terça-feira, 18 de janeiro de 2011

J. S. Bach Sarabande

J. S. BACH
SARABANDE

1º Capítulo: Definição e importância da simplicidade

PRIMEIRO CAPÍTULO


DEFINIÇÃO E IMPORTÂNCIA DA SIMPLICIDADE

Por que o Evangelho apresenta a pomba como modelo e ideal da simplicidade cristã com as seguintes palavras: “Sede simples como as pombas”? (São Mateus, X, 16)

Para compreendê-lo, é necessário que se tenha da simplicidade uma idéia nítida.

No dizer de Fénelon, “existe a simplicidade que é defeito e a simplicidade que é maravilhosa virtude.” Falemos apenas da virtude, pois que é dela que trata o Evangelho.

De acordo com o Evangelho, a simplicidade nada mais é do que a pureza de intenção: as duas expressões são sinônimas e usadas uma pela outra.

Na verdade, puro significa sem mistura. Diz-se que a água é pura, quando não está misturada ao vinho ou a outra qualquer substância. Igualmente, simples quer dizer o que não é múltiplo, nem sequer duplo, o que é uno. Diz-se que uma vestimenta é simples, quando de uma só cor, sem enfeites ou acessórios, que as sobrecarregam. Diz-se que uma pessoa é simples, quando não é afetada, dissimulada e cheia de reservas; se fala o que pensa e mostra-se tal qual é; se não se assemelha àqueles de quem o sábio disse que: “Andam por dois caminhos” e “têm dois corações”; em suma, quando nela não existem duas personalidades: uma artificial e exterior, que representa para o público; outra, muito diferente, que se encobre e se esconde para não ser vista pelo mundo, mas a quem Deus vê e julga.

Em última análise, a idéia de pureza e de simplicidade é a mesma. Dela se exclui qualquer mistura, a qualquer complicação, qualquer duplicidade, tudo o que São Paulo chama: “prudência da carne, sabedoria deste mundo.”

A simplicidade ou a pureza de intenção consiste, pois, em se propor um único e mesmo objetivo, uma única e mesma finalidade, que é a de agradar a Deus, ou melhor, fazer a vontade de Deus em tudo o que se pensa, em tudo o que se diz, em tudo o que se faz.

Assim compreendida, a simplicidade aparece logo como virtude essencial e de incalculável alcance. “O homem foi criado para Deus”, disse santo Inácio, no início de seus “Exercícios Espirituais”, na primeira meditação a que ele justamente denomina fundamental, porque é o fundamento de toda a estrutura cristã. O admirável livro dos “Exercícios” é inteiramente baseado nessa primeira e profunda palavra, de que todo ele é, por assim dizer, o comentário e o desenvolvimento.

Na realidade, Deus é o único fim verdadeiro, o fim último do homem. Se o homem só vê a Deus, só procura Deus, só se prende a Deus; se voluntariamente dirige seus pensamentos, palavras, ações e toda sua vida para Deus; se de algum modo não se apega às criaturas que encontra, se delas apenas se utiliza como de um meio; se nelas não encontra repouso como em seu fim, porque só em Deus quer repousar, então o homem vive na verdade e na ordem, é justo e santo, por ser perfeitamente simples.

O catecismo exprime a mesma idéia, ao dizer: “O homem foi criado para conhecer, amar, e servir a Deus e assim alcançar a vida eterna.”

Como, então, dirigir, a Deus nossos pensamentos, palavras e ações? Pela intenção, isto é, pelo motivo que determinará nossa vontade a realizá-los livremente.

Considerados em si mesmos, independentemente do motivo que nos fez agir, nossas ações e nossos atos não têm, digamo-lo assim, valor moral algum: são corpos sem alma.

A moralidade está em nós, em nossa vontade livre que é a alma de tudo que fazemos e dá sentido e valor aos nossos atos.

Os homens julgam pelas aparências, pelas palavras que ouvem e pelas ações que vêem. Eis a razão por que tantas vezes são injustos, severos e maus. Mas Deus nos julga de acordo com o que vê em nosso interior: Olha-nos o coração, a vontade, os motivos, as intenções e por tudo isto nos aprova ou nos censura, nos recompensa ou nos castiga.

Tal é o sentido da palavra do Evangelho: “Se o teu olho for simples, todo o teu corpo será luminoso. Mas se for mau, todo o teu corpo ficará às escuras...” (São Mateus, VI, 22-23)

O olho traduz a intenção: pois da mesma forma que os olhos nos dirigem o andar, a intenção orienta-nos a conduta da alma. A intenção é o olhar da alma. (nota de rodapé: Intenção origina-se de intendere, que significa: tender para) Se minha alma contempla Deus, se Lhe dirige livremente os pensamentos, palavras e ações, então tudo o que faço, tudo o que digo, tudo o que penso tornar-se-á, por isso mesmo, bom e sobrenatural: é o que exprimem as palavras do Evangelho: “Todo o teu corpo será luminoso.”

Portanto, toda a moralidade dos atos humanos está contida na intenção. Os atos valem exatamente o que valem as intenções. Afirmando-o, o Evangelho, ao mesmo tempo, destrói o farisaísmo e o substitui pela religião do espírito e pelo verdadeiro reino de Deus que está dentro de nós.

Daí tornar-se a simplicidade a alma da vida moral, pois que é precisamente a pureza de intenção. A simplicidade dá todo o valor e toda a elevação à vida moral. A alma simples sempre agrada a Deus, porque sempre O contempla e O procura, só ambicionando cumprir Sua vontade e buscar Sua glória.

Ser simples é ver, amar e querer a Deus em todas as criaturas e em todas as coisas: é unificar em Deus a própria vida.

A beleza da simplicidade me arrebata, dizia São Francisco de Sales, e eu sempre darei cem serpentes por uma pomba”.

(A simplicidade segundo o Evangelho, instruções às senhoras e às jovens, pelo Monsenhor Gibergues, traduzido do francês por Rachel de Castro e Aida do Val, editora Atlântica, RJ, ano de 1945)

PS: Grifos meus.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

ESPECIAL: A simplicidade segundo o Evangelho, instruções às senhoras e às jovens

Nota: Hoje inicio a transcrição deste livro, assim que terminá-lo, o mesmo será disponibilizado em PDF na internet. Enquanto isso, esse post ficará na parte de ESPECIAIS EM ANDAMENTO do blogue e receberá atualizações.

Nota 2 (nota adicionada na data de 14/06/2011: Livro disponibilizado em PDF: Baixar AQUI.

A SIMPLICIDADE
SEGUNDO O EVANGELHO


Instruções às senhoras e às jovens

Por Monsenhor Gibergues
Traduzido do original francês
La simplicité d’après l’évagile
 por
Rachel de Castro e Aida do Val

Atlântica Editora
Rio de Janeiro
Ano de 1945

ÍNDICE


_________________________________

INTRODUÇÃO

Escrito por um dos mais abalizados mestres da espiritualidade, na França – Monsenhor de Gibergues, bispo de Valença- este livro contém uma série de “Instruções às senhoras e às moças” sobre os meios de adquirir e praticar a simplicidade.

Como frisa o Autor na sua dedicatória, a simplicidade é o caminho que devem trilhar todas as pessoas “de boa vontade: moças, esposas, mães, viúvas ou religiosas, que procuram um meio evangélico de ir a Deus segura e prontamente”. Nessa classificação geral incluem-se “todas as almas que necessitam de asas para pairar acima das tristezas desta terra de exílio e das provações deste vale de lágrimas”; mas também “as almas generosas e amorosas que aspiram elevar-se, que têm sede de união com Deus”.

Termina-se o livro com a apresentação dos maiores modelos de simplicidade conhecidos em todos os tempos: Jesus, Maria e São Francisco de Assis.
***

DEDICATÓRIA

À minha sobrinha Maria..., que, aos 18 de julho de 1906, ingressou no Convento do Sagrado Coração.
Então, Maria, tu nos deixaste!...

Eras a alegria e o orgulho de teus pais, a primogênita, o exemplo de teus irmãos e irmãs, a felicidade de todos!

Eras feliz em nosso meio, e amava-nos tão carinhosamente! Afirmo-o. No supremo momento da partida, quando pai e mãe, irmãos e irmãs, ajoelhados à tua volta, agarrados a teus vestidos, expandiam em pungentes adeuses os corações transbordantes, tinhas os olhos cheios de lágrimas ardentes, o peito sacudindo de soluços!...

E te desprendestes de tão ternos laços, te arrancaste aos nossos, oh! Não sem um esforço sobre-humano, mas com a coragem e a serenidade que te vinham do alto. Partiste!...

Não o podemos acreditar ainda. Nossos olhos te procuram e não mais te vêem: nossas vozes te chamam e não mais respondes. Meu Deus! Que vazio profundo e doloroso!

Quem te roubou aos encantos do lar? Que força foi essa que te arrebatou, mais poderosa que todos os liames da carne e do sangue, que todas as atrações da natureza?

A força do amor! A força que atrai a noiva, que a separa do pai e da mãe para uni-la ao esposo. Mas, que amor o teu! O amor do Infinito, do Eterno: o amor dAquele que é todo Amor.

Já de há muito, o amor divino te ferira o coração. Ouviras a voz do Bem-Amado, a voz de Jesus: “Vem, esposa Minha, amiga Minha, pomba Minha! Vem ao Meu Sagrado Coração”. (Nota de rodapé: Cântico 11,14. – Literalmente: “Vem nas aberturas da pedra, na concavidade do muro”; é assim que a Escritura designa as chagas do Salvador e Seu Sagrado Coração. – São Bernardo chama o Sagrado Coração de “ninho de pombas”).

E cada dia esta voz se tornava mais persuasiva, mais instante. Teu coração, abrasado de amor, suspirava pela hora das bodas com o Cordeiro. Tuas asas de pomba palpitavam; bem que sentíamos. Afinal, ao supremo apelo do celeste Esposo, abris-te-as e, sacudindo a poeira do mundo, alçaste o vôo e te dirigiste para onde Jesus te chamava!

Agora tudo acabou não mais estás aqui. Na realidade, tua lembrança é imperecível, teus exemplos continuam vivos e é sempre suave o perfume de tuas virtudes. Tu, porém amada pomba, não mais estás no lar paterno. Não mais te podemos ver o rosto nem te ouvir a voz.

E temos os olhos rasos de lágrimas, os corações transbordantes de tristeza. Não nos revoltamos, não te queremos disputar a Deus: adoramos Sua Sabedoria e Sua Vontade; reconhecemos a graça e a honra que Ele nos fez ao te chamar. Mas, seja-nos ao menos permitido sofrer e derramar lágrimas: pelo que não nos podes condenar, tu, a esposa de Jesus, o qual chorou pelos amigos.

Ó Jesus, esposo de nossa Maria, que a conquistastes e a atraístes com os Vossos encantos, nós vo-la entregamos de bom grado. Nós a oferecemos a Deus, por Vós e conVosco, como a divina Mãe Vos ofereceu ao Pai pela Redenção do mundo. Que nosso sacrifício, unido ao Vosso, recaia em bênçãos sobre nossa família e nossa pátria!

E tu, querida Mariazinha, foste entre nós um modelo de simplicidade. E sê-lo-ás mais do que nunca no seio de tuas novas irmãs. Os três votos que em breve farás, e que já estão decididos em teu coração: votos de pobreza, castidade e obediência, não serão porventura as formas sublimes da perfeita simplicidade de uma alma forte e generosa que a tudo renuncia por Deus; tudo, isto é: os bons da terra, os prazeres e a si mesma?

Melhor do que ninguém, sabes que nem a simplicidade nem os votos religiosos excluem as legítimas afeições.

Doravante, separada de nós pela tua vida toda dedicada a Deus, não nos quererá menos. Amar-nos-ás mais e melhor; e, pelas tuas preces e penitências, nos obterás graças privilegiadas que nos consolarão de tua ausência. Não esquecerás a França, nossa muito amada pátria, que geme sob o jugo da impiedade e que tenebrosa conjuração gostaria de aniquilar; com teus rogos, apressarás a hora da libertação. O melhor consolo de teus pais e a sólida recompensa do amor e dedicação que têm por ti será a glória que darás a Deus, todo o bem que vais fazer, o trabalho que terás na formação moral das jovens, para torná-las verdadeiras cristãs, mulheres exemplares, perfeitas esposas, mães completas.

Vai Maria, vai, pomba de Deus; abre bem largas as tuas asas e eleva-te ao mais alto dos céus, sem nunca perder de vista aqueles que te amam tão carinhosamente neste mundo.

A ti dedico este livrinho: todo perfumado de tua lembrança. Possa ele fazer aos que o lerem o bem que nos fizeste, quando vivias ao nosso lado!

Dedico-o às almas que precisam de asas para pairar acima das tristezas desta terra de exílio e das provocações deste vale de lágrimas.

Dedico-o às almas ávidas de perfeição, às almas generosas e amantes que aspiram a se elevar, que têm sede de união com Deus.

Dedico às almas que se arrastaram até agora na vulgaridade e na inutilidade de uma vida morna e egoísta, mas que sofrem nessa situação e que se sufocam nas baixas regiões, onde lhes falta ar e luz.

Dedico-o às almas desalentas, porque exageram as dificuldades da virtude e se amedrontam ante a enormidade da tarefa.

Dedico-o a todas as almas de boa vontade: moças, esposas, mães, viúvas ou religiosas, que buscam a forma evangélica de ir a Deus com segurança e presteza.

A simplicidade é o caminho – não direi fácil, seria contradizer o Evangelho, segundo o qual o caminho que conduz à vida é áspero e estreito – mas o caminho possível a todos e que está ao alcance de cada um, o caminho de que Jesus falava, ao dizer: “Meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.

A simplicidade é o caminho do perfeito amor, que “suprime a pena ou a transforma em alegria”; que “se fatiga, mas jamais se cansa”. É a maneira mais prática de muito e sempre amar.

Segue, pois, pequeno livro, segue com a bênção dAquela que te inspirou, segue! E penetra do espírito de Deus todos os que lerem as tuas páginas.

Jesus, quando enviava Seus discípulos para converter o mundo corrompido, dizia-lhes: "Sede simples como as pombas!”

Que a simplicidade viva e se irradie no coração das cristãs! Que as almas simples se multipliquem; para edificação de muitos e para a glória de Deus!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Criança tocando violino

Criança tocando violino


A educação sobrenatural: XV- A vocação para a vida cristã no mundo

A EDUCAÇÃO SOBRENATURAL


XV - A VOCAÇÃO PARA A VIDA CRISTÃ NO MUNDO

"Falai, Verbo eterno, e falai assaz alto para vos fazerdes ouvir, apesar do ruído confuso que os meus sentidos e as minhas paixões produzem no meu espírito."
(Mgr.Pichenot)

Que comporta, sob o ponto de vista da educação, a vida cristã no mundo?
Duas coisas:

- A escolha duma profissão manual ou liberal;
- ordinariamente, pelo menos, o matrimônio.

1º- A escolha de uma profissão

Que se deve considerar, antes de mais nada, quando se trata de determinar a profissão do filho?
É preciso considerar, primeiro que tudo, as tendências e as aptidões...

Os pais seguem sempre fielmente esta recomendação?
Não, infelizmente.

Seja por ignorância, seja por egoísmo, seja por interesse, um certo número de pais dão a seus filhos, um gênero de vida que nem lhes agrada, nem lhes convém...

Que devem fazer os pais para evitar a decisão prolongada (escolha de carreira) nos filhos?
- Devem esforçar-se por deslindar as aptidões, as forças, as aspirações da criança que lhes é confiada;

- Devem ouvir, recolher, reter e explorar as pequenas confidências que certas circunstâncias fazem brotar do seu coração: "Eu quero ser religioso e tratar os doentes; eu quero ser religioso e orar por aqueles que nunca oram; eu quero ser soldado e morrer pela Pátria".

"... Mães portuguesas (Nota de rodapé: No original diz: mães francesas): deveis ter respeito por aquelas palavras, e alegrar-vos com elas. Não são a prova duma vocação, pela simples razão de que se não pode dizer: 'Sei uma língua difícil', quando se balbuciam apenas uma ou duas frases. Mas podem anunciá-la; e ficarão retraídas e nunca mais as ouvireis, se zombardes delas, se vos mostrardes indiferentes ao impulso desta pequena alma, que revelava o sacrifício e se dispunha para ele. São esses os mistérios em que tocais diariamente".
(René Bazin, Um dever maternal, artigo do Eco de Paris)

- Se estas confidências escasseiam completamente, os pais deverão provocá-las, multiplicando as situações susceptíveis de revelar a criança a si mesma: Corrégio, Lesueur, etc., encontraram, num instante, graças a uma circunstância reveladora, o caminho por onde deviam seguir.

Que mais se deve ainda considerar antes de determinar a profissão da criança?
- É preciso atender à saúde, para não se imporem à criança obrigações que não poderia cumprir, ou às quais não poderia fazer frente, a não ser se esgotasse antes da idade.

- É preciso atender ao nascimento, para não lançar a criança num meio social onde seria tentada a envergonhar-se de seus pais e de sua família.

3º- É preciso atender à fortuna, para não colocar imprudentemente a criança numa situação instável e expô-la, ao menor choque, a desabar na ruína.

Que se deve fazer depois de ter determinado a profissão da criança?
É preciso dar-lhe ou mandar-lhe ministrar uma educação em relação com a função especial que vier a desempenhar na sociedade.

Mgr. Dupanloup chama situação popular àquela que prepara  para as profissões operárias e agrícolas; educação intermediaria à que a encaminha para as profissões industriais e comerciais; e alta educação literária à que forma para as profissões liberais. (Da educação, T.1, p. 258)

2º- O matrimônio

Como se devem os pais encarar a questão do casamento de seus filhos?
- Com discrição.
- Com prudência.
- Com desinteresse.

I - A discrição

Sobre que deve exercer-se a discrição dos pais?
A discrição dos pais deve ter por objeto:

- a própria decisão;
- os meios de a fazer conhecer;
- a maneira de compreender a nova vida dos jovens esposos.

Por que devem os pais encarar com discrição a decisão que seus filhos podem tomar, com relação ao matrimônio?
Porque o "casamento exige uma verdadeira vocação" (Charruau, Às mães, p. 222); e esta vocação não deve ser considerada como absolutamente certa, pelo único fato de se tratar dum assunto que nem se relaciona com o estado eclesiástico, nem com a vida religiosa.

"Evitai aconselhar a vossos filhos o casamento, se eles não sentirem nenhuma inclinação para este estado de vida. Muito provavelmente não são chamados a ele; de outra forma é bem de crer que se sentissem atraídos".
(Charruau, Às mães, p. 222)

Qual seria o melhor meio de resolver prudentemente a questão?
Seria dar aos interessados alguns dias de recolhimento, de exercícios.

Qual seria o objeto especial deste recolhimento?
- Um estudo: o estudo da vocação em geral, e mais especialmente do chamamento para a vida do matrimônio.

- Uma promessa: a promessa de cumprir na vida conjugal, se para ela se for chamado, todas as obrigações que se impõe ao cristão.

Qual é o segundo objeto da discrição dos pais?
Consiste em não crer que, para conseguir colocar as suas filhas, seja preciso fazer de tudo de afogadilho, levá-las a todas as festas, vesti-las ridiculamente com trajes que dão na vista, etc.

"Fazer-se notar não é necessariamente distinguir-se. Longe disso".
(Nicolay, As crianças mal educadas, p. 159)

... O que é preciso, é preciso. O que quer dizer que as pessoas sérias sabem tão bem dosear a reserva e a complacência, as obrigações da vida de família e as concessões que convém fazer à vista da sociedade, a modéstia e a expansão, que a estima e a simpatia se ligam ao seu nome, que conseguem uma reputação sólida e de valor, e que obtém o melhor resultado, pelo emprego dos melhores meios.

Quais são as obrigações que a discrição impõe aos pais, após o casamento de seus filhos?
- Os pais devem eclipsar-se e condescender em nunca mais ocupar o primeiro lugar no coração do filho e da filha.

É Deus que assim o quer. "O homem deixará seu pai e sua mãe para se unir a sua esposa, e serão dois numa só carne". (Gen, II, 24) E, tanto pela força das coisas, como pela própria graça do sacramento, uma afeição nova se apodera do coração, soberana e dominadora; o amor destrona a piedade filial, embora a não extinga: Pode, acaso, uma filha desligar-se de seu pai? Não, sem dúvida.

Mas, este filho e está filha amam duma outra maneira; a hierarquia dos sentimentos sofreu modificações, e são os pais os sacrificados. Isto é penoso, mormente para a mãe; e não nos admiramos de que produza algumas vezes uma tentação de ciúme. Não era Branca de Castela, essa mãe tão perfeita, ciosa de Margarida de Provença, mulher de Luís?

Mas é preciso resistir a isso a todo o custo. Uma mãe cristã há-de encontrar na sua fé e na graça de Deus a força de se esquecer, de impor silêncio à natureza, e de repetir, sem amargura, as palavras de São João Batista: Oportet illum crescere, me autem minui- É preciso que ele cresça e que eu diminua (João, III). Para eles, a afeição e a felicidade; para mim, o esquecimento e a solidão.

- Os pais, quando puderem, devem tomar à letra o princípio: Cada um em sua casa.

"É raro, com efeito, que os jovens se encontrem bem em casa de seus pais; e é mais ainda que os pais se encontrem bem em casa se seus filhos. Influências que se cruzam no lar doméstico provocam cedo ou tarde choques e conflitos inevitáveis. A prudência está em saber evitar as complicações. Não há lugar para duas abelhas-mestras na mesma colmeia; é preciso que o novo enxame, que os novos esposos sejam senhores de si, se coloquem noutra parte e vivam em sua casa".
(Mgr. Pichenot)

Que, ao menos, sejam senhores da sua vontade.

(Catecismo da educação, pelo Abade René de Bethléem, continua com o post: II- A prudência)

PS: Grifos meus.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O terço. Exame de consciência

O terço
Exame de consciência


Por ventura rezo o meu terço todos os dias, salvo impedimento absoluto? Os meus ócios, consagro-os eu, de tempos em tempos, à reza do terço?

Vemos às vezes no comboio pessoas que passam discretamente o terço. E eu sinto tal piedade? Como é que eu rezo o meu terço? Duma maneira negligente, de braços caídos, com os olhos distraídos?

Quanto tempo consagro ao terço?

Alguém prentederá talvez rezá-lo em oito minutos porque tem a língua muito solta. Mas um terço representa cinquenta Ave-Marias e cinto Pater, cinco Glórias. Supõe-se que há meditação. E tudo isso se vai fazer em oito minutos? ...

Não somente rezemos o terço, mas rezemo-lo bem.

Quando morrermos, que é que nos colocarão nas mãos? Os nossos dedos apalparam tantas coisas! De todas elas conservam só duas. O crucifixo se colocará simplesmente entre os nossos dedos. Mas enrolar-se-á o terço à volta delas como que prendendo-as com uma doce cadeia de amor, de sorte que, mortos, parecemos rezar ainda com fervor o nosso terço... Que bom será um dia para nós termos rezado fielmente o terço!

Batei e abrir-se-vos-á.
Terei eu batido à porta!
Terei gritado: "Mãe! Mãe! Socorro!"

Cinquenta vezes por dia terei tocado o sino da misericórdia de Maria.

Cinquenta vezes por dia, terei suplicado: "Rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte."

Mãe, lembrai-vos!

(Excertos do livro: Em face do dever - Volume II, pelo Pe. G. Hoornaet, S.J, traduzido por Pe. M. da Costa Maia, o original que serviu para esta tradução é o da 1ª Edição francesa que tem por título: "Face au Devoir", livraria Cruz, Braga, 1954)

Donzelas cristãs, a Igreja vos pede que prepareis o futuro

JOVENS DONZELAS CRISTÃS
VOCÊS E A IGREJA

O QUE ELA VOS PEDE


Pede-vos que lhe prepareis o futuro

Que quer isto dizer: "Preparar-te o futuro?". Assegurar-lhe, para as gerações de amanhã, o domínio esmagador? Fornecer-lhes seres sem personalidade, que ela há de subjugar e conduzir como a crianças ingênuas? Não! Isso não. A Igreja não pensa assim. Não tem o direito de pensar assim.

O futuro que ela espera, ou o que ela espera do futuro, é poder realizar sua missão, para o maior bem daqueles nos quais a realiza...

Porque missão ela a tem. Traz consigo uma sagrada responsabilidade. Foi-lhe confiada uma missão divina. A vida religiosa do mundo, e em grande parte sua vida moral, essa é a obra a seu cargo.

Quer poder ensinar a seu cargo.

Quer poder ensinar o catecismo; quer poder dar às almas, desde a juventude, um ideal mais alto que o da Terra, o ideal cristão; quer poder ensinar os homens, os pobres homens, a crerem, a orarem, a esperarem; quer poder convencer todos esses seres, vergados ao peso do trabalho e de rosto inclinado para o chão, de que a vida espiritual é superior à vida material, e que além dos campos, como além das nuvens, há a vida eterna que paira; quer poder trabalhar para o advento do Reino de Deus, isto é, da Justiça, neste mundo como no outro; quer poder fazer amar a Jesus Cristo, que tanto merece que O amemos, e que é, para os que o sabem, a única Luz e o único consolador.

A Igreja olha para o futuro que tem na frente. E que vê? Talvez séculos e séculos que se sucederão ávidos de prazer, sedentos de progressos, batidos de descrença ou ardentes de sensualidade, em aparências diferentes, mas sempre e em toda a parte com as mesmas tendências contrárias para cima e para baixo, as mesmas fadigas extenuantes nos caminhos da virtude libertadora.

Em certo sentido, está segura do futuro. Sabe que estará presente a esse futuro. Tem uma garantia infalível de duração. Houve alguém que pronunciou estes palavras: "Até à consumação dos séculos... Sobre esta pedra edificarei... As portas do inferno não prevalecerão..." Quem as disse guarda-as. Já existia antes de Abraão. Existe depois de Combes.

Mas, apesar de tudo isso, tendo a experiência dos séculos - porque muitos já viveu ela - conhece as dificuldades da obra. Conhece de sobra as ruínas a beira da estrada; as arapucas estendidas; as ciladas ocultas na mata. Não desconhece, nem os inimigos, nem os seus múltiplos processos. Não desconhece o preço de suas vitórias, o heroísmo de tantos bravos, e a dor de tantas vítimas, com que há de ser paga a honra de sua vida eterna.

Apontando-vos o futuro, jovens, e mostrando-o a si mesma, diz-vos: "Fá-lo-eis".

E vós o farão. Não apenas vós sozinhas, mas sobretudo vós, pois sois o futuro. Hoje, já sois o amanhã. Olhando-vos, vejo o futuro. Está em vossos olhos e em vosso coração.

Estas coisas encerram uma verdade brutal.

Ora, encarando o futuro em vossos rostos de vinte anos, deve-se sorrir de esperança? deve-se tremer? A esta pergunta, as pulsações de vosso coração trazem a resposta desanimadora ou a resposta que rejuvenesce o coração dos velhos apóstolos?

Não há dúvida que vai surgir a resposta evasiva das consciências incertas, o sim mal suspirado ou o não involuntariamente murmurado das consciências levianas.

E será apenas isso?
Vós é que são o amanhã.
O passado éreis vós, crianças!
O presente sois vós, jovens.
O futuro sereis vós, religiosas, solteironas, mulheres, mamães.

Religiosas!

Se Deus chama, nenhuma se recusa. As escolas, os hospitais, os claustros, as missões longínquas, estão chamando. Oh! todas essas vozes longínquas, distantes, todas essas ondulações súplices da seara madura...

Solteironas!

Forçadamente, ou por gosto, ou por generosidade, porque não? Há múltiplos trabalhos que serão vossos. E esses humildes trabalhos constituem uma perfeita nobreza. Não se trata aqui, é evidente, de "aumentar o número de beatas", nem de vir a ser "um rato de sacristia". Trata-se - e não o dizemos de brincadeira - de saber que, onde não estão mães nem religiosas, estão as solteironas, operárias tantas vezes desconhecidas e apesar disso tão meritórias, cada vez mais indispensáveis. Se o mundo não compreende, se ri, tanto pior para ele. Deus, esse é que não ri. Essas operárias receberão dEle um magnífico salário.

Mulheres e mães!

É o futuro normal, a grande estrada, essa a que a natureza conduz, e também a graça.

Dentro de dez anos, minhas queridas jovens, quantas de vós terão fixado seu amor definitivo, preparado o laço que não se desata, fundado o lar, e se tornarão em vossas paróquias as esposas e as mães!

De certo que a esposa não é tudo no lar, tão pouco a mamãe. Ainda assim, quando a esposa é profundamente cristã, e a mamãe o é também (e mais ainda, digo eu, por causa das riquezas de seu instinto materno) não se apresentam então as melhores garantias?

Que coisa é pior: o marido e pai sem religião ou esposa e mãe sem religião? A resposta acode logo: esposa e mãe sem religião. Se o mundo decai moral e religiosamente, são as mulheres, mais que os homens, que devem bater no peito. Mas do que eles, tudo comprometeram.

Não haja ilusões a tal respeito. Se a Igreja, olhando para vós e envelhecendo-vos de alguns anos, não encontrasse aquilo que vai fazer de vós outras esposas e mães cristãs, não teria outro caminho a seguir senão envolver-se em véus e chorar lágrimas de inconsolável desalento.

Amanhã... Hoje...
Vós, hoje... Vós, amanhã...

Amanhã e hoje que em vós se sucedem como no ano se sucederam as estações e como a erva da primavera é a espiga que vai crescendo para o verão.

Tratai de levar a sério o papel de esposas e mães que ides ser, começado por levar a sério o papel de donzelas que hoje sois. Há criminosos desperdícios quando se diz que comprometer o coração infantil talvez seja arruinar sem remédio o coração da mãe.

Seriamente, ainda não é bastante. Seriíssimamente! Despedaça-se tão rapidamente a felicidade de um lar! Destrói-se tão depressa sua honra! Perde-se tão depressa uma alma!

Nem o casamento, nem a maternidade, nem a educação se improvisam. Estas santas coisa se preparam nos abismos do ser moral. E quando uma jovem vos apresenta assim com o aspecto de garota traquina, de boneca, de egoísta louca, de inconsciente, que lástima! que agonia!

Eis mais uma que não salvará o mundo...

Tremendo, chorando, a Igreja vai contando um a um estes pequenos seres sem nobreza, estas belas senhorinhas sem alma grave, quase irresponsáveis.

Corando... É tão intensamente triste...
Tremendo... É tão inquietante!

Este vinhedo dará apenas folhas... E que fará delas o Mestre, na hora das vindimas?

Jovens, olhai bem para o futuro... Olhai-o em vós a fórmula clara dos seus rigorosos deveres, a palavra de esperança...

O Estado reclamará mulheres que lhe dêem operários, soldados, camponeses; a Igreja  reclamará mulheres que lhes dêem almas.

Só se dá o que se tem. Acaso se colhem uvas entre os espinhos? O medíocre gerará o sublime?

Nesse sentido, sois o grande problema do futuro. E também sois a solução. Enquanto umas quais se extasiam diante do espelho e tudo reduzem a uma história de lábios pintados, a Igreja, em pé diante dos séculos misteriosos, espectadora inquieta e artista responsável, reduz tudo a uma história solene de vida moral e religiosa, que é preciso conservar através dos tempos...

E volta-se para vós... Mostra-vos o que deve ser e o que podeis ser, para que assim o seja. Confia ao vosso idealismo de moças as augustas realidades de mais tarde. Pede que presteis atenção à flor por causa do fruto esperado, e que não alimenteis em vós na primavera o verme que seria mortal no estio.

Pede que ofereçais o rosto ao sopro do Espírito, que deixeis vosso coração pulsar em ritmo generoso, e que acumuleis em vós, dia por dia, com santas provisões, essas virtudes, essas delicadezas, essas fervorosas dedicações que, chegando o tempo, vos hão de permitir sejais as esposas e as mães que Deus quer.

Há jovens tão miseráveis que a gente logo percebe, por antecipação, estar morto nelas o futuro cristão do mundo, morto para elas, morto em outras...

Há-as tão insignificantes que nem se sabe o que pensar a respeito, ou melhor, prevê-se a acabrunhante mediocridade que se anuncia, semelhante a estéreis charnecas.

Mas há-as generosas, profundas e puras, que esperam a hora muito a sério. Vivem a juventude com o inquieto ardor dos seres que compreenderam as responsabilidades. Alimentam grandes ambições.

A anunciação, quando o anjo falar do futuro, encontrá-las-á recolhidas e submissas. Unindo a piedade de Maria à atividade de Marta, pertencerão ao número das que sabem servir à mesa do homem e adorar aos pés do Mestre. Viverão; trabalharão; sofrerão; consolarão pesares; soerguerão almas.

Depois hão de morrer. E junto delas, como junto de Dorcas, a santa mulher dos tempos apostólicos apresentar-se-á, prestando seu testemunho, o conjunto de suas boas obras.

O futuro ainda não chegou. E no entanto já está aí. Sois vós. Vós o fazeis. Tratai de o compreender, e compreendei tudo quanto a Igreja vos pede, quando vos pede que lho prepareis.

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr.M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post: Pede-vos que sirvais)

PS: Grifos meus.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Os deveres recíprocos dos cônjuges

Os deveres recíprocos dos cônjuges


(...) 2- Os deveres do marido são principalmente: o governo da casa e da família, o cuidado da manutenção, do vestuário e da habitação da família.

O marido comete pecado não proporcionando à esposa um modo de vida conveniente a seu estado ou impondo-lhe trabalhos que senhoras de sua condição não costumam fazer.

3- Os deveres da esposa derivam de sua condição de companheira do marido; ela deve cuidar das coisas domésticas, em dependência do marido.

A esposa peca descuidando-se dos trabalhos domésticos ou fazendo, contra a vontade do marido, despesas de bens de família, ultrapassando as despesas que as senhoras de sua condição costumam fazer. Ela pode governar a casa independentemente se o marido não se incomodar com isso ou for incapaz de o fazer.

(Compêndio da moral católica, Pe. Heriberto Jone O.M.Cap.; Doutor em Direito Canônico e professor de Teologia, traduzido da 10ª edição original e adatado ao Código Civil Brasileiro bem como às prescrições do Concílio Plenário pelo P.Roberto Fox S.J, edições A Nação, 1943)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Oração preparatória para a meditação

Oração preparatória para a meditação



"Recolhei em Vós, Senhor Jesus, todos os meus sentimentos. Purificai também o meu coração de todos os pensamentos perversos e estranhos. Iluminai-me a inteligência, inflamai-me os afetos, para que atenta e devotamente possa empregar, nesta oração, os sentimentos do corpo e as faculdades da alma para Vossa glória e minha salvação, e assim mereça ser atendido, na presença da Vossa divina Majestade, pelo Vosso sacratissimo Coração. Assim seja. Senhor Jesus, ofereço-Vos esta oração, unida à divina intenção do Vosso Coração, com a qual na terra tributastes louvores a Deus".
(A Jesus os corações ou imitação do Sagrado Coração de Jesus pelo Pe. Pedro Arnoudt S.J, editora Vozes LTDA Petrópolis, ano de edição 1941)

IV - O RETRATO DE MARIA

A BELEZA DE MARIA
III PARTE


IV - O RETRATO DE MARIA

Traçar o retrato da Virgem Maria - não seria isso uma temeridade sem nome?... Como poderemos reproduzir a celeste fisionomia dAquela que excede a toda beleza que se possa imaginar?...

Um dia, num arrojo de seu gênio, Fra Angélico quis representar-Lhe na tela os traços incomparáveis.

Ele tentou pintar a Anunciação.

O ideal cintilava ante o seu espírito, mas, na impossibilidade de reproduzi-lo, foi lançar-se aos pés de sua doce Mãe, e esta, tocada pelas lágrimas do Seu filho amoroso, fez acabar pelos anjos o quadro começado.

Ó doce e terna Mãe, assim como a Fra Angélico, vinde também esboçar o quadro de Vossa beleza, para que Vossa fisionomia de Virgem e de Mãe atraia os corações e em todas as almas viventes a chama ardente do amor.

Nenhum retrato, nenhuma descrição completa nos transmitiu ainda a fisionomia da Santíssima Virgem. Mas nos escritos dos primeiros doutores e de quase todos os santos se encontram palavras autorizadas que, confrontadas entre si, permitir-nos-ão entrever algo deste doce e simpático semblante de nossa Mãe.

Santo Epifânio diz que Maria tinha uma estatura um pouco acima da mediana (De laudib, Virg. I). A Sua face, de forma oval, era de notável fineza e de perfeita simetria em Seus traços.

São Nicéforo compara a cor do Seu rosto ao frescor do trigo sazonado, apresentando, assim, um cor róseo-pálida (Lib. 2 Hist., c. XXIII). Os Seus dedos eram longos, e tudo em Sua pessoa era bem proporcionado e repleto de uma gravidade tão doce e atraente, que nada se podia comparar com Sua beleza.

As telas atribuídas a São Lucas, e que datam incontestavelmente dos primeiros tempos do cristianismo, dão-Lhe sempre um colorido de uma notável pureza. Nelas a fronte é elevada, lisa e alva; as sobrancelhas bastante louras e suavemente arqueadas. (Cedrenus: Comp. hist.)

Santo Epifânio e São Nicéforo, nas expressões que empregaram para indicar a cor dos olhos, indicam o azul-pálido. Os mesmos autores assinalam ainda a doçura e irresistível atração do Seu olhar.

Estas representações indicam-nA ainda tendo o nariz e a boca moderadamente delicados, os lábios de róseo carregado, as faces coloridas e o maxilar suavemente arredondado.

Segundo Santo Epifânio, São Nicéforo e São Gregório Nazianzeno, a Sua cabeleira era loura, e eles acrescentam que Maria deixava  os Seus cabelos flutuarem livremente sobre os ombros.

As Suas vestes, como as que ainda hoje costumam usar as mulheres da Palestina, eram: a túnica de lã branca ou ligeiramente azulada, cinto de estofo simples, enrolado, véu branco, cobrindo-lhe a fronte, flutuando sobre os ombros e descendo até ao solo.

Um cuidadoso asseio fazia sobressair-lhe as vestes mais comuns e lhes se distinguia a humilde Virgem em Suas maneiras e em Suas conversações.

Modesto e circunspecto era o Seu porte, graves os seus passos e sem pretensões; o Seu olhar era doce, firme e límpido e a Sua voz afável e atenciosa.

Um ligeiro e simpático sorriso, testemunho de Sua bondade, aflorando-Lhe os lábios. O Seu exterior, irradiando benevolência e candura, inspirava a virtude. A Sua presença parecia santificar o ambiente e as pessoas nas quais poderia irradiar-se a Sua beleza, de tal modo que, ao Seu aspecto, todos os vãos pensamentos da terra se afastavam, como desaparece o orvalho ao raiar do sol matinal.

As Suas palavras eram sempre comedidas, quanto a Sua conversação era calma e nobre, excitando ao bem e à virtude. Todos aqueles que tinham a felicidade se de entreter com Ela não podiam admirar bastante o esplendor de Suas perfeições e de Suas inumeráveis graças.

O mais belo dos elogios que se Lhe pode dirigir está nesta observação de Nicéforo:

"Onde acabava a natureza começava a graça, e o mais elevado grau de beleza que possa ter existido em uma simples criatura era apenas o primeiro grau da graça, pois Lhe estava reservado completar esta obra-prima. Deste modo brilhava um quê de divino em Suas ações" (Niceph. In ejus ominibus, multa divinitus inerat gratia - Hist. Eccl. Lib. 2, c. XXIII), e a santidade com que Deus cumula a Sua alma, transparecia nos Seus gestos, em Suas palavras, em Seu olhar e em todos os Seus movimentos" (Henric. de Hassia, apud Barrad. Comentário do Evangelho. Lib . 6, c. 9).
A modéstia brilhava sobre Sua fronte a doçura em Seus olhos, o pudor em Suas faces, a virgindade na alvura nívea de Seu colo, de modo que todas as virtudes haviam nEla encontrado a Sua sede.

"Ela era unigênita de Seu pai e de Sua Mãe, que era estéril, diz São Pedro Crisólogo, para que nós soubéssemos que era menos uma obra da natureza do que uma obra-prima da graça e uma maravilha  da mão do Onipotente".

Em uma palavra, os dons da natureza e da graça, que nEla resplandeciam, tornaram-nA tão divinamente bela, que teria sido até considerada como sendo uma divindade, se a fé não nos tivesse ensinado que Ela era uma simples criatura, transfigurada pela graça.

Considerando tanta beleza, exclama, abismado, São João Damasceno:

"Eu Vos saúdo, ó Virgem dulcíssima; a Vossa graça extasia e cativa a minha alma. Como descrever a nobreza  de Vossos traços?... Como exprimir a simplicidade de Vossos adornos?... Como reavivar uma dos mais débeis raios de Vossa beleza?... A majestade que ilumina toda a Vossa pessoa é igualmente realçada e atenuada pela doçura de Vosso olhar. Os Vossos colóquios desalteram e trazem ânimo como tudo o que brota de um coração amante". (Orat. I de Nat. Virg. II)
Aliás, convinha à Santíssima Virgem possuir tão excelente beleza, como já o dissemos, pois Ela devia comunicar ao Seu divino Filho, não somente a natureza corporal, mas também os traços do Seu semblante, e isto de um modo muito mais inefável do que o fazem as outras mães a seus filhos, porque só Ela devia cooperar para a formação do corpo de Seu Filho (Aug. Nicolas).

(Por que amo Maria, Tratado substancial e completo dos principais motivos de devoção para com a Virgem Maria segundo os Santos Padres, os Doutores e os Santos; pelo Pe. Júlio Maria, missionário de Nossa Senhora do SS. Sacramento; Editora Vozes, ano de 1945)

PS: Grifos meus.

O culto ao sagrado Coração de Jesus

O culto ao sagrado Coração de Jesus


O culto especial dos cristãos para com o sagrado Coração de Jesus é de todas as devoções a mais antiga. Antes que houvesse os santos Sacramentos e outros objetos de devoção, já a bem-aventurada Virgem Maria venerava o dulcíssimo Coração de Jesus, São José o estreitava nos braços; os pastores e os Magos, Simeão e Ana, os apóstolos e discípulos, a ele e por ele atraídos, prestavam-lhe homenagens de amor.

A devoção ao divino Coração, porém, tomou extraordinário incremento, depois que Jesus, chamando todos os homens a aprender dEle, que é "manso e humilde de coração", extraiu do tesouro do Seu Coração o dom excelente da Sagrada Eucaristia e quis, finalmente, que esse Coração, aberto na Cruz, a todos ficasse patente como asilo. Esta devoção especial, já os apóstolos a espalharam no universo, os Padres da Igreja com ternura a cultivaram e zelosamente lhe teceram encômios. Enfim, os santos de todos os séculos foram discípulos fervorosos do Coração de Jesus.

Quando chegou, porém, a plenitude dos tempos em que o Salvador determinava prodigalizar todas as riquezas do Seu Coração, "apareceu a Sua benignidade" e Ele próprio revelou ser vontade Sua estabelecer o culto especial para com o Seu sagrado Coração, atestando e prometendo derramar abundantíssimas graças sobre quantos se consagrassem de modo particular a tal culto.

O objeto desta devoção é o próprio Coração de Jesus. Como há em Jesus Cristo duas naturezas, a divina e a humana, porém uma só pessoa divina, o Coração de Jesus Cristo é o Coração da pessoa divina, o Coração do Verbo encarnado. E, como a pessoa divina tem direito a ser honrada com supremo culto, também ao sagrado Coração de Jesus devemos prestar o mesmo culto, por ser inseparável e indivisível da pessoa divina. Tal é a verdade católica que refutou todos os erros contrários.

Resume-se em três pontos o fim desta devoção:

- Correspondermos de todos os modos ao imenso amor de Jesus, simbolizado no Seu Coração que tanto fez e sofreu por nós, e nos concedeu o precioso e suavíssimo Sacramento da Eucaristia.

- Repararmos, quanto nos for possível, pelo fervor da nossa piedade, todas as injúrias que feriram e ainda hoje ferem o sagrado Coração, apresentado por Jesus como sede de todos os Seus afetos.

- Imitarmos o objeto do nosso culto, revestindo-nos dos mesmos afetos e sentimentos que animaram o Seu Coração durante a Sua vida e Paixão e ainda hoje perduram na Sua vida Sacramental e bem-aventurada.

Por sua antiguidade, objeto e múltiplo fim, é evidente ser esta devoção a mais excelente, frutuosa, sólida e consoladora. Resumindo-se a devoção em imitar o que veneramos, pois todos os demais fins se encerram e se praticam na verdadeira imitação...

(Prefácio [excertos] do livro: A Jesus os corações ou imitação do Sagrado Coração de Jesus pelo Pe. Pedro Arnoudt S.J, editora Vozes LTDA Petrópolis, ano de edição 1941)