quarta-feira, 27 de outubro de 2010

ORAÇÃO PELA CONSERVAÇÃO DA FÉ

Nota do blogue: Esse santo foi canonizado pelo grande Santo e Papa São Pio X, um grande combatente do modernismo, deixo link para uma encíclica que todo católico deveria ler:




ORAÇÃO PELA CONSERVAÇÃO DA FÉ
(SÃO CLEMENTE MARIA HOFBAUER)


Ó meu Redentor, chegado estará o momento terrível, em que não restarão mais do que poucos cristãos animados do espírito de Fé? O momento em que, provocado pelos nossos crimes, nos retirareis Vossa proteção? As faltas e a vida criminosa dos Vossos filhos têm enfim impelido irrevogavelmente a Vossa Justiça a se vingar? Autor e consumador da nossa Fé, nós Vos suplicamos na amargura do nosso coração contrito e humilhado: não permitais que a bela luz da Fé se extinga em nós.

Lembrai-Vos das Vossas antigas misericórdias; lançai um olhar de compaixão sobre a vinha que foi plantada pela Vossa direita, regada com o suor dos Vossos Apóstolos, inundada pelo sangue de milhares de Mártires e lágrimas de tantos generosos penitentes, e fertilizada pelas orações de tantos Confessores e Virgens inocentes. Ó divino Mediador, olhai para estas almas fervorosas que num rapto contínuo para a Vossa Misericórdia, Vos imploram pela conservação do mais precioso de todos os tesouros.

Diferi, ó Deus justíssimo, o decreto da nossa reprovação, voltai os Vossos olhos dos nossos pecados, e fixai-os sobre o Sangue adorável que, derramado sobre a Cruz, nos adquiriu a salvação e intercede quotidianamente por nós sobre os nossos altares.

Ah! Conservai-nos a verdadeira Fé Católica Romana! Aflijam-nos, embora, as enfermidades; os pesares nos consumam; acabrunhem-nos as desgraças; mas conservai-nos a nossa santa Fé, porque, ricos deste dom precioso suportaremos de boa mente todas as dores, e nada poderá turvar a nossa felicidade. Ao contrário, sem o soberano tesouro da Fé, a nossa desgraça será indizível e imensa.

Ó bom Jesus, autor da nossa Fé, conservai-a pura; guardai-nos firmemente na barca de Pedro, fiéis e obedientes ao seu sucessor, o Vosso Vigário na terra, a fim de que a unidade da Santa Igreja seja mantida, a santidade animada, a Sé Apostólica livre e protegida, e a Igreja universal dilatada para bem das almas.

Ó Jesus, autor da nossa Fé, humilhai e convertei os inimigos da Igreja; concedei a todos os fiéis e príncipes cristãos e a todo o povo fiel, a paz e a verdadeira unidade; fortificai-nos e conservai-nos todos no Vosso santo serviço, para que, vivendo para Vós, morramos também em Vós. Ó Jesus, autor da nossa Fé, viva eu para Vós e para Vós morra. Assim seja.

(Oração extraída da obra: “AS MAIS BELAS ORAÇÕES DE SANTO AFONSO”)

PS: Recebido por e-mail.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

HORROR AOS ERROS DOUTRINÁRIOS

Nota do blogue: Grande e misteriosa e talvez última é esta crise que há quase 50 anos assola a Igreja de Cristo Nosso Senhor! Para honrar a Santa Sé - portanto, a Igreja Romana -, D. Lefebvre e D. Mayer tiveram que resistir ao seu ocupante, que, por um insondável mistério de iniquidade, amou tanto os homens, o Homem, que o amou sobre todas as coisas... e lhe cultuou! Que Deus se apiede de nós e Sua Mãe venha em nosso auxílio!

HORROR AOS ERROS DOUTRINÁRIOS
(PADRE FABER)


 
"(...) Emprego de propósito esta palavra, susceptibilidade, porque exprime perfeitamente o meu pensamento, e não conheço outro termo que tão bem o possa exprimir.

Todos sabemos o que é ser susceptível quando se trata dos nossos próprios interesses, ou dos interesses daqueles que nos estão ligados pelos laços do sangue ou da amizade.

Tomamos calor à menor suspeita; estamos sempre de sobreaviso, como se notássemos em todos aqueles com quem tratamos o intuito de nos prejudicarem. Estamos sempre prontos a queixar-nos, e às vezes até, se nos descuidamos, julgamos mal dos outros, ou nos encolerizamos e dizemos inconveniências.

Aplicai agora este modo de proceder aos interesses de Jesus, e tereis uma idéia bastante aproximada do que é um Santo.

Mas não é raro encontrar pessoas piedosas que não compreendem este procedimento e o censuram como extravagante e indiscreto; mas falam assim porque não sabem o que é servir a Deus por amor.

Quem tem semelhante susceptibilidade a respeito dos interesses de Jesus, se chega ao seu conhecimento algum escândalo, aflige-se com isso profundamente. Pensa nele a toda hora e dele fala com amargura, e enquanto durar o escândalo, não achará prazer em coisa alguma. Os seus amigos não podem conceber a importância que liga ao caso, nem a dor que com isto experimenta, e dizem: 'este negócio não lhe diz respeito nem lhe traz prejuízo algum'. E sentem-se inclinados a chamar-lhe tolo ou hipócrita, pois não vêem o amor com que se abrasa por Jesus, e o vivo pesar que lhe causa o ver os interesses do seu amadíssimo Jesus assim comprometidos. Esses homens indignar-se-iam durante um mês das vexações causadas por um processo injusto: mas que é isto em comparação do menor ataque aos interesses de Jesus? Certamente, um homem não convencido desta verdade, mal merece o nome de cristão.

Um outro característico desta admirável susceptibilidade pelos interesses de Jesus, é um horror instintivo à heresia e a todas as falsas doutrinas, e um olfato especial para as descobrir. A integridade da Fé constitui um dos mais caros interesses de Jesus; assim, um coração penetrado dum amor sincero pelo seu Senhor e seu Deus sofre indizivelmente quando ouve expor doutrinas falsas, principalmente entre católicos. Idéias errôneas acerca da pessoa de Jesus Cristo, desprezo pela Sua graça, o mais ligeiro ataque à honra de Sua Santa Mãe, a depreciação dos Sacramentos, opinião desfavorável às prerrogativas do Seu Vigário na terra, - cada uma destas coisas, expressa com mais ou menos leviandade numa conversação ordinária, fere-o a ponto de chegar mesmo a sentir uma dor física.

Pessoas sem reflexão talvez se escandalizem com isto que acabo de dizer, mas se alguém ousasse atacar diante delas a honra e a castidade de suas mães ou de suas irmãs, não haveria violência, ainda que fosse a efusão do sangue, à qual não se julgassem no direito de recorrer. E que é a honra de uma mãe em comparação da dignidade de Jesus? E que vale a reputação duma irmã, comparada com o menor título da Bem-Aventurada Virgem Maria? Não há mil vezes mais amor por mim no pai comum dos fiéis, sucessor de S. Pedro, que no coração de todos os meus parentes juntos?

Não sou obrigado em consciência a selar com o meu sangue a minha fé na virtude de minha mãe; mas seria um miserável se hesitasse em sacrificar a minha vida pela honra da Santa Sé. Não encontrareis um único Santo que não haja sido extremamente susceptível neste ponto, e que tenha podido ouvir, sem sofrer amargamente, a voz da heresia e das falsas doutrinas. E quando não existe este piedoso horror, então é tão certo como o sol brilhar nos céus, que o amor por Jesus é fraco e apagado no coração do homem.

Esta susceptibilidade pode manifestar-se, segundo as circunstâncias, a respeito de todos os interesses de Jesus que mencionamos no primeiro capítulo [a glória de Seu Pai, o fruto de Sua Paixão, a honra de Sua Mãe e a estimação da Sua graça].

Mas devemos notar uma coisa. Pode às vezes suceder que um indivíduo, que ame ardentemente a Nosso Senhor, mas desde pouco tempo, ultrapasse os limites da conveniência, tornando-se em seu zelo indiscreto, impaciente, brusco ou mordaz; terá suspeitas quando não haja o mais leve motivo para elas, e não sofrerá a indolência ou a frieza dos outros, como as sofreria se houvesse tido mais longa prática do amor de Deus. Isto lança muitas vezes a desconsideração sobre a virtude, pois ninguém é julgado com menos indulgência do que aqueles que fazem profissão de seguir a vida devota. Não negamos que tenha defeitos e imperfeições, estando nos primeiros degraus da vida espiritual; mas deve consolá-lo o pensamento de que muitas vezes, ao passo que é vituperado pelos homens, Jesus não o condena. Direi até que as imperfeições do seu amor nascente Lhe são agradáveis, enquanto que aborrece as 'sábias críticas' e a enfática moderação dos seus censores."

(Padre Frederick William FABER [1814-1863] in: TUDO POR JESUS ou CAMINHOS FÁCEIS DO AMOR DIVINO, Rio de Janeiro: s.d., Garnier-Livreiro Editor, p. 51-54, grifos nossos).

PS: Recebido por email, mantenho os grifos.

domingo, 24 de outubro de 2010

ATENÇÃO: Novena em sufrágio as almas do purgatório - Início (25/10 - Amanhã); término (02/11)

ATENÇÃO: Novena em sufrágio as almas do purgatório - Início (25/10 - Amanhã); término (02/11).




Amor de Deus

Amor de Deus


Muitas jovens cristãs se têm distinguido por uma grande piedade, que consiste no amor de Deus e na fidelidade ao Divino Salvador. Estavam resolvidas a sofrer tudo de boa vontade, a sacrificar até a própria vida, para não ofenderem a Deus e se não tornarem infiéis ao Seu Salvador.

A mártir Santa Susana brilhava em Roma pela alta nobreza do seu nascimento e pelos dotes excepcionais de espírito e de corpo. O Imperador Diocleciano desejava, então dá-la por esposa a seu cor-regente Galério Maximiano, e para este fim pediu-a ao pai. Dirigiu-se este imediatamente, à casa da filha e assim lhe falou:

- "Minha filha, compreendeste bem o valor e a superioridade de ser esposa de Cristo?"
- "Eu o conheço tão bem - replicou Susana - que em minha opinião, todas as coroas deste mundo nada são comparadas com Ele".

Instou Gabino? "Julgas retamente. Mas, se o Imperador te destinasse para esposa de Galério, a dignidade de imperatriz não venceria o teu amor ao Salvador Crucificado? Serás, acaso, bastante forte, para preferir, por amor de Cristo, morte cruel a cingir a coroa de Imperatriz?"

Radiante de júbilo, respondeu Susana: - "Ah! meu querido pai, quanto não me sentiria feliz, se me fosse concedido sacrificar a vida por amor ao divino esposo, que derramou Seu sangue pela minha salvação! Nenhuma púrpura seduz-me, nenhum martírio me atemoriza!"

- 'É o que provarás dentro em breve", respondeu comovido o pai cristão, animando a filha, para o combate iminente.

A todos os engodos e adulações, como também as ameaças e injúrias, Susana opôs inabalável firmeza.

Os mais cruéis martírios, nem sequer um instante a fizeram vacilar no seu amor ao Divino Salvador.

Não precisas, leitora cristã, sofrer pelo teu Divino Salvador, a morte violenta pelo martírio doloroso: deves, todavia oferecer-Lhe o primeiro lugar no teu coração juvenil; quer te chame Deus para o matrimônio, quer para o estado religioso ou para uma constante vida de solteira no mundo.

1º- Ama a teu Deus e Salvador acima de tudo!

Ninguém, como Ele, é tão infinitamente amável. A beleza e elegância, a bondade e virtude, a perfeição e amabilidade de todos os homens nobres, de todos os bem-aventurados e santos do céu, e até da própria Santíssima Virgem Maria, nada são, confrontadas com a bondade e perfeição de Deus.

É como uma gota de água comparada com o imenso oceano, o qual não se pode atravessar com a vista, e que tão facilmente sustenta os maiores navios, como se fossem franzinas e leves palhas.

Deus é infinitamente belo e nobre, infinitamente bom e perfeito, infinitamente digno de louvor e amor. Enche com Sua magnificência o céu em toda imensidade, arrebata com Sua beleza os espíritos mais sublimes do empíreo, inebriando-os de alegria e delícias inexprimíveis.

Para Ele, certamente, o teu pequeno e imperfeito coração não é demasiado grande. Ama-O, portanto, de todo o coração, e com toda a força que puderes.

2º - Teu Deus e Salvador ama-te, acima de tudo.

De fato: não existe ninguém, nem no céu, nem na terra que te ame infinitamente e com tanto extremo como o teu Deus.

É certo que teus pais te amam, deveras, e de todo o coração, desejam a tua maior felicidade e se sacrificam inteiramente por ti.

Talvez, tenhas uma irmã dedicada, um bom irmão ou um amigo nobre, que te querem muito e em cujo amor sincero podes confiar. No entanto, infinitamente mais do que estes te ama teu Deus e Salvador. Enquanto estou a escrever estas linhas, aproxima-se o Natal; mais alguns dias apenas, e celebraremos a augusta e santa festa.

Milhares de cristãos cantarão com entusiasmo as magníficas canções do Natal. A alegria brilhará em todos os olhos, semelhante a uma torrente de delícias inebriantes, que percorre toda a cristandade e penetra todos os corações em que ainda brilha o lume da fé.

Que é que torna este dia tão querido ao nosso coração, e tão desejado por nós, senão porque o Natal corresponde perfeitamente às esperanças de nossa alma e a arrebata num transporte de entusiasmo?

É o pensamento do amor do Divino Salvador para com os homens pecadores.

Ajoelhamos, em espírito, perante o pequeno e frio presépio de Jesus, contemplamos a Sua profunda humilhação, vemo-lO tão pequeno, frágil e pobre, modestamente reclinado sobre algumas palhas.

A exemplo do sábio São Jerônimo, tomaremos as tenras mãozinhas do Menino e as apertarmos contra os nossos lábios, agradecendo-Lhe de coração o infinito amor, que O obriga a tornar-Se tão pequeno por nossa causa, a humilhar-se tão profundamente e de modo tão inefável por nosso amor.

Como o presépio, a Cruz erguida no Calvário também nos fala do amor de Jesus.

Lá está suspenso o Divino Salvador, torturado pelas dores mais cruéis sobre o duro madeiro da Cruz; mãos e pés transpassados por agudos cravos; cabeça cingida por uma coroa de espinhos; o sagrado corpo como que semeado de chagas; a alma, por assim dizer, imersa num mar de íntimos sofrimentos. Tudo isto suporta Ele por teu amor, para tua salvação.

Suas chagas segredam-te: vê a que extremos te amou o teu Jesus. Não queres, tu também, amá-lO? Não queres, até o último alento de tua vida, manifestar-Lhe a tua gratidão por este amor?

Desvia, depois, o teu olhar da Cruz ensanguentada para o solitário Tabernáculo da tua igreja paroquial.

Dia e noite, arde diante dele uma chama tênue. Lembra-te que, debaixo das acanhadas formas do pão, está presente o teu Deus e Salvador, "luz que ilumina a todo homem que vem a este mundo". Aqui se humilha por amor de nós, ainda mais do que no presépio e no Calvário: porque lá manifesta-se em Sua figura humana e ostenta ainda alguns fugitivos raios da Sua divindade.

Por ocasião do Seu nascimento uma luz celestial se estende pelas campinas de Belém com uma claridade admirável, e ouvimos o canto dos anjos. No momento de Sua morte na Cruz as trevas envolvem o sol, partem-se os rochedos, abrem-se os sepulcros, e um pressentimento misterioso penetra os corações dos assistentes, a tal ponto que, tomado de profunda comoção o centurião exclama: "Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus!"

Mas aqui, sobre o altar, até a Sua própria natureza humana o Senhor oculta aos nossos olhos e Se esconde por inteiro sob as pequenas e diminutas formas do pão. Nem sequer um raio da Sua divina magnificência e do Seu poder Ele permite que transpareça; só a humilhação, a mais profunda humilhação que se pode conceber, é o que Ele aqui apresenta. E tudo isto por amor de nós, homens pecadores! A fim de permanecer entre nós, homens pecadores!

A fim de permanecer entre nós, como nosso amigo e irmão, para se sacrificar quotidianamente por nós, de modo incruento, para poder, até mesmo na Sagrada Comunhão, converter-se em alimento das nossas almas.

Ele escolheu esta atitude da mais extraordinária humilhação. Este amor tão grande e tão íntimo, que excede a nossa imaginação, não merece, porventura, a correspondência do teu amor completo e constante, donzela cristã?

Deves, frequentemente, dizer a ti mesma: nunca poderia corresponder integralmente ao infinito amor de meu Jesus, nunca chegarei a amá-lO suficientemente, e a agradecê-Lhe como Ele merece!

Eis, porque, pretendo ao menos, esforçar-me o mais possível para remunerá-lO por tudo quanto, Ele fez e sofreu por mim; até o último alento da minha vida, quero permanecer fiel ao amor que Lhe consagrei!

3º- Ama, acima de tudo, ao teu Deus e Salvador.

Nada há que tanto enobreça teu coração, como o amor de Deus! Este amor te defenderá contra o pecado, que desfigura e afeia o coração do homem. Com razão diz São Jerônimo:

"Ama a Deus e faze depois o que quiseres". Tinha este santo a firme persuasão de que, ninguém pode amar a Deus e ofendê-lO deliberadamente: é impossível.

Assegura-o o mesmo Divino Salvador: "Se alguém me ama guardará a minha palavra". (Jo. 14,23).

O amor de Deus fará teu coração propenso ao sacrifício. De fato: quem ama a Deus, deveras, se esforça para que os outros O conheçam sempre melhor e O amem mais intimamente. Todo sacrifício feito para este fim, parecer-lhe-á doce e santo dever.

O amor de Deus infundirá em teu coração a coragem forte para as penosas dificuldades da vida. Este amor dará a tais penas uma quase consagração e na abnegada renúncia, elas encontrarão o seu aperfeiçoamento e coroa.

Não é isto que nos atestam os grandes heróis do amor divino? Enfrentando todos os sofrimentos e dificuldades, não exclamam triunfantes São Paulo, o Apóstolo dos gentios: "Quem nos poderá separar do amor de Cristo?" (Rom. 8,35).

O amor de Deus, finalmente, fará teu coração bondoso e serviçal para com teu próximo. Se amares a Deus como te cumpre, verás então em cada homem a imagem de Jesus, o Filho querido de Deus, e amarás por causa de Deus, cumprindo a palavra do teu Divino Salvador: "Amarás a teu próximo como a ti mesmo" (Mt. 22,39).

Visto que o amor de Deus exerce sobre ti salutar influxo, deves procurar aperfeiçoar-te de maneira particular nesta importante virtude.

Acostuma-te a exercitar em ti frequentes atos de amor de Deus; pela manhã, quando despertares; à noite, quando te entregares ao descanso; durante o dia, enquanto te dedicas a algum trabalho; e até mesmo nos momentos de folga, em que refazes as forças consumidas pela fadiga.

Nas ocasiões em que estás sozinha, deixa partir de teus lábios, ou ao menos pronuncia no teu íntimo estas palavras: Ó, meu Deus, eu Vos amo sobre todas as coisas, porque sois infinitamente bom, infinitamente perfeito e digno de amor. Ó meu Salvador, eu Vos amo sobre todas as coisas porque Vós me amastes infinitamente e me cumulastes de muitas graças.

Acostuma-te a executar com prazer, por amor de Deus, os teus trabalhos diários e a aceitar de boa mente os dissabores.

Renova, para tanto, muitas vezes as tuas boas intenções e propósito.

Reforça e melhora frequentemente o teu amor a Deus por meio de uma grande piedade para com o SS. Sacramento do Altar, no qual o Divino Salvador te dá a maior prova de amor. Visita, com prazer, o Senhor no Tabernáculo; assiste, se puderes, também nos dias úteis, ao santo sacrifício da Missa, recebe amiúde a sagrada Comunhão. Assim agindo, o teu amor a Deus, receberá sempre nova força e novo calor.

(Donzela cristã - Pe. Matias de Bermscheid)

PS: Grifos meus.

sábado, 23 de outubro de 2010

ESPECIAL: As sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo

ESPÍRITO E VIDA
(As Sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo,
pelo Pe. J.Cabral, edição de 1935)


SEDE BEM-VINDAS, Ó PÁGINAS CONSOLADORAS
O REDENTOR DO MUNDO
VII - PALAVRA

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SEDE BEM-VINDAS, Ó PÁGINAS CONSOLADORAS

(...) Que diremos e que pensaremos de Jesus Crucificado? Ele está mil vezes mais perto do que as figuras de nossa história e de nossos contos; a Ele estamos unidos por afinidades mais estreitas e por laços mais fortes do que os da aliança ou do sangue. Ele para nós é tudo.... omnia et in ommbus Christus
(Eph. 4,6; Col, 3,11).

Não tivemos a alegria de vê-lO, de ouvi-lO, de segui-lO, passo a passo. Mas sabemos quem é Ele, de onde veio, aquilo que realizou, o que sofreu... patres nostri narraverunt nobis. Os séculos cristãos falaram-nos d'Ele - e em que termos! - Eram os herdeiros das primeiras testemunhas sicut tradiderunt nobis qui ab initio ipsi viderunt.

Que nos informaram estes séculos pretéritos? Que jamais grandeza tamanha conheceu tão grande infortúnio; que jamais destino maior foi humanamente mais lamentável pela extensão das penas e amarguras, pela injustiça do tratamento; que um amor mais desinteressado e magnanimo nunca se achou tão desprezado! Que mais será preciso afim de nos comover? Felizes, em verdade, os homens que, desde cedo, se impregnaram destas evocações tão importantes! Que acentos acham os corações generosos quando as reavivam!

É nosso dever conservar estas recordações da Paixão de Jesus Cristo com o mais religioso cuidado.

Recogitate eum qui talem sustinuit a peccatoribus contradictionem (Heb. 12,5). Releiam a Paixão; sigamos hora por hora, palavra por palavra seus pormenores impressionantes. Refaçamos, passo a passo, a estrada ensangrentada cujas pedras Lhe foram atiradas por mãos de algozes sem entranhas. Sigamos a via da amargura com o pequeno grupo fiel, com a Mãe Dolorosa, com as santas mulheres, com o discípulo amado. Demoremo-nos aos pés da Cruz, no alto do Calvário, e escutemos as palavras de Jesus Cristo.

Amemos aquelas chagas que, no dizer de Bossuet, formam a beleza do Cristo. Elas são os sinais de Sua soberania. Pela efusão do sangue na Cruz Ele é, ao mesmo tempo, o Rei Salvador e o Pontífice Salvador. Ele não é como os devastadores de província; triunfa pela ventura que destina aos Seus filhos.

"Nestas linhas apagadas, nestes olhos machucados, neste semblante que inspira desolação, diz Bossuet, eu descubro os traços de incomparável beleza: Não! Não! estes cruéis dilaceramentos não desfiguraram o semblante do Salvador; aformosearam-nO a meus olhos. São minhas delícias as chagas do Redentor. Eu as beijo e as orvalho de lágrimas. Há no amor de meu Rei Salvador o singularíssimo esplendor de uma beleza que transporta as almas fiéis".

Escreveu com acerto Santo Agostinho:

"Crux Christ non solum est lectulus morientis sed et cathedra docentis (Orat; 119 in Joannem)" - A Cruz não é somente o leito de dor em que Jesus expira, mas é a cadeira de onde Ele ensina."

Pelas palavras e pelos exemplos que promanam desta cadeira, o Salvador edifica as almas através dos séculos. No Segundo sermão sobre a Paixão dá Bossuet ao Divino Crucificado o nome de  livro "Abri vós mesmos este livro... as letras são de sangue... empregaram o ferro e a violência para gravá-las profundamente no corpo de Jesus Crucificado".

O livro preferido dos santos era o Crucificado; encontravam ali a fonte da ciência que os levava para Deus. Repetia São Jerônimo aos discípulos:

"Lede e relede o Cristo".

São Vicente Ferrer não se separava jamais de seu crucifixo; declarava que este contém todas as luzes das Sagradas Escrituras, chamava-o sua grande Bíblia.

Compararam São Thomaz de Villa Nova a São Paulo pela doutrina e a Elias pelo zelo. Onde hauriu o confessor da fé a sabedoria sobrenatural com que converteu e iluminou tantas almas? respondeu ele um dia: "menos nos livros do que nos pés do Crucifixo!"

O Crucificado é a escola das renúncias quotidianas. À vista da imagem do Redentor, na Cruz, Santa Izabel da Húngria, Santa Catarina de Senna e Santa Marganda de Cortona rejeitaram a púrpura, os ornatos deste mundo e a fascinação das bagatelas.

O Crucifixo é a escola da oração.

Santa Teresa, Santa Madalena de Pazzi, São Bruno, São Bernardo, São Francisco de Assis, São Boaventura, todos os grandes contemplativos da idade Média onde terão encontrado as labaredas do amor de Deus?

O Crucificado é para os fiéis manual de meditação quotidiana. Ele abençoa os trabalhos, santifica as conversações, tempera os prazeres e balsamiza os sofrimentos.

Ao pé da Santa Imagem, repete o cristão as palavras de São Paulo:

"Sicut abundant passiones Christi in nobis, ita et per Christum abundat consolatio nostra. - Assim como são abundantes os sofrimentos de Cristo em nós, assim também pelo Cristo é superabundante nossa consolação."

Sofremos todos nós através da vida. O Crucificado, relembra-nos que, unida à Paixão de Cristo, a dor é expiatória e meritória; ensinar-nos-á que a dor é amável em seu exemplar divino.

Perreyve escreve, numa página de emoção:

"O pranto corre bem sobre Vossa imagem, ó Divino Crucificado. As lágrimas do homem conhecem-nO. Há entre a Cruz e as dores humanas eterna conformidade."

"Não posso mais orar, murmurava Lacordaire, nos momentos derradeiros, mas eu O contemplo!" E não tirava os olhos do Crucificado.

No alto da fogueira, prestres a ser devorada pelas chamas, Santa Joana d'Arc cobria de beijos e lágrimas uma cruz de madeira feita, no momento, por um soldado.

Suplicou que lhe trouxessem o Crucificado da Igreja próxima. Foi atendida. Ao religioso, que a acompanhava, pediu que levantasse a Cruz e a conservasse bem alto, enquanto ela estivesse viva; queria contemplá-la até o suspiro extremo. As labaredas envolveram-na. E a heroína francesa morreru com os olhos fixos na imagem de Jesus Cristo pregado à Cruz.

São Francisco Xavier, o general Lamoricière e Pasteur, nos minutos finais, seguravam e beijavam o Crucifixo.

Um poeta do século passado pergunta ao Crucificado, em estrófes sublimes, o que é que Ele murmura aos ouvidos do moribundo:

"Aos lábios dos moribundos colados na agonia - como derradeiro amigo, para iluminar o horror desta passagem estreita, - para soerguer até Deus seus olhares amortecidos, ó Divino Consolador, - cuja imagem osculamos, - responde: que lhe dizes Vós?"

A história da Igreja responde:

"Ao ouvido dos pecadores o Crucificado murmura uma palavra de perdão; aos que tremem, uma palavra de confiança; às almas puras, uma palavra de amor".
(O livro de J. Hoppenot de que colhem esta formosa página intitula-se Le Crucifix dans l'Histoire, dans l'art, dans l'ame des Saints et dans notre Vie.)

Uma alma de virtudes eminentes compôs estas estrófes admiráveis que tecem a mais sentida e a mais fervorosa das preces:

Meu Crucificado!
Eu O levo a toda a parte;
Eu O prefiro a tudo;

Quando caio, Ele me levanta;
Quando choro, Ele me consola;
Quando sofro, Ele me cura;
Quando tremo, Ele me tranquiliza;
Quando chamo, Ele me responde.

Meu Crucificado!
Ele é a luz, que me ilumina;
O sol, que me aquece;
O alimento, que me nutre;
A fonte que me desaltera;
A doçura, que me cura;
O bálsamo, que me cura;
A beleza, que me encanta!

Meu Crucificado!
Ele é a solidão, em que repouso;
O reduto, a que me acolho;
A frágua, que me consome;
O oceano, em que mergulho;
O abismo, em que me perco!

Feliz a inspiração do Revmo. Cônego J.Cabral, no tema escolhido para estas páginas de espiritualidade. É grande, é muito grande, no Brasil, o número de corações, que consagram fervorosa à Sagrada Paixão de nosso Redentor. Com quanto enlevo, com que intenso júbilo, acolherão estas almas o livro precioso do ilustre publicista!

Através destes capítulos enriquecidos, pela mais pura doutrina dos Santos Padres, aprenderemos as lições de Jesus Cristo agonizante.

Quantos e quão preciosos ensinamentos, quantas consolações profundas, iremos encontrar nas palavras que o Mestre Divino pronunciou na agonia do Calvário! Que soma incalculável de benefícios espirituais vão estas páginas espalhar na seara imensa das almas!

Sede bendito, ó Testamento emocionate do Redentor dos homens!
Sede bem-vindas, ó páginas consoladoras!

(Padre Heliodoro Pires, São Paulo, dia do Preciosíssimo Sangue de N.S.Jesus Cristo, 1-VII-1936)

PS: Grifos meus.

Benevolência para com o próximo

Benevolência para com o próximo


Deus quando formou o coração do homem, plasmou-o na bondade”, estas palavras do genial Bossuet se aplicam a todos nós, principalmente à mulher, a quem Deus enriqueceu com tesouros de bondade e delicadezas tais, que a torna apta para suavizar as horas amargas da vida.

Á vista da desgraça alheia, não se comove o coração da mulher muito mais depressa que o do homem? Não chora a moça e a mulher de vezes antes, sobre o infortúnio alheio? Não estendem com mais prazer sua mão benfazeja para suavizar a necessidade alheia? Em regra não resolvem dez moças consagrar-se, como irmãs de caridade, às obras de misericórdia cristã, antes que só rapaz queira prestar-se a tal sacrifício?

Este traço de bondade e benevolência, com que Deus marcou coração feminino, deves, jovem cristã, procurar conservá-lo e avivá-lo sempre mais. Não te é apenas um adorno: também se lhe anexa um grande poder, muito salutar e benfazejo a outrem.

O conhecido escritor inglês Faber, assim se exprime sobre o poder da benevolência:

Vejo uma multidão de pequenos entes, com as faces veladas, quem em união com a graça e com os anjos executam as suas obras. Esvoaçam por toda a parte. Consolam os tristes, tranqüilizam os aflitos, acalmam os enfermos, acendem nos olhos dos moribundos um raio de esperança, mitigam as dores dos corações aflitos e desviam os homens do pecado. Parecem dotados de força surpreendente: conseguem o que os anjos não podem; insinuam-se nos corações, a cujas portas se lhes abrem, voam de novo estes pequenos mensageiros do Pai do Céu, para levar a graça. Estes pequenos, mas poderosos entes, são os atos de bondade, que da manhã à noite se acham ao serviço do bom Deus”.

Servindo-se de uma comparação tirada da vida dos animais, certo escritor francês procura expor o benefício influxo da benevolência, fazendo-nos ver como os próprios animais não são insensíveis ao toque da bondade.

É a história de um pobre cãozinho, que corre apressado ao longo do muro e se esconde quanto pode. As crianças perseguem-no. Os trausentes o repelem a ponta-pés. É um cão do campo, cujo dono o expulsou. Magro, faminto, imundo, passa as noites ao relento nos portões, de orelha em pé, receoso de ser enxotado impiedosamente. Ninguém lhe dá um olhar carinhoso, e até os outros cães o assaltam com desprezo, por não serem tão magros quanto ele. Passa um homem; o pobre animal adivinha nele um salvador e se lhe arroja aos pés, implorando alguma coisa com um olhar de amargura e tristeza.

O homem acaricia o cãozinho, toma-o consigo e o restaura novamente. Pouco tempo depois o animal adquire uma aparência tão bela, e altiva, que todos o apreciam e já ninguém o maltrata. Se tivesse permanecido faminto e desgraçado, a raiva, a loucura, se teriam apoderado dele. Como foi objeto de amor e assistência, mostrou-se tão fiel e agradecido, e recuperou aquela aparência bonita que os mesmos cães que antes o mordiam com desprezo, agora o olham com inveja. Assim acontece também entre os homens: a bondade torna-os felizes e a felicidade comunica-lhes beleza e dignidade.

1º- Sê, portanto jovem cristã, benévola e caridosa nos pensamentos, com relação ao teu próximo.

A caridade não suspeita mal”, diz o apóstolo dos gentios. Não concede nenhum pensamento injusto, nenhuma desconfiança infundada, nenhuma prevenção. Dificilmente acredita no mal que vê; desculpa de bom grado a intenção quando não pode desculpar a ação.

Se possuíres caridade, muito mais facilmente e com maior prazer, dirigirás os teus pensamentos e a tua atenção interna, antes para as qualidades do teu próximo do que para as suas faltas. De fato, toda pessoa a par das imperfeições e defeitos, possui também boas qualidades. É o que te será fácil reconhecer e levar em consideração, sem julgar com muita severidade as faltas alheias nem demasiado te ocupar com elas.

Sê como a abelha delicada que pousa sobre as flores e delas suga o doce néctar, evitando feri-se nos espinhos. Disse um grande educador: “quem nutrir amiúde pensamentos benévolos a respeito do próximo, instigado por motivos sobrenaturais, não estará muito longe de se tornar santo”.

Numerosos cristãos, mesmo assíduos à prece, á recepção dos Sacramentos nem por isto se tornam santos, por não resistirem com bastante energia a pensamentos menos caritativos que se lhes revolvem no interior, e proferirem acerca das demais sentenças duras e inclementes.

E quantas penas severas não atrairemos sobre nós, o Purgatório, por causa desta insensibilidade! Com todas estas asperezas ser-nos-á impossível entrar no céu, e fruir da visão de Deus, que é o próprio Amor. Nem a morte as removerá do nosso coração; só restará que sejam aniquiladas em nossas almas, pelas chamas do Purgatório. E, se estas asperezas e insensibilidades forem muito graves, deveremos, então, temer que o seu peso nos arraste ainda mais a baixo, àquela tremenda profundeza, onde não reina mais nenhum amor, e da qual ninguém se poderá evadir.

2º- Sê ainda benévola e caridosa no falar.

Primeiro, no trato com teu próximo. Tem sério cuidado em falar , sempre com tranqüilidade e mansidão com as pessoas das tuas relações, que, destarte ganharás domínio sobre elas. É belo o provérbio alemão, que assim reza: “uma boa palavra encontra um bom eco”. – ein gutes Wort findet einem guten Ort.

Muitas amizades nobres e devotadas, que nada poderá desligar, tiveram o seu começo em palavras amáveis, saídas de um bom coração. Quantas desconfianças e preconceitos, nutridos por longo tempo contra uma pessoa, não cessam de todo, porque num encontro aparentemente fortuito com ela, se ouve de seus lábios palavras afáveis e cordiais! É como bálsamo sobre o coração; tudo se torna claro e pacífico, toda prevenção desaparece e renasce o entusiasmo. E, no entanto, foram apenas umas poucas palavras, que momentos depois o vento dissipou: mas a doçura e suavidade com que foram pronunciadas, tiveram a virtude de afastar do coração a camada de gelo e convertê-lo completamente.

Antes de tudo, guarda-te daquela nervosa irritabilidade tão comum, em nossos tempos, que se procura desculpar, com tamanha facilidade, e que ocasiona tantas amarguras, dá aso a palavras ásperas e severas observações.
 
Aprende a dominar-te, até mesmo quando pensas que possuis nervos delicados e fracos, e permite somente palavras que alegrem e edifiquem.

Deves também ser benévola quando te revelam faltas do teu próximo. É muito importante chamar atenção sobre este ponto. Que de males não causa quem discorre, com tanto prazer, sobre as faltas e defeitos dos outros! Quantos ódios e desavenças, rixas e altercações e ciúmes produz! Quanta confusão e desordem cria! Com muita razão, diz a Sagrada Escritura; “Aguçam as línguas viperinas; têm veneno de áspides debaixo de seus lábios” (Sl. 139,4).

Com muito rigor e severidade, fala São Bernardo a esse respeito, não obstante, o seu cognome de melífluo:

Não é porventura a língua a cobra mais cruel? Sem dúvida, com seu hálito ela envenena mortalmente. Não é a língua uma lança pontiaguda? Sem dúvida, a mais pontiaguda de todas, porque de um só golpe fere três homens, ao mesmo tempo; aquele a quem desonra, aquele que ouve, e aquele que fala”.

Eis porque não deves falar sobre as faltas do teu próximo, a não ser que o exija um motivo importante, e mesmo, neste caso, sem excitação apaixonada e só o necessário. Se outras pessoas em tua presença conduzem a conversa para tais assuntos, sem necessidade, esforça-te por dar à palestra outra direção, ou defende a honra do próximo com palavras pacíficas e brandas, chama a atenção dos que assim falam para a injustiça e crueldade de tais maledicências.

Deste modo desempenharás o pacífico dos anjos, suavizarás a hora da tua morte e merecerás sentença benigna no tribunal divino.

Jovem cristã, sê benévola para com os outros em todo o teu proceder, fecunda em obras de misericórdia, sobretudo se puderes dispor de tempo e folgas e dissipações, em prazeres e divertimentos. Tudo isto tornar-te-á fútil e superficial; roubar-te-á a energia da vontade, de que necessitas, a fim de poderes dominar as tuas más inclinações, criará em ti um sentimento mundano, que a seu tempo dissipará o espírito cristão e fará com que tenhas por estranhos Deus e Sua santíssima vontade.

Não percorras o caminho da vida fria, insensível e inconsideradamente. Reflete, muitas vezes, na bondade de Deus para contigo, e confronta a tua situação com a daqueles que têm de suportar um destino duro e cruel.

Teus pais desdobraram-se para proporcionar-te educação esmerada e não pouparam esforços para dar-te instrução suficiente, a fim de que enfrentes o porvir com ânimo sereno.

Outros há que, muito cedo, perderam os pais, pobres órfãos, não encontraram ninguém que se interessasse pela sua educação e subsistência.

Não poderias economizar alguma coisa nos teus vestidos e recreações, a fim de contribuir, com um óbolo para a educação de tais órfãos desamparados? Trajas roupas finas com apuro e bom gosto, alimentas-te diariamente em mesa farta, dormes em leito macio, habitas uma casa que no inverno é agradavelmente aquecida, e onde nada falta para a tua comodidade.

Muitos há que não conhecem tais coisas por experiência; tantas casas onde o pai, cuidadoso sustentáculo do lar, demasiado cedo desapareceu da vida ou jaz enfermo desde há muito, pelo que a pobre mãe se vê obrigada a dedicar-se a duro trabalho para sustentar os queridos filhos; e todavia, a despeito das suas canseiras, apenas lhe é possível saciar-lhes a fome com mesquinha alimentação e provê-los de roupa suficiente.

Não poderias, nas horas disponíveis, confeccionar para essas crianças enregeladas um agasalho quente?

O Divino Salvador, sem dúvida, haveria de recompensar-te largamente, como fez outrora a São Martinho, o qual, sendo soldado, numa noite de inverno cedeu a um mendigo que tiritava de frio a metade do seu manto.

Gozas, talvez, de saúde exuberante e sentes como o sangue circula rápido e vivo em tuas veias; no entanto, quantos doentes jazem longo tempo em seu pobre leito de dores, sem dinheiro para chamar um médico, e sem alimento que lhes possa fortalecer e restituir as energias consumidas pela doença.

Dize-me, não poderias passar pelo tugúrio destes pobres, a fim de fazeres algo por eles e alegrá-los com algum caridoso auxílio? Oh! tem certeza de que entrarias no quarto, ou melhor, no coração destes doentes, como o sol brilhante e benéfico; sentirias com isto maior alegria interna e delícias mais intensas das que gozas num baile aparatoso ou num passeio divertido.

Sim, a benevolência fazem-nos semelhantes a Deus, granjeiam-nos seus favores e destilam em nosso coração descanso e paz.

Luís XVI e sua esposa Maria Antonieta passeavam certa vez ás sombras da floresta pitoresca de Versalhes. Encontraram-se com uma jovem que trazia um prato com uma só colher de estanho.

- "Que trazes tu, aí?" interrogou a Princesa.
-"Alteza, a sopa para meu pai e para minha mãe, que trabalham lá em baixo, no campo".
- "Com que foi preparada?"
- "Com água e raízes".
- "Sem carne?"
- "Ah! senhora, nós nos sentimos felizes e contentes, quando temos apenas pão".
-  "Leva, então, esta moeda de ouro a teu pai, para que vos provenha de alimentos mais substanciosos".

Cheia de alegria retirou-se a jovem, e Maria Antonieta seguiu-a com os olhos.

Viu, pouco depois, que a pobre gente se punha de joelhos no meio do campo.

- "Vês? meu querido, - exclamou a Princesa - estão rezando por nós. Oh! Deus, quanto é doce fazer o bem!"

Nunca te esqueças pois destas palavras da Sagrada Escritura:

"Não se afastem de ti a misericórdia e a verdade; põe-nas ao redor do teu pescoço, e grave-as sobre as tábuas do teu coração, que assim encontrarás graça e boa opinião perante Deus e perante os homens". (Prov., 3,3-4).

Reflete amiúdo também sobre as palavras de São João Crisóstomo:

"Diante de Deus, mais vale ser misericordioso do que ressuscitar mortos, pois é obra melhor alimentar a Cristo faminto, do que em Seu nome ressuscitar mortos".

(Donzela cristã, Pe. Matias de Bremscheid)

PS: Grifos meus.

A educação da gratidão

A educação da gratidão


1º - O sentimento de gratidão é de todo conforme à nossa natureza.

Diz o grande teólogo, Santo Tomás de Aquino: "Todo efeito segue a natureza da causa que o produz, e de maneira proporcionada à mesma coisa". Ora, o benfeitor é causa do benefício que produz. Portanto, deve o beneficiado voltar ao benfeitor, e voltar com a inteligência que reconhece e com a vontade que avalia o beneficio.

Exprimir por meio da inteligência e da vontade o próprio reconhecimento, é praticar um ato adequado à natureza humana. Corresponde a gratidão não somente à natureza humana, senão também às criaturas irracionais, ao mundo animal.

É o que indica a comovente queixa de Deus, no profeta Isaías: "Ouvi, céus, e tu, ó terra, escuta, porque o Senhor é quem falou: Criei filhos e engrandeci-os, porém, eles me desprezaram. Conhece o boi o seu possuidor e o jumento o presépio do seu dono; mas Israel não me conheceu, e o meu povo não teve inteligência!" (Is. 1,2-3).

Até os próprios animais não são indiferentes à gratidão. Certa vez, em Roma um escravo desertor, chamado Androcio, fora lançado no anfiteatro a um leão, e a fera se pôs a acariciar o escravo.

Maravilharam-se os espectadores.

A admiração, porém, chegou ao auge quando souberam que o escravo, por espaço de três anos, tinha permanecido no deserto da África e lá havia curado a pata deste mesmo leão. Foi o escravo imediatamente indultado.

Ora, se os irracionais, como o leão feroz, se mostram assim agradecidos, não será profundamente vergonhoso para o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, não testemunhar nenhum amor e gratidão a seu benfeitor?

2º- A gratidão é sinal de um coração nobre.

Quem não conhece a gratidão, manifesta-se intimamente estólido acerca do bem que lhe fazem; não possui nenhum sentimento nobre e delicado.

O egoísmo faz que se desenvolva cada vez mais no seu interior a grosseria; torna-se vulgar e mesquinho.

Coisa muito diferente sucede ao homem agradecido. Possui um coração nobre. De sentimentos delicados, mostra-se reconhecido a cada benefício que recebe, a cada favor que lhe fazem. É para ele um prazer e uma necessidade declarar-se, novamente grato, em qualquer ocasião, quando não com dádivas e presentes, ao menos com sinceridade e alegria.

Daí provém a suposição de que o homem agradecido é quase sempre um homem contente e satisfeito.

Ocorre-lhe amiúde, a grata lembrança desta ou daquela atenção e amabilidade, que lhe demonstraram, embora pequena e insignificante.

Sim, a gratidão não olvida os pequenos benefícios, nem os mais ínfimos. Não é isto, prova de um coração bom e nobre? Assim disposto, não se desenvolvem nele a maravilhosa ação de graça? Ao passo que a ingratidão convoca, por assim dizer, ao redor de si todos os maus espíritos e lhes franqueia a porta do coração.

Visto ser a gratidão própria de um coração nobre, os santos foram também os homens mais agradecidos. Como se distinguir nesta virtude o grande Rei Davi! Após a morte de Jônatas, de quem recebera tantos benefícios, mandou que trouxessem à sua presença o filho dele, que era coxo, e lhe restituiu todos os campos de Saul (II Reis, 9).

Quando Davi se empenhou em guerra contra seu filho ingrato, faltaram-lhe todos os meios de subsistência. Um velho rico trouxe-lhe então o necessário. Para recompensá-lo quis Davi, conduzi-lo à Jerusalém no seu palácio real, para que ele transcorresse ali a velhice. Como o velho recusasse, em virtude da sua avançada idade, tomou-lhe Davi consigo o filho e cumulou-o de todos os benefícios. Ainda, antes de morrer, pediu a Salomão que não esquecesse o filho daquele velho e que fizesse comer à mesa.

3º - A gratidão é também uma virtude que se pode, facilmente, exercitar.

Sem dúvida, há casos em que a prática de certas virtudes oferecem dificuldades. Por exemplo, um adversário ou inimigo, que de muitos modos, te embaraça e procura contrariar e frustrar as tuas intenções e os teus planos, que não desiste de te ofender, às vezes gravemente; como não será difícil, neste caso praticar essa virtude cristã do amor ao próximo!

Quão difícil te não será em tais circunstâncias observar a palavra do Divino Salvador: “Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, e orai por aqueles que vos perseguem e caluniam” (Mt., 5,44).

E não será também, muitas vezes difícil e árduo para uma moça, o conservar a pureza do coração? Quando, no seu interior, se levantam violentas e obstinadas tentações, e talvez externamente se lhe deparam perigos sedutores, não terá então necessidade de combater, seriamente, e estar, sobretudo, atenta e precavida, para não sofrer nenhum dano?

Dá-se o contrário, com a gratidão. Para exercitá-la não precisa empenhar-te em grandes e difíceis combates, não tens necessidade de afastar perigos externos, basta que sigas o pendor inato e nobre do teu coração. Basta apenas que às pessoas que se mostram benévolos para contigo, tenhas uma palavra de agradecimento, uma reconhecida apreciação do benefício e que lhes faças uma ou outra vez algum pequeno favor.

Não é isto extremamente fácil, não é isto um alívio para o teu próprio coração?

E embora a gratidão pelos benefícios recebidos exigisse um sacrifício ainda maior ou a retribuição de maior favor, este sacrifício será feito com certo entusiasmo e infundirá, no coração, tão grande alegria, que dificilmente se poderá sentir o seu peso, ou incômodo. Não há com efeito, nenhuma virtude tão fácil de se praticar, como a gratidão: eis porque merece tanto maior censura quem se mostra ingrato.

4º - A gratidão é uma virtude que nos granjeia a benevolência dos outros e os torna propensos a conceder-nos novos benefícios.

Diz São João Damasceno: “Assim como um pequeno remédio muitas vezes nos livra de uma doença grave, assim também o sincero agradecimento pelos pequenos benefícios, alcança-nos amiúde grandes favores”.

Ninguém gosta de tratar com o ingrato, por que geralmente, é mesquinho, egoísta e enfadonho. Ninguém gosta de lhes fazer benefícios, porque não deseja ver os seus dons tratados com indiferença e desprezo.

Com a pessoa educada, acostumada a agradecer os favores, todos gostam de tratar, em razão da sua bondade interna e nobreza de sentimentos: de cada benefício recebido e de cada favor que lhe concedem, faz com que um suave laço que o liga ao seu benfeitor.

Enquanto a ingratidão favorece o egoísmo, a gratidão torna o amor ao próximo mais intenso e cordial, conquista renovada benevolência dos nossos semelhantes.

Sê, portanto, agradecida sempre. Antes de tudo e em primeiro lugar, a teu Deus e Senhor que é, sem dúvida, o teu maior Benfeitor.

Com o Rei Salmista, podes também tu dizer: “Que dareis em retribuição ao Senhor, por todos os benefícios que me tem feito?” (Sl. 115,3). Adquire o santo costume de agradecer a Deus todas as noites, em breves palavras, todos os favores que te fez. E cada vez que te conceder um benefício especial ou te distinguir com uma felicidade particular, não deixes de Lhe agradecer, ainda do íntimo da alma e de todo o coração.

Sê, depois, agradecida a teus queridos pais que, desde os primeiros momentos da tua existência te consagraram o seu maior amor e cuidado.

Com muita razão diz São Lourenço Justiniano: “Enquanto vivermos sobre a terra, seremos sempre devedores a nossos pais. Não poderemos jamais saldar a grande dívida que com eles contraímos”.

Pelo menos, em parte, havemos de procurar fazê-lo do melhor modo possível. Por gratidão proporciona a teus pais, com teu bom proceder, grande alegria; por tua aplicação e vida virtuosa, esforça-te para seres as delícias, o orgulho deles.

Quão triste e lamentável, uma filha adulta não causar senão aflições aos seus maiores benfeitores terrenos, os pais, e amargurar-lhes a existência!

Deus não há de olhar, com desprezo, para tais filhas e subtrair-lhes as suas graças?

Procura, sobretudo, quanto for possível confortar a velhice de teus pais; impõe-te mesmo de bom grado, se preciso, algum sacrifício, para que nada lhes falte. E se perdurar, não agaste; prefere abster-te do necessário a deixar que teus pais sofram privações.

Se morrerem, conserva grata recordação deles, cumpre-lhes fielmente as últimas vontades, pede a Deus pelo seu descanso eterno e mantém-lhes o túmulo com honra e veneração.

Sê, constantemente, filha agradecida a teu pai e tua mãe. Por último, sê também grata a quantos se mostram bem dispostos para contigo e te fazem benefícios. Tem sempre nos lábios uma palavra de agradecimento a quem te faz um favor; palavra que há de brotar de um coração realmente agradecido, e não por simples formalidade e mera cortesia.

Movida pelo sentimento de gratidão deves, além disto, estar pronta para de bom grado retribuir favores, e contente por proporcionar a outrem algum prazer.

No entanto, em qualquer ato de gratidão para com quem te fez benefícios, guarda-te, sempre, de te mostrares fraca e vacilante nos princípios fundamentais da religião.

Óbvio seria este perigo, quando um benfeitor muito famoso e influente fizesse grandes benefícios mas animado por princípios que contrariam o espírito de Jesus Cristo ou o senso cristão.

Muitos se expuseram a tal perigo, e com o tempo por deferência a um benfeitor poderoso, se tornaram pusilânimes e sem caráter.

Que gratidão é esta que desgosta a Deus e te conduz à perdição?

Sê portanto, grata; grata de coração. Sempre e em toda a parte saibas ser agradecida. Não sejas, porém, servil; guarda, mesmo com pessoa altamente colocada, a tua inflexibilidade e conserva-te sempre firme em teus princípios cristãos.

(Donzela cristã, pelo Pe. Matias de Bremscheid)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Oração a Cruz

Oração a Cruz


Oh! Cruz do meu Salvador! altar sagrado sobre o qual se imolou uma vítima igual ao Eterno, a Deus não praza que eu nunca me glorie em outra coisa que em vós. Por vós, é que Jesus Cristo venceu. Que despojos vejo amontoados aos vossos pés! Vejo a morte destruída, quebrados os grilhões do universo, esmagada a cabeça da antiga serpente.

Único refúgio dos desgraçados mortais, por vós é que são, alfim, abertas as portas dessa melhor pátria, fechadas há tantos séculos pelo pecado do primeiro homem.

O sangue, que Jesus Cristo derramou sobre vós, desarma Seu Pai, apaga o raio nas Suas mãos, e restabelece a paz entre o céu e a terra.

Quanto me alegro pela extensão do vosso império! Oxalá que ele se estenda ainda mais! Oxalá que eu, com os exemplos constantes duma vida irrepreensível, contribua para a vossa propagação!

Oh! Cruz adorável! que glória vos está reservada no último dia! Aparecerás, no céu, como o símbolo da vitória e o árbitro das coroas. A vossa vista oprimirá os vossos inimigos; a vossa vista encherá de júbilo os vossos servos.

Então vós, só, serás o sinal da salvação, com que será necessário ser marcado para chegar ao reino.

Eu me abraçarei, pois, a vós, oh Cruz saudável! eu me abraçarei a vós; a vós unirei o velho homem, a fim de destruir o corpo do pecado, a fim de não ser escravo do pecado; a vós unirei a minha carne com suas concupiscências, o meu coração com suas paixões, a fim de as combater e aniquilar. Neste estado é que quero viver; neste estado também é que quero morrer. Oh! Cruz salutar! eu vos apertarei nos braços, na minha hora derradeira.

Juiz temível, a sombra da Vossa Cruz é que eu peço para aparecer diante do Vosso tribunal. Vós abrireis o livro terrível onde a Vossa justiça escreveu as minhas desordens: mas eu Vos apresentarei o sangue que derramastes para as expiar.

Escutareis a minha voz, e pronunciareis uma sentença favorável. Assim seja.

(Padre Guillois, citado no livro: Espírito e Vida - As sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. J.Cabral, edição de 1935)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Algumas frases de São Paulo da Cruz

ALGUMAS FRASES DE SÃO PAULO DA CRUZ


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“Que Deus vos torne santos! ”

“Se me salvar, como espero, devo-o a educação que recebi de minha mãe ”

“Ó meu Jesus Crucificado, protesto que de tal herança desejo apenas este livro de oração, porque vós somente me bastais, ó meu Deus! meu único Bem! ” .

“Eu, Paulo Francisco, pobre e indigno pecador, o útimo dos servos de Jesus Cristo, cerca de dois anos depois que a infinita bondade de Deus me chamou à penitência, ao passar certa vez pelas praias de Gênova, deparei pequena igreja solitária sobre um monte, a cavaleiro de Sestri, dedicada à S S. Virgem do Gazzo. Ao contemplá-la, experimentei fortíssimo desejo de viver naquela solidão; porém, obrigado por dever de caridade a assistir a meus pais, não pude levá-lo a efeito e guardei-o no coração. Tempos depois, não me lembro o mês nem o dia, senti novo impulso, muito mais forte, de retirar-me à solidão. Essas inspirações Deus mas dava com grande suavidade interior. ”

Um dia, enquanto rezava diante do SS. Sacramento, segredou-lhe o Senhor:

“Meu filho, quem de mim se aproxima, aproxima-se dos espinhos”

Ouçamos a Paulo:

“Enquanto orava, vi nas mãos de Deus um açoite formado de cordas, como uma disciplina. Nele estava escrita a palavra: AMOR No mesmo tempo dava N. Senhor à minha alma altíssimo conhecimento de que iria açoitá-la, mas por amor, e a alma se lançava alegremente para o açoite, a fim de abraçá-lo e beijá-lo em espírito. Com efeito, depois que Deus por Sua infinita bondade me deu essa visão logo, se seguiram grandes sofrimentos, e eu tinha plena certeza de que viriam, porque Deus me dera conhecimento infuso disso.”
  

“Sereis feliz, meu querido amigo, dizia-lhe a um amigo, se fordes fiel em combater e vencer, não vos deixando arrastar pelos sentimentos da natureza, tendo unicamente em vista a Jesus Crucificado, que vos chama com especial bondade a segui-Lo. Será Ele para vós pai, mãe e tudo o mais. Oh! se soubésseis os assaltos que tive que sustentar antes de abraçar a vida religiosa; a extrema repugnância que me insinuava o demônio e a ternura para com meus pais, cujas esperanças, conforme a prudência humana, se estribavam unicamente em mim! As desolações interiores, as tristezas, os temores, tudo me dizia: não resistirás. Satanás fazia-me crer joguete de ilusões e que bem poderia servir a Deus de outra maneira; que esta vida não era para mim... além de muitas outras coisas que passo em silêncio. O que mais me entristecia era o haver perdido o sentimento de devoção. Sentia-me totalmente árido e tentado de todos os modos; o simples toque dos sinos causava-me horror. Todos me pareciam contentes, exceto eu. Em suma, impossível me é descrever todos os grandes combates que me assaltaram, sobretudo quando chegou o momento de tomar o santo hábito e deixar o lar paterno. Tudo isto é a pura verdade; há, no entanto, muitas outras coisas que não sei nem posso explicar. Ânimo, pois, meu querido amigo; Deus nosso Senhor dará ao vencedor o maná oculto e um nome novo!” .

“Quando falo ao meu Jesus a respeito dos Seus tormentos digo-lhe Ah! meu soberano Bem, enquanto éreis açoitado, quais os sentimentos do Vosso ss. Coração?! Ó querido Esposo de minha alma, quanto Vos afligíeis à vista dos meus enormes pecados e ingratidões! Ó amor do meu coração, pudesse eu morrer por Vós!... E imediatamente percebo que meu espirito nada sabe dizer e está fixo em Deus com os sofrimentos de Jesus, comunicados à minha alma. Outras vezes parece desfazer-se-me o coração. Ao relembrar ao meu Jesus Seus sofrimentos acontece às vezes que, depois de um apenas, sou forçado a calar-me, porque minha alma não pode mais falar e parece desfalecer; fica assim abismada em altíssima suavidade misturada com lágrimas, com os sofrimentos do Esposo impressos em si mesma, imersa no Coração e na dor do dulcíssimo Esposo Jesus” .

“Ali! meus queridos irmãos, a simples lembrança da sexta-feira é suficiente para causar a morte a quem possui o verdadeiro amor... Não foi, por ventura, numa sexta-feira que o meu Deus incarnado sofreu por meu amor, a ponto de imolar a vida sobre o infame patíbulo da Cruz?!... ”

“Um Deus açoitado!... um Deus crucificado!... um Deus morto por meu amor!...”

“Não deixe passar dia sem meditar por meia hora ou, ao menos, por quinze minutos, sobre algum mistério da Sagrada Paixão. Com esta prática se conservará longe do pecado e crescerá na virtude."

“Meditar hoje e amanhã num Deus açoitado, coroado de espinho e crucificado por nosso amor, e ofendê-Lo?! Não, não pode ser."

Escrevia a alma piedosa:

“Agradeço à divina misericórdia o ter-lhe concedido a graça de pensar continuamente nos sofrimentos de Jesus. Reflita especialmente no amor com que Nosso Senhor padeceu por nós. O caminho mais breve para a santidade é perder-se toda no abismo de Suas dores. O Profeta chama à Paixão de Jesus OCEANO DE AMOR E DE DOR. Ali! minha filha, é este um segredo revelado unicamente aos humildes. Neste mar imenso a alma descobre a preciosa pérola das virtudes e toma para si os sofrimentos do Amado. Espero que o Esposo lhe ensine esta pesca divina, contanto que se conserve na solidão interior, desprendida de toda imagem, separada de todas as criaturas na pura fé e no santo amor... ” .

“Quando estiver bem aniquilada, bem desprezada e convencida do seu nada, peça a Deus lhe permita penetrar em Seu divino Coração, e Ele não lho negará. Permaneça como vítima naquele divino altar, em que arde eternamente o fogo do santo Amor. Deixe que essas chamas sagradas penetrem até a medula de seus ossos e a reduza a cinza. Em seguida, se o Divino Espirito Santo dignar-se elevar essa cinza à contemplação dos divinos mistérios, consinta que sua alma se abisme na santa contemplação. Oh! como isto agrada a Nosso Senhor!”

(O Caçador de almas, São Paulo da Cruz, pelo Pe. Luis Teresa de Jesus Agonizante)

MORTE DE SÃO PAULO DA CRUZ

MORTE DE SÃO PAULO DA CRUZ


Meus bons filhinhos, dizia-lhes,
acostumai-vos a sofrer por amor de Jesus;
excitai-vos mutuamente no desejo
de derramar o sangue e dar a vida pela fé” .

No dia de São Lucas (18 de outubro), de quem era devotadíssimo, recusou a porção de pão dissolvido em água, desejando comungar em jejum. Foi sua última Comunhão. De ora em diante só vive para o Céu. Quer deixar a terra num ósculo de amor.

Pediu não permitissem entrar na cela pessoa estranha, pois os derradeiros instantes de vida deveriam pertencer exclusivamente a N. Senhor e aos seus filhos.

Apesar da proibição, os religiosos abriram exceção ao bispo de Scala e Ravello, a um religioso Camaldulense do Convento de São Gregório e a um senhor de Ravena.

O Santo, sempre bondoso, acolheu-os, presenteando-os com pequeno Crucifixo, exortando-os, por sinais a meditarem perenemente a sagrada Paixão de Nosso Senhor. Enternecidos até as lágrimas, exclamaram ao retirar-se:

Ah! na verdade vê-se a santidade estampada em seu rosto! Oh! como são ditosos, estes padres, pois têm por pai a um santo! Sim, Paulo é grande santo!”.

Pouco antes do meio dia, chega d. Struzzieri. Desce do carro e corre à cela do amado pai, toma-lhe a mão e cobre-a de beijos. O moribundo reanima-se ao rever o querido filho. Sorri, descobre a cabeça em sinal de respeito ao Prelado e deseja também beijar-lhe a mão, mas o snr. bispo retira-a imediatamente.

Após afetuosas palavras, disse Paulo ao enfermeiro:

Diga ao pe. Reitor que trate bem ao sr. bispo e aos seus domésticos, fazendo-os servir pelos religiosos”.

Cumprira a palavra, esperando o sr. bispo. Agora, ciente de que lhe chegara a última hora, pediu ao enfermeiro o ajudasse a mudar de posição, para poder fitar as imagens de Jesus Crucificado e da Mãe das Dores. Nessa posição permaneceu até a morte.

Pouco depois, sentindo calafrios, disse ao enfermeiro :

Chame o pe. João Maria porque minha morte está próxima”.

Respondeu-lhe este que não via perigo iminente de morte, tanto mais que o médico, horas antes, o achara melhor.

Chamem, chamem o pe. João Maria para auxiliar-me”, insiste o Santo.

Estavam os religiosos no coro cantando vésperas. O irmão, não julgando iminente o desenlace, sentou-se junto ao leito do servo de Deus e perguntou-lhe:

Meu padre, por ventura não aceita de boa vontade a morte para cumprir a SS. Vontade de Deus?”

Respondeu o moribundo com voz forte

Sim, morro de muito boa mente para cumprir a SS. Vontade de Deus”.

Coragem, pois, acrescentou o enfermeiro; confie em Nosso Senhor”.

Estendeu Paulo os braços às queridas imagens e disse com admirável ternura:

Ali estão minhas esperanças, na Paixão de Jesus e nas Dores de minha Mãe Maria....”

O CÉU RECEBE MAIS UM SANTO

Terminadas as vésperas, chamou o enfermeiro ao pe. João Batista de São Vicente Ferrer, primeiro Consultor. Paulo, apenas o vê, exclama:

Auxiliem-me, porque vou morrer”, e entrou em doce agonia.

Pressurosa a comunidade acorreu à cela do pai moribundo. Estão todos de joelhos, a orar. O pe. Reitor encomenda-lhe a alma. Os religiosos e mons. Frattini respondem às orações da Igreja. O primeiro Consultor, por delegação especial do Santo Padre, dava ao moribundo, com a bênção apostólica, a indulgência plenária em artigo de morte, bem como as indulgências do Rosário e do Carmo.

O pe. João Maria absolveu-o novamente, atendendo ao pedido do Santo. Excitava-o d. Struzzieri a vivos sentimentos de fé, esperança e caridade. Leu-se em seguida a Paixão de Jesus Cristo segundo São João.

Esta leitura pareceu reanimar o enfermo. Percebia-se que hauria, desse manancial de salvação, paz, consolo e amor. Seus olhares fitavam ora a imagem de Jesus Crucificado, ora a de Nossa Senhora das Dores.

Manifestara o desejo de morrer sobre palhas, com uma corda ao pescoço, coroa de espinhos na cabeça, revestido do santo hábito com o distintivo da Paixão no peito.

Satisfizeram-lhe em parte o desejo. O pe. João Maria, ao estender sobre ele a santa túnica e ao colocar-lhe ao pescoço uma corda, disse-lhe:

Alegre-se, pois lhe é dado morrer na cinza e no cilício...”.

De repente, entra o moribundo em doce êxtase. Que expressão de felicidade! Os lábios se entreabrem em celestial sorriso, os olhos estão fixos no Céu, os braços estendidos. Com repetidos sinais das mãos, parece pedir aos presentes deixem passagem livre a misteriosas pessoas que se aproximam.

Foi opinião geral que fruía celestial visão. E não se enganaram, pois, após a morte, apareceu glorioso a uma alma santa, revelando-lhe que naquele instante baixaram à sua cela, circundados de resplandecente luz, o divino Redentor, a SS. Virgem, o Apóstolo São Paulo, São Lucas, São Pedro de Alcântara, o pe. João Batista, seu irmão, e todos os seus religiosos que o precederam na Glória, seguidos de inúmeras almas por ele convertidas nas santas missões.

O Santo já gozava dos primeiros albores da eterna bem-aventurança!

Deixou cair os braços e cerrou os olhos.

Pe. Paulo, bradou o bispo de Amélia, lembrai-vos no Céu da pobre Congregação e de todos nós, pobres filhos vossos”.

E o pai amoroso com sinais dá a entender que o fará. Momentos após, ao lerem estas palavras do Evangelho de são João:

PAI, E' CHEGADA A HORA, GLORIFICA O TEU FILHO, PARA QUE TEU FILHO TE GLORIFIQUE" (Jo. 17, 1), pareceu entregar-se a aprazível sono... e sua alma já contemplava na glória Aquele a quem tanto amara nos sofrimentos.

Eram cerca de dezesseis horas de quarta-feira, 18 de outubro de 1775. O nosso Santo contava 81 anos, nove meses e quinze dia.

(O caçador de almas, São Paulo da Cruz, pelo Pe. Luís Teresa de Jesus Agonizante)

PS: Grifos meus.

domingo, 17 de outubro de 2010

A devoção ao Sagrado Coração nos leva à pureza de coração

A devoção ao Sagrado Coração nos leva à pureza de coração


Que devoção será mais apropriada para nos incutir aversão à ofensa de Deus e dor dos pecados cometidos, do que a devoção ao Sagrado Coração? Certamente não podemos contemplar esse Coração encimado por uma cruz e cercado de espinhos, sem pensar que foram os nossos pecados que amarguraram tanto o coração do amantíssimo Salvador. Nossos pecados ocasionaram ao divino Redentor uma agonia contínua.

O Pe. Léssio afirma que a ingratidão dos homens por si só seria suficiente para tirar mil vezes a vida de Jesus Cristo.

Por causa dessa ingratidão Ele chorou no Presepe de Belém, suou sangue no jardim de Getsêmani e morreu no mais completo desamparo e privado de toda a consolação na Cruz.

Nosso Senhor revelou à Beata Ágata da Cruz que nada O contristou tanto no seio de Sua Mãe como a vista dos corações insensíveis que haveriam de desprezar, depois de concluída a redenção, as graças para cuja dispensação Ele veio ao mundo. A mesma coisa já dissera o Senhor muito tempo antes, segundo a interpretação comum dos Santos Padres, pela boca do Profeta: "Que proveito haverá ao meu sangue, se eu descer à corrupção?" (Sl 29,10).

O pensamento no grande tormento que o pecado ocasionou ao Santíssimo Coração de Jesus encheu de dor a todos os santos penitentes. O Senhor deu uma vez a conhecer a Santa Catarina de Gênova a fealdade de um só pecado venial, e a santa, a essa vista, se aterrorizou tanto e sentiu uma tão grande for, que caiu desfalecida. Por isso protestou diante do Crucifixo que nunca mais queria cometer um pecado: Nenhum pecado mais, Senhor; nenhum pecado mais, exclamou ela. Lemos que alguns penitentes, sendo por Deus iluminados sobre a malícia de seus pecados, morreram de dor.

De fato, como será possível deixar de chorar os próprios pecados, quando se pondera que eles foram o cruel lagar que, pela aflição e tristeza, espremeu tanto sangue do Coração de Jesus?

Se a devoção ao Coração de Jesus incute horror ao pecado, contudo, não tira ao pecador a esperança de obter o perdão; antes, mostra-lhe que tem de tratar com um coração infinitamente compassivo. Oh! como é grande a compaixão do Coração de Jesus para com o pecador. A misericórdia foi que O levou a descer do céu à terra; ela O fez dizer que Ele é o bom Pastor que dá a Sua vida para salvar as Suas ovelhas. Para nos obter o perdão a nós, pecadores, não se poupou a Si mesmo.

Quis sacrificar-Se na Cruz, por nós, para satisfazer, por Sua paixão, pelas penas que merecêramos. Por essa misericórdia e por essa compaixão diz Ele, ainda agora:

"Por que quereis morrer, ó casa de Israel?" (Ez. 18,21). Ó homens, pobres filhos Meus, por que quereis perder-vos, fugindo de Mim? Não vedes que, separando-vos de mim, vos entregais à morte eterna? Não quero que vos percais; tende confiança; voltai atrás todas as vezes que quiserdes; recebereis sempre nova vida: "Convertei-vos e vivei" (Ez. 18,22).

Foi também essa compaixão que O levou a comparar-Se a um pai amoroso que, vendo-se desprezado por seu filho, contudo não o repele, quando se volta, arrependido, a ele, chegando até a abraçá-lo ternamente e a esquecer todas as injúrias que dele sofreu. "Não me recordarei mais de todas as suas iniquidades". (Ezeq 18,22)

(Escola da Perfeição Cristã para seculares e religiosos, obra compilada dos escritos de Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja, pelo Pe. Saint Omer, C.SS.R, vertida para o português segundo a edição alemã do Pe. Paulo Leich pelo Pe. José Lopes, C.SS.R, edição de 1955)

PS: Grifos meus.