domingo, 21 de novembro de 2010

6ª- CONFERÊNCIA - A mulher forte madruga II

Nota: As transcrições deste livro não estão sendo feitas de forma sequencial, porém existe um marcador próprio no blogue para este livro onde se é possível encontrá-las numeradas. Recomendo vivamente a leitura destas conferências.

PS: A parte do texto que segue em azul é um resumo da 5ª Conferência.



6ª- CONFERÊNCIA
(Monsenhor Landriot, arcebispo de Reims,
 feitas às senhoras da associação de caridade)
 

De nocte surrexit.
A mulher forte madruga.
(Prov., XXXI, 15)

Senhoras.
O sono foi dado ao homem como sustento da vida, reparador das forças, e o melhor e o mais hábil dos médicos; uma só das suas receitas perfeitamente cumprida basta, algumas vezes, para a cura de graves moléstias, ou, pelo menos, para aplacar profundas dores. O sono é o banho salutar com que a vida se renova, em que todo o ser se rejuvenesce; é uma estação no deserto deste mundo; pois, muitas vezes, após enfadonhos e pesados dias, vem-se repousar neste oásis preparado pela divina Providência, reclamando-se, no dia seguinte, o caminho com vigor novo e nova coragem. O tempo do sono é, não somente útil ao corpo, senão também à alma; ele serena as agitações, derrama um bálsamo doce sobre as dores agudas e impede as precipitações de palavras e de fatos. Os antigos chamavam a noite boa conselheira, pois que até em seu favor aproveita as insônias preparadas pelas paixões, ou pelas enfermidades corporais: e na calma que em toda a parte operam as trevas, ela desperta no homem melhores sentimentos. Se ele é cristão fere-lhe as fibras da oração, e um único colóquio com Deus, um único olhar para o céu basta, algumas vezes, para abafar os maus e perigosos germes, e para preparar para o dia imediato um céu puro e sem nuvens.

"Outras vezes – diz Santo Ambrósio – há tanta serenidade e placidez no sono do justo, que é como um êxtase, no qual, em quanto que o corpo repousa, a alma está, por assim dizer, arrancada aos seus órgãos e unida ao Cristo: - Somnus tranquillitatem menti invehens, placiditatem animae, ut tanquam soluto nexu corporis se ablevet. Et Christo adhaereat." (Ep. XVI, nº 4).

O sono é ainda um excelente pregador, porque nos recorda a imagem da morte – diziam os antigos – e ambos são filhos da noite. A chegada quotidiana do sono deveria fazer-nos dizer: - Em breve o outro irmão virá, e desta vez estender-me-ei no meu leito para não mais me levantar. Cada visita da noite deve ser um convite, a fim de me preparar para a última e solene partida.

O sono é pois, excelente em si próprio; mas como até das melhores coisas se pode abusar; abusando-se dele, produzirá efeitos completamente contrários aos que acabo de enumerar, isto é, enfraquecerá o corpo, tornará pesadas as idéias, e, bem longe de refrescar e reparar a vida, preparar-lhe-á uma espécie de sepultura viva para a enterrar. – Depois de algumas considerações sobre este importante assunto indicamos as precauções físicas e morais, que é bom tomar para facilitar a benéfica ação da noite. Resta-nos agora desenvolver outras considerações, que serão o tema desta sexta conferência.

Não basta determinar a quantidade de sono que deve ser regulada com sabedoria, sem conceder nem tirar muito a natureza; é necessário calcular a qualidade do somo (Nota de rodapé: Os alemães têm um provérbio que diz: - Uma hora de sono antes da meia noite vale duas da manhã.). Ora, segundo as observações gerais, o sono da verdadeira noite à verdadeira manhã, isto é, o que se dorme no intervalo de nove a cinco ou seis horas, é o melhor, o mais salutar, o mais favorável à saúde. Não digo que seja necessariamente preciso dormir todo o tempo que acabo de indicar; é um espaço designado para a escolha das horas de sono. Admitamos voluntariamente todas as exceções produzidas pelas conveniências transitórias; mas, em tese geral, vale mais deitar cedo e madrugar. É este o melhor tempo e o mais favorável para o banho noturno que se chama sono. O corpo descansa mais, e o repouso é mais conforme com as leis da natureza, é mais doce, mais leve, e, ao mesmo tempo, mais profundo, porque não tem o peso que é o indício duma situação anormal.

O sono, muito prolongado pela manhã, porque é retardado à noite, tem gravíssimos inconvenientes. Comunica ao estado geral da saúde uma languidez doentia, que parece tornar-se a situação habitual de certos temperamentos, entre as quais a vida é uma espécie de perpétua convalescença, não chegando nunca a gozarem o mais precioso bem da natureza, uma saúde verdadeira e solidamente estabelecida. Vede ao contrário as camponesas robustas da aldeia: de noite vão cedo pedir ao leito o repouso para os membros fatigados, de manhã levantam-se ao cantar da cotovia. No inverno, o fogo cintila de madrugada no lar doméstico; arranja-se a casa, a ordem do dia dispõe-se antecipadamente, o almoço dos trabalhadores está pronto a ir para a mesa, e, todavia, o sol ainda não repontou no horizonte. No estio, as mesmas raparigas da aldeia acompanham o astro do dia na sua marcha matinal, e o peito dilata-se-lhes e fortifica-se-lhes, respirando o ar fresco e perfumado que o sol derrama nos seus raios, parecendo aspirarem à vida e a saúde. Mais tarde casam-se essas donzelas, fazem-se robustas mães de famílias, e, quando não cometam imprudências, podem, durante longos anos, continuar uma existência, completa por um fecundo trabalho e ornada, algumas vezes, de toda a frescura e de todos os encantos duma vigorosa velhice, pois o regime é um excelente médico que lhes confere o privilégio de longa vida.

Donde vem, ao contrário, a fraqueza do temperamento nas mulheres de elevada posição? De muitas causas, de que, uma das principais é o regime muito geralmente adotado, sobretudo, nas grandes cidades. Gasta-se uma parte das noites em soirées que acabam por ser transformadas em longas manhãs; dorme-se uma parte do dia, e disto resulta uma atonia geral na constituição, um cansaço nos nervos, um entorpecimento nos órgãos e uma fraqueza habitual e perseverante. Certos temperamentos excepcionais poderão resistir; mas é incontestável aos olhos de todo o observador imparcial, que a perda da saúde, sobretudo nas mulheres, é decida, em grande parte, aos excessos que acabo de assinalar:

As longas vigílias de noite – diz um sábio – arrastam necessariamente fadigas, que influem no cérebro e sobre os aparelhos digestivos e respiratórios. Ora as fadigas desta natureza, bem longe de favorecerem o sono, tornam-no incompleto e penoso. Daqui uma grande parte do estado valetudinário que habitualmente se encontra nas mulheres das nossas cidades. As soirées e os bailes arruínam antecipadamente a saúde, e é, muitas vezes na própria mocidade, mas mais ainda nos avançados anos da velhice, que as loucas e funestas dissipações do mundo imprimem o seu triste e fatal selo.” (Desdonits, Lições da Natureza)

Estou prevendo a objeção: - Quereis condenar as soirées? Em primeiro lugar, senhoras, deveis notar, que se há ali alguma coisa a condenar, não sou eu quem condena: - são os fatos, é a natureza, é o temperamento do corpo humano. É verdade que a saúde de muitas mulheres de elevada posição está enfraquecida? – Ninguém ousaria negá-lo. É verdade que uma das causas principais é o modo como o mundo organizou, muitas vezes, as relações sociais? É um fato que a ciência demonstra todos os dias. Estou longe de condenar as soirées; e talvez estejais lembradas de que nas nossas reuniões mensais dos anos passados, me apliquei a mostrar-vos que a religião é amiga dos prazeres honestos e das relações da sociedade, mas com a condição, porém, de que tudo seja regulado pela sabedoria, pela conveniência, e de que os interesses do corpo e da alma não sejam abandonados; pois é tal o respeito do cristianismo pelos nossos corpos, que até nisso pode haver o pecado do comprometimento da saúde por graves imprudências. Os alegres entretenimentos da noite têm toda a espécie de vantagens: animam o espírito, refrescam o corpo, aproximam os corações, fazem desaparecer as nuvens e estreitam os laços de família ou da amizade. Os prazeres são necessários ao homem, mas em certa dose; falo dos prazeres honestos e que a virtude pode admitir, e os que conservarem alguma dúvida a este respeito, podem consultar os escritos dos maiores teólogos da Igreja e especialmente São Tomás. Este grande doutor tem sobre este assunto uma clareza, uma precisão, e, ao mesmo tempo uma razão e uma sabedoria, simultaneamente cheia de condescendência e de reserva. A regra por ele estabelecida é que é necessário usar de tais espécies de prazeres com moderação, segundo o tempo, os lugares e a conveniência das pessoas com as quais se vive: Moderate pro loco, et tempore, et congruentia eorum quibus convivit (temperatus). [Ethica, 1.III]

Há muitas pessoas – diz Fenelon – que querem que se gema com tudo, e que continuamente nos incomodemos, excitando em nós o desgosto dos divertimentos aos quais estamos sujeitos. Quanto a mim, confesso que não poderia acomodar-me a esta rigidez. Gosto mais de alguma coisa mais simples, e creio que o próprio Deus também. Quando os divertimentos são inocentes e se entra neles pelas regras do estado em que a Providencia nos põe, então creio que é suficiente tomar parte neles com moderação, e à vista de Deus. Maneiras mais secas, mais reservadas, menos complacentes e abertas só serviriam para dar uma falsa idéia de piedade às pessoas da alta sociedade, que já se preocupam muito contra ela, e que julgam não poder-se servir a Deus senão por uma vida sombria e incomoda.” (Manual de piedade. Conselho a uma pessoa da corte)

Nós quereríamos, pois, que as sociedades cristãs adotassem por máxima estas belas palavras de São Crisóstomo: - “Os cristãos têm o sentido dos prazeres delicados, mas a tudo deve presidir a decência: Discant gentiles quod christiani deliciari sciant, sed cum decoro.” (Epist. Ad Rom.)

É impossível fazerem-se mais concessões e mais razoáveis à natureza humana; mas por isso mesmo não é a religião autorizada a mostrar-se mais severa em tudo quanto excede os limites da sabedoria, da conveniência e da virtude, e mesmo por tudo quanto pode comprometer os interesses da saúde e da fortuna? Não seria possível, voltando ao nosso assunto, nas reuniões de família, combinar tudo para o bem geral e para a vigorosa saúde das gerações atuais? Salvo circunstancias especiais em que se é obrigado a velar mais tempo, não seria possível dar menos extensão às soirées, tornando-as, assim, mais agradáveis e mais freqüentes, mais salutares e menos comprometedoras para a saúde?

Eis o problema que proponho a resolução, e não é coisa singular que seja a religião que intervenha aqui para vos dizer: - Pensai nos interesses do vosso corpo, porque até se peca em os desprezar gravemente: Hoc esset peccatum – diz São Tomás. (Q. 141,art. 6)

Esse excesso das soirées vem-nos do paganismo; existia no tempo de Sêneca, e eis em que termos este filósofo o fustiga: - “Há-os que invertem o uso do dia e da noite... Também nada há tão triste e abatido, como o aspecto das pessoas que, por assim dizer, se consagraram à noite; têm a cor dos doentes, são pálidas, definhadas e vestem uma carne morta sobre o corpo vivo. E ainda aqui não está o maior mal: o sei próprio espírito é cercado de trevas, entorpecido, e habita as nuvens... Como não deplorar um excesso, que consiste em fugir da luz do dia para mergulhar a vida nas trevas.” (Epist. 1222)

Eu tenho-me perguntado algumas vezes: Se a religião impusesse metade dos sacrifícios que o mundo exige; se ordenasse que uma parte das noites fosse passada a fatigar o corpo e a alma o que se diria contra ela? Oh! Que anátemas! Que amargas censuras! Mas é o mundo que fala e ninguém diz nada: está-se encantado, ou pelo menos finge está-lo. São Francisco de Sales faz a este respeito algumas reflexões em que a fina ponta duma agradável malícia se mostra sob uma alta razão, e que com pesar deixaria de citar-vos: “Nós temos visto fidalgos e damas da elevada posição passarem a noite intera, e até várias noites seguidas a jogarem, e todavia os mundanos não diziam palavra, e os amigos também se não davam a esse trabalho; mas pela meditação duma hora, ou por nos verem levantar um pouco mais cedo que o costume para nos prepararmos para a comunhão, todos correm ao médico, para que nos venha curar os humores hipocondríacos ou da icterícia. Passar-se-ão trinta noites a dançar sem uma queixa, e só por algumas horas na noite de Natal todos tossem e estão incomodados no dia seguinte.” (Vida devota, 4ª parte)

O salutar regime de deitar e levantar cedo é muito precioso par a alma, e as ocupações da vida são, deste modo, muito melhor cumpridas. A alma é mais serena a noite; é mais calma como tudo quanto é regular, como tudo quanto não é perturbação nem investido pelas mil preocupações de uma vida muito mundana. À noite, antes de se adormecer, recolhe-se a gente, analisa o dia, censura-se, corrige-se e, como destro negociante, fazem-se as contas de ganhos e perdas. Não julgues, senhoras, que esta prática do exame noturno pertença aos espíritos tacanhos, pois é um uso de razão e de sábia filosofia, como de resto o são todas as práticas de uma devoção esclarecida. Os pagãos poderiam, sobre este assunto, dar muitas lições aos cristãos. Ouvi Pitágoras:

Não permitais que o sono te cerre os olhos sem teres examinado todas as ações do dia. Em que falei? Que fiz? Que dever esqueci? Começa assim pela primeira das tuas ações e percorre-as a todas, e depois censura-te pelo que fizeste mal e regozija-te com o que fizeste bem.” (Versos dourados, 10-44)

Que haverá mais belo – diz Sêneca- que o hábito de fazer sempre o inquérito de cada dia! Que sono o que sucede a esta revista das ações! Como é sereno, profundo e livre quando a alma recebeu a sua parte de elogio ou de censura, e quando, submetida ao seu próprio julgamento, ela organiza secretamente o processo do seu caminhar! Eu, tomei esta autoridade sobre mim próprio, e todos os dias me cito perante o tribunal da minha consciência. Tanto que a luz é retirada, analiso o meu dia, peso de novo os meus atos e as minhas palavras, nada me dissimulo, nada me desculpo.” (Da cólera, 1. II, c.86)

Adquiri este santo hábito, senhoras, e em vós, tanto aproveitará a razão como a piedade, em uma doce serenidade se derramará em volta de vossa alma, e adormecereis numa paz inteiramente angélica: Somnus sanitatis in homine. (Eccl. XXXI). Já vistes necessariamente como dormem as crianças:- Que calma! Que dulcíssima expressão! Que graciosidade de fisionomia! Que posição viva e silenciosa! Pois será assim a imagem do vosso sono.

Mas, - e nós tocamos aqui no ponto mais delicado, - resulta desta organização de vida, que deveis levantar-vos cedo! Eu estou já ouvindo um longo suspiro, um certo movimento de espanto que parte do vosso tremulo leito. Entendamo-nos, porém, primeiramente sobre a frase – levantar cedo. Não vos exortareis para que imiteis uma mulher delicadíssima, que dizia, durante a sua assistência em Vichy: - “Eu começo o meu dia às quatro horas da manhã, a fim de que o corpo o não arrebate a alma.” (Cartas de Mme. Swetchine) Não vos proponho este modelo, e tenho mesmo a certeza de que se abrisse um registro poucos membros encontraria para a irmandade de Madame Swetchine. Deixe-nos, pois, um pouco indeciso o valor da frase – levantar cedo; basta que seja o mais cedo possível, o que talvez seja sempre demasiado tarde. Uma vez determinada a hora do vosso levantamento matinal, conservai-a com tanto maior firmeza, quanto mais difícil de transpor é o posso, e quanto maior é a quantidade de fluido magnético que o desgraçado leito encerra, e pelo qual se é arrastado, não digo com pesar próprio, mas com uma doçura de violência que nos chumba ao poste.

Confesso que estamos aqui em face do mais terrível dos inimigos, que é o travesseiro; quando pela manhã o queremos deixar, usa de artifícios linguagem de sereias, e acaricia-nos com terna precaução. Parece dizer-nos: - Porque me abandonas? Não estás bem aqui? Que doce temperatura! Que inapreciável bem estar! Não vês que ainda é muito cedo? Não sentes os membros fatigados ainda, porque não desancastes quando devias? Apalpa a fronte e verás que uma dor de cabeça poderia começar; alguns quartos de hora mais e ela será dissipada; amanhã te levantarás mais cedo. Demais, está tanto frio lá fora! Para que afrontar o rigor da estação? O dia é bastante longo; tens muito tempo para fazer face a tudo; não sejas realmente tão áspero contigo mesmo.

Depois duma linguagem tão eloqüente o querido travesseiro estende os seus dois braços para vos enlaçar e a vitória em breve é consumada. Verdade é que ela era fácil, pois ninguém com ela é mais ditoso do que o vencido. E eis-vos de novo sepultadas por mais algumas horas! Falo muito seriamente, senhoras, dizendo-vos que um dos inimigos mais difíceis de vencer, é o travesseiro pela manhã; há só um meio de triunfar dele, é um golpe pronto e decisivo, uma carga militar, um salto fora do leito. Carregai o inimigo com uma vigorosa saída e a vitória será vossa. – Um velho capuchino dizia, que, depois de longos anos de religião, o que mais lhe custava ainda era o levantar-se às quatro horas da manhã. É verdade, senhoras, que há nisso um sacrifício, um sacrifício real e incontestável; mas, neste mundo, a vida é cheia de sacrifícios, e cada um deles é seguido dum sentimento de verdadeira ventura, e cada vitória dá ao homem uma força espantosa. Quando vejo uma pessoa que tem a coragem de se levantar cedo, formo logo uma altíssima idéia da firmeza do seu caráter e digo: - Esta pessoa saberá nas ocasiões críticas desenvolver uma energia extraordinária; a sua natureza retemperar-se-á, em cada manhã, na luta contra o travesseiro, combate este, que muitas vezes é mais difícil, sobretudo por causa da sua continuidade, que o do soldado no campo de batalha.

Além disso, senhoras, esperai tanto quanto quereis: a menos que não permaneceis deitadas até ao meio dia, tereis um sacrifício a fazer, deixando o leito. Ás vezes quanto mais esperardes, tanto mais longo será o sacrifício e mais aumentado pela triste perspectiva dum levantamento próximo; mas com um minuto de decisão pronto e generoso, tudo se consegue, e o gozo da vida ativa é começado. As longas esperas no leito quando se está acordado também têm graves inconvenientes para a alma: amolecem o ser inteiro e mergulham-no numa espécie de devaneio mais ou menos sensual que pode conduzir à margem de certos abismos. Tende cuidado com isto: a borboleta ondeia caprichosa com as suas asas douradas, e, afinal vai queimar-se na luz que perfeitamente brilha para ela, imagem desses passeios aéreos, em que, a força da aproximação de certos alvores enganosos, se acaba por danificar as asas da alma, tirando-lhe, ao menos, o veludo da consciência pura.

"É perigoso – diz Santo Ambrósio – que o sol venha perturbar com seus raios indiscretos, os sonhos de um espírito ocioso e oculto no seu leito” (In Ps., 118, s.19) O poeta italiano, diz, falando da manhã: - “Então o nosso espírito, mais estranho a carne e mais distante dos pensamentos terrestres, é quase divino nas suas vidas.” (Dante, Purgatório, c. IX) Em casa dia, após uma boa noite, podemos renovar na nossa alma as maravilhas de uma esplendida alvorada de primavera: tudo é fresco no espírito e no corpo, tudo é quente nas faculdades interiores; a vida experimenta uma espécie de necessidade de expansão; todos os pensamentos, todos os desejos parecem estremecer de alegria, como as plantas de um jardim celeste. Se o sol da oração se levanta no horizonte, os germens do bem despertam, desenvolvem-se e sobem ao passo que o calor divino se torna mais intenso: “O maná – diz o Profeta – desaparecia ao surgir à manhã: era para mostrardes a todos, ó meu Deus, que é preciso prevenirmos o aparecimento do sol, para recebermos as vossas preciosíssimas bênçãos.” (Sabedoria, XVI, 28) Há uma coisa muito notável aos nossos livros santos, e é que a oração matinal é sempre especialmente mencionada:

Senhor – diz o Profeta – Vós escutareis a minha oração da manhã.” (Ps. V, 4)

Pela manhã, apresentar-me-ei na Vossa presença e verei a Vossa glória.” (Ibidem, V.4)

De manhã a minha oração Vos surpreenderá.” (Idem, LXXXVII, 14).

É de manhã que a Vossa misericórdia se derrama sobre nós abundantemente.” (Idem, LXXXIX, 14)

Os que velam cedo – diz a Sabedoria – achar-se-ão.” (Prov., VIII, 17)

O próprio Senhor se chama estrela esplendida, estrela da manhã: Ego Stella splendida et matutina. (Apoc, XXII, 16)

Eu não posso deixar de ver nestas contínuas repetições um pensamento fixo e perfeitamente detido: há entre as coisas relações naturais, estabelecidas pela divina Providência, e que ela gosta de conservar no mundo sobrenatural; de manhã é quando começa a vida sobre a terra, é quando tudo renasce, quando a solidão favorece os primeiros impulsos da vida que retoma o seu curso, quando o orvalho se deposita e dá um fresco alimento à planta. É também a ocasião mais deliciosa para o recolhimento da idéia, para a efusão do orvalho das almas. O céu está carregado de chuva quando a noite a condensou; o maná está em toda a parte, mas desaparece em breve, e enquanto que a indolência perde as forças do seu espírito e do seu corpo nas faixas do sono, a alma ativa faz a sua provisão de alimento celeste; dispôs o seu céu interior para todo o dia, dissipou-lhe antecipadamente as nuvens e como que fixou a serenidade di tempo até ao próximo sono.

Uma das horas mais preciosas e mais doces da vida é a da oração da manhã: eu não me refiro somente a oração vocal; quero, sobretudo, dizer a oração da união com Deus, o silêncio e o repouso da alma n’Ele; falo da abertura da bica da alma, que aspira um leite divino, que bebe a luz e o amor, que nada diz, e que se esconde no seio da mãe por excelência, da mãe que se chama Deus, e que tão poucos cristãos conhecem! Os meum aperui et attraxi spiritum. (Ps. CXVIII, 131)

Ah! Se conhecêsseis o dom de Deus que se apelida o amor da manhã! Si scires donum Dei (Joann. IV 10)! Há uma frescura, uma suavidade, uma energia, uma paz que vêm diretamente de Deus. Quando se está sobre as montanhas, no verão, as três horas da manhã, e os primeiros raios do sol aparecem, parece que nos chegam mais límpidos, pois não têm passado por outros peitos; é como a mais pura essência do astro, que entra em nós; o mesmo acontece com a união a Deus, na hora em que quase todos os homens dormem. Sobre as montanhas divinas, a alma tem as primícias dos favores celestes; enche-se de luz, de amor, de força, donde lhe resulta para todo o dia uma dulcíssima embriaguez, que, longe de enfraquecê-la, dá mais firmeza aos nossos pensamentos e às nossas ações, e derrama um perfume de alegria sobre todas as nossas obras. – Quando não houvessem outras razões para o levantar cedo eu vos diria: - Sacudi o vosso travesseiro, porque o Senhor vem visitar-vos com escolhidos favores; mas o menor desleixo será a prova da vossa indiferença, e forçareis o Senhor a ir mais longe procurar as almas mais dignas dos Seus benefícios. Não há pessoa que, em cada manhã, deixasse de levantar-se prontamente, se corressem a dizer-lhe: Vinde depressa, espera-vos um príncipe que chegou a vossa casa. – Colocai Deus no lugar do príncipe e tereis a verdade.

Finalmente, senhoras, e termino: - Se alguma coisa quereis fazer seriamente, madrugai. De manhã não se está alterado, está-se cercado de calma, de uma doce solidão, e com mais facilidade se dá expediente a todos os negócios e serviços. Podereis ocupar-vos no comércio, no arranjo da casa, na leitura, no trabalho intelectual se amais o estudo; depois de alguns anos será incalculável o resultado que colhereis assim.

Levantando-vos duas horas mais cedo em cada dia, no fim de quarenta anos tereis ganhado mais de vinte e nove mil horas, isto é, mais de sete anos, contando somente às doze horas do dia, em as quais se trabalha. Ora aumentar a vida em sete anos por quarenta, é enorme, e o que se pode fazer durante este tempo continuo, acaba por tornar-se incrível. “É preciso – diz Clemente de Alexandria – arrancarmos ao sono a maior porção de vida possível.” (Pedag., I. II, c.9)

O sono é um verdadeiro ladrão que nos rouba as maiores riquezas; é um ladrão que se não pode repelir completamente, mas ao qual se pode ganhar algum terreno, impedindo-o de invadir a verdadeira vida. – “Nós só vivemos metade do tempo da nossa existência – dizia Plínio, o Antigo-; a outra metade passa-se num estado semelhante à morte... não contando os anos da infância, em que ainda não há consciência das coisas, nem o tempo da velhice que só vive para sofrer.” (Idem, I. VII, c. 51)

Tenhamos, pois, a coragem de subtrair todos os dias alguma coisa a este irmão da morte que assim divide em duas a nossa vida, reservando para si a melhor parte; demos a natureza o que lhe é necessário, mas não façamos nenhuma concessão à indolência.

O tempo mais favorável para se fazer este furto, são as primeiras horas da manhã. “A qualidade do tempo é diferente a essa hora – diz Madame Swetchine.” (Cartas, t. II) Uma hora pela manhã vale duas da noite, porque o espírito está fresco, naturalmente mais recolhido, não tem ainda as forças gastas, nem está exausto pelas fadigas do dia. As horas da manhã parecem-se, para a agilidade do espírito e para as forças rejuvenescidas da alma, com a primeira hora do corcel que é atrelado a uma viatura. Do mesmo autor que nós gostamos de citar aconselhava a levantar cedo, “a fim de se reservarem, custasse o que custasse, algumas horas de inteira solidão pela manhã.” – “não era somente – continua uma das suas amigas- para consagrar a Deus as primeiras horas do dia que ela o começava tão cedo, era também para dispor de tempo em favor do estudo."

Ela disse-me um dia que o prazer que nisto sentia tinha aumentado com os anos: “É justamente, me disse ela, quando me aproximo desta mesa para continuar o trabalho, que o meu coração pulsa de alegria.” (Ibidem.) Ela própria confessava, “que quando não fazia assim o resto do dia estava em pilhagem.” (Idem, p. 126) se não quereis estar fora de horas, senhoras, madrugai; fareis então o que quereis, ninguém vos virá causar transtornos; consagrareis o que tendes de mais íntimo em vossas forças, aos deveres mais sérios e mais verdadeiros da vossa existência. E quando soar à hora da pilhagem, a hora em que é necessário dividir a vida em pequenos fragmentos para dispensá-las em mil nadas mais ou menos urgentes, vós tereis, ao menos posto em segurança o melhor e o mais precioso. Se vos levantardes tarde, tereis a vida em perpétua pilhagem, e pertencerá ao primeiro que vier arrancar-vos um fragmento. (Diário de Melle Eugenie de Guerin, p. 24)

Platão, e não deveis achar severa a moral dum pagão, Platão diz nalguma parte: - “É vergonhoso que a dona de casa se faça acordar pelos seus domésticos, não sendo a primeira a acordá-los.” (As leis, I. VII) Esta frase parecerá talvez uma exageração; entretanto, se as coisas pudessem passar-se assim não iria tudo melhor no interior da família? A mulher, dissemo-lo com o Espírito Santo, é o sol de sua casa, mas é o sol quem soa em toda a parte a hora do despertar da natureza. É o primeiro a repontar no horizonte e tudo se levanta logo no universo – a planta, o animal, o homem. O sol não se faz despertar pelos seus satélites, é ele próprio que dá o sinal. Seja assim a mulher forte:

Sicut sol oriens mundo in altissimis Dei, sic mulieris bonae species in ornamentum domus ejus. (Eccles., XXVI)

(A mulher forte, pelo Monsenhor Landriot, versão da 10ª Edição francesa por Alfredo Campos, livraria Internacional, 1877)

PS: Grifos meus.

sábado, 20 de novembro de 2010

IV PALAVRA

IV PALAVRA


Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquiste me?
Meu Deus, Meu Deus, porque Me abandonaste?
(Math. X XII,45)

A narrativa da Paixão e Morte do Salvador conta que, no dia da tragédia do Gólgota, houve trevas da hora sexta (cerca do meio dia) até a hora nona (três da tarde), quando Jesus expirou.

"Parece que a própria natureza quis esconder o horror daquela vista. O céu, que estivera límpido durante toda a manhã, escureceu inopidamente. Uma caligem densa, como se viesse dos pântanos do inferno, ergueu-se por detrás das colinas, e, pouco a pouco, se espalhou pelos ângulos do horizonte. Um bando de nuvens negras achegou-se ao sol, aquele claro e doce sol de abril, que aquecerá as mãos dos homicidas, cercou-o, assediou-o, e, finalmente, o cobriu com uma fita espessa de treva. E, desde a hora nona, houve trevas em todo o país".
(Giovani Papini - História de Cristo - págs. 519 e 520)

Essas trevas, de que falam os Evangelhos e até mesmo os escritores profanos, são verdadeiramente maravilhosas e inexplicáveis. (Nota de rodapé: Phlegou e Talles, em seus escritos, fazem referência a esse acontecimento extraordinário)

Não encontramos uma causa que explique, naturalmente, o aparecimento dessas trevas. Era o tempo da Páscoa dos Hebreus, 15 do Nizan (7 de abriu); a Páscoa dos Hebreus coincidia com a lua cheia, período em que é, cientificamente, inexplicável em eclipse total, uma vez que a lua está em oposição ao sol. Não menos extraordinária foi a universalidade dessas trevas, que cobriram toda a terra, de um a outro hemisfério, pois era o próprio sol que perdia sua luminosidade, parecendo uma lâmpada que, lentamente, se extingue e se apaga. Havia apenas uma claridade mortiça, que permitia somente distinguir os objetos e as pessoas. Não menos extraordinárias e maravilhosas são essas trevas em sua duração. Com efeito, essa estranha obscuridade persistiu, exatamente, do meio dia às três horas da tarde, durante o tempo em que Jesus agonizou na Cruz, justamente a parte do dia em que o sol ostenta maior luminosidade.

Os judeus, cujo espírito se achava obscurecido pelo pecado e pelos pensamentos terrenos, não penetraram o sentido desse acontecimento maravilhoso e permaneceram endurecidos e obstinados. (Monteiro - Reflexões Evangélicas- pág. 555)

Treva é símbolo do luto, da dor e da tristeza, na ordem temporal: na ordem moral, representa o erro e o pecado, que ensombram o espírito e perturbam a consciência... Em trevas morais andava o mundo, antes que Jesus consumasse a obra da redenção.

Havia menos de uma semana que Jesus fora recebido em triunfo na cidade santa de Jerusalém; havia menos de 48 horas, em roda do Mestre, tudo eram glórias, homenagens e aclamações... Agora o cenário mudou, embora os atores sejam quase todos os mesmos... Oh! exemplo terrível da insconstância e das mutações humanas! Todos os amigos e beneficiados de Jesus O abandonaram; nem mesmo o anjo, que O confortou no jardim das Oliveiras, aparece nessa hora tétrica, em que dominam os poderes das trevas...

"De todas as horas dolorosas, a mais cruel é aquela em que o homem vê a solidão fazer-se em torno de si. Venha-nos ela repentinamente após uma desgraça, ou , antes no cerque em seguimento à velhice: poucos escapam a esse isolamento dos últimos dias, e as vidas mais felizes naufragam, finalmente, na indiferença dos homens e das coisas. Que contraste entre  agitação,  a solicitude, as lisonjas do começo e os abandonos do fim!" (Perroy - La Montée du Calvaire - Pág. 309)

E Jesus experimentou essa espécie de tormento: o abandono. Abandono exterior e interior.

"Exteriormente, tudo Lhe falta. Da terra não tem senão dores. Até de Seu coração tem senão dores. Até de Seu corpo a proteção divina se retirou. Está estendido em um madeiro, no leito cruel da Cruz. Do alto da cabeça às plantas dos pés, é uma chaga viva; as espáduas e os ombros estão cheios de feridas. Está suspenso da Cruz por chagas vivas, os pregos atravessam Seus pés e Suas mãos e queimam como ferro em brasa; inumeráveis espinhos, como tantas pontas de fogo, atravessam Sua testa e Sua cabeça. Seu corpo não está em posição natural; Seus braços e pernas foram violentamente distendidos; os membros paralisam-se pouco a pouco; a vida pára no peito oprimido; os pulmões, engorgitados de sangue, respiram com dificuldade; o coração pulsa fracamente e vai extinguindo-se; é uma angústia mortal, sofrimentos supremos. O sangue, que não pode mais descer da cabeça pelas veias entumescidas, produz na testa e no pescoço dores lancinantes; a testa arde em febre, as numerosas chagas, expostas ao ar, inflamam-se e causam excessivo sofrimento. O Salvador não é senão dores e sofrimentos; falta-Lhe tudo: a terra e o céu".
(Pedreira - A Paixão de Jesus Cristo - Pág. 215)

Nessa hora de suprema angústia, Jesus volta-Se para o Pai Eterno, oferece-Lhe, em prol da humanidade, os tormentos sem fim, as dores sem conta, as angústias sem nome, o sangue que extravasa de Suas chagas... Jesus recorre ao Pai e sente que também este O abandona. A visão beatífica, que inundava de santo júbilo a alma de Jesus, já não se faz sentir; persevera, é verdade, mas os Seus consoladores efeitos desaparecem... E então profere as palavras: "Meu Deus, Meu Deus, porque Me abandonaste?"

Estas palavras são as primeiras do salmo XXXI. Segundo São Jerônimo, Jesus proferiu o primeiro versículo em voz alta, para chamar a atenção dos circunstantes e recitou baixinho o restante do salmo até o fim. Nesse canto dolente, Davi descreve com espantosa exatidão e estranha fidelidade os tormentos do Crucificado.

Assim fala o Profeta - Rei, na sua prece sentida e dolente:

"Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste? Não sou mais um homem, mas um verme, que e calca sob os pés; tornei-me o opróbrio dos homens e o objeto de escárnio do povo. Todos os que me viram escarnecem de mim; menearam a cabeça e vociferaram blasfêmias! Esperou no Senhor, livre-o; salve-o, se é que o ama. Meu sangue correu como água; minhas forças extinguiram-se e minha língua aderiu ao véu palatino. Atravessaram os meus ossos; dividiram minhas vestes e lançaram sorte sobre minha túnica".

Parece que só uma testemunha ocular poderia descrever com tanta fidelidade a figura do Crucificado. A luz sobrenatural, que iluminava sempre o espírito de Jesus, já não projetava seus raios benéficos. O conforto espiritual, que alimentava a alma de Cristo, havia desaparecido, deixando lugar às penas interiores, às torturas íntimas. E a força divina, que sustentava o Filho de Deus contra todos os inimigos da terra e do inferno, cessara de o amparar e fora substituída pela fraqueza natural... Naquele momento, quem falava não parecia ser mais aquele que dissera: - "Meu Pai, eu sei que Vós me escutais sempre". E proferiu estas palavras: - "Meu sustento é fazer a vontade daquele que Me enviou a este mundo".

Para fazer-nos compreender a extensão e a profundez de Seus tormentos, Jesus pronunciara aquelas palavras de queixa, que encerram admiráveis e salutares ensinamentos.

Em primeiro lugar, essa queixa do Salvador deve fazer-nos compreender quão grandes sofrimentos e quão espantosas dores o Divino Mestre aceitou e suportou por nosso amor. Não fora essa palavra, não nos seria dado avaliar até que ponto chegaram as agonias e as angústias do Redentor. Deve também ser motivo para o nosso mais terno e profundo reconhecimento a quem tanto sofreu por nossa causa.

Em segundo lugar, o Divino Mestre quis ensinar-nos que sob o peso dos males e das tribulações dessa miserável vida, não é condenável uma queixa terna e respeitosa, quando acompanhada de submissão perfeita e inteira fidelidade a todas as provações, que Deus haja por bem enviar-nos. "Faça-se Vossa vontade e não a Minha"...

Em terceiro lugar, quis o Redentor alcançar-nos de Deus a graça de jamais nos queixarmos, a não ser à imitação dEle. (Pinart - O alimento da Alma Cristã -Pág. 342)

Jesus, tendo assumido o encargo de satisfazer pelos nossos pecados, devia submeter-Se a todas as penalidades a que estamos sujeitos. A vítima augustíssima, depois de ter suportado todas as penas e todos os tormentos deste mundo, devidos às nossas culpas, deveria sofrer ainda, por amor de nós, as penas do inferno. Mas Jesus era Deus... e, como Deus, não podia ser condenado ao inferno... A caridade infinita encontrou o meio de resolver esta dificuldade. Jesus experimentou a maior e a mais terrível das penas do inferno, o mais doloroso dos tormentos dos condenados: o abandono e o desamparo de Deus.

É essa a explicação última do brado angustioso de Jesus:

"Meu Deus, Meu Deus, porque Me abandonaste?"

Ao divino abandonado do Gólgota, é que devemos invocar nos supremos desfalecimentos e nas supremas amarguras deste vale de lágrimas. O que Jesus experimentou naqueles momentos terríveis, em que se viu abandonado do céu e da terra, de Deus, Seu Pai, e dos homens, pelos quais morria, inspira-nos uma confiança ilimitada de que seremos sempre atendidos todas as vezes que implorarmos socorro.

"Oh! meu Jesus! lanço-me, com amor e reconhecimento, nos horrores salutares do Vosso abandono. Desde hoje compreendo o que é abandonar a Deus e ser de Deus abandonado. Ah! o meu coração está preso às criaturas, fez-se escravo delas e, para agradar-lhes, abandonou a Deus: - ultraje infinito, que revolta a Sua Majestade e a Sua Paternidade! Mas Vós quisestes reparar divinamente este ultraje, ó meu Jesus, e por nós sofrestes o desprezo e o abandono do Vosso próprio Pai. Ah! eu me abraço à Vossa Cruz, para nela tornar a encontrar o meu Deus, e pelos abandonos cruéis a que Vos votaram, peço-Vos Senhor, não permitais que eu torne a abandoná-lO, nem que Ele me desampare jamais a mim"
(Weber - de Gethsemane ao Gólgota - Pág. 178)

Assim seja.

(Espírito e Vida, as sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. J.Cabral, empresa Editora ABC limitada, coleção Cristo Redentor, ano de 1937)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O DOM DE SI E A PROVAÇÃO INTERIOR

O DOM DE SI E A PROVAÇÃO INTERIOR


Jesus é bom jardineiro. Cuida do pomar que Seu Pai plantou e poda-o a Seu devido tempo. A alma sabe que é objeto da divina solicitude. Contenta-se com esforçar-se por crescer, cobrir-se de folhas, flores e frutos. Não indaga quando o Senhor quererá apará-la e cortar os galhos secos. Espera com paciência, consciente de que Cristo vela por ela e a fará participar, no momento oportuno, da Sua amada Cruz. Ela nada determina, não escolhe o sofrimento que o Senhor lhe vai enviar. Mas quando Jesus se lhe apresenta trazendo a Sua Cruz adianta-se e ajuda-O a carregá-la.

Como detalhar as provações com que Jesus favorece as almas? São de muitos tipos, adaptadas às necessidades de cada alma, escolhidas conforme o tipo de beleza que deve ser peculiar a cada uma.

O Senhor serve-se muitas vezes dos escrúpulos de consciência, das dúvidas sobre a sinceridade da própria intenção e sobre a qualidade das obras. A provação atinge uma acuidade extrema se a alma se persuade de que está em inimizade com Deus. E parece-lhe que Deus também a desampara e lhe vira o rosto.

Mas para que descrever essas situações? Deus reserva para si esse terreno. Quer estar livre e agir sozinho no íntimo da alma. Com este fim, tolhe as capacidades, cega a razão, adormece a vontade, desnorteia os sentidos. O papel da alma entregue a Deus é renovar nesses momentos penosos o ato de doação de si mesma. Deus sempre lhe concede a suprema liberdade de abandonar-se por um ato da vontade. Tira-lhe sem dúvida a consolação desse ato, mas ajuda-a sempre a fazê-lo, pois é esta a essência da vida espiritual.

Depois disso, só resta à alma sofrer, esperar e ter paciência. Atingiu toda a perfeição que podia naquele momento. Deus age nela, purifica-a como numa forja, alternando o uso do ferro e do fogo. As faíscas saltam a cada pancada do malho divino, mas a obra vai tomando forma. Um pouco mais de paciência e Deus terá concluído mais uma obra-prima. Então, de súbito, as provações cessam, porque, depois de mergulhar a alma num banho refrescante, o Senhor restitui-lhe as energias e dissipa-lhe as trevas.

Senhor! Vós crucificais de um modo admirável! Não chegarei eu a compreender que, nesses dolorosos momentos, devo deixar-Vos agir em mim sem lamentações nem murmúrios, e a casa nova pena, a cada crise mais dolorosa, responder com um fiat - faça-se - mais amoroso?

(O dom de si, vida de abandono em Deus, pelo Pe. Joseph Schrijvers)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

ORAÇÃO À SAGRADA FACE

ORAÇÃO À SAGRADA FACE
(composta por Santa Teresinha)


Ó Jesus, que na Vossa crudelíssima Paixão Vos tornastes "o opróbio dos homens, e o homem das dores", eu adoro a Vossa divina Face sobre a qual resplandecem a beleza e ternura da Divindade e que agora se tornou para mim como a face de um "leproso" (Is. 53,4).

Mas sob estes traços desfigurados reconheço o Vosso infinito amor e ardentemente desejo amar-Vos e fazer-Vos amar por todos os homens.

As lágrimas que com tanta abundância correram dos Vossos olhos, se me figuram quis pérolas preciosas, que eu quisera recolher para, com seu valor infinito, resgatar as almas dos pobres pecadores.

Ó Jesus, Vossa face é a única beleza que encanta o meu coração, de boa mente quero renunciar na terra à doçura do Vosso olhar e ao inefável ósculo de Vossa boca divina, mas suplico-Vos, imprimi em meu coração Vossa divina imagem, e inflamai-me com Vosso amor, a fim de que possa um dia contemplar a Vossa face gloriosa no céu. Amém.

(Indulgência pelo Papa São Pio X, 13-II-1906)

Tríduo a Santíssima Trindade para se obter uma graça por intermédio de Santa Filomena

Tríduo a Santíssima Trindade
para se obter uma graça por intermédio de Santa Filomena

Primeiro dia
Eterno Pai

Que no céu onde coroas os merecimentos, do que neste mundo Vos servem com fidelidade. Pelo amor tão grande, tão puro, que Vos teve a Vossa dileta filhinha Santa Filomena, que na sua filial confiança se entregou inteiramente nas Vossas mãos. Para ser um exemplo vivo de fé ilimitada, amor e renúncia. Pelos méritos imensos que Filomena tem aos Vossos olhos, atendei propício as súplicas que por sua intercessão Vos dirijo, e dignai-Vos atender as minhas preces, concedendo-me a graça que Vos peço.

Segundo dia
Filho Eterno do Pai

Que prometestes recompensar no céu os que esquecendo-se de si próprios, só procuram a Vossa glória. Pela fé heróica que em vós teve a Vossa filhinha Filomena, que não vacilou em enfrentar os mais horríveis suplícios, as mais tremendas afrontas na presença dos seus algozes viciosos, nas ruas de Roma, idólatra, para que o Vosso santo nome fosse glorificado na terra como é no céu. Por tudo o que ela sofreu neste mundo dignai-Vos hoje atender benigno as súplicas que por sua intercessão Vos dirijo, concedendo-me a graça que Vos peço.

Terceiro dia
Espírito Santo Eterno

Que com tantas graças de amor, aperfeiçoaste a bendita alma de Santa Filomena. Instantemente Vos suplico pela fidelidade com que Vos soube corresponder, atendei as súplicas que pelos seus méritos Vos dirijo. Socorrei-me na presente necessidade. Rogo-vos que por tantos merecimentos que a Vossa servazinha tem a Vossos olhos, lanceis sobre mim os eflúvios da Vossa graça e misericórdia, concedendo-lhe ó Divino Espírito Santo estas graças a meu favor.

(P.Av. Gl.P. - Oração retirada do livro: Santa Filomena a Grande Milagrosa, por E.D.M.)


(belíssimo quadro)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Oração a São Luiz Gonzaga

Oração a São Luiz Gonzaga


São Luiz Gonzaga que vivestes a vossa juventude, buscando agradar a Deus e ao próximo, através de uma vida de castidade e pureza de coração, olhai para a nossa juventude e conservai nela os sentimentos de nobreza de alma, que sempre animaram a vossa vida.

Que os jovens sempre encontrem o caminho da verdade e do bem, seguindo os apelos de Deus, vivendo com alegria e entrega de sua vocação.

Sejai sempre para eles, o modelo de seguidor de Cristo, no amor total e exclusivo, em favor de Seu Reino. Por Cristo Senhor Nosso. Amém.

12ª Conferência - A mulher forte e a esmola

Nota do blogue: Até o fim do ano, disponibilizarei este excelente livro em PDF na internet. As transcrições - aqui no blogue - não estão sendo feitas de forma sequencial. Recomendo vivamente a leitura destas conferências.

PS: A parte do texto que segue em azul é um resumo da 11ª Conferência.

12ª CONFERÊNCIA
feitas às senhoras da associação de caridade
Monsenhor Landriot
(Retirada do livro: Mulher forte, 1877)

(Rainha Santa Isabel)


MULHER FORTE E A ESMOLA


Manus suam aperuit inopi et palmas
suas extendit ad pauperem.

Ela abriu a sua mão ao indigente,
e estendeu os braços e as mãos ao pobre.
(Prov., XXXI)


Senhoras.

Explicando os dois antecedentes versículos do livro dos provérbios, sobre a mulher forte, vimos que ela podia gozar do bem que se opera em derredor dela, do bom resultado das suas obras, e deixar expandir o coração no espetáculo da felicidade e da prosperidade de sua família, uma vez que a sua alegria não fosse de orgulho e estivesse contida nos limites da sabedoria: pois o abuso das melhores coisas pode conduzir a alma aos sentimentos do pueril amor-próprio e da triste vaidade, que, de tal forma são comuns entre os homens, que até, muitas vezes, senão sabe que conselhos se lhes hão de dar.

Se alguém os empenha a rejubilarem-se em Deus, e rejubilarem-se com tudo quanto pode ser bom na vida, porque a vista do bem dilata e anima, deixam-se cair no ridículo e na desorientação de uma miserável vaidade; se, no contrário, alguém comprime ao mesmo tempo, a mola do louvor e da justa apreciação das coisas, e se detém assim a legítima satisfação que pertence necessariamente à virtude, segundo a doutrina de São Tomás, a alma estiola-se, e expõe-se a perder toda a energia, e toda a atividade para o bem.

Recomendamos em seguida, uma grandíssima reserva na manifestação do bem e da alegria. Pondo mesmo de parte os princípios da humildade, o orgulho, a inveja, a vaidade magoada e os pequenos amores-próprios, que nos rodeiam sempre, como pequenas serpentes, deveriam empenhar-nos a viver na obscuridade, a ocultar a nossa ventura, o nosso engrandecimento, e a passar neste mundo, tanto quanto possível, como o regalo sob a folhagem.

Depois de ter dado um sentido anagógico ao outro versículo: “A sua luz não se apagará nas trevas”; depois de tê-lo aplicado às mulheres admiráveis, que conservam sempre no seu espírito e no seu coração a alampada dos santos desejos, dos nobres pensamentos, dissemos, com a Escritura, quanto era necessário à mulher o pôr a mão nas coisas fortes, o armar-se de coragem, e lutar energicamente contra as dificuldades da vida. Afinal, a propósito do fuso que gira entre as mãos da mulher forte, ajuntamos que ele representava a vida, e que a nossa existência era feliz ou desventurosa, segundo a qualidade da lã que fiávamos.

O versículo seguinte pode traduzir-se, conformando-nos com o original: - A mulher forte abriu a sua mão ao indigente, e estendeu os seus braços e as suas mãos ao pobre. Não vou hoje fazer um tratado a respeito da esmola: tal assunto levar-nos-ia muito longe, além de que talvez o desenvolvamos qualquer dia. Vou, sobretudo, encarar a esmola, nas suas relações com a mulher forte e com o fim da nossa associação.

Recordemos primeiro que há uma obrigação severa e rigorosa de dar esmolas, cada um segundo as suas posses, já se vê. Há para o rico – e a maior parte da gente tem a riqueza relativa que permite dar alguma coisa – há para o rico um expresso mandamento de dar, ao menos uma parte do seu supérfluo, ao pobre. O rico não é aos olhos da fé, um proprietário dos seus bens, por tal forma independente, que possa gastá-los e abusar deles à sua vontade: o rico é, perante a justiça de Deus, uma espécie de usufrutuário que tem de dar contas ao primeiro Senhor do universo, do emprego dos seus tesouros; e um dos principais empregos, depois do uso conveniente e determinado pela sabedoria, é o de derramar o que transborda da sua fortuna, no seio dos pobres. Mas – e insistimos sobre este ponto porque separa o ensino católico das doutrinas subversivas de toda a sociedade – o pobre esquecido não tem o direito de fazer justiça por suas mãos: o rico, para o cumprimento do preceito da esmola, não é réu do tribunal da revolução, pois só Deus tem o direito de se constituir em vingador do pobre desamparado.

Esta admirável doutrina conserva a esmola o seu mais belo caráter, que é a espontaneidade; e, todavia, em toda a parte há operado prodígios de caridade. Segui outros princípios, que não estes, e caíres necessariamente nos insondáveis abismos das teorias socialistas.

Agradecei, senhoras, a divina Providência, que vos ajuntou num grêmio de caridade, e vos deu assim o meio de mais facilmente praticardes um dever, que cumpre a todos os cristãos. Quando se está só, isolado, sem estimulante exterior, acaba-se por se dormir sobre as respectivas obrigações; esquece-se, é se indiferente; desliza-se, sem se pensar, num declive insensível, e chega-se ao sono mais completo.

Tal mulher daria a esmola, porque é bondosa, porque é cristã, porque é naturalmente misericordiosa, mas nem nisso pensa. Retirada na sua vida intima encontra menos facilmente as ocasiões; raramente lhe é lembrada esta obrigação; atrofia-se-lhe o sentimento de caridade; torna-se áspera para os pobres, não por sistema, mas por hábito. Parece-me, ao contrário, senhoras, que as vossas reuniões mensais, que as vossas assembléias particulares, que a visita ao pobre e o conjunto da vossa organização, são um discurso vivo, que vos recorda um dos principais deveres: é o despertar da alma indolente e preguiçosa; é a súplica do pobre; é o seu grito de agonia que se vos faz ouvir sob todas as formas.

É, pois, uma benção especial de Deus, o ter-vos chamado a fazer parte duma obra de caridade, porque reunindo vossos pensamentos e esforços, Ele deu-lhes uma força e uma solidez que nunca se encontra no isolamento. É uma benção de Deus, porque a graça do céu é permitida a reunião de duas ou três pessoas, quando se faz em nome de Cristo: e, sob esta relação, não temos a dirigir a Providência senão ações de graças. A nossa obra foi além de todas as esperanças, desenvolveu-se dum modo admirável, pela quantidade e pela qualidade dos membros; e hoje se não é sobre dois ou três que o olhar de Deus se detém com complacência, é sobre uma assembléia tão numerosa, como escolhida.

Há, pois, sob esta relação, uma verdadeira benção do céu; mas não é também uma benção do céu, o tocante espetáculo das almas piedosas que se reúnem para ouvirem missa, para escutarem a palavra de Deus, e conversarem juntos nos meios a tomar para fazerem e aperfeiçoarem o bem? Sim, senhoras, digo-o com toda a certeza: foi-vos concedida a graça de Deus, e deveis em reconhecimento, e com receio dum abuso que seria altamente culpável, deveis aproveitá-la para reanimardes o vosso zelo e a vossa caridade para com os pobres.

A mulher abriu a sua mão ao indigente, e estendeu os braços e as mãos ao pobre.”

Tendes feito pelo pobre e pela nossa associação tudo quanto podeis? Não julgueis que vos venho assustar com obrigações desconhecidas. Começai por tomardes das vossas rendas tudo quanto é necessário e seriamente útil, não só as necessidades absolutas, mas a prosperidade e decoro de vossa casa. Tendes na sociedade a classe que deveis ocupar, e guardai-a com tanta conveniência como amenidade; nestas concessões, creio ser tão largo, como o reclamam a vossa posição, a reputação de vossas famílias, e o futuro de vossos filhos. Mas, uma vez feitas estas concessões, retomemos a nossa questão: - Tendes feito pelos pobres e pela nossa associação tudo quanto podeis?

Primeiro em socorro materiais: a nossa quota é pequeníssima; não foi o máximo o que nós quisemos estabelecer, foi o mínimo para nos pôr-mos ao alcance de todas as bolsas, foi um mínimo, que se pode exceder, e que sempre nos será grato ver excedido. Não poderíeis fazer mais, e se o podíeis porque o não fizesteis? Se pretendeis que a vossa esmola seja desconhecida, há mil meios de conservardes o benefício do anônimo e a felicidade de só serdes conhecidas de Deus.

Fora de nossa instituição, procurais, segundo os vossos meios, acudir as mil formas de miséria? Direis talvez: - Eu não posso; este sacrifício é impossível, porque arruinaria sucessivamente a minha família e os meus filhos. Se há impossibilidade real, não insistirei, e retiro a minha interrogação. Mas tendes a certeza de que não podeis? Quereis permitir-me que eu visite convosco o vosso guarda-vestidos? Não recearei, segundo o método dos Santos Padres, nas suas instruções familiares, descer a minuciosidades, que podem parecer exageradas, mas que têm a inapreciável vantagem de entrarem no âmago da questão.

Que coleção de coisas sem serventia! Quantas dúzias de vestidos, de chalés, de chapéus, e de tantos outros objetos, de que tantos outros objetos, de que nunca soube os nomes! Dizei-me com toda a sinceridade se não serieis tão bem adornadas, tão convenientemente vestidas; se a vossa aparição na sociedade não seria tão razoavelmente brilhante, depois de terdes cortado, ao menos, metade dessa coleção de coisas empilhadas? Quem, durante a sua vida, não ouviu uma ou várias histórias de mulheres ricas, e que, no entanto não têm nada? Perdão, engano-me; têm uma multidão de contas a pagarem nas lojas de todos os fornecedores da cidade. Essas têm a mania de comprarem continuamente objetos novos, chapéus, vestidos, chalés e calçado; a derradeira moda é sempre a melhor. Possuem um número fabuloso de armários; e, uma vez comprado o objeto, servem-se dele, quando muito em duas ou três ocasiões, abrem depois um dos seus móveis, e nele depõem o objeto condenado a não mais ver o dia. Chegam assim a elevarem grandes montes de roupa, e se alguma vez são obrigadas a mudar, o público pode pôr-se as janelas para ver desfilar o cortejo.

Não carrego a narração, senhoras; historio apenas... – Obrigadas! Direis, mas isso é uma monomania, graças a Deus! Ser-me-á permitido responder que há diversos graus de febre? Pois muito bem, e, com franqueza, não tereis um pouco desta monomania, não proximamente no mesmo grau, não até ao ridículo exterior?

Em verdade calculai todos os objetos de luxo do vosso uso, percorrei os vossos aposentos e armários: quantas coisas sem serventia absolutamente de qualidade alguma! Pois eu não chamo qualquer coisa ao capricho de um momento, a desarrazoada fantasia de uma imaginação sempre em busca de novas modas, sempre engenhosa, em se criar pretendidas necessidades, e que nunca soube conter-se nos limites da razão, da sabedoria e de uma honrosíssima representação...

Deixemos, porém, o passado; faço-vos uma súplica para o futuro, e faço-a em nome de Nosso Senhor, em nome dos pobres, em nome dos vossos mais caros interesses e dos da vossa família. Cortai do orçamento das vossas despesas todos os objetos verdadeiramente inúteis, imponde este sacrifício as exigências da vossa fantasia. Sede severas neste ponto, pois, certificai-vos antecipadamente, os pretextos não vos faltarão. Quantas vezes a imaginação vos dirá, ao entrardes duma loja: - Como este vestido me ficaria bem! Que magnífico efeito produziria! E este chapéu! Como está elegantemente fabricado, com a mais delicada combinação nas cores! Como eu o aproveitaria bem nos dias festivos! E este móvel! Se eu o comprasse para adornar os meus aposentos!...

Lamentarei os pobres, a bolsa de vosso marido e a vossa própria ilusão, se escutardes a voz de tal sereia. Julgais que sereis mais felizes depois da aquisição de quanto cobiçastes; enganai-vos e talvez que a experiência vos tenha ensinado já a este respeito. Não; não sereis mais felizes; mal vestireis o vestido, ou deposto o móvel na vossa câmara, já todo o prestígio terá desaparecido, toda a frescura da aquisição será murcha: ficar-vos-á o vácuo no coração, e talvez, se sois seriamente cristãs, o aguilhão de remorso. O remorso! Pois não é verdade que muitas mulheres trazem sobre si, em objetos perfeitamente inúteis a conveniência do seu estado, e até ao esplendor da sua posição, o que bastaria para sustento de um grande número de famílias, que morrem de fome? Quando as coisas chegam a este ponto, é certo, aos olhos da razão e da fé, que a dor dos desgraçados é um grito de vingança, contra os que cometem semelhantes excessos.

Tendes ouvido falar das catástrofes violentas, que transforma as fortunas mais sólidas, ou dos íntimos pesares que atingem as mais belas posições e crucificam as almas, num doloroso calvário, no meio de todas as magnificências de uma brilhante posição. Não sabeis como explicar sucessos tão imprevistos, quando a verdadeira explicação está na doutrina que desenvolvo neste momento. Havia talvez nessas famílias os excessos de gozo e de bem-estar que igualavam as do paganismo; havia na mesa e nos aposentos suntuosidades quase orientais, enquanto que na rua passavam, arrastando-se, os pobres, famintos e nus, sem vestidos e sem alimentos: Et epulabatur quotidie splendide, et erat quidam mendicus, nomine Lazarus (Luc. XVI.)

Deus sofreu por muito tempo, mas uma hora foi chegada em que a Sua justiça desbordou; vibrou golpes que são um ensino para todos. E quando não fere sobre a terra, é isso, muitas vezes, a prova de que a Sua cólera chegou aos últimos limites, e de que reserva para o crime outros castigos, de que os da terra apenas são uma tênue sombra; pois quando Deus pune neste mundo, é sempre com a idéia oculta de misericórdia.

Que ventura, ao contrário, no sacrifício que se faz em favor do pobre! E não me refiro somente ao sacrifício real; trata-se. Em muitas circunstâncias, de um sacrifício de fantasia. Renunciasteis ao vosso desejo, aparasteis as asas à curiosidade feminina, que quer, não somente ver, senão ta,bem possuir tudo quanto vê. Não é desta curiosidade que se poderiam dizer também estas palavras da Bíblia: - “Ela nunca saciou os seus olhos nem os seus gozos”; ou: - “Irei e nada me recusarei de quanto possa agradar-me: - Vadam et affluam deliciis et fruar bonis.” (Eccl. II)

Tivesteis a coragem do renunciamento, e em lugar de satisfazerdes um capricho, consagrasteis a soma dele a uma boa ação, e, sobretudo, ao alívio dos pobres. Deveis julgar-vos mil vezes felizes: cumpristeis um preceito, e tanto basta para a vossa dita. Vede, porém, como o Senhor combinou tudo de um modo maravilhoso: fizesteis bem aos pobres; é uma recordação que se vos grava no coração e que vos perfuma a existência. Nunca a posse de um objeto de fantasia, nunca o achado e o uso de um vestido de cores brilhantes vos produzirão tais alegrias, essa paz, essa doce e profunda emoção, que dá a lembrança de um pobre socorrido.

Eu agradeço a Deus por ter estabelecido esta lei, por ter avaliado a grandeza da nossa alma, permitindo-lhe que não encontre verdadeira satisfação nos brinquinhos de luxo e da vaidade. Agradeço-Lhe o ter estabelecido esta lei, de que nunca a nossa alma desça aos lugares inferiores, para ali procurar um gozo culpado, sem encontrar pontas acirradas, amarguras e dores purgentíssimas; agradeço-Lho, porque tais martírios são, muitas vezes, necessários, para fazerem elevar a alma humana, e lhe fazerem deparar com o lugar que nunca deveria ter deixado.

Tendes feito bem aos pobres! – Sabeis a transformação que se opera? Não é para com os míseros, é para convosco que sois misericordiosas. O óbolo lançado no seio do pobre, é dinheiro emprestado a elevados juros, dinheiro que produzirá centuplicadamente, e vos fará a vós e à vossa família, dignas das graças abundantíssimas. Deus é tão generoso, que quando se dá, em Seu nome, esmola a um pobre, não pretende que seja gratuitamente: constitui-se imediatamente em caução dEle, em Seu fiador, e manda aos anjos do céu que tomem nota da soma dada, e que registrem o capital com os juros da taxa mais subida.

Um dia, no céu, espantar-nos-emos de encontrarmos numerosos tesouros que se amontoarão, cuja base primitiva terá sido uma pequena esmola dada com muito amor, do mesmo modo que uma pequena esfera de neve, se torna, nas altas montanhas o centro de uma imensa avalanche que cobre os prados. Sabeis por que certa casa prospera? Examinai-a de perto, e vereis a sombra de uma mulher piedosa que, oculta na penumbra da humildade, pratica o bem, convertendo-se no fundamento em que assenta a felicidade da sua família. Deus, na nova lei, não ligou à observação dos preceitos a ventura temporal como fim e recompensa principal; mas, entretanto, segundo dizem os doutores da Igreja, a dita, acompanha ordinariamente neste mundo a virtude sabiamente regulada. (S. Tomás, In Epístola I ad Corinthios)

Não só a felicidade, mas a prosperidade material e o aumento da fortuna são uma das conseqüências da esmola; parece uma contradição, e, todavia, é uma verdade experimentada. Quanto mais água se tira de um poço, em certos limites, tanto mais abundante ele é; o mesmo acontece, não sei por que mistério da ordem moral, com a esmola lançada no regaço do pobre, que se torna para as famílias uma fonte de prosperidade e de engrandecimento. Dir-se-ia que a esmola é como a água que o sol levanta de antemão sobre os rios e os marasmos; parece que é um desfalque que o astro do dia lhes faz sofrer, e é precisamente o contrário: - a água sobe, transforma-se em nuvens, e desce mais pura e mais fresca. Experimentai, senhoras, e não vos ficará dúvida alguma a este respeito.

Pelo contrário, quantas catástrofes nas fortunas, que foram lentamente reconstruídas com as durezas para os pobres? E quando a catástrofe exterior não existe, operam-se ocultamente espantosos mistérios de justiça. O Senhor tira a certos ricos o sentido da verdadeira ventura, crucifica-os sobre os seus tesouros, flagelá-os com cada objeto que parecem possuir; impõe às rosas dos seus jardins que brotem espinhos para os ferirem, e tudo quanto os devia tornar felizes, converte-se para eles numa fonte de agonias e cruéis decepções.

"Mas Deus – diz a Escritura – ouve o grito do pobre." (Os. IX, 13); e que pede o soluço do mísero, senão a felicidade do que se lhe mostrou generoso? A súplica do pobre, quando roga pelo seu benfeitor, o ai de uma alma desgraçada a quem se prestou um serviço, são para mim de uma extrema confiança, e não vos ocultarei, que uma das grandes alegrias da minha vida pastoral, desde que tomei posse da diocese, foi esta: ou recebi, há meses, um bilhete de uma pobre rapariga doente, que outrora confirmei, no seu leito de dor; tinha andado a pé alguns centos de metros para a visitar, e cito esta minuciosidade, porque naquela alma tudo se havia convertido em assunto de reconhecimento. Escrevia-me algumas palavras simples e comoventes para me agradecer e terminava, pouco mais ou menos assim: - “Há cinco anos que se não tem passado um único dia sem que tenha orado por vós.”

Esta singela frase fez-me melhor que o melhor presente que a bondosa rapariga me pudesse mandar. Pois bem, senhoras; vós podeis granjear consolações desta natureza; podeis adquiri-las todos os dias, pois tenho a certeza de que de vários leitos de dor, de vários casebres obscuros, se levanta, para vós e vossas famílias, um grito agudo, que vos obtém as graças mais preciosas, que vos afasta de gravíssimos perigos, assegurando-vos o vosso futuro e o futuro de vossos filhos. O Senhor está empenhado nisso e deu a Sua palavra: “Deus – diz o sábio- escutará a súplica do pobre” (Eccl. IV, 6); e além disto, o salmista ajunta, que o Senhor atenderá “o seu simples desejo”; desiderium pauperum exaudivit Dominus. (Ps., X,17).

A esmola não é, pois, na realidade, mais que um empréstimo feito a Deus na pessoa do pobre, um empréstimo de usura, cujo juro centuplica o capital, começando a pagar-se neste mundo. Depois destas considerações gerais sobre a esmola, volvo ao estudo mais especial do nosso texto: - “A mulher forte abriu a sua mão ao indigente e estendeu as suas mãos e os braços ao pobre.”

A maneira mais verdadeira de praticar isto, é a visita ao pobre, como vos impõe o vosso regulamento: só assim podereis dizer em toda a verdade que estendeis as mãos ao pobre: Palmas suas extendit ad pauperem. A visita aos necessitados é um dos alvos principais da nossa associação; e é feita por vós, regularmente? Se realmente tendes ocupações incompatíveis com esta visita, não insisto; mas são altamente sérios os motivos? Não é antes uma certa preguiça, ou, se gostais mais, uma certa timidez de caráter que não se apraz em experimentar o que ignora? Não é receio do deslocamento? O medo de algum sacrifício?

Longe estou de supor que a visita aos pobres não tenha os seus enfados para a natureza; deveis encontrar coisas e pessoas, às vezes pouco amáveis; deveis achar-vos em face de desordens capazes de vos afastarem, e que sei eu? Talvez palavras pungentes e processos injuriosos como recompensa dos vossos serviços. Mas não é necessário sofrer por Nosso Senhor? Não é necessário sofrer, fazendo bem? Assim tem-se mais mérito, e a recompensa será mais formosa. Não é o calvário a montanha do cristão, e não vale mais subi-la, sofrendo pela justiça? Encontrareis, sem dúvida, almas reconhecedoras, que vos agradecerão; encontrareis, e tenho a certeza de que já tendes encontrado, belas almas, e delicados corações, sob uma casca, às vezes, um pouco verde.

O coração humano tem fibras, em que bem sempre se toca em vão; e, entre essas, ponhamos em primeiro lugar, o reconhecimento e a recordação dos benefícios. Essas flores da alma não brotam talvez no momento em que quereríamos colhê-las; encontrareis naturezas em que o botão parece morto, e que, a uma certa hora, vos espantará, com o seu imprevisto desabrochamento.

A vista do pobre terá uma grande vantagem; far-vos-á ver, de perto, a dor, mas a verdadeira dor... Muitas vezes queixais-vos, de coisas que alegrariam o coração do necessitado, e outras, a causa dos vossos sofrimentos é, ao menos em parte, na imaginação, nas chimeras do espírito, ou ainda na abundância de uma posição, que vos torna mais que exigentes. Ide ver o verdadeiro martírio, ide contemplar o pobre e o enfermo no seu obscuro casebre, ide visitar as míseras mulheres, cuja vida é um tormento lentíssimo, e cuja nudez externa é zero em comparação das privações do coração. Ide ver esse espetáculo, e voltareis quase envergonhadas de vós mesmas, voltareis fortes, generosas, e dispostas a levardes a vossa cruz com varonil coragem. Seria isto uma imensa vantagem, quando a visita aos pobres não produzisse outras.

Tende ido muitas vezes a espetáculos aonde a entrada é caríssima, para não trazerdes senão o aborrecimento, o vácuo e um desgosto mais profundo do vosso intimo. O espetáculo da virtude pobre e cansada, em luta com a enfermidade e a indigência, ligar-vos-á, mais fortemente a todos os vossos deveres, e dar-vos-á uma dupla consolação, a consolação do coração que lenitiva, e a do coração que compara: pois mais vale – diz o Espírito Santo – ir a uma casa de luto, que a uma casa de alegria. (Ecles. VII,3).

A primeira deixa uma impressão de salubridade moral, a segunda, ou um peso ou um vácuo no coração, quando não vem o remorso fazer-vos pagar mais caro ainda os prazeres doentios! Suplico-o, senhoras, e dirijo-me a todas as de entre vós, que o podem, retomai a visita aos pobres, se a abandonasteis, ou se ainda a não praticasteis ide hoje mesmo dar o vosso nome e fazer-vos inscrever na lista das damas visitadoras. Suplico - vo-lo do modo mais instante, e não podereis granjear, seguindo este conselho, maior prazer para o coração do vosso pastor. A visita aos pobres é um dos cunhos especiais da nossa associação, e trabalho para lho conservar religiosamente. Indo ver os pobres aos seus domicílios, fareis um bem que não operareis nunca, ainda mesmo dando dinheiro, que pessoas estranhas levarão, e ainda mesmo que a quantia seja muito considerável. Vereis o necessitado e a vossa presença o animará; falar-vos-ei afetuosamente, e as vossas boas palavras ser-lhe-ão ainda mais agradáveis e mais úteis do que a vossa esmola, ou, pelo menos, juntas ao socorro material, tornar-lhe-ão muito maior o poder.

A mulher, quando quer, tem a delicadeza da atenção, a previdência de processos, a doçura das palavras que serena os males e aumenta a força e a paciência. É na visita aos pobres, sobretudo, que ela pode ser a mensageira das boas novas: pode vibrar palavras com a santa destreza da caridade; pode dizer uma palavra, uma única, mas dizê-la com esse tom, com esse assento, com essa forma graciosa, que só pertencem à sua natureza; pode proferir uma palavra e eis talvez uma alma quase convertida, eis, pelo menos, o gérmen de uma conversão próxima – “Os pés dos santos, podem grandes coisas, quando visitam as casas – diz São Crisóstomo – santificam o pavimento que tocam, levam tesouros consigo, corrigem as naturezas viciadas, e expulsam a miséria corporal”. (Ecclog. De Eleemosyn. T. XII)

Visitai os pobres, senhoras; e não vos contenteis convosco nas semanas em que o não fizerdes: não sabeis o bem que operareis, porque se o supusésseis, ouso acreditar, que, exceto as que estão na impossibilidade de o fazerem, todas daríeis o vosso nome para a visita a Nosso Senhor, nas pessoas dos Seus pobres. É, sobretudo nestas visitas que “abrireis a vossa mão e o vosso coração, e que as estendereis ao indigente.”

Numa recente viagem vi representada como símbolo de um dos mais belos vales dos Períneos, uma mulher de elegante estatura, que semeava flores na sua passagem. Que seja também assim o símbolo da vossa vida: semeai a esmola, semeai os benefícios, semeai as boas palavras e os bons conselhos na vossa passagem; que vossas mãos e vosso coração estejam sempre abertas; quando vos faltar o dinheiro, daí a moeda do coração, pois diga-se o que se disser nesta época de materialismo, esta moeda tem o seu valor, é ainda mais preciosa que a outra: mão a substitui completamente, mas deve acompanhá-la sempre; e quando os limites impostos à melhor vontade já não permitam dar a esmola em dinheiro, a mulher forte acha, na bolsa inesgotável do seu coração, recursos desconhecidos, prodigaliza-os com toda a ternura da caridade, e assim é sempre verdade o dizer-se dela:

- Abriu a sua mão ao indigente, e estendeu os braços e as mãos ao pobre: Manus suam aperuit inopi et palmas suas extendit ad pauperem.” (Prov., XXXI)

(A mulher forte, pelo Monsenhor Landriot, versão da 10ª Edição francesa por Alfredo Campos, livraria Internacional, 1877)

PS: Grifos meus.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Gravura e explicação do Céu

Gravura e explicação do Céu

GRAVURA

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EXPLICAÇÃO


Gravura e explicação do Inferno

Gravura e explicação do Inferno

GRAVURA

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EXPLICAÇÃO

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sábado, 13 de novembro de 2010

A PACIÊNCIA (São Francisco de Sales)

PARTE III- Avisos necessários para a prática das virtudes
CAPÍTULO III

A PACIÊNCIA


A paciência, diz o Apóstolo, vos é necessária para que, fazendo a vontade de Deus, alcanceis o que Ele vos tem prometido. Sim, nos diz Jesus Cristo, possuireis vossas almas pela paciência.

O maior bem do homem consiste, Filotéia, em possuir seu coração e tanto mais o possuímos quanto mais perfeita é nossa paciência; cumpre, portanto, aperfeiçoarmos nesta virtude. Lembra-te também que, tendo Nosso Senhor nos alcançado todas as graças da salvação pela paciência de Sua vida e de Sua morte, nós também no-las devemos aplicar por uma paciência constante e inalterável nas aflições, nas misérias e nas contradições da vida.

Não limites a tua paciência a alguns sofrimentos, mas estende-a universalmente a tudo o que Deus te mandar ou permitir que venha sobre ti. Muitas pessoas há que de boa mente querem suportar os sofrimentos que têm um certo cunho de honroso: ter sido ferido numa batalha, ter sido prisioneiro ao cumprir seu dever, ser maltratado pela religião, perder todos os seus bens numa contenda de honra, da qual saíram vencedores, tudo isso lhes é suave; mas é a glória e não o sofrimento o que amam.

O homem verdadeiramente paciente tolera com a mesma igualdade de espírito os sofrimentos ignominiosos como os que trazem honra. O desprezo, a censura e a deseducação dum homem vicioso e libertino é um prazer para uma alma grande; mas sofrer esses maus tratos de gente de bem, de seus amigos e parentes, é uma paciência heróica. Por isso aprecio e admiro mais o Cardeal São Carlos Borromeu, por ter sofrido em silêncio, com brandura e por muito tempo, as invectivas públicas que célebre pregador duma ordem reformada fazia contra ele do púlpito, do que ter suportado abertamente os insultos de muitos libertinos; pois, como as ferroadas das abelhas doem muito mais que as das moscas, assim as contradições procedentes de gente de bem magoam muito mais do que as que provêm de homens viciosos. Acontece, no entanto, muitas vezes que dois homens de bem, ambos bem intencionados, pela diversidade de opiniões, se afligem mutuamente não pouco.

Tem paciência não só com o mal que sofres, mas também com as suas circunstâncias e conseqüências. Muitos se enganam neste ponto e parecem desejar aflições, recusando, entretanto, sofrer suas incomodidades inseparáveis. Não me afligiria, diz alguém, de ficar pobre, contanto que a pobreza não me impedisse de ajudar a meus amigos, de educar meus filhos, e de levar vida honrosa. E eu, declarava um outro, pouco me inquetaria disso, se o mundo não atribuísse esta desgraça à minha imprudência. E eu, dizia ainda um terceiro, nada me importaria esta calúnia, contanto que não achasse crédito em outras pessoas. Muitos há que estão prontos a sofrer uma parte das incomodidades conjuntas aos seus males, mas não todas, dizendo que não se impacientam de estar doentes, mas do trabalho que causam aos outros e da falta de dinheiro para se tratar.

Digo, pois, Filotéia, que a paciência nos obriga a querer estar doentes, como Deus quiser, da enfermidade que Ele quiser, no lugar onde Ele quiser, com as pessoas e com todos os incômodos que Ele quiser; e eis aí a regra geral da paciência! Se caíres numa enfermidade, emprega todos os remédios que Deus te concede; pois esperar alívio sem empregar os meios seria tentar a Deus; mas, feito isso, resigna-te a tudo e, se os remédios fazem bem, agradece a Deus com humildade e, se a doença resiste aos remédios, bendize-o com paciência.

Sou do parecer de S. Gregório, que diz: Se te acusarem de uma falta verdadeira, humilha-te e confessa que mereces muito mais que esta confusão. Se a acusação é falsa, justifica-te com toda a calma, porque o exigem o amor à verdade e a edificação do próximo. Mas, se tua escusa não for aceita, não te perturbes, nem te esforces debalde para provar a tua inocência, porque, além dos deveres da verdade, deves cumprir também os da humildade. Assim, não negligenciarás a tua reputação e não faltarás ao afeto que deves ter à mansidão e humildade do coração.

Queixa-te o menos possível do mal que te fizeram; pois queixar-se sem pecar é uma coisa raríssima; nosso amor-próprio sempre exagera aos nossos olhos e ao nosso coração as injúrias que recebemos. Se houver necessidade de te queixares ou para abrandar o teu espírito ou para pedir conselhos, não o faças a pessoas fáceis de exaltar-se e de pensar e falar mal dos outros. Mas queixa-te a pessoas comedidas e tementes a Deus, porque, ao contrário, longe de tranqüilizar a tua alma, a perturbarias ainda mais e, em lugar de arrancares o espinho do coração, o cravarias ainda mais fundo.

Muitos numa doença ou numa outra tribulação qualquer guardam-se de se queixar e mostrar a sua pouca virtude, sabendo bem (e isto é verdade) que seria fraqueza e falta de generosidade; mas procuram que outros se compadeçam deles, se queixem de seus sofrimentos e ainda por cima os louvem por sua paciência. Na verdade temos aqui um ato de paciência, mas certamente duma paciência falsa, que na realidade não passa dum orgulho muito sutil e duma vaidade refinada.

Sim, diz o Apóstolo, tem de que gloriar-se, mas não diante de Deus. Os cristãos verdadeiramente pacientes não se queixam de seus sofrimentos nem desejam que os outros os lamentem; se falam neles é com muita simplicidade e ingenuidade, sem os fazer maiores do que são; se outros os lamentam, ouvem-nos com paciência, a não ser que tenham em vista um sofrimento que não existe, porque, então, lhes declaram modestamente a verdade; conservam assim a tranqüilidade da alma entre a verdade e a paciência, manifestando ingenuamente os seus sofrimentos, sem se queixarem.

Nas contrariedades que te sobrevierem no caminho da devoção (pois que delas não hás de ter falta), lembra-te que nada de grande podemos conseguir neste mundo sem primeiro passarmos por muitas dificuldades, mas que, uma vez superadas, bem depressa nos esquecemos de tudo, pelo íntimo gozo que então temos de ver realizadas as nossas aspirações. Pois bem, Filotéia, queres absolutamente trabalhar para formar a Jesus Cristo, como diz o Apóstolo, em teu coração, como em tuas obras, pelo amor sincero de Sua doutrina e pela imitação perfeita de Sua vida. Há de custar-te algumas dores, sem dúvida; mas hão de passar e Jesus Cristo, que viverá em ti, há de encher tua alma duma alegria inefável, que ninguém te poderá furtar.

Se caíres numa doença, oferece as tuas dores, a tua prostração e todos os teus sofrimentos a Jesus Cristo, suplicando-Lhe de os aceitar em união com os merecimentos de Sua paixão. Lembra-te do fel que Ele bebeu por teu amor e obedece ao médico, tomando os remédios e fazendo tudo o que determinar por amor de Deus. Deseja a saúde para O servir, mas não recuses ficar muito tempo doente para obedecer-Lhe e mesmo dispõe-te a morrer, se for a Sua vontade, para ir gozar eternamente de Sua gloriosa presença.

Lembra-te, Filotéia, que as abelhas, enquanto fazem o mel, vivem dum alimento muito amargo e que nunca nós outros poderemos encher mais facilmente o coração desta santa suavidade, que é fruto da paciência, do que comendo com paciência o pão amargo das tribulações que Deus nos envia; e quanto mais humilhantes forem, tanto mais preciosa e agradável se tornará a virtude ao nosso coração.

Pensa muitas vezes em Jesus crucificado; considera-O coberto de feridas, saturado de opróbrios e dores, penetrado de tristeza até ao fundo de Sua alma, num desamparo e abandono completo, carregado de calúnias e maldições; verás então que tuas dores não se podem comparar às Suas, nem em quantidade, nem em qualidade, e que jamais sofrerás por Ele alguma coisa de semelhante ao que Ele sofreu por ti.

Compara-te aos mártires, ou, sem ires tão longe, às pessoas que sofrem atualmente mais do que tu e exclama, louvando a Deus: Ah! meus espinhos me parecem rosas e minhas dores, consolações, se me comparo àqueles que vivem sem socorros, sem assitência e sem alívio, numa morte contínua, opressos de dores e de tristezas.

(São Francisco de Sales, FILOTÉIA, trad. Frei João José P. de Castro, O.F.M., págs. 180-186, Editora Vozes, 16ª edição, 2008.)