Elevações, pelo Pe. José Torrs Costa, S.J, ano de 1945, com imprimatur)

PS: Grifos meus.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Crucifixus from Credo RV 591

Crucifixus from Credo RV 591

Donzelas cristãs: Há guardar e guardar

DONZELAS CRISTAS:
VOCÊS E VOSSAS RESPONSABILIDADES


HÁ GUARDAR E GUARDAR

Como devem vocês servir-se das qualidades de guardiãs? Há métodos próprios para isso? Um que seja bom? Um que seja o melhor? Será mesmo que a gente aprende a ser guardiã?

Digamos que, sendo aqui a realidade múltipla e complexa, há guardar e há guardar, como há métodos diferentes de fazer a guerra, de ganhar a vida, de ser artista, de ser tudo...

Guardiãs!...

Coisas há que se guardam, abrigando-as

Vede o trigo, por exemplo. Quando é destinado ao moinho, de onde sairá farinha, precisa ser guardado em lugar seco, aos montes, no forro do celeiro, ao abrigo da chuva, que o faria apodrecer. Quando se destina a semente para o ano imediato, cobre-se com terra, que será sua fiel guardiã até à próxima primavera, porque a terra envolve as sementinhas - bela guardiã que ela é... comprime os grãos mantendo-os num ambiente tépido, e em suas entranhas, durante o inverno, protege-os do vento que os carrega e dos pássaros que os devoram.

Só voltarão à luz do dia em hora dada, quando a raiz estiver bastante profunda para resistir a todos os elementos de destruição.

Assim se guarda a pureza, minhas jovens. Deixar de a proteger é quase estragá-la. É frágil este divino esplendor. E são tantos os ventos ruins que andam pelos ares! Tantos os seres suspeitos que rodopiam! o ouro é bem guardado na caixa forte, e as cartas íntimas na pasta. E a querida pureza não merecerá acaso, não que a encerremos num subterrâneo, mas que a protejamos ao menos para quem quer que seja não a macule ou roube? Reparai nas relíquias dos santos e na lousa dos túmulos ilustres. Protege-os uma grade colocada a certa distância. São tão ávidas as pessoas piedosas! Colocai uma grade ao redor de vossa pureza. Protegei-a com um véu. Defendei-a com as mãos. Protegei-a de qualquer modo. Protegei-a.

Há coisas que se conservam, consertando-as

Os sapatos, por exemplo. Quando a sola se fende como uma ostra, ou se entreabre lamentavelmente, como um sorriso estúpido... Um vestido quando se rasga, um fundilho de calça quando se abrem uma joelheira quando... (há tantos modos de um joelho de terno furar: uma queda de bicicleta, orações demasiado longas). Em casos tais, que fazer? Nada. Em oito dias, será a morte da calça. Cerzí-la? remendá-la? É evidente, e só assim se prolongará a vida - ou a agonia - da pobre roupa puída.

Ora, a vida moral também tem suas brechas, seus rasgões, os estragos do tempo. Quando se sabe disso, é uma loucura dizer: "Pode continuar assim mesmo". Não isso é que não. Prolongar uma dúvida na fé, como uma ferida no tecido; aceitar na consciência estranha inquietações que a devastam; ir sentindo quando se gasta a trama de sua vida religiosa, não é isso resignarmo-nos a andar esfarrapados? É uma acomodação, quando o que se deveria fazer é agir para reparar.

A comunhão conserta. O retiro refaz. Quem quiser conservar intacto, fresco e quente o traje de sua alma, lembra-se bem disso...

Consertam-se certas coisas, mantendo-as limpas

Por exemplo: o asseio do rosto, das mãos e do vestuário.

Vocês sabem muito bem o que representam isto: mãos que não se lavam. Adquirem a cor dos Anamitas; as unhas ficam de luto... E o rosto dos mineiros, quando regressam do fundo das minas? e a vestimenta dos foguistas, quando saem das locomotivas? Com água e sabão, porém, tudo volta a ser branco. Quando o vento joga poeira para cima de um lírio, uma simples chuva basta para tornar a lírio mais lírio... A água pura purifica.

É assim também que se conserva a beleza da alma. Raspar, lavar, esfregar, têm o mesmo sentido aplicados ao espiritual. A alma já se mancha só com o viver. Quem a quiser limpa -  e todos o devem querer - lava-a. O arrependimento, a confissão humilde, a absolvição sacramental são em conjunto a água que lava, a escova que arremessa para longe as impurezas. Quem não se serve deles não guarda a sua beleza. Sobre ela se acumula a poeirada, se enraíza a erva daninha.

Torna-se espessa a camada. Debaixo dela, incapaz de respirar, a moral abafa. Em certo sentido, estar sujo é estar morto. Para a consciência, ser claro e livremente ativo é viver.

Deixai um quarto desocupado, exposto ao tempo, sem ser espanado, sem ser lavado, sem ser varrido. E haveis de ver...

O mesmo acontece com muitas almas. Só guardareis as vossas, limpando-as.

Muitas coisas se conservam servindo-os delas

Quem tem boa memória e não se serve dela perde-a. Se a relha do arado não trabalha, enferruja. O bíceps do lutador enfraquece se não faz exercícios. A pianista que não toca sentirá endurecidos os dedos. E as pernas, se não fazem movimentos, anquilosam-se.

O exercício gasta, mas faz principalmente viver. Vontade, estômago, gosto artístico, pulmões, tudo está submetido a essa lei. Utilizar é, em todos estes casos, conservar.

Por este método, preserva-se a fé. Não a expor é conservá-la, sim, e no entanto há que a expor. Mas os que se limitam a este processo negativo arriscam-se a não conservar senão uma fé pobre, anêmica, a não abrigar senão convicções raquíticas e franzinas.

A fé que não age não pode desenvolver-se. Mantém-se em estado infantil. É frágil, muitas vezes incapaz de se defender, portanto exposta á morte.

O melhor modo de conservar um ente vivo é torná-lo mais vivo ainda. Obrigá-lo à ação. A experiência o comprova.

Quereis conservar a fé, minhas jovens? Fazei com que ela trabalhe; praticai as obras que ela prescreve; multiplicai as ocasiões de agir por ela e em seu nome; devotai-vos por ela. Alimentando-vos dela, alimentá-la-eis. A fé que morre é quase sempre uma fé que estava adormecida. A fé que se contentava de o ser sem agir e que agora - isso era fatal - nem sequer pode mais ser.

Perguntai às cantoras como é que elas guardam sua fé. Cantando, decerto. E aí tendes a verdadeira fórmula para guardar a fé: vivê-la.

Preservam-se certas coisas defendendo-as

Um pastor dispõe de cajado e de cães. É com eles que guarda o rebanho. Um soldado dispõe de fuzil, e com ele monta guarda à trincheira.

Guardar é muitas vezes lutar defendendo. Nada fazer quando o inimigo ataca é perder tudo de uma vez só. É mister, desde logo, que o cão ladre e que o bastão escorrace o lobo.

Ora, contra as santas realidades que vos foram confiadas, múltiplos ataques surgem, minhas jovens. Irrogam-se calúnias, ousam-se blasfêmias, correm de boca em boca palavras feias. Insultam, levantam falsos testemunhos. Deixaríeis que tudo se dissesse e tudo se fizesse, ficando em paz com vosso dever depois de tais silêncios? Será o mesmo que condecorar os desertores e recompensar a pastora por haver metido o cordeiro na guela do lobo. Há silêncios nobres e corajosos. Outros há que revelam vergonhosa pusilanimidade. Devemos saber falar, senhorinhas, e protestar vigorosamente contra uns tantos senhores de certos escritórios e umas tantas jovens de certas oficinas. Quem se arroga o direito de dizer tolices dá  a quem o ouve o direito de replicar.

Atacar é convidar a defender-se. Porque têm todas as audácias as bocas silenciosas e são tímidos os lábios castos: A língua das jovens cristãs só é feita para a oração e os cânticos. Palavras sujas jamais as deverá  proferir, mas algumas vezes poderá lançar mão de expressões vivas e mordazes, que ressoem e caustiquem. Só com elas a jovem guardará sua independência e afirmará sua digna altivez. Para que as demais guardem silêncio, convém que o não guardeis vós outras. A empregada da casa de Caifás não teria insistido três vezes com São Pedro se São Pedro lhe houvesse respondido logo. Mas São Pedro não ousava e ela então ousou. Audacioso topete! Ela não o teria tão audacioso nos lábios se São Pedro não se houvesse contentado em tê-lo audacioso na cabeça (nas imagens de São Pedro sempre aparece um lindo topete uma bela mecha de cabelos, bem ao meio... São Paulo, que era calvo, tinha o topete nos lábios... o que era bem melhor...)

Para guardar há que defender.

Que ao menos o compreendam as mais inteligentes e capazes. Em vinte, que haja ao menos uma que seja capaz de, em nome de suas companheiras mais tímidas, ter a ousadia de soltar o grito indignado, censurar com firmeza a palavra feia ou estúpida. E defender desse modo, minhas filhas, não será, mais do que pensais, guardar a fé, a piedade, a confiança e a paz em muitas jovens mais fracas, que de vós precisam para não perderem o que elas sozinhas são incapazes de proteger?

Há coisas que se mantém pelo sacrifício

Não parece tolice? Sacrificar-se a uma causa é deixar de a defender e, portanto, comprometê-la. E, no entanto, é rigorosamente verdadeiro que os mortos da guerra, morrendo pela Pátria, guardaram a Pátria. E, se ninguém consentisse em sacrificar-se pela Pátria, sem dúvida que a Pátria é que seria sacrificada.

Morrendo por Cristo, os mártires pretenderam guardá-lO para eles mesmos e para o mundo. Tiveram razão? Decerto que sim. As grandes idéias vivem sobretudo do número dos heróis que as afirmaram. Nenhuma afirmação vale o sacrifício. Nenhum testemunho é poderoso como a morte.

Para que uma causa perdure deve primeiramente, em alguns ser a tal ponto viva que se resigne a cair por ela. No dia em que uma causa apresentar suas vítimas voluntárias, pode contar com o futuro. Suas vítimas guardam-na, não como estátuas guardando um túmulo, mas como testemunhas guardando uma verdade e como bravos apertando a bandeira ao coração.

Quereis, minhas jovens, que Deus fique em vós e, por vós, no mundo? Levai por Ele vossa generosidade até ao sacrifício. Quando por Ele houverdes dado o dinheiro que vossos prazeres reclamam; quando por Ele houverdes despedaçado vosso coração, arrancando de lá uma afeição ilegítima ou por demais terna; quando por ele cair dolorosamente sobre vós a crítica perversa, o sorriso vil, a zombaria; quando, por causa de Deus, houverdes chorado, ficai seguras de que O tereis guardado.

E em muitos corações O tereis colocado...

Não falo aqui do testemunho do sangue. Seria levar as coisas para o lado trágico. No entanto, através de todos os séculos, muitas jovens o derramaram. E isso ainda há pouco tempo aconteceu, em terras mexicanas, por amor a Cristo-Rei.

De todas as guardiãs são essas as mais verdadeiras...

Não foi pela Cruz que Cristo Jesus entregou Deus aos homens? Não é principalmente pela Cruz que Ele o conserva indefinidamente?

Porque a morte na Cruz é a mais alta prova do Amor de Deus num coração, e é também a Sua mais fiel sentinela.

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr. M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post: Se não vigiardes)

PS: Grifos meus.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

XXIV- A fé

XXIV- A fé


JESUS CRISTO
FALANDO AO
CORAÇÃO DO SACERDOTE
OU
MEDITAÇÕES ECLESIÁSTICAS
PARA TODOS OS DIAS DO MÊS
 
por
 
Escritas em italiano pelo Missionário e doutor
Bartholomeu do Monte
Traduzidas pelo
Pe. Francisco José Duarte de Macedo
(1910)

I- Vê, filho, como nestes miseráveis tempos abundam os escândalos, é dilacerada a Minha Igreja, são blasfemados os Meus dogmas; a Religião é considerada como um fanatismo, suas práticas como supertição o Evangelho como uma fábula, o Inferno como um espantalho.

Examina-te por um pouco; e vê qual será a tua firmeza na fé. Vacilarás também tu, em lugar de confirmar na fé os tentados? Acaso, por pareceres sábio à moda e como espírito forte, amarás, ou até protegerás aqueles livros ímpios que insultam o Cristianismo, em vez de refutá-los?

Comprazendo-te com uma liberdade licenciosa, aplaudirás Meus inimigos, devendo impugná-los, fugir deles e denunciá-los a quem compete? Proferirás palavras ambíguas que deixem ver a corrupção de teu coração, em vez de corrigir e sarar o de teus irmãos?

Que horrenda injúria Me não farias, se estimasses mais as espirituosas blasfêmias dos impostores e libertinos, que as santas verdades do Meu Evangelho! Que desonra para o teu ministério, que te obriga a zelar a fé, até dar o sangue e a vida por ela! Que ruína nas almas com o teu pérfido exemplo! Que tremendos castigos não chamarias sobre ti! Oh injúria! Oh desonra! Oh ruína!

II - Confessas, filho, com a boca que tens fé; mas qual é a tua fé? Crer que estou realmente na hóstia santa, e depois celebrar com tamanha frieza e, talvez, em pecado! Crer que são frutos do Meu sangue os Sacramentos, e não te aproveitares deles, e administrá-los tão indignamente! Crer, explicar o Evangelho, pregar, e depois viver uma vida inteiramente contrária, mais efeminada e dissoluta que a dos leigos!

Crer que será para ti mais rigoroso o Juízo, e mais terrível o Inferno, e, não obstante, irritar-Me, e buscá-lo com teu ócio e pecados! Crer que as almas foram redimidas pelo preço do Meu sangue, e não cuidar de sua salvação, antes perdê-las com maus exemplos! Crer que a tibieza Me enjôa e te perde, e viver sem fervor e sem desejo algum de perfeição!

Crer que, quem ouve a Igreja, a Mim ouve, e desprezar os seus cânones, e impugnar sua autoridade! Crer que é divina tua dignidade, e alvitá-la em negócios, reuniões e divertimentos os mais profanos! Crer que és Meu lugar-tenente e representante na terra, e viver como mundano, como um descrente, e até fazer ofício de demônio com as almas!

Dizer que crês, e obrar deste modo, não será negar com as obras o que dizes com a boca? Dizes que crês; mas também crêem os demônios e tremem; e tu nem seguer tremerás? (1)

Se tuas obras se não conformam com tuas palavras, tu mesmo Me ensinas a julgar-te horrivelmente, como um impostor. (2)

III- Não vês, filho, que, procedendo assim, não só tu naufragas na fé, mas fazes naufragar teus irmãos? Quantos, vendo-te, Sacerdote ou Religioso, tão relaxado, vacilam na fé? chegando até a não crer em nada do Evangelho, julgando tudo, não inspiração divina, mas invenção dos homens!

Assim não crêem na virtude das Chaves; desprezam os Sacramentos; não curam de vícios nem de virtudes; não pensam que sua alma é imortal; não temem o Inferno; não aspiram ao Céu; fazem consistir seu paraíso no gozo das coisas vis e passageiras deste século.

Tu mesmo sabes que és a causa destes danos.

Ah Sacerdote! Tu sabes quanto Eu trabalhei e padeci para estabelecer a Minha fé; sabes que te fiz Sacerdote para que confirmasses na fé as almas, redimidas com o Meu sangue; sabes que deves opor teu zelo sacerdotal à perversa incredulidade que inunda a terra; mas tu, sucessor daqueles primeiros santíssimos Sacerdotes que, com tantas fadigas, estudos, milagres, e por fim com o próprio sangue, propagaram e defenderam a Minha fé; tu, mestre, guarda e defensor da mesma fé; em vez de fortalecer nela os tentados, dar a mão aos lapsos e perseguir os contumazes, assim correspondes à tua vocação?

Fruto. - Foge dos que sentem mal a respeito da fé; denuncia os hereges e suspeitos de heresia; arroja de ti os livros contra a fé, aborrece-os, persegue-os; deixa os estudos inúteis, e cultiva aqueles que fortalecem nos fundamentos da fé, e te instruem no poder da Igreja; a fim de que, munido de sã doutrina, te possas defender a ti e aos outros dos erros; e até, com a necessária prudência, combatê-los por palavra e por escrito.

Não dês lugar a curiosidade e vaidade nos teus estudos (3) , lembrando-te que Deus esconde as Suas luzes aos sábios soberbos do mundo, e as comunica aos verdadeiros humildes.

Acautela-te do interesse, pelo qual tantos teólogos e canonistas, adulando os poderosos, adulteraram a verdade, traíram a Igreja e assim naufragaram na fé.

Foge da desonestidade, que tem precipitado na apostasia ainda os maiores sábios.

Notas de rodapé:

1- Omnes creditis id Deum unum, et trinum, etc. - Facit tamen haec fides catholicum? Hac fide utique daemones essent catholici, quia, ut ait S. Jacobus, credunt et contremiscunt. Verum utique catholicum facit, non fides communis daemonibus, sed ea quae per charitatem operantur. (Galat. V, 6). Habetis hanc fidem? Utinam! Sed haec est fides, quae vincit mundum, juxta. (1ª Joan., V, 4) Dixerim vos vincere mundum, an vinci a mundo? Video ecclesias vestras male tractatas: video, etc. Fidem habemus: sed sine operibus mortua est, et nos mortui cum ipsa. Fidem habetis, sed opera vos invito: vos maxime qui estis pastores animarum, qui alios debetis instruere. Multi sunt catholici praedicando, qui haeretici sunt operando. Quod haeretiei faciebant per prava dogmata, hoe faciunt plures hodie per mala exempla; seducunt scilicet popalum, et inducunt in errorem, et tanto graviores sunt haereticis, quanto praevalent opera verbis. (Bern., In Synod. n. 6,7)


2- Nihil doctores frigidus, qui verbis dumtaxat philosophatur. Neque enim hoc doctoris est, sed histrionis et hypocritae. Ideoque Apostoli prius vitae exemplis docebant, deinde verbis. (Chrysost., Hom.1)


3- Videte, ne quis vos decipiat per philosophiam, et inanem fallaciam, secundum traditionem hominum, secundum elementa mundi, et non secundum Christum. (Coloss., II, 8)

ESPECIAL: Jesus Cristo falando ao coração do Sacerdote

Nota do blogue: Transcreverei parte deste livro que é composto de meditações eclesiásticas e orações diversas, como as orações estão apenas em latim, farei a transcrição das 31 meditações. Não transcreverei sequencialmente conforme o índice, mas concluído esse objetivo, coloco as meditações em sua ordem em arquivo PDF.

JESUS CRISTO
FALANDO AO
CORAÇÃO DO SACERDOTE
OU
MEDITAÇÕES ECLESIÁSTICAS
PARA TODOS OS DIAS DO MÊS


Escritas em italiano pelo Missionário e doutor
Bartholomeu do Monte
Traduzidas pelo
Pe. Francisco José Duarte de Macedo
___

Quarta edição, Correcta
e aprovada em 9 de abril de 1910
pelo Excmo e Revmo Snr. D. Antônio, Bispo do Porto

Livraria Católica Portuense

ÍNDICE

Atos preparatórios para a meditação/
Advertência/ Atos de ação de graças


________________________________________

Atos preparatórios para a meditação

Considera-te, minha alma, na presença do teu Deus; Ele te vê, te ouve e penetra até ao íntimo do teu coração; adora-O profundamente, dizendo:

Meu Deus, creio estar  na Vossa presença; e, humilhado, no abismo do meu nada, Vos adoro. Confesso-Vos por aquele grande Senhor, que sois adorado de todos os Anjos e Santos do Céu.

Reconheço que sou indigno de estar diante de Vós, depois de tantas ingratidões, depois de tantas vezes ter merecido o Inferno. Mas que hei de fazer agora, Senhor; a quem hei de recorrer se me repelirdes da Vossa presença?! Tende piedade de mim, meu Deus, que de todo o coração me pesa de ter-Vos ofendido, a Vós, Sumo Bem, digno de todo o amor. Proponho amar-Vos sobre todas as coisas, e até quero antes morrer que tornar a ofender-Vos.

Entretanto concedei-me as luzes necessárias para fazer bem esta oração. Confesso que nada posso sem Vós; socorrei-me pois, eterno Deus, por amor de Jesus e de Maria. Uno esta minha oração à que, nesta hora, Vos estão fazendo, na terra as almas Vossas amantes, e no Céu os Anjos e Santos, cujo patrocínio imploro; e protesto, meu Deus, ser minha intenção fazê-la para Vos agradar.
Gloria Patri... (em louvor da SS. Trindade)

Ave-Maria... (em louvor de Nossa Senhora)

Advertência

Lido, com a maior atenção, o ponto que deve meditar-se, faça-se uma breve pausa para  dar lugar à reflexão: depois prossiga-se do mesmo modo a leitura dos outros pontos, podendo ler-se, ou toda a Meditação, ou um só ou dois pontos, ou ainda só parte de um ponto, segundo a maior ou menor impressão que fizerem na alma as verdades que neles se contêm; porque pode um só ponto ou pensamento causar viva impressão na alma, absorver-lhe toda a atenção e dar matéria suficiente à reflexão. Neste caso não se continue a leitura; medite-se nesse ponto ou pensamento, podendo até repetir-se nele a oração por muitos dias, reservando-se os demais pontos para os dias seguintes. Haja sempre o cuidado em seguir as divinas moções.

Depois da leitura do ponto, deve excitar-se a alma á meditação, dizendo:

Pensa, minha alma, no teu Deus; dirige-Lhe atos de confiança e amor; escuta Suas doces palavras; abraça-te com o teu querido Jesus e ama-O com todo o coração.
Depois do primeiro ponto leia-se e medite-o o segundo, acrescentando no fim:

Minha alma, entre em ti mesma, e vê quantos desgostos tens dado ao teu Jesus; e não choras? que mal te fez o teu Deus?!... Eia pois, prostrada em Sua presença, faze atos de contrição, de humildade e confusão própria. Pede humildemente perdão a teu Pai celeste; ama o Sumo bem. Oh! Se nunca tiveras ofendido o teu Deus! Oh! Se tiveras sempre amado o teu Jesus, Bondade infinita!...

Concluída finalmente a meditação e moção dos afetos, passa-se as resoluções, dizendo:

Prometo-Vos, meu Deus, nunca mais tornar a desgostar-Vos, nem com pecados mortais nem com os veniais deliberados. Proponho emendar-me de tal ou tal vício...

(Aqui formará resolução eficaz de fugir do pecado, ou defeito mais grave, ou em que mais vezes costuma cair.)

Para este fim servir-me-ei de tal ou tal meio...; não irei àquela casa...; abandonarei aquela companhia...; resistirei sem demora àquele pensamento...; calar-me-ei em tal ou tal ocasião...; etc., etc.

Trindade Santíssima, pelo amor de Jesus e de Maria concedei-me graça para observar até a morte tudo o que Vos tenho prometido.
Conclusão da oração

Formadas as resoluções, em que consiste principalmente o fruto da oração mental, procure-se cumpri-las fielmente.

Atos de ação de graças

Meu Deus, do íntimo do meu coração Vos louvo, Vos bendigo e Vos agradeço as santas luzes e afetos que Vos dignastes conceder-me nesta meditação.

Novamente confirmo e Vos ofereço as santas resoluções que, ajudado da Vossa graça, acabo de fazer, particularmente aquelas que têm por fim fugir com todo o esforço de tudo aquilo que for ofensa Vossa, meu Sumo Bem, e fazer toda a diligência por ser Vosso servo fiel e amante da vida presente, para sê-lo depois perfeitamente na futura. Mas Vós conheceis as minhas inclinações para o mal, a minha repugnância para as coisas espirituais, a minha inconstâncias no bem começado,

Ó piedosíssimo Jesus, nunca me abandoneis; sustentai-me com a Vossa graça; confirmai com ela os própositos que com o Seu auxílio tenho feito. Confirma hoc, Deus, quod operatus es in nobis.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Capítulo III - A VIDA DE INTIMIDADE E A GRAÇA

Nota do blogue: Para ver o índice total desta obra que transcreveremos clique AQUI.


CAPÍTULO III

A VIDA DE INTIMIDADE E A GRAÇA


(Princípios da vida de intimidade com Maria Santíssima
segundo os Santos, os Doutores e os Teólogos,
pelo Pe. Júlio Maria, editora ABC)

Já conhecemos a natureza da vida de intimidade, ou antes já contemplamos uma de suas faces. Devemos ainda examinar a outra, mais importante ainda, e cujos princípios servem de base a tudo o que veremos na continuação desta obra.

Este capítulo exige uma séria atenção e muita aplicação, porque encerra admiravelmente toda a doutrina da graça.

A primeira vista o assunto pode parecer abstrato para pessoas não familiarizadas com as questões teológicas.

Mas, refletindo um instante, retomando a leitura e sobretudo rezando, o dia tornar-se-á luminoso, sorridente, povoado de inesgotáveis, profundas e elevadas consolações e vistas, tão divinamente belas e consoladoras, que nos permitirão entrever algo das inenarráveis riquezas e misericórdias sem limites de nosso Redentor.

Consideremos pois com atenção estes princípios fundamentais, e não passemos além, sem os ter compreendido claramente.

Resumamos novamente o assunto nos dois seguintes princípios:

PRIMEIRO PRINCÍPIO:

A vida de intimidade não tem somente íntima conexão com a graça, mas pode dizer-se que ela é a própria graça.

SEGUNDO PRINCÍPIO:

Nós somos gerados por Deus Pai no mesmo ato pelo qual Ele gera o Seu Filho e, como conseqüência, somo também destinados a entrar na Sua própria vida, pela intimidade com Ele.

Ao primeiro olhar, nada mais simples que estes dois princípios e, no seu íntimo nada mais extenso e mais fecundo. Experimentemos compreendê-lo, analisando-os e aplicando-os à nossa vida.


PRIMEIRO PRINCÍPIO:

"A vida de intimidade não tem somente íntima conexão com a graça, mas pode dizer-se que ela é a própria graça".

Que é a vida de intimidade?...

É uma participação à vida do céu, que essencialmente consiste em possuir a Deus.

Ora, participar da natureza de Deus, participar de uma vida cuja essência é a posse de Deus, analogamente não é uma só e mesma coisa?...

Não podemos possuir a Deus, senão à medida que a Ele nos assemelhamos, e é sobre esta semelhança que está baseada e medida a beatitude celeste.

Ora, o que nos torna semelhantes a Deus e o que faz de nós outros deuses, para nos servimos da expressão de São Paulo, é a graça.

Semelhança e glória são pois os dois termos de nossa beatitude no céu, como graça e vida de intimidade são os dois termos de nossa divinização sobre a terra.

A graça produz a vida de intimidade. Esta produz a semelhança; e a semelhança é coroada no céu pela visão beatífica. Esforcemo-nos por compreender esta profunda e consoladora doutrina, ponderando as palavras tão breves e concisas do Apóstolo, quando disse: "Nós somos participantes da natureza divina".

A substância infinita de Deus, sendo a causa que O faz ser Deus, é evidentemente incomunicável. Nós não podemos ser Deus em coisa alguma.

A natureza de um ser é o princípio interior de seus atos, ou então, é aquilo que o faz viver deste ou daquele modo.

Não podemos participar da substância da Deus, porém podemos participar de sua natureza, isto é, podemos agir como Ele, e é por esta causa que o Apóstolo disse: Divinae consortes naturae.

Mas para agirmos como Deus, nós que somos simples e imperfeitas criaturas, é necessário sermos munidos de faculdades divinas.

E como esta participação se faz por transformação, conclui-se que a transformação que temos a efetuar é uma espécie de divinização. (Nota de rodapé: Cfr. Lepicier: "Traductus de B.V.M. - Pars. III. De relationibus B. V. M. cum homine" - Lhomeau - "Vida espiritual na escola do B. De Montfort" - "As fontes de piedade" - Hugon. "estudos theologicos" - Petitalot, "A Virgem Maria".)

Esta divinização nos estabelece na ordem sobrenatural, isto é, não somente acima de nossa natureza, mas acima de toda natureza criada; e é esta transformação que se chama graça.

Praticamente, a graça é a transformação que nos diviniza.

Uma observação importante: a graça designa um estado, nosso estado de seres divinizados.

Destes princípios teológicos há aqui muitas conclusões a deduzir. Assinalemos, pelo menos, aquelas que se referem mais diretamente ao nosso objetivo e nos conduzem à vida de intimidade.

A vida de intimidade é verdadeiramente o esplêndido e inefável florão, desabrochado sobre nossa natureza divinizada pela graça.

A graça santificante é um princípio de vida: princípio sobrenatural que nos torna radicalmente capazes de atos de glória.

Contemplar Deus face à face é mergulhar em Sua beatitude; importa, porém, notar que a graça e a glória formam uma só e mesma ordem.

Só pelo seu estado é que elas diferem entre si: - uma é o estado de germen, outra é o de desabrochamento.

Pela graça nós possuímos, desde já e radicalmente, tudo o que é necessário para contemplar Deus e para dEle gozar. (Nota de rodapé: A visão de Deus, sendo uma visão direta chama-se: "Visão intuitiva", sendo a felicidade plena, diz-se: "Visão beatífica"; é aqui a mesma coisa, mas sob outro aspecto.)

Ver a Deus e gozar de Deus é entrar em Sua ordem divina, é partilhar de Seu destino, é ultrapassar os limites de nossa natureza, para viver na intimidade com Ele.

Eis como a vida de intimidade deriva da graça e é até um dos aspectos da graça.

Eis também porque se pode teologicamente defini-la: uma participação da vida do céu que consiste em possuir a Deus.

Deste modo a vida presente é verdadeiramente o começo da vida que teremos eternamente no céu.

SEGUNDO PRINCÍPIO:

"Nós somos gerados por Deus Pai no mesmo ato pelo qual Ele gera o Seu Filho e, como conseqüência, somo também destinados a entrar na Sua própria vida, pela intimidade com Ele."

Este princípio é a base esplêndida de nossa vida de intimidade. Importa compreendê-lo em toda a sua extensão.

Comunicar sua natureza é ser pai. Deus comunica ao Verbo Sua própria substância por uma ato necessário, fazendo-nos participantes de Sua natureza divina, em virtude de um ato livre de Sua bondade.

Não é de modo algum Sua própria natureza que Ele nos dá, mas uma natureza deiforme, dotada de aptidões análogas às Suas. Em um certo sentido, nós somos gerados por Deus Pai, no ato mesmo pelo qual Ele gera Seu Filho, como o vamos mostrar.

Com efeito, esta verdade que nos põe à face das mais profundas questões teológicas necessita de uma explicação para ser compreendida por todos. Experimentemos dá-la, clara e precisamente.

A criação é obra de Deus, isto é, de cada uma das três pessoas da Santíssima Trindade. Mas Deus não Se contentou em criar. Quis elevar o criado ou, ao menos, elevar o ser mais perfeito de Sua criação, que é o homem.

Esta elevação do homem não é uma nova criação. O homem realmente permanece o mesmo que era; mas conservando-se em sua natureza própria, adquire uma sobrenatureza, pois Deus o faz participante da Sua natureza divina.

O homem é chamado a partilhar dos destinos de Deus - Graça imprevista, ponto culminante, e único a que um ser criado pode ser elevado, o qual se chama: divinização.

Nesta obra divinizadora cada uma das três pessoas divinas desempenha um papel particular.

Toda ação exterior é produzida pela Sma. Trindade, pois toda as três pessoas juntas não formam senão um ser único, com uma só e mesma substância.

Não existindo à parte, as três pessoas separadamente não podem ter exteriormente uma ação que lhes seja rigorosamente pessoal.

Entretanto, como entre a ação interior e exterior existem afinidades, pontos de comparação, é permitido atribuir a cada uma dElas tal ou tal ação junto a nós.

É assim que a teologia atribui ao Pai o poder; ao Filho, a sabedoria; o Espírito Santo, o amor.

O Pai é a fonte do ser, o princípio de todas as coisas.

O Filho, imagem e expressão do Pai, procedendo dEle, por via da inteligência, é a luz de todo homem que vem a este mundo.

O Espírito Santo, laço, termo e gozo do Pai e do Filho, procedendo dEles por via do amor é o santificador de toda alma que vive para Deus.

Compreendidas estas noções, ser-nos-á fácil compreender a extensão destas palavras: Deus dá missão ao Filho e nós nos achamos compreendidos nesta missão, como sendo o objeto da mesma.

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Que significa a palavra missão? - ser enviado.

O Filho e o Espírito Santo são enviados, o primeiro pelo Pai, e o segundo pelo Pai e pelo Filho. Mas como são Eles enviados, se sendo Deus, Eles se acham em todo lugar, em virtude de Sua imensidade?...

A dificuldade é somente aparente, e a solução é fácil. Uma pessoa pode ser enviada a um lugar de dois modos: ou porque ela não ocupava anteriormente este lugar, ou porque ocupando-o já, aí se apresenta com um novo título.

E em nossas sociedades não se vêm situações análogas?...

O homem que é elevado ao cargo de embaixador fica sendo o mesmo homem diante do mesmo soberano; tornou-se porém outra coisa e exerce novos poderes.

Assim é que o Verbo e o Espírito Santo, que já se encontram em nós pelo Seu poder, por Sua presença e Sua essência, apresentam-Se aí, conquanto que pessoas divinas, encarregadas de uma missão.

E, notemos bem, estas missões estão contidas nos atos íntimos donde procedem as Pessoas divinas. (Nota de rodapé: Isto não quer dizer que elas sejam "necessariamente" como estes mesmos atos, porque nossa elevação à ordem sobrenatural é uma graça absolutamente gratuita. Mas ela é, com efeito, querida por Deus desde toda a eternidade. É neste sentido que ela faz parte do próprio ato de geração do Verbo)

O Pai dá missão ao Seu Filho no ato mesmo em que Ele o produz (gera-o) e nós, como conseqüência, desde esse momento, isto é, deste toda a eternidade, estamos compreendidos nesta missão, como o efeito está contido na sua causa.

E nesta causa luminosa nós éramos vistos pela Trindade, éramos amados e santificados por Ela no Verbo e no Espírito Santo.

Somos, deste modo, o objeto destas missões.

Para que o Pai pudesse enviar o Filho, para que o Pai e o Filho pudessem enviar o Espírito Santo, era preciso que existisse alguém a quem enviar, era necessário um objeto sobre o qual Eles pudessem exercer Sua ação: o primeiro para o iluminar, e o segundo para o santificar.

E este objeto somos nós mesmos. É esta a origem de nossa santificação.

Oh! como estamos a bem dizer mergulhados em Deus. Como participamos de Sua vida no mistério.
Ah! se o soubéssemos e, sobretudo, se o víssemos!

Contudo, tiremos a conclusão destas profundas e sublimes verdades.

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A obra de uma missão é uma obra de intimidade e de amizade.

Para que Deus Se revele Trindade, são precisos seres aptos a conhecê-la.

Para que uma pessoa lhes seja enviada, é necessário que estes seres sejam destinados a entrar em Sua própria vida divina.

Mas, qual é o ser capaz de entrar na vida de Deus?

Embora feita à imagem de Deus, a nossa própria alma é incapaz disto.

Esta alma, por grande que seja, por mais que se aperfeiçõe, ficará sempre um ser criado e, por conseguinte, ficará eternamente incapaz de contemplar Deus face à face. Este glorioso poder exige faculdades divinas.

(Negritos e sublinhados meus e itálicos do autor, continua com o post: IV - Jesus Cristo)