domingo, 9 de janeiro de 2011

Bem-aventurados os que choram

Bem-aventurados os que choram


Voz de Jesus do Calvário

Sim, disse Eu: Bem-aventurado os que choram, porque serão consolados, e no Meu reino serão suas lágrimas enxugadas por meus divinos favores. Chorar, Minha filha, é próprio de um coração que sofre. Criaturas há que choram quando se vêem na mendicidade, outras quando se vêem privadas de um afeto, outras quando a desgraça lhes vêem a porta, pela morte de um ente querido, ou pela perda de uma fortuna!...

Mas Eu disse: Bem-aventurados os que choram... sim, os que choram por causa de Meus interesses! Na verdade, bem-aventurados os que choram, quando vêem o Meu nome blasfemado! Bem-aventurados os que choram, quando vêem os Meus interesses em perigo! Bem-aventurados os que choram, quando a desolação, que é o pecado, se alestra no mundo!

Ah! Minha filha, quão poucas são as almas que choram, vendo a heresia e o erro se infiltrarem nos corações!... Quão poucos são os corações que Comigo choram a perda de tantas almas!...

Ah! a perda de uma alma é um mal irreparável! Se os que se dizem Meus amigos compreendessem o valor de uma alma! como chorariam!... Se Meus amigos compreendessem a desolação que causa ao Meu coração o pecado, como se compadeceriam destas almas e como iriam atrás delas para Me dar prazer, proporcionando-lhes uma felicidade eterna!... As almas nobres compreenderam todos estes estragos e procuraram repará-los com a sua dedicação, fazendo para isso tudo que lhes estava ao próprio alcance.

Comigo choraram, aos pés de Meu Sacrário vinham chorar as desditas desses corações engolfados no pecado. Quantas vezes, Minha filha, fui obrigado a dizer: Basta!... E agora onde há desses corações? Quem se compadece quando vêem o inimigo me roubas uma alma que Me pertence?

Ah! examinai-vos, se sentis e se vos causa uma grande dor quando ouvis um homem blasfemar. Ah! se tal não acontecer, é porque vosso amor por Mim ainda é muito diminuto! Examinai-vos, se nada sentis quando ouvirdes dizer que um homem morreu impenitente, e se for assim é porque ainda tendes pouco conhecimento de Minha glória!... Ah! como o mundo se acha na languidez!...

Os homens choram os bens falazes da terra! E vós, almas consagradas a Meu serviço, choras junto Comigo os Meus bens perdidos? Poucos, Minha filha, são os que encontro aos pés do Meu Sacrário a chorarem pela Minha glória! Ah! apenas entre mil encontro um! Qual será a causa de tão funesto mal? Ah! a causa de tão funesto mal é o pouco amor que Me é consagrado; é a falta de conhecimento de Minha glória, sim, da glória que está reservada aos eleitos!

Minha filha, se os homens consagrados a Meu serviço, e as esposas que se imolam ante o altar compreendessem o que é Minha glória, saberiam chorar a perda de uma só alma, e tudo fariam para poder trazê-la de novo para Meu aprisco! Se há esta indiferença e esta languidez é por falta de profundas meditações sobre a Minha glória!

Sim, porque é pela meditação que se entra nos páramos celestes; é na meditação do efeito do pecado, representado em Minha dolorosíssima Paixão, que as almas podem compreender o mal do pecado e o quanto ele ofende Minha glória. Se o pecado foi causa de Minha sangrenta Paixão e Morte, como as almas que meditam nestas divinas verdades não hão de chorar, vendo o mundo engolfando-se e perdendo-se para sempre, privando-se de um bem eterno que sou Eu! o mal atual é proveniente da falta de reflexão e de meditação!

Ah! quem meditar na Minha doloríssima Paixão, vendo que a causa dela foi somente o pecado, sentirá partir-lhe o coração de dor! Minha filha, poucas são as almas que sabem meditar, pois se houvesse mais almas, que soubessem meditar, muitos seriam os que chorando Comigo a perda das almas, procurariam trabalhar mais para Minha glória, primeiramente santificando-se, pois querer me dar almas sem antes se santificar, é vã chimera!

A santificação própria já é um meio de me dar almas, porque de nada valeriam as Minhas pregações se Eu não praticasse por primeiro o que Eu ensinei!

Eis aí, almas queridas, as lágrimas que Eu chamo bem-aventuradas, e que as guardo no relicário de meu Divino Coração. Eis também, filhinha, porque encontro tão poucas almas que posso chamar bem-aventuradas por falta de não compreenderem Minha glória, e por Me terem tão pouco amor! Vós, almas consagradas  Meu divino serviço, lamentai Comigo a perda de tantas almas e procurai de hoje em diante vos engolfar nos páramos celestes, para depois poderdes chorar Comigo o mal que se alastra no mundo!

(O bom combate na alma generosa, Instituto das Missionárias de Jesus Crucificado - Campinas - 1ª Edição, ano de 1936, com imprimatur)

PS: Grifos meus.

sábado, 8 de janeiro de 2011

É mister apartar do mundo o coração, se queremos imitar o Coração de Jesus

É mister apartar  do mundo o coração,
se queremos imitar o Coração de Jesus



Jesus. - Ai do mundo, filho! Ai do coração apegado às suas seduções e vaidades!

Não basta expulsar do coração a Satanás. Ainda é mister daí banir o mundo. Se nutrires no íntimo da alma amor ao mundo, de pouco valerá tudo o que fizeres para tua completa emenda.

O mundo, continuando a envenenar-te o coração, sem dúvida conseguirá perverter-te e por fim entregar-te ao poder do demônio. Que é o mundo senão o amor desordenado e perverso dos prazeres, riquezas e honras, pelo qual seus sequazes são seduzidos e se tornam corrompidos e corruptores?

Se queres saber o que deves pensar a seu respeito, considera como Eu o julguei. Passei distribuindo Meus benefícios a todos. Amei os inimigos que Me perseguiam. Pregado ao madeiro da Cruz, orei pelos que Me crucificaram. Pelo mundo, porém, não rezei.

O mundo procede do diabo e acha-se todo sob o poder do maligno. Não pode possuir o Meu Espírito, assim como a mentira não pode encerrar a verdade, nem a corrupção a pureza.

O mundo por si mesmo prova não só a realidade, mas também a necessidade do inferno.

Que há de comum entre o mundo e o Meu Coração, quando o mundo aberta e ocultamente favorece todos os vícios; meu Coração, porém, só aspira santidade?

O mundo, de acordo com Satanás, seu chefe, procura perder eternamente as almas, enquanto o Meu Coração deseja salvá-las todas. Não podes, por conseguinte, servir, ao mesmo tempo, ao mundo e a Mim. Pois, sendo amigo do mundo, tornas-te inimigo do Meu Coração.

Se seguires o mundo, com ele perecerás. Se aderires ao Meu Coração, irás para a vida eterna. Se expulsares do coração o mundo e os princípios mundanos, afim de oferecer-Me um coração puro, tua oblação ser-Me-á grata e honrosa, e reverterá em tua glória e mérito. Os anjos e santos aplaudirão o teu proceder e o mundo mesmo ver-se-á forçado a admirar tua heróica grandeza de alma.

Bem-aventurado, Meu filho, é o que aparta do mundo os seus afetos para consagrá-los só a Mim!

Que encontras no mundo para amá-lo? Tudo o que nela há é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e orgulho da vida, cujo fim é a morte e o inferno.

Com efeito, se amas o mundo ou as coisas que lhe pertencem, caís na eterna perdição. Que bem te fez o mundo para lhe consagrares teus afetos? Nunca te fez nem fará outra coisa senão o mal. Como podes, então, dar-lhe teu coração?

Não confies, Meu filho, nas lisonjas e aplausos do mundo, que só exprimem o secreto desejo de iludir-te e perder-te. Obedece, porém, aos convites do Meu Coração desejoso de livrar-te da eterna desgraça que o mundo te prepara. Se não abandonares o mundo, serás por ele abandonado, depois de haveres consumido as forças em servi-lo. Rirá com escárnio à hora da tua morte, e, quando mais necessitares de auxílio, ver-te-ás só e impotente. Reflete com freqüência se, prestres a entrar na eternidade, desejarias ter seguido a Mim ou ao mundo.

Por isso, faze agora com mérito o que dontro modo sem mérito deverás fazer. Esforça-te por desapegar o coração do amor aos bens terrenos e triunfa do mundo por separação perfeita.

Confiança, filho, Eu venci o mundo. Se quiseres, vencê-lo-á também. Após a vitória, dar-te-ei morada aprazível em Meu Coração.

Discípulo. - Ó Senhor! Quão insensato foi o meu proceder! Quão perversa a minha vida! Seduzido de bom grado pela aparência de prazeres, lucros e honras, abandonei-Vos para escravizar-me ao mundo, Vosso inimigo. Deixando a fonte de todos os bens, desci ao pântano pestífero do mundo, Inebriei-me em suas águas envenenadas. Louco e insensato, despojei-me de tudo. Esquecido de Vós, meu Deus e meu tudo, entreguei-me inteiramente ao mundo, e profanei em seu serviço os Vossos dons: meus sentidos externos e minhas faculdades internas. Tornei-me em extremo culpado.

Minha alma foi repleta de males; minha vida aproximou-se do inferno.

Vossa cólera passou sobre mim e o terror perturbou-me, de modo que dia e noite me sentia infeliz (Sl 87, 4.17).

Ah! bom Jesus! Mesmo quando, impelido pelo excessivo pavor do Vosso julgamento e pelo medo do inferno, decidira viver bem, qual não foi minha fatal ilusão! Quão pernicioso não foi o meu erro! Dividi o meu coração entre Vós e o mundo, que, querendo servir juntamente a ambos. Que grave injúria Vos fiz, igualando-Vos ao mundo!

Assim, não consegui satisfazer nem a Vós nem ao mundo e sentia-me infelicíssimo, pois, não me contentando conVosco nem com o mundo, em nenhum dos dois encontrava a verdadeira felicidade. Agora, porém, que me abristes os olhos e me tocastes o coração, ó Senhor Jesus, só a Vós servirei. E desde há Vos consagro todo o meu coração para sempre.

Tirai, eu vo-lO rogo, desse meu coração todo amor do mundo. Transformai para mim em verdadeiro amargor toda a sua aparente doçura. Enchei o meu coração com a suavidade do Vosso amor, e o mundo inteiro com todas as suas vaidades tornar-se-á insípido para mim.

(A Jesus os corações ou imitação do Sagrado Coração de Jesus pelo Pe. Pedro Arnoudt S.J, editora Vozes LTDA Petrópolis, ano de edição 1941)

PS: Grifos meus

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Jovens donzelas, o que a Igreja na realidade vos dá

JOVENS DONZELAS E A IGREJA


O QUE ELA NA REALIDADE VOS DÁ

Assim pensais nas horas menos felizes. Ou antes: assim pensa em vós o que há de menos bom, de menos claro e de menos generoso...

Ah! minhas filhas, a verdade é essa.

Vossa fé

Tendes fé. E isso é uma grandeza, quando se pensa nas que se agitam nas grandes dúvidas ou se imobilizam na incredulidade que nega! E isso é uma luz, quando se pensa nessas almas tenebrosas, num sistema de portas fechadas, sem sol íntimo, que não sabem, não vêem, não se servem das próprias mãos para tatear nas pedras indicadoras do caminho.

Essa fé, de quem a tirais vós? quem vo-la ensinou? quem vo-la conserva? Pensais que sem a Igreja em quem ireis crer então? em que garantias?

Vossas esperanças

Trazeis no coração as ardentes promessas da esperança cristã. E isso já é muito... Só elas mantêm a cabeça erguida, o olhar luminoso sob as lágrimas que às vezes o empanam. Sem essas esperanças, como viver? Como viver, sobretudo quando tantas decepções fazem curvar a cabeça para o repouso tentador da terra, e quando não sendo vocês compreendidas, amadas e felizes, sentis as mornas tristezas amontoar-se, como brumas, ao redor de vossos corações?

Esta quente esperança, princípio de energia, fermento de otimismo, quem é que vo-la mantém, bem alta no céu? Não é sempre a Igreja que canta a suave canção?

Se ela se calasse, quem é que em seu lugar, e com o acento que penetra, modularia o divino acalento para os recém-nascidos e os mortos?

Vosso amor a Deus

Amais a Deus, jovens. Só há carne e sangue, só há lama em vossos corações. Ora, já refletistes no extraordinário que significa tal amor num ser humano? Amais a Deus, pouco ou muito, mas afinal de contas sempre O amais.

Talvez que o desejo de O amar cada vez mais vos atormenta; ou talvez o pesar de não O amardes bastante. Acima de todas as vossas ternuras, paira esse grande amor, como uma luz cálida que matiza a alma. Está no fundo dessas mesmas ternuras, para as vivificar, para as idealizar continuamente e, falhando, para vos consolar de suas insuficiências. Amais a Deus; dizeis-Lhe: "Nosso Pai"; dizei-Lhes: "Meu amigo"; dizei-Lhes: "Vós", e estais certas de sua resposta de amor. Amais Deus em a natureza, obra Sua; em vossa consciência, Sua voz; em Jesus Cristo, Seu Filho e o vosso Irmão... vós... Deus... E, de um o outro, o amor.

E quem vo-lo deu, esse amor o mais belo presente com que enriquece a vida? Fora da Igreja de Jesus, ama-se a Deus? Para amar, seria preciso conhecer. E Deus, esse inexprimível mistério, só nos diz Seu verdadeiro nome pelos lábios de Cristo, não nos faz Sua indiscutível Revelação senão no coração de Cristo... Mas Cristo e a Igreja, isso é uma coisa só (Cabeça e corpo). A Igreja, dando-vos Deus, dá-vos Seu amor por vós, vosso amor a Ele...

Fechai os olhos, jovens, para esta suprema confidência. No grande silêncio íntimo ouvi estas palavras: "Ele me ama... Eu O amo". Deixai que se propague seu eco pelo fundo dos vossos sonhos, das vossas tristezas, das vossas vastas aspirações...

É então que, radiantes e emocionadas, reconhecereis o que à Igreja estais devendo, a essa Igreja à qual estais devendo o amor de Deus.

Vosso profundo coração

E não é ela ainda que, ensinando-vos o amor de Deus, vos ensina as leis supremas de todo o nobre amor?

Pode-se fazer do amor um egoísmo ou dissimulado, uma violenta sensualidade, uma facécia, um jogo barato, ou um drama de sensação... Pode-se fazer dele um dom, discreto e magnífico; uma oferenda até à imolação; o sacrifício de uma pessoa para a alta felicidade de outra. Cristãmente, é o amor total. Aplicado a Deus, aplicado aos seres aos quais nEle se ama.

Vosso coração, jovens, pensa que isso é que é o amor, eu o espero, e se prepara para realizá-lo.

Mas onde é que se lê a fórmula de tal amor? Nas palavras do Templo pagão? De modo algum... Por quem foi trazida sua mensagem? Pela voz da carne e de sangue? Não! Não! A carne é egoísta e fraca; só a natureza, abandonada ao seu instinto, absorve, monopoliza, devora...

Esse amor formulou sua Lei, numa noite de quinta-feira, à Ceia; numa tarde de sexta-feira, no Gólgota. Amar, o que se faz quando se ama, isso o ensinou ao mundo Aquele que segurava o pão consagrado. Agonizando, morrendo, morto, na Cruz sob um céu negro como chumbo, dizia o Amor, era o amor.

Naquelas em que caiu uma só gota desse sangue, o coração está vivo desse amor. E com as outras, como é? De onde tomariam este segredo, que só se lê no fundo do coração de Cristo? Onde o beberiam, quando é Ele a Fonte única?

Então, jovens! Jovens que, aos dezoito anos, quando rufiais as asas para a partida, ides para o Amor-Caridade que vos sacrifica; ó Irmãzinhas, ó Missionárias, a todas vós, dolorosas e abandonadas da vida, é Cristo que vos impele... é a quente mão da Igreja que vos conduz... Duro? Sim, é duro, mas não deixa de ser glorioso. Se a Igreja só houvesse aberto à mocidade um tal caminho de viagem, seria o bastante para verdadeiramente a bendizermos, pois nesta hora generosa estais supremamente belas, com o rosto iluminado e calmo... As filhas dos Patrícios, na Roma antiga, não tinham tal brilho. Agora mesmo ele se extinguiria, nesta mesma tarde, se a Igreja deixasse de perpetuar a Cristo. Uma vez apagada a Luz do mundo, aonde iriam buscar o puro esplendor? Uma vez repelido o Sal, quem preservaria da corrupção nossos fracos corações carnais?

E então, vós, jovens, que, sonhando, com o amor humano, sonhais ao mesmo tempo com a dedicação absoluta, com a união perfeita de dois no culto à Verdade única; quando preferis este futuro de amor ao abrigo de um trêmulo pudor, numa límpida pureza, num exercício cotidiano de obscura fidelidade; quando acumulais, não as desperdiçando, vossas reservas de inviolada ternura; quando colocais o infinito de Deus na espécie de infinito de vosso pobre coração - praticais o amor cristão. Fazeis florir sobre a terra a flor verdadeiramente divina da vossa juventude. Flor das alturas, que não se via desabrochar no tempo em que o "Sol da justiça" ainda não aquecia a terra...

No entanto, sem a Igreja, mestra e mãe, rica de Cristo e de Seus Sacramentos, teria nascido esse amor? Nascido, teria vivido? Ai!...

Abençoada seja aquela a quem, mais de que a ninguém, o mundo o deve. E vós, depositárias de um tal tesouro, não cometais a ingratidão de esquecer a Igreja, da qual o recebestes, e a mão que vos protege contra tantos ladrões emboscados à margem dos caminhos...

Vossa verdadeira grandeza

Foi pela Igreja e nela que subistes às alturas. Que nobreza, que grandeza a vossa, na pessoa de tal ou qual de vossas companheiras que o mundo admira sem reservas!

A jovem isolada torna-se quase fatalmente o ser ameaçado e fraco, que sonha e que treme. Sua idade e seus encantos constituem para ela um perigo. E são tantas as vezes em que celebram sua beleza para a explorarem indignamente! Freqüentemente, para ela, o pedestal não passa de um meio de cair de mais alto, e, caindo, de se fazer maior mal.

Mas eis que ao calor maternal da Igreja ela se ergue, ereta, abrigada e intacta; alta a coragem viril à graça virginal; nas mãos, sustenta o lírio e a arma da batalha; e assim, onde os homens são vencidos e cedem, ela triunfa.

Citemos nomes: Águeda, Inês, Blandina a escrava, Joana d'Arc a libertadora, Bernadette a vidente, Teresa a Carmelita, e outras, inúmeras outras, vestidas de branco ou de púrpura, sorridentes e castas, glória de seu povo, honra de uma raça. Jovens, sim, mas realizando o ideal. Perante elas a zombaria expira, inclinais-vos com respeito, a admiração entusiasta vos confunde, inspirando-vos louvores ardentes.

Nessas generosas campanhas, como sois belas! E, no culto que lhes presta o mundo, que confissão de vossa augusta grandeza! Este mesmo mundo, que tão depressa procura fazer de vós criaturas miseráveis, julga-vos aqui mais fortes que ele. O respeito que aqui vos presta é uma confissão de sua própria derrota.

A tais alturas só a Igreja vos pode elevar. Olhando para estas heroínas da pureza, da humildade, da caridade, olhai para a vossa própria imagem e orgulhai-vos de vós mesmas naquelas de quem vos sentis tão orgulhosas.

Que a Igreja vos seja cara, por vos haver dado de vós próprias tão alta idéia. Entre os serviços a prestar a uma criatura, não é esse um serviço eminente que lhe ensina a dignidade e, quando se trata de uma jovem, a força a crer em seu valor desdobrando-lhe, nos cumes luminosos, o desfile magnífico de suas irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo?

Terei a coragem de o dizer? É preciso que o diga. Sem a Igreja, não só jamais passaria o desfile magnífico pelos cimos luminosos, mas ela própria se arrastaria, pelos barrancos ou pela planície, a caravana das pobres jovens. Assim como antes de Cristo ela caminhava, assim caminha hoje sem Cristo. E, onde Ele deixar de estar, recomeçará ela sua viagem...

Não tenhais ilusão, por favor... Certamente que o grupinho das muito belas, muito inteligentes, muito ricas terá seu êxito fácil e seu prestígio passageiro... Mas é só um grupinho. As filhas dos Patrícios não passavam de uma ínfima minoria em Roma.

E as outras? as outras? O conjunto? Vocês? Se o paganismo integral recobrir a terra, com sua doutrina de aniquilamento e sua moral de imoralidade, que será da jovem? Que respondem os que aprenderam as lições da história e conhecem, no fundo da natureza humana, as terríveis potências do egoísmo? Que será da jovem? Será o que já foi, e por muito tempo...

Sobre esta miséria, deixemos cair o véu por detrás do qual ainda talvez se ouçam algumas gargalhadas, mas principalmente lamentações, apelos dolorosos, pedidos de libertação e o morno silêncio trágico das inocências perdidas...

No triunfo cristão da Igreja ninguém ganhou mais que a donzela, pois ninguém mais que ela tinha tudo a perder da devassidão antiga e da primeira brutalidade.

Não é a moda, não é a dança, não é a "liberdade" concedida ás paixões que, emancipando-vos, vos engrandecem... Serieis ingênuas se assim pensásseis. É antes de mais nada a Igreja, e serieis ingratas se o esquecêsseis; injustas se o desconhecêsses.

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr.M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post: O que ela vos pede)

PS: Grifos meus.

III- A CHAVE DOS CORAÇÕES

A BELEZA DE MARIA
III PARTE


III- A CHAVE DOS CORAÇÕES

A verdadeira beleza - já o dissemos no início deste quarto motivo - é a beleza da alma, é a virtude. Ora, a virtude é o verdadeiro e o bom; portanto, fora dela, tudo é mentira ou erro.

É verdade que a beleza da alma, do coração e do espírito é uma qualidade abstrata, que não cai diretamente sob os nossos sentidos; por conseguinte, ela nos impressiona menos que uma qualidade exterior ou mais tangível.

Nada há comparável com o homem interior, o contemplativo até à alma, e se deixa encantar e cativar pelo íntimo. O comum dos homens ignora demais o gozo destas belezas e permanece demais na superfície, não se deixando impressionar senão pelo que podem perceber, donde se segue que a beleza exterior se torna "a chave dos corações".

E Deus, que quis fazer de Maria uma "arrebatadora dos corações", como diz S.Bernardo, devia dar-lhe ainda este encanto, este atrativo, a fim de que todos os corações se abrissem à Sua presença e se sentissem cativos desta pura e inefável beleza.

Se, entre nós, toda alma verdadeiramente grande aparece, por assim dizer, sobre o rosto e lhe transfigura os traços; se à medida que nos tornamos mais perfeitos, se reflete sobre a nossa fronte uma beleza sobrenatural que comove, que não deveria ser desta fisionomia em que apareceu a alma mais nobre que houve depois que Jesus Cristo; o que não deveria ter sido este olhar em que brilhavam a majestade na humildade e a doçura na força; o que não deveriam ter sido estes lábios em que se ostentavam a bondade e a mais condescendente benevolência?...

Inteligência profunda, coração incomparável, espírito superior e tudo o que encerra a beleza moral, aliado ao que a beleza física tem de mais expressivo e mais atraente, não era este o apanágio e auréola sagrada da pura e imaculada Mãe de Jesus?...

Sim, havia harmonia perfeita entre as luminosas perfeições interiores e Sua expressão visível no exterior. E teria faltado qualquer coisa à excessiva nobreza de nossa Rainha, se os Seus membros não tivessem possuído o encanto exterior pelo qual os homens se deixam vencer facilmente, e se não tivesse tido, para chegar aos corações, esta chave mágica que lhe dá tão facilmente acesso?...

Como é bela a alma imaculada de Maria, passando através do corpo, irradiando-se nos traços de Seu rosto, como um raio de sol través da folhagem das árvores, pois Deus, na Sua industriosa sabedoria, quis que a nossa carne, por vil e grosseira que seja, tivesse, entretanto, esta glória de se deixar penetrar pelo espírito. Ela não é o invólucro opaco de uma luz absolutamente oculta, mas, trabalhada por Deus, ela se espiritualiza e se esvazia e se torna diáfana.

Nela Deus prepara aberturas secretas pelas quais a alma vem à luz. Com que alegria nós saudamos sobre um rosto amado esta aparição da alma! Da alma, digo, que se revela tão terna e luminosa no olhar, tão casta e pensativa nos contornos da face, tão compassiva e carinhosa num não sei quê de Seus lábios, tão graciosa no sorriso, tão indefinidamente misteriosa neste conjunto que chamamos "a expressão".

A expressão: isto é, a alma, o coração e o espírito vistos através de um véu e se desembaraçando deste véu incômodo para irradiá-la até ao âmago dos corações, para aí levar o seu reflexo e gravar a sua imagem.

Oh! sim, esta beleza era a Vossa, ó encantadora  Mãe. Tudo o que havia em Vosso coração de amor puríssimo, de bondade, de generosidade, de heroísmo, de resignação, de piedade e de caridade para com os homens, se devia reunir em um único facho de viva luz; e qual não devia ser o brilho desta luz inefável, manifestando-se no Seu olhar e aflorando aos Seus lábios?...

Quem tentará dizê-lo? Já é muito imaginá-lo.

Sem o querer e quase a meu pesar vem o espírito um pensamento e, se não houvesse dissonância entre o nome do autor e o assunto de que tratamos, quereria colocá-lo: é de Platão.

Há uma simpatia íntima, diz este filósofo, entre a pureza, a verdade e a beleza; o que é mais puro é essencialmente o mais verdadeiro e o mais belo.

Não é isso um resumo da beleza de Maria?

Que pureza encontramos nós na Virgem e, portanto, que beleza!
Sua beleza era mais divina que humana.

Os sentimentos que Ela inspirava às almas deviam ser celestes.
Ela tinha a virtude da beleza.

O grande S. Dionísio Areopagita, tendo estado à presença da Santíssima Virgem, ficou de tal modo deslumbrado pelo esplendor da beleza e da majestade que resplandeciam de Seu rosto, que caiu por terra. Tendo, em seguida, voltado a si, alegrou que, se São Paulo não lhe tivesse ensinado um outro Deus e que se a fé não o tivesse feito já adorar, ele teria crido firmemente que a divindade não podia ter escolhido outra sede na terra do que a fisionomia dEsta santa soberana.

A respeito desta consideração, exclama Santo Anselmo: "Ó Virgem santa, Vossa beleza é tão rara que se diria não terdes sido criada, senão para deslumbrar os corações daqueles que contempláveis. Ó Virgem admirável e admiravelmente única!" (Liber. Orationum)

"À exceção de Deus, já antes dele, dizia Santo Epifánio, Ela sobrepuja todo o resto em beleza. Ela está acima dos querubins e dos serafins e foi ornada da mais perfeita beleza".

São Bernardo vai ainda além e diz que "a beleza da Santíssima Virgem, tanto da alma como do corpo, é tão grande, que chegou a cativar a afeição do Rei da glória". (Serm. de S.Delp.)

Santo Agostinho, enfim, exclama com admiração: "Ó Maria, depois do celeste Esposo, sois toda beleza e toda agradável, toda glória, sem mácula, ornada de toda beleza e enriquecida de toda santidade". (Serm. de Incarnat. Christi)

Que poderíamos acrescentar a tais encômios?...

"Pode-se, pois, sem medo de errar, como diz o Pe. Bethier, reconhecer-Lhe todos os dons da natureza, que Deus concedeu a todas as criaturas, pois não se pode crer nem é piedoso pensar que o Senhor, que é tão liberal em Seus dons para com os mais ínfimos seres, se tenha mostrado avaro para com a Sua divina Mãe". (A Virgem Maria)

Portanto, Ela era bela, possuindo todos os encantos da natureza e da graça. Tudo o proclama!

Aliás, todas aquelas criaturas que A figuraram na Bíblia eram amáveis e fortes. Ela própria devia ser o símbolo de todos os encantos e de todos os esplendores da virgindade, da humildade e da força.

Necessário foi, pois, que houvesse razões bastante poderosas, para que a beleza de Sua alma não fosse de modo algum visível em Seus traços e que um organismo estiolado servisse de suporte a estas energias sobrenaturais.

"Não há dúvida alguma, dis Santo Alberto Magno, que, assim como o Seu divino Filho era o mais belo dos filhos dos homens, Maria tenha sido a mais bela das filhas de Eva. Ela era dotada de toda a beleza de que é suscetível um corpo mortal".

Os santos padres e doutores são como inesgotáveis, ao falarem de Maria. Aliás, o Espírito Santo resumiu-os todos, ou, antes, eles todos não são mais que o eco longínquo da palavra do Espírito Santo: "Tota pulchra es, amica mea, et macula non est in te. Sois toda bela, ó minha muito amada, e em vós não há mácula alguma".

A beleza, já o  dissemos, é a chave dos corações.

Oh! possa a celestial beleza da Virgem Maria fazer impressão sobre o nosso coração, abri-lo todo à dedicação e à inteira veemência de amor que deve suscitar a Sua beleza e a Sua graça: "Specie tua, et pulchritudine tua, intende, prospere procede, et regna!"

"Pelo aspecto de Vossa beleza, ó Virgem Santíssima, vinde e reinai sobre nós!"

(Por que amo Maria, Tratado substancial e completo dos principais motivos de devoção para com a Virgem Maria segundo os Santos Padres, os Doutores e os Santos; pelo Pe. Júlio Maria, missionário de Nossa Senhora do SS. Sacramento; Editora Vozes, ano de 1945)

PS: Grifos meus.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Os deveres dos filhos

Os deveres dos filhos


199- Os deveres dos filhos para com os pais. Em virtude de piedade filial, os filhos devem a seus pais:

1- Respeito tanto interior como exterior.

Os filhos podem faltar ao respeito com desprezo interior, com palavras ofensivas, desestima, violências. Um mau trato insignificante, mas sério, pode ser pecado grave. Falta também ao respeito quem se envergonha do pais, quem os renega por causa de sua baixa condição, de seus vestidos pobres etc. - Não falta porém ao respeito que, com boas intenções e sem desprezo interior, emprega força contra os pais que perderam o uso da razão (p. ex. em casos de loucura, debilidade senil, embriaguez), para impedir que façam alguma coisa inconveniente. O mesmo vale do filho que por justo motivo (p. ex. por um crime deles) não quer ter consigo os pais, contanto que lhes dê o conveniente auxílio.

2- Amor em pensamento e obras

São pecados contra o devido amor: aversão, imprecações, ódio, palavras e ações ofensivas, causar desgosto, não rezar por eles, não os ajudar em suas necessidades espirituais e temporais. - Quando os pais se acham em grave necessidade, os filhos não podem entrar na vida religiosa se lhes puderem valer ficando no mundo. Não está obrigado a pagar, depois da morte dos pais, as dívidas deles quem não herdou nada, nem ainda no caso em que as dívidas tenham sido feitas em prol da educação dos filhos.

3- Obediência em todas as coisas lícitas, relacionadas com a sua educação ou com a ordem doméstica.

A desobediência é pecado grave, quando se trata de coisas importantes e os pais derem verdadeira ordem. - Em questões educativas,o dever de  obedecer perdura até a maioridade. Portanto não é lícito a menores incumbirem-se, contra a vontade dos pais, de certo trabalho ou tomar emprego. É claro que são livres na escolha da vocação. - Também os maiores devem obedecer em coisas relativas à ordem doméstica, enquanto moram na casa paterna, (p. ex. voltar de noite à hora marcada). Antes de casar, os filhos peçam o conselho dos pais; desprezar um conselho prudente dos pais de ordinário é somente pecado leve.

(Compêndio da moral católica, Pe. Heriberto Jone O.M.Cap.; Doutor em Direito Canônico e professor de Teologia, traduzido da 10ª edição original e adatado ao Código Civil Brasileiro bem como às prescrições do Concílio Plenário pelo P.Roberto Fox S.J, edições A Nação, 1943)

Quando o céu se cobrir de nuvens

Quando o céu se cobrir de nuvens



Se durante muito tempo não movermos uma pedra, ela se cobrirá de musgo; se deixarmos de fazer exercícios físicos, os membros ficam flácidos. O mesmo vale da fé: quem não pratica sua religião, é envolvido primeiramente pelo musgo da indiferença; em seguida vêm as dúvidas; e o fim qual será?... Fé tíbia, e talvez descrença completa.

Não deves, portanto, apenas salvaguardar tua fé; deves vivê-la. Exercita-a na oração. Reza, todas as manhãs o "Credo em Deus", lenta e devotadamente. Rende graças a Deus, porque te fez nascer na verdadeira fé católica. Principalmente, porém, pratica-a por uma vida ideal que busca na religião suas forças. Como causa primordial dos desvios fundamentais da alma de muitos e muitos jovens, podemos indicar o fato de manifestarem em sua vida, um espírito de fé deploravelmente mesquinho. A religião teórica, que se não manifesta em prática, vale tanto como um carro sem eixo.

Por essa razão compreenderás, embora te pareça curioso à primeira vista, o conselho que uma vez dei a um moço: Ele se queixava: "Quisera crer, mas não posso".

-"Meu caro, faça violência à sua vontade! A fé é graça divina, mas supõe a vontade humana. Sim. Deus concede a graça; depende porém do homem querer colaborar com ela ou não. Não pode crer? Pouco importa! repita o clamor dos apóstolos: "Senhor, robustecei nossa fé!" (Luc. 17,5). Ou diga como o pai da criança doente: "Creio Senhor, ma aumentai a minha fé!" (Marc. 9,23). Você murmura que a oração o deixa frio, que não acha atrativo na Santa Missa, que a vida religiosa lhe é enfadonha. Ainda uma vez, pouco importa! Apesar de tudo, recite conscientemente as orações de costume; apesar de tudo procure seguir as orações da missa, do princípio ao fim".

"Mas uma religiosidade assim forçada, de nada vale", dirás talvez.

"Engano! O Pai Celeste não considera os resultados, mas sempre leva em conta a boa vontade. Aceita com complacência a luta de nossas vontade contra a preguiça e as tentações".
Quando pois te atormentarem dúvidas contra a fé, embora o faças a contra-gosto, não deixes de rezar com regularidade e freqüentar os sacramentos da confissão e da comunhão. O jovem que reza, confessa e participa do Banquete Sagrado não perderá a fé, muito embora o assaltem as mais terríveis tentações. Repete a miúdo esta oração:

"Senhor, não posso crer! Ou, pelo menos, parece-me que o não posso. O ceú se tolda, sobre a minha cabeça... mas, quero crer em Vós, Senhor! Quero, sim, quero crer! Ajudai-me contra a incredulidade!"

(A religião e a juventude, pelo  Monsenhor Tihamér Tóth, 2ª Edição, editora SCJ Taubaté)

PS: Grifos meus.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O ideal do homem sábio: Ser de Jesus

O ideal do homem sábio
Ser de Jesus


Ser de Jesus!

Quão sublime é este ideal, único capaz de satisfazer o coração humano. Procurai corações felizes sem este ideal, e tereis de constatar que não os encontrareis. Sem Jesus não há felicidade, porque Ele é o autor da verdadeira felicidade.

Lançando um olhar sobre o mundo das almas, temos de verificar que na maior parte destas não existe este ideal sublime - "Ser de Jesus". Por que esta triste realidade? Porque esta maioria não conhece a Jesus, este Jesus tão bom e tão amável, que, passando por este vale de lágrimas, atraia a Si os enfermos, as criancinhas, os pobres, os aleijados, e a todos consolava com a Sua inefável doçura.

Procuremos conhecer a Jesus, vamos juntos ao Seu Divino Coração, porém antes que Jesus se de a conhecer às nossas almas, procuremos levar em nossos corações a Sua Mãe Santíssima. Apresentando-Lhe este riquíssimo tesouro, Ele descerá até nós, e nós O poderemos tomar como norte de nossa vida. Assim norteados por Jesus, a nossa felicidade será completa, e então a poderemos dividir com todas as almas que aspiram a verdadeira felicidade, que a procuram e a não acham, porque ela só se encontra em Jesus!...

(O bom combate na alma generosa, Instituto das Missionárias de Jesus Crucificado - Campinas - 1ª Edição, ano de 1936, com imprimatur)

A poderosa arma da oração

A poderosa arma da oração

(clique na belíssima gravura para ampliá-la)

"Se falta a oração, logo vai tudo de capa caída; logo entra a tibieza; logo pouco a pouco principia a alma a enfraquecer-se e a murchar e a perder aquele vigor e alento que tinha; logo, não sei como, desaparecem todos aqueles santos propósitos e pensamentos santos que tínhamos antes, e principiam a despertar a reviver todas as nossas paixões: logo se encontra o homem amigo da alegria vã, amigo de conversar, rir e folgar e de outras semelhantes vaidades; e o que é pior, logo renasce o apetite da vanglória, da ira, da inveja, da ambição, e outros semelhantes que antes pareciam mortos".

(São Boaventura citado no livro: Exercícios de Perfeição e virtudes cristãs pelo V.P.Afonso Rodrigues, Tomo I, 5ª edição, Gráfica Lisboa, ano de 1946)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A morte do pai cristão

A MORTE DO PAI CRISTÃO


A bênção do pai fortifica a casa do filho.
(Eccl. 3,11)

Morre-se sozinho, disse Pascal. Ninguém nos acompanha no último trajeto da vida. É necessário enfrentarmos a sós a obscura passagem. Há, todavia, alguém à nossa espera do outro lado oposto "quando voltamos do vale das lágrimas e das dores". É nosso Pai que está à porta da mansão celestial; é Deus, o meu Deus, meu Pai, cuja bondade foi até o extremo de sacrificar o próprio filho para me possibilitar a entrada no céu.

Também o pai morre sozinho, e para ele essa solidão é talvez mais dolorosa do que para os demais mortais, precisamente porque a sua vida pertenceu sempre aos outros; naquele instante, porém, eles não podem valer-lhe, morre sozinho.

A separação não é para ele uma dolorosa renúncia, pois tudo o que de precioso possui deu-o aos filhos. Não tendo procurado a felicidade nesta terra, não o atormenta a dor de ter que deixá-la. Qualquer que tenha sido a sua vida, breve ou longa, ela foi completa, inteira, porque foi pai. O pai preparou-se para deixar o mundo. Em todas as bênçãos que pronunciou sobre os filhos foi-se despedindo deles; com elas deu tudo aos que abençoava; consagrou assim todas as coisas temporais na verdade.

Não tendo vivido para si mesmo tem direito à vida eterna. A paternidade é, não nos cansamos de dizê-lo, renúncia e amor.

Com o seu amor o pai passa do tempo à eternidade. Sua renúncia separa-o, neste mundo, dos filhos; entrega-os ao mundo, ao povo, à Igreja, com a finalidade de uni-los mais fortemente a si, na eternidade.

Morrendo, o pai retorna à verdade, pois vai entregar nas mãos do Pai a paternidade que dEle recebeu. Morrendo solitário parte ao encontro de Deus na solidão, superando a dor do desapego na plenitude feliz da unidade. Dando tudo aos filhos opulentou-se sempre mais, pois deu por amor e com amor, e é precisamente doando que o amor se enriquece. Se isto não for presunção podemos dizer que o pai aumenta as coisas pertencentes a Deus, pois devolve a Deus aumentada, a paternidade que dEle recebeu.

A vontade do pai trespassado está completamente absorvida pela vontade do Pai celeste. A sua morte não se verifica de uma só vez; a sua partida iniciou-se no dia em que ele gerou os filhos para a vida espiritual. Naquele parto (espiritual) começou a sua volta para Deus. A missão do pai não pertence ao tempo, mas à eternidade. Se sua vida foi um sacrifício, a consumação do mesmo dá-se na morte. Quando o pai deixa este mundo a família passa do presente para o futuro. Este dia é tão grande para a família como o dia em que o pai abençoa pela última vez os filhos.

Aqui parece claramente que o renascimento do cristão à verdadeira vida realiza-se na medida em que ele morre à vida, consagra e santifica essa mesma vida. Ninguém vive para si, menos ainda na hora suprema da morte. Quando retornamos ao Pai encontramos nEle o nosso fim, no seu amor pelas criaturas.

Morrendo, o pai radica-se na eternidade; não sozinho, mas com toda a sua família. Jesus Cristo conquistou com a Sua morte a vitória da humanidade. Como um alter Christus o pai oferece o mesmo sacrifício quando morre abençoando a família.

Um pai cristão não morre. Os filhos que rodeiam o leito do agonizante recebem a última bênção como um ato heróico oferecido para a santificação da família. Após a morte o pai vigia sobre a herança cristã, administrada por ele durante a sua existência, entregue agora aos filhos. Se foi abençoada marcou um acréscimo ao reino de Deus.

Ele creu e amou, por isso Deus lhe dará o reino. Mediante a fé o homem une-se ao passado, mediante o amor o pai torna-se fecundo no futuro.

Ninguém pode morrer com o coração tão cheio de confiança como o pai. Muitas vezes foi-lhe confirmada a promessa da vida eterna aos filhos e netos. É possível que alguém dos que trazem o seu sangue nas veias se perca, mas, com a graça de Deus ele não será responsável, muitos, porém, salvar-se-ão por seu intermédio. Nestes a sua descendência produzirá frutos para a vida eterna. Quem desejaria tornar-se pai, se com isso não esperasse aumentar, com os seus descendentes, o reino de Deus? Esse reino está na terra, todos o desejam, ninguém o experimenta, mas ele existe na esperança dos herdeiros.

Muitos dizem: eu creio na vida eterna; mas nessa fé há um grande receio de perder a vida presente. Como poderiam experimentar tal receio os que Deus favoreceu com a paternidade? isto significaria por a prova a confiança em Deus para as gerações futuras.

O pai contempla impávido a aproximação da morte. Eis o seu testamento:

Meus filhos, à vossa mãe e a mim, que em nome de Deus vos chamamos à vida, deveis a existência. Sois sangue do meu sangue, pois pela paternidade eterna fiz-vos meus filhos e entendo nunca vos abandonar. Eduquei-vos, introduzi-vos na vida; a vida que vivereis é em grande parte a minha vida. Dei-vos tudo que pude; santifiquei-me por vós. Se pertenceis às fileiras dos remidos o mérito é também meu. O que vos deixo como bens de fortuna é nada. Vale muito mais o meu bom nome, essencial, porém, é a herança cristã que vos deixo. Eis a minha bênção: crescei e multiplicai-vos! Sede felizes, mais felizes que vosso pai! Mas sobretudo tornai-vos melhores, mais pios, mais religiosos! Aumentai o reino de Deus entre vós! Então a minha linhagem será grande em vós e crescerá na eternidade. Eu morro para viver em vós. A minha bênção é também o meu obrigado; foi Deus quem vos deu a mim; indicaste-me o caminho que conduz a Deus, vosso é, portanto, o mérito de ter feito crescer, em mim, o homem. Obrigado.

(Paternidade, por José Kuckhoff, edições Paulinas, edição de 1954)

PS: Grifos meus.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

"Regnum Dei..." - O Reino de Deus

"Regnum Dei..." - O Reino de Deus


Desde que de Vossos lábios divinos saiu este modelo sublime de oração, o "Padre Nosso", (Mt. 6,10) que nossas almas suplicam na ansiedade dos desterrados a aurora da redenção: "venha a nós o Vosso reino" - "adveniat regnum tuum" - . Oração que muitas vezes foi regada com o suor dos apóstolos, e tinta com o sangue dos mártires. Não foram pois só palavras; aí estão vinte séculos de lutas, vinte séculos de um esforço titânico para, enfrentando os poderios de impérios e a resistência de civilizações pagãs, buscar-se a implantação do Vosso reinado na terra.

A Igreja não vive senão para isso. Os verdadeiros cristãos não desejam outra coisa; basta contemplar estas falanges denodadas da Ação Católica num esforço de gigante pelo triunfo de Vossa realeza.

Senhor, e se a nossa oração é defeituosa, se o nosso trabalho é insuficiente, eu Vos lembro os amores do Vosso Coração Santíssimo. Por que a Vossa encarnação no seio da Virgem e Vosso nascimento na manjedoura de Belém? Não era este o único objetivo de Vossa vida e o único fruto procurado com Vossa morte? A empresa é portanto tão Vossa como nossa, e até mais Vossa. Se o Reino de Deus se estabelecer no mundo, lucraremos infinitamente, porque participaremos da felicidade que Lhe é inerente.

Mas, Senhor, se a Vossa bandeira não tremular triunfante em todos os rincões da terra, a Vossa obra ficará falha, o Vosso sacrifício inutilizado, e o Vosso sangue estéril. E a Vossa promessa que por natureza é imutável e infalível!... Lançada a pedra angular garantistes o levantamento do edifício e a sua resistência a todos os embates do poder das trevas. (Mt., 16,18)

Tenho, pois, certeza absoluta de que o Vosso cetro dominará o mundo, e por isso a minha palavra não é bem uma súplica, é mais uma afirmação, uma esperança confiada que apenas aguarda o momento do Vosso triunfo definitivo e da minha felicidade completa.

Antevejo, Senhor, esta hora ditosa, quando diante de meus olhos brilhará a verdade nos fulgores de sua luz e minha alma se expandirá aos impulsos da vida. Erguido nas asas da santidade e cheio de graça, com a justiça nas mãos, a paz na consciência e o amor no coração... Que beleza de vida!... E tais são as prerrogativas do Vosso reino, como canta a Santa Igreja.

"Venha, Senhor, quanto antes esta hora, a hora de Vossa realeza, a hora da minha felicidade. "Adveniat regnum tuum" - reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz". (Pref. da missa de Cristo Rei)

Creio firmemente no domínio deste reino, e espero com certeza inabalável por que sei ser Vosso Coração todo amor e Vossa palavra divina. Mas, Senhor, em volta de mim a realidade é tão manifesta e a evidência dos fatos tão convincente! Entre os homens não encontro nem a sombra da verdade, "os homens mentem e vivem de mentiras", escreveu o maior filósofo da nossa terra. (Pe. Leonel Franca, "Psicologia da Fé") Sobre este pedaço de chão não existe vida, isto parece mais o reino da morte. Santidade e graça onde predomina o pecado, a corrupção, a devassidão, os costumes e o desenfreado das paixões!... A maior prova de que não há justiça nem amor é este terrível flagelo, a maior negação da paz, esta guerra que devora faminta e insaciável todos os povos.

Bem sei que respondestes a Pilatos não ser Vosso reino deste mundo. Lá no Céu, onde se vive em Vossa companhia e de Vossa vida, é o Vosso reino em todo o seu esplendor; ele é a plenitude de uma vida realizada aqui na terra. No Céu se goza do triunfo, aqui se conquista. O mesmo reino lá e cá, apenas em duas fases sucessivas. Quem não o possuir sobre a terra não o terá também na eternidade.

Senhor, mandai-nos o Vosso reino - "Adveniat regnum tumm" -.

(Elevações, pelo Pe. José Torres Costa, S.J., Sursum corda, 1946, com imprimatur)

PS: Grifos meus.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Jovens donzelas cristãs: Vocês e a Igreja

JOVENS DONZELAS CRISTÃS

Vocês e a Igreja


Jovens!...

A Igreja e vocês!

A Igreja sois vós!... Nasceu para vós!... Nascestes para ela!... A ela assistem direitos... a vocês imponde deveres!... Aos seus apelos correspondem vossas respostas!... O que vos dá, o que vos pede!...

O assunto é vasto, e o problema é solene. Há um passado inteiro que entra aqui em jogo, como há um futuro inteiro empenhado.

A Igreja, mãe dolorosa e grave, a fronte curvada de tantas angústias, os ombros sob o peso de tantas responsabilidades, vede, jovens, que a Igreja está olhando para vocês. E espera que, só em olhá-la, saibas compreender.

Não baixeis os olhos, não desvieis a cabeça. Isso não passaria de uma vil ingratidão. Sede simplesmente sinceras. Aparecei com vosso rosto em frente ao seu, deixai-vos iluminar pelos seus clarões.

Lede em sua face augusta a história dos trabalhos que por vocês cometeu e o programa de vossa missão, dessa nobre missão que para ela haveis de cumprir.

O que ela vos dá

O que não é só dela

Não foi a Igreja que através dos anos ocupou vossa vida, tratou de vossos insignificantes sofrimentos de criança, enxugou as pequeninas pérolas de vossas lágrimas. Entretanto, os que vos amaram e consolaram talvez o houvessem feito com menor delicadeza se a alma maternal da Igreja não houvesse penetrado profundamente neles.

Não foram seus lábios, ó jovens queridas, que vos depositaram nas frontes infantis o beijo das manhãs e das noites. Mas é bem possível que sem ela o beijo tivesse sido menos suave, porque o coração de vossas mães teria sido menos puro e a ternura menos divinamente profunda.

Não foi ela que vos ensinou a soletrar as sílabas, a pronunciar e a ler as palavras, a escrever as letras e os números... Mas quem sabe se não foi mesmo ela?... Quem vos mandou as professoras? e que seria da instrução do povo se a Igreja jamais tivesse existido? Lembrai-vos de que nesse mesmo século em que São João Batista de la Salle empreendia em alta escala a educação dos povos, Voltaire dizia isto:

"Há que proibir o estudo aos lavradores... Parece-me essencial que haja miseráveis ignorantes... O povo será sempre louco e bárbaro: são bois precisados de canga, agulhão e capim..."

O que absolutamente não é dela

Certamente não foi ela que vos cortou os cabelos "à la garçonne"... Ah! se o tivesse sido, quantos gritos, quantas indignações em nome da liberdade individual, do bom gosto, dos resfriados... Quantos protestos!... Mas não foi ela, não... Foram outros, bem outros altares, não nos seus, que se consumou o sacrifício... Não é ela a segadoura desta messe loura... Não é ela, não... Chega mesmo a não gostar que o tivessem feito... Inquieta-se... E vai se perguntando a si mesma... aonde é que isso vai parar... quem ganhará com tais práticas... Sabe que o problema da salvação não é um problema de cabelos cortados ou não cortados; por ter tido os cabelos por demais compridos, enforcou-se Absalão; por tê-los demais curtos, Sansão perdeu a força; por ser calvo, Eliseu faz-se insultar... E ela sabe de tudo isso... Pensa que há dois modos de tratar a harpa, um tendo-a na mão, para dela tirar sons harmoniosos, e outro que consiste em mantê-la suspensa dos salgueiros do rio, apreciando seu melancólico silêncio. Pensa também que os cabelos poderá uma jovem guardá-los em sua gavetinha, de reserva para a época em que a moda os exigir compridos, mas também entende que a jovem os poderá conservar na cabeça, lugar, afinal de contas, que lhes seria muito adequado...

Em resumo, senhorinhas, não foi a Igreja que vos cortou os cabelos, foi a moda, foram vocês mesmas... Não ela...

Não foi ela que encurtou vossos vestidos... Se a coisa só dependesse da Igreja, te-lo-íeis mais compridos... pelo menos um pouco mais compridos... Não foi ela que suprimiu as mangas de vossos vestidos... Quem foi então?

Não ela! Ao contrário, não se cansa de protestar... Não foi ela que inventou os decotes, os escandalosos decotes... Muitas vezes se envergonha de vocês, ó moças levianas, moças voluptuosas, moças tentadoras. E não poucas vezes vossa imprudência censura o gesto de pudor maternal com que ela cobre com um manto vossos ombros. Quando as filhas de Jerusalém se vestem como as filhas de Babilônia, o templo vivo não tardará a sofrer ultraje... Quando as cristãs se gloriam daquilo que para o Crucificado constituía um silencioso tormento, por onde é que anda o progresso do mundo? E que feiticeira é essa que seduziu as virgens prudentes?

Não foi ela que vos adornou as salas de baile nem ainda é ela que marca o ritmo do tango. Vê-vos dançar tomada de ânsias, ouve a cadência de vossos passos por sobre o assoalho. Aflige-se com vossa tranquilidade; surpreende-se com vossas audácias; escandaliza-se em ver a ronda noturna acabar em comunhão matinal...

Não é ela que alinha, nas vitrinas das livrarias, nos quiosques das cidades, nas bibliotecas das estradas de ferro, os livros tentadores, as brochuras licenciosas, todo um aparato de sedução, menos terrível que um material de tortura, mas muito daninho... Não é ela... Seu coração sofre bastante quando vossas mãos se estendem para estas coisas. Se pudesse, mais terna que brutal, haveria de as arrancar de vocês... Treme pelo que vos arriscais a perder; indigna-se com ver vocês todas entregarem-se inconscientemente aos atrativos mortais. Não compreende que vocês não compreendam...

Não é ela que vos propõe o "flirt", que prepara para vocês os encontros suspeitos; que combina os pós e os cremes para os olhos e a boca... Não é ela que vos diz, assim com um sorriso displicente, que "vosso amor é livre", que "vosso corpo vos pertence", que o "direito à felicidade" é a própria fórmula da vida...

Não é ela...

E eis porque todas essas -- e tantas -- para quem tudo isso (danças, toilettes, frivolidades, amor) é tudo, assumem perante ela, ou uma atitude de indiferença, visto que essa Igreja não serve para nada, ou uma atitude de desprezo, visto que essa Igreja nada entende disso, ou uma atitude de rancorosa hostilidade, já que essa Igreja estraga tudo...

Louquinhas, crendo-se sábias... Em boa verdade, são lógicas consigo mesmas. Pois, se comer, beber, rir, dançar, perfumar-se, enfeitar-se, namorar, gozar, se tudo isso é a vida, a Igreja nada tem que fazer ao meio desse negócio...

Ou então ela é demais aqui na terra, já bastante infeliz, para vir oprimi-la mais ainda com suas censuras, suas proibições, suas perpétuas intervenções na felicidade humana, como se estivesse empenhada em dar cabo dela!

O que ela parece fazer contra vocês

Realmente, a Igreja está em toda a parte, ao longo das estradas, pelas encruzilhadas, nas praças, pelo limiar das casas.

Com olhar vigilante, ora de quem ameaça, ora de quem acusa; o braço erguido, como que para dispensar a cavalgada dos prazeres; o dedo sobre os lábios, como que para impor silêncio à canção alegre.

Que adianta negá-lo, minhas jovens? A Igreja parece estar trabalhando contra vocês, e há em vós, nas horas más, um mundo de pensamentos e de emoção que se revolta a missão que ela desempenha.

Ergue barreiras diante da independência de vossos vinte anos, afixa cartazes com estes dizeres: "Transito impedido". Na árvore dos prazeres, onde a serpente trama seduções, para quantos frutos aponta com a marca de frutos proibidos! Venda os olhos da mocidade para esconder dela o que os instintos desejam...

Em vosso coração, limita o direito a qualquer amor, como em vossos lábios a qualquer declaração ou beijo... Seus preceitos, seus habituais conselhos, suas constantes diretivas em matéria de "toilette", de diversões, de visitas, parecem inspirar-se numa desconfiança de vocês mesmas, numa vontade clara de vos por limites à felicidade, numa preocupação em esconder vossa beleza.

Quanto tantas vozes vos chamam, é ela a única a dizer-vos: "Não vades..."

Bem no fundo de vossas culpáveis alegrias, é ainda ela que mantém impiedosamente o remorso. Martiriza o coração, mandando que o conserveis puro e livre. Faz-vos sofrer, deixa-vos chorar, conservando perante vossas fraquezas, luminoso e exigente, o ideal cristão que as condena.

Impede que constituais vossa felicidade à custa do pecado e que pagueis com vossa virtude os excitantes êxitos com que tantas outras se embriagam.

E então é isto que ocorre: a impaciência toma conta de vocês, enerva-vos o barulho das cadeias religiosas, vossos olhos irritados despedem chamas contra a Carcereira... Ou então, sem cólera mas entristecidas, contentai-vos em xingá-la silenciosamente. E quando, nesse estado de alma, se vos fala da Igreja, de seus benefícios, do amor que lhes deveis, essas palavras despertam em vossos lábios um sorriso vagamente desabusado; ouvis e pensais: "Sim, sim... mas, por mim, o que dela sei são os obstáculos que opõe aos meus caprichos e a fria sombra que estende por cima de minha juventude...".

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr.M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post: O que ela realmente vos dá)

PS: Grifos meus.

sábado, 1 de janeiro de 2011

ESPECIAL: Jovens donzelas cristãs: Vocês e a vida

Nota: Hoje inicio a transcrição deste livro, assim que terminá-lo, o mesmo será disponibilizado em PDF na internet. Enquanto isso, esse post ficará na parte de ESPECIAIS EM ANDAMENTO do blogue e receberá atualizações.


JOVENS: VOCÊS E A VIDA


Pelo Fr. M. A. Bellouard, O. P.
Versão portuguesa de Lúcia Soares Carneiro
Edições Caravela LTDA
1950

Nihil obstat
Frei Pedro Secondi O. P (censor ad-hoc)
Imprimatur
Mons. R. Costa Rego (Vigário Geral)


ÍNDICE TRANSCRITO

- PREFÁCIO

  •  VOCÊS E A IGREJA




  • VOCÊS E AS VOSSAS RESPONSABILIDADES

1- Sois as guardiãs



b) Guardar com que disposições?


c) Há guardar e guardar



  •  VOCÊS E VOSSA PUREZA



4- O esplendor



  •  VOCÊS E VOSSAS LEVIANDADES

1- Virgens loucas


b) A Louca que amua


c) A louquinha que ri


d) A louquinha que “flirta”


e) Flirtar é divertir-se com a própria consciência


Flirtar é divertir-se com a alma


O Flirt e suas falsas justificativas


  •  VOCÊS E VOSSO FUTURO

1- Casada


2- Religiosa




***

PREFÁCIO

Pais:
Aí tendes o livro de vossas filhas...

Esta “Edições Caravelas LTDA”, que tem diante de si um róseo futuro se não se deixar carcomer pelo micróbio da improvisação e da aventura – característica desta época de aventureiros e improvisadores -, inaugura a série de livros em língua portuguesa com o Religioso Dominicano Padre Bellouard, que para a mocidade católica brasileira var ser o que os franceses chamam uma “coqueluche”.

É ainda, será sempre a preocupação, máxima a sociedade de amanhã, dado que a presente amolece, entorpece-se, esvazia-se, desfibra-se. Há que reagir, que manter acima do charco a flor por excelência da Criação. Já se sabe de sobejo que os pactos e convênios deram em água de barrela; que as re-estruturações são antes mero jogo de palavras; que os sistemas políticos malograram miseravelmente como processos de propinarem a felicidade aos povos; e que a humanidade está a pique de atingir essa fase de “estouro de boiada” que antecederá o Juízo Final...

A juventude e a mocidade que vão saindo de nossas escolas necessitam de um sentido de vida, e só a Igreja pode e sabe dar-lho. Temos que fazer um esforço desesperado de modo a apresentarmos a próxima geração um pouco melhor, pelo menos um pouco melhor que essa que anda por aí. E só a mulher, quando bem informada, quando bem enquadrada no programa do Sermão da Montanha, é capaz de operar o milagre. Não essa mulher sabida, petulante, masculinizada, que enche as praias de carne exposta, as calçadas de borrões de tinta, as confeitarias de maritacas, e as repartições públicas de criaturas avoadas, enfeitadas, quase inconscientes, ou no afã de matarem o tempo, ou na ânsia de conquistarem pecúnia para seus balagadans, em todo o caso fugindo desabridamente das responsabilidades do lar, das maçadas da cozinha, das mais que maçadas dos filhos.

A mulher cristã, que sabe guardar bem guardado o tesouro da fé, que sabe pautar seus atos pelo Decálogo, que sabe viver a vida recatada e composta das mulheres que se prostravam diante de Jesus, humildes e confiantes, não das que agora se prostram diante de Gary Cooper, assanhadas de sensuais. A mulher coluna temente de Deus, último fim, razão máxima, objetivo primacial, Deus suprema beleza, Deus supremo Amor, Deus mártir no Filho, glorioso em Maria, crucificado todos os dias em altares por todos os homens, mas, afinal de contas, ressuscitado todos os dias nos exemplos de fé e heroísmo, nas renúncias, nas abnegações, nos cilícios, nos martírios de filhas, de noivas, de esposas e mães que trazem a noção do papel que lhes foi distribuído para o grande drama da vida humana... que é também epopeia.

O Padre Bellouard tem o jeitinho de levar água aos dentes do moinho. Sabe falar às jovens com a carícia e a um tempo a severidade de princípios que mais convêm aos tempos que estão correndo. Conhece bem a alma feminina. Sabe onde doía a ferida. E dirige-se à donzela cristã de nossos tempos com a gravidade, mas também com a carícia de um pai que se desvela pelos pequerruchos. Seu estilo é suave, os conselhos amorosos, e por todos os seus apelos perpassa um fiozinho de graça e otimismo, que não pode deixar de levar ao conhecimento e ao amor da vida como um prêmio e não como um fardo.

Este é o livro da donzela brasileira, o livro de minhas filhas, de minhas netas, de vossas filhas e vossas netas, leitores meus, que ainda não estais com a alma embotada, o coração empedernido, a consciência anquilosada e vos mantendes dispostos a reedificar um Brasil melhor, não no estilo dos arranca-céus, mas numa maravilhosa floração de almas cristãs.

(Soares d’Azevedo)

PS: Grifos meus.