terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A Sagrada Família em Belém

A SAGRADA FAMÍLIA EM BELÉM


Consideremos os terníssimos colóquios de Maria e José durante a viagem de Nazaré a Belém, sobre a misericórdia de Deus, que enviara o Seu divino Filho ao mundo, para resgatar o gênero humano; e sobre a caridade do Filho de Deus em baixar a este vale de lágrimas a expiar com os Seus sofrimentos e com a Sua morte os pecados dos homens.

Consideremos também qual seria a angústia de José, quando, chegado a Belém, viu que ninguém lhes queria dar hospedagem, nem a Maria nem a ele, de maneira que se viram obrigados a recolher-se num estábulo.

Oh! como ele devia sofrer, vendo a sua santíssima esposa, jovem donzela de quinze anos, prestes a dar à luz o Seu divino Filho, tremendo de frio naquela gruta úmida e desabrigada. Pode, porém, logo consolar-se, ouvindo a Maria que o chamava e lhe dizia:

"Vem José, vem adorar o nosso Deus menino, que acaba de nascer neste estábulo; vem admirar a Sua beleza, ver aqui, nesta manjedoura, nestas poucas palhinhas o Rei do Universo; vem ver como treme com frio, Ele que inflama os corações dos Serafins; vem ouvir como chora Aquele que é a alegria do Paraíso!"

E José, ao contemplar com seus próprios olhos o Filho de Deus, feito homem, naquela pobre gruta, inundada de luz celestial, e ao ouvir os choros dos Anjos, entoando hinos ao Seu Deus recém-nascido, caiu de joelhos, e, chorando de ternura disse:

"Eu Vos adoro, ó Deus e senhor meu! Quão ditoso sou por haver sido, depois de Maria, o primeiro a quem foi dado ver-Vos, e por saber que perante o mundo haveis de ser tratado e passar por filho meu! Permiti-me, pois que Vos chame por esse nome e Vos diga desde já: Meu Deus e meu Filho eu me consagro eternamente a Vós: minha vida já não será minha, mas inteiramente Vossa; empregá-la-ei toda em servir-Vos, ó meu divino Mestre".

Consideremos, por último, como subiu ao seu auge o gozo de José, ao ver chegar naquela mesma noite os pastorinhos que o Santo Anjo havia convidado a vir adorar o Salvador recém-nascido, e quando os Magos, pouco depois, vieram do Oriente prestar suas homenagens o Rei dos Céus, que baixava à terra a salvar as Suas criaturas.

(A Sagrada Família, por um padre redentorista, 1910, versão do Espanhol por Manuel Moreira Aranha Furtado de Mendonça, Cônego honorário da Sé de Lamego, 3ª Edição, com Breve de Sua Santidade Leão XIII)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

CAPÍTULO III: “MANTELLATE”

CAPÍTULO III: “MANTELLATE”


As Irmãs da Penitência da Ordem Terceira de São Domingos tiveram origem numa irmandade de leigos que São Domingos tinha fundado e a que chamara a ‘Milícia de Jesus Cristo’. Além de se comprometerem a rezar certas orações em vez dos Ofícios diários que os monges liam – muitos leigos não sabiam ler – os Irmãos deviam também defender os bens da Igreja. Durante os anos em que os hereges tinham estado no poder no sul da França e no norte da Itália, uma grande quantidade de terras da Igreja tinha passado para as mãos de leigos, que dispunham delas como se as tivessem realmente recebido por herança legal. São Domingos escolheu uma vida de extrema pobreza para a primeira Ordem, de freiras contemplativas, e para a segunda Ordem, de frades pregadores. Mas a pobreza das catedrais, igrejas, abadias e conventos, que tinham sido saqueados, tornara-se um obstáculo para o trabalho de bispos e padres, o que acontecia igualmente com a atividade caritativa e evangelizadora das velhas fundações monásticas. Um dos objetivos da Milícia era tentar reconquistar para a Igreja o que lhe pertencia por direito.

A maior parte destes Irmãos eram homens casados e, por isso, de acordo com as leis católicas sobre o casamento, não podiam professar sem o consentimento das esposas; estas deviam, pois, comprometer-se a nunca oporem obstáculos à ação a empreender pelos maridos. Desta maneira, a Ordem Terceira viria a consistir principalmente em casais que viviam juntos numa vida de semi-reclusão no mundo, mas não do mundo. Como sinal de estarem ligados à Ordem dos Dominicanos, tinham de usar roupas das mesmas cores, branco e preto, mas não havia nada regulamentado quanto ao feitio das mesmas.

Para finais do século XIII, a Ordem começou a perder o seu caráter de milícia, mas continuou a ser chamada a Ordem Terceira dos Irmãos e Irmãs da Penitência de São Domingos.

Quando ficavam viúvas, as Irmãs dedicavam o resto da sua vida inteiramente ao serviço de Deus; permaneciam nas suas próprias casas, mas vivendo como freiras. Não tinham igrejas e oratórios próprios, costumavam reunir-se numa capela escolhida, se possível numa igreja pertencente aos frades pregadores. Aqui tomavam parte na Missa e oravam juntas. Quando, algum tempo depois, lhes deram um traje especial – vestida de lã branca, véu branco e capa preta – passaram a ser chamadas Le Mantellate – as Irmãs do Manto.

Em Sena havia muitas Mantellate. Mulheres casadas e viúvas de todas as categorias sociais pertenciam a esta congregação, e costumavam reunir-se numa capela chamada Capella della Volte. Desde a infância Catarina tinha especial consideração por São Domingos e gostava de se escapulir de casa, de manhã muito cedo, para ir à Missa na igreja do alto da colina, por trás de sua casa, pelo que deve ter visto centenas de vezes as Mantellate reunidas em devoção. Sua cunhada Lisa, e uma tia já viúva, que era irmã de Jacopo, pertenciam também à Irmandade. Nessa altura, quando a família fazia tudo o que podia para que esta filha impossível se portasse como uma moça normal, mandando-a daqui para ali, escadas acima e escadas abaixo todo o dia, enquanto se exasperavam com a sua obstinação, vendo-a paciente e obediente em tudo, exceto naquilo que significava mais que tudo para eles – a alma de Catarina ardia naquele desejo que tinha despertado nela vagamente quando ainda era uma criança: o de se tornar uma mantellate. E todos os dias rezava ao seu Amado para que lhe concedesse esta graça.

Um noite, esta serva do Senhor sonhou que via diante de si muitos veneráveis patriarcas e padres de ordens monásticas, e entre eles encontrava-se São Domingos – reconheceu-o logo pelo belo lírio branco que tinha na mão. Todos estes santos lhe disseram para escolher uma Ordem à qual pertencer, de maneira a servir ao Senhor melhor do que até aí. Catarina imediatamente se virou para São Domingos, e ele veio ao seu encontro. Mostrou-lhe um traje igual aos usados pelas Irmãs da Penitência, e disse-lhe: “Querida filha, tem coragem. Nada receies, porque com certeza virás a usar este hábito, como é teu desejo”. Catarina chorou de alegria e agradeceu ao Senhor e a São Domingos, e acordou banhada em lágrimas.

Agora, que Deus tinha dado a saber à Sua serva qual a Sua Vontade, Catarina tinha certeza de que Cristo a ajudaria. Dirigiu-se aos pais e contou-lhes a razão da sua incompreensível resistência aos planos que eles tinham feito para o seu futuro. Fez isto no próprio dia a seguir ao sonho.

“Já vos tinha dado a entender isto tantas vezes, que seria fácil os senhores compreenderem, mas, pelo respeito que devo aos meus pais, tal como Deus manda, nunca tinha dito nada antes. Este silêncio, porém, tinha de acabar; por isso quis abrir-lhes o coração e confessar que tomei uma resolução, não há pouco tempo, porque já a tinha tomado quando era ainda criança, e que sempre tenho me mantido fiel a esta resolução. Na infância, prometi ao meu Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, e à Sua bendita Mãe, que me conservaria sempre virgem; não foi uma criancice, mas motivos sérios me levaram a isso. Prometi-lhes, pois, que nunca arranjaria outro marido. E agora que, pela graça de Deus, cheguei à idade da razão, essa decisão está ainda enraizada no meu coração. Seria mais fácil derreter uma pedra do que tirarem-me esta santa resolução do meu peito. Só perderão tempo se o quiserem fazer. Aconselho-os, portanto, a acabar com essas negociações sobre o meu casamento, porque nisto nunca poderei obedecer-lhes; devo obediência antes a Deus do que aos homens. Se me quiserem continuarem a ter cá em casa, ficarei como criada dos senhores e com alegria farei tudo o que puder para ajudá-los. Mas se me expulsarem por causa da minha decisão, assim seja: isso não modificará, de maneira alguma, o meu coração. Tenho um Noivo que é tão rico e poderoso que não me deixará passar necessidades, pois me dará certamente tudo quanto eu precisar”.

Quando Catarina acabou de falar, todos irromperam em lamentações; soluçava, choravam, e ninguém podia falar. Olharam para esta moça, que tinha sido sempre tão moderada e de falas mansas, e que agora se lhes dirigia com tal atrevimento e seriedade, e compreenderam que ela preferiria abandonar a casa dos pais a quebrar o seu voto. Não havia qualquer esperança de lhe arranjarem um bom casamento. Por isso os Benincasa choravam cada vez mais.

Mas o pai, Jacopo, em breve dominou a emoção. Quando o conseguiu, não ficou muito surpreendido. E respondeu-lhe com ternura e afabilidade: “Minha querida filha, longe de nós a idéia de irmos, de qualquer maneira, contra a Vontade de Deus, e foi d’Ele que recebeste esse propósito. Compreendemos que não foste levada pelo egoísmo próprio da juventude, mas pela graça de Deus. Mantém a tua promessa e vive como o Espírito Santo te diz que vivas. Nunca mais te importunaremos nas tuas orações e devoções, nem tentaremos afastar-te do teu trabalho sagrado. Mas reza firmemente por nós para que possamos ser dignos do Noivo que tu escolheste tão nova”. E voltou-se para a mulher e os filhos e disse: “A partir de agora, ninguém tratará mal nem aborrecerá a minha filha adorada, nem tentará levantar-lhe obstáculos. Que ela sirva o seu Noivo em completa liberdade e que reze por nós com sinceridade. Nunca lhe poderíamos ter arranjado um casamento tão honroso; por isso não nos queixemos de, em vez de um mortal, recebermos o Deus imortal feito homem”.

Os irmãos mantinham-se pesarosos e Lapa chorava alto. Mas Catarina, intimamente, agradeceu ao seu Noivo vitorioso, que assim a tinha levado ao triunfo, e agradeceu aos pais o mais humildemente possível.

Deixaram-na ter o seu próprio quarto – uma pequena divisão no primeiro andar. À semelhança de muitas outras casas de Sena, a dos Benincasa fora construída contra uma colina, de maneira que o quarto de Catarina, nas traseiras, estava de fato ao nível da estreita viela que corria por trás do edifício. O quarto tinha apenas dez pés por dezesseis. Uns degraus de pedras conduziam a uma pequena janela, provavelmente gradeada, como costumavam ser as janelas do rés-do-chão. Algumas imagens de santos, uma arca onde guardava os seus pertences, uma cama de madeira com um cepo a fazer de almofada – eis toda a sua mobília. Catarina sentava-se nesta cama quando meditava, ajoelhava-se nela para rezar, e deitava-se, toda vestida com a túnica de lã, para dormir. Durante algum tempo usou uma camisola de pêlos. Mas era sempre meticulosa em se conservar limpa – como Santa Teresa de Ávila, havia apenas uma forma de disciplina corporal que nunca praticou: a imundície e a piolhice, que tantos santos do sexo masculino apreciavam como remédio contra o orgulho. Mais tarde, trocou a camisola de pêlos por uma fina cadeia de ferro que apertava fortemente à volta do corpo até lhe cortar a carne. Usou sempre esta cadeia até à altura em que o seu confessor lhe ordenou que a pusesse de lado, o que só aconteceu quase no fim da vida, quando já se encontrava muito fraca.

Não nos custa acreditar quando, mais tarde, ela disse a Frei Raimundo que o sacrifício que mais lhe custara, quando nova, era o do sono. Ao princípio, passava toda a noite em orações e conversas com seu Noivo, e só quando tocava a Matinas nos mosteiros é que se deitava para dormir um bocado. Mas, algum tempo depois, a alma triunfou sobre as exigências do corpo, até que conseguiu agüentar-se só com meia hora de sono, e mesmo isto, algumas vezes, dia sim, dia não. Como a sua vida ‘estava no Céu’, pensava que o tempo que gastava a dormir era desperdiçado.

Durante muito tempo recusou-se a beber vinho, que era, para os italianos, não só bebida, mas alimento, desde há séculos. Primeiro, misturava um pouco de vinho na água que bebia – apenas o necessário para lhe dar cor – a fim de não ofender os outros à mesa. Há alguns também que já não comia carne; mais tarde diria a Raimundo que o próprio cheiro da carne lhe desagradava. Mas não nos surpreendemos que Lapa se lamentasse e chegasse a praguejar, quando Catarina afastava o bom pão da sua dieta, querendo comer apenas vegetais, e mesmo estes só em pequena quantidade. Quando Raimundo escreveu o seu livro sobre a vida de Santa Catarina, tinha bons motivos para realçar o fato de ela praticar um espírito de sacrifício tão rigoroso como nunca se tinha ouvido desde o tempo dos anacoretas, e não num deserto, mas no lar duma grande e abastada família da classe média.

A fim de imitar o seu pai espiritual, São Domingos, Catarina aplicava-se disciplinas – batendo-se com a cadeia de ferro – três vezes por dia: uma pelos seus próprios pecados, outra pelos pecados de todos os homens, e a última pelas almas do Purgatório. Muitas vezes o sangue corria-lhe pelas costas: como diz Raimundo, ela dava ao Salvador “o sangue pelo Sangue”.

Ainda a pobre mãe mal tivera tempo para se acostumar à idéia de a filha favorita nuca vir a ser noiva ou mãe, quando soube das incompreensíveis torturas que Catarina aplicava a si própria. “Oh, minha filha, minha filha, tu morres, tu matas-te. Oh, quem me roubou a minha filha? Quem me deu este desgosto?” E a mulher de Jacopo Benincasa gritava e chorava, e a sua voz ecoava pelas estreitas ruas da vizinhança, alarmando as outras pessoas e fazendo com que os amigos e simples transeuntes se precipitassem para sua casa a fim de descobrirem que nova desgraça tinha acontecido à pobre Lapa.

Como não era capaz de fazer com que Catarina comesse, resolver ver se conseguia que, ao menos, tivesse algumas horas de sono conveniente todas as noites. Entrava no quarto da filha, onde a encontrava ajoelhada nas tábuas da cama; levava-a “à força” para o seu quarto e obrigava-a a deitar na sua cama, aconchegada no calor dos lençóis de linho e das almofadas fofas. Catarina deitava-se obedientemente ao lado da mãe, orando em silêncio e meditando até Lapa adormecer; saía então da cama e ia continuar suas orações como de costume. Mas “satanás, que ela afastara com firme resolução, acordava Lapa” – Raimundo não tinha dúvidas de que era satanás que se servia de Lapa e de seu amor de mãe como instrumento de tentação para Catarina se afastar do caminho que a conduziria à perfeitas união com Cristo, embora a inocente e inofensiva Lapa não soubesse nada disto, como é evidente. Stefano Maconi, que sabia muito, por experiência própria, acerca do conflito travado entre a vocação e o amor de mãe bem intencionado, contenta-se em dizer, na sua tradução para o italiano da biografia latina de Santa Catarina, escrita por Tommaso Caffarini, que Lapa amava mais o corpo da filha que a sua alma. Para satisfazer a mãe e a sua própria consciência ao mesmo tempo, Catarina passou a esconder algumas tábuas por baixo dos lençóis da cama de Lapa, no lado em que costumava deitar-se. Quando a mãe descobriu o ingênuo truque da filha, foi obrigada a deixá-la fazer o que “o Espírito Santo lhe inspirava”, apesar de resmungar e lamentar-se antes de ceder.

Muitas vezes Catarina falou aos pais sobre o seu desejo de vir a pertencer à Ordem das Irmãs da Penitência de São Domingos, o que também tornava Lapa extremamente infeliz. Não ousava proibi-la de falar no caso, mas procurava fazer com que a filha pensasse noutras coisas, levando-a aos banhos de Vignone, ao sul de Sena. Nessa altura, Vignone era uma grande e afamada estância termal, com algumas estalagens para albergar a corrente de banhista que vinham para as fontes sulfurosas de água quente. Catarina concordou obedientemente com o plano da mãe. Mas quando iam começar os tratamentos pediu-lhe que a deixasse banhar-se sozinha. Lapa disse-lhe que o podia fazer – mas não sabia que, em vez de ir para o tanque onde a água tinha uma temperatura agradável, Catarina se dirigia para o local donde a água saía dos canos, a escaldar. A dor era terrível, mas ela tentava imaginar as penas do Purgatório e do Inferno, enquanto agradecia a Deus os tormentos que se infligia a si própria, em vez dos tormentos que merecia cada vez que ofendia a Deus.

Lapa foi logo obrigada a confessar que tinha perdido a batalha. E agora Catarina suplicava à Mãe que fosse falar com a prioresa das Mantellate para perguntar se a filha podia vestir o hábito da Ordem. Por fim, Lapa foi, muito contra a vontade, e deve ter ficado imensamente satisfeita quando as Irmãs lhe responderam que era contra a Regra aceitar jovens na congregação. Como todas as Irmãs tinham de viver, conforme os regulamentos, em suas próprias casas, a mais elementar prudência aconselhava que só deviam aceitar mulheres já maduras, que desejassem oferecer-se inteiramente a Deus para a resto da vida.

Pouco tempo depois, Catarina adoeceu gravemente. Tinha o corpo e o rosto cobertos de uma espécie de erupção, dores violentas e febre elevada. Lapa ficava junto dela e tratava-a carinhosa e incansavelmente, tentando consolar a filha com ternuras e palavras gentis, e fazendo tudo o que podia para ela melhorar. Catarina tinha apenas um desejo, e Lapa tudo faria para salvar a vida da filha; preparou-se, portanto, para tentar mais uma vez obter para Catarina o que ela tão ardentemente ambicionava. De resto, era melhor que a filha se tornasse uma Irmã da Penitência na terra, do que ser chamada por Deus e São Domingos, como parecia realmente que estavam a fazer...

O seu único pecado fora o de ter amado mais o corpo do que a alma da filha. E agora, que já se preparara para sofrer isso, Lapa insistiu com maior determinação junto das Irmãs da Penitência, com todo o seu poder de argumentação. As lutas secretas que tantos anos travara com o marido e com uma filha cujo comportamento era um autêntico enigma para ela, tinham afinado a inteligência e os sentidos de Lapa. Finalmente, conseguiu que as Irmãs prometessem pensar no assunto, tanto por causa de Lapa quanto por causa da moça. Se ela fosse excepcionalmente bonita, era natural que elas não quisessem que Catarina vestisse o hábito da Ordem – Lapa bem sabia como eram as más línguas. Mas foi suficientemente esperta para dizer às Irmãs que fossem a sua casa ver com os seus próprios olhos. Pobre Catarina, que continuava deitada na cama, com o rosto desfigurado pela horrível erupção! Assim nunca seria, na verdade, uma beleza perigosa.

As Irmãs escolheram três ou quatro das freiras mais experientes e cuidadosas, e mandaram-nas visitar a moça e fazer uma experiência com ela. Catarina quase parecia repelente. Mas quando conversaram com ela por uns instantes, logo compreenderam como ansiava por se lhes juntar, como era invulgarmente piedosa, desenvolvida e compreensiva, e regressaram satisfeitas e espantadas para contarem às companheiras o que tinham visto e ouvido. Depois de obterem o consentimento dos Irmãos, as freiras reuniram-se para votar o caso: concordou-se unanimemente em receber Catarina Benincasa na Ordem Terceira de São Domingos como uma das suas Irmãs de Penitência.

Quando Lapa deu esta notícia à filha, Catarina agradeceu ao seu Noivo e a São Domingos, e chorou de alegria – pois Eles haviam cumprido a sua promessa maravilhosamente. Até esse momento, suportara a doença com infatigável paciência, mas agora orava para melhorar rapidamente, pois ansiava pelo dia em vestiria o hábito. E, num espaço de breves dias, melhorou completamente. Lapa ainda tentou ganhar tempo, mas teve de ceder às súplicas da filha, e assim foram marcados o dia e a hora da cerimônia.

Catarina esta em casa, no seu quartinho, orando e pensando no momento em que seria satisfeito o desejo do seu coração. Aproximava-se o pôr do sol; a estreita viela, para onde dava a janela, em breve se encheria de escuridão suave, e ela ouviria, na sua solidão, as vozes das pessoas conversando e divertindo-se depois do trabalho do dia. E, de repente, aquele que é o inimigo de Deus atirou-se sobre a moça que ia agora, mais uma vez, renunciar a tudo o que desejava renunciar desde criança. Ela já tinha encontrado o diabo e as suas legiões nas suas visões – visões intelectuais bem como visões físicas e aparições. Mas até essa altura nunca tinha sentido senão medo e aversão à sua vista. Desta vez, porém, o tentador aproximou-se sob a figura de um jovem, não para a amedrontar, mas para a seduzir. O belo jovem expôs à sua frente todas as maravilhas que os tecelões e bordadeiras italianas podiam criar; no fim, apresentou-lhe um vestuário, um manto recheado de pedras douradas e preciosas, mais encantador do que tudo o que já vira na realidade: “Tudo isto pode ser teu...” Como num sonho, Catarina contemplou todos estes espécimes da magnificência terrena – símbolos do poder e da alegria que o mundo é capaz de oferecer a todas as jovens atraentes e inteligentes, com infinitas possibilidades de experimentar a paixão e o amor... De repente, foi como se despertasse; e violentamente expulsou o tentador da sua frente. Mas a tentação persistia.

Era agora uma moça crescida, quase uma mulher feita, e talvez tenha então compreendido, pela primeira vez, como era a felicidade terrena a que ia renunciar. Por mais profundamente convencida que estivesse que tais alegrias mundanas eram um obstáculo para o que pretendia, por mais certa que estivesse que nada representavam – apenas sonhos que se desvaneceriam e que transformariam a felicidade em sofrimento e medo – apesar de tudo, não deixavam de ser tentadoras.

Precipitou-se para o Crucifixo e suplicou ao seu Noivo que a viesse ajudar: “Vós bem sabeis que Vos amo, e só a Vós...” Mas não sentiu consolação, era como se o Homem do Crucifixo fosse surdo e mudo, por mais que ela rezasse. Mas, de súbito, outra visão lhe surgiu – uma mulher revestida com uma auréola, a própria Rainha do Céu, que lhe ofereceu um manto, brilhante como o sol e refulgindo com pedras preciosas. “Minha filha, este manto estava oculto na Chaga do Lado de meu Filho e incrustei nele estas pedras com as minhas próprias mãos.” Humildemente, a moça fez uma vênia e Nossa Senhora estendeu o manto celestial sobre a sua cabeça...

Numa madrugada, alguns dias mais tarde, Lapa e Catarina subiram a colina e entraram na igreja dos dominicanos. Os frades pregadores encontravam-se reunidos, e entre eles estava com certeza Frei Tommaso della Fonte, que tinha sido criado com Catarina e seria agora o seu confessor. Na presença de todos, e das Irmãs da Penitência, Catarina Benincasa recebeu o hábito branco e o véu que significam a pureza do corpo e da alma, e o manto preto, o símbolo da humildade e da morte para o mundo.

Não sabemos em que dia exato ocorreu isto, e os estudiosos da vida de Catarina divergem mesmo quanto ao ano. Verificou-se, muito provavelmente, em 1366, quando Catarina andava pelos dezenove anos.

* * *

(“Catarina de Sena”, da escritora norueguesa Sigrid Undset)

PS: recebido por e-mail, mantenho os grifos.

Saudades de Deus

Saudades de Deus


Vejam-Vos meus olhos,
Doce e bom Senhor;
Vejam-Vos meus olhos,
E morra eu de amor.

Olhe quem quiser,
Rosa e jasmins:
Que eu, com a Vossa vista,
Verei mil jardins.

Flor de serafins,
Jesus Nazareno,
vejam-Vos meus olhos,
E mora eu sereno.

Sem tal companhia
Vejo-me cativo.
Sem Vós, vida minha,
É morte o que eu vivo.

Este meu desterro
Quando terá fim?
Vejam-Vos meus olhos
E morra eu, enfim.

Prazeres não quero,
- Meu Jesus ausente:
Que tudo é suplício
A quem tanto O sente.

(Obras Completas de Santa Teresa de Jesus, Edições Loyola)

Um pensamento de Natal

Um pensamento de Natal


Carta 152
(Para João Trenta e a esposa Maria que residiam na cidade de Luca)
por
Santa Catarina de Sena

1- Saudações e objetivo

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, caríssimo João, meu irmão e meu filho em Jesus Cristo, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos abençôo e conforto no precioso sangue do seu Filho.

2- A pobreza do Menino Jesus

Meu filho! Muito desejei ver vossa pessoa, bem como vossa família e de modo especial a esposa, numa grande união de virtude, a tal ponto que demônio algum possa separar-me de vós. Meu filho e minha filha queridos, não vos seja desagradável fazer um pequeno gesto por Jesus crucificado. Como seria algo maldoso, infeliz e frio ao coração alguém ver a suprema e eterna majestade de Cristo descendo até nossa pequenez humana, e não humilhar-se. E vós, não vedes Jesus pobrezinho, humilhado no presépio entre dois animais, despojado de toda pompa e glória humana? São Bernardo de Claraval, lembrando a profunda humildade e a pobreza de Cristo para confundir nosso orgulho, dizia:

"Envergonha-te, homem orgulhoso, que procuras os prazeres, a moleza e glória do mundo! Pensas, por acaso, que o manso Cordeiro, teu rei, tinha uma luxuosa habitação e gente de serviço? Não quis viver assim a verdade primeira! Não. Para servir de exemplo e norma para nós, Jesus nasceu em extrema pobreza, sem vestes à altura da Sua grandeza. Sendo tempo de frio, um animal ao respirar aquecia Seu corpo de menino. E no fim da Sua vida, Ele passou necessidades. Seu leito foi o madeiro da Cruz. E dizia que os pássaros têm seus ninhos e as raposas a sua toca, mas o Filho da Virgem não possuía onde reclinar a cabeça".
Que pecadores somos nós! Bondoso irmão e bondosa irmã! serão tão duros os nossos corações, que não se rasguem, não sofram e não vençam toda ilusão demoníaca e todos juízo humano? Portanto, com decisão vivei perfeitamente unidos e em paz, seguindo os vestígios do nosso Salvador, o qual vos dirá aquela doce palavra:

"Vinde, meus filhos. Por causa do meu suave amor deixastes os desordenados prazeres terrenos. Eu vos encherei de dons celestes a cem por um e possuireis a vida eterna".
Quando Cristo vos dará cem por um? Ao infundir na vossa alma uma ardente caridade. Esse é o cem por um! Privados dele, não teremos a vida eterna; possuindo esse dom, ninguém tirará de nós o paraíso!

3- Exortação final e conclusão

Com amor vos peço. Procurai aumentar e nunca diminuir o santo propósito e a reta intenção que Deus vos deu. É o que desejo. Nada mais acrescento. Que Deus vos conceda Sua eterna bênção. Eu, inútil serva, peço a oração de todos. E eu, Joana Pazzi, e as demais companheiras, rezamos para que Deus, nos faça morrer de amor.

Jesus doce, Jesus amor.

(Cartas completas - Santa Catarina de sena, Editora Paulus)

Poesia ao Cristo Crucificado


A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa Cruz sacrossanta descobertos:
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, olhos divinos eclipsados,
De tanto sangue e lágrimas cobertos,
Que, para perdoar-me, estais despertos
E, por não devassar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não fugir-me;
A vós, cabeça baixa, por chamar-me;
A vós, sangue vertido, para ungir-me;

A vós, lado patente, quero unir-me;
A vós, cravos preciosos, quero atar-me;
Para ficar unido, atado e firme.

(Do doutor, Manuel da Nóbrega, extraído do livro: Nova Floresta, Terceiro Tomo, pelo Pe. Manuel Bernardes, Livraria Lello & Irmão, ano de 1949)

domingo, 12 de dezembro de 2010

O Presépio

O Presépio


Não menos do que a cruz, o presépio é a escola da vida interior. Começamos pelo presépio e acabamos pela cruz: um contém elementos dessa vida, e outra encerra a sua consumação. E como, em todas as ciências, os elementos são o que há de mais importante e necessário, estudemos o presépio e esforcemo-nos por traduzir em nosso procedimento o que ele nos ensina. Contemplemos o Verbo feito carne, o Filho de Deus tornado criancinha. Vejamos quais eram as Suas disposições ao nascer; consideremos as circunstâncias exteriores do Seu nascimento e quais foram as pessoas por Ele chamadas ao presépio.

Foi atraído à terra pelo amor que dedicava a Seu Pai e aos homens. O sentimento que Lhe enchia o coração era o de oferecer-Se em holocausto ao Pai para reparar a Sua glória e salvar o gênero humano. São Paulo, após David, no-lo ensina. Diz o apóstolo: ao entrar no mundo exclamou: "Os sacrifícios e as vítimas da antiga lei não Vos agradaram, mas me destes um corpo. Então disse: Eis-me aqui, para cumprir, ó meu Deus, a Vossa vontade". E qual era essa vontade?

Vontade infinitamente rigorosa, segundo a qual devia Ele sobrecarregar-Se de todos os nossos pecados e suportar o peso da justiça divina. Tem, pois, essa vontade ao nascer, a ele submete-se com amor. Desde o berço visa a Cruz, suspira pela cruz e o Seu primeiro desejo é morrer nela pregado para apaziguar o Pai e nos reunir.

Aprendamos por aí que a cruz é o grande objeto da vida interior; a primeira coisa que, ao ingressarmos nesta, Deus nos apresenta e a sua aceitação o primeiro sentimento do coração entregue inteiramente a Deus. Ora a cruz significa esquecimento, perda completa de nós mesmos em Deus, sacrifício perfeito de todos os interesses para só pensarmos nos interesses de Deus. Só Ele que no-lo propõe, nos inspira a coragem de aceitá-lo e nos dá a força para realizá-lo. Mas, da nossa parte, não devemos arrastá-lo constantemente e suspirar pela sua realização como fez Jesus Cristo.

Mas por que nasceu Ele criancinha? Por que não veio ao mundo, como Adão, em estado de homem feito? Dependia, certamente, d'Ele vir assim, mas teve razões para preferir o estado de infância. E a principal de todas foi o desejo de nos ensinar que, uma vez entregues a Deus, é preciso depositarmos a Seus pés o nosso discernimento, a nossa vontade e força; volvermos inteiramente à pequenez, à fraqueza e à falta de juízo da criança; em suma, aniquilarmos todo o passado, ficarmos em novo estado, iniciarmos vida nova, cujo princípio é Deus.

E que vida é essa? Dependência perfeita da graça, simplicidade e obediência. Contemplemos o nascimento de Jesus Cristo: Ele adora ao Pai tão perfeitamente no berço, quanto na cruz. Toda a Sua admiração, porém, está contida no coração: nada diz, nada faz, está como que aniquilado: e nesse próprio aniquilamento consiste a perfeição da Sua homenagem.

Compreendamo-lo bem, nós que nos queixamos diante de Deus como animais, sem pensamento, sem palavra, sem ação. Este estado, que é a morte do amor próprio, é incomparavelmente mais agradável a Deus, do que tudo quanto o nosso espírito, o nosso coração, e a nossa boca pudessem exprimir de mais sublime.

Calarmo-nos diante de Deus, humilharmo-nos, aniquilarmos, como se aí não estivéssemos, é a adoração perfeita em espírito e verdade. Que necessidade tem Deus das nossas luzes e dos nossos sentimentos que só servem para alimentar secreto orgulho e vã complacência em nós mesmos? Quanto mais se aproximar a nossa oração da de Jesus Menino, quanto mais humilde e desprezível ela nos parecer, tanto mais elevada será aos olhos de Deus.

Passemos as circunstâncias exteriores do nascimento de Jesus.

A Virgem Maria, repelida de todas as hospedarias, vê-Se obrigada a procurar abrigo em um estábulo.

Aí nasce o Filho de Deus: no seio da pobreza, humilhação e sofrimento. Uma manjedoura, na qual há um pouco de palha, serve-Lhe de berço; são pobres os paninhos que O envolvem; no meio da noite, na mais rude estação do ano, em lugar exposto a todos os ventos, o Seu tenro e delicado corpo é sujeito a todas as intempéries do ar. Ninguém assiste ao Seu nascimento; nenhum socorro ou alívio Lhe é prestado.

Que entrada no mundo para o Filho de Deus! Para Aquele que vem resgatar o mundo e fora anunciado desde o começo do mundo aos nossos primeiros pais como o libertador do gênero humano! Quem jamais acreditaria que Ele escolhesse nascimento tão pobre, tão obscuro, tão amargurado!

Mas como esse nascimento é instrutivo para aqueles que o Espírito Santo faz nascer para a vida interior!

No Menino divino encontram modelo perfeito das três virtudes que devem dali em diante ser as Suas companheiras inseparáveis: Completo desapego dos bens da terra, até abraçar a mais rigorosa penitência, se assim aprouver a Deus. Soberano desprezo de todas as honras mundanas até desejar ser não só ignorado, mas também ridicularizado e menosprezado. Renúncia absoluta de todos os prazeres do mundo, até entregar o corpo a todo gênero de mortificações. Eis a lição que Jesus, ao nascer, deu às almas interiores. Durante toda Sua vida Ele amou e praticou o que escolhera no presépio. Foi sempre pobre, vivendo do trabalho manual, não tendo nem sequer onde repousar a cabeça. Foi sempre desconhecido pelo mundo, ou vítima dos seus desprezos, das suas calúnias e perseguições. Absteve-Se de todos os prazeres, e sofreu, na Sua vida particular e pública, todas as privações e dores imagináveis. Na Sua morte demonstrou no mais elevado grau a prática dessas três virtudes.

Abracemo-las também ao entrarmos na vida espiritual, e jamais delas nos separemos.

Finalmente, quais foram às pessoas admitidas no presépio de Jesus? É coisa bem notável terem aí comparecido apenas as que foram chamadas por uma voz celeste ou por sinal milagroso. Isto nos ensina que para adotarmos a vida interior, cujo começo o presépio simboliza, precisamos ter vocação divina e que, portanto, ninguém de motu proprio pode nela entrar. Podemos, no entanto, contribuir para a vocação mediante algum preparo nosso, isto é, procurando ter as mesmas disposições e, que estavam os pastores e os magos.

Devemos, pois, a exemplo dos pastores, ser simples, pobres de espírito e pequenos; como eles ter grande retidão de coração, viver na inocência ou romper absolutamente com o pecado. Geralmente são ainda as pessoas de condição comum, de vida humilde e obscura, ignoradas e desprezadas pelo mundo, as que Deus chama à vida interior.

Ao demais, os pastores, mesmo durante a noite, velavam pelos seus rebanhos - o que demonstra constituírem preparo para a vocação do céu a vigilância e atenção para nós mesmos, o temor de Deus, a delicadeza da consciência - a fuga das ocasiões. Os pastores prestaram ouvidos às palavras dos anjos, acreditaram sem refletir ou raciocinar, e, abandonando tudo, partiram imediatamente para ver o Menino recém-nascido. Assim também a alma deve escutar com atenção o que Deus lhe diz ao coração, crer na Sua palavra com fé humilde e cega, largando tudo para seguir pronta e fielmente o instinto da graça.

Nas pessoas dos magos, os grandes e sábios são também chamados ao presépio, porém, grandes humildes, desapegados de tudo, prontos a sacrificar tudo para acudir ao chamado de Deus, sábios sem arrogância, sem presunção, dóceis à luz divina, ante a qual fazem calar todos os raciocínios. Tais foram um São Luiz, um Santo Agostinho, tantos santos de ambos os sexos, distintos pelo brilho do seu nascimento e dos seus cargos, ou pela extensão de seu gênio e dos seus conhecimentos.

O caráter de Herodes, dos fariseus, dos sacerdotes e doutores da lei dá-nos a conhecer aqueles que Jesus rejeita e que a seu turno não aproveitam os meios ordinários fornecidos pela graça para o conhecimento e a prática da vida interior.

(Manual das almas interiores - Compêndio de Opúsculos inéditos do Pe. Grou, da Companhia de Jesus, 1932, Vozes de Petrópolis)

PS: Grifos meus

sábado, 11 de dezembro de 2010

Efeitos de uma boa educação

EFEITOS DE UMA BOA EDUCAÇÃO


A boa educação facilita a resistência às tentações.

E como?
Os filhos educados têm de Deus, do mundo, e de si mesmos um conhecimento suficiente para prever o mal e fugir dele, para manter vivo e ativo aquele temor de Deus que é o começo da sabedoria:

a) Aprenderam de seus pais a conhecer a Deus. Sabem, e desta ciência eminentemente prática fazem uso a cada passo, que foi Deus quem, por sua palavra omnipotente, estendeu sobre nossas cabeças o céu e desdobrou a nossos pés a terra fecunda que pisamos; sabem que a inteligência,  vida e até o ar que respiramos são outros tantos de Sua liberalidade e como que uma centelha divina; sabem que é ainda aquele mesmo Deus quem, todos os dias, por um benefício de cada instante, lhes conserva a vida.

Estão bem convencidos de que não há lugar, por escondido ou afastado que pareça, onde possa alguém escapar à vista de Deus, porque está em toda parte; que Seus olhos perscrutadores penetram as trevas da noite, conhecem todas as dobras do coração humano e não Lhe escapam os pensamentos mais ocultos da alma.

Têm certeza de que um dia deverão comparecer perante o seu incorruptível tribunal e passar pela balança inflexível da Sua justiça.

Estes preciosos ensinamentos gravam de modo indelével na criança as verdades salutares e preservativas da presença, da justiça e do amor de Deus e é com elas que a mãe cristã deverá ir educando seus filhos.

b) Os filhos aprenderam de seus pais a conhecer o mundo.

Longe de verem neste mundo apenas um triste degredo, onde o homem passa a vida entre lágrimas, dores e sofrimentos, aprenderam a contemplá-lo, antes de tudo, como um monumento perene de onipotência, da sabedoria e do amor de Deus que prevê, com extremos de solicitude, às necessidades do corpo e dos sentidos; aprenderam a interpretar a linguagem muda e eloqüente de todas as criaturas que dizem ao homem: Gozai felizes e reconhecidos de tudo o que Deus criou para vosso uso.

Os pais não esqueceram, porém, de lhes inculcar quanto seria irrazoável e ingrato o homem que se apegasse a este mundo, considerando-o domicílio permanente e pátria definitiva, ou abusando das criaturas e perdendo de vista o céu que deve ser o alvo de todos os nossos esforços, de todos os nossos desejos e aspirações. Puseram-nos em guarda contra os outros homens, inculcando-lhes não só uma salutar desconfiança para com as pessoas de procedimento duvidoso, mas habituando-os a um espírito de observação que os habitasse a julgar dos homens por seu valor real, para entrarem depois em relação mais íntima com os que lhes merecem toda a confiança. Uma prudente reserva para com o mundo é o resultado de uma educação séria e previdente. Quantos males se podem evitar e quantos escolhos descobrir em tempo, graças a um conhecimento prático dos perigos e da fragilidade das coisas humanas.

c) Os filhos aprenderam enfim a se conhecerem a si mesmos.

Os pais repetiram-lhes muitas vezes que, apesar dos conhecimentos adquiridos com relativa facilidade, e inteligência ainda não lhe chegou à maturidade e, faltando-lhes a experiência, ainda não sabem avaliar as conseqüências de um ato; que, portanto, devem sempre dirigir ao Pai das misericórdias fervorosas preces para que os dirija sempre pelo bom caminho e, guiando-lhes os passos, os conserve na virtude.

Estes ensinamentos bem inculcados na infância facilitam a reabilitação depois da queda e tornam a criança dócil no remorso.

a) Se, por desgraça, tiverem sido arrastados ou seduzidos pelas más companhias, se o crime os houver iludido por um momento com suas enganadoras aparências, se as paixões ou a leviandade os houverem desviado do caminho da virtude, o temor e o remorso os farão cair em si; a lembrança de um pai, de uma mãe, bastará para desperta-lhes na alma aquelas máximas que tão profundamente lhes foram gravadas e essas máximas agarrá-los-ão pelos cabelos, se assim me posso expressar, para arrancá-los ao abismo a que os arrastará um momento de irreflexão. A consciência, que não dorme, apresentar-se-lhes-á como um gênio protetor a bradar-lhes: Como? Em um só momentos vos atreveis a derrubar o edifício que vossos pais, com tanto trabalho, levantaram, a paralisar as sábias lições de um pai, a esquecer os conselhos tão piedosos de uma mãe? A luta manifestar-se-á. Um olhar para o céu e este pensamento: "Como ousaria eu pecar à face de Deus?" lhes farão vencer a tentação e conservar a inocência.

b) A boa educação torna mais difícil a obstinação no vício.

Os filhos bem educados dificilmente se obstinarão no crime. Quando, por qualquer um desses incidentes de que se serve a graça, despertarem do letargo momentâneo, não sentirão eles uma dor pungente pelo que houverem feito? Aquele olhar perscrutador dos pais não lhes entrará como uma espada pela alma a dentro? Ou, se os pais já não vivem, a sua imagem não lhes parecerá sair do sepulcro para repreendê-los, até que voltem ao bom caminho? se quiserdes um exemplo frisante, ali  o tendes em Santo Agostinho, o qual, entregue a muitos excessos na mocidade, sempre pensava estar ouvindo a voz de sua piedosa e santa mãe.

Santa Mônica tivera o cuidado de gravar profundamente no coração do filho ainda pequeno, as máximas das virtude, para que Agostinho não as pudesse esquecer tão depressa. É verdade que o hábito contraído parecia ter insensibilizado aquela alma; mas não há tal; as lições de tão santa mãe retomavam sempre o seu legítimo império sobre o seu coração e o penetravam de tal nodo que acabou enfim por abandonar aquela vida e converteu-se para sempre.

Ó mães, educai cristãmente vossos filhos; isso equivale a assegurar-lhes o futuro. Educai-os no temor e amor de Deus, em uma prudente desconfiança do mundo e de si mesmos. Assim procedendo, se não lhes assegurais definitivamente a salvação da alma, quando menos, forneceis-lhes o meio poderoso de fugir ao mal e facilitais-lhes  a volta ao bom caminho.

***

Contam os historiadores de Branca de Castela, da França, que, aquela rainha, ao intuito de inspirar ao filhinho, o futuro São Luís, um grande horror ao pecado, costumava repetir-lhe muitas vezes: "Meu filho, se soubesses quanto te amo! Entretanto, prefiro ver-te morto a meus pés, do que ofenderes a Deus gravemente!". Depois, juntando-lhe as mãozinhas, fazia-o rezar esta oração que vem atravessando os séculos como um monumento da religião de tal mãe e da piedade daquele filho: "Antes morrer, meu Deus, que ofender-Vos com um pecado mortal".

O conde de Maistre escrevia à filha que acabava de lhe dar o primeiro neto: "É no regaço materno que se forma o que há de mais excelente no mundo".

Como é edificante e sublime o exemplo dessas mães que deram à Igreja tantos santos!

"Quero fazer do meu filho um santo", dizia a mãe de Santo Atanásio.

"Obrigado, meu Deus, obrigado por me terdes dado por mãe uma santa", exclamava, na hora da morte de Santa Emília, os seus dois filhos São Basílio e Santo Gregório de Nissa.

"Sim, meu Deus, em tudo devo à minha mãe", dizia Santo Agostinho.

São Gregório Magno deixou-nos um monumento do que cria dever à sua piedosa mãe, Silvia: Fê-la pintar assentada a seu lado, ornada de um vestido branco, tendo sobre a fronte o distintivo dos doutores da Igreja, com os dois dedos da mãe direita estendidos em atitude de quem abençoa, e sustentando com a mão esquerda o livro dos santos Evangelhos que apresenta ao Filho.

Um dia, o cura d'Ars, relembrando com profunda saudade o tempo de sua infância, ouviu alguém dizer-lhe: "Fostes muito feliz por terdes saboreado desde os mais tenros anos, as doçuras da piedade". - "Depois de Deus, retorquiu o santo, a minha mãe o devo: era tão piedosa! 'Meu filho, dizia ela, muitas vezes, seria para mim uma grande mágoa se te visse ofender a Deus". E pensado nisso, costumava dizer o santo sacerdote que um filho não deveria encarar nunca sua mãe sem lágrimas de ternura.

"Não há nada que tanto nos aproxime de Deus, dizia Ozanam, como a lembrança de uma mãe piedosa". Aí está Agostinho, o filho de Santa Mônica, para o demonstrar àqueles que o duvidarem. "Se a mãe, diz J. de Maistre, tiver deveras gravado profundamente no coração do filho o caráter divino, pode-se quase ter a certeza de que o vício jamais conseguirá apagá-lo de todo".

Uma educação assim, reverte aliás em benefício dos próprios pais e é mais um motivo que os deve animar no cumprimento do dever. Este ponto não se refere diretamente ao assunto que trazemos entre mãos, mas não nos podemos furtar ao desejo de apresentar ao leitor algumas considerações a respeito.

(As desavenças no lar, causas e remédios, por J.Nysten, Centro da Boa Imprensa, Porto Alegre, 1927, com imprimatur, continua com o post: Proveito que os pais podem tirar da boa educação que houverem dado a seus filhos)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A GRAÇA

A GRAÇA

(Linda gravura, clique nela para ampliá-la)

EXPLICAÇÃO DA GRAVURA 


A alma e o convívio social

A ALMA E O CONVÍVIO SOCIAL

A alma abandonada a Deus deve viver no meio a que pertence, de maneira humana. Não lhe foi dada uma natureza angélica, unicamente ocupada  em pensar e amar a Deus. Vive no seio de uma família, de um ambiente de trabalho, de uma sociedade.

Mil relações de amizade, de interesses, de conveniências, de parentescos, ligam-na e solicitam-lhe a atenção. Entre estas muitas são boas e gratas, oferecendo-lhe ocasiões de servir, de dar-se, de distrair-se e cultivar-se. Outras são cordiais e íntimas, e outras ainda não são apenas pessoais, mas meio de expansão e convívio da família com outras famílias.

Ora essas relações agradam e encantam a alma, ora a perturbam, agitando-a, embaraçando-a, roubando-lhe o tempo e sossego; ou ainda a contrariam e descontentam, pois podem ser fonte de invejas e ódios e levar-lhe o pensamento para longe do Deus da paz.

É preciso, pois, escolher as relações com critério, eliminar as supérfluas, reduzir as que são apenas úteis e regular as necessárias. A alma verdadeiramente interior nunca se escraviza a criatura alguma, por mais agradável que seja. Nunca se abandona a não ser a Jesus. No fundo do coração, reserva um lugar onde nunca penetra nenhuma amizade terrena, por mais íntima que seja. A porta permanece fechada, pois só o Senhor a transpõe. É a morada de Deus.

O coração que pertence a Deus está completamente ocupado por Ele, até transbordar. É esta superabundância que derrama depois sobre as criaturas que o rodeiam.

Ninguém tão terno como a alma simples, ninguém ama tão puramente e com tanta constância a família, os amigos e mesmo os simples conhecidos. O seu amor é isento de egoísmo, pois é da mesma natureza que o amor que consagra ao Senhor; não está sujeito a variações, ao capricho, ao humor do momento; não se regula pelas qualidades, beleza, mérito, bondade, porque tem o seu único fundamento em Deus. A infidelidade, a ingratidão, a traição, as críticas podem supreendê-la, mas não desanimá-la.

Não procura também assenhorear-se em exclusiva do afeto e da estima de outra criatura. Sabe não ter esse direito, por ser Jesus o único Senhor das almas, o único Soberano a quem são devidos todo o amor e toda a glória.

Vive assim desapegada e livre no meio de um mundo de relações. Domina-as, governa-as, regula-lhe a natureza, o tempo e o modo. É uma maravilha contemplar um alma assim, que vive serena num ambiente agitado e atormentado! Dir-se-ia uma grande árvore que sobressai no bosque. O vento apenas consegue agitar-lhe os ramos. Quando ao redor tudo se turva e despedaça, a alma interior permanece  imperturbável e tranquila; quando o turbilhão das mil relações sociais por mera conveniência ou interesse arrasta as almas vulgares e as lança na dissipação e no desassossego, essa alma permanece inabalável, com a fronte erguida para o céu e o coração enraizado em Cristo. Ninguém é capaz deste domínio sobre si mesmo a não ser aquele que encara todo o seu relacionamento humano à luz dos interesses de Deus, e não dos próprios.

Senhor, ensinai-me este segredo divino. Uni-me tão fortemente a Vós que nenhuma criatura consiga separar-nos. Sinto ser a fraqueza personificada, pois tudo me condiciona: o olhar de um amigo, o gesto de um inimigo, uma palavra mordaz, um sorriso, tudo atua em mim e me perturba. A adversidade abate-me, a contrariedade desanima-me, o sofrimento enerva-me, a contradição exaspera-me; um gesto afetuoso cativa-me, a sua ausência desgosta-me, uma boa palavra conforta-me, um louvor lisonjeia-me, uma aprovação estimula-me; ando à mercê das minhas impressões. O meu espírito e o meu coração não me pertencem.

Senhor! Restituí-me a independência de filho de Deus que viestes implantar na terra. Que não dependa dos juízos e das atitudes de ninguém senão de Vós e daqueles que Vos representam, que o respeito humano não tenha influência sobre mim, que seja insensível à aprovação ou à critica, que a multiplicidade das relações necessárias não me distraia de Vós, e as encare e cultive todas como Vós a encarastes quando vivíeis entre nós.

(O dom de si, vida de abandono em Deus, pelo Pe. Joseph Schrijvers, Quadrante, 1993)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

ESPÍRITO E VIDA - As sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo (em PDF)

Nota do blogue: É com muita alegria que disponibilizo esta obra na internet. Agradeço a intercessão de São Paulo da Cruz que me auxiliou no cumprimento deste objetivo.


As sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo
por
Padre J.Cabral

(clique no título para baixá-lo)


Recogitate eum qui talem sustinuit a peccatoribus contradictionem (Heb. 12,5). Releiam a Paixão; sigamos hora por hora, palavra por palavra seus pormenores impressionantes. Refaçamos, passo a passo, a estrada ensangüentada cujas pedras Lhe foram atiradas por mãos de algozes sem entranhas. Sigamos a via da amargura com o pequeno grupo fiel, com a Mãe Dolorosa, com as santas mulheres, com o discípulo amado. Demoremo-nos aos pés da Cruz, no alto do Calvário, e escutemos as palavras de Jesus Cristo. Amemos aquelas chagas que, no dizer de Bossuet, formam a beleza do Cristo. Elas são os sinais de Sua soberania. Pela efusão do sangue na Cruz Ele é, ao mesmo tempo, o Rei Salvador e o Pontífice Salvador. Ele não é como os devastadores de província; triunfa pela ventura que destina aos Seus filhos.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Os esplendores do Calvário

OS ESPLENDORES DO CALVÁRIO


Calvário, lugar de expiação!
Calvário, lugar de opróbrios e humilhações!
Calvário, martírio do Filho de Deus e libertação dos filhos dos homens.

Cruz, madeiro do suplício; Cruz, árvore da redenção.

É a linha divisória dos tempos, que separa a história humana em duas grandes etapas inteiramente diversas, completamente distintas.

À Cruz precederam quarenta séculos de degradações e de infâmias, que aviltam e envergonham a humanidade; quarenta séculos de idolatria e de superstições, que constituíam o patrimônio moral e intelectual da nossa espécie, quando o homem dormia à sombra do erro e da mentira.

Depois do Calvário, encontramos a verdade restituída ao pensamento humano, à justiça reintegrada em seu posto, o erro confundido e a mentira desmascarada. O mal, o vício e a iniqüidade foram julgados à face do céu e da terra e ao predomínio da matéria sucedeu uma civilização implantada sobre conceitos e valores de ordem espiritual e sobrenatural.

E a cruz, que, no passado, era um símbolo de opróbrios, constituiu-se em vexilo triunfal, a cujos pés se prosternam, faz vinte séculos, as gerações humanas.

***

O Calvário veio realizar as palavras proféticas, que anunciavam Jesus Cristo como sinal de contradição para muitos. Efetivamente, ante as ignomínias do último suplício, os filhos do povo eleito se escandalizaram e os gentios escarneceram de um Deus erguido entre dois ladrões.

O escândalo e a loucura da Cruz!

Mistério da sabedoria infinita, prodígio da ciência divina, é a Cruz o tesouro inexaurível onde os santos vão buscar acréscimo de justificação, os bons haurem a graça santificante e os maus, angustiados encontram o salutar perdão de suas culpas.

Na Cruz, proclama o sábio e piedoso autor da Imitação de Cristo está a salvação, a vida, o escudo contra os ataques do inimigo, as delícias da celestial suavidade; na Cruz está a força e a inteligência, a alegria do espírito, a plenitude de todas as virtudes, a santificação perfeita”.

Não é de admirar, pois, que o grande Apóstolo dos gentios, na sua primeira Epístola aos coríntios, haja feito esta bela e sublime afirmação:

Porque não entendi eu saber, entre nós, coisa alguma senão a Jesus Cristo, e este crucificado.”

São Paulo, que discutia, tantas vezes, com filósofos, estóicos e epicuristas e que, no Areópago de Atenas, em linguagem elevada, versava sobre as doutrinas mais sutis, colocava acima de todos os conhecimentos humanos a ciência da Cruz e de Jesus Cristo morto em prol do resgate dos filhos de Adão.

E o exemplo desse arauto da boa nova frutificou no seio da comunidade cristã e a devoção a Jesus Crucificado, a contemplação das dores e dos sofrimentos do Homem-Deus e o amor à Cruz tornaram-se elementos primordiais da verdadeira piedade e ocuparam lugar salientíssimo na vida dos santos e dos servos privilegiados do Senhor.

A frágil humanidade, o comum dos homens e as almas simples encontram na pobreza, nas humilhações, nos opróbrios e nas ignomínias do Homem das Dores, um bálsamo suave para todas as angústias da terra, um lenitivo para todas as chagas do corpo, um conforto para todas as dores da alma. Nas horas difíceis, nos golpes da fortuna, nas incertezas do porvir, quando as lágrimas umedecem o pão quotidiano, o Crucifixo nos oferece o manjar da divina consolação e nos infunde as esperanças eternas dos verdadeiros bens.

Na doce tranqüilidade dos claustros, na suave convivência do lar, no meio das agitações da vida, nos dias de luto e pesar, a memória do sacrifício tremendo do Calvário desperta nos ânimos esclarecidos pela fé sentimentos de coragem, de resignação, de fortaleza sobrenatural.

***

O poder infinito de Deus confundiu a soberba dos humanos juízos e converteu a suprema humilhação em exaltação perene e sem par. Os reis da terra governam do alto dos tronos e dos solios; Cristo quis reinar do cimo do Calvário...

Cícero dizia: “Horrível é a ignomínia de uma condenação pública, horrível a confiscação, horrível o desterro. Todavia, no meio destas calamidades, algum vestígio de liberdade nos resta ainda; e a própria morte, se nos é infligida, suportamo-la livre de toda e qualquer peia. Mas o algoz, o véu pela cabeça, o nome de cruz, tudo isso não se aproxime de um cidadão romano, não só de seu corpo, senão também do seu pensamento”.

Os romanos consideravam esse instrumento de suplício como “o lenho do desgraçado”, “A árvore fatal”, o suplício dos escravos.

Nas Sagradas Escrituras, os videntes do Antigo Testamento se mostravam aterrados, quando anteviam o gênero de morte, “morte vergonhosa”, a que seria condenado o Filho de Deus.

E a despeito de todas as fúrias do inferno, de todos os recursos da maldade dos homens, a Cruz impôs-se ao mundo inteiro e ainda hoje, recebe as demonstrações de fé e respeito de quantos adoram a Jesus Cristo.

Do cimo do Calvário, foi a Cruz transplantada para os altos do Capitólio e os dominadores de Roma adoraram um judeu supliciado em Jerusalém.

As invasões bárbaras esfacelaram o velho império de Augusto; a religião do Crucificado subjugou as hostes dos chefes dos invasores; nas Galias, Clovis quebrou os ídolos que adorara para adorar a Cruz, que ele mesmo tentara destruir. Bonifácio converte as tribos da Germânia; Anscário anuncia o Evangelho aos habitantes da fria Escandinávia; Agostinho prega a lei de Cristo ao povo das ilhas britânicas. Passam os séculos; Cirilo e Metodio convertem à religião da Cruz as gentes eslavas e dilatam, mais e mais, o reino de Deus.

Navegadores audazes desvendam os segredos do oceano e o descobrimento de novas terras vem multiplicar o mundo... partem, céleres e ardorosos, os arautos da verdade e tratam de converter ao catolicismo as raças estranhas, que habitam além-mar. Quando alguns bravos sucumbem no ardor do bom combate, surgem, imediatamente, outros evangelizadores do bem e da paz, que vão tomar o posto daqueles que se partiram deste vale de lágrimas...

A Cruz, nos primórdios do cristianismo, encheu de forças sobrenaturais e infundiu constância inabalável no ânimo dos cristãos, que os algozes conduziam ao suplício e as feras dilaceravam, nas arenas ensangüentadas dos circos; em plena civilização do vigésimo século, o Calvário irradia coragem e luz, que sustentam os mártires hodiernos, dando-lhes a energia serena para morrerem pela confissão do supliciado do Gólgota, cuja divindade proclamam, no último momento:

VIVA CRISTO REI

São milagres que a lógica não explica, que a razão não concebe e que a natureza não pode admitir. Somente a razão esclarecida pela fé concebe, explica e admite: Jesus Cristo é Deus e assentou o Seu trono sobre o monte de ignomínia e quer reinar do alto do madeiro infamante.

REGNAVIT A LIGNO DEUS

(Espírito e Vida, as sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. J.Cabral, editora ABC limitada; ano de 1937)

PS: Grifos meus

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

ORAÇÃO DE SANTO AFONSO À SENHORA IMACULADA

ORAÇÃO DE SANTO AFONSO À SENHORA IMACULADA


Ó minha Senhora, minha Imaculada, alegro-me conVosco por ver-Vos enriquecida de tanta pureza. Agradeço e proponho agradecer sempre o nosso comum Criador por ter-Vos Ele preservado de toda mancha de culpa. Disso tenho plena convicção, e para defender este Vosso tão grande e singular privilégio da Imaculada Conceição, juro dar até a minha vida. Estou pronto a fazê-lo, se preciso for. Desejaria que o mundo universo Vos reconhecesse e confessasse como aquela formosa aurora, sempre adornada da divina luz; como aquela arca eleita de salvação, livre do comum naufrágio do pecado; como aquela perfeita e imaculada pomba, qual Vos declarou Vosso divino Esposo; como aquele jardim fechado, que foi as delícias de Deus; como aquela fonte selada, na qual o inimigo jamais pode entrar para turvá-la; como aquele cândido lírio, finalmente, que, brotando entre os espinhos dos filhos de Adão, enquanto todos nascem manchados da culpa e inimigos de Deus, Vós nascentes pura e imaculada, amiga de Vosso Criador.

Consenti, pois, que ainda Vos louve, como Vos louvou Vosso próprio Deus: Toda Sois formosa e em Vós não há mancha. Ó pomba puríssima, toda cândida, toda bela, sempre amiga de Deus! Dulcíssima, amabilíssima, imaculada Maria, Vós que sois tão bela aos olhos do Senhor, não recuseis olhar com Vossos piedosíssimos olhos as chagas tão asquerosas de minha alma.

Olhai-me, compadecei-Vos de mim, e curai-me. Ó belo ímã dos corações, atraí para Vós também este meu miserável coração. Tende piedade de mim, que não só nasci em pecado, mais ainda depois do batismo manchei minha alma com novas culpas, ó senhora, que desde o primeiro instante de Vossa vida aparecestes bela e pura aos olhos de Deus. Que graça Vos poderá negar o Deus que Vos escolheu para Sua Filha, Sua Mãe e Sua esposa, e por essa razão Vos preservou de toda mancha? Virgem Imaculada, a Vós compete salvar-me, dir-Vos-ei com S. Filipe Néri. Fazei que me lembre de Vós; e não Vos esqueçais de mim. Parece tardar mil anos o momento de ir contemplar Vossa beleza no Paraíso, para melhor louvar-Vos e amar-Vos, minha Mãe, minha Rainha, minha Amada, belíssima, dulcíssima, puríssima, imaculada Maria. Amém.

Nota do livro: Santo Afonso escreveu o presente livro em 1750, portanto 104 anos antes da promulgação do dogma da Imaculada Conceição. Com este seu trabalho, e com outros escritos ascéticos, contribuiu muitíssimo para mais este triunfo de nossa Senhora.

(Glórias de Maria, Santo Afonso Maria de Ligório, editora Santuário, 18ª edição)