quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

ESPÍRITO E VIDA - As sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo (em PDF)

Nota do blogue: É com muita alegria que disponibilizo esta obra na internet. Agradeço a intercessão de São Paulo da Cruz que me auxiliou no cumprimento deste objetivo.


As sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo
por
Padre J.Cabral

(clique no título para baixá-lo)


Recogitate eum qui talem sustinuit a peccatoribus contradictionem (Heb. 12,5). Releiam a Paixão; sigamos hora por hora, palavra por palavra seus pormenores impressionantes. Refaçamos, passo a passo, a estrada ensangüentada cujas pedras Lhe foram atiradas por mãos de algozes sem entranhas. Sigamos a via da amargura com o pequeno grupo fiel, com a Mãe Dolorosa, com as santas mulheres, com o discípulo amado. Demoremo-nos aos pés da Cruz, no alto do Calvário, e escutemos as palavras de Jesus Cristo. Amemos aquelas chagas que, no dizer de Bossuet, formam a beleza do Cristo. Elas são os sinais de Sua soberania. Pela efusão do sangue na Cruz Ele é, ao mesmo tempo, o Rei Salvador e o Pontífice Salvador. Ele não é como os devastadores de província; triunfa pela ventura que destina aos Seus filhos.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Os esplendores do Calvário

OS ESPLENDORES DO CALVÁRIO


Calvário, lugar de expiação!
Calvário, lugar de opróbrios e humilhações!
Calvário, martírio do Filho de Deus e libertação dos filhos dos homens.

Cruz, madeiro do suplício; Cruz, árvore da redenção.

É a linha divisória dos tempos, que separa a história humana em duas grandes etapas inteiramente diversas, completamente distintas.

À Cruz precederam quarenta séculos de degradações e de infâmias, que aviltam e envergonham a humanidade; quarenta séculos de idolatria e de superstições, que constituíam o patrimônio moral e intelectual da nossa espécie, quando o homem dormia à sombra do erro e da mentira.

Depois do Calvário, encontramos a verdade restituída ao pensamento humano, à justiça reintegrada em seu posto, o erro confundido e a mentira desmascarada. O mal, o vício e a iniqüidade foram julgados à face do céu e da terra e ao predomínio da matéria sucedeu uma civilização implantada sobre conceitos e valores de ordem espiritual e sobrenatural.

E a cruz, que, no passado, era um símbolo de opróbrios, constituiu-se em vexilo triunfal, a cujos pés se prosternam, faz vinte séculos, as gerações humanas.

***

O Calvário veio realizar as palavras proféticas, que anunciavam Jesus Cristo como sinal de contradição para muitos. Efetivamente, ante as ignomínias do último suplício, os filhos do povo eleito se escandalizaram e os gentios escarneceram de um Deus erguido entre dois ladrões.

O escândalo e a loucura da Cruz!

Mistério da sabedoria infinita, prodígio da ciência divina, é a Cruz o tesouro inexaurível onde os santos vão buscar acréscimo de justificação, os bons haurem a graça santificante e os maus, angustiados encontram o salutar perdão de suas culpas.

Na Cruz, proclama o sábio e piedoso autor da Imitação de Cristo está a salvação, a vida, o escudo contra os ataques do inimigo, as delícias da celestial suavidade; na Cruz está a força e a inteligência, a alegria do espírito, a plenitude de todas as virtudes, a santificação perfeita”.

Não é de admirar, pois, que o grande Apóstolo dos gentios, na sua primeira Epístola aos coríntios, haja feito esta bela e sublime afirmação:

Porque não entendi eu saber, entre nós, coisa alguma senão a Jesus Cristo, e este crucificado.”

São Paulo, que discutia, tantas vezes, com filósofos, estóicos e epicuristas e que, no Areópago de Atenas, em linguagem elevada, versava sobre as doutrinas mais sutis, colocava acima de todos os conhecimentos humanos a ciência da Cruz e de Jesus Cristo morto em prol do resgate dos filhos de Adão.

E o exemplo desse arauto da boa nova frutificou no seio da comunidade cristã e a devoção a Jesus Crucificado, a contemplação das dores e dos sofrimentos do Homem-Deus e o amor à Cruz tornaram-se elementos primordiais da verdadeira piedade e ocuparam lugar salientíssimo na vida dos santos e dos servos privilegiados do Senhor.

A frágil humanidade, o comum dos homens e as almas simples encontram na pobreza, nas humilhações, nos opróbrios e nas ignomínias do Homem das Dores, um bálsamo suave para todas as angústias da terra, um lenitivo para todas as chagas do corpo, um conforto para todas as dores da alma. Nas horas difíceis, nos golpes da fortuna, nas incertezas do porvir, quando as lágrimas umedecem o pão quotidiano, o Crucifixo nos oferece o manjar da divina consolação e nos infunde as esperanças eternas dos verdadeiros bens.

Na doce tranqüilidade dos claustros, na suave convivência do lar, no meio das agitações da vida, nos dias de luto e pesar, a memória do sacrifício tremendo do Calvário desperta nos ânimos esclarecidos pela fé sentimentos de coragem, de resignação, de fortaleza sobrenatural.

***

O poder infinito de Deus confundiu a soberba dos humanos juízos e converteu a suprema humilhação em exaltação perene e sem par. Os reis da terra governam do alto dos tronos e dos solios; Cristo quis reinar do cimo do Calvário...

Cícero dizia: “Horrível é a ignomínia de uma condenação pública, horrível a confiscação, horrível o desterro. Todavia, no meio destas calamidades, algum vestígio de liberdade nos resta ainda; e a própria morte, se nos é infligida, suportamo-la livre de toda e qualquer peia. Mas o algoz, o véu pela cabeça, o nome de cruz, tudo isso não se aproxime de um cidadão romano, não só de seu corpo, senão também do seu pensamento”.

Os romanos consideravam esse instrumento de suplício como “o lenho do desgraçado”, “A árvore fatal”, o suplício dos escravos.

Nas Sagradas Escrituras, os videntes do Antigo Testamento se mostravam aterrados, quando anteviam o gênero de morte, “morte vergonhosa”, a que seria condenado o Filho de Deus.

E a despeito de todas as fúrias do inferno, de todos os recursos da maldade dos homens, a Cruz impôs-se ao mundo inteiro e ainda hoje, recebe as demonstrações de fé e respeito de quantos adoram a Jesus Cristo.

Do cimo do Calvário, foi a Cruz transplantada para os altos do Capitólio e os dominadores de Roma adoraram um judeu supliciado em Jerusalém.

As invasões bárbaras esfacelaram o velho império de Augusto; a religião do Crucificado subjugou as hostes dos chefes dos invasores; nas Galias, Clovis quebrou os ídolos que adorara para adorar a Cruz, que ele mesmo tentara destruir. Bonifácio converte as tribos da Germânia; Anscário anuncia o Evangelho aos habitantes da fria Escandinávia; Agostinho prega a lei de Cristo ao povo das ilhas britânicas. Passam os séculos; Cirilo e Metodio convertem à religião da Cruz as gentes eslavas e dilatam, mais e mais, o reino de Deus.

Navegadores audazes desvendam os segredos do oceano e o descobrimento de novas terras vem multiplicar o mundo... partem, céleres e ardorosos, os arautos da verdade e tratam de converter ao catolicismo as raças estranhas, que habitam além-mar. Quando alguns bravos sucumbem no ardor do bom combate, surgem, imediatamente, outros evangelizadores do bem e da paz, que vão tomar o posto daqueles que se partiram deste vale de lágrimas...

A Cruz, nos primórdios do cristianismo, encheu de forças sobrenaturais e infundiu constância inabalável no ânimo dos cristãos, que os algozes conduziam ao suplício e as feras dilaceravam, nas arenas ensangüentadas dos circos; em plena civilização do vigésimo século, o Calvário irradia coragem e luz, que sustentam os mártires hodiernos, dando-lhes a energia serena para morrerem pela confissão do supliciado do Gólgota, cuja divindade proclamam, no último momento:

VIVA CRISTO REI

São milagres que a lógica não explica, que a razão não concebe e que a natureza não pode admitir. Somente a razão esclarecida pela fé concebe, explica e admite: Jesus Cristo é Deus e assentou o Seu trono sobre o monte de ignomínia e quer reinar do alto do madeiro infamante.

REGNAVIT A LIGNO DEUS

(Espírito e Vida, as sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. J.Cabral, editora ABC limitada; ano de 1937)

PS: Grifos meus

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

ORAÇÃO DE SANTO AFONSO À SENHORA IMACULADA

ORAÇÃO DE SANTO AFONSO À SENHORA IMACULADA


Ó minha Senhora, minha Imaculada, alegro-me conVosco por ver-Vos enriquecida de tanta pureza. Agradeço e proponho agradecer sempre o nosso comum Criador por ter-Vos Ele preservado de toda mancha de culpa. Disso tenho plena convicção, e para defender este Vosso tão grande e singular privilégio da Imaculada Conceição, juro dar até a minha vida. Estou pronto a fazê-lo, se preciso for. Desejaria que o mundo universo Vos reconhecesse e confessasse como aquela formosa aurora, sempre adornada da divina luz; como aquela arca eleita de salvação, livre do comum naufrágio do pecado; como aquela perfeita e imaculada pomba, qual Vos declarou Vosso divino Esposo; como aquele jardim fechado, que foi as delícias de Deus; como aquela fonte selada, na qual o inimigo jamais pode entrar para turvá-la; como aquele cândido lírio, finalmente, que, brotando entre os espinhos dos filhos de Adão, enquanto todos nascem manchados da culpa e inimigos de Deus, Vós nascentes pura e imaculada, amiga de Vosso Criador.

Consenti, pois, que ainda Vos louve, como Vos louvou Vosso próprio Deus: Toda Sois formosa e em Vós não há mancha. Ó pomba puríssima, toda cândida, toda bela, sempre amiga de Deus! Dulcíssima, amabilíssima, imaculada Maria, Vós que sois tão bela aos olhos do Senhor, não recuseis olhar com Vossos piedosíssimos olhos as chagas tão asquerosas de minha alma.

Olhai-me, compadecei-Vos de mim, e curai-me. Ó belo ímã dos corações, atraí para Vós também este meu miserável coração. Tende piedade de mim, que não só nasci em pecado, mais ainda depois do batismo manchei minha alma com novas culpas, ó senhora, que desde o primeiro instante de Vossa vida aparecestes bela e pura aos olhos de Deus. Que graça Vos poderá negar o Deus que Vos escolheu para Sua Filha, Sua Mãe e Sua esposa, e por essa razão Vos preservou de toda mancha? Virgem Imaculada, a Vós compete salvar-me, dir-Vos-ei com S. Filipe Néri. Fazei que me lembre de Vós; e não Vos esqueçais de mim. Parece tardar mil anos o momento de ir contemplar Vossa beleza no Paraíso, para melhor louvar-Vos e amar-Vos, minha Mãe, minha Rainha, minha Amada, belíssima, dulcíssima, puríssima, imaculada Maria. Amém.

Nota do livro: Santo Afonso escreveu o presente livro em 1750, portanto 104 anos antes da promulgação do dogma da Imaculada Conceição. Com este seu trabalho, e com outros escritos ascéticos, contribuiu muitíssimo para mais este triunfo de nossa Senhora.

(Glórias de Maria, Santo Afonso Maria de Ligório, editora Santuário, 18ª edição)

A MEU ANJO DA GUARDA

A MEU ANJO DA GUARDA


(Música de: Par les chants les plus magnifiques)

Glorioso Guardião de minh'alma,
Tu que brilhas lá no céu,
Como pura e doce chama
Ao lado do trono do Eterno,
Tu, por mim desces à terra
E com tua luz me iluminas,
Tornando-te meu irmão,
amigo e consolador.

Conhecendo-me a fraqueza,
Tu me diriges pela mão.
E te vejo, com ternura,
tirar pedras do caminho.
Tua doce voz me convida
A sempre olhar para o céu;
Mais me vês pequena e humilde,
Mais esplendor tens na fronte.

Ó tu que cruzas o espaço
Mais veloz do que os relâmpagos,
Peço-te, em meu lugar,
Voa até aqueles que amo!
Com as asas seca seu pranto,
Canta que Jesus é bom
E que a dor tem seus encantos
E sussurra-lhes meu nome...

Quero, nesta curta vida,
Salvar irmãos pecadores;
Ó meu belo anjo do céu,
Dá-me teus santos ardores.
Só tenho meus sacrifícios
E minha austera pobreza:
Com os teus gozos celestes
Oferece-os à Trindade.

A ti o Reino e sua Glória
Com os dons do Rei dos reis.
A mim o cibório e sua hóstia,
A mim o tesouro da cruz.
Sim, a mim só cruz com Hóstia.
Com tua ajuda celeste,
Espero em paz a outra vida,
E as alegrias eternas.

(A minha querida Irmã Maria Filomena lembrança do Menino Jesus da Sagrada Face, Rel. Carm. Ind. - Obras Completas - Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face, edições Loyola)

O REDENTOR DO MUNDO

O REDENTOR DO MUNDO


Muitas outras coisas, porém, há ainda, que fez Jesus, as quais, se se escrevessem uma a uma, creio que nem no mundo todo poderiam caber os livros, que se teriam de escrever (Joan. XXI, 25)

Com estas palavras o Apóstolo São João encerra o IV Evangelho.

Os comentadores dos textos sagrados buscam penetrar o sentido e explicar esta bela passagem do narrador dos acontecimentos culminantes da existência terrena do Filho de Deus.

Segundo Martini, essa hipérbole de São João indica que é incalculável o número das coisas admiráveis operadas por Jesus Cristo e que nem o discípulo predileto nem os outros evangelistas narravam, embora estivesse fresca a memória de todos esses fatos e ainda vivessem muitos dos que os presenciaram.

São João Crisóstomo, explicando o sentido do supramencionado versículo do IV evangelho, diz que São João queria exprimir que não escrevera para engrandecer a Jesus Cristo nem exagerar os feitos do Divino Mestre, uma vez que ele (o autor) não escrevera senão uma parte mínima do que de maravilhoso operava o Verbo Encarnado. O mesmo comentador arbitra ainda uma outra explicação: o evangelista quis dar a entender que era mais difícil aos discípulos do Senhor enumerar e descrever os Seus prodígios, do que o fora Ele (Jesus) realizá-los e levar a cabo o que, para nos salvar, determinou o quis o Deus Onipotente e bendito, que o é por todos os séculos dos séculos.
Certo é que, após tantos séculos, a inteligência humana não cessou de estudar e de meditar sobre a personalidade adorável de Jesus Cristo.

Até hoje, em todos os tempos, no seio de todas as sociedades, dentro de todas as condições de vida, o homem não terminou ainda o estudo do que Jesus veio ensinar aos filhos de Adão.
Toda razão tinha, pois, o Apóstolo, quando afirmava que o mundo inteiro não seria suficiente para conter os livros que narrassem tudo quanto operou Cristo Jesus, o Redentor do mundo.

***

Ao passo que a memória dos grandes homens sofre a ação do tempo e os maiores acontecimentos da história são relegados ao esquecimento, no longo decurso dos séculos, o nome de Jesus Cristo, dia a dia, se torna mais conhecido, a Sua doutrina é melhor estudada e as Suas ações tornam-se regras da moral. Isso tudo, é naturalmente, inexplicável e confere um caráter misterioso à figura do Rabi da Galiléia.

Eis a razão pela qual, diante dessa figura de tão grande projeção, na história humana, mui naturalmente, a nós mesmos nos interrogamos: Quem é Jesus Cristo?

Hettinger, o grande professor da Universidade de Wurtzburgo, na Alemanha, responde-nos, em erudita e formosa página, que transcrevemos:

Jesus Cristo é a vítima da reconciliação, única, verdadeira e eterna, donde deriva para o gênero humano a salvação e, por meio dEle, todos os sacrifícios antigos encontraram o seu cumprimento. Nele se manifestaram a justiça e a santidade do Pai; a essência invisível de Deus, a Sua sabedoria e majestade; a Sua misericórdia e amor se apresentaram a nós visivelmente na Sua pessoa. Daqui resulta que Ele é a luz que ilumina o mundo dos espíritos, a caridade que enche todos os corações, o manancial donde todos haurem a vida, essa vida que ab aeterno e antes de todas as coisas jazia no seio do Pai, donde derivou para o Filho e eternamente aflui e reflui sobre as criaturas por intermédio de Jesus Cristo. Ele é a vida, cujos ramos, unidos a si, exalta para a unidade da vida.

Pelo Seu sangue, adquiriu em nós uma propriedade completa, tendo descido aos limbos, onde jaziam os justos do Velho Testamento, arrebatou-os para o Seu reino, patenteando agora por virtudes da Sua morte.

Sentado à direita do Eterno Pai, governa e aperfeiçoa os que Lhe pertencem como Senhor, Rei e Chefe real deste novo reino da graça e redenção, da sociedade dos santos, que compreende todos os tempos, todas as criaturas, os anjos e os homens, sobre os quais, de contínuo, derrama as Suas graças, defendendo-os e guardando-os contra os ataques violentos e as insídias ocultas dos inimigos visíveis e invisíveis, alimentado-os com o pão da vida e enchendo-os dos bens celestes, até que alvoreça o dia em que a Sua Igreja sobre a terra passe do estado de combate para o do triunfo e semelhante a Ele, deponha as vestes da humilhação, para com Ele e sob a Sua direção tomar parte da glória e na bem-aventurança eterna.

E este reino, que é o Seu reino, não terá fim. Cristus vincit, Christus regnat, Christus populum suum ab omni malo defendit – esta inscrição, que se acha gravada no obelisco da praça de São Pedro, em Roma, é o breve compêndio de toda história do mundo”. (Apologia do Cristianismo – vol. IV, cap. XII)

***

Jesus Cristo tem o Seu nome indissoluvelmente ligado ao grande acontecimento da história: a Redenção do gênero humano, mistério central da nossa crença religiosa e obra prima da misericórdia e da justiça divina e infinita.

O Redentor do mundo é o Filho de Deus feito homem, a fim de padecer tormentos indizíveis e morrer sobre o madeiro infamante da Cruz, no cimo do Calvário, para redimir a humanidade, prevaricadora e resgatar todos os pecados dos filhos dos homens.

Jesus Cristo era o Homem-Deus; como Homem, sofreu e morreu; como Deus, comunicou aos Seus sofrimentos e à Sua morte um valor infinito.

A Paixão e a Morte do Filho de Deus constituem, por si só, uma reparação superabundante da ofensa feita a Deus pelo pecado. Desse modo, pelos merecimentos infinitos de Cristo, fomos resgatados da morte eterna e libertados do poder infernal e reintegrados nos direitos à herança da glória eterna.

Assim se cumpriu a promessa que Deus fez, no Éden, de conceder à humanidade prevaricadora, um salvador.

Isaias, um dos maiores videntes de Israel, dissera do Messias prometido:

O Senhor pôs sobre ele as iniqüidades de todos nós. Foi esmagado por causa de nossas iniqüidades; foi esmagado por causa dos nossos crimes e nós fomos salvos pela suas feridas”.

O próprio Jesus quis revelar-nos um pouco do misterioso amor de Deus para com a humanidade prevaricadora. Ele dignou-se explicar-nos:

Amou Deus de tal sorte o mundo, que lhe deu seu Filho único a fim de que todo aquele que crer nele, não pereça, mas tenha a vida eterna... Deus enviou seu Filho ao mundo, para que o mundo seja salvo por ele”.

O Apostolo São Paulo, doutrinando os fiéis acerca do mistério de nosso resgate, põe na boca de Jesus Cristo estas palavras dirigidas ao Pai Eterno:

Não quisestes hóstias, nem oferendas, mas adaptastes-me um corpo. Os holocaustos pelo pecado não vos têm agradado, então disse! Eis-me qui!”

O Padre Moigno, em seu livro “Os esplendores da Fé”, assim fala do mistério da Redenção:

E porque no momento em que Jesus Cristo expirava no Calvário, nós todos estávamos nele; porque o sangue que corria de Suas veias tinha sido tirado das nossas, não alterado, pois Maria, Sua Mãe, fora imaculada em Sua conceição, mas supernaturalizado e edificado de alguma sorte, por Sua união com a divindade; porque Aquele que morria era o nosso chefe, a cabeça e o coração da humanidade; porque, no dogma cristão, as dores, a tristeza, a agonia da humanidade (*)vêm completar o que falta à Paixão de Jesus Cristo fez de Sua morte e das nossas uma só imolação, um só holocausto, imenso, no qual, vítima única, ao mesmo tempo divina e humana, inocente e criminosa, por uma só oblação, a santificação dos escolhidos está consumida para a Eternidade. Consummatun est!” (obra cit. Vol. IV, Capítulo XXX)

Estas palavras do sábio apologista da religião católica encerram, por assim dizer, a sumula da doutrina da Igreja acerca dos grandes mistérios da obra da redenção, em que a justiça e a misericórdia divina trocaram o ósculo da paz, restabelecendo as relações entre Deus ofendido e o homem prevaricador.

Da rocha ensangüentada do Calvário, brotou para a nossa raça a verdadeira fonte da vida sobrenatural, da graça santificante e da felicidade sempiterna.

***

E eu, disse Jesus, quando for levantado da terra atrairei tudo a mim”.

Estas palavras do Senhor exprimem, claramente, que a morte ignominiosa, no patíbulo da Cruz, deveria ser o princípio da glória e da exaltação do divino suplicado; significam que, da Cruz, transformada em instrumento de bênção e de salvação, Jesus iria chamar ao Seu reino de paz e reconciliação todos os povos da terra, atraindo-os pela doçura, pela caridade e pela eficácia do seu poder infinito.

E os séculos da história cristã não desmentiram, antes confirmaram cabalmente, esta profecia de Jesus de Nazaré.

Passou a nacionalidade judaica; Jerusalém foi destruída e o Tempo foi arrasado.

Passou Roma e os imperadores desceram à lousa fria dos sepulcros marmóreos...

As tribos bárbaras receberam a “Boa Nova” e foram incorporadas à grei de Cristo.

Surgiram heresias e o espírito das trevas veio semear o joio da mentira no campo do Senhor. Também as heresias passaram e desapareceram os seus fautores.

A arena dos circos embebeu o sangue dos mártires da fé cristã e o sangue desses heróis tornou-se a semente de novos adoradores do Crucificado, que se multiplicaram pelos quatro pontos da terra.

A Reforma arrebatou à Igreja formosa porção do rebanho do pastor supremo; o descobrimento do rebanho do pastor supremo; o descobrimento do Novo Mundo veio compensar, amplamente, as perdas sofridas no Norte da Europa.

Em nossos dias, é inegável, infelizmente, o progresso do materialismo, que, em novo surto, pretende suplantar a fé em Cristo; mas é incontestável, também, graças aos céus, que o catolicismo não se deixa vencer e realiza, constantemente, novas conquistas e alcança novas vitórias.

Vários fatos demonstram que a Igreja não se acha agonizante; muito ao contrario, está viva e mais forte do que nunca. Podemos citar, em abono de nossa afirmação, acontecimentos hodiernos: o prestígio crescente da santa Sé; as universidades e os institutos católicos de cultura superior; as obras de beneficência e de organização das classes proletárias; os congressos católicos e as assembléias eucarísticas internacionais.

Uma religião que atua de modo multiforme, na alta política internacional, no meio das classes mais cultas, no seio das camadas populares, em demonstrações imponentíssimas, nas metrópoles mais ricas e civilizadas... uma religião assim não está morta, como fingem crer seus inimigos.

Houve quem lhe negasse, primeiro, a divindade; mais tarde, negaram-lhe a humanidade; por último, pretensos críticos tentaram negar-lhe até mesmo a existência histórica.

E por quê?

Porque Jesus se insurgiu contra todas as obras do poder das trevas, contra todas as iniciativas do gênio o mal. Aos prazeres da carne, ao sensualismo brutal, em que se chafurdava a humanidade, Jesus veio opor as renuncias sublimes da castidade.

A sede do ouro, à ambição da riqueza, que atiça a luta entre os homens, o Mestre deu como remédio a pobreza voluntária, o desapego dos bens temporais.

Ao orgulho humano, ao amor da própria excelência, que causa tantas desgraças e engendra tantos males, o senhor opôs a obediência e a humildade – a mais completa renúncia do próprio eu.

Aqui está o segredo de uma religião, sempre combatida, mas nunca vencida.

***

Para fazer frente a infiltração do neo-paganismo contemporâneo e combater os erros modernos, a Igreja emprega a Ação Católica, que ora se nos apresenta como uma verdadeira renascença cristã. Desse modo, o catolicismo emprega contra seus inimigos as mesmas armas de que estes se servem.

E Jesus, do alto da glória eterna, continua a atrair tudo para si...

Cumpre-se a profecia.

***

Nesta hora de desesperos e de intranqüilidades, devemos confiar em Deus, e manter acesa a virtude cristã da esperança.

O temporal, que ruge, e a ventania, que sopra, não conseguirão submergir o rochedo indestrutível, a pedra angular sobre a qual Jesus fundou a Sua Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

De quando em vez, surgem incidentes, que retardam um pouco a marcha da religião cristã; os homens procuram entravar a marcha gloriosa das conquistas divinas e embaraçar os progressos contínuos do Evangelho. Mas os homens passam e a Igreja permanece. As perseguições depuram os elementos católicos e confirmam os eleitos na fé, do mesmo modo que o fogo purifica e depura o ouro, extinguindo-lhe as escórias.

São esses os efeitos das perseguições religiosas; é esse o papel dos algozes dos católicos.

Só temem os homens de pouca fé.

***

As palavras de Jesus são palavras de espírito e vida, ele assim o afirmou. Assim é.

Em nossas tribulações, em nossas angústias, abramos os Evangelhos, percorramos, com verdadeira fé, as páginas sagradas e inspiradas pelo Espírito Santo, lá encontraremos a luz, que iluminará a nossa débil inteligência, o amor, que abrasara o nosso tíbio coração, e a força, que moverá a nossa fraca vontade.

Meditemos, com particular afeto e carinho, os passos da Sagrada Paixão e Morte do Redentor do Mundo e, com a máxima reverência, tentemos penetrar o sentido das Sete Palavras, proferidas durante as três horas de Agonia, no desamparo tremendo do Calvário.

(Espírito e Vida, as sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. J.Cabral, editora ABC limitada; ano de 1937)

PS: Grifos meus.

(*) - Nota do blogue: Aqui, penso, dever-se-ia dizer com mais propriedade: "de todo aquele que está em estado de graça" (seja estando no corpo ou na alma da Igreja).

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

MINHA ALEGRIA

MINHA ALEGRIA


Há almas na terra
Quem em vão procuram a felicidade;
Entretanto, comigo dá-se o contrário:
Trago no coração sempre a alegria
E não é uma alegria passageira;
Eu a trago comigo a todo instante!
Como uma rosa em plena primavera,
Ela sorri para mim dia após dia.

Sim, sou feliz, sou feliz demais,
Pois faço sempre aquilo que bem quero...
Como deixar, então, de ser alegre
Ou deixar de mostrar minha alegria?...
Minha felicidade é amar a dor
E sorrir, mesmo enquanto o pranto escorre;
Aceito, com a mesma gratidão,
Flores entrelaçadas com espinhos.

Quando meu céu azul se torna escuro,
Quando tudo parece abandonar-me,
Minha alegria é ficar na sombra,
Esconder-me e rebaixar-me.
Minha alegria é a vontade sagrada
De Jesus Cristo, meu único amor.
Assim vivo sem nenhum temor
E amo igualmente o dia como a noite.

Minha alegria é sempre ser pequena.
E assim, se às vezes caio no caminho,
Posso me levantar bem depressa.
Jesus Cristo me pega pela mão.
Cobrindo-O, então, todo de carícias,
Digo que Ele é tudo para mim.
Se acaso Ele Se esconde de minha fé,
Aí é que redobro meus carinhos.

Se, às vezes, derramo algumas lágrimas,
O meu prazer consiste em escondê-las.
Ah! como o sofrimento tem encantos,
Quando, com flor, se sabe disfarçá-lo!
Desejo sofrer sem dizer nada
Para consolar Jesus desta maneira.
Minha alegria é ver seu sorriso,
Enquanto o coração tenho no exílio...

Minha alegria é viver lutando,
Gerando assim, eleitos para o céu
E, coração ardendo de ternuras,
Repetir a Jesus continuamente:
"Por Vós, meu Irmãozinho divinal,
Eu me sinto feliz no sofrimento
E minha única alegria neste mundo
É só poder sempre alegrar-Vos.

Quero viver ainda muito tempo,
Meu Senhor, se esta for Vossa vontade,
E quisera, depois, seguir-Vos ao céu,
Se isto também Vos causa algum prazer.
Esta chama de amor que vem da Pátria
Não deixa nunca de me consumir!
Pouco me importa a morte ou mesmo a vida:
Jesus, minha alegria é Vos amar"!

(Obras completas, Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face, editora Loyola)

domingo, 5 de dezembro de 2010

A boa educação

A BOA EDUCAÇÃO


Educar filhos! missão sublime, mas, ai, como é mal compreendida e, sobretudo, mal estudada! Educar (do latim educere) significa elevar, fazer subir a uma altura que fica pouco abaixo dos anjos, aqueles pequeninos entes que Deus confiou aos pais como um depósito sagrado. Ora, isso representa um trabalho de todos os dias, de todos os momentos, um trabalho por vezes aborrecido, enfadonho, extenuante; requer mais: um tino muito especial, sacrifícios e abnegações bem difíceis e uma vigilância de todos os dias, de todas as horas.

Nosso Senhor tem ameaças terríveis para qualquer que dê escândalo; que se há de dizer dos pais que dão maus exemplos aos filhos? Desgraçados deles! Não esqueçam nunca que aqueles pequeninos olhos e ouvidos estão sempre se atalaia. Evitem, portanto, qualquer palavra ou conversação, qualquer coisa enfim que lhes venha empanar a candura da alma inocente.

Quem poderá avaliar, diz um autor, a influência que podem ter, na perdição de uma moça de vinte e cinco anos, as conversações que ela surpreendeu quando pequenina, de vestidinho curto! Costuma-se dizer que as conversações entram por um ouvido e saem pelo outro, mas não se repara que, entre um e outro ouvido, está o coração alerta. É lei da natureza, escreve um pagão: os maus exemplos domésticos corrompem mais depressa e são mais eficazes que quaisquer outros, pela grande autoridade de que se revestem. Grave-se bem na memória e nunca se perca de vista, que aos filhos se lhes deve um grande respeito. Pai de família se cavilais alguma desonestidade, lembrai-vos dos vossos filhos, tão pequeninos ainda e, na tentação, detende-vos ante a lembrança desses anjinhos. Miserável, receais que o amigo que vos vem visitar encontre a casa desasseada e em desordem e esqueceis que vossos filhos não devem respirar senão um ambiente puro, em um lar sem mancha nem vícios!

Admiravelmente dito por certo; a graça, porém, fala ainda mais alto e melhor que a sabedoria humana aos corações dos pais cristãos que se respeitem; para eles o filho é muito mais do que um simples herdeiro das qualidades e do sangue que lhes transmitiram; é, antes de tudo, o herdeiro do céu, onde não entra nada manchado, e co-herdeiro dos anjos que vêm a Deus face a face e denunciam à justiça divina os corruptores da inocência; é um ser por tal forma sagrado que nenhum mal se pode praticar em sua presença, sem incorrer na maldição divina. "Ai de vós, exclama Jesus Cristo, o eterno amigo das crianças, ai, dos que escandalizam um destes pequeninos; melhor lhes fora atarem uma pedra ao pescoço e precipitarem-se no fundo do mar."

Alguém já disse, com muito acerto, referindo-se a educação das crianças: "Vigiai-lhes o despontar da vida porque aqui tudo depende do começo; será um mau dia, se for sombria a aurora e amargo o fruto da flor contaminada; turva-se a água de um arroio em lhe remexendo a fonte; enfim, toda a vida do homem se ressentirá do berço".

É verdade que a Igreja elevou à criança a sublime altura de filho de Deus pelo batismo; mas, a chaga purulenta da concupiscência não cicatriza nunca, e lá fica no fundo dessa alminha, apesar de purificada pelo sacramento. A concupsciência desenvolver-se-á nela com a idade, procurando sempre subtraí-la ao benefício influxo da graça, tentando arrastá-la para o lodo. As conseqüências do pecado original lá estão e lá ficam como germe de decomposição e de morte, sempre em luta com aquele outro princípio de divina beleza e vigor; sempre a advogar a usurpação do corpo e da matéria contra os direitos sagrados da razão iluminada pela fé; sempre em brecha na defesa de um moral independente, a provocar a revolta contra qualquer autoridade, por legítima e sagrada que seja. A concupiscência revolta-se contra tudo quanto lhe venha contrariar as aspirações criminosas e não descansará nem será vencida definitivamente, senão com a morte dos que ela atormenta. Enquanto isso, preciso será educar e elevar continuamente a alma e libertá-la, quanto possível da tirania da carne.

Trata-se, portanto, de combater as más inclinações que se manifestam na criança, de empregar meios eficazes de armar estas pequeninas almas para a luta renhida e prolongada que vai começar; é questão que os pais devem tomar muito a peito se tiverem em alguma conta a felicidade temporal e eterna dos filhos. Quer eles abracem mais tarde a vida religiosa ou o sacerdócio, quer se destinem ao matrimônio, se não estiverem suficientemente adestrados para vencer as dificuldades e tropeços que o demônio e a carne lhes preparam, serão sempre infelizes e não corresponderão ao que Deus espera deles.

Na vida conjugal, sobretudo, para viverem felizes ou, quando menos, resignados, são indispensáveis caracteres temperados nos sofrimentos e contrariedade de toda espécie, caracteres capazes de enfrentar todos os trabalhos, todos os contratempos, todos os infortúnios que possam aparecer; é necessário que disponham de uma energia a toda prova, no cumprimento do dever.

Ora, uma educação em que os caprichos se vêm sempre satisfeitos em lugar de reprimidos, uma educação em que predomina sempre a vontade da criança, a quem não se nega nenhum prazer e se transige sempre com as pequenas paixões em revolta, nunca dará homens de boa têmpera, de caráter firme, austeros, nunca dará mais que homens sem vontade para coisa alguma, incapazes de qualquer sacrifício nobre, vítimas desgraçadas do amor próprio.

É as mães que cabe, em primeira linha, este importante papel da educação religiosa e moral dos filhos, pois estes serão que fatalmente o que elas quiserem, mas quiserem verdadeiramente; e se algum dia vierem a se extraviar, a lembrança daquela mãe piedosa que os guiou com tanto amor, fá-los-á voltar ao bom caminho.

Como se hão de haver, pois, para premunir os filhos contra as más inclinações que se manifestam desde a primeira idade e se desenvolvem com o andar dos anos? Que fazer para educar essas alminhas e elevá-las de modo a fazê-las pairar sempre bem acima do lodaçal deste mundo, de seus encantos frívolos e passageiros?

Dar-lhe uma boa educação.

"Ah! como a educação cristã é grande e sublime, exclama Lamennais, e a que altura sabe elevar uma criança! É ela quem depõe naquela pequenina inteligência as verdades que fecundaram o gênio de Bossuet, a alma de Fenelon e produziram - oh! não o esqueçais, por favor! - as virtudes de um São Vicente de Paulo. Mas, que digo? Foi ela quem comunicou a estes homens admiráveis, espírito e força, é ela quem há de preparar uma sociedade mais perfeita para o dia de amanhã".

(As desavenças no lar, causas e remédios, J. Nysten, Centro da boa imprensa, 1927, com imprimatur)

PS: Grifos meus.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Dez mais do que cem...

Dez mais do que cem...


Achei graça na velhinha que teimava em convencer-me de que dez pessoas, falando, fazem mais barulho do que cem caladas. Refleti porém e encontrei uma filosofia no caso. Na vida temos disso. Pelo mundo e pela sociedade poderão dez vozes falar contra a fé, o pudor, contra a obediência à Igreja e aos pais. E certamente farão mais impressão do que cem vozes, que se calam.

Família (leitora), justamente isso acontece no mundo no qual vosso filho estuda, move-se, diverte-se. Não podemos dizer sejam bons os tempos para a fé e a moral. Há uma aberta e atrevida conspiração contra a virtude, ousada afirmação do direito de pecar e errar. Carne e corpo tornaram-se deuses e seus apetites são tolerados e imitados em vários casos.

Além dos fatos, andam por aí princípios, justificando erros, pondo a ridículo a virtude. Saint-Beuve, que não era lá de muitos escrúpulos, disse dos livros de Balzac: "Depois de os ler, sinto precisão de lavar as mãos..." Pois bem. Vosso filho, família que nos (lê), caminha neste ambiente. O dia todo vê e ouve o que dez vozes falam. Mas onde estão as cem vozes que deviam falar? Estão caladas. Caladas nas famílias que não corrige, não previne, não desfaz impressões más, que não vigia.

Quando estoura uma epidemia, todo mundo toma conhecimento das medidas preventivas e aplica-as com diligência. Atitude louvável, sem dúvida. E por que não admitir o mesmo processo, em se tratando de contágios piores e crônicos, como são de ordem moral? Hoje o mundo entra nos lares e aplica-lhes - na frase de Pio XII - uma injeção endovenosa pelo rádio e pela televisão. Poderá ficar sem vigilância tal acontecimento? Ficará ao critério das crianças e dos adolescentes o botão dos aparelhos? Ou terão de dobrar-se os pais perante as preferências dos filhos neste assunto?

Enrolado em folhas de livros, de revistas e jornais o mundo invade os lares. Como explicar o zelo de famílias que não admitem visitas de conversas inconvenientes, mas toleram abertas as portas para entrada de visitantes mudos, que são as publicações? Isso mesmo. Cem bocas caladas perdem de dez bocas que falam. O silêncio de cem dá coragem ao atrevimento de dez. Eu previno que nesse silêncio há um pecado. Há um sério prejuízo causado à alma dos filhos. Lembro o louvor do Sábio à mulher que, de luz acesas, percorre sua casa observando e vigiando se tudo está em ordem. Fragilidade, idade e época má - eis os motivos da vigilância.

(Mundos entre berços, pelo Pe. Geraldo Pires de Souza, C.SS.R, editora Vozes, 1965)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

VI- PALAVRA

VI - PALAVRA


Consummatum est
Tudo está consumado
(Joan. XIX, 30)

Esgotado até as fezes o cálice das amarguras, cumprida à risca a vontade do Pai Eterno, realizada todas as profecias, verificados todos os pormenores preditos pelos videntes do Antigo testamento, expiados, superabundantemente, os pecados da humanidade, Jesus bem podia proferir as palavras: "Tudo está consumado".
Consummatum est.

Em primeiro lugar, estava cumprido tudo quanto os profetas haviam dito acerca da vida, Paixão e morte de Jesus. Esse fato, que constitui motivo de escândalo para os judeus e os ímpios, estava anunciado, em suas circunstâncias principais, nos livros do Antigo testamento e, em particular, no capítulo LIII de Isaías, que pode ser considerado como uma narração das cenas principais do drama do Calvário.
Assim é que encontramos mencionados nas antigas profecias, os principais acontecimentos verificados na pessoa do Nosso Senhor Jesus Cristo, tais como sejam: a traição e a restituição do dinheiro; a morte funesta de Judas; a dispersão dos discípulos; a queda na torrente de Cedron; as falsas testemunhas, que se contradiziam, nos seus depoimentos contra Jesus: os escárnios e tratos indignos infligidos à Vítima celeste; a cruel flagelação; a repartição das vestes e a sorte lançada sobre a túnica; o fel e vinagre que Lhe deram a beber; a morte violenta; a lançada do lado; e, finalmente, a glória do sepulcro do Senhor.

Tudo isso se havia cumprido e realizado.

As figuras principais do Antigo Testamento também se realizaram.

Abel morto pelo seu irmão; Isaac, carregando a lenha para o sacrifício; Davi, que derrubou o gigante Golias; o Cordeiro Pascal, das festas dos hebreus e outras muitas figuras do Antigo Testamento tornaram-se realidade na pessoa de Jesus Cristo.
Estavam consumidos todos os tormentos do corpo e da alma, que a malícia do inferno, servida pela crueldade dos homens, podia descarregar sobre a Vítima, que se ia imolar pelos pecados do gênero humano. Finalmente, a obra da misericórdia divina chegara ao termo, pois a caridade infinita nada mais tinha que dar. Estava concluída a redenção do gênero humano e resgatada a nossa espécie, que jazia submissa ao império do demônio.

Consummatum est.

***

Lançando um olhar retrospectivo para os tempos primeiros da humanidade, encontramos os nossos protoparentes, felizes e descuidosos, no Éden, jardim de delícias, plantado pelo próprio Deus. O pecado de Adão e Eva destruiu essa felicidade e veio transtornar o plano divino da criação. Mas Deus, infinitamente justo e infinitamente misericordioso, não quis lançar à ruína e ao extermínio a obra prima de Suas mãos - o homem. Daí a promessa de um salvador, de um restaurador, que deveria, um dia, resgatar a humanidade.

A lembrança do pecado original e a promessa de um salvador ficaram de tal modo impressa na mente da humanidade que encontramos seus vestígios na história dos povos antigos e até mesmo dos povos modernos, que não receberam a luz da verdade evangélica.

***

O mundo antigo esperava um salvador.

Entre os romanos, os judeus, os persas, os gregos, os bárbaros e os selvagens encontramos a prática de cerimônias destinadas à purificação da infância, pois o homem julgava impuros e contaminados todos os recém-nascidos. Através de mitos e de lendas, aparecia a idéia da culpa original.

O povo de Israel, povo eleito de Deus, conservou, melhor que nenhum outro, a revelação feita, no Éden, aos nossos primeiros pais e transmitida de geração em geração, por intermédio dos patriarcas e profetas, que recebiam as comunicações celestes.

Os principais povos da antiguidade guardavam as promessas feitas a Adão e Eva, por ocasião da queda e do pecado. Na Índia, na China, na Pérsia e no Egito, encontramos muito clara a esperança do Messias, que fora prometido a Israel. Esperavam esses povos civilizados e cultos a vinda de um salvador, que devia liberar a terra do poder do mal e fundar o reino da justiça.

Na Grécia e em Roma, através dos erros e das superstições populares, persistia a esperança de um salvador, de um dominador supremo das nações.

Os espíritos mais cultos e os filósofos mais ilustres da antiguidade não se pejavam de proclamar, abertamente, que esperavam o advento do grande libertador. Na China antiga, cerca de quinhentos anos antes de Jesus Cristo, Confúcio podia falar assim aos seus discípulos; "Eu, Confúcio, ouvi dizer que nas regiões ocidentais se levantará um homem santo, que produzirá um oceano de ações meritórias. Ele será enviado do céu e terá todo o poder sobre a terra".

Mais tarde, no esplendor da civilização helênica, Platão recebeu de Sócrates estas palavras admiráveis: "Esperamos que um enviado do céu venha nos instruir sobre nossos deveres para com Deus e para com o homens e esperamos de sua bondade que esse dia não esteja muito longe".

Em Roma, Tácito escrevia: "O Oriente vai prevalecer e da Judá sairão aqueles que governarão o universo" E Suetônio acrescentava: "Todo o Oriente está cheio dessa antiga e constante opinião de que da Judá virão aqueles que governarão o universo".

Desse modo se afirmava, no mundo antigo, a esperança de um salvador.

***
O mundo antigo não somente esperava, mas necessitava de modo absoluto, de um salvador. A base de toda retidão e de toda justiça consiste no conhecimento da verdade. Ora, a verdade, por assim dizer, desertara do mundo. O conhecimento de Deus, do qual promana a luz dos espíritos, estava de tal modo adulterado que tudo era "Deus", exceto o próprio Deus. O homem chegara mesmo a erguer altares ao “Deus desconhecido” – Ignoto Deo... Tão grande era a confusão que reinava nos espíritos. A própria luxúria tinha sacerdotes e sacerdotisas...

As trevas haviam penetrado e invadido por completo, o mundo das consciências, a tal ponto que os filósofos discutiam sobre se o homem devia praticar a virtude, ou se seria preferível entregar-se a todos os vícios. Os prazeres mais degradantes constituíam objeto de culto especial.

A família apresentava, moralmente, um aspecto desolador. O pai era verdadeiro déspota que dispunha, a seu talante, da existência dos filhos e escravos. A mulher devia satisfazer todos os caprichos do marido, que desconhecia o amor casto e a honra conjugal. Os filhos estavam sujeitos ao despotismo do pátrio poder.

Em Esparta e em Roma, eliminavam-se, sumariamente, os recém-nascidos que apresentassem sinais de debilidade ou enfermidade. O escravo não tinha personalidade, era uma coisa, res. Não havia compaixão para com os infelizes.

Não menos triste era o quadro de vida social.

O supremo poder, que estava à mercê dos ambiciosos e sem escrúpulos, era encarnado por verdadeiros monstros da espécie humana, que se faziam adorar. A nobreza procurava seguir de perto e imitar servilmente as ignomínias e as baixezas dos imperantes.
A política, a arte de governar os povos, não conhecia outras normas além dos caprichos dos Césares e dos interesses do império. As relações internacionais eram reguladas pela força, unicamente; ai dos vencidos – era a norma de proceder para com aqueles a quem fora adversa a sorte de armas.

Panem et circencenses – alimentação farta, jogos de circo, combates sangrentos entre gladiadores e espetáculos públicos eram os únicos prazeres com que se embriagava as multidões. Nessa profunda decadência moral, é que se abismara a humanidade antes da vinda de Jesus Cristo. Em vista de tantos desregramentos e de tantos males, que afligiam o indivíduo, a família, a própria religião, os espíritos mais cultos e mais retos almejavam, de todo coração, a vinda de um legislador supremo, que corrigisse todas essas desordens e implantasse o reino da verdade e da justiça.

***

A recordação da queda de nossos protoparentes, no Éden, ficou tão profundamente gravada no espírito humano que em todos os períodos da história e na existência de todas as nações, encontramos a idéia de que a morte e os sofrimentos a constituem atos de expiação e reparação, que devem ser ofertados à divindade ultrajada. Em todas as religiões, ainda as mais grosseiras e mais afastadas da revelação sobrenatural, persiste o princípio e a idéia de que o homem é impuro ante a divindade, que necessita reabilitar-se diante do Criador, por meio da oferta de alguma compensação ou reparação à justiça e à santidade infinitas.

A prática de sacrifícios, que nós encontramos em todas as religiões, vem demonstrar que o homem sempre sentiu a necessidade de satisfazer à justiça divina ofendida... Não houve povo que não erguesse um altar; não houve altar onde não se imolasse uma vítima... Os atos sacrificiais foram constantes, nunca cessaram e até vítimas humanas foram imoladas à divindade.

José de Maistre notou, com muita razão, que a crença de que o inocente pode substituir o culpado é a essência de toda e qualquer religião. Desse modo, o consenso unânime dos povos achasse de acordo com o que a revelação divina nos ensina acerca do pecado original e da promessa de um Redentor.

Somente o Homem-Deus poderia reparar os estragos do pecado e satisfazer condignamente à justiça infinita, ultrajada por todos os crimes da espécie humana. Um simples mortal não podia oferecer à justiça divina uma satisfação cabal, porque a ofensa fora infinita...

Um Deus, também não; porque Deus é. De Sua própria natureza, imortal e impassível. Foi mister que a Segunda Pessoa da Trindade Santíssima, o Verbo, se fizesse homem, sem deixar de ser Deus. Jesus Cristo, Homem-Deus, foi à vítima imolada pela Redenção da humanidade.

Como homem padeceu e morreu, por nós; como Deus os Seus sofrimentos tinham um valor infinito, capaz de resgatar, por completo e superabundantemente, toda a divida do gênero humano. Nessa breve síntese de dogmas, se resumem os mistérios adoráveis da Encarnação, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

***

Ocorre, mui naturalmente, uma interrogação ao nosso espírito: Jesus Cristo era Deus; a menor de Suas ações tinha um valor infinito, sendo suficiente um ato de Sua vontade para resgatar a humanidade; portanto, porque Jesus quis padecer tanto, sofrer tão cruéis suplícios?

Em primeiro lugar, Jesus quis sofrer tanto, para nos mostrar o grande amor que nos tinha a caridade infinita de que estava abrasado o Seu coração. Qualquer ação do Homem-Deus seria bastante para resgatar a humanidade, mas seria suficiente para revelar a caridade infinita de Jesus, diz São João Crisóstomo.

Nos livros do Novo Testamento encontra várias passagens que confirma essa opinião. Citaremos duas apenas: “Nisto temos conhecido a caridade de Deus: em Deus ter dado a Sua vida por nós”. (Joan. II. 16) E mais o seguinte texto: “Amou-me e entregou-Se à morte por mim.” (Gal. II, 20)

Desse modo as chagas do Redentor e as gotas de sangue derramado no Calvário são outra tantas bocas que proclamam quanto Jesus amou e sofreu pela humanidade. Outro motivo levou Jesus a sofrer tão indizíveis tormentos: revelar à humanidade a infinita malícia do pecado e os castigos que a justiça divina tem preparado para punir os pecadores. Não fora o quanto se revestiu de nossas culpas, como não seria castigado o pecador impenitente?...

Finalmente, Jesus quis ensinar-nos a suportar, com perfeita paciência e inteira resignação, os males e as misérias desta vida. O Seu exemplo deve ser para nós uma lição e um encorajamento em meio das tribulações que continuadamente nos afligem.

***
Jesus Cristo, ao chegar ao termo de Sua vida mortal, ao encerrar a Sua peregrinação terrestre podia proferir as palavras: “Tudo está consumado”.

Consummatum est.

Podia fazer esta sublime afirmação à face do céu e da terra, porque cumpriria, estritamente, a vontade do Eterno.

Jesus deixou-nos os Seus exemplos, que devemos seguir e imitar, a fim de que, na hora extrema possamos repetir aquelas palavras consoladoras de São Paulo:

Sustentei um bom combate, consumei a minha carreira, guardei a fé, No que resta, reservada me está a coroa de justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia”. (Tim. IV, 7 e 8)

(Espírito e Vida, as sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. J.Cabral, editora ABC limitada, coleção Cristo Redentor, ano de 1937)

PS: Grifos meus.

Educação sobrenatural - XIII - Os frutos da vida sobrenatural

A EDUCAÇÃO SOBRENATURAL
XIII- OS FRUTOS DA VIDA SOBRENATURAL


"Aquele que permanece em mim e em quem eu permanecer,
produzirá muito fruto."
(Joan., XV, 5)

Quais são os principais frutos da vida sobrenatural?
São: a fé (art. I); a esperança (art. II); o amor de Deus (art. III); o amor a Igreja (art. IV).

Artigo I -A fé

"A nossa fé é um candelabro espiritual que ilumina e aquece a alma."
(São Tomás de Aquino)

Donde vem a fé para a criança?
A criança recebeu, no batismo, a fé infusa, uma virtude secreta, uma disposição íntima que a inclina a crer, um gérmen abençoado que só espera desenvolver-se e engrandecer. As criancinhas batizadas têm afinidades sobrenaturais com as verdades cristãs, que ainda não conhecem. Esta fé virtual, esta crença implícita é quanto lhes basta por agora; crêem pelo coração da Igreja e pelo coração de sua mãe.

Que se deve fazer quando a criança atinge a idade da razão?
Quando a criança atinge a idade da razão, é obrigada a fazer um ato de fé explícito e formal.

A mãe deve vigiar o primeiro despertar da sua inteligência para a colocar, imediatamente, em relação com as verdades reveladas, com a ordem sobrenatural.

Mas não se deve assustar; a criança não as admira de nada, está preparada para tudo. Ser-lhe-á impossível, durante muito tempo ainda, sem dúvida, dizer por que é preciso crer; mas crê sem hesitar. A sua adesão é franca, inteira; nenhuma dúvida a assalta; e isto não é somente o resultado da credulidade, natural da sua idade, é também o fruto do Espírito Santo que a ilumina e lhe faz dizer: "Eu creio". Pode-se afirmar que, depois do batismo, a criança é naturalmente cristã.

Como se deve então apresentar à criança os ensinamentos da fé?
É preciso apresentar-lhe os ensinamentos da fé com uma clareza proporcionada à sua inteligência; pô-los ao seu alcance; servir-se de exemplos, de comparações, de lembranças; é preciso descrever-lhe a religião. A verdade há-de penetrar tal qual é na sua alma, infiltrar-se-á nela, porque, quando a verdade não é contrariada por paixões ou preconceitos, basta mostrar-se para triunfar.

"Nada é tão tocante como a fé simples e ingênua duma verdadeira mãe, nas relações com seus filhos, sobretudo quanto está razoavelmente esclarecida; dir-se-iam pequenos anjos que escutam as predicas dum arcanjo ou dum querubim."
(Mgr. Pichenot)

Deve contentar-se como  ensinamento pela palavra?
É preciso ajuntar-lhe o exemplo.

"O coração e as mãos devem estar de acordo com os lábios."
 (Mgr. Pichenot)

Uma mãe deve viver da fé, como o justo da Escritura, e isto a fim de criar em volta de seu filho uma atmosfera impregnada de espírito cristão, para lhe infundir a religião no sangue, alimentar com ela a sua alma para a vida.

Artigo II - A esperança

Que é o objetivo da esperança?
É tríplice, no dizer de São Bernardo, a saber:

- A esperança do perdão: spes veniae;
- a esperança da graça: spes gratiae;
3º- a esperança da glória: spes gloriae.

É importante criar nas crianças a esperança do perdão?
Sim, porque:

1º- As crianças pecam e por vezes mortalmente.

"Sacramentei e enterrei uma pobre criança que morrera vítima de pecados; não tinha mais de onze anos."
 (Mgr. Pichenot)

2º- As crianças são culpadas, pelo menos de pecados veniais. E o pecado venial, é já um grande mal; arrefece o amor de Deus; impede o aumento interior da vida sobrenatural; expõe às chamas do purgatório.

Qual é o melhor meio de fortalecer nas crianças esta esperança do perdão?
É habituá-las a repararem prontamente os pecados que cometem.

É preciso dizer-lhes que Deus é bom como um pai, terno como uma mãe, e mais que uma mãe, segundo a linguagem da Sagrada Escrituras.

É preciso  ensinar-lhes que nem sempre têm necessidade de confissão para obter o perdão dos pecados veniais: um Pater bem dito, um sinal da cruz bem feito, um bocado de pão bento comido com fé, a bênção dum bispo ou dum padre, e com mais forte razão a do Santíssimo Sacramento, com o ato de contrição ou de caridade, o Confiteor dito do fundo do coração, e podem ficar purificadas.

Não há a temer alguma presunção no desenvolvimento desta esperança?
Pode ser.

Mesmo assim é preciso ensiná-la: a confiança na misericórdia honra Deus e fortalece o coração.

"Mais vale que as crianças caiam um dia no purgatório por um pouco de presunção do que possam cair por desesperança no inferno. Porque foi maldito Caim? Porque matou seu irmão? Não. Por que se perdeu Judas? Por causa da sua traição? Não. Por causa da sua primeira Comunhão sacrílega? Não; foi porque não tiveram confiança. A desesperação é um pecado contra o Espírito Santo, um pecado que não pode ser perdoado."
(Mgr. Pichenot)
Por que é preciso formar nas crianças a esperança da graça?

- Porque a presunção é o fundo do seu caráter; de nada duvidam e imaginam não ter necessidade de ninguém. É preciso, portanto, ensinar-lhes que, sem a graça, não podemos nada, nem evitar o mal, nem fazer o bem, nem salvar-nos: isto é um caso de fé.

- Porque as crianças, jovens presunçosas, não tardam a experimentar a sua fraqueza, e são tanto mais tentadas a desanimar quanto maior era a confiança que tinham em si próprias. É preciso dize-lhes então que se pode tudo com a graça de Deus, humildemente solicitada, generosamente seguida.

Como se pode excitar nas crianças a esperança da glória?
- Dizendo-lhes que a recompensa do céu é segura, abundante, eterna;

- amparando-as no cumprimento dos seus deveres, pela perspectiva, sobrenaturalmente aberta a seus olhos, da eternidade bem-aventurada;

- recordando-lhes alguns traços da vida dos santos mais especialmente instrutivos na matéria.

A mãe de São Sinforiano dizia-lhe, no momento em que o conduziam ao suplício:

- Meu filho, meu filho: lembra-te da vida eterna; olha os céus; não tenhas pena desta vida, pois vais trocá-la por uma melhor.

Santa Felicidade de Roma, a mãe dos Macabeus, sustinha a fé e a coragem dos seus sete filhos com o pensamento da Ressureição gloriosa, quando eles estavam nas mãos do carrasco.

Artigo III - O amor de Deus

"Ah! quem não ama a Deus é louco".
(Vida do bem-aventurado Crispim, p.109)

Qual é a importância do amor de Deus?
É imensa.

"A maior desgraça neste mundo, a origem de todos os erros e de todos os vícios, é não se amar a Deus."
(Mgr. Pichenot)


Como se deve fazer para excitar, no coração da criança, um verdadeiro amor a Deus?
É preciso persuadi-la de que ela mesma é objeto dum grande amor da parte de Deus.

Se não se ama Deus, ordinariamente pelo menos, é porque não se crê que se é amado por Ele. Se se tivesse a convicção, a persuação íntima desta verdade: que Deus nos ama desde toda a eternidade, que nos ama apesar das nossas faltas e fraquezas, que nos quer amar sempre, ser-nos-ia impossível não nos ligarmos a Ele, porque o amor chama o amor, como o fogo chama o fogo: é uma lei da natureza, é uma lei do coração.

Quais são as verdades que convencerão mais facilmente a criança do amor de Deus pra com ela?
1º- É primeiramente a criação com as múltiplos benefícios de Deus espalhados na ordem da natureza; a primavera e o perfume das suas flores, dessas flores que nasceram, dizem os poetas, do sorriso de Deus, que arrebatavam os santos em êxtases de reconhecimento; o estío e as suas messes douradas, com as quais Deus nutre o corpo e a alma de cada um de nós; o outono e os seus frutos variados e saborosos, que fizeram dizer a Bernardim de Saint-Pierre que as plantas trazem consigo a sua teologia; o inverno, enfim, e a bênção do seu fogo, das suas águas e das suas longas noites reparadoras.

- O benefício da sua própria existência, que lhe vem de Deus.
A mãe dos Macabeus dizia aos seus sete filhos no dia do seu martírio:

- Não sei como aparecestes no meu seio; porque não fui eu que vos dei o espírito, a alma e a vida nem mesmo fui eu que organizei os vossos corpos e reuni os vossos membros, mas foi o Criador do mundo que fez tudo.

A criança recebeu esta existência de preferência a uma infinidade de outras que teriam sido melhores do que ela. Deus, em seu lugar, poderia ter feito um anjo ou uma estrela. Porque a criou a ela? Amor, amor. E essa existência nunca lhe será arrebatada: é indestrutível. Esta existência traz consigo uma multidão doutros benéficos, que a criança compreenderá quando seu pai ou sua mãe compararem o seu estado com o estado daqueles que sofrem: ou enfermos, os deserdados da vida.

- Os mistérios da Encarnação, da Redenção, da Eucaristia, da eternidade bem-aventurada.

Artigo IV - O amor da Igreja

"Não há melhor mãe neste mundo"
(Provérbio cristão da idade média)

Por que se deve inspirar às crianças o amor da Igreja?
Porque a Igreja é nossa mãe.

"Deus deu-no-la para dirigir os nossos passos para o céu, para curar os nossos males, pensar as nossas chagas, ressuscitar-nos, se tivermos a desgraça de perder a vida da alma, levar-nos nos Seus braços do berço à tumba, até à vida que não acabará jamais."

Não é preciso inspirar-lhes também o amor pelo Sumo Pontífice?

Sim.

O Sumo Pontífice foi eleito por Jesus Cristo como Seu vigário sobre a Terra e chefe supremo de toda a Igreja. É preciso convencer as crianças a tirarem do seu pequeno mealheiro a parte do Papa, generosamente lançada no Dinheiro de São Pedro.
 
"Outrora, diz o Pe. Charruau, criancinha caíram doentes com a dor causada pela notícia de que o pequeno exército de Pio XI tinha sido derrotado pelos Piemonteses."
(Charruau, Os nossos filhos, p. 135)
 
Este amor parece que tende a diminuir: é preciso reanimá-lo por todos os meios. Não zombemos do generoso ardor desse homenzinho de sete anos que queria ser zuavo e que fazia todos os dias exercícios, a fim de se preparar para expulsar de Roma o rei da Itália e tirar aos alemães a Alsácia Lorena.
 
"Num homem de sete anos há muito do que ele será aos trinta."
(P.Charruau, Às mães)
 
É suficiente inspirar crianças o amor da Igreja e do Sumo Pontífice?
É preciso ainda fazer-lhes compreender, amar e sustentar as obras católicas: o Dinheiro do clero; a propagação da Fé, a Santa Infância, a Obra de São Francisco de Sales, as escolas católicas de todos os graus e mais especialmente os seminários, as obras post-escolares, as obras sociais católicas, as obras de propaganda, etc.
 
Alguns pensam assim:
 
- No colégio. - "Dantes, nos bons tempos de antanho, contava o P.Charruau (Os nossos filhos, p. 146), quando um missionário nos visitava no colégio e nos falava dos milhares de almas que tinha a converter, e da fraqueza dos seus recursos, abríamos com entusiasmo as nossas bolsinhas e quase sempre dávamos tudo sem contar. Não nos ralhavam por esta falta de economia. Pelo contrário, quando chegava a noite e contávamos o que se passara durante o dia, as nossas mães apertavam-nos nos braços e, beijando-nos na fronte, diziam-nos:
 
- Meu filho, fizestes bem.
 
E deixavam-nos muito dias sem dinheiro para não diminuirmos o nosso mérito.
 
Hoje encontrareis poucas crianças capazes desta generosidade. É esta falta de coragem provém, sobretudo, ficai certos disto, da moleza com que, atualmente, se educam as meninas e os rapazes."
 
- Na vida. - As crianças poucas vezes ficam tão boas como os pais e as mães; e, quando desaparece algum nobre velho que era a providência dum bairro, duma cidade, duma diocese, algumas vezes dum país inteiro, não é geralmente substituído. Nós mesmos temos observado, e julgamos poder emitir uma opinião fundamentada, que em certos meios a generosidade dos pais, comparada com a dos filhos, está na proporção de dez para um.
 
De que provém?
1º- Da moleza da educação;
 
2º- do luxo que faz estabelecer o lar que começa no mesmo pé de igualdade que aquele em que os pais acabaram após uma vida de trabalho;
 
3º- desse erro deformante que leva os pais a tomarem para si, até ao fim da sua vida, todas as obrigações de seus filhos. Necessariamente, diminuem assim a ação pessoal, e habituam os seus descendentes a nada fazerem.
 
(Catecismo da educação, pelo abade René de Betléem, continua com o post: A extensão da vida sobrenatural)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Humildade

Humildade


1 - Não dizer palavras que possam redundar em meu louvor, ou em minha estimação.

2- Não me alegrar, quando outrem me louva e diz bem de mim; antes desse mesmo louvor tomar ocasião para me  humilhar e confundir mais, vendo que não sou qual os outros imaginam nem qual devo ser; e com isto se pode ajuntar o alegrar-me quando ouço louvar e dizer bem dos outros, e quando disto tiver algum sentimento ou pena, apontá-lo por falta, como também quando tiver alguma complacência ou vão contentamento por dizerem bem de mim.

3- Não fazer coisa alguma por humano respeito, por ser visto ou estimado dos homens, senão puramente por amor de Deus.

4- Não me desculpar, e muito menos lançar a culpa a outrem, nem interior nem exteriormente.

5- Cortar e cercear logo de princípio os pensamentos vãos, altivos e soberbos que me vierem de coisas que toquem à minha honra e estimação.

6- Ter a todos por superiores não só interiormente, mas também na prática e no exercício, havendo-me com todos com aquela humildade e respeito com que os trataria, se fossem meus superiores.

7- Levar com bom ânimo todas as ocasiões que se me oferecem de humildade. Nisto hei-de ir crescendo e juntamente subindo por três graus: primeiro, levando-as com paciência; segundo, com prontidão e facilidade; terceiro, com gosto e alegria; e não hei-de descansar enquanto não tiver este gosto e prazer de ser desprezado e estimado em pouco, por imitar a Cristo, que por amor de mim quis ser abatido e desprezado.

8- Nesta matéria e noutras semelhantes também se pode ter exame de fazer atos e exercícios de humildade ou de outra virtude, assim atos exteriores como interiores, atuando-se nisto umas tantas vezes pela manhã e tantas à tarde, principiando com poucas e continuando cada dia com mais, até ir ganhando hábito e costume daquela virtude.

(Exercício de perfeição e virtudes cristãs pelo V.P.Afonso Rodrigues da Companhia de Jesus, versão do castelhano por Fr. Pedro de Santa Clara, 4ª Edição, Tomo II, primeira parte, união gráfica Lisboa)