terça-feira, 9 de novembro de 2010

3ª PALAVRA

3ª PALAVRA

(linda gravura, clique nela para ampliá-la)

Dixit Matri suae: Mulier, ecce filius tuus.
Deinde dixit discipulo: Ecce Mater tua.

Disse Jesus à Sua Mãe: Mulher, eis aí o Vosso filho.
Depois disse ao Discípulo: Eis aí a vossa Mãe
(Joan. XIX 27,27)

Pouco a pouco, a vaga ululante e revolta dos inimigos de Jesus permitiu que Maria Santíssima e as piedosas mulheres, que A acompanhavam com João, o discípulo amado, se aproximassem da Cruz do Redentor, que ia morrer.

O divino Crucificado fixa em Sua Mãe um olhar de infinita ternura e, designando com a vista o discípulo predileto, profere estas palavras:

"Mulher, eis aí o Vosso filho".

Em seguida, volvendo os olhos para Maria, disse a João:

"Filho, eis aí a vossa Mãe".

Sobre esse momento culminante do sacrifício do Homem-Deus, Bossuet escreveu estas reflexões, tão tocantes e tão cheias de ensinamentos profundos:

"A Mãe das dores estava de pé junto à Cruz; via o sangue de Seu Filho transbordar de Suas veias rasgadas e de todas as partes de Seu corpo. Quem poderá descrever a emoção do sangue maternal? Certamente Ela nunca compreendeu tão bem que era mãe! Todos os sofrimentos de Seu Filho, dilacerando-A também, faziam-Lhe conhecer isso do modo mais nítido. O Filho de Deus, que tinha resolvido dar-no-lA por mãe, a fim de ser nosso irmão sob todos os pontos de vista, escolheu este momento para Lhe dizer, do alto da Cruz, e apontando para São João: - Mulher, eis aí o Vosso Filho".

Nenhum heroísmo, nenhuma fortaleza de ânimo, nenhum rasgo de coragem se poderá comparar a atitude sublime de Maria ao pé da Cruz.

A mãe de Moisés, forçada pelo império das circunstâncias, a abandonar seu filho à discreção das águas, não teve coragem para assistir até o fim e ver o triste destino do fruto de suas entranhas... Agár, no deserto, vendo seu filho torturado, pela sede ardente e não podendo dissedentá-lo, afastou-se, porque não tinha coragem para assistir-lhe a morte...

Maria Santíssima, que conhecia claramente as profecias sobre a morte de Jesus, não foge a arena do sacrifício e vai ao encontro da Vítima celeste, sem temores nem vacilações de qualquer espécie.

As palavras de Jesus Cristo são palavras de um Deus, são palavras augustas, que encerram a verdade eterna. Meditemos um pouco e tentemos penetrar o sentido e sondar os efeitos da terceira palavra do Senhor, durante a Sua agonia.

Três efeitos principais podemos verificar nessa palavra.

Naquele momento o discípulo amado representava a multidão dos filhos de Deus, de quantos, no correr dos tempos, haviam de abraçar a fé e a lei de Jesus Cristo. O Divino Mestre, antes de expirar, quis que Seus filhos, na ordem da graça, não ficassem órfãos, por isso fez de Maria Santíssima a mãe adotiva do gênero humano. E por esse modo, Jesus tornou-se nosso irmão, e, mais tarde, depois da Ressurreição, podia chamar de irmãos aos Seus discípulos (Math. XXVIII,10).

Outro efeito produzido pelas palavras do Senhor foi Maria Santíssima receber um coração de Mãe para conosco. É certo e é de fé que Deus, quando escolhe uma pessoa para exercer um cargo ou desempenhar um ofício, lhe concede graças e lhe dispensa os auxílios necessários e eficazes para cabal desempenho da missão. Assim é que Deus concedeu a Moisés as qualidades necessárias para libertar os Israelitas, conduzi-los e guiá-los através do deserto. Mais tarde, os Apóstolos receberam poderes e graças especiais, afim de mudarem a face do mundo pagão e converterem os homens ao reino de Deus.

Igualmente, Maria Santíssima, sendo escolhida para Mãe de todos os cristãos, devia receber um coração materno para com os novos filhos adotivos.

As obras divinas não são incompletas nem imperfeitas. Ao amor maternal de Maria para com todos os homens, devia corresponder a piedade filial da humanidade para com essa Mãe tão pura e tão boa.

Da terceira palavra da agonia do Divino Mestre resultou a universalidade do culto da Virgem Maria, em todas as épocas e em todos os séculos da história da Igreja.

Maria Santíssima é chamada, e com razão, Corredentora da humanidade.

Efetivamente. Encontramos clara e patente a participação da Virgem Maria na preparação, na realização e na aplicação da grande obra da Redenção do gênero humano.

Diz São Bernardo que a Mãe de Deus constitui a preocupação incessante dos séculos.

Nos livros do Antigo Testamento encontramos tantas coisas, que simbolizam a Virgem Maria, e há tantas personalidades, que A prefiguram, que sentimos justificada a supramencionada afirmação de São Bernardo.

Na realização do plano divino, insigne foi a cooperação dessa mulher bendita e privilegiada. Viveu estreitamente ligada às supremas humilhações, aos penosos trabalhos e aos cruéis sofrimentos do Salvador do mundo. Tomou parte da penúria e no abandono do estábulo de Belém; suportou o exílio e a pobreza do Egito; viveu na humildade e no silêncio de Nazaré; palmilhou os caminhos poeirentos da Palestina, durante as viagens e excursões evangélicas; e, no Calvário, qual estátua viva de dor, assistiu a Paixão e Morte de Seu Divino Filho.

E depois de tudo isso, ainda hoje, Maria Santíssima coopera na aplicação dos frutos da Redenção, intercedendo em nosso favor, junto ao trono de Deus.

Ante as Dores de Maria, ante o sofrimento da Mãe inconsolável ocorre à nossa mente interrogar a razão desse horrível martírio. Deus, tão bom e tão misericordioso, permitiu que sofresse Maria, imaculada e santa!

Procuremos penetrar um pouco nos misteriosos intuitos da Providência e descobriremos razões suficientes dos sofrimentos e das dores de Maria. Três motivos, três razões podemos encontrar  como explicação dos sofrimentos da Virgem Santíssima: a glória de Deus; a glória de Maria; a felicidade dos pecadores.

A Mãe de Deus, ao pé da Cruz, representava o mundo inteiro em adoração. Quando a humanidade sacrificava o Filho de Deus, quando se perpetrava na terra o maior crime: o deicídio - era necessário que alguma criatura se interpusesse entre os crimes dos homens e a misericórdia divina.

Ao tempo em que Jesus oferecia ao Eterno Pai o Seu tremendo sacrifício, do coração transpassado de Maria brotaram chamas de amor, de caridade e de deprecações, que subiam até o trono do Altíssimo, repetindo a súplica de Jesus: "Pai, perdoai-lhe, porque não sabem o que fazem". Foi esse modo que Maria Santíssima deu glória a Deus no Calvário, testemunhando a morte de Jesus.

A Virgem Maria sofreu tantos tormentos para aumento de Sua própria glória. Participando dos padecimentos de Jesus e associando-se à Paixão e Morte de Seu Filho, Maria adquiriu méritos quase infinitos, a ponto de merecer, com justeza, ser chamada Rainha dos anjos, dos santos e dos homens, porque a todos juntos excedeu em méritos e virtudes.

Por último, os padecimentos de Maria Santíssima eram necessários para o nosso bem. Aquele que devia ser chamada a missão de consoladora dos aflitos e refúgio dos pecadores, devia conhecer as angústias e experimentar, em Seu coração, as dores mais cruciantes do mundo. Ela conheceu e experimentou em Si mesma tudo quanto pode desolar e martirizar o coração humano; por isso mesmo é tão terna e tão sensível aos nossos rogos e as nossas deprecações.

Naquela hora angustiosa e extrema, Jesus quis chamar Mulher à Maria Santíssima, não Lhe concedendo o doce nome de Mãe. Essa circunstância merece especial reparo e aqui reproduzimos as diversas explicações, que os comentadores do Evangelho apresentam.

Em primeiro lugar, observaremos que chamar a própria mãe de mulher, nada encerrava de desprestígio; muito ao contrário, mulher, entre os povos do Oriente, é um título solene e respeitoso.

Jesus mesmo já havia empregado esse tratamento, por ocasião do milagre operado nas bodas de Caná, na Galiléia. (Joan. II,4)

Jesus Cristo dizem piedosos autores, evitou dar a Maria o doce nome de mãe para não Lhe dilacerar mais ainda o delicado coração, proferindo palavra tão suave e tão terna.

Ainda outro motivo podemos descobrir no procedimento de Jesus Cristo para com a Sua Mãe Santíssima, naquela hora suprema. Os judeus exprobraram a Jesus o ter tomado o título de Filho de Deus e por essa razão O condenaram à morte (Joan. XIX,7). Não convinha, pois, naquela hora, Jesus recordar Sua geração temporal, quer porque este mistério adorável não seria compreendido, quer para não expor Sua augusta Mãe aos insultos da plebe ignara e dos soldados embrutecidos.

Finalmente, Jesus deu a Virgem Santíssima o nome de Mulher para significar que era Ele a verdadeira, mulher forte, de que falam as Sagradas Escrituras e cujo elogio foi escrito sob a inspiração do Espírito Santo. (Prov. XXXI,10)

Por força do terceiro artigo do testamento do Filho de Deus, em virtude de terceira palavra pronunciada por Jesus, durante Sua agonia, todos aqueles que são tocados pela graça da Redenção, compreendem que para pertencer inteira e verdadeiramente ao Crucificado devem também ser filhos da Mãe Dolorosa.

Eis a razão pela qual os católicos, tão confiadamente, recitam esta prece:

"Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós,
pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém".

(Espírito e Vida, as sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. J.Cabral, edição de 1937)

PS: Grifos meus.

O desejo de passar a novas núpcias

O DESEJO DE PASSAR A NOVAS NÚPCIAS


Uma das principais causas do divórcio, embora se não ouse confessá-la, é o desejo de passar a novas núpcias e dali provém toda aquela retórica dos seus propagadores, nos comícios, na imprensa, como nas câmaras governamentais.

É um absurdo, um contra-senso, pois não há, nem pode haver novas núpcias, enquanto sobreviverem os cônjuges; contra a lei de Deus, não há apelação.

Por novas núpcias entende-se, no caso, o simples cumprimento de uma formalidade civil, sem valor algum, porquanto os homens, ainda que sejam governos, não têm competência para declarar casados aqueles que Deus declara simplesmente adúlteros.

A autoridade civil, como o seu pretendido divórcio, apenas coopera para que os contraentes se coloquem e permaneçam em estado de pecado mortal, ou, o que vem a dar no mesmo, de condenação eterna; favorece o escândalo público e concorre poderosamente para a destruição e desmoralização da família. É um dever que assiste a todos, o de combater sem tréguas qualquer disposição favorável ao divórcio, venha ela donde vier.

Ouçamos a palavra autorizada de Leão XIII aos italianos, quando, nas câmaras se discutia o projeto do divórcio:

"Qualquer lei que venha implantar o divórcio é ilegítima, injusta e gravemente injuriosa a Deus, Criador e Soberano Legislador; dará origem a um adultério; a um casamento, nunca. O que agrava ainda mais a falta, é que, pretender circunscrever o divórcio nos limites de antemão previstos, é uma empresa mais difícil que extinguir, em pleno incêndio, as chamas das mais violentas paixões. A Igreja absolutamente não dorme, não fechará os olhos, não descansará, não suportará resignada a injúria arrogada a Deus e a ela mesma. Com efeito, esse ultraje será a origem de males incalculáveis de toda espécie e por isso mesmo, aqueles próprios que não admitem a Religião Católica em todos os pontos e quiçá em nenhum, em grande parte, ao menos, lutam com zelo e pleno conhecimento de causa por assegurar ao matrimônio indissolubilidade do vínculo conjugal e, com isso, nada mais fazem que zelar pelos interesses públicos. Na verdade, uma vez sancionada a lei que permite romper o vínculo conjugal, o matrimônio perde toda a sua estabilidade e firmeza e, em forte declive, leva a todos aqueles males que nós mesmos, em outro lugar, lamentávamos: o amor aferrece de parte em parte, nascem as mais funestas instigações à infidelidade, periga a salvação e a educação dos filhos, germinam as discórdias no lar, convulsiona-se a família toda e avilta-se a condição da mulher".

Aqueles mesmo que requerem o divórcio, ou os que, na falta de motivos suficientes para chegar ao mesmo resultado desonesto e antisocial, inventam mil pretextos ridículos para alcançá-lo, não ignoram quanto tem de baixo e perverso o seu procedimento,

Na América do Norte, divorciam-se os casais com a mesma finalidade com que se muda de camisa.

Existem em S. Francisco a "Sociedade dos Divorciados", onde, como o nome indica, só se admitem como sócios, os homens que foram mal sucedidos no matrimônio. Lá foi um jornalista americano colher dados e, dirigindo-se ao secretário, obteve as seguintes informações:

"O senhor bem sabe quanto o casamento é coisa aleatória em toda parte, mas, na América do Norte, o abuso do divórcio tornou-o excepcionalmente difícil. As americanas não têm nenhuma paciência, desde que se lhes colocou o divórcio ao alcance de qualquer pretexto. Temos aqui um homem excelente, repudiado por sua mulher, porque fumava; o fundador da nossa sociedade caiu no desagrado da esposa, porque sonhava alto; o nosso administrador, um perfeito "gentleman", passou pelo desgosto de ver a mulher pedir o divórcio, porque lhe havia feito algumas observações acerca dos exagerados gastos em "toilettes". Sócios há que se viram abandonados só porque se negavam a levar as esposas ao teatro, porque não quiseram ir jantar em casa dos sogros mais que uma vez por semana, ou porque não suportavam cachorros em casa. Outros ainda, viram seu lar destruído, em consequência uma discussão política, literária ou artística, ou por uma simples divergência sobre o modo de preparar um prato".

Claro está, tudo isso não passa de meros pretextos, para novas núpcias. Não ousam confessar publicamente seus miseráveis e criminosos intuitos, mas empenhados em consegui-los a todo transe, usam da mais refinada hipocrisia; verdadeiros sepulcros caiados, exteriormente polidos, mas, na realidade vasos de corrupção moral. Divorciam-se, porém, com jeito, de modo a não perderem o prestígio e continuarem  fazer parte da melhor sociedade!

Os partidários do divórcio, para poderem continuar com o bom nome de que fazem alarde, levantam ou inventam um escândalo, que lhes venha encobrir os criminosos desígnios. O Bispo de Rochester, no Parlamento inglês, afirmava que, em noventa e nove por cento dos crimes de sedução, o sedutor nada mais faz do que fornecer ao marido as provas da infidelidade da esposa, com o fim único de obter o divórcio.

Durante o mês de fevereiro de 1904, o tribunal de Louvain condenou um indivíduo que preparara um encontro entre a própria esposa e um desconhecido, à cata de um pretexto para obter o divórcio. A pobre mulher e o desconhecido limitaram-se a um simples cumprimento de cortesia, admirados, um e outro, de se encontrarem naquele lugar, tão inesperadamente. O marido, que queria a todo transe o divórcio, colocara-se de emboscada e, no momento oportuno, atirou-se sobre os inocentes, armando um escândalo e intentando, em seguida, uma ação de divórcio!

Os apologistas do divórcio, facilmente concordam em receber um "sacramento leigo" e não se lhes dá de viverem em permanente adultério, à sombra da lei; mas, nem por isso deixam de conhecer quanto o seu procedimento é abominável e criminoso perante a mulher e os filhos e, daí, esse empenho, que pagariam a bom preço, à procura de motivos mais ou menos plausíveis que lhes justifiquem o crime, ao menos na aparência.

É preciso, portanto, proclamar bem alto que, os que requerem o divórcio ou habilmente forgicam pretextos nesse intuito, não passam de reles farsistas, pelos ardis imoralíssimos a que recorrem.

Casaram sem nenhuma consideração para com aquela que teve a suprema desgraça de confiar-lhes o seu destino e são em tal grau egoístas, que não buscam no casamento mais que o próprio prazer, ainda que seja à custa da desgraça da mulher e dos filhos. Pedem o divórcio, às mais das vezes, por motivos inconfessáveis: as paixões, as esperanças de maiores vantagens friamente calculadas ou a sensualidade infrene, são as causas de um divórcio que virá arruinar e destruir a família, aliás distinta.

Muitos "moralistas" modernos, desses que se arrogam o encargo de defenderem a liberdade humana, nos comícios, inimigos de qualquer sujeição, não passam de egoístas refinados, sem compaixão nem piedade. Elevam às nuvens os defensores da lei iníqua do divórcio que condena suas vítimas à imoralidade, à opressão e à mais triste e vergonhosa miséria.

Diante desse procedimento, eu me pergunto: que confiança poderão depositar as esposas em semelhantes maridos? Claro está que hão de fazer eles mesmos aquilo que aprovam nos demais e, si se casarem, mais tarde, com os compromissos assumidos. E sabe Deus se já não estão procedendo como se esse compromisso não existissem!

Oh! desconfiai dos apologistas do divórcio e de falsos princípios sobre que baseiam um utilitarismo e uma moral sem vergonha. Desconfiai e desconfia muito deles. Infeliz da mulher de um apologista do divórcio; em seu lar não viverão muito tempo o afeto e a fidelidade e não vem longe o naufrágio, em que ela e os filhos se hão de ver, de um momento para outro, sem marido e sem pai.

Raça infame e demolidora da ordem social, escandalosa, algozes da mulher e dos filhos, hipócritas refinados e fariseus da pior espécie, vossa campanha é mais que satânica. Refocilai na lama e afogai-vos no lodo. Um egoísmo disfarçado e um sensualismo grosseiro extinguiram em vós o que havia de humano, para vos deixar apenas o que há de animal. Repelis a vossa legítima esposa e abandonai-la sem recursos; não vos comove a triste sorte dos filhos e só uma coisa vos prende a atenção: uma mulher infame como vós, sem coração, sem entranhas, sem honra e sem vergonha.

Uma mulher, por pouco que se respeite e saiba avaliar um amor sincero, nunca aceitará a mão de um divorciado. Nenhuma sociedade medianamente honesta, quererá admitir tais pessoas em seu grêmio; devem ser tratados como verdadeiros leprosos, cujo contato é perigoso e merecem a repulsão de todos. Nenhuma diferença existe entre um divorciado de mãos calejadas e outro de mãos lisas e fidalgas com luvas de peliça. Tanto vale um como o outro e ambos não valem nada.

Que direi do triste estado de alma de qualquer infeliz que haja, com seu voto ou de qualquer modo auxiliado os infames defensores do amor livre e do divórcio?

Fala-se muitas vezes no bom senso político e, graças a Deus, esse bom senso ainda não está de todo extinto; ainda vive. Mas, quando contemplamos o arengar em público, nas câmaras, ou em particular, de certos indivíduos partidários impudentes do amor livre, é o caso de perguntar se o bom senso não está prestes a desaparecer. Quando verificamos que, em alguns países, certos homens sem moral, recolhem mais votos a favor do divórcio, do que os defensores da família e da honra, vemo-nos forçados a confessar que ainda há muita lama neste mundo e que, os que nela se chafurdam, não pensam em sair tão cedo da degradação por onde enveredaram.

Melhor as condições materiais da sociedade, bem está; muito mais urgente, porém, seria restituir às massas o bom senso cristão, indispensável a quem possui uma alma imortal. Sem esse trabalho, a que devem associar-se todos os homens de bem, ver-nos-emos afundar cada vez mais.

(As desavenças no lar, causas e remédios, J. Nysten, edição de 1927)

PS: Grifos meus.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Educação sobrenatural - XI - Os amparos da vida sobrenatural

EDUCAÇÃO SOBRENATURAL
XI - OS AMPAROS DA VIDA SOBRENATURAL


"A vida da alma é Deus"
 (Santo Agostinho)

Quais são os amparos da vida sobrenatural?
São: a oração (art. I); a Confirmação (art. II); a Comunhão(art. III).

Artigo I - A oração

"Uma criança para orar precisa do coração de sua mãe"
(Mgr. Pichenot)

Qual é a primeira oração que a criança deve fazer?
É a oração dos gestos. Consiste em ajoelhar; juntar as mãos; baixar os olhos; bater no peito; em fazer o sinal da cruz, etc.

Esta oração tem algum valor?
"Hábitos maquinais! - murmuram os pretensiosos da pedagogia. Parece-nos que, se um Pascal, na plenitude  do gênio, podia implorar algum auxílio para a pobre máquina humana, contar com o hábito para despertar a sua fé, não pode haver presunção alguma em usar do mesmo gênero de incitamento para os mais pequeninos. Quando a idade da vida puramente física tiver passado, o seu corpo, ajudando a alma no seu mais alto serviço, lhe recordará, instintivamente, pelas suas atitudes, que é a hora de retomar a plenitude da sua vida espiritual sob o olhar de Deus".
(Bouvier)

Que orações de devem fazer dizer à criança quando começa a falar?
Orações muito curtas e muito simples:

Jesus, dou-Vos o meu coração”; “Jesus abençoai o papai e a mamãe... e toda a família”; “Jesus tornai o meu coração semelhante ao Vosso”, e outras do mesmo gênero, sugeridas pelas circunstâncias à piedade engenhosa das mães de família.

Que desenvolvimento convém dar a oração da criança que vai crescendo?
Um desenvolvimento progressivo em relação com a idade e a capacidade da criança. É preciso nada exagerar; porque o essencial não é que a oração seja longa, mas que seja bem feita.

Quais as condições a realizar para que a oração seja bem feita?
- É preciso incutir na criança, desde a mais tenra idade, o hábito e fazer bem a sua oração.
- É preciso explicar-lhe, a pouco e pouco, o sentido das fórmulas que emprega.
3º- É preciso exigir que a sua atitude seja séria e recolhida, dando-lhe o exemplo.
- É preciso ter cuidado que ninguém faça barulho em volta da criança enquanto desempenha este dever.
- É preciso que pronuncie as palavras pausadamente, sem se apressar e sem gaguejar.

Numa excelente família, muito cristã, piedosa, séria, assistimos um dia, por acaso, à oração da noite das crianças. Eram três ou quatro, com uma aia sem autoridade; recitavam as rezas com uma precipitação que lembrava um concurso de velocidade, com modulações que pareciam às vezes gritos, com sorrisos, movimentos nervosos de cabeça e dos olhos; parecia tudo uma comédia. E a isto chamava-se dizer a sua oração (autêntico).

Não seria para desejar que as crianças que não assistem ainda à oração comum pudessem recitar separadamente, e cada uma por sua vez, as orações que convém à sua idade?

Devemos contentar-nos com a oração individual?
- É preciso, o mais cedo possível, fazer participar a criança da oração comum, feita em família, pelo menos a noite.

2º- É também preciso iniciá-la sem demora a participar dos cultos divinos, conduzindo-a aos exercícios religiosos, ainda antes que a idade a isso obrigue.

"Vi em Anvers o famoso quadro de Rubens - Jesus pregado na Cruz; o artista representou no Calvário uma mulher amamentando o seu filhinho. O pequenino, à vista de Deus crucificado, parece comovido, esquece o seio de sua mãe, volta a cabeça e contempla com os seus grandes olhos o tocante espetáculo. Na imaginação do pintor há uma idéia verdadeira. Os nossos mistérios sagrados têm alguma coisa que está ao alcance de todas as idades. As crianças cristãs sentem o que não compreendem, adivinham o que ainda não sabem".
(S. Diniz Areopagita)

Artigo II - A Confirmação

"Conduz-me o batizado, vestido com uma túnica branca, junto do bispo, que o unge com o óleo santo e deificante".
(S. Diniz Areopagita)

Em que idade se deve receber o sacramento da Confirmação?
O sacramento da Confirmação pode ser validamente recebido antes da idade da razão: na primitiva Igreja dava-se aos pequeninos, mesmo de peito; é ainda o uso dos Gregos e das Igrejas de Espanha.

Seria vantajoso que a criança recebesse este sacramento na idade da razão.

Mgr. Roberr, bispo de Marselha, tendo resolvido adotar esta prática, recebeu, em 22 de junho de 1897, uma carta elogiosa do papa Leão XIII, na qual se lê, entre outras coisas:

"Damos os maiores elogios aos vossos desígnios... Desejamos vivamente que aquilo que por vós foi sabiamente regulado, seja fiel e perpétuamente cumprido".

Praticamente, que se deve fazer?
Não depende evidentemente do pai e da mãe fazer confirmar os filhos em certa e determinada idade. Mas, se as circunstâncias deixam à sua escolha a determinação do tempo, é preferível antecipar a retardar a administração do sacramento.

Quais são as vantagens do sacramento da Confirmação na educação da criança?
- A maturação da vida sobrenatural, que dá a força de professar a fé, e a coragem de combater os inimigos da salvação.

- O caráter, que faz da confirmação um soldado de Jesus Cristo.

3º- O aumento da graça santificante.

E, como a educação tem o seu coroamente na bem-aventurança eterna do céu, que satisfação não é para um pai e uma mãe saberem o seu filho de posse duma graça santificante aumentada, "porque é de fé que a recompensa celeste será na proporção da graça habitual que a alma possua no momento de abandonar o corpo"!

Santa Teresa disse que, "se os homens conhecessem o valor dum só grau de glória, julgariam não o pagar muito caro com os sofrimentos e trabalhos duma longa vida".
(Charruau, Às mães, p.41)

Artigo III - A Comunhão

"Como o veado corre para as águas vivas, a minha alma corre para Vós, ó meu Deus".
(Ps. XLI, 1)

Como preparará a mãe o seu filho para a primeira Comunhão?
Inspirando-lhe um grande amor pela Santa Eucaristia e um profundo respeito pela casa de Deus.

Porque meios chegará a mãe a inspirar um grande amor pela Eucaristia?
- No lar - Instruirá a criança neste grande mistério; falar-lhe-á muitas vezes de Jesus, que habita no tabernáculo; inspirar-lhe-á o desejo de se unir a Ele; fará que se ajoelhe à passagem do Santíssimo Sacramento, quando é levado aos doentes ou em procissão.

Na Igreja - Aí levará freqüentemente a criança; obriga-la-á a fazer piedosamente o sinal da cruz e a ajoelhar; mostrar-lhe-á o tabernáculo, dizendo-lhe que é ali que Jesus habita, que de lá está olhando para ela.

Um menino de cinco anos, instalo por sua mãe a dizer o que mais o impressionava na catedral de Bolonha sobre o Mar, que visitava pela primeira vez, indica o tabernáculo.

- Porquê?
- Porque Ele está ali! (Autêntico)

Depois far-lhe-á recitar uma pequenina oração. Estas visitas serão repetidas o maior número de vezes possível; devem ser desejadas pela criança e concedidas como uma espécie de recompensa.

Por que é preciso que a criança seja educada num profundo respeito pela Casa de Deus?
Porque estamos convencidos de que não há nada a esperar de bom duma criança que não tem respeito pela igreja.

Numa paróquia, aonde nos conduziram as vicissitudes da guerra, fomos obrigados a descer do nosso lugar, durante o exercício, para ir ao fundo da igreja admoestar e separar dois pequenos, que tagarelavam e riam duma maneira escandolosa. E, durante esse tempo, a mãe dum deles, piedosamente ajoelhada junto da mesa de comunhão, com os outros filhos mais crescidos, convencia-se, sem dúvida, de que cumpria todos os seus deveres de estado, e que, neste ponto, fazia a vontade de Deus.

Pobre e cega mãe, que de lágrimas não derramará!
Pobre criança mal educada ... seria quase um milagre, que se não perdesse!

Como receberam os verdadeiros educadores o decreto de Pio X relativo à idade da primeira comunhão?
Com um frémito de alegria: a sua alma rejubilou de gozo e de reconhecimento; as suas concepções sobre a formação cristã encontraram nas palavras pontifícias um remate e um apoio; e agradeceram a Deus com efusão esta graça, a maior de todas as graças, há tanto tempo sonhada.

Enfim, estavam isolados os apóstolos muito pouco sobrenaturais, que continuavam os erros condenados por Nosso Senhor quando dizia: "Deixai vir a mim as criancinhas e não as afasteis" (Marc. X,14).

Enfim, o Salvador poderá tomar posse, antes que o pecado as tenha manchado, destas pequenas almas de criancinhas tão límpidas, tão luminosas, tão delicadas e tão amáveis. (Nota de rodapé: "Os padres espanhóis, quando dão a comunhão a uma criancinha, dizem-lhe: Que Jesus entre em teu coração antes do pecado". Bouvier)

Enfim, o Criador, o Pai, poderá abraçá-las, acariciá-las, inundá-las de graças e de bênçãos, prepará-las, formá-las, santificá-las, salvá-las! Enfim, os pais, sobrenaturalmente cuidadosos da sua responsabilidade, gozarão, desde o primeiro dia da vida racional de seus filhos, da colaboração quotidiana, íntima e pessoal de Nosso Senhor e Mestre, Jesus Cristo, amigo das criancinhas, zelador das almas, a verdadeira luz, a sabedoria eterna.

E, bem longe de retardar a hora bendita do primeiro contato divino, esforçar-se-ão por a aproximar por todos os meios ao seu alcance, interpretando a idade da razão no seu espírito bem melhor que na sua letra.

Todos os educadores terão apreciado do mesmo modo o favor insigne da comunhão precoce?
Não.
Tem havido resistências.

Os meus netos vão fazer a sua primeira Comunhão, dizia um dia uma avó, mas lamento-o; submeto-me, porque é preciso; porém, incomodada. E as disposições interiores refletiam-se na fisionomia e não podiam deixar de se traduzir nas suas palavras, em detrimento da formação de seus netos, que tinham, aliás, nove e dez anos, quando comungaram pela primeira vez. (autêntico).

Que razões alegam para sustentar esta oposição?
- A pouca inteligência da criança;
- O sacrifício, sem compensação, das vantagens da antiga primeira Comunhão solene.

Que se há de responder à objeção da pouca inteligência da criança?
Eu não queria, dizem certas mamães, que meu filho comungasse tão novo: não sabe o que faz.
Nós respondemos:

- Se, na verdade, uma criança não for, aos sete anos capaz de comungar, a não ser que seja idiota, o que é uma exceção, é porque a sua mãe faltou a todos os deveres de educadora.

2º- Certas crianças, das quais se diz que não sabem o que fazem, quando se trata da primeira Comunhão, são apresentadas, em todas as outras circunstâncias, como pequenos prodígios de inteligência e de precocidade.

Que de há de responder à objeção que se apoia nas vantagens perdidas da primeira Comunhão solene?
Havia, com efeito, algumas vantagens na antiga disciplina: a primeira Comunhão solene era bela, edificante, convertedora...; marcava uma data na vida; deixava ordinariamente vestígios inapagáveis. Poderia perguntar-se se esta impressão era bem sobrenatural, ou se não provinha, em grande parte, dos presentes recebidos, das festas de família, das distrações exteriores... Mas, deixemos isso. Tomemos as coisas pelo melhor.

Mesmo nesta hipótese, ousar comparar as vantagens da primeira Comunhão solene com o benefício sobrenatural da Comunhão precoce, necessária e facilmente seguida de muitas outras Comunhões, é não compreender nada das coisas da vida espiritual, da santificação e da salvação.

Qual pode e deve ser a frequência das Comunhões da criança que foi uma vez admitida à Mesa Santa?
Uma vez admitida a criança à primeira Comunhão, é convidada a comungar todos os dias. As condições a realizar são as mesmas que se exigem às pessoas adultas: o estado de graça, a reta intenção, o jejum natural.

Somente, como as crianças são aprendizes, precisam dum mestre nos exercícios da Comunhão, como em todos os outros exercícios. O mestre não é preciso procurá-lo: é o pai ou a mãe, que devem normalmente acompanhar os seus filhos à Mesa Sagrada, ajudá-los a preparar-se, e a fazer ação de graças.

Não se levantam objeções contra esta direção?
Sim; e numerosas objeções. Diz-se:

- É uma sujeição acompanhar as crianças;
2º- Não se pode orar convenientemente;
- As crianças estão quase constantemente distraídas;
4º- A Comunhão obriga as crianças a levantarem-se muito cedo.

Que se deve responder à primeira objeção: É uma sujeição acompanhar as crianças?
Respondemos: Onde é que vós, pais e mães, aprendestes que a educação é uma partida de prazer?

Não será verdade, pelo contrário, que é uma longa paciência, uma série quase ininterrupta de atos de virtude? E esta responsabilidade, da qual o pensamento não pode e não deve desviar-se, não seria uma alavanca suficiente para elevar o vosso espírito, o vosso coração e a vossa vida à altura de todos os sacrifícios?

Que se deve responder à segunda objeção: Não se pode orar convenientemente?
Respondemos: Se os pais, na sua preparação e na sua ação de graças, só têm as distrações ocasionadas pelo cumprimento do seu dever de estado, com respeito a seus filhos, poder-se-ia propô-los como modelos de recolhimento.

São na verdade distrações?
Orar não é fazer orar os outros?

Os pensamentos e os sentimentos que insinuam a seus filhos, são diferentes daqueles de que tem necessidade para si próprios? E as observações que fazem ao pequeno comungante, que está a seu lado, não poderia servir-lhe de ocasião para recuperarem a posse do próprio espírito e do seu coração?

Que responder à terceira objeção: As crianças estão quase constantemente distraídas?
- Deus não pede a cada um senão aquilo que pode dar; espera, pois, muito menos das crianças do que dos adultos.

- As distrações das crianças vêem-se, porque, insuficientemente senhoras de si mesmas, traduzem no exterior o que são interiormente, e por isso de diz: Estão quase constantemente distraídas. As distrações dos adultos não se vêem porque conservam a compostura e parecem, algumas vezes pelo menos, melhores do que realmente são.

Mas, aos olhos de Deus, que sonda os espíritos e os corações, que se não deixa seduzir por aparências, qual é a melhor comunhão: a da criança que se não recolhe senão uns segundos, ou a do adulto que parece recolhido durante muitos minutos?

Que responder à quarta objeção:  A Comunhão obriga as crianças a levantarem-se muito cedo, para que possa ser frequente?
Entendamo-nos bem!

A criança tem, por exemplo, seis ou sete anos. Os bons autores dizem-nos que, a partir dos três anos, o repouso da noite deve durar de dez a doze horas, suprimindo-se a sesta do dia.

Donde concluímos, e parece legitimamente, que a partir dos seis ou sete anos, é possível, sem inconveniente, contentarmo-nos com o que é considerado como mínimo para os três anos: quer dizer, dez horas. Ora, se a criança se deita à hora razoável, às 20 ou 20 horas e meia, poderá levantar-se às 6 ou 6 e meia (Nota de rodapé: As horas consagradas ao sono podem ser variadas com o fim da adaptação da vida das crianças aos hábitos do seu meio). Onde está então a dificuldade de comungar?

Estas indicações não são teóricas, e, por conseguinte, irrealizáveis?
Nós pensamos, pelo contrário, que em muitas famílias a educação constitui um incitamento ao sono, que ultrapassa os limites do que a criança reclama naturalmente.

Para nos convercermos disso, basta notar a facilidade com que a criancinha de três ou quatro anos desperta após  dez ou onze horas de repouso. Até parece que "o somo conveniente que faz repousar as crianças lhes dá um sangue melhor, as torna alegres e vigorosas" (Fénelon).

É só depois de estar formada na escola da preguiça paternal, maternal ou familiar, que a criança sente a necessidade, fictícia e adquirida, dum sono mais prolongado, que atinge muitas vezes proporções exageradas. Quando muito, há tanta necessidade de dormir como de comer. A sobriedade quer que se deixe "a cerimônia no prato" segundo uma expressão popular. A energia cristã quer que se deixe o sono nos lençóis.

Aquele que come até à completa saciedade é um glutão. Aquele que dorme atá ao esgotamento da necessidade de dormir é um preguiçoso.

Na realidade, que é que há no fundo destas diversas objeções?
Há o temor do sacrifício, do sacrifício material, do sacrifício intelectual, do sacrifício moral.

No entanto, devemos reconhecer que Deus é sábio bastante para atingir um duplo fim com uma só prescrição. Sim! Deus, chamando à Santa Mesa as crianças que Ele ama e quer salvar, porpõe-se atingir também os pais, torná-los mais cristãos, mais sobrenaturais, mais perfeitamente educadores.

(Catecismo da educação pelo abade René de Bethléem, continua com o post: A ressurreição da vida sobrenatural)

PS: Grifos meus.

domingo, 7 de novembro de 2010

Recolhimento do Domingo

RECOLHIMENTO DO DOMINGO


(Clique na gravura para ampliá-la)

Como é cheia de solicitude para conosco a Divina Providência que nos deu a noite, com sua paz e sossego, como recolhimento do dia. Foi esta mesma Providência, cuidadosa, que também nos deu, generosamente, para reparação da perda de forças da semana, o recolhimento do domingo. Mil vezes, bendito o dia do Senhor!

Podemos repetir aqui o que dissemos a respeito do recolhimento do dia: só sabe apreciar, devidamente, a importância do descanso dominical quem sabe trabalhar, deveras, durante os seis dias úteis da semana. É uma necessidade esse descanso. Mas também é um prêmio, uma festa, uma renovação.

Mas, ninguém, melhor do que o homem de fé, compreende todo o alcance deste recolhimento semanal.

Entretanto, como decaiu, vergonhosamente, entre os homens de hoje, a idéia reparadora, pacificadora e santificadora do domingo! Para muitos, infelizmente, o domingo é o dia desabusado, que se começa no sábado, com o recebimento do salário, salário que, muita vez, será malbaratado no jogo, no cinema, em bebidas e revistas.

Para outros, o domingo do homem é bem semelhante ao domingo do animal que não puxa a carroça ou não sulca, como o arado, a terra; come-se muito, dorme-se mais ainda.

Outros acham que o domingo só tem razão de ser, quando se tem para ele uma novidade: um divertimento, um passeio.

Para outros ainda, toda a preocupação do domingo se cifra na indumentária, tanta vez em flagrante desacordo com a sua idade, sua posição, seus haveres, seu trabalho... E o domingo - quanta vez! - se passa no campo de excursão (que, em certas circunstâncias e com certa cautela, seria um bem), ou na piscina ou na praia, ou no esporte ou no bar ou em visita e não sei onde mais; mas, em todo o caso, não são muitos os que se lembram de que o domingo é o dia da família, é o dia de Deus, por excelência.

Sim, é o dia do Senhor, com a assistência devota à santa missa, que deveria ser o centro do domingo... O cristão, então, se lembra de que não é só corpo, mas também espírito; lembra-se de que se deve trabalhar não somente para essa terra, mas também para o céu.

Desapegou-se um pouco da matéria, que o prendeu toda a semana, e de suas exigências, e levanta, liberto, seu coração a Deus, para o qual ele foi criado e no qual encontrará sua felicidade.

O domingo, considerado cristãmente, e tomado a sério, tem uma força transformadora e santificante extraordinárias.

Para os cristãos mais fervorosos, vem, ainda, à tardinha ou à noite, a assistência às vésperas ou à bênção do Santíssimo, talvez com nova pregação, que os colocam, pouco a pouco, nesse estado de cristianismo, convencido e convincente, que falta a tantos que se dizem católicos e que traem, na primeira oportunidade, sua fé, tão mal protegida e, pior ainda, tão mal alicerçada.

E que dizer do domingo nos presbitérios fervorosos e nos conventos de bom espírito? Naqueles, é dia de intensa atividade, mas atividade que eleva, que não perturba, e que é tão de acordo com a atividade no céu e para o aperfeiçoamento da almas: as santas missas mais numerosas e mais frequentadas, o confessionário assediado, a mesa sagrada cheia de comensais piedosos; as pregações, os batizados, as reuniões das associações, o catecismo solene, a bênção do Santíssimo.

Ó dia feliz para o cura de almas fervoroso: é, realmente, o dia do Senhor!

Nos conventos, os domingos tomam uma aparência do repouso eterno: um grande silêncio e uma grande paz envolvem a casa de Deus. Da igreja conventual emerge uma onda de bem-estar sobrenatural, que penetra as celas, os claustros, os jardins, as oficinas desertas, mas, principalmente, as almas. Tudo respira um ar solene, e, ao mesmo tempo, singelo e íntimo, sinal de presença de Deus Nosso Senhor.

Os contemplativos, também aqueles, ou, principalmente, aqueles que souberam desenvolver, durante a semana, sua atividade em trabalhos manuais ou intelectuais, ei-los mergulhados em alguma leitura profunda ou prostrados diante dos altares, ou, passeando, lentamente, em oração, pela horta.

Quando soa o grande sino, para logo se povoa o coro ou a capela, e o cântico ou salmodia quebra, com vantagen, aquele silêncio benéfico...

Mas o domingo também é, por excelência, o dia da família. É o dia feliz em que pais e filhos, irmãos e irmãs se encontram mais unidos depois de uma semana de quase separação pelos trabalhos e ocupações de cada um. A casa está mais limpa, enfeitada. A refeição principal, melhorada. Todos com roupas melhores, limpas, frescas. E chegam os parentes, os amigos íntimos. Visita-se o jardim, o quintal; presta-se uma atenção carinhosa a todas as plantas e árvores. Improvisa-se um divertimento, um recreio. É o dia da família cristã.

Como é, realmente, belo o recolhimento da semana: o domingo, transfigurado pelo amor de Deus, embelezado pelo espírito de família. Bem se compreende por que a impiedade procura profanar este dia sagrado. Bem se compreende por que o néo-paganismo procura estragar este recolhimento que tanto fala das suas grandes belezas da terra: a casa de Deus e o lar.

Maria Santíssima, a Virgem do Templo, a Senhora da casa de Nazaré, chorou diante de pastorinhos humildes, Melânia e Maximini, lá nas Montanhas de Salete, chorou, contemplando a destruição criminosa do recolhimento da semana: o domingo, o dia do Senhor.

Amemos este dia extraordinário e saibamos tirar dele aquela força e espírito de fé e de renovação que Deus Nosso Senhor, por meio dele, nos quer conceder.

Como é formoso este recolhimento semanal!

E já se compreende por que a encantadora Santa Teresinha do Menino Jesus, com sua alma delicada e cheia de beleza, gostava tanto do domingo e suspirava à noite: Ai! que passou este dia lindo! amanhã será segunda-feira... Como tarda o domingo eterno do céu!...

(Reconhimento, pelo Frei Henrique Golland Trindade O.F.M, Bispo de Bonfim, edição de 1945)

PS: Grifos meus.

sábado, 6 de novembro de 2010

Procedimento da alma no tempo da prova

PROCEDIMENTO DA ALMA NO TEMPO DA PROVA



A alma não deve admirar-se por sofrer oposição, mesmo da parte de pessoas de bem. Deve persuardir-se de que esta miséria é uma consequência fatal da estreiteza do espírito humano e do egoísmo inerente ao coração do homem.

Se todos tivessem idéias amplas e elevadas, todos seriam pelo menos tolerantes e respeitariam o modo de ver e de proceder dos outros. Não condenariam tão facilmente as intenções e as atitudes alheias. Ninguém há tão indulgente como Deus para com os erros do espírito, os defeitos do caráter, as extravagâncias do humor, e mesmo para as culpas morais, porque as vistas de Deus são infinitamente largas. Contenta-se com a boa vontade das Suas criaturas; por ela é que forma o Seu juízo.

O homem, limitado por natureza, não procede assim. Vê as aparências, julga pelo exterior, segue as próprias impressões, simpatias ou antipatias, reprova e quer corrigir tudo o que não se conforme com as suas idéias e modo de agir.

Devemos persuadir-se desta verdade: neste mundo, nunca encontraremos, fora do círculo dos que comungam com o nosso ideal, quem esteja disposto a dar-nos a sua aprovação e apoio sem reservas. Enquanto a alma não tiver enraizada esta convicção, não estará livre de penosas desilusões. É preciso conformar-se com esta inclinação da natureza humana. Deus assim o quis, para que a alma só O tenha como ponto de apoio seguro e só confie nEle e nos que por Ele lhe estão unidos.

Uma vez abandonada a Deus definitivamente, a estima dos homens torna-se-lhe indiferente. As suas críticas, violências, zombarias já não têm o poder de abalá-la. Não foi para agradar-lhes nem para capitar-lhes a estima que optou por Deus.

Mesmo que o mundo inteiro se erguesse contra essa alma, em que poderia prejudicá-la? Ela não depende do mundo nem da sua aprovação. Sabe que a opinião dos homens nada vale diante de Deus. Se o universo inteiro se coligasse contra ela, não lhe poderia tirar o mérito de uma única das suas ações. O mundo só é poderoso contra aqueles que o temem. Aqueles que lhe afrontam as ameaças e gritos sabem-no impotente.

É bom repetir às vezes no fundo da alma: pode vir um dia em que serei abandonado pelos que me são caros, incompreendido pelos meus familiares ou colegas e condenado por alguns dos meus amigos. Não temerei essa situação, porque o Senhor me basta. Faço desde já o sacrifício da estima, afeição e confiança dos que estimo e procurarei somente não me afastar do que Deus quer de mim. Quanto mais repelido pelas criaturas, mais me chegarei a Jesus. Só Ele conhece a retidão das minhas intenções e a simplicidade do meu coração.

Este ato, frequentemente renovado na oração, desenvolve na alma um grande desprendimento, uma santa independência de toda a apreciação humana.

Deus, aliás, não deixa a alma indefesa. Quanto mais ela se abandona nEle, mas Ele a toma sob a Sua direção. Quanto menos se justifica diante dos outros, mais Deus Se ocupa da sua defesa e do seu progresso espiritual. Para os Seus desígnios, serve-se dos próprios inimigos. As incompreensões, violências ou astúcias contribuem para pôr em foco a inocência e integridade dessa alma. Basta-lhe entregar-se a Deus, confiar-Lhe os seus cuidados e interesses, limitando-se a amá-Lo, e eis que o céu inteiro se sente obrigado par com ela e se movimenta em sua defesa.

Senhor! O meu proceder nas adversidades e oposições é, pois, bem simples, basta lançar-me nos Vossos braços, confiar-Vos a minha defesa e amar-Vos. Seria mais fácil desaparecer o céu e a terra do que ser confundida uma alma que confia em Vós.

Desta maneira, a atitude da alma interior nunca muda. No tempo da abundância, das consolações, das luzes, da aprovação dos homens, só tem um ato: o dom integral de si mesmo a Jesus. No tempo das trevas, das misérias próprias, das críticas e adversidades, também só tem um mesmo gesto: dar-se a Deus por um ardente ato de amor. Eis todo o seu segredo, toda a sua sabedoria.

(O dom de si, vida de abandono em Deus, pelo Pe. Joseph Schrijvers)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

CONFORMIDADE NAS SECURAS DA ORAÇÃO

CONFORMIDADE NAS SECURAS DA ORAÇÃO



Conta-se nas Crônicas da Ordem de São Domingos (Hist. Ord. Praed., I P., lib. I, c.60), que um dos primeiros Padres da Ordem, depois de ter estado nela alguns anos com grande exemplo de vida e grande limpeza e pureza de alma, nenhuma consolação, por pequena que fosse, sentia nos exercícios espirituais da Religião, nem meditando, nem contemplando, nem orando, nem lendo. E como sempre tinha ouvido falar dos singulares favores que Deus fazia a outros na oração, e dos sentimentos espirituais que nela tinham, estava meio desesperado.

Estando em oração diante do crucifixo, chorando amargamente, pôs-se a dizer estes desatinos:

"Senhor, eu sempre entendi que excedeis a todas as Vossas criaturas na bondade e mansidão; porém aqui estou eu, que há tantos anos Vos servi, sofrendo por Vosso respeito muitas tribulações, e sacrificando-me só por Vós, de muito boa vontade; e se a quarta parte do tempo que Vos tenho servido, servisse a um tirano, já me teria mostrado algum sinal de benevolência, ao menos com um ar de sorriso e graça. E Vós, Senhor, nem um pequeno mimo, nem o mínimo favor me tendes feito daqueles que a outros costumais fazer; e sendo Vós a mesma doçura, sois para mim mais duro que cem tiranos. Que é isto, Senhor? Por que razão quereis que isto seja assim?"

Estando dizendo estas coisas tão desatinadas, ouviu de repente um grande estrondo e tão espantoso, que parecia que vinha a igreja ao chão, e no forro da mesma igreja havia um ruído tão temeroso, que parecia que milhares de cães com dentes queriam despedaçar o madeiramento. Ficou em extremo assombrado e tremendo de medo. Voltou o rosto para ver o que fosse aquilo, e viu atrás de si a mais feia e horrível visão do mundo. Era um demônio que, com uma barra de ferro que tinha nas mãos, lhe deu um tão cruel golpe, que caindo em terra não mais pode levantar-se. Teve contudo ânimo para se ir arrastando até chegar a um altar que estava perto, mas sem poder andar nem menear seus membros com a força das dores, que não parecia senão que lhe tinham desconjuntado todos os ossos a poder de pancadas.

Quando depois os religiosos se levantaram para cantar prima, e o acharam como morto, sem saberem a causa de tão inesperado e mortal acidente, levando-o à enfermaria, o trataram durante três semanas inteiras. Mas no meio das dores gravíssimas que o atormentavam era tão intenso e abominável o mau odor que despia, que os religiosos de nenhum modo podiam entrar no aposento a curá-lo e servi-lo senão tapando cautelosamente os narizes e usando de outras prevenções.

Passadas aquelas três semanas, recobrou forças; e tanto que se pode ter em pé, quis logo curar-se de sua louca presunção e soberba; e tornando ao lugar onde tinha cometido a culpa, buscou nele o remédio dela, e com muitas lágrimas e muita humildade fazia a sua oração bem diferente da primeira.

Confessou a sua culpa e reconheceu-se por indigno de algum bem, e por muito merecedor de pena e castigo. Então o Senhor consolou-o com uma voz do céu que lhe disse:

"Se queres consolações e gostos, convém que sejas humilde, e que reconheças a tua vileza, entendendo que és mais vil que o lodo, e de menos valor que os bichinhos que pisas com os pés".

Com isto ficou tão escarmentado, que dali em diante foi perfeitíssimo religioso.

(Exercício de Perfeição e Virtudes cristãs pelo V.P. Afonso Rodrigues da Companhia de Jesus, versão do Castelhano por Fr. Pedro de Santa Clara, edição de 1946)

PS: Grifos meus.

SEM DEDICAÇÃO NÃO HÁ AMOR

SEM DEDICAÇÃO NÃO HÁ AMOR


Jesus, vindo ao mundo, nada ensinou de mais amável do que a dedicação. Esta pequena flor - podemos chamá-la assim? - nasceu no Gólgota, aos pés da Cruz, no solo regado com o sangue de Cristo. Daí por diante, nunca mais desapareceu da terra.

Os amigos de Jesus cultivam-na carinhosamente. Conhecem o terreno onde se dá bem e a seiva de que se nutre. Sabem que evita o clima glacial do egoísmo e que se compraz nas quentes regiões da caridade divina. Mergulham-na no amor de Jesus, que é o seu verdadeiro lugar, o seu canteiro predileto.

Amor e dedicação são duas flores numa só haste. Jesus transplantou-as das regiões celestes para o nosso solo ingrato. Criaram raízes, vicejaram, multiplicaram-se e foram bem recebidas nos jardins dos grandes e nos canteiros dos pobres.

Sob a influência do seu perfume, desabrocharam por toda a parte admiráveis virtudes: a abnegação, a humildade, o sacrifício, a mansidão, a compreensão mútua. A terra, anteriormente deserta, cobriu-se de creches, escolas, hospícios, asilos; povoou-se de irmãos e irmãs de caridade.

Não, não há dedicação sem amor, como não há amor sem dedicação. Nunca a flor da dedicação brotou em terras não cristãs. O joio, o insolente joio do egoísmo, devorava o solo pagão. A sociedade antiga, no apogeu da sua civilização, só engendrava monstros horrendos: a crueldade, a luxúria, a escravidão. Como já era tempo de que Jesus viesse ressuscitar esta pobre humanidade que jazia e se decompunha no túmulo! Como já tardava que Ele viesse ensinar-nos o amor e a dedicação!

(O dom de si, vida de abandono em Deus, pelo Pe. Joseph Schrijvers)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

16ª Conferência: Mulher forte e a vigilância no lar

Nota: As transcrições deste livro não estão sendo feitas de forma sequencial, porém existe um marcador próprio no blogue para este livro onde se é possível encontrá-las numeradas. Recomendo vivamente a leitura destas conferências.

PS: A parte do texto que segue em azul é um resumo da 15ª Conferência.

Décima sexta conferência  
feitas às senhoras da associação de caridade
Monsenhor Landriot
(Retirada do livro: Mulher forte, 1877)
 
MULHER FORTE E A VIGILÂNCIA NO LAR
 
Consideravit semitas domus suae,
et panem otiosa non comedit.
Surrexerunt filie jus et beatissimam praedicaverunt;
vir ejus et laudavit eam.

Considerou os corredores de sua casa
e não comeu o pão na ociosidade;
seus filhos levantaram-se e proclamaram-na feliz;
seu marido levantou-se também e cantou-lhe os louvores.

(Prov., XXXI, 27-28)

Uma força misturada de graças, uma dignidade cheia de encantos, são o vestuário da mulher forte. A sua beleza é pedida à alma, impõe respeito e inspira nobres e generosos sentimentos. Nada de lânguido, de afeminado e sensual; é a virtude que se pinta em seus órgãos, e que atrai para elevar mais alto. Ela também não conhece os amargos pesares que se reservam as mulheres, cuja beleza frívola foi a causa de deploráveis desvios.

A sua velhice é cercada de respeito e de afeição, e tem nos lábios, sobre o leito de morte o sorriso da alma predestinada: Et ridebit in die novissimo.

O Espírito Santo ajunta: - "Abriu a boca à sabedoria, e a lei da clemência está em seus lábios."

Tiramos deste texto vários conselhos relativos à conversação, à oportunidade do discurso, e recomendamos, com instância, a sobriedade e a sabedoria nas palavras: máxima sempre repetida, é, no entanto, quase sempre esquecida na prática.

Afinal, senhoras, fostes apresentadas como rainhas da clemência, tendo na família o papel e as palavras da doçura e da ternura, votando pelas medidas pacíficas, fazendo inclinar o prato da justiça para o lado do perdão, e nas relações com a generalidade dos homens, inclinando-o para o lado da benevolência, que desculpa e justifica.

Sigamos hoje o nosso caminho que em breve será terminado.

"A mulher forte considerou os corredores de sua casa, e não comeu o seu pão na ociosidade; seus filhos levantaram-se e proclamaram-na feliz; seu marido levantou-se também e cantou-lhe os louvores."

"Considerou os corredores de sua casa: Consideravit semitas domus suae."

Já o dissemos muitas vezes: - a guarda da casa, pertence especialmente à mulher: ao homem, os negócios externos, as grandes empresas, as excursões longínquas. A mulher, semelhante à mãe dos passarinhos, fica no ninho da família, chocando tudo com o seu amor e com a sua ativa previdência. Nada lhe escapa; e se Deus lhe deu o sentido "advinhador", que presente as coisas, se é dotada de rara perpiscácia, para entrever e suspeitar o que se quer afastar da sua vista, é então que ela tem uma missão providencial, qual a de guardar o interior da sua família, de a preservar do perigo, alimentando-lhe sempre uma vida cheia de confiança: - Sicut vir publicis officiis, ita mulier domesticis ministeriis habilior destimatur.
(Santo Ambrósio. De Parad., nº 50).

Feliz a família que repousa assim no coração de uma mulher piedosa!

Feliz o ninho em que as asas maternais se estendem para aquecer, ou voam ao redor dele, para se certificarem se nada há a recear pela ventura dos seus filhos!

A família pode repetir com a tranquilidade da confiança, a frase do Profeta: - "Morrerei no meu ninho de amor, e todavia multiplicarei os meus dias, como os da palmeira: In nidulo meo moriar" (Job. XXIX,18).

Tendes praticado este conselho do sábio?
Tendes considerado bem os corredores de vossa casa?
Sabeis por quem são frequentados e quais as suas desembocaduras?

Entremos, se quereis, nalgumas minuciosidades.

Tendes criados: sabeis bem quem eles são?
Estais suficientemente ao fato da sua moralidade, probidade e discrição?

Sabeis quais são as pessoas com quem convivem, e quais as que introduzem em casa? tendes, sobre a sua conduta, dados suficientes para vos certificardes? Não vos contentais com esses quases, que têm, ordinariamente, por conclusão, as mais deploráveis consequências?

Longe estou de querer transformar-vos em inspetoras oficiais, com a aspereza das posições e das palavras que se censuram na vigilância pedagógica: é necessário uma vigilância ativa, porém cheia de bondade; possuir o talento de ver sem espionagem; de inspecionar do modo mais natural e sem afetação.

Nestas condições, a fiscalização de uma dona de casa não pesa como um sonho horrível, aceita-se sem dificuldade, ainda mesmo que se receie, e compreende-se-lhe a necessidade, ainda que se procure fugir a ela.

A vigilância quotidiana e de quase todos os instantes, é exercida por vós, a respeito do que tendes de mais caro, em vossos filhos queridos?

Conheceis os lugares e as pessoas que frequentam? Sabeis qual a natureza das companhias que eles gostam de escolher? Que digo, sabeis o que eles se tornam em vossa própria casa?

Há mães, às quais estas interrogações admirariam profundamente, porque nunca as dirigiram a si, nem supunham que se pudesse fazer.

Seus filhos!

Elas ocupam-se pouco deles, exceto talvez na hora da refeição, porque é preciso fazer-lhes justiça, elas trabalham para que se saiba e se diga que seus filhos são perfeitamente alimentados, que a saúde passeia em rubras cores nos seus rostos, fazendo, deste modo, a honra à cozinha da casa. Em tudo o mais está a menor das suas ocupações.

Outras ligarão uma grande importância ao êxito dos seus filhos; e o que mais a lisonjeia, é o ponto de honra, a vaidade maternal que se acha assim agradavelmente acariciada; mas a moralidade, a conduta, o espírito religioso de seus filhos, é um cuidado a que nunca se entregaram, porque têm muitos outros.

Estou, por sem dúvida, muito longe de repreender as solicitudes e os passos para os legítimos e razoáveis sucessos dos filhos, e para o seu avançamento no mundo, contanto que as regras da moderação e da sabedoria cristã sejam observadas.

Mas o futuro dos filhos não consiste somente nestas coisas; e concedendo de boa vontade aos legítimos interesses um lugar conveniente nas previdências, é necessário não abandonar o mais essencial: Haec oportuit facere et illa non omittere (Math., XXIII,23).

Vigiai a educação de vossos filhos, a cultura do seu espírito, e empregai todos os meios que estão à vossa disposição para lhes preparardes bom êxito, mas não esqueçais a cultura da alma. Recordai-vos de que, no jardim da vida, há uma flor necessária, a da fé - e que aonde ela não medra, essa planta celeste - outras flores enmurchecem rapidamente, sobretudo, a da verdadeira ventura.

Como mulheres cristãs, podeis, sobre este assunto, exercer uma poderosa influência, pelos vossos exemplos, pelos vossos conselhos, pela vossa bondade, pela vossa paciência, e, sobretudo, pela oração.

Não há dúvida que, quando a criança chega a uma certa idade, parece escapar-vos a sua inteligência e fugirem-vos as rédeas do seu espírito, e, no entretanto, o vosso poder é mais forte e mais extenso do que aparenta.

É incessante a vossa influência sobre o coração quando sabeis dirigi-la, e a vossa palavra, quando é inspirada pelo amor maternal, é um orvalho que sabe sempre encontrar as raízes da vida, mesmo na vida intelectual.

O coração e a alma influem mais do que se julga nas convicções, e quando a mãe sabe ferir as cordas do coração nada há inteiramente perdido.

Um doce olhar, um conselho afetuoso, um nobre e doloroso silêncio, operarão, algumas vezes, prodígios sobre uma alma que tiver escapado às mais eloquentes predicas.

A recordação de Santa Mônica, fez mais, talvez, depois da graça, pela conversão de Santo Agostinho, que todos os outros meios exteriores.

Para preparardes de antemão todos estes felizes resultados, vigiai vosso filho deste tenra idade; examinai as frequentações externas e internas; dai-vos conta do emprego do seu dia; no momento em que a vossa vigilância ficar inativa, soará talvez a hora do perigo e da queda. O gênio do mal vela também a alma de vosso filho, e ele tem desgraçadamente uma inteligência inerente à natureza humana, e que é, muitas vezes, de uma precocidade espantosa nas crianças; é a corrupção nativa, que embaraça os mais hábeis esforços, e que inspira à mocidade meios conhecidos dela, para escapar à vigilância mais desenvolvida; é ela que lhe ensina os estratagemas e os desvios e que os colores com todas as aparências da candura.

Vigiai especialmente as leituras de vossos filhos, e insistimos neste ponto, embora tenhamos de repetir. Tende a precaução e a coragem de subtrair aos seus filhos todas publicações que tanto mal fazem na nossa época. Se tendes biblioteca, não a conserveis aberta à vossa jovem família, senão com a prudência da mais severa reserva.

Não falo aqui de obras essencialmente más, pois suponho que não as possuis. Muitas vezes, obras boas, ou, pelo menos, indiferentes, em si, podem ser relativamente perigosas para o coração de vossos filhos.

Há licores que sustentam e fortificam o homem chegado à idade madura, e que matariam o ser débil, cujo temperamento só suporta ainda o licôr do seio materno.

É este o princípio de sabedoria vulgar, que se põe habitualmente de lado, na prática da vida, e em particular na educação dos filhos; e, muitas vezes, uma ciência intempestiva, inoportuna e prematura, produziu na alma da mocidade horrorosos estragos.

Tais são, senhoras, os vossos principais deveres para a vigilância de vossos filhos.

Para melhor os cumprirdes ponde sempre nos vossos atos, nas vossas palavras e olhares, a bondade do coração maternal que obtêm facilmente tudo quanto quer porque se impõe com afeição.

Quanto mais ativa for a vigilância sobre a família, tanto mais deve ser cercada de amor e verdadeira dedicação: chegareis assim a fazer saborear, ou, pelo menos, a suportar o que em si é de natureza indigesta, para a independência da mocidade. Recordai-vos do que éreis outrora, e tende piedade dessa pobre mocidade: se as vossas apreciações se modificaram pela madureza dos anos e a experiência da vida, há uma coisa que não se modifica e cuja idade nos demonstra mais e mais a utilidade: é a benevolência, e a afeição, condimento sempre essencial no banquete da vida, sobretudo quando o alimento preparado tem alguma amargura.

Essa amargura é necessária, concordo; é indispensável para melhor assegurar o futuro; mas que, ao menos, seja temperada por uma mistura de amor e de suavidade.

"A mulher forte considerou os corredores de sua casa."

Não é bastante vigiar os criados e os filhos. Lançai os olhos e tudo quanto se passa em vossa casa, para que nada vos escape, para que certas idas e vindas, sejam por vós analisadas e compreendidas; sabei prever e impedir, tereis mil meios despercebidos de resistência, achareis mil processos naturalíssimos, para desfazer certas intrigas: e a mulher, sem que o pense, pode muito habilmente cortar os tramas mais invisíveis. Mas para isto é necessário que vigie, que conheça todos os caminhos que conduzem a sua casa, e todos os que lhe dão saída: - Consideravit semitas domus suae; é necessário que ela adeje, como a ave, sobre o seu ninho, e que saiba ver claramente, mesmo nas trevas. Nada de rumor, nada de violências, nada de palavras imprudentes; uma ação firme, lenta e doce; a energia e a tranquila ação da vaga tranquila, quando arrasta os restos do naufrágio sobre a praia, pois os conduz docemente sobre a areia, e a sua ação é tão forte, é tão irresistível quanto é calmo o seu movimento.
Ouço as almas indolentes soltarem um grito de espanto.

- Na verdade que trabalho nos tendes preparado! Que atividade exigis de nós! Que serviço constante! Que ocupações de todas as horas! Ainda mesmo que se pareça estar na ociosidade!

- É verdade senhoras, que para a prática destes conselhos é preciso não dormir, porque se dormis, o homem inimigo virá e semeará o joio no campo da vossa família. Para seguirdes estes conselhos é necessário estar sempre na brecha.

Mas a verdadeira vida é uma atividade perpétua; essa atividade é uma fonte de ordem, de riqueza, de prosperidade e ventura. A preguiça, ao contrário, é a mãe de todos os vícios, de todas as desordens, de todas as desditas. Sem a atividade e o trabalho do corpo ou do espírito, vossa casa semelhar-se-á a um campo coberto de espinhos e silvedos; e oxalá que esse campo não seja o covil de serpentes venenosas!

O sábio compreendia muito bem essa atividade continua da mulher forte, porque ajunta:

"Ela não comeu o seu pão na ociosidade: Panem otiosa non comedit."

São Paulo dizia:

"Não deve comer quem não trabalha." (II Tes. III,10)

Se se apertasse com o rigor da letra desta palavra, quantas pessoas deveriam jejuar absolutamente todos os dias!

A mulher forte, pelo contrário, não come o seu pão na ociosidade, porque está sempre ocupada. madruga, ordena tudo, distribui o serviço pelas suas pessoas, excita-as com o seu exemplo, gosta do trabalho manual, e não despreza a cultura da inteligência.

Navio carregado de ricas mercadorias, entra em cada tarde no porto da família, trazendo consigo preciosíssimos tesouros. Se às vezes parece inativa, é que, semelhante à abelha, esta encerrada na colméia, preparando o mel delicioso, o mel dos santos pensamentos, das conversações íntimas, o mel colhido nas flores mais delicadíssimas da sua inteligência e do seu coração.

Outras vezes, derramará secretamente o suor de sua alma, e a sua vida gastar-se-á num trabalho subterrâneo silencioso, e tanto mais ativo e mais penoso quanto menos o pensam os homens. Mas sejam quais forem a natureza do seu trabalho e a esfera da sua atividade, a mulher forte não come nunca o seu pão na ociosidade: Panem otiosa non comedit.

Quantas mulheres, ao contrário, que fazem da ociosidade vida, e cujos dias se arrastam pesadamente num estado que se assemelha a uma indolência perfeita! Dir-se-ia que dormem habitualmente, como a tardia criatura que os naturalistas chamam - preguiça. Em casa delas só um membro trabalha - a língua, e forçoso é confessar-se que trabalha superabundantemente, e que substitui, de um modo completo, a ação de todos. Parece que os outros lhe passaram procuração, e que, querendo descansar, lhe legaram a missão de se agitarem à vontade, e asseguro-vos que nenhum testamenteiro compreendeu tão bem o seu encargo.

No entretanto, a língua é o membro que precisamente, mais vezes devia descansar, e cujo exercício importuno é também nocivo aos nossos interesses e aos do próximo: e notou-se que, justamente quando está mais ativo é sempre com prejuízo das verdadeiras e serias ocupações.

Segui desde pela manhã até à noite a mulher leviana: que faz ela? Nada, ou quase nada. Passa metade do dia em visitas completamente inúteis, em conversações, pelo menos, frívolas, em entretendimentos, que se não deixam, de ordinário, sem se terem ferido pelo menos dois ou três mandamentos de Deus.

O resto da sua vida é uma nuvem que vagueia nos espaços: sonha, e, muitas vezes à beira dos abismos; a sua imaginação encandecente espalha-se como a lava nas proximidades; o seu espírito mais ou menos romanesco enche-se de chimeras, de planos impossíveis; ou então encerra-se nos seus aposentos e conversa com os livros frívolos e perigosos, de cujas páginas saem, mais ou menos emanações postilentas, em que o veneno está quase que sob cada palavra em dose invisível, matando as almas lentamente.

Valeria muito mais para esta desgraçada mulher um sonho completo e uma ociosidade em que todas as  faculdades do espírito e do corpo estivessem completamente adormecidas. Seria, ao menos, sob muitos pontos de vista, um sono inofensivo; mas a ociosidade do mal  da frivolidade, o sono, em que nos mergulham os sonos da imaginação, atacam a vida moral! É um veneno disfarçado sob formas que seduzem e conduzem em breve a uma letargia mortal.

A Bíblia acrescenta:

"Os filhos da mulher forte levantaram-se e proclamaram-na feliz; e seu marido levantou-se também e publicou-lhe os louvores."

Que há mais belo e mais consolador, do que ver uma mulher venerável, uma mãe de família, cercada de estima, de confiança e de amor de seus filhos e de seu marido?

Quando anda em casa com um aspecto cheio e graça e de dignidade, dir-se-ia que toda a família se levanta, para lhe fazer um cortejo de honra e dizer à porfia: - Eis a nossa glória,  a raiz da nossa vida e da nossa ventura, o centro do nosso amor, centro querido onde todos os corações vão fundir-se e estreitar os seus laços, purificando-se.

É a sombra tutelar aonde íamos descansar e desencalmar-nos, e como os rendez-vous dados outrora junto ao velho carvalho, é junto do coração, sempre jovem, da esposa e da mãe, que a família se reúne, onde tudo se acalma, tudo se purifica, onde as nuvens da vida desaparecem, e onde a alegria renasce com amor puro.

Taça deliciosa do coração da mãe, vós sois necessária para ministrardes a todos a embriaguez da felicidade doméstica; perto de vós esquecem-se os pesares da existência, e o licor que dais a beber, junto à doce harmonia dos vossos sentimentos, recorda a palavra da Bíblia: - "O bom vinho e a música rejubilam o coração do homem: - Vinum et musica laetificat cor." (Eccl. XL,20)

Pode haver, senhoras, e há desgraçadamente muitas nuvens na vida da família: os caracteres são tão diferentes, as paixões tão múltiplas e tão complicadas no seu jogo, que a serenidade completa é impossível. Mas quando uma mulher cumpriu bem os seus deveres, quando foi seriamente cristã, quando constantemente fez face a todas as suas obrigações com a constância da força, a ternura perseverante do amor, e a longanimidade da paciência, a hora da justiça e do reconhecimento soa mais tarde ou mais cedo.

Um dia seu marido levanta-se fazendo sinal a seus filhos e todos se inclinam com respeito, saudando o anjo do lar doméstico, proclamando-a ditosa, e suplicando-lhe para alargar mais o seu coração, para nele dar abrigo a um novo amor da família, e que parece renascer para uma vida nova! Surrexerunt filii ejus, et beatissimam proedicaverunt; vir ejus et laudavit eam.

Nesse dia há um grande júbilo no coração da mãe, e ele é ainda mais feliz com a alegria da sua família do que com a sua própria, ou antes, estas suas alegrias só fazem uma.

O Profeta disse que, "ordinariamente se semeia em pena e em lágrimas, mas que se colhe em alegria". (Ps., C.XXV,5)

Não é este o resumo da vida da mulher?

Semeia em penas, em dor e em trabalho: após as sementeiras vem, muitas vezes, o frio, as brumas, a neve e os ardores do sol. Mas que rico outono! Que doce estação aquela em que se recolhe o que se semeou, em que se recolhe uma colheita, tanto mais abundante, quanto maior foi o sofrimento!

A vida é assim: vai-se e vem-se, lançando a semente dos seus pensamentos, das suas palavras, dos seus atos e benefícios; espalha-se muitas vezes exteriormente, o que há de melhor na alma, e chora-se para a regar: - Euntes ibant et flebant, mittentes semina sua... Qui seminant in lacrymis.

Correi em abundância, lágrimas da vida, lágrimas do coração: correi sempre, e cai sobre a terra que deveis fecundar. A vossa emissão faz, às vezes, sofrer cruelmente o que vos dá, porque vos formais arrancando as gotas mais íntimas do coração: as lágrimas verdadeiras - dizem os santos - são o sangue da alma, e, algumas vezes, os suores da agonia. (S.Agostinho., Sermão. 351, nº 7).

Não importa: correi sempre; ou vos chamem o sangue do coração, o suor da vida íntima, ou a derivação de uma alma liquificada pela dor e por um penoso trabalho, correi sempre, pois sois vós que preparais as verdadeiras colheitas, colheitas das almas, tesouros de virtudes, de sabedoria e de prosperidade.

Seja assim entre vós, senhoras.

Oxalá que possais, depois de terdes sofrido muito, assistir um dia a essas ceifas espirituais, no interior de vossas famílias, quando os corações de vossos filhos e de vossos maridos, como cachos de uvas, pareçam aproximar-se de vós, na vossa passagem, convidando-vos a colhê-los; quando vosso marido e vossa família se reunirem em derredor de vós como os feixes de centeio de que falava o jovem José, e vos oferecerem a homenagem do seu respeito, do seu amor e do seu reconhecimento: Putabam nos ligare manipulos in agro et quasi consurgere manipulum meum et stare, vetrosque manipulos circumstantes adorare manipulum meum. (Gen. XXXVII,7).

Não quero terminar esta instrução sem me levantar também para vos proclamar cheias de piedade filial, e vos agradecer paternalmente todos os vossos bons sentimentos, durante a curta doença que sofri, e todas as vossas excelentes orações.

O resultado harmonizou-se com os vossos votos, e eu posso hoje cumprir à letra a palavra da Escritura, que modificarei levemente, para vos dizer, mudando-lhe um único termo: - O arcebispo pode levantar-se, também, para louvar e agradecer à mulher forte: Surrexerunt filii ejus, et laudaverunt eam; vir ejus et laudavit eam.

(A mulher forte, pelo Arcebispo de Reims, Monsenhor Landriot, ano de edição 1877)

PS: Grifos meus.