segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

ESPECIAL: A simplicidade segundo o Evangelho, instruções às senhoras e às jovens

Nota: Hoje inicio a transcrição deste livro, assim que terminá-lo, o mesmo será disponibilizado em PDF na internet. Enquanto isso, esse post ficará na parte de ESPECIAIS EM ANDAMENTO do blogue e receberá atualizações.

Nota 2 (nota adicionada na data de 14/06/2011: Livro disponibilizado em PDF: Baixar AQUI.

A SIMPLICIDADE
SEGUNDO O EVANGELHO


Instruções às senhoras e às jovens

Por Monsenhor Gibergues
Traduzido do original francês
La simplicité d’après l’évagile
 por
Rachel de Castro e Aida do Val

Atlântica Editora
Rio de Janeiro
Ano de 1945

ÍNDICE


_________________________________

INTRODUÇÃO

Escrito por um dos mais abalizados mestres da espiritualidade, na França – Monsenhor de Gibergues, bispo de Valença- este livro contém uma série de “Instruções às senhoras e às moças” sobre os meios de adquirir e praticar a simplicidade.

Como frisa o Autor na sua dedicatória, a simplicidade é o caminho que devem trilhar todas as pessoas “de boa vontade: moças, esposas, mães, viúvas ou religiosas, que procuram um meio evangélico de ir a Deus segura e prontamente”. Nessa classificação geral incluem-se “todas as almas que necessitam de asas para pairar acima das tristezas desta terra de exílio e das provações deste vale de lágrimas”; mas também “as almas generosas e amorosas que aspiram elevar-se, que têm sede de união com Deus”.

Termina-se o livro com a apresentação dos maiores modelos de simplicidade conhecidos em todos os tempos: Jesus, Maria e São Francisco de Assis.
***

DEDICATÓRIA

À minha sobrinha Maria..., que, aos 18 de julho de 1906, ingressou no Convento do Sagrado Coração.
Então, Maria, tu nos deixaste!...

Eras a alegria e o orgulho de teus pais, a primogênita, o exemplo de teus irmãos e irmãs, a felicidade de todos!

Eras feliz em nosso meio, e amava-nos tão carinhosamente! Afirmo-o. No supremo momento da partida, quando pai e mãe, irmãos e irmãs, ajoelhados à tua volta, agarrados a teus vestidos, expandiam em pungentes adeuses os corações transbordantes, tinhas os olhos cheios de lágrimas ardentes, o peito sacudindo de soluços!...

E te desprendestes de tão ternos laços, te arrancaste aos nossos, oh! Não sem um esforço sobre-humano, mas com a coragem e a serenidade que te vinham do alto. Partiste!...

Não o podemos acreditar ainda. Nossos olhos te procuram e não mais te vêem: nossas vozes te chamam e não mais respondes. Meu Deus! Que vazio profundo e doloroso!

Quem te roubou aos encantos do lar? Que força foi essa que te arrebatou, mais poderosa que todos os liames da carne e do sangue, que todas as atrações da natureza?

A força do amor! A força que atrai a noiva, que a separa do pai e da mãe para uni-la ao esposo. Mas, que amor o teu! O amor do Infinito, do Eterno: o amor dAquele que é todo Amor.

Já de há muito, o amor divino te ferira o coração. Ouviras a voz do Bem-Amado, a voz de Jesus: “Vem, esposa Minha, amiga Minha, pomba Minha! Vem ao Meu Sagrado Coração”. (Nota de rodapé: Cântico 11,14. – Literalmente: “Vem nas aberturas da pedra, na concavidade do muro”; é assim que a Escritura designa as chagas do Salvador e Seu Sagrado Coração. – São Bernardo chama o Sagrado Coração de “ninho de pombas”).

E cada dia esta voz se tornava mais persuasiva, mais instante. Teu coração, abrasado de amor, suspirava pela hora das bodas com o Cordeiro. Tuas asas de pomba palpitavam; bem que sentíamos. Afinal, ao supremo apelo do celeste Esposo, abris-te-as e, sacudindo a poeira do mundo, alçaste o vôo e te dirigiste para onde Jesus te chamava!

Agora tudo acabou não mais estás aqui. Na realidade, tua lembrança é imperecível, teus exemplos continuam vivos e é sempre suave o perfume de tuas virtudes. Tu, porém amada pomba, não mais estás no lar paterno. Não mais te podemos ver o rosto nem te ouvir a voz.

E temos os olhos rasos de lágrimas, os corações transbordantes de tristeza. Não nos revoltamos, não te queremos disputar a Deus: adoramos Sua Sabedoria e Sua Vontade; reconhecemos a graça e a honra que Ele nos fez ao te chamar. Mas, seja-nos ao menos permitido sofrer e derramar lágrimas: pelo que não nos podes condenar, tu, a esposa de Jesus, o qual chorou pelos amigos.

Ó Jesus, esposo de nossa Maria, que a conquistastes e a atraístes com os Vossos encantos, nós vo-la entregamos de bom grado. Nós a oferecemos a Deus, por Vós e conVosco, como a divina Mãe Vos ofereceu ao Pai pela Redenção do mundo. Que nosso sacrifício, unido ao Vosso, recaia em bênçãos sobre nossa família e nossa pátria!

E tu, querida Mariazinha, foste entre nós um modelo de simplicidade. E sê-lo-ás mais do que nunca no seio de tuas novas irmãs. Os três votos que em breve farás, e que já estão decididos em teu coração: votos de pobreza, castidade e obediência, não serão porventura as formas sublimes da perfeita simplicidade de uma alma forte e generosa que a tudo renuncia por Deus; tudo, isto é: os bons da terra, os prazeres e a si mesma?

Melhor do que ninguém, sabes que nem a simplicidade nem os votos religiosos excluem as legítimas afeições.

Doravante, separada de nós pela tua vida toda dedicada a Deus, não nos quererá menos. Amar-nos-ás mais e melhor; e, pelas tuas preces e penitências, nos obterás graças privilegiadas que nos consolarão de tua ausência. Não esquecerás a França, nossa muito amada pátria, que geme sob o jugo da impiedade e que tenebrosa conjuração gostaria de aniquilar; com teus rogos, apressarás a hora da libertação. O melhor consolo de teus pais e a sólida recompensa do amor e dedicação que têm por ti será a glória que darás a Deus, todo o bem que vais fazer, o trabalho que terás na formação moral das jovens, para torná-las verdadeiras cristãs, mulheres exemplares, perfeitas esposas, mães completas.

Vai Maria, vai, pomba de Deus; abre bem largas as tuas asas e eleva-te ao mais alto dos céus, sem nunca perder de vista aqueles que te amam tão carinhosamente neste mundo.

A ti dedico este livrinho: todo perfumado de tua lembrança. Possa ele fazer aos que o lerem o bem que nos fizeste, quando vivias ao nosso lado!

Dedico-o às almas que precisam de asas para pairar acima das tristezas desta terra de exílio e das provocações deste vale de lágrimas.

Dedico-o às almas ávidas de perfeição, às almas generosas e amantes que aspiram a se elevar, que têm sede de união com Deus.

Dedico às almas que se arrastaram até agora na vulgaridade e na inutilidade de uma vida morna e egoísta, mas que sofrem nessa situação e que se sufocam nas baixas regiões, onde lhes falta ar e luz.

Dedico-o às almas desalentas, porque exageram as dificuldades da virtude e se amedrontam ante a enormidade da tarefa.

Dedico-o a todas as almas de boa vontade: moças, esposas, mães, viúvas ou religiosas, que buscam a forma evangélica de ir a Deus com segurança e presteza.

A simplicidade é o caminho – não direi fácil, seria contradizer o Evangelho, segundo o qual o caminho que conduz à vida é áspero e estreito – mas o caminho possível a todos e que está ao alcance de cada um, o caminho de que Jesus falava, ao dizer: “Meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.

A simplicidade é o caminho do perfeito amor, que “suprime a pena ou a transforma em alegria”; que “se fatiga, mas jamais se cansa”. É a maneira mais prática de muito e sempre amar.

Segue, pois, pequeno livro, segue com a bênção dAquela que te inspirou, segue! E penetra do espírito de Deus todos os que lerem as tuas páginas.

Jesus, quando enviava Seus discípulos para converter o mundo corrompido, dizia-lhes: "Sede simples como as pombas!”

Que a simplicidade viva e se irradie no coração das cristãs! Que as almas simples se multipliquem; para edificação de muitos e para a glória de Deus!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Criança tocando violino

Criança tocando violino


A educação sobrenatural: XV- A vocação para a vida cristã no mundo

A EDUCAÇÃO SOBRENATURAL


XV - A VOCAÇÃO PARA A VIDA CRISTÃ NO MUNDO

"Falai, Verbo eterno, e falai assaz alto para vos fazerdes ouvir, apesar do ruído confuso que os meus sentidos e as minhas paixões produzem no meu espírito."
(Mgr.Pichenot)

Que comporta, sob o ponto de vista da educação, a vida cristã no mundo?
Duas coisas:

- A escolha duma profissão manual ou liberal;
- ordinariamente, pelo menos, o matrimônio.

1º- A escolha de uma profissão

Que se deve considerar, antes de mais nada, quando se trata de determinar a profissão do filho?
É preciso considerar, primeiro que tudo, as tendências e as aptidões...

Os pais seguem sempre fielmente esta recomendação?
Não, infelizmente.

Seja por ignorância, seja por egoísmo, seja por interesse, um certo número de pais dão a seus filhos, um gênero de vida que nem lhes agrada, nem lhes convém...

Que devem fazer os pais para evitar a decisão prolongada (escolha de carreira) nos filhos?
- Devem esforçar-se por deslindar as aptidões, as forças, as aspirações da criança que lhes é confiada;

- Devem ouvir, recolher, reter e explorar as pequenas confidências que certas circunstâncias fazem brotar do seu coração: "Eu quero ser religioso e tratar os doentes; eu quero ser religioso e orar por aqueles que nunca oram; eu quero ser soldado e morrer pela Pátria".

"... Mães portuguesas (Nota de rodapé: No original diz: mães francesas): deveis ter respeito por aquelas palavras, e alegrar-vos com elas. Não são a prova duma vocação, pela simples razão de que se não pode dizer: 'Sei uma língua difícil', quando se balbuciam apenas uma ou duas frases. Mas podem anunciá-la; e ficarão retraídas e nunca mais as ouvireis, se zombardes delas, se vos mostrardes indiferentes ao impulso desta pequena alma, que revelava o sacrifício e se dispunha para ele. São esses os mistérios em que tocais diariamente".
(René Bazin, Um dever maternal, artigo do Eco de Paris)

- Se estas confidências escasseiam completamente, os pais deverão provocá-las, multiplicando as situações susceptíveis de revelar a criança a si mesma: Corrégio, Lesueur, etc., encontraram, num instante, graças a uma circunstância reveladora, o caminho por onde deviam seguir.

Que mais se deve ainda considerar antes de determinar a profissão da criança?
- É preciso atender à saúde, para não se imporem à criança obrigações que não poderia cumprir, ou às quais não poderia fazer frente, a não ser se esgotasse antes da idade.

- É preciso atender ao nascimento, para não lançar a criança num meio social onde seria tentada a envergonhar-se de seus pais e de sua família.

3º- É preciso atender à fortuna, para não colocar imprudentemente a criança numa situação instável e expô-la, ao menor choque, a desabar na ruína.

Que se deve fazer depois de ter determinado a profissão da criança?
É preciso dar-lhe ou mandar-lhe ministrar uma educação em relação com a função especial que vier a desempenhar na sociedade.

Mgr. Dupanloup chama situação popular àquela que prepara  para as profissões operárias e agrícolas; educação intermediaria à que a encaminha para as profissões industriais e comerciais; e alta educação literária à que forma para as profissões liberais. (Da educação, T.1, p. 258)

2º- O matrimônio

Como se devem os pais encarar a questão do casamento de seus filhos?
- Com discrição.
- Com prudência.
- Com desinteresse.

I - A discrição

Sobre que deve exercer-se a discrição dos pais?
A discrição dos pais deve ter por objeto:

- a própria decisão;
- os meios de a fazer conhecer;
- a maneira de compreender a nova vida dos jovens esposos.

Por que devem os pais encarar com discrição a decisão que seus filhos podem tomar, com relação ao matrimônio?
Porque o "casamento exige uma verdadeira vocação" (Charruau, Às mães, p. 222); e esta vocação não deve ser considerada como absolutamente certa, pelo único fato de se tratar dum assunto que nem se relaciona com o estado eclesiástico, nem com a vida religiosa.

"Evitai aconselhar a vossos filhos o casamento, se eles não sentirem nenhuma inclinação para este estado de vida. Muito provavelmente não são chamados a ele; de outra forma é bem de crer que se sentissem atraídos".
(Charruau, Às mães, p. 222)

Qual seria o melhor meio de resolver prudentemente a questão?
Seria dar aos interessados alguns dias de recolhimento, de exercícios.

Qual seria o objeto especial deste recolhimento?
- Um estudo: o estudo da vocação em geral, e mais especialmente do chamamento para a vida do matrimônio.

- Uma promessa: a promessa de cumprir na vida conjugal, se para ela se for chamado, todas as obrigações que se impõe ao cristão.

Qual é o segundo objeto da discrição dos pais?
Consiste em não crer que, para conseguir colocar as suas filhas, seja preciso fazer de tudo de afogadilho, levá-las a todas as festas, vesti-las ridiculamente com trajes que dão na vista, etc.

"Fazer-se notar não é necessariamente distinguir-se. Longe disso".
(Nicolay, As crianças mal educadas, p. 159)

... O que é preciso, é preciso. O que quer dizer que as pessoas sérias sabem tão bem dosear a reserva e a complacência, as obrigações da vida de família e as concessões que convém fazer à vista da sociedade, a modéstia e a expansão, que a estima e a simpatia se ligam ao seu nome, que conseguem uma reputação sólida e de valor, e que obtém o melhor resultado, pelo emprego dos melhores meios.

Quais são as obrigações que a discrição impõe aos pais, após o casamento de seus filhos?
- Os pais devem eclipsar-se e condescender em nunca mais ocupar o primeiro lugar no coração do filho e da filha.

É Deus que assim o quer. "O homem deixará seu pai e sua mãe para se unir a sua esposa, e serão dois numa só carne". (Gen, II, 24) E, tanto pela força das coisas, como pela própria graça do sacramento, uma afeição nova se apodera do coração, soberana e dominadora; o amor destrona a piedade filial, embora a não extinga: Pode, acaso, uma filha desligar-se de seu pai? Não, sem dúvida.

Mas, este filho e está filha amam duma outra maneira; a hierarquia dos sentimentos sofreu modificações, e são os pais os sacrificados. Isto é penoso, mormente para a mãe; e não nos admiramos de que produza algumas vezes uma tentação de ciúme. Não era Branca de Castela, essa mãe tão perfeita, ciosa de Margarida de Provença, mulher de Luís?

Mas é preciso resistir a isso a todo o custo. Uma mãe cristã há-de encontrar na sua fé e na graça de Deus a força de se esquecer, de impor silêncio à natureza, e de repetir, sem amargura, as palavras de São João Batista: Oportet illum crescere, me autem minui- É preciso que ele cresça e que eu diminua (João, III). Para eles, a afeição e a felicidade; para mim, o esquecimento e a solidão.

- Os pais, quando puderem, devem tomar à letra o princípio: Cada um em sua casa.

"É raro, com efeito, que os jovens se encontrem bem em casa de seus pais; e é mais ainda que os pais se encontrem bem em casa se seus filhos. Influências que se cruzam no lar doméstico provocam cedo ou tarde choques e conflitos inevitáveis. A prudência está em saber evitar as complicações. Não há lugar para duas abelhas-mestras na mesma colmeia; é preciso que o novo enxame, que os novos esposos sejam senhores de si, se coloquem noutra parte e vivam em sua casa".
(Mgr. Pichenot)

Que, ao menos, sejam senhores da sua vontade.

(Catecismo da educação, pelo Abade René de Bethléem, continua com o post: II- A prudência)

PS: Grifos meus.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O terço. Exame de consciência

O terço
Exame de consciência


Por ventura rezo o meu terço todos os dias, salvo impedimento absoluto? Os meus ócios, consagro-os eu, de tempos em tempos, à reza do terço?

Vemos às vezes no comboio pessoas que passam discretamente o terço. E eu sinto tal piedade? Como é que eu rezo o meu terço? Duma maneira negligente, de braços caídos, com os olhos distraídos?

Quanto tempo consagro ao terço?

Alguém prentederá talvez rezá-lo em oito minutos porque tem a língua muito solta. Mas um terço representa cinquenta Ave-Marias e cinto Pater, cinco Glórias. Supõe-se que há meditação. E tudo isso se vai fazer em oito minutos? ...

Não somente rezemos o terço, mas rezemo-lo bem.

Quando morrermos, que é que nos colocarão nas mãos? Os nossos dedos apalparam tantas coisas! De todas elas conservam só duas. O crucifixo se colocará simplesmente entre os nossos dedos. Mas enrolar-se-á o terço à volta delas como que prendendo-as com uma doce cadeia de amor, de sorte que, mortos, parecemos rezar ainda com fervor o nosso terço... Que bom será um dia para nós termos rezado fielmente o terço!

Batei e abrir-se-vos-á.
Terei eu batido à porta!
Terei gritado: "Mãe! Mãe! Socorro!"

Cinquenta vezes por dia terei tocado o sino da misericórdia de Maria.

Cinquenta vezes por dia, terei suplicado: "Rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte."

Mãe, lembrai-vos!

(Excertos do livro: Em face do dever - Volume II, pelo Pe. G. Hoornaet, S.J, traduzido por Pe. M. da Costa Maia, o original que serviu para esta tradução é o da 1ª Edição francesa que tem por título: "Face au Devoir", livraria Cruz, Braga, 1954)

Donzelas cristãs, a Igreja vos pede que prepareis o futuro

JOVENS DONZELAS CRISTÃS
VOCÊS E A IGREJA

O QUE ELA VOS PEDE


Pede-vos que lhe prepareis o futuro

Que quer isto dizer: "Preparar-te o futuro?". Assegurar-lhe, para as gerações de amanhã, o domínio esmagador? Fornecer-lhes seres sem personalidade, que ela há de subjugar e conduzir como a crianças ingênuas? Não! Isso não. A Igreja não pensa assim. Não tem o direito de pensar assim.

O futuro que ela espera, ou o que ela espera do futuro, é poder realizar sua missão, para o maior bem daqueles nos quais a realiza...

Porque missão ela a tem. Traz consigo uma sagrada responsabilidade. Foi-lhe confiada uma missão divina. A vida religiosa do mundo, e em grande parte sua vida moral, essa é a obra a seu cargo.

Quer poder ensinar a seu cargo.

Quer poder ensinar o catecismo; quer poder dar às almas, desde a juventude, um ideal mais alto que o da Terra, o ideal cristão; quer poder ensinar os homens, os pobres homens, a crerem, a orarem, a esperarem; quer poder convencer todos esses seres, vergados ao peso do trabalho e de rosto inclinado para o chão, de que a vida espiritual é superior à vida material, e que além dos campos, como além das nuvens, há a vida eterna que paira; quer poder trabalhar para o advento do Reino de Deus, isto é, da Justiça, neste mundo como no outro; quer poder fazer amar a Jesus Cristo, que tanto merece que O amemos, e que é, para os que o sabem, a única Luz e o único consolador.

A Igreja olha para o futuro que tem na frente. E que vê? Talvez séculos e séculos que se sucederão ávidos de prazer, sedentos de progressos, batidos de descrença ou ardentes de sensualidade, em aparências diferentes, mas sempre e em toda a parte com as mesmas tendências contrárias para cima e para baixo, as mesmas fadigas extenuantes nos caminhos da virtude libertadora.

Em certo sentido, está segura do futuro. Sabe que estará presente a esse futuro. Tem uma garantia infalível de duração. Houve alguém que pronunciou estes palavras: "Até à consumação dos séculos... Sobre esta pedra edificarei... As portas do inferno não prevalecerão..." Quem as disse guarda-as. Já existia antes de Abraão. Existe depois de Combes.

Mas, apesar de tudo isso, tendo a experiência dos séculos - porque muitos já viveu ela - conhece as dificuldades da obra. Conhece de sobra as ruínas a beira da estrada; as arapucas estendidas; as ciladas ocultas na mata. Não desconhece, nem os inimigos, nem os seus múltiplos processos. Não desconhece o preço de suas vitórias, o heroísmo de tantos bravos, e a dor de tantas vítimas, com que há de ser paga a honra de sua vida eterna.

Apontando-vos o futuro, jovens, e mostrando-o a si mesma, diz-vos: "Fá-lo-eis".

E vós o farão. Não apenas vós sozinhas, mas sobretudo vós, pois sois o futuro. Hoje, já sois o amanhã. Olhando-vos, vejo o futuro. Está em vossos olhos e em vosso coração.

Estas coisas encerram uma verdade brutal.

Ora, encarando o futuro em vossos rostos de vinte anos, deve-se sorrir de esperança? deve-se tremer? A esta pergunta, as pulsações de vosso coração trazem a resposta desanimadora ou a resposta que rejuvenesce o coração dos velhos apóstolos?

Não há dúvida que vai surgir a resposta evasiva das consciências incertas, o sim mal suspirado ou o não involuntariamente murmurado das consciências levianas.

E será apenas isso?
Vós é que são o amanhã.
O passado éreis vós, crianças!
O presente sois vós, jovens.
O futuro sereis vós, religiosas, solteironas, mulheres, mamães.

Religiosas!

Se Deus chama, nenhuma se recusa. As escolas, os hospitais, os claustros, as missões longínquas, estão chamando. Oh! todas essas vozes longínquas, distantes, todas essas ondulações súplices da seara madura...

Solteironas!

Forçadamente, ou por gosto, ou por generosidade, porque não? Há múltiplos trabalhos que serão vossos. E esses humildes trabalhos constituem uma perfeita nobreza. Não se trata aqui, é evidente, de "aumentar o número de beatas", nem de vir a ser "um rato de sacristia". Trata-se - e não o dizemos de brincadeira - de saber que, onde não estão mães nem religiosas, estão as solteironas, operárias tantas vezes desconhecidas e apesar disso tão meritórias, cada vez mais indispensáveis. Se o mundo não compreende, se ri, tanto pior para ele. Deus, esse é que não ri. Essas operárias receberão dEle um magnífico salário.

Mulheres e mães!

É o futuro normal, a grande estrada, essa a que a natureza conduz, e também a graça.

Dentro de dez anos, minhas queridas jovens, quantas de vós terão fixado seu amor definitivo, preparado o laço que não se desata, fundado o lar, e se tornarão em vossas paróquias as esposas e as mães!

De certo que a esposa não é tudo no lar, tão pouco a mamãe. Ainda assim, quando a esposa é profundamente cristã, e a mamãe o é também (e mais ainda, digo eu, por causa das riquezas de seu instinto materno) não se apresentam então as melhores garantias?

Que coisa é pior: o marido e pai sem religião ou esposa e mãe sem religião? A resposta acode logo: esposa e mãe sem religião. Se o mundo decai moral e religiosamente, são as mulheres, mais que os homens, que devem bater no peito. Mas do que eles, tudo comprometeram.

Não haja ilusões a tal respeito. Se a Igreja, olhando para vós e envelhecendo-vos de alguns anos, não encontrasse aquilo que vai fazer de vós outras esposas e mães cristãs, não teria outro caminho a seguir senão envolver-se em véus e chorar lágrimas de inconsolável desalento.

Amanhã... Hoje...
Vós, hoje... Vós, amanhã...

Amanhã e hoje que em vós se sucedem como no ano se sucederam as estações e como a erva da primavera é a espiga que vai crescendo para o verão.

Tratai de levar a sério o papel de esposas e mães que ides ser, começado por levar a sério o papel de donzelas que hoje sois. Há criminosos desperdícios quando se diz que comprometer o coração infantil talvez seja arruinar sem remédio o coração da mãe.

Seriamente, ainda não é bastante. Seriíssimamente! Despedaça-se tão rapidamente a felicidade de um lar! Destrói-se tão depressa sua honra! Perde-se tão depressa uma alma!

Nem o casamento, nem a maternidade, nem a educação se improvisam. Estas santas coisa se preparam nos abismos do ser moral. E quando uma jovem vos apresenta assim com o aspecto de garota traquina, de boneca, de egoísta louca, de inconsciente, que lástima! que agonia!

Eis mais uma que não salvará o mundo...

Tremendo, chorando, a Igreja vai contando um a um estes pequenos seres sem nobreza, estas belas senhorinhas sem alma grave, quase irresponsáveis.

Corando... É tão intensamente triste...
Tremendo... É tão inquietante!

Este vinhedo dará apenas folhas... E que fará delas o Mestre, na hora das vindimas?

Jovens, olhai bem para o futuro... Olhai-o em vós a fórmula clara dos seus rigorosos deveres, a palavra de esperança...

O Estado reclamará mulheres que lhe dêem operários, soldados, camponeses; a Igreja  reclamará mulheres que lhes dêem almas.

Só se dá o que se tem. Acaso se colhem uvas entre os espinhos? O medíocre gerará o sublime?

Nesse sentido, sois o grande problema do futuro. E também sois a solução. Enquanto umas quais se extasiam diante do espelho e tudo reduzem a uma história de lábios pintados, a Igreja, em pé diante dos séculos misteriosos, espectadora inquieta e artista responsável, reduz tudo a uma história solene de vida moral e religiosa, que é preciso conservar através dos tempos...

E volta-se para vós... Mostra-vos o que deve ser e o que podeis ser, para que assim o seja. Confia ao vosso idealismo de moças as augustas realidades de mais tarde. Pede que presteis atenção à flor por causa do fruto esperado, e que não alimenteis em vós na primavera o verme que seria mortal no estio.

Pede que ofereçais o rosto ao sopro do Espírito, que deixeis vosso coração pulsar em ritmo generoso, e que acumuleis em vós, dia por dia, com santas provisões, essas virtudes, essas delicadezas, essas fervorosas dedicações que, chegando o tempo, vos hão de permitir sejais as esposas e as mães que Deus quer.

Há jovens tão miseráveis que a gente logo percebe, por antecipação, estar morto nelas o futuro cristão do mundo, morto para elas, morto em outras...

Há-as tão insignificantes que nem se sabe o que pensar a respeito, ou melhor, prevê-se a acabrunhante mediocridade que se anuncia, semelhante a estéreis charnecas.

Mas há-as generosas, profundas e puras, que esperam a hora muito a sério. Vivem a juventude com o inquieto ardor dos seres que compreenderam as responsabilidades. Alimentam grandes ambições.

A anunciação, quando o anjo falar do futuro, encontrá-las-á recolhidas e submissas. Unindo a piedade de Maria à atividade de Marta, pertencerão ao número das que sabem servir à mesa do homem e adorar aos pés do Mestre. Viverão; trabalharão; sofrerão; consolarão pesares; soerguerão almas.

Depois hão de morrer. E junto delas, como junto de Dorcas, a santa mulher dos tempos apostólicos apresentar-se-á, prestando seu testemunho, o conjunto de suas boas obras.

O futuro ainda não chegou. E no entanto já está aí. Sois vós. Vós o fazeis. Tratai de o compreender, e compreendei tudo quanto a Igreja vos pede, quando vos pede que lho prepareis.

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr.M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post: Pede-vos que sirvais)

PS: Grifos meus.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Os deveres recíprocos dos cônjuges

Os deveres recíprocos dos cônjuges


(...) 2- Os deveres do marido são principalmente: o governo da casa e da família, o cuidado da manutenção, do vestuário e da habitação da família.

O marido comete pecado não proporcionando à esposa um modo de vida conveniente a seu estado ou impondo-lhe trabalhos que senhoras de sua condição não costumam fazer.

3- Os deveres da esposa derivam de sua condição de companheira do marido; ela deve cuidar das coisas domésticas, em dependência do marido.

A esposa peca descuidando-se dos trabalhos domésticos ou fazendo, contra a vontade do marido, despesas de bens de família, ultrapassando as despesas que as senhoras de sua condição costumam fazer. Ela pode governar a casa independentemente se o marido não se incomodar com isso ou for incapaz de o fazer.

(Compêndio da moral católica, Pe. Heriberto Jone O.M.Cap.; Doutor em Direito Canônico e professor de Teologia, traduzido da 10ª edição original e adatado ao Código Civil Brasileiro bem como às prescrições do Concílio Plenário pelo P.Roberto Fox S.J, edições A Nação, 1943)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Oração preparatória para a meditação

Oração preparatória para a meditação



"Recolhei em Vós, Senhor Jesus, todos os meus sentimentos. Purificai também o meu coração de todos os pensamentos perversos e estranhos. Iluminai-me a inteligência, inflamai-me os afetos, para que atenta e devotamente possa empregar, nesta oração, os sentimentos do corpo e as faculdades da alma para Vossa glória e minha salvação, e assim mereça ser atendido, na presença da Vossa divina Majestade, pelo Vosso sacratissimo Coração. Assim seja. Senhor Jesus, ofereço-Vos esta oração, unida à divina intenção do Vosso Coração, com a qual na terra tributastes louvores a Deus".
(A Jesus os corações ou imitação do Sagrado Coração de Jesus pelo Pe. Pedro Arnoudt S.J, editora Vozes LTDA Petrópolis, ano de edição 1941)

IV - O RETRATO DE MARIA

A BELEZA DE MARIA
III PARTE


IV - O RETRATO DE MARIA

Traçar o retrato da Virgem Maria - não seria isso uma temeridade sem nome?... Como poderemos reproduzir a celeste fisionomia dAquela que excede a toda beleza que se possa imaginar?...

Um dia, num arrojo de seu gênio, Fra Angélico quis representar-Lhe na tela os traços incomparáveis.

Ele tentou pintar a Anunciação.

O ideal cintilava ante o seu espírito, mas, na impossibilidade de reproduzi-lo, foi lançar-se aos pés de sua doce Mãe, e esta, tocada pelas lágrimas do Seu filho amoroso, fez acabar pelos anjos o quadro começado.

Ó doce e terna Mãe, assim como a Fra Angélico, vinde também esboçar o quadro de Vossa beleza, para que Vossa fisionomia de Virgem e de Mãe atraia os corações e em todas as almas viventes a chama ardente do amor.

Nenhum retrato, nenhuma descrição completa nos transmitiu ainda a fisionomia da Santíssima Virgem. Mas nos escritos dos primeiros doutores e de quase todos os santos se encontram palavras autorizadas que, confrontadas entre si, permitir-nos-ão entrever algo deste doce e simpático semblante de nossa Mãe.

Santo Epifânio diz que Maria tinha uma estatura um pouco acima da mediana (De laudib, Virg. I). A Sua face, de forma oval, era de notável fineza e de perfeita simetria em Seus traços.

São Nicéforo compara a cor do Seu rosto ao frescor do trigo sazonado, apresentando, assim, um cor róseo-pálida (Lib. 2 Hist., c. XXIII). Os Seus dedos eram longos, e tudo em Sua pessoa era bem proporcionado e repleto de uma gravidade tão doce e atraente, que nada se podia comparar com Sua beleza.

As telas atribuídas a São Lucas, e que datam incontestavelmente dos primeiros tempos do cristianismo, dão-Lhe sempre um colorido de uma notável pureza. Nelas a fronte é elevada, lisa e alva; as sobrancelhas bastante louras e suavemente arqueadas. (Cedrenus: Comp. hist.)

Santo Epifânio e São Nicéforo, nas expressões que empregaram para indicar a cor dos olhos, indicam o azul-pálido. Os mesmos autores assinalam ainda a doçura e irresistível atração do Seu olhar.

Estas representações indicam-nA ainda tendo o nariz e a boca moderadamente delicados, os lábios de róseo carregado, as faces coloridas e o maxilar suavemente arredondado.

Segundo Santo Epifânio, São Nicéforo e São Gregório Nazianzeno, a Sua cabeleira era loura, e eles acrescentam que Maria deixava  os Seus cabelos flutuarem livremente sobre os ombros.

As Suas vestes, como as que ainda hoje costumam usar as mulheres da Palestina, eram: a túnica de lã branca ou ligeiramente azulada, cinto de estofo simples, enrolado, véu branco, cobrindo-lhe a fronte, flutuando sobre os ombros e descendo até ao solo.

Um cuidadoso asseio fazia sobressair-lhe as vestes mais comuns e lhes se distinguia a humilde Virgem em Suas maneiras e em Suas conversações.

Modesto e circunspecto era o Seu porte, graves os seus passos e sem pretensões; o Seu olhar era doce, firme e límpido e a Sua voz afável e atenciosa.

Um ligeiro e simpático sorriso, testemunho de Sua bondade, aflorando-Lhe os lábios. O Seu exterior, irradiando benevolência e candura, inspirava a virtude. A Sua presença parecia santificar o ambiente e as pessoas nas quais poderia irradiar-se a Sua beleza, de tal modo que, ao Seu aspecto, todos os vãos pensamentos da terra se afastavam, como desaparece o orvalho ao raiar do sol matinal.

As Suas palavras eram sempre comedidas, quanto a Sua conversação era calma e nobre, excitando ao bem e à virtude. Todos aqueles que tinham a felicidade se de entreter com Ela não podiam admirar bastante o esplendor de Suas perfeições e de Suas inumeráveis graças.

O mais belo dos elogios que se Lhe pode dirigir está nesta observação de Nicéforo:

"Onde acabava a natureza começava a graça, e o mais elevado grau de beleza que possa ter existido em uma simples criatura era apenas o primeiro grau da graça, pois Lhe estava reservado completar esta obra-prima. Deste modo brilhava um quê de divino em Suas ações" (Niceph. In ejus ominibus, multa divinitus inerat gratia - Hist. Eccl. Lib. 2, c. XXIII), e a santidade com que Deus cumula a Sua alma, transparecia nos Seus gestos, em Suas palavras, em Seu olhar e em todos os Seus movimentos" (Henric. de Hassia, apud Barrad. Comentário do Evangelho. Lib . 6, c. 9).
A modéstia brilhava sobre Sua fronte a doçura em Seus olhos, o pudor em Suas faces, a virgindade na alvura nívea de Seu colo, de modo que todas as virtudes haviam nEla encontrado a Sua sede.

"Ela era unigênita de Seu pai e de Sua Mãe, que era estéril, diz São Pedro Crisólogo, para que nós soubéssemos que era menos uma obra da natureza do que uma obra-prima da graça e uma maravilha  da mão do Onipotente".

Em uma palavra, os dons da natureza e da graça, que nEla resplandeciam, tornaram-nA tão divinamente bela, que teria sido até considerada como sendo uma divindade, se a fé não nos tivesse ensinado que Ela era uma simples criatura, transfigurada pela graça.

Considerando tanta beleza, exclama, abismado, São João Damasceno:

"Eu Vos saúdo, ó Virgem dulcíssima; a Vossa graça extasia e cativa a minha alma. Como descrever a nobreza  de Vossos traços?... Como exprimir a simplicidade de Vossos adornos?... Como reavivar uma dos mais débeis raios de Vossa beleza?... A majestade que ilumina toda a Vossa pessoa é igualmente realçada e atenuada pela doçura de Vosso olhar. Os Vossos colóquios desalteram e trazem ânimo como tudo o que brota de um coração amante". (Orat. I de Nat. Virg. II)
Aliás, convinha à Santíssima Virgem possuir tão excelente beleza, como já o dissemos, pois Ela devia comunicar ao Seu divino Filho, não somente a natureza corporal, mas também os traços do Seu semblante, e isto de um modo muito mais inefável do que o fazem as outras mães a seus filhos, porque só Ela devia cooperar para a formação do corpo de Seu Filho (Aug. Nicolas).

(Por que amo Maria, Tratado substancial e completo dos principais motivos de devoção para com a Virgem Maria segundo os Santos Padres, os Doutores e os Santos; pelo Pe. Júlio Maria, missionário de Nossa Senhora do SS. Sacramento; Editora Vozes, ano de 1945)

PS: Grifos meus.

O culto ao sagrado Coração de Jesus

O culto ao sagrado Coração de Jesus


O culto especial dos cristãos para com o sagrado Coração de Jesus é de todas as devoções a mais antiga. Antes que houvesse os santos Sacramentos e outros objetos de devoção, já a bem-aventurada Virgem Maria venerava o dulcíssimo Coração de Jesus, São José o estreitava nos braços; os pastores e os Magos, Simeão e Ana, os apóstolos e discípulos, a ele e por ele atraídos, prestavam-lhe homenagens de amor.

A devoção ao divino Coração, porém, tomou extraordinário incremento, depois que Jesus, chamando todos os homens a aprender dEle, que é "manso e humilde de coração", extraiu do tesouro do Seu Coração o dom excelente da Sagrada Eucaristia e quis, finalmente, que esse Coração, aberto na Cruz, a todos ficasse patente como asilo. Esta devoção especial, já os apóstolos a espalharam no universo, os Padres da Igreja com ternura a cultivaram e zelosamente lhe teceram encômios. Enfim, os santos de todos os séculos foram discípulos fervorosos do Coração de Jesus.

Quando chegou, porém, a plenitude dos tempos em que o Salvador determinava prodigalizar todas as riquezas do Seu Coração, "apareceu a Sua benignidade" e Ele próprio revelou ser vontade Sua estabelecer o culto especial para com o Seu sagrado Coração, atestando e prometendo derramar abundantíssimas graças sobre quantos se consagrassem de modo particular a tal culto.

O objeto desta devoção é o próprio Coração de Jesus. Como há em Jesus Cristo duas naturezas, a divina e a humana, porém uma só pessoa divina, o Coração de Jesus Cristo é o Coração da pessoa divina, o Coração do Verbo encarnado. E, como a pessoa divina tem direito a ser honrada com supremo culto, também ao sagrado Coração de Jesus devemos prestar o mesmo culto, por ser inseparável e indivisível da pessoa divina. Tal é a verdade católica que refutou todos os erros contrários.

Resume-se em três pontos o fim desta devoção:

- Correspondermos de todos os modos ao imenso amor de Jesus, simbolizado no Seu Coração que tanto fez e sofreu por nós, e nos concedeu o precioso e suavíssimo Sacramento da Eucaristia.

- Repararmos, quanto nos for possível, pelo fervor da nossa piedade, todas as injúrias que feriram e ainda hoje ferem o sagrado Coração, apresentado por Jesus como sede de todos os Seus afetos.

- Imitarmos o objeto do nosso culto, revestindo-nos dos mesmos afetos e sentimentos que animaram o Seu Coração durante a Sua vida e Paixão e ainda hoje perduram na Sua vida Sacramental e bem-aventurada.

Por sua antiguidade, objeto e múltiplo fim, é evidente ser esta devoção a mais excelente, frutuosa, sólida e consoladora. Resumindo-se a devoção em imitar o que veneramos, pois todos os demais fins se encerram e se praticam na verdadeira imitação...

(Prefácio [excertos] do livro: A Jesus os corações ou imitação do Sagrado Coração de Jesus pelo Pe. Pedro Arnoudt S.J, editora Vozes LTDA Petrópolis, ano de edição 1941)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Testamento do chefe de família

Testamento do chefe de família

(Tobias e Tobit)

O célebre industrial do  Val-des-Bois, Léon Harmel, cristão excelente a quem os operários chamavam: "O bom pai", e que sempre procurava uma perfeita união com os seus operários quis, antes de morrer, deixar aos filhos o testamento seguinte:

"Meus bons filhos, quando lerdes estas linhas já eu não serei vivo. Já a morte terá comparecido diante do supremo juiz. Que Ele se digne continuar a prodigalizar-me nesse momento terrível a misericordiosa bondade que me dispensou em todos os instantes da minha vida.

Não vos deixo órfãos; encarrego-vos à melhor e à mais poderosa das mães. Todos sois filhos de Maria, lembrai-vos disso. Foi o primeiro nome que recebestes todos no batismo. Quisemos assim consagrar-vos a essa Mãe por excelência. Não vos abandonará se A invocardes sempre. Amai-A; por meio dEla amareis a Jesus. Toda a lei se resume numa só palavra: amor! Amai-vos uns aos outros; seja a caridade a vossa regra absoluta! Dai, e Deus vos restituirá, mesmo neste mundo. A caridade não arruína ninguém, e não vos contenteis com dar dinheiro, dai-vos a vós mesmos.

Evitai o luxo. Além de arruinar as famílias, o luxo seca a alma. Suportai pacientemente os contratempos, as injúrias; são outras tantas pérolas que o bom Mestre vos envia.

Procurem os meus filhos religiosos ser melhores, porque, no caminho de Deus, ou avançamos ou recuamos. Não podemos estacionar. Mas os que vivem no mundo, não se julguem dispensados de coisa alguma. Também para eles há um céu a ganhar e um inferno a evitar. O caminho do céu é estreito e áspero. É mais difícil para eles do que para os religiosos.

Organizai para vós alguns regulamentos de vida simples, não muito carregado, mas procurando a sério ser-lhe fiéis. Meditai todos os dias, nem que seja pelo espaço de um quarto de hora apenas. Será o tempo mais bem empregado do dia. Santa Teresa diz que se responsabiliza pela salvação de quem medita todos os dias. Finalmente, mortificai-vos, imponde-vos alguns sacrifícios de vez em quando. Tendes tanto que pagar e a vida é tão curta!

Não me esqueçais depois da morte; não esqueçais a vossa mãe quando ela vier juntar-se a mim. Diante de Deus lembrai-vos algumas vezes daqueles que tanto vos amaram na terra e continuarão a amar-vos no céu..."
(Cristo no lar, meditações para pessoas casadas, por Raúl Plus, S.J, tradução de Pe. José Oliveira Dias, S.J. ; 2ª Edição, Livraria Apostolado da Imprensa, 1947, com imprimatur)

Jovens donzelas: O que a Igreja vos pede

JOVENS E A IGREJA


O QUE ELA VOS PEDE

Pede-vos tudo quanto vos ordena

Pede que restituais a outrem o que lhe é devido, que respeiteis seus bens, reputação, felicidade, e que, se é culpado ou desgraçado, não o seja injustamente, por culpa vossa.

Espera que sigais, no uso dos prazeres, nas satisfações dadas aos sentidos, no emprego do coração, as sagradas regras que fazem da vida humana uma vida moral e da juventude alguma coisa divinamente bela.

Espera que sejais virgens sábias, e não virgens loucas, com receio de que, se não fordes sábias hoje, menos ainda o sejais amanhã. Que é uma virgem sábia? A que faz da vida uma preparação séria, uma expectativa diligente, pois sabe que o Mestre voltará e que não serão todas que então hão de entrar na sala do festim. Então, cuidadosa e prudente, conserva-se em estado de alerta; sua lâmpada está provida, quer dizer: sua consciência é pura, o coração cheio de amor. Ao primeiro apelo, levantar-se-á sem angústia, porque digna ao Esposo, de caridade na mão, realiza as condições requeridas para ser convidada às núpcias eternas. Não faz da vida uma diversão, uma bacanal, um sono pesado entre duas diversões.

Tanto pior para quem leva as coisas por esse lado. Quando a si, sábia e cautelosa que é, deixa as loucas entregues à sua loucura e, à margem do turbilhão, sentada, recolhida, grave como a própria vida, pensa em que tudo passa menos Deus que mais noite menos noite a morte chega, e que a razão estará ao lado, não das que aqui no mundo muito tiverem rido, mas das que, santamente ativas, houverem preparado o encontro com Cristo.

Espera que sejais, segundo o Evangelho, o sal da Terra, luz do mundo, levedo da massa, o santo perfume de Jesus Cristo.

Sal da Terra, e sabeis o que isso quer dizer: que com vosso fervor consigais impedir que a podridão tudo domine e que retardeis a corrupção que trabalha no coração da humanidade.

Luz do mundo, e sabeis o que isso quer dizer: que de vossa fronte pura, de vosso olhar sem pecado, de vossa sorridente bondade, de vosso irradiante pudor, de vossa exemplar conduta, se desprenda essa misteriosa claridade em que sempre se envolvem as almas nobres, e em que instintivamente, como que em abandono, se refugiam as almas nobres, ou simplesmente mais inquietas e mais dolorosas.

Levedo da massa, e sabeis o que isso quer dizer: que na mediocridade comum, na indiferença do vosso meio, no ambiente pesado de tantas consciências deprimidas e chatas, sejais para outras esse princípio ativo, secreto e discreto, mas poderoso, que regenera, levanta as energias caídas, dilata os corações retraídos. Pouco levedo é bastante para muita massa. Muito bem pode praticar uma alma generosa. Uma só.

Santo perfume de Jesus Cristo, e sabeis o que isto quer dizer: que se desprenda de vós, não volúpia, nem sensualidade, nem vício, nem leviandade, nem egoísmo, nem dureza, mas alguma coisa muito pura e muito doce, que faz com que as crianças tenham confiança em vós, como a tinham em Jesus, e que os infelizes voltem de novo a esperar, como o faziam também em torno de Jesus, e que os culpados, confusos, constrangidos, mas não esmagados, se sintam a um tempo miseráveis e capazes de não mais o serem, como quando em presença de Jesus.

Espera que respeiteis em vós mesmas o futuro com todas as suas promessas e exigências, o passado com todas as suas lições, o presente com todos os apelos divinos que o solicitam.

Espera que considereis o mais belo dia de vossa vida, não aquele em que houverdes conquistado um jovem perturbando-o, mas aquele em que houverdes salvado uma alma, apaziguando-a se treme, consolando-a se está só.

Espera que prefirais ser boas a ser felizes e que, tornando-se impossível ser ao mesmo tempo uma e outra coisa, escolhais a bondade sem a felicidade, do que a preferência à felicidade sem a bondade.

Espera que, se por desgraça comerdes o fruto proibido, não cometais ao menos o crime de o colher para outros na árvore do mal e não lho ofereçais com um gesto satânico de cumplicidade.

Espera que olheis para o lado das santas, seguindo-lhes o cortejo, e não o lado das frívolas, juntando-vos ao seu bando.

Espera que vos confesseis para serdes puras, que comungueis para serdes fortes, que sejais fortes e puras para passardes pelo mundo santificando-o, sem correrdes o risco de ele vos corromper.

Espera que prepareis para vós mesmas a alegria, a alegria suprema, ao declinar da juventude, a alegria de poderdes dizer: "Não fiz voluntariamente mal a ninguém".

Ela o espera de vós, senhorinhas, e a expectativa não será de todo em vão, eu o sei...

Pede-vos que a honreis

Há filhas que envergonham sua mãe; a mãe não ousa falar delas, mas cora quando outros o fazem. Apenas se lhe abre a porta da rua. Sua presença incomoda. Há como que um abismo entre filha e mãe... Até então, a mãe andava em público toda feliz e orgulhosa de sua filha. A reputação estava intacta, a honestidade era reconhecida. E agora? Não é que a mãe seja culpada, não. Não passa de uma infeliz. Mas, enfim, da mãe à filha há um laço de carne, que prende, mais duro que a morte. Ambas têm o mesmo nome. Talvez os mesmos traços fisionômicos. Uma tornou-se indigna, a outra esconde-se e chora.

E essas lágrimas, mais amargas que as de luto às beira de um túmulo, são também menos consoladas: "Ama-la-ia mais estando morta do que manchada". É o grito das verdadeiras mães. Compreendo-o. Não há vergonha de ter mãe de uma criança que dorme à sombra da cruz, no cemitério. Mas há vergonha em ser mãe de tal jovem viva... O luto desperta simpatias; a desonra abre um vazio. E que flores devem ser plantadas no pequenino jardim, para a filha de quem só a fotografia é capaz de manchar uma parede caiada de branco?

Não é sofrendo nem morrendo que se desonra uma mãe. Apenas pode ser afligida. É tornando-se indigna, escandalosa ou, sem chegar a tais extremos, mostrando-se tão insignificante e tão leviana que a mãe, séria, não pode deixar de menear tristemente a cabeça, que se inclina...

Para uma moça, honrar sua mãe é mostrar-lhe dotada de tal valor intelectual, moral e religioso, e de tal delicadeza e bondade, de tão irrepreensível conduta que provoca nos demais, como que instintivamente, uma atitude de simpatia e respeito, simpatia e respeito que atingem a própria mãe, que entrou em muito, ninguém o duvida, nas qualidades da filha.

Por conseqüência, a mãe, ao lembrar-se da filha, sorri; junto dela mostra-se humildemente ativa; sente os ombros aliviados do peso dos dias; acompanhando-a pelas ruas. Vai feliz e transbordante de contentamento. Acha neste contato um apoio para seus anos da velhice, uma compensação para os sofrimento que lhe advêm, de outros caminhos da vida.

E vós bem sabeis, jovem, o que é honrar uma mãe, não? Pois vossa mãe, ao fitar-vos, sente-se feliz, e vossos olhos não fazem com que se baixem suas pálpebras.

Também a Igreja, esposa de Cristo e vossa mãe, espera que a honreis.

Aí por fora toda a gente sabe que és sua filha, que lhe pertences. E como é que não haveriam de o saber? Vêem-te, em seus templos, entoar cânticos, enfeitar altares. Vêem-te de joelhos, junto aos confessionários e na mesa eucarística. Vêem-te nas escolas e nos patronatos, trabalhando oficialmente para ela. Vêem-te nas reuniões, nos retiros, nas procissões, nas peregrinações, nos congressos.

Sois a Igreja, jovens queridas. Isso é o que dizem. Isso é o que também vós dizeis. Não o fazeis por ostentação, mas também não o ocultais.

E ai esta quem vos obriga.

Este laço estabelece entre ela e vós uma intimidade, uma relação de filho com a mãe, que se torna logo o ponto de partida de dulcíssimas e imponentes responsabilidades.

Honrar a Igreja... Agir de forma que, só com olhar-vos, vos respeitam, estimam e admiram, e em vós, inseparavelmente, a respeitam, estimam e admiram também.

O oposto é bem freqüente, como também é lamentável. É o inimigo que vigia, espreita vossas fraquezas para com ela poder acusar a Igreja, e procura alguma coisa que criticar em vós outras para se arrogar o direito de tudo criticar nela. É o inimigo que se sente feliz, maldosamente satisfeito e triunfante, quando lhe dais pretexto para a desprezar.

Não honrais a Igreja quando vos conduzis mal ou vos comportais menos bem do que as que não a reconhecem como mãe e não pedem à sua doutrina a base de sua moralidade.

Não honrais a Igreja quando misturais o bem com o mal, a piedade com o pecado. Acendeis duas velas, uma a Deus, outra ao Diabo. Colheis alternadamente o fruto da árvore da vida e da árvore da morte. Dais uma hora a um Senhor e outra hora a outro senhor... Servis Baal e Jesus, como diz São Paulo. Ah! eu sei, vossa consciência se acomoda como pode. Estamos diante de uma verdadeira comédia. Mas, enfim, comédia angustiosa, não?

Vós vão se habituando. Mal vos dais conta. Abre-se uma porta entre o salão de baile e o templo de orações. Cada um dos compartimentos do coração tem seu amor. Mas não há dúvida que o monograma de Cristo está mal inscrito em vossas fisionomias.

Digamos logo a palavra como ela é: vergonha. E que vergonha!...

Em todas essas combinações, de toda essa miscelânea, de toda essa salada em que as danças pecaminosas se confundem com a santa comunhão, em que uma pobre gota de vinagre da austeridade cristã se mistura com o óleo abundante de todas as doçuras mundanas, que é que resulta? Qualquer coisa de alguém cujo nome se desconhece. Cristã? Talvez. Pagã? Talvez. Mas nada que exprima a beleza pura.

E o forasteiro simpático ou malévolo, que assiste ao desfile desta piedade trajada de mundanismo, e desse mundanismo trajado de piedade, diz de si para consigo: "Nada... Nada senão tudo isso... Se essa é a obra da Igreja, se isso é a sua obra prima, pobre mestra que ela é! Que artista medíocre na escultura das almas!"

Não honrais a Igreja quando sois dura para os que entram em contato de alma convosco. Semelhante severidade contrasta com a indulgência evangélica, e a doçura, com suas condescendências e pacientes bondades, é uma clara revelação de Jesus Cristo.

Assim também, quando sois egoístas. Quem vos vê centralizar tudo em vós, receber e não dar, preocupar-vos com vossas insignificantes contrariedades e não reparar nos grandes sofrimentos de uma outra, às vezes bem perto de vós; quem vos vê espalhar vosso eu como um assoberbante lençol de água, ou erguê-lo como uma torre insolente entre casas acanhadas - não pode, de modo algum, venerar a Igreja em vós. Não pode amá-la. Ama-a no coração de uma Irmãzinha dos Pobres. No vosso, sem caridade, nada vos atrai. Quando o egoísta entra no templo, logo imobiliza ao limiar da porta aqueles que, com razão, pensavam ensinar-se no templo o amor cristão.

Assim também quando desprezais os outros. E com que direito. Deus do céu, os desprezais? Se sois bela, há alguém mais belo que vós. Se sois ricas, há alguém mais rico que vós. Se inteligentes, alguém que o é mais. E, admitindo que sejais tudo isso em grau supremo, é razão para desdenhar dos outros? O desprezo revela falta de amor, está indicando que o coração é de pedra, não de carne.

Ó senhorinhas, não fites ninguém do lato da tua suposta grandeza, pois, diante de Deus, não há mestres nem servidores, e Madalena, prostrada em lágrimas está mais perto de Cristo que o Fariseu no alto do trono da sua virtude.

Se a alguém desprezamos - e isto é logo percebido - fazendo-lhe mal, porque lançamos à sua alma o germe do desânimo, do abatimento e de uma possível revolta. Entre irmãos - e todos os cristãos o devem ser - o desprezo é uma grave falta. No que despreza, aí se instala permanentemente o orgulho. E naquele ou naquela que é desprezado é de temer a tentação de vir a tornar-se realmente desprezível.

Não desprezeis nenhuma das vossas companheiras, jovens. E vós, que voltais da Sagrada Mesa, não piseis os humildes que para ela se dirigem.

O desprezo causa muitos sofrimentos. Quando se insinua no âmago das próprias amabilidades e nos gestos de caridade, estraga-os; mata-lhes o encanto. Quantos seres deixam de amar a Igreja porque não se julgam mais amados por ela! E porque perderam  a fé em seu amor? Porque passaram a vê-la no rosto desdenhoso de qualquer donzela piedosa, e porque não descobriram, em jovens que acreditaram tivessem a leal bondade de Jesus, senão a indulgência altaneira que julga rebaixar-se quando estende a mão, e quando presta um serviço parece ter prazer em humilhar.

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr.M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post: Pede-vos que lhe prepareis o futuro)

PS: Grifos meus.