domingo, 17 de outubro de 2010

PREGAR COM O BOM EXEMPLO

PREGAR COM O BOM EXEMPLO
(PADRE ANTÓNIO VIEIRA, SJ)

(Foto: São Paulo Apóstolo)

“(...) Reparai. Não diz Cristo: saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia: Ecce exiit, qui seminat, seminare (Mat 13, 3). Entre o semeador e o que semeia há muita diferença.

Uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja; uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega.
O semeador e o pregador é nome; o que semeia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador.
Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o mundo.

O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais que é? -- o conceito que de sua vida têm os ouvintes.

Antigamente convertia-se o mundo, hoje porque se não converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras.
Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem.

A funda de David derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra: Infixus est lapis in fronte ejus (1Re 17,49). As vozes da harpa de David lançavam fora os demônios do corpo de Saul, mas não eram vozes pronunciadas com a boca, eram vozes formadas com a mão: David tollebat citharam, et percutiebat manu sua (1 Re 16,23). Por isso Cristo comparou o pregador ao semeador. O pregar que é falar faz-se com a boca; o pregar que é semear, faz-se com a mão.

Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras.
Diz o Evangelho que a palavra de Deus frutificou cento por um. Que quer isto dizer? Quer dizer que de uma palavra nasceram cem palavras? -- Não. Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras.

(...) Vissem os ouvintes em nós o que nos ouvem a nós, e o abalo e os efeitos do sermão seriam muito outros.
Sabem, padres pregadores, por que fazem pouco abalo os nossos sermões? -- Porque não pregamos aos olhos, pregamos só aos ouvidos.

Porque convertia o Baptista tantos pecadores? -- Porque assim como as suas palavras pregavam aos ouvidos, o seu exemplo pregava aos olhos.
(...) Se os ouvintes ouvem uma coisa e vêem outra, como se hão de converter?

Jacob punha as varas manchadas diante das ovelhas quando concebiam, e daqui procedia que os cordeiros nasciam malhados (Gen 30, 39).

Se quando os ouvintes percebem os nossos conceitos, têm diante dos olhos as nossas manchas, como hão de conceber virtudes? Se a minha vida é apologia contra a minha doutrina, se as minhas palavras vão já refutadas nas minhas obras, se uma cousa é o semeador e outra o que semeia, como se há de fazer fruto?”

(Padre António Vieira, SJ, in: Sermão da Sexagésima (trecho); Obras Completas de Vieira, Tomo I, Lello & Irmão Editores, Porto: 1959, páginas 14-17; grifos, divisão dos parágrafos e título nossos)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos e divisões.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

JUDAS - A QUEDA DE UM APÓSTOLO

 JUDAS
A QUEDA DE UM APÓSTOLO


(...) Que queda a deste homem! Eleito pelo Mestre, torna-se infiel, desesperado, maldito.

Estados incríveis: vocação... desfalecimento... traição... enforcamento... condenação. O lamentável Judas passou do Cenáculo para a corda dum patíbulo voluntário, para a cadeia do inferno. Um triste livro que teve sua hora de celebridade, tem este título mentiroso: Du sacerdoce au suicide. Com efeito, está longe de provar-se que a queda mortal do automóvel de que se trata, fosse um suicídio.

Mas o suicídio de Judas não pode ser posto em dúvida, porque o afirma o Evangelho, e um artigo sobre o Iscariotes poderia intitular-se: Do fastígio apostólico ao suicídio.

Corruptio optimi pessima.

Corruptio: o tráfico do Mestre.

Optimi: Pode escolher-se alguma coisa mais alto que o cimo onde Cristo colocara o Apóstolo?...

Pessima: Pode cair-se mais baixo? Morte lúgubre, em que o corpo rebentou, as entranhas se difundiram.

O salmo 18 fala do gigante que se lança para cumprir sua carreira.

"Exultavit ut gigas ad currendam viam. A summo caelo egressio ejus. Et occursus ejus usque ad summum ejus".

Parte duma extremidade do céu e o seu curso acaba na outra extremidade. Judas foi o gigante do mal. Partiu duma extremidade para tocar na outra, e que outra!...

Quando Judas foi chamado por Jesus, era bom. Os comentadores do Evangelho são geralmente desta opinião. Sem dúvida Nosso Senhor que conhecia o futuro, sabia que Judas tornar-se-ia infiel. Previa o extravio não só do Apóstolo mas de tantos outros homens a quem prodigalizaria as delicadezas divinas.

Mistérios da predestinação! Abuso da graça! Desvio da liberdade humana!

Cristo escolheu Judas. Portanto Judas tinha o estofo de Apóstolo. Mas tarde tornar-se-á mau, é verdade. A hipótese, porém, de que o eleito para aquele cargo incomparável fora já então um indigno ou um monstro moral, parece altamente improvável.

Judas obedece ao chamamento.

Como João e Tiago, terá ele deixado um pai velhinho? Terá renunciado a uma esposa? Disso nada sabemos. Mas aquilo que sabemos, e que teve de deixar tudo para seguir o Mestre. Temos de ser justos com todos... até com Judas!

Fez a vida dos Apóstolos. E aquela era uma carreira dura!

Pregou. Sobre que doutrinas? Em nenhuma biblioteca se guardam os sermões de Judas. Mas certamente os homens daquele tempo conheceram Judas pregador! Jesus Cristo confiara aos Apóstolos o ministério da palavra. "Escolheu doze para os ter consigo e enviá-los a pregar" (S. Marcos, III, 14).

Escolheu doze... não somente onze.

Judas, muito provavelmente, operou milagres. Mão faltará quem diga: "Que sabeis disso? Não nos deis um Evangelho romanceado!"

O Evangelho, não romanceado, mas autêntico afirma que Nosso Senhor dera aos Apóstolos o dom dos milagres (cfr. S. Mateus, X, I; S. Marcos, III, 14 ss). Leiam-se bem estes textos: Jesus em nenhuma parte pôs esta restrição: "exceto Judas".

Quando São Pedro evocar a memória do Apóstolo traidor, fará esta afirmação: "Judas... era um de nós e tinha parte no nosso ministério" (Atos, I, 16 e 17).

Pois bem, Judas o eleito, Judas o corajoso, Judas o pregador, Judas o taumaturgo, foi infiel à sua vocação. A vocação de ordinário perde-se por talhadas; não duma vez, mas lentamente, por uma desafeição progressiva e por faltas que se vão acumulando.

Por via de regra, o capital espiritual não se perde numa falência súbita, mas vai minguando de cada vez mais e a inconsideração dos empréstimos prepara a catástrofe final.

Sem dúvida, está na ordem dos possíveis que um sacerdote tenha a desgraça duma imprudência grave e súbita. Mas se, antes disso, era fervoroso, sua consciência, depois daquela surpresa fulminante, reagirá imediatamente. Irá, profundamente humilhado, lançar-se aos pés dum colega do sacerdócio, para pedir a abolvição e em seguida procurará expiar a culpa.

Se, pelo contrário, um infeliz vai até o limite de separar-se da Igreja, em quase todos os casos aquilo não é mais do que o desenlace dum largo drama interior. Muitas vezes, uma casa que acaba por desmoronar-se, há muito tempo que estava gretada; um terreno que se fende, minado. Esta lei das quedas preparadas, é a que se verificou em Judas.

Sim. No Capítulo 6º de São João, está escrito: "Jesus disse aos doze... não fui eu que vos escolhi, a vós os Doze?... E um de vós é um demônio. Falava de Simão Iscariotes, porque era este que o havia de trair, não obstante ser um dos doze". (VI, 68, 70, 71).

O Mestre falava assim, notemo-lo, muito tempo antes da Paixão. Já então Judas estava "tocado". Quando levou a cabo aquela venda infame com os príncipes dos Sacerdotes, consumou-se a queda. Havia muito tempo que ela começara virtualmente: "Um de vós é um demônio".

Podemos ir mais longe e indicar as causas desta queda? Aqui devemos ser prudentes para não confundir na exposição dos motivos, o que é certo e o que é simplesmente provável.

I - O que é certo

"Era ladrão e tendo a bolsa roubava o que se lhe dava". (S. João, XII,6)

LADRÃO! ele que não ignorava que o seu Mestre nasceu num estábulo, Judas conhecia o Natal!...

LADRÃO! ele que não ignorava a vida de Jesus numa oficina de aldeia. Judas conhecia o "Evangelho da infância", os árduos trabalhos de Nazaré.

LADRÃO! ele que experimentava a miséria do Mestre que não tinha onde repousar a cabeça, ele que ouvia a doutrina da renúncia. Judas conhecia, ao menos por ouvir dizer, o Beati pauperes: bem-aventurados os pobres, o Vae divitibus, ai de vós os ricos.

Judas, discípulo ladrão dum Mestre pobre!

II - Motivos verossímeis

a) Ciúme. - Pode-se perguntar se Judas não tinha  inveja de Pedro, o Chefe; de João, o predileto talvez até de todos os outros que eram Galileus, enquanto que só ele era Judeu. Sabemos que as questões delicadas de raças podem criar disposições e tornar-se muito instantes. Uma "minoria", facilmente se imagina que é desprezada. Judas no colégio apostólico era a "minoria".

b) Desilusão. - Judas era um positivista. No banquete de Betânia, diante da efusão do nardo, não pode reprimir a exclamação: "Para que esta perda?" Pois um realista assim vai vendo de cada vez mais que Jesus quer um reino todo espiritual.

c) Pusilanimidade. - Se ainda aquele reino fosse tão somente espiritual! Porém aparecia cheio de sofrimentos. As predições do Mestre não eram, todos os dias, alegres. "Vós sereis odiados por todos, por causa do meu nome". Expressão tão forte que São Mateus a repete na sua mesma forma idêntica e vigorosa, (10,22; 24,9) e São Marcos (12,13) e São Lucas (21,17).

Adivinha-se a comoção causada por uma tal profecia em todos os Apóstolos, mas sobretudo naquele que apreciava os bens terrenos a ponto de ser avaro. Acaso seriam os Apóstolos desprezados somente por alguns homens? Mas não, por todos. "Omnibus". Serão criticados? Não, positivamente odiados. "Odio".

E essa oposição será de Ordem moral, apreciativa? Não, os inimigos passarão às vias de fato, arrastarão os Apóstolos às sinagogas, flagelá-los-ão "Flagellabunt vos" (S.Mateus, X, 17).

Ideal pouco invejável para um coração mesquinho de avaro!

d) Rancor. - Por ocasião do festim de Betânia, Jesus defende Maria contra Judas. Eis, pois, um homem que caiu em despeito ao ver-se censurado perante uma mulher! O orgulho masculino não pode sofrer uma tal aventura diante de várias testemunhas. A alma de Judas não era bastante nobre para esquecer facilmente aquela humilhação pública.

O incidente aconteceu poucos dias antes da Paixão. Ora, a desagregação moral da alma de Judas parece remontar mais longe, como já dissemos. Mas o erro de Betânia pode ter confirmado, acentuado, uma disposição preexistente.

*
*     *

Portanto, a grave queda de Judas (como muitas defecções retumbantes) não se explica de forma alguma por uma só causa, mas por um conjunto de pusilanimidades. Muito frequentemente uma apostasia não é simples, mas complexa.

Na alma inquieta do traidor, reconhecemos certamente a avareza. Demais cremos descobrir nela também o ciúme e a desilusão, a pusilanimidade e o ódio.

Simples faltas! dir-se-á.

Porém, as faltas são os germes das paixões... Vejamos num sincero exame de consciência, se acaso temos alguma tendência para as mesmas faltas.

Avareza. - Apego demasiado ao dinheiro.

Inveja. - É pouco glorioso, mas muito humano, invejar os que alcançam êxitos, os que nos eclipsam.

Desilusão. - Teremos sonhado alto com planos um pouco ambiciosos? Corações há que se exasperam por não alcançarem os êxitos desejados.

Pusilanimidades. - O futuro é sombrio. Sabemos que há católicos que são martirizados e nós trememos ao pensar:  "Se o bolchevismo ou uma revolução sangrenta adviesse? Eu quero ser um bom cristão pacífico, de ordem. Mas, se fosse necessário, teria uma alma mártir"?

Rancor. - Difícil coisa é diregir algumas amarguras.

Fora com todos esses defeitos!

"Nos postos de alta tensão elétrica coloca-se uma placa com um raio de morte e uma caveira e o aviso 'perigo de morte, alta tensão'. Ah! não seria  mal pintar uma caveira nas nossas paixões"!  (Mons. Tihamér Tóth)

   *
   *    *

A queda de Judas ensina-nos que a mais bela vocação pode sossombrar. Era um dos Doze. Uma das doze colunas da primitiva Igreja partiu. À luz de um acontecimento tão trágico, meditemos nestes textos:

"Ut nosmetipsos in tuo sancto servitio confortare et conservare digneris, te rogamus, audi nos. Escuta a nossa prece digna-Vos fortalecer-nos e conservar-nos no Vosso santo, serviço!"
(Ladainhas de Todos os santos)

"Transportamos os nossos tesouros em vasos de terra! - In vasis fictilibus". (II Coríntios, IV, 7)

"Assim pois, quem crê estar de pé, veja não caia". (I Coríntios, X, 12)
Sim, tome cuidado! ainda que seja um religioso, um sacerdote!

"Mas eu não tenho nada a temer. A minha vocação é certa".
A de Judas também era certa.

"Se escrevesse a história da minha vocação, ver-se-ia como nela há uma intervenção muito especial de Deus!"
Judas tinha sido eleito por intervenção especial e direta de Cristo.

"Mas eu tenho um Diretor espiritual de primeira ordem; o meu mestre de noviços era um Santo!"
Judas teve como diretor espiritual, como mestre de noviços, Jesus Cristo em pessoa.

"Mas eu vivo de excelentes colegas, numa comunidade fervorosa".
Judas viveu entre os Apóstolos.

"Mas eu comecei bem".
Judas também.

"Mas eu conheço o meu Evangelho, as suas lições de generosidade, a figura afável de Jesus".
Judas recolhera dos lábios de Cristo os ensinamentos que nós meditamos há vinte séculos. Os milagres cuja narração lemos, ele O vira. O Evangelho fizera-se sob os seus olhos. Provavelmente, muitas vezes antes de beijar a Nosso Senhor pela última vez, traiçoeiramente, abraçara-O com afeto e ternura.

Conclusão: nada de presunção religiosa! Não brinquemos com a vocação!

Temo-la quiçá por desgraça impossível?

No céu Lúcifer e as suas legiões perderam a vocação angélica.
Na terra, Judas perdeu a vocação apostólica.

E a lista continuou e no decurso dos séculos tomou diferentes nomes, Loyson, Charbonnel, etc.

Como descrever as infinitas tristezas das vocações falhadas? As perdas de sacerdotes são as piores de todas. [Nota de rodapé: recebeu Judas o sacerdócio na ceia? Examinaremos esta questão. Por agora pouco nos importa, enquanto que o ponto atual de comparação entre Judas e os maus sacerdotes não é o sacerdócio, se não o fato de haver correspondido mal a uma vocação sublime, seja ela de ordem apostólica (como em Judas), seja de ordem sacerdotal (como neles)].

É necessário ter coragem para ventilar este árduo assunto. Falemos dele com dor, com doçura.

O Sacerdote deve ser o guarda do fogo sagrado. No meio dum mundo corrompido, recorda incansavelmente o dever e impede que o mal obtenha carta de cidadanía e chegue a prescrever.

Nos lutos, nos remorsos, nas angústias, quem se procuras lutos, nos remorsos, nas angústias, quem se procura? O Sacerdote. Ele é o refúgio supremo, o amigo fiel a quem se confiam os mais graves segredos.

Delegado oficial da Igreja, tem a consciência de realizar um ideal magnífico.

O seu caráter não pode perder-se ou alterar-se. "Tu és sacerdote eternamente". Tu serás para sempre o ungido, o homem assinado por Deus". Tu es sacerdos in aeternum.

Como ele é grande!

Mas se tem a desgraça de cair de tão alto, se não tem já a coragem da sua austera vocação, se até se degrada a ponto de passar o campo inimigo, que responsabilidade!

Tudo muda.

O guarda do farol apaga os seus clarões.
O construtor transforma-se em demolidor.
O artista destrói a sua obra, como se Miguel Ângelo quebrara os seus mármores, como se Rafael rasgasse as suas telas.

Perde tudo: a dedicação dos bons e dos maus que lhe chamam, como todos, um despadrado. O que é mais terrível é que se vê obrigado a reconhecer que todos têm razão e a condenar-se a si mesmo.

Alguns chamam no "um trânsfuga".
Verdadeiramente, é um foragido do dever e do bem.

O romance é pouco glorioso e não varia muito. Ordinariamente abandona-se a vocação, não por razões metafísicas, mas porque não se tem a generosidade de observar os compromissos tomados.

Então, que obsessão dizer-se no inferno a si mesmo: eu sou sacerdote. Sim, sacerdote no inferno ou no céu. "Tu es sacerdos in aeternum".

O ouro profanado fica sendo ouro.
O trânsfuga do corpo sacerdotal é bem digno de lástima.

Em que pensa quando se encontra com os seus antigos colegas de apostolado, os seus antigos penitentes?

Em que pensa quando ouve o repicar dos sinos, quando vê uma igreja?

Em que pensa quando passa um funeral?

Em que pensa nas noites de insônia, ao ritmo das pulsações arteriais que latejam sobre o travesseiro?

Em que pensa quando, da profundeza da sua memória sacerdotal, sobem os sermões de outrora, os textos dos velhos salmos e do Evangelho?

Em que pensa quando recorda as suas missas, tantas missas, em que dizia: "Subirei ao altar de Deus que é a minha alegria, o meu contentamento?"

Em que pensa quando se lhes representa a cerimônia da sua ordenação em que o Bispo lhe perguntou: "Prometeu-me respeito e obediência?" e ao qual respondeu: "Prometo".

Pobre homem! Deve de sofrer muito.

Eu compreendo muito bem a indignação contra ele; mas outrossim a compaixão, a imensa compaixão.

Acaso se aprecia uma árvore pelos frutos bichosos que dela caiem? Ou um exército pelos desertores? Ou o colégio apostólico por Judas?

É verdade que podem dar-se fraquezas entre nós. Confiou Deus o sacerdócio não a anjos mas a homens. Isto explica certas quedas, mas também torna mais impressionante e meritória a generosidade de outros sacerdotes, muitos mais numerosos, cuja vida é feita de dever e sacrifício.

Seria sobremaneira injusto ficar-se apenas na exceção escandalosa e esquecer a regra geral. Que capital de dedicação representa o clero!

O sacerdote extraviado recebe depressa a rude lição dos fatos. Se outrora encontrou nos seus irmãos sacerdotes algumas faltas de caridade, podia esperar  sem ser ingênuo, que do outro lado da barricada, só havia de encontrar delicadeza e bondade e fidelidade? Aqueles que o exibem e se empenham por explorar a sua apostasia com um fim anti-religioso, agem por cálculo.

O pequeno êxito de escândalo e de curiosidade, passa muito depressa na nossa época em que se precipitam os acontecimentos, as novas.

O infeliz apóstata que atraíra as atenções durante alguns dias, é abandonado como um fruto peco. O que? Já esquecido, já acabado e substituído? O culpado cai sobre si mesmo, saturado de humilhações. Fica só em face da sua consciência.

Esperemos que volte. Talvez na velhice... talvez na hora da morte, se Deus lhe afastar a desgraça duma morte repentina. Fez chorar certamente a Igreja sua mãe. Mas se, por fim, se lança nos seus braços a Igreja vinga-se como se vingam as mães, perdoando. Conceder-lhe-á a absolvição, àquele que a deu tantas vezes, durante o seu ministério.

Será pois um perdoado a mais.
Judas arrependido.

Porém, embora reconciliado com a Igreja misericordiosa, conservará em si a grande tristeza de ter constritado os seus colegas, de ter dado numa hora grave como esta, armas ao inimigo, de ter arruinado as almas...

O negócio de Judas

Judas, no banquete de Betânia, mostra-se indelicado, interesseiro. Mas enfim os seus agravos resumiam-se nisso.

Por último veio o pecado monstruoso do pacto com os príncipes dos Sacerdotes. Crime dos Crimes! Jesus turbou-se em seu espírito e afirmou expressamente:

"Em verdade, em verdade vos digo que um de vós há de trair". (São João, XII, 21)

"Cristo turbou-se"! Que expressão forte! Esta expressão aparece duas vezes, no Evangelho (As lágrimas de Jesus sobre Jerusalém provam também uma comoção extraordinária misto de bondade e de tristeza) aqui e, sob uma forma equivalente, na história de Lázaro: "Jesus bramiu em seu espírito" (São João XI, 33).

As duas comoções de Cristo! Enquanto que a segunda era uma comoção de amor, a primeira era de horror.

Durante a Paixão, o Salvador em presença de Pilatos declarava: "Quem me entregou a ti, tem um pecado maior" (São João, XIX,11). Para compreender esta apreciação do Mestre recordemos as oito notas características da falta cometida por Judas:

- Enormidade - Jesus Cristo avaliado em dinheiro! O Senhor tratado como mercadoria.

- Intenção formal - Judas "foi ter com os príncipes dos Sacerdotes para entregar Jesus" (São Marcos, XIV,10). Para, eis um desígnio fixo. O Apóstolo não foi enganado , surpreendido com uma visita dos príncipes dos Sacerdotes. É ele que os vai procurar. Mete-se a caminho e trava o diálogo com essa intenção perfeitamente clara: "para entregar Jesus".

- Precauções minuciosas - Judas quer não só a  prisão, mas ordena os seus pormenores. Traidor a frio, determina tudo. "Foi entender-se com os príncipes dos Sacerdotes e os magistrados sobre o modo de lho entregar". (São Lucas, XXII, 4)

O Como está previsto. Ao Getzemani  "chega Judas, um dos doze e com ele muita gente armada de espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos Sacerdotes e pelos escribas e anciãos. Ora o traidor tinha-lhes dado uma senha, dizendo: Aquele a quem eu oscular é esse; prendei-o e levai-o com cuidado" (São Marcos, XIV, 43 e 44)

Com cuidado, caute. O traidor teria usado, pouco mais ou menos, esta linguagem: Prendei-o bem! As cordas são fortes? Ele é forte: eu conheço-o melhor que vós!

- Covardia - "Judas que o entregava sabia também deste lugar" (São João. XVIII,2) .

Conhecia o lugar, sim, por ter estado ali na companhia honrosa do Mestre e dos Apóstolos... Conhecia o lugar! É o caso de um apóstolo moderno que, tendo vivido no Seminário, tendo sido recebido à mesa dos colegas, observa certas "coisitas", chama a atenção dos adversários para aquela sombra dum grande quadro, proclama muito alto algumas fraquezas humanas e cala sistematicamente a boa vontade geral, o real esforço de Santidade. Uma só coisa lhe interessa: descobrir os pontos vulneráveis.

- Traição - Quem negocia pérfidamente com o inimigo, incorre no desprezo geral. Judas perpetuo esta ação degradante. Entregar o próprio chefe é abominável... e foi Cristo o objeto do pacto de Judas: "Que quereis dar-me e eu vo-lo entregarei?" (São Mateus, XXVI,15)

À luz da história vemos desfilar as figuras sinistras de traidores:

Fouché, com a impassível máscara de gesso; Talleyrand que, tendo feito em treze regimes diferentes, treze juramentos de fidelidade, ainda intentava, segundo as suas próprias palavras "Não ficar neste número vil. No juramento empenham-se os atos e não as convicções. É uma senha que se toma uma sala, para se poder entrar... Os reis mudam de ministros; eu mudei de reis". Ganelon, em La Fille de Roland (Ato 1º, cena 2ª) confessa a própria vergonha:

Moi, je suis Ganelon,
Galenon le Judas, le traitre, le félon.

Aí daquele cujo nome tem esta rima: Traidor! cabe a palma, a palma abominável, é Judas. Por isso, o nome de Judas há-de provocar sempre horror...

- Endurecimento - Os três sinótipos empregam termos, pouco mais ou menos, idênticos:

"A partir deste momento ele procurava uma ocasião propícia para entregar Jesus". (São Mateus, XXVI, 16)

"E Judas procurava uma ocasião propícia para o entregar". (São Marcos, XIV, 11)

"Ele procurava uma ocasião propícia para lhes entregar Jesus sem tumulto" (São Lucas, XXII,6)

- Cinismo - No cenáculo ousou perguntar: Sou eu?

- Escolha dum meio especialmente odioso - O beijo, esse testemunho clássico do afeto, do amor, transformado no sinal da traição!

Era preciso recordar estas oito notas infamantes. Senão, deixar-nos-íamos, talvez, levar pelo sentimentalismo duma compaixão mal compreendida, a ponto de não compreendermos já a condenação de Judas. Entre Judas e os príncipes dos Sacerdotes ultimou-se o negócio. Judas a si mesmo ficou devendo tudo, até o embaraço de entrar no assunto.

Aqueles ficaram radiantes. É a observação de São Marcos e de São Lucas. Os príncipes dos Sacerdotes haviam deliberado sobre o modo de prender Jesus. Temiam os seus partidários e a multidão. "Não no dia da festa para que não suceda levantar-se algum tumulto entre o povo" (São Mateus XV,15).

A proposta de Judas vinha resolver tudo. Tirava-os de contratempos; além disso, comprovava a infidelidade dum Apóstolo e podia envolver a deserção de outros discípulos. Que pechincha!

"E eles lhe contaram trinta moedas de prata" (São Mateus, XXVI, 15)...

O negócio de Judas renova-se hoje nas grandes traições dos pecados mortais, nas pequenas traições dos pecados veniais.

Novos Judas entregam o Mestre por um leve interesse. Arrepender-se-ão cedo ou tarde. Todo pacto com o demônio é um negócio de logro. Entregar Jesus na esperança de encontrar melhor, é preparar as desilusões, os remorsos. Ora, isto é frequente.

"Os trinta dinheiros de Judas circulam sempre no mundo".

"Que me dareis se eu o trair? Dai-me um emprego melhor ou uma nomeação, e eu abandonarei a minha fé, os meus princípios, as minhas convicções. Dai-me um prêmiovo-lo entregarei...Judas enforcou-se. Se todos os Judas do mundo se enforcassem, haveria cordas bastantes nas lojas, haveria árvores bastantes nas florestas?"
(Mons Tihamér Tóth)

Cristo conhecia todos esses Judas. Teve de sofrer muito mais do que quanto imaginar se possa...

Conclusões práticas

Quem quer que sejamos, quaisquer que sejam os nossos merecimentos, a nossa dignidade, as nossas graças, na questão da salvação, devemos evitar toda a presunção.

Leiamos, o que nos ensina sobre a justificação e a perseverança, o Concílio de Trento (Sessão 6ª).

O capítulo XII tem por título: "Evitar a presunção temerária da predestinação" e o capítulo XIII é consagrado ao "Dom da perseverança". O Cânon XVI declara: "Se alguém disser, a menos que tenha sido instruído a este respeito por uma revelação especial, que alcançara certamente com uma certeza absoluta e infalível, este grande dom de perseverança, seja anátema!"

O Cânon XXII: "Se alguém disser que o homem justificado pode, sem o socorro especial de Deus, perseverar na justiça, seja anátema!"...

*
*    *
                                                                           
São Paulo tremia da sua condenação, depois de ter pregado aos outros. Santo Inácio quer que se medite sobre o inferno, de maneira que o temor, à falta de amor, nos afaste do caminho do pecado.

O Sacerdote em todas a missas evoca a idéia do inferno, antes da consagração e antes da comunhão. Reza para não cair na condenação eterna, para não se separar de Deus: "Ab aeterna damnatione nos eripi... A te nunquam separari". Senhor, seria absolutamente espantoso ter pregado tantos sermões, ter dado tantas absolvições, e cair no inferno! Ter preservado as almas da geena e cair ali, como um salvador que, tendo arrancado os outros do fogo, acabasse por se lançar a si mesmo nele.

Se alguma vez um sacerdote chega ao inferno, como o demônio deve chasqueá-lo! Lembras-te, pode dizer-lhe, dos teus lindos conselhos no púlpito, no confessionário? Fazias tão bonitos comentários daquele texto: Que serve ao homem ganhar o mundo todo, se vier a perder a sua alma? Tu mais que ninguém tinhas as luzes, os socorros...

"Para o futuro poderei vingar-me desta língua que falava contra mim, e que na comunhão era como que uma paterna viva, dessa mão consagrada que derramava água batismal, que se erguia para absolver pecados, e que distribuía as Hóstias. Louco foste, que santificaste os outros e te perdeste a ti mesmo, que enriqueceste os teus irmãos, ficando tu na miséria, que curastes os outros e ficaste tu doente, que alimentaste os outros e ficaste tu faminto, que conduziste os outros à felicidade eterna e guardaste para ti a desgraça eterna!"

A meditação do inferno é salutar para as nossas almas... Alguns pregadores falam poucas vezes do inferno. Não chegam a negá-lo. Só isso faltava! Parecem, porém, evitar essa matéria dura nos sermões e por vezes nas missões ou retiros. Preferem falar sempre da bondade de Deus. "Pois que, dir-se-á, acaso o Senhor não é misericordioso?"

Sim, mas a não falar-se senão da bondade extrema, corre-se o risco de propor uma religião insulsa e um Deus levemente bonachão. E bom e infinitamente bom. E justo e infinitamente justo.

- Mas lembremo-nos da Madalena e do bom Ladrão.
- Sim, mas lembremo-nos também de Judas.
- Está escrito: Deus e Amor.
- É verdade; mas também está escrito: não se brinca com Deus. "Deus non irridetur" (Gálatas, VI 7).
- Ele não condena ninguém!
- Exato. Mas condena-se o homem a si mesmo e a sua angústia eterna será dizer: Eu mesmo me condenei.

*
*    *

                                                         
Senhor, que eu nunca chegue lá!
Se pequei, que não tenha a obstinação de Judas, mas o arrependimento de São Pedro!

(Excertos do livro: Em face do dever - Volume I, pelo Pe. G.Hoornaet, S.J, traduzido por Pe. Elísio Vieira dos Santos, o original que serviu para esta tradução é o da 1ª Edição francesa que tem por título: "Face au Devoir").

PS: Grifos meus.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

IX- JUDAS

IX- JUDAS


Os planos de Deus prosseguem nas almas a despeito dos obstáculos que elas próprias lhes opõem. Tira Ele o bem do mal, e é o Seu maior triunfo, o Seu toque divino por excelência.

A árvore que os homens plantam só produz frutos segundo a raiz: só Deus tem o segredo de fazer sair a vida da morte e a glória do pecado.

Deste modo, o conhecimento da nossa essência, que o nosso pecado nos terá valido, tornar-nos-á circunspectos, humildes e mais temerosos do mal. Ele nos dá, consoante a palavra da liturgia, uma mais pronta continência, continentiae promptioris facultatem, uma pureza de alguma sorte mais precoce, uma castidade que se afirma logo de início, antes mesmo da declaração do perigo.

É próprio deste virtude o esquivar-se, porém ela se revela ocultando-se, ilumina-se fugindo, como esses fogos errantes da noite que se inflamam e traçam a sua curva brilhante no momento em que cortam, sem nela se deterem, a nossa atmosfera pesada e corrupta.

Assim Pedro estará daqui por diante alerta. Ele, que deve mandar, submete-se humildemente aos conselhos dos outros; as cartas que nos deixou são todas repassadas de humildade, de condescendência e de indulgência. Talvez [se não tivesse caído] ele tivesse sido severo em demasia; a inocência, mesmo relativa, tem um certo verdor que é a sua glória, mas que pode às vezes magoar, tocando-as por demais vivamente, as chagas abertas dos pecadores.

Pedro não mais tocará as feridas [alheias] a não ser com as suas mãos trêmulas e com as suas lágrimas penitentes.

Quando vem a derradeira perseguição, o martírio prometido, ele hesita, duvida, não sabe se é bastante forte, foge pela Via Appia; não se esqueceu da noite terrível, do átrio, da mulher que o importuna rindo, do galo que canta e daquela dolorosa blasfêmia: Eu nem sequer conheço esse homem de quem falais. É preciso que o Mestre o detenha e lhe anuncie que é mesmo desta vez a hora do grande amor que vai soar. Então ele volta, tal é, porém, o seu hábito de desprezo de si mesmo, que o seu último gesto, a sua última atitude, a sua última palavra é ainda uma humildade e uma penitência.

Quer morrer de cabeça para baixo. Para baixo é a sua posição, no chão, debaixo dos pés, no pó. Ó Pedro! Eu vo-lo digo em verdade, todo o que se humilhar será exaltado: e afigura-se-me que em torno daquele ancião agonizante, de membros estirados para baixo, de cabeça coberta de suor e de sangue e rente à terra, devia haver um murmúrio de Anjos que cantavam: Tu és Pedro, e sobre esta pedra, que se põe tão baixo, edificarei a minha Igreja.

Pedro, padecendo, crê, portanto, que expia, considera quanto lhe acontece apenas como um castigo que lhe é devido: e é assim que conserva aos próprios olhos a pureza do sofrimento.

Tomando as nossas cruzes como a penitência das nossas culpas, escaparemos também nós ao perigo da vanglória que se pegaria talvez a essas poucas misérias que suportamos valentemente.

Estendendo-nos na cruz, de cabeça para baixo, como se não fôramos dignos de erguer uma fronte carregada de pecados, sofremos humildemente, posto que realmente, e não percebemos que nesta postura humilhada nos asseguramos melhor os olhares para o Céu que se abre por cima de nós. Assim salvaguardado, depurado, o sofrimento é a floria da nossa vida: nós, porém, o ignoramos. Eis aí os triunfos de Deus, os que o mundo não conhece e não pode conhecer.

É o em que não pensa Pedro na sua desolação profunda, enquanto corre desvairado pelo fundo do vale do Cedron; mas é o em que pensa Jesus naquela sala baixa onde O prenderam para o resto da noite. Segue a Pedro, e já fechou a ferida sangrenta do apóstolo, ou pelo menos, como num rego, fez germinar nela a humildade.

Segue ainda outro homem que se vai desvairado também pelo mesmo vale do Cedron. É Judas.

Este homem leva no coração uma chaga aberta: havia com que fazer jorrarem dela a flux todas as humildades do mundo. Como Pedro do átrio, saiu ele transtornado do Templo, onde atirou as trinta moedas de prata; mais do que Pedro, confessou publicamente o seu crime:

– Entreguei o Sangue do Justo e pequei.

A confissão é completa. E ele foge, corre, ruge de dor... Chorou, porém, as doces lágrimas do amor e da penitência?

No fundo de há muito dessecado da sua alma não havia essa gota d’água que brota sob a pressão da dor profunda e humilhante. Está desesperado: a si próprio se detesta, cora rudemente da vergonha que lhe advirá em todos os séculos futuros. Judas! Judas! Esta palavra soa-lhe já aos ouvidos como a última e suprema injúria que se há de lançar à face dos homens.

Enquanto isto, também Pedro sente uma palavra zumbir-lhe nas têmporas: Renegado, renegado! As duas se valiam.

Pedro também cora de vergonha, ruge de dor, mas aceita a vergonha, curva a cabeça e chora. Não sabe se Jesus manterá a escolha gloriosa que dele fizera: nem sequer pensa mais nisto, pensa só numa coisa: traiu o amor inefável.

Filioli mei, carissimi, meus caros filhinhos, dirá ele mais tarde quando tiver de expor a doutrina e a história do Mestre. Deus foi beijado [traiçoeiramente] por um apóstolo e renegado por outro: este outro era eu, eu Pedro. Oh! Quem pode estar seguro de si mesmo? Eu vo-lo digo, irmãos, vigiai, estai alerta, há sempre alguém que ronda em torno de vós para vos devorar.

Pedro aceita essa humilhação histórica. Até o fim dos tempos ele, a pedra fundamental da Igreja, repousará sobre o Coração traído e renegado do Mestre.

Egressus foras flevit amare. Saindo, chorou amargamente. Estas lágrimas, era a humildade que corria. Correrá assim, misteriosa, em ondas ininterruptas, até o fim da vida de Pedro, como, em seguida a erupções violentas da natureza, vê-se, de súbito, no meio das escórias fumegantes e dos montes subvertidos, jorrar pura e fecunda de uma rocha entreaberta uma fonte abundante e nova.

Essa fonte alimentará a Igreja até a consumação dos séculos.

A alma que chora ama, chora porque ama. Judas não chorou porque não amava a outro que a si.

Ora, ele se tornara para sempre desprezível: restava só uma coisa, fazer desaparecer esse ente desprezível, suprimi-lo, apagá-lo se possível da memória pública.

Eis porque ele corre; transpôs a torrente do Cedron, passa através dos túmulos, topa naquelas pedras de mortos; a noite vai findar, o dia começa, ele se envergonha do dia. O pavor assalta-o nas entranhas; ele bate no peito, onde o coração não tem uma pulsação de pesar [verdadeiro] e de amor.

Conhece-se o fim. O desgraçado queria fugir para sempre daquele Jesus a quem havia beijado e traído; e cai eternamente nos braços da Sua Justiça tremenda.

Et suspensus crepuit medius, ET diffusa sunt omnia víscera ejus (At 1, 18).

Isto é intraduzível. Entretanto, se o tivesse querido, teria ele como Pedro recebido o seu perdão, o esquecimento [de sua falta] teria mesmo seguido esse perdão. Havia ainda bastante lugar na Face do Cristo para que outro beijo, o da reconciliação, apagasse o da negação. Jesus teria certamente oferecido a Face. Porque o que O faz chorar naquela pálida manhã principiante, por trás do molambo lançado à Sua cabeça, no fundo da sala de Caifás, é que Ele acaba de ver, no longínquo de um campo perdido ao pé do Monte do Escândalo, a árvore sacudida, o apóstolo enforcado; é que Ele sente retroceder daquele recanto maldito o Seu amor doloroso e impotente pela primeira vez.

Com essas duas feridas no Coração, o Cristo pode agora subir ao Calvário; tudo o que naquele ainda entrar ficará folgado. A lança do centurião feriu apenas um Coração morto: aberto fora-o já por Pedro e, principalmente, por Judas.

ORAÇÃO AO CORAÇÃO ABERTO DE JESUS CRISTO

Senhor, se Ele está aberto, esse Coração que eu traspassei, é para fazer manar uma torrente inesgotável de amor e de perdão.

No medo da Vossa Justiça, no tédio da minha consciência, no desprezo de mim mesmo, procurei nos flancos das montanhas o esconderijo secreto onde pudesse ocultar a minha vergonha e o meu terror.

Coração de Jesus, Coração aberto, Coração profundo, é no abismo das Vossas duas feridas, [a física e a espiritual,] que eu corro a me esconder.

Como o grão de areia atirado no oceano, eis que me perco no Vosso Sangue.

Ó Justiça severa! Não mais me procureis pois; a eterna Bondade no Seu seio me perdeu. Amém.

+ + +

(2ª parte da obra “A subida do Calvário”, do Pe. Louis Perroy, SJ)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Viva Nossa Senhora Aparecida!



 Viva a Mãe de Deus e nossa,
Sem pecado concebida,
Salve a Virgem Imaculada,
A Senhora Aparecida.

No Brasil, desde o descobrimento, cultiva-se a devoção a Nossa Senhora. Os portugueses descobridores a usavam com carinho, e os primeiros missionários a recomendavam com amor. Quando se fundavam vilas, construíam-se igrejas em honra de Nossa Senhora, e celebravam-se Suas festas com solenidades. Sem dúvida, foi em recompensa dessa devoção que a Santíssima Virgem quis estabelecer no Brasil um centro de piedade, e um santuário, nada inferior aos maiores do mundo.

No ano de 1717, passava pelo vale do Paraíba, D. Pedro de Almeida e Portugal Conde de Assumar, com destino as Minas Gerais. A Câmara de Guaratinguetá tomou as providências para acolher a importante personalidade. Enfeitaram-se as ruas e as casas, e foi preparado um grande banquete. Foram convocados os pescadores para que trouxessem muito peixe para a comitiva do senhor conde.

Dentre os pescadores estavam Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso. Mas a época não era propícia para a pesca e as águas pareciam desertas. Após longas horas de infrutífero trabalho, quase desanimados, João Alves mais uma vez lança sua rede, na altura do porto de Itaguassú, e retira das águas o corpo de uma imagem, sem a cabeça. Lançando novamente a rede, colhe também a cabeça. Lavando cuidadosamente a imagem, viram que se tratava de uma escultura de Nossa Senhora da Conceição. Envolveram-na em panos e continuaram a pesca, e desde aquele momento a quantidade de peixes foi tão grande que tiveram que suspender seus trabalhos.

Fatos estranhos estes. O encontro de uma imagem que devia estar no fundo lodoso do rio... o achado da cabeça que naturalmente deveria ser arrastada para mais longe pela correnteza da água e dificilmente colhida pelas malhas da rede... e enfim, a pesca abundante que se seguiu ao encontro da imagem... Tudo isso deixou os pescadores maravilhados.

Felipe Pedroso levou a imagem para sua casa. Era de fato uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, feita de terra-cota, de cor escura, e traços simples. O pescador a colocou num tosco e humilde oratório.

O filho de Felipe Pedroso construiu anos depois humilde oratório-capelinha, onde se reuniam os amigos e vizinhos para rezar o terço. E diante desses primeiros devotos, a Senhora Aparecida começou a Se manifestar.

As graças que a Santíssima Virgem ali concedia aumentavam, e crescia a concorrência do povo. Impunha-se a construção de uma capela maior, e em lugar mais apropriado. Foi então escolhido o Morro dos Coqueiros. Onde em 1743 se iniciou a construção de uma espaçosa capela, que ficou concluída em 1745. No dia 26 de julho desse ano, na festa de Santana a capela foi benta e celebrou-se a primeira missa.

As paredes da antiga capela e de uma “sala de milagres” viram-se cobertas de testemunhos emocionantes: Pés e mãos de cera, quadrinhos pintados reproduzindo toscamente os favores obtidos da Senhora: um pai mostrando o filho salvo das garras de uma fera; uma mãe recebendo o filho salvo de afogamento; desastres de trem; automóveis destroçados, e incêndios, onde a Virgem Aparecida garantiu a vida e a saúde aos filhos que A invocavam na hora angustiante do perigo.

A fama dos milagres ecoava pelas serranias e tocava os corações. Começaram a afluir romarias.

A princípio eram pequenos grupos, que depois se tornavam mais numerosos. Vinham a pé, a cavalo, de carro de boi, em toda espécie de condução.

Quem poderia enumerar a mudança de vida de tantos que a Senhora acolheu sob seu manto e trouxe para o bom caminho?

A capela foi diversas vezes reformada e aumentada, até que em 1846 começou a ser substituída pela atual. A 8 de dezembro de 1888 foi o novo santuário bento e inaugurado pelo bispo D. Lino Rodrigues de Carvalho. Aparecida deveria tornar-se um grande centro de renascimento espiritual, e para tanto o ilustre prelado obteve a vinda dos missionários redentoristas, em 1894, que imprimiram um grande impulso material e espiritual ao Santuário, iniciando assim a assistência religiosa organizada, completa e ininterrupta, dando aos romeiros facilidade para receber os sacramentos, assistir às missas e ouvir a palavra de Deus.

A Coroação

Uma data muito querida foi para os devotos de Nossa Senhora Aparecida o dia 8 de setembro de 1904, quando a imagem foi coroada por ordem do Santo Padre. Estiveram presentes à solenidade o Núncio Apostólico e quase todos os bispos do Brasil.

Revestiram de invulgar brilho as festividades do 25º aniversário da coroação da imagem, em setembro de 1929.

Grandes romarias, solenidades religiosas e um Congresso Mariano deram aos festejos uma importância excepcional.

A Padroeira

Foi nas sessões desse congresso que o povo apresentou o desejo de que Nossa Senhora Aparecida fosse declarada padroeira do Brasil.

Acolhendo ao rogo, Pio XI, assinou a 16 de julho de 1930 o decreto em que proclamou Nossa Senhora Aparecida Padroeira da Nação Brasileira.

Diz o decreto: “Declaramos e constituímos a Beatíssima Virgem Maria Concebida sem mancha, sob o título de Aparecida, Padroeira de todo o Brasil”.

Acontecimento belíssimo foi a viagem triunfal à capital do País, iniciativa promovida pelo cardeal D. Sebastião Leme em 1931. Mais de um milhão de pessoas, junto com as autoridades civis e militares, e o próprio presidente da República aclamaram delirantemente Nossa Senhora Aparecida Padroeira do Brasil. Foi uma verdadeira apoteose.

Em 1945 a imagem é transportada a São Paulo, para presidir a 14 de julho a vigília de Nossa Senhora, a fim de implorar a Padroeira a graça de preservar o Brasil do comunismo ateu que ameaçava a nação.

(Revista O Desbravador – Outubro de 1981)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

V- O AMOR DOS HOMENS

A BELEZA DE MARIA
II PARTE
 
 
V- O AMOR DOS HOMENS
 
Quando se ama verdadeiramente a Deus, ama-se sinceramente o próximo, porque o primeiro amor não pode subsistir em uma alma, sem que produza o segundo.
 
Nosso amável Salvador, para que nós pudéssemos compreender a inseparável união existente entre o amor de Deus e o amor dos homens, a nós assim falou: "Amareis o Senhor, vosso Deus, de todo o vosso coração: eis o primeiro mandamento; e amareis o próximo como a vós mesmos: eis o segundo, semelhante ao primeiro".
 
E a Santíssima Virgem, que tão perfeitamente cumpriu o primeiro mandamento, teria podido faltar ao segundo?...
 
Não somente havia Deus destinado Maria para ser Sua Mãe, mas também destinou-A a ser mãe de todos os homens e, em consequência, Lhe deu, ao criá-lA, um coração de mãe para com eles.
 
Além disso, Jesus Cristo, durante a Sua permanência no Seu casto seio, comunicou-Lhe os ardores de Seu amor para conosco, em um grau tão elevado, que jamais uma simples criatura amou os homens como Maria os amou.
 
Oh! sim, digamo-lo com ousadia, Maria é o coração que nos ama, e ele nos ama, terna, ardente e apaixonadamente.
 
Aliás, poderia Ela deixar de amar-nos?...
 
Cada vez que Ela vê a Deus, vê o amor infinito que nos consagra desde toda a eternidade - "in perpetua caritate dilexi te", o amor com que e por que ele nos amou, conservou, sustentou, cumulou de graças e de benefícios.
 
No coração paternal de Deus Ela vê a ternura cheia de misericórdia com que Ele nos segue, permite que sejamos submetidos à prova, respeita a nossa liberdade, e sem cessar conserva os olhos fixos sobre nós, com receio de que algum apego criado desvie por um instante as afeições de nosso coração, que Ele deseja seja todo Seu, e repleto de Seu amor.
 
Ela vê este Pai celeste escutando só o Seu amor e enviando-nos o Seu Filho único para nos arrancar do inferno e reconduzir-nos ao caminho que ao céu conduz!...
 
E quando fixa o seu olhar sobre Jesus Crito, contempla-O acabrunhado e triturado sob o peso dos sofrimentos, das humilhações e das dores.
 
Ela assiste em espírito à flagelação, à coroação de Seus espinhos, à crucifixão, à morte de Seu divino Filho, e ouve ressoar ainda aos Seus ouvidos esta comovida prece: "Meu Deus, que nenhum daqueles que me destes, pereça eternamente".
 
Oh! como não nos amará Maria a esta vista assim como a esta lembrança?...
 
Admitamos que para Ela nós nada sejamos, nada nos atraia a Sua compaixão, Sua estima e Sua afeição; entretanto, por amor a Deus, e por saber que nos amando faz prazer a Ele, não deverá Ela amar-nos e amar-nos ternamente?...
 
Oh! como é doce este pensamento: "Maria nos ama, e nos amará sempre".
 
E depois, desde que Ela considera a nossa alma, esta pobre alma, tão lânguida, tão ferida e, entretanto, tão desejosa de amar e de ser amada, vendo-a a ponto de se perder para sempre, se não vier em seu socorro, poderia Maria não Se sentir tocada pela compaixão?...
 
Sendo nossa alma a imagem de Deus, cuja beleza e santidade são bem conhecidas por Maria, e podendo Ela impedir que a mesma seja manchada e desfigurada, como poderia Ela consentir que essa alma estivesse em poder do demônio, objeto dos seus insultos e suas blasfêmias?...
 
Não, isso é impossível... Seu amor a Deus se recusa a tudo isto.
 
Nossa alma é criatura de Deus, filha de Deus, destinada a participar um dia do reino de Seu Pai, e poderia a Santissima Virgem permitir que esta alma fosse afastada de Deus e arrancada de Seus braços para eternamente sofrer nos abismos abrasados do inferno?...
 
Não! o Seu amor a Deus e a Sua caridade para com os homens a isso se recusam.
 
Nossa alma é resgatada pelo sangue de Jesus Cristo, pelo sangue de Seu Filho; ela é o preço de humilhação, de angústia e de lágrimas, que estão sempre presentes em Seu espírito, e, podendo impedi-lo, poderia a Virgem Santíssima permitir que por toda a eternidade esta alma se perdesse?...
 
Não! o Seu amor a Deus e a Sua caridade para com os homens a isso se recusam.
 
Nossa alma é destinada a conhecer e amar a Deus, e a unir-se aos anjos para glorificar e exaltar eternamente as grandezas, a majestade e o amor de Deus, e, podendo impedí-lo, permitiria a Santíssima Virgem que, durante toda a eternidade, esta alma amaldiçoasse e blasfemasse o seu Deus?...
 
Não!... seu amor a Deus e Sua caridade para com os homens a isso se recusam.
 
Além disso, quando Maria se considera a Si mesma, não se vê Ela cumulada de graças que continuamente excitam o Seu reconhecimento?...
 
E para mostrar esse reconhecimento não se sentiria Ela obrigada a fazer por Deus tudo o que Lhe é possível fazer?...
 
Sem dúvida, continuamente o Seu coração transborda de agradecimentos e louvores para com Deus, mas o amor é ativo e não Lhe é suficiente fiel e reconhecido.
 
Em Deus Ela encontra toda a alegria que procura, conservando-lhe fiéis e inocentes as almas por Ele criadas e reconduzindo ao Seu amor aqueles que O abandonaram.
 
Vê-se deste modo que Ela é por reconhecimento obrigada a nos amar.
 
E se tudo isso ainda não fosse suficiente, poderia Maria Santíssima esquecer-Se de que é Mãe dos homens?... Ser mãe significa ser vigilante, doce, condescendente para com o ser pequeno, fraco e necessitado que a Providência lhe confiou.
 
Ser Mãe dos homens é trazer em Suas entranhas esta humanidade inteira, desfigurada e ingrata, sem dúvida, mas algumas vezes nobre em suas aspirações, em seus esforços e em suas lutas.
 
E poderia a Santíssima Virgem esquecer-se de tudo isso, Ela, que não foi feita tão grande, tão poderosa, tão "mãe", senão para nos aliviar e levar-nos todos em Seu coração?...
 
Oh! não! isso repugna ao Seu reconhecimento para com Deus, como repugna a um coração de mãe esquecer o fruto de suas entranhas.
 
Maria conhece em toda a sua extensão e todos os seus pormenores o dever que Deus Lhe impôs, que foi manifestado por Seu Filho, quando, pregado na Cruz, iria consumir o Seu Sacrifício.
 
O Seu coração sondou toda a extensão das obrigações de uma mãe. De certo modo aprofundou as intenções de Deus a Seu respeito, tornando-A tão grande, tão poderosa e tão misericordiosa.
 
Ela compreendeu esta palavra que ressoa continuamente aos Seus ouvidos: "Eis aí o Vosso filho".
 
E Maria, que tanto ama a Deus, que deseja tanto agradar-Lhe, sabe também que, amando os homens, glorifica mais e mais o Seu divino Filho, oh! como Ela deixa dilatar-se o Seu coração, até transbordar de todas as ternuras e misericórdias.
 
Dia e noite Ela cosnerva os olhos fixos sobre os Seus filhos, receando que lhes aconteça alguma desgraça, e sem cessar Se inclina para nós com o sorriso nos lábios, para nos alentar nos sofrimentos, com o Seu olhar velado em lágrimas para chorar as nossas infidelidades, mas com as mãos repletas de graças, para nos auxiliar, esclarecer e guiar para o céu.
 
Oh! que doce e animador pensamento!...
 
Maria me ama e me conduz por toda parte em Seu coração. Também eu Vos amo, ó terna Mãe, e quero amar-Vos sempre, já que o amor só pode gerar o amor e o coração só pode retribuir um dom do coração.
 
(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria, continua com o post: O amor de mãe)
 
PS: Grifos meus.

domingo, 10 de outubro de 2010

São Paulo da Cruz e o Santo Sacrifício da Missa

São Paulo da Cruz e o Santo Sacrifício da Missa



Imaginemos com que fé e amor subiria Paulo ao altar!

Apesar de absorto nos augustos mistérios, cumpria escrupulosamente as cerimônias, nada julgando de somenos nas coisas de Deus. Inflamava-se-lhe paulatinamente o rosto e lágrimas copiosas umedeciam os paramentos sagrados.

Com o decorrer dos tempos, diminuíram as lágrimas, particularmente nas aridezes e desolações espirituais. Porém, jamais deixou de chorar depois da Consagração.

Qual a fonte misteriosa e inesgotável dessas lágrimas? Ouçamo-lo em palestra com seus filhos:

“Acompanhai a Jesus em Sua Paixão e Morte, porque a missa é a renovação do Sacrifício da Cruz. Antes de celebrardes revesti-vos dos sofrimentos de Jesus Crucificado e levai ao altar as necessidades de todo o mundo” .

Quando celebrava, afigurava-se-lhe estar no Calvário, ao pé da Cruz, em companhia da Mãe das Dores e do Discípulo predileto, a contemplar Jesus em Suas penas. Essa a causa de tantas lágrimas, verdadeiro sangue da alma que, mesclado com o Sangue divino do Cordeiro, eram oferecidas ao Eterno Padre para aplacá-lO e atrair sobre os homens graças e benefícios.

Revestir-se de Jesus Crucificado antes do santo Sacrifício, Paulo o fazia diariamente, pois não subia ao altar sem macerar-se com disciplina terminada em agudas pontas, enquanto meditava a dolorosa Paixão do Senhor, unindo-se espiritual e corporalmente aos tormentos do seu Deus.

Terminada a santa missa, retirava-se a lugar solitário, entregando-se aos mais vivos sentimentos de gratidão e amor. E prescreveu nas santas Regras este método de preparação e ação de graças à santa missa.

Ao comentar as palavras do Evangelho COENACULUM STRATUM, dizia ser o cenáculo o coração do padre, cuja integridade deve ser defendida a todo custo, mantendo-se sempre acesas as lâmpadas da fé e da caridade. Comparava também o coração sacerdotal ao sepulcro de Nosso Senhor, sepulcro virgem, onde ninguém fora depositado. E acrescentava:

O coração do sacerdote deve ser puro e animado de viva fé, de grande esperança, de ardentíssima caridade e veemente desejo da glória de Deus e da salvação das almas” .

Zeloso da rigorosa observância das rubricas, corrigia as menores faltas. Velava outrossim pelo asseio das alfaias sagradas:

Tudo o que serve ao santo Sacrifício, dizia, deve ser limpo, sem a menor mancha ” .

Vez por outra mostrou Nosso Senhor com prodígios quão agradável Lhe era a missa celebrada pelo Seu fiel servo. Celebrava certo dia na capela do mosteiro de Santa Luzia, em Corneto. Tinha como ajudante o ilustre personagem Domingos Constantini. Pouco antes da Consagração, envolveu-o tênue nuvem de incenso, embalsamando o santuário de perfume desconhecido, enquanto o santo se elevava a cerca de dois palmos acima do supedâneo. Terminada a Consagração, envolto sempre naquela misteriosa nuvem, alçou-se novamente ao ar, com os braços abertos. Dir-se-ia um Serafim em oração.

O piedoso Constantini de volta à casa, maravilhado, relatou o fato, glorificando a Deus, tão admirável nos Seus santos.

(O caçador de almas, São Paulo da Cruz, por Pe. Luís Teresa de Jesus Agonizante, edição de 1958)

PS: Grifos meus.

Educação sobrenatural - VIII - O catecismo

EDUCAÇÃO SOBRENATURAL


VIII- O CATECISMO

"As criancinhas pedem pão" (Jer. Lam., IV, 4)

Quando se deve ensinar a doutrina  do catecismo?
Logo que a criança estiver em condições de reter alguma coisa: o que quer dizer, desde a mais tenra idade.

Quando se devem mandar as crianças para o curso do catecismo?
O mais cedo possível.

Como devem os pais encarar os cursos de catecismo?
Devem considerá-los os mais importantes de todos. Por conseguinte, nunca dispensarão desses cursos os seus filhos, sob pretextos de falta de tempo, das lições a aprender ou dos deveres a cumprir; mesmo por motivos de exames, não devem suprimir, a não ser momentâneamente, este meio necessário duma ciência necessária.

Todos os pais, mesmo os que pensam bem, raciocinam desta maneira?
Não, infelizmente.

Certos pais consideram estes cursos de catecismo como uma formalidade, à qual é preciso que a criança se submeta para ser admitida à comunhão solene; e esta formalidade reduzem-na ao mínimo.

Se a comunhão solene fosse autorizada, após quinze dias ou um mês de catecismo, havia muitos pais que aproveitariam com reconhecimento a permissão. Outros aceitam para a educação dos filhos instituições em que o curso de instrução religiosa é facultativo, e posto ao mesmo nível da lição de piano; e comparam o catequista ao professor de esgrima ou de ginástica.

Na prática, como se interessará a mãe pelo curso do catecismo?
- Acima de tudo, fará que seus filhos frequentem esses cursos com regularidade e pontualidade.

- Depois, procederá de forma que a lição dada seja aprendida com esmero e bem sabida, e exigirá com firmeza a redação dos exercícios, se os houver.

- Saberá da criança aquilo que ela tem aprendido e retido.

4º- Relacionar-se-á com o catequista para fazer dele o colaborador consciente do seu papel de educadora.

Ensinamos durante vinte anos o catecismo em diversas paróquias. Não encontramos um único pai nem uma única mãe que viesse procurar-nos por causa da educação religiosa de seu filho. Informavam-se do seu comportamento ou do seu saber, mas com o fim de evitar as punições ou de o verem obter um lugar distinto, mas nunca ninguém nos fez notar que esta ou aquela lição não tinha sido compreendida, não tinha sido estudada, etc.

(Catecismo da educação, pelo Abade René de Bethléem, segue com o post: A formação da consciência)

Nota do blogue: Na falta de um local (próximo) e de pessoas que ensinem o catecismo como deve ser ensinado (fé íntegra), a responsabilidade deste é dos pais, em especial das mães.

Segue alguns catecismos:

CARTA AOS AMIGOS DA CRUZ

CARTA AOS AMIGOS DA CRUZ
Por São Luís de Montfort


Visto que a cruz divina me guarda em retiro e me previne de lhes falar pessoalmente sobre os sentimentos de meu coração na excelência e nas práticas de sua união à cruz sagrada de Cristo. De qualquer forma, nesse último dia de meu isolamento, eu deixo os deleites da vida interior para traçar sobre esse papel uns breves pontos da cruz com os quais penetro em seus corações generosos. Quisera Deus que eu pudesse usar o sangue de minhas veias em preferência à tinta de minha caneta! Aliás, mesmo que o sangue fosse requerido, o meu não seria bom o suficiente. Eu rezo com a intenção que o Espírito do Deus Vivo possa ser a vida, força e a mão orientadora dessa carta; que sua unção possa ser minha tinta, a cruz sagrada minha caneta, e seu coração meu livro.

I. EXCELÊNCIA DA ASSOCIAÇÃO

Amigos da Cruz, vocês são como cruzados unidos na batalha contra o mundo, não como religiosos que fogem do mundo a fim de que não sejam submetidos, mas como bravos e valentes guerreiros no campo de batalha, que se recusam a se retirar ou mesmo recuar uma polegada. Sejam bravos e lutem corajosamente. Vocês devem se juntar em uma união íntima de mente e coração, que é mais forte e bem mais formidável contra o mundo e as força do inferno daquele que é o exército de uma grande nação inimiga. Malditos espíritos estão unidos para destruí-los; vocês devem ficar unidos para esmagá-los. Os avarentos estão unidos para fazer dinheiro e acumular ouro e prata; vocês devem combinar seus esforços para adquirir tesouros eternos escondidos na Cruz. Os que procuram o prazer unem-se para se regozijar, vocês devem ficar unidos para sofrer.

A. Grandeza de Seu Título.

Vocês se chamam a si mesmos de "Amigos da Cruz". Que título glorioso! Eu devo confessar que eu fico encantado e cativado com isso. É mais radiante que o sol, mais alto que os céus, mais magnífico e resplandecente que todos os títulos que dão aos reis e imperadores. É o glorioso título de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. É o genuíno título de um Cristão.

Mas, se eu fico cativado pelo seu esplendor, eu não fico nem um pouco assustado pela sua responsabilidade, porque é um título que abraça dificuldade e obrigações inescapáveis, somadas nas palavras do Espírito Santo, "Uma raça escolhida, um sacerdócio real, um povo separado." Um Amigo da Cruz é alguém escolhido por Deus, dentre milhares que vivem somente de acordo com sua razão e juízo, para ser completamente divino, erguido sobre a simples razão e completamente oposto às coisas materiais, vivendo na luz da pura fé, e inspirado por um amor profundo à Cruz.

Um Amigo da Cruz é um rei todo poderoso, um campeão que triunfa sobre o demônio, o mundo e a carne em sua triplicada concupiscência. Ele destrói o orgulho de Satã pelo seu amor às humilhações; ele submete a ambição do mundo pelo seu amor à pobreza; ele refreia a sensualidade da carne pelo seu amor ao sofrimento. Um Amigo da Cruz é alguém que é santo e separado das coisas que são visíveis porque seu coração está erguido sobre tudo que há de transitório e perecível, e sua terra natal está no céu, ele viaja por todo seu mundo como um visitante e um peregrino, e, distante de colocar nisso seu coração, ele observa com indiferença e deixa tudo isso debaixo de seus pés com desprezo.

Um Amigo da Cruz é um prêmio glorioso ganho pelo crucificado Cristo no Calvário, em união com sua santa Mãe. É um Benoni ou Benjamin, um filho da aflição e da mão direita, concebido no coração sofrido de Jesus, vindo ao mundo através de seu costado trespassado, e batizado em seu sangue. Verdadeiro pela sua origem, sua vida abraça a cruz, e a morre para o mundo, a carne, e o pecado, de forma que vive cá embaixo uma vida oculta em Deus por Jesus Cristo. Em curtas palavras, um perfeito Amigo da Cruz é uma verdadeira árvore frutífera de Cristo, ou particularmente um outro Cristo, de forma que ele possa verdadeiramente dizer, "Eu vivo agora não com minha própria vida mas com a vida de Cristo que vive em mim."

Meus queridos Amigos da Cruz, vocês vivem de acordo com o nobre título que vocês sustentam? Ou, pelo menos, vocês têm um desejo real e uma determinação sincera para fazer isso com a ajuda da graça de Deus, sob o abrigo da Cruz de Cristo e de Nossa Senhora das Aflições? Vocês estão empregando os meios necessários para isso? Vocês estão caminhando junto com o verdadeiro modo de vida, que é o estreito e pedregoso caminho do Calvário? Ou vocês estão, talvez sem percebê-lo, na larga estrada do mundo que conduz á perdição? Vocês estão cientes que há uma estrada que é em todos os aspectos uma estrada correta e segura, mas que realmente conduz à morte eterna?

Vocês distinguem claramente a voz de Deus e sua graça daquela do mundo e da natureza humana? Vocês escutam a voz de Deus, nosso Pai do Céu, pronunciando sua maldição triplicada a todo aquele que segue os desejos do mundo: "Desgraça, desgraça, desgraça a todo povo da Terra;" o Pai que estica seus braços a vocês com apelo amoroso, "Revele-se, meu povo escolhido," queridos amigos da Cruz de meu Filho, fora do mundanismo, que foi por mim mesmo amaldiçoado, rejeitado pelo meu Filho, e condenado por meu Espírito Santo?

Cuide-se de seguir seus conselhos, de sentar em sua companhia, ou mesmo de hesitar na estrada que eles tomam. Apresse-se em sair da infame Babilônia. Escutem somente a voz de meu Filho querido e sigam somente a Ele, que eu lhes ofereci para ser seu caminho, sua verdade, sua vida, e seu modelo. (Ipsum audite.) "Escutem a Ele." Você escuta a voz de Jesus que, sobrecarregado com sua Cruz, gritou por vocês, "Vinde! Aquele que me segue não estará andando nas trevas; Coragem! Eu venci o mundo.."?

B. As Duas Companhias.

Meus queridos irmãos e irmãs, há duas categorias que aparecem diante de vocês a cada dia: os seguidores de Cristo e os seguidores do mundo. A companhia do nosso querido Salvador está à direita, escalando uma estrada apertada, tornou tudo mais estreito por causa da imoralidade do mundo. Nosso Mestre conduz o caminho, de pés expostos, coroado com espinhos, coberto com sangue, e onerado com uma pesada cruz. Aqueles que O seguem, embora mais corajosos, são somente uns poucos do mundo, ou porque ao povo falta coragem para segui-lO em sua pobreza, sofrimentos, humilhações e outras cruzes que Seus servos devem carregar todos os dias de suas vidas.

Na mão esquerda está a companhia do mundo ou do demônio. Essa é ainda mais numerosa, mais imponente e mais conhecida, pelo menos na aparência. A maioria do povo moderno corre para se juntar a ela, todos juntos abarrotados, embora a estrada seja larga e esteja continuamente se tornando mais larga como nunca se viu pela multidão que se derrama como uma torrente. Está espalhada com flores, margeada com todo tipo de distrações e atrações, e pavimentada com ouro e prata.

À direta, os poucos grupos que seguem a Jesus falam a respeito da aflição e penitência, rezam e têm indiferença pelas coisas mundanas. Eles encorajam continuamente uns aos outros dizendo, "Agora é hora de sofrer e ficar de luto, viver no retiro e na pobreza, humilhar-se e mortificar-se; por que aqueles que não possuem o espírito de Cristo, que é o espírito da cruz, não pertencem a Ele. Aqueles que pertencem a Cristo crucificaram todas suas paixões e desejos de auto-satisfação. Nós devemos ser verdadeiras imagens de Cristo ou estaremos eternamente perdidos."

"Tenha confiança," eles dizem uns aos outros. Se Deus está do nosso lado, conosco e diante de nós, quem pode ficar contra nós? Aquele que está conosco é mais forte do que aquele que está no mundo. O servo não é maior do que seu mestre. Essa nossa leve e momentânea tribulação nos trará uma imensa e eterna glória. O número daqueles que serão salvos não é tão grande quanto algumas pessoas imaginam. Somente os valentes e os esforçados arrebatam o céu pela força. Ninguém será coroado sem que haja combatido legitimamente segundo o Evangelho e não de acordo com as máximas do mundo. Vamos lutar com toda nossa força, vamos correr com toda velocidade, que nós podemos alcançar nosso objetivo e obter a coroa. Tais são alguns dos conselhos celestiais com os quais os Amigos da Cruz inspiram uns aos outros.

Aqueles que seguem o mundo, pelo contrário, encorajam-se para continuar em seus maus caminhos sem escrúpulos, chamando uns aos outros, dia após dia, "Vamos comer e beber, cantar e dançar, e nos divertir. Deus é bom. Não nos criou para nos destruir. Ele não nos proíbe de nos divertir. Nós não deveríamos ser destruídos por tão pouco. 'Não morrereis'."

Queridos irmãos e irmãs, lembrem-se que nosso amado Salvador tem Seus olhos em vocês nesse momento, e Ele diz a cada um de vocês individualmente:

"Veja como quase todos Me abandonaram na estrada real da Cruz. Os pagãos em sua cegueira ridicularizam Minha Cruz como loucura; Judeus obstinados são repelidos por isso como um objeto de horror; heréticos destróem e quebram-na em pedaços como algo desprezível. Mesmo Meu próprio povo – e eu digo isso com lágrimas nos olhos e sofrimento em Meu coração – Meus próprios filhos que Eu criei e instruí em Meus caminhos, Meus membros que eu ressuscitei com Meu próprio Espírito, voltaram as costas para mim e Me abandonaram se transformando em inimigos de Minha Cruz.

Vocês também irão embora? Vocês também Me abandonarão fugindo de Minha Cruz como os mundanos, que assim se tornam tantos anticristos? Vocês também seguirão o mundo; a despeito da pobreza de Minha Cruz para procurar então a riqueza; evitar os sofrimentos de Minha Cruz para procurar o divertimento; evita as humilhações de Minha Cruz para seguir então as honras do mundo? Em aparência tenho muitos amigos, que asseguram Me amar, porém, no fundo de seus corações Me odeiam. Eu tenho muitos amigos em Minha mesa, mas muito poucos de Minha Cruz. (Imit. II, 11, 1)."

Nesse apelo apaixonado de Jesus, vamos nos elevar sobre nossa natureza humana; não vamos nos deixar seduzir pelos nossos sentimentos, tal como Eva; mas mantenhamos nossos olhos fixados em Jesus crucificado, que nos conduz a nossa fé e nos induz à perfeição (Heb 12.2). Vamos nos separar das práticas do mal do mundo; Vamos mostrar nosso amor por Jesus da melhor forma, isto é, através de todo tipo de cruzes. Reflita bem nessas excelentes palavras de nosso Salvador, "Em seguida, Jesus disse a seus discípulos: Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me." (Mt 16.24; Lc 9.23).

II. AS PRÁTICAS DA PERFEIÇÃO CRISTÃ


A santidade Cristã consiste nisso:

1. Resolver se tornar um santo: "Se alguém quiser ser meu seguidor;"

2. Negação de si mesmo: "Renuncie a si mesmo;"

3. Sofrimento: "Tome sua cruz;"

4. Agir: "Siga-me."

A. Se alguém quiser me seguir...

"Se alguém," diz nosso Senhor, apontando o pequeno número dos escolhidos desejando conformar-se com Cristo crucificado carregando sua cruz. Seu número é tão pequeno que nós seríamos confundidos se nós o conhecêssemos. É tão pequeno que dificilmente há um em dez mil, como tem sido revelado por vários santos, incluindo São Simão Estelito (como é relatado pelo Abade Nilo), São Basílio, São Efraim e outros. É tão pequeno que, para reuni-los, Deus teria que convocá-los um a um como fez através de seu profeta, "Vocês serão reunidos um a um;" um de seu país, um daquela província.

"Se alguém quiser,"

Se alguém tiver um desejo genuíno, uma determinação, não estimulada pela natureza, hábito, amor próprio, interesse próprio, ou respeito humano, mas pela graça do Espírito Santo totalmente conquistada, que não é dada a qualquer um. "Não é dado a todos os homens conhecer seu mistério." Em verdade, somente umas poucas pessoas têm o conhecimento de como sobreviver ao mistério da Cruz na vida diária. Para um homem subir o Monte do Calvário e permitir ser pregado à cruz com Cristo no meio de seu próprio povo, deve ser corajoso, heróico, resoluto; alguém que é íntimo de Deus, e trata com indiferença o mundo e o demônio, seu próprio corpo e seus próprios desejos; alguém que é determinado a deixar todas as coisas, a tomar para si todas as coisas, e sofrer todas as coisas por Cristo. Vocês devem compreender, meus queridos Amigos da Cruz, que deveria se não houver alguém entre vós com essa determinação, este está andando somente com um pé, voando com uma asa. Ele não é digno de ser alguém de sua companhia, posto que ele não é digno de ser chamado um Amigo da Cruz, que nós devemos, como Jesus, amar "com uma mente rica e um coração desejoso." Só precisamos de um membro com meio coração para corromper o grupo todo, como um tolo repulsivo. Se um tal entrar em seu aprisco através da porta má do mundo, então, em nome de Cristo crucificado, expulse-o como você faria com um lobo do rebanho.

"Se alguém quiser ser um seguidor meu."

Se alguém quiser Me seguir que, assim se humilhe e se esvazie, e que chegue a parecer um verme e não um homem; comigo, que não vim ao mundo senão abraçar a cruz, aqui estou; para preparar Meu coração, para amar a sabedoria desde Minha juventude, para suspirar por ela em todos os dias da Minha vida, para levá-la alegremente, preferindo-a a todas as alegrias e deleites que o céu e a terra pudessem oferecer, e não se contentar plenamente até morrer em seu divino abraço.

B. Renuncie a si mesmo.

Se alguém, portanto, quiser Me seguir tão humilhado e crucificado, deve se gloriar, como eu, apenas na pobreza, humilhações e sofrimentos de Minha Cruz. "Renuncie a si mesmo." Excluídos, então, da companhia dos Amigos da Cruz o sábio mundano, os intelectuais e os céticos vinculados a suas próprias idéias e inflados com seus próprios talentos. Longe de vocês aqueles tagarelas sem fim que fazem um grande espetáculo, mas não produzem nada a não ser orgulho. Longe de vocês aqueles assim chamados devotos Católicos que em seu orgulho exibem a auto-suficiência do orgulhoso Lúcifer em todo lugar que vão, dizendo, "Eu não sou como o resto dos homens;" que não podem sofrer estando culpados sem darem desculpa, serem atacados sem responderem de volta, serem humilhados sem exaltarem a si mesmos.

Sejam cuidadosos para não admitirem no interior de sua sociedade aquelas pessoas delicadas e sensíveis que ficam com medo da mais leve picada de alfinete, que gritam e queixam-se à mínima dor, que não sabem nada do vestuário, da disciplina ou outros instrumentos de penitência, e que misturam-se com suas devoções modernas, uma mais refinada exigência e uma mais observada carência de mortificação.

C. Tome sua cruz.

"Tome sua cruz," aquela que é dele. Que o homem (ou mulher), de modo tão extraordinário, "muito além do preço de pérolas, tome sua cruz alegremente, abrace-a com amor, e carregue-a corajosamente em seus ombros, sua própria cruz, e não aquela de um outro – sua própria cruz que Eu, em Minha sabedoria, designei para ele em todos detalhes de número, medida e peso; sua própria cruz que Eu moldei com Minhas próprias mãos e com grande exatidão com relação às suas quatro dimensões: comprimento, largura, espessura e profundidade; sua própria cruz, traçada por Minha mão com exatidão; sua própria cruz, que é o maior presente que Eu posso conceder aos Meus escolhidos na terra; sua própria cruz, cuja espessura é feita à custa da perda de posses, humilhações, desprezo, sofrimentos, enfermidades e experiências espirituais, que vêm diariamente até sua morte em conformidade com Minha providência; sua própria cruz, cujo comprimento consiste de um certo período de dias ou meses sofrendo calúnias, ou vivendo como um doente acamado, ou sendo forçado a pedir, ou sofrer pelas tentações, secura, desolação, e outras experiências interiores; sua própria cruz, cuja largura é moldada sobre as mais ásperas e amargas circunstâncias produzidas por parentes, amigos, servos; sua própria cruz, cuja profundidade é moldada sobre as experiências escondidas que Eu nele deveria infligir sem ser capaz de encontrar qualquer conforto em outras pessoas, porque elas também, sob minha direção, afastar-se-ão dele e se reunirão comigo para fazê-lo sofrer.

"Tome-a," significa carregar sua cruz e não arrastá-la, ou livrar-se dela, ou diminuir seu peso, ou escondê-la. Em vez disso, venha suspendê-la no alto e carregá-la sem impaciência ou aborrecimento, sem reclamação intencional ou resmungo, sem hesitação ou encobrimento, sem vergonha ou respeito humano. "Tome-a" e ajuste-a em sua fronte, dizendo com São Paulo, "A única coisa que eu posso ostentar a respeito é a Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo." Carregue-a em seus ombros como Nosso Senhor, que tomara se torne a fonte de suas vitórias e o espectro de seu poder: "O domínio é colocado sob seus ombros." Ajuste-a em seu coração, onde, tomara, como a sarça ardente de Moisés, queime dia e noite com o puro amor de Deus sem ser consumida!

"A cruz": Carregue, porque nada é tão necessário, tão benéfico, tão agradável, ou tão glorioso como sofrer algo por Jesus Cristo.

1. Nada é tão necessário.

Queridos Amigos da Cruz, nós somos todos pecadores; não há ninguém entre nós que não tenha merecido o inferno, e eu muito mais do que qualquer um. Nossos pecados devem ser punidos ou nesse mundo ou no próximo. Se nós sofremos por eles agora, nós não deveríamos sofrer por eles depois da morte. Se nós, de bom grado, aceitamos o castigo por eles, essa punição será um ato do amor de Deus; porque é a misericórdia que sustenta poder e punições nesse mundo, e não a estrita justiça. Esse castigo será leve e temporário, acompanhado pela consolação e mérito, e seguido pelas recompensas tanto aqui quanto na eternidade.

Mas se o castigo devido por nossos pecados é adiado até o mundo vindouro, então será a justiça vingadora de Deus que oferece tudo ao fogo e à espada, que infligirá o castigo, um terrível e indescritível castigo: "Quem compreende o poder de sua cólera?" Julgamento sem misericórdia, sem reparação, sem mérito, sem limite e sem fim. Sim, sem fim. Esse pecado grave de um momento que você cometeu, esse mau pensamento voluntário que escapou ao seu cuidado, essa palavra que se arrastou com o vento, essa ação diminuta que violentou a lei de Deus – serão castigados pela eternidade, seja com Deus ou sem Deus, na companhia dos demônios no inferno, sem que esse Deus vingador tenha piedade de seus espantosos tormentos, em seus soluços e lágrimas, violentos o suficiente para lascar pedras. Padecer eternamente, sem mérito algum, sem misericórdia e sem fim.

Nós não pensamos nisso, meus queridos irmãos e irmãs, quando nós havemos de sofrer alguma experiência nesse mundo? Quão sortudos somos nós para sermos capazes de mudar um castigo eterno e inútil por outro passageiro e transitório somente por tolerar nossa cruz com paciência! Quantas de nossas dívidas ainda não estão pagas! Quantos pecados nós cometemos e que, apesar de uma confissão sincera e uma contrição profunda, nós havemos de sofrer no purgatório por vários anos, simplesmente porque nesse mundo nós nos contentamos com umas poucas leves penitências!

Ah, saldemos nossas dívidas com boa-vontade nessa vida carregando alegremente nossa cruz. No outro, tudo deverá ser pago pelas más até o último centavo, até uma palavra ociosa. Se lográssemos apanhar do diabo o livro da morte onde ele anotou todos nossos pecados e a punição que lhes é devida, que dívida pesada encontraríamos, e quão contentes ficaríamos por sofrer tão longos anos na terra em preferência a um único dia no mundo vindouro!

Amigos da Cruz, vocês não se elogiam pelo que vocês são, ou desejam vir a ser, os amigos de Deus? Bem, então, decidam beber o cálice que vocês devem beber para que se tornem amigos de Deus: "Aqueles que beberam o cálice do Senhor se tornaram amigos de Deus." A Benjamin, o amado filho de Jacó, foi dado o cálice, enquanto seus outros irmãos não receberam nada a não ser trigo. O discípulo amado de Cristo, tão querido pelo coração de seu Mestre, subiu até o Calvário e bebeu de seu cálice. "Você pode beber o cálice que eu estou indo beber?" Desejar que a glória de Deus seja excelente, mas desejar e rezar por ela sem resolver sofrer por coisas tão tolas quanto extravagantes: "Não sabeis o que pedis..." "Nós devemos experimentar muitas dificuldades antes de entrarmos no reino do céu." Para entrar em seu reino vocês devem sofrer muitas cruzes e tribulações.

Com razão vocês gloriam ser filhos de Deus. Vocês deveriam se gloriar, pois, também da correção que seu Pai Celestial lhes deu e lhes dará futuramente, porque ele castiga todos seus filhos. Se vocês não estão incluídos entre seus filhos amados, vocês estão - que desgraça! - incluídos entre aqueles que estão perdidos, como aponta Santo Agostinho. Ele também nos conta que, "Aquele que não fica de luto nesse mundo como um estrangeiro e um peregrino não se regozijará no mundo vindouro como um cidadão do céu."

Se seu Pai Celestial não lhe enviar algumas cruzes que valham à pena de tempos em tempos, é porque Ele não mais se preocupa e está furioso contigo; Ele está te manejando como um observador, não mais pertencendo a sua família e merecendo sua proteção, ou como um filho ilegítimo, que, não tendo nada do que reivindicar por uma porção da herança, não merece nem cuidado nem correção.

Amigos da Cruz, discípulos de um Deus crucificado, o mistério da Cruz é um mistério desconhecido aos Gentios, rejeitado pelos Judeus, e desprezado pelos hereges e maus católicos. Mas é o grande mistério que vocês devem aprender a praticar na escola de Cristo, e que só pode ser aprendido por Ele. Em vão vocês buscarão por todas as escolas dos tempos antigos um filósofo que assim ensinou; em vão apelarão à luz dos sentidos ou da razão. Somente Jesus pode ensiná-los e fazê-los gostar deste mistério por sua graça toda-poderosa, que pode lhes ensinar e fazer gostar desse mistério por sua graça vitoriosa. Esforce-se, então, para se tornar hábil em sua sublime ciência sob a guia de um Mestre tão excelente, e vocês entenderão toda as outras ciências, porque ela contém todas em um grau de eminência. É nossa filosofia natural e sobrenatural, nossa teologia divina e mística, nossa pedra filosofal, que, pela paciência, transforma os metais mais grosseiros em preciosos, as dores mais amargas em prazerosas, pobrezas em riquezas, as mais profundas humilhações em glória. Aquele de vocês que melhor saiba como carregar sua cruz, ainda que fosse um analfabeto, é o mais sábio de todos.

O grande São Paulo retornou do terceiro céu, onde aprendeu os mistérios escondidos mesmo dos anjos, declarou que não sabia nem queria saber de nada a não ser Cristo crucificado. Alegre-se, então, seu pobre Cristão, homem ou mulher, sem quaisquer habilidades escolares ou intelectuais, porque se você souber sofrer alegremente, você sabe mais do que um doutor da Universidade Sorbonne que não sabe como sofrer como você.

Vocês são os membros de Cristo, uma honra maravilhosa realmente, porém haveis de sofrer. Se a Cabeça é coroada com espinhos, os membros podem esperar serem coroados com rosas? Se a Cabeça é zombada e coberta com pó na estrada do Calvário, podem os membros esperar serem borrifados com perfumes em um trono? Se a Cabeça não tem travesseiro para descansar, podem os membros esperar reclinar entre plumas e edredons? Seria algo impensável! Não, não, meus queridos Companheiros da Cruz, não enganem-se a si mesmos. Esses Cristãos vocês vêem em todo lugar, vestidos de acordo com a moda, fastidiosos a seu modo, cheios de importância e dignidade, não são verdadeiros discípulos, verdadeiros membros do Cristo crucificado. E se pensarem de outro modo, ofereça a essa Cabeça coroada de Espinhos a verdade do Evangelho. Quantos assim chamados Cristãos imaginam que eles sejam membros de nosso Salvador quando em realidade são seus traiçoeiros perseguidores, porque embora com a mão eles façam o sinal da cruz, em seus corações eles são seus inimigos!

Se vocês são guiados pelo mesmo espírito, se vocês vivem com a mesma vida como Jesus, sua Cabeça coroada por espinhos, vocês devem esperar somente espinhos, chicotes e pregos; que significa, nada além da cruz; porque o discípulo deve ser tratado como o mestre e os membros como a cabeça. E se lhes for oferecido, como foi a Santa Catherine de Sienna, uma coroa de espinhos e uma de rosas, vocês deveriam, como ela, escolher coroar-se de espinhos sem hesitação e espremê-la sob suas cabeças, da mesma forma que Cristo.

Vocês sabem que são moradas do Espírito Santo e que, como pedras vivas, estão para ser marcados pelo Deus do amor na construção da Jerusalém celestial. E assim vocês devem esperar serem dispostos, cortados e talhados sob o martelo da cruz; de outra forma, vocês permaneceriam pedras brutas, boas para nada a não ser jogadas fora. Sejam cautelosos para que vocês não causem recuo ao martelo quando ele lhes bater; respeite o escultor que está lhe esculpindo e a mão que está lhes pondo forma. Pode ser que esse perito e amoroso artista precise de vocês para ter um lugar importante em seu edifício eterno, ou para ser alguns dos mais belos artífices em seu reino celestial. Portanto, deixe-o fazer o que Lhe apraz; Ele os ama, Ele sabe o que está fazendo, Ele teve experiência. Seus golpes são hábeis e dirigidos com amor; nunca os dá em falso, exceto por sua impaciência.

O Espírito Santo compara a cruz algumas vezes a um processo de filtração que separa o grão do refugo e da poeira. Como o grão diante do leque, deixemo-nos ser sacudidos sem resistir; pois o Pai da família está lhe esmiuçando e em breve o colocará em seu celeiro. Outras vezes, o Espírito Santo compara a cruz a um fogo que remove a ferrugem do ferro através da intensidade de seu calor. Nosso Deus é um fogo devorador residindo em nossas almas através de sua cruz para purificá-las sem consumi-las, como ele fez anteriormente com a sarça ardente. De novo, Ele compara a cruz à caçarola de uma fornalha em que o bom metal é refinado e o mau se dissipa na fumaça; o metal é purificado pelo fogo, enquanto as impurezas desaparecem no calor das chamas. E é na caçarola da tribulação e tentação que os verdadeiros amigos da cruz são purificados pela sua constância em sofrimentos, enquanto seus inimigos são varridos para fora pela sua impaciência e murmurações.

Meus queridos Amigos da Cruz, vejam diante de vocês uma grande nuvem de testemunhas que, sem dizer uma palavra, provam o que eu tenho dito. Considere, por exemplo, que o justo Abel, que foi morto pelo seu irmão; e Abraão, um homem justo que foi um estrangeiro na terra; Ló, um homem justo, expulso de seu próprio país; Jacó, um homem justo perseguido pelo seu irmão; Tobit, um homem justo golpeado com a cegueira; Jó, um homem justo que ficou empobrecido, humilhado e coberto com feridas da cabeça aos pés.

Considerem os incontáveis apóstolos e mártires que foram banhados em seu próprio sangue; as virgens e os confessores que foram reduzidos à pobreza, humilhados, perseguidos ou exilados. Todos eles podem dizer com São Paulo, "Olhem para Jesus, o pioneiro e o mais perfeito de nossa fé," a fé que nós temos nele e em sua Cruz; foi necessário que ele sofresse e depois entrasse, em sua glória, através da Cruz. Do lado de Jesus, vemos Maria sua Mãe, que nunca se manchou com qualquer pecado, original ou atual, apesar do coração puro e adorado trespassado de lado a lado. Se eu tivesse um tempo para enfatizar os sofrimentos de Jesus e Maria, eu poderia mostrar que o que nós sofremos não é nada comparado aos deles.

Quem, então, ousaria invocar estar isento da cruz? Quais de nós não se precipitará em se colocar onde sabe que a cruz o aguarda? Quem recusaria em dizer com Santo Inácio de Antióquia, "Podem vir o fogo, a forca, bestas selvagens e todos os tormentos do inferno, que eu posso deleitar-me na possessão de Cristo."

Mas se vocês não estão desejando sofrer pacientemente e carregar sua cruz com resignação como aqueles escolhidos por Deus, então vocês terão que carregá-la se lamentando e reclamando como aqueles na estrada da danação. Vocês estarão como os dois bois que puxavam a Arca da Aliança, mugindo; como Simão de Cirene que, totalmente sem vontade, levantou toda cruz de Cristo e não fez nada a não ser reclamar enquanto a carregava. E, no fim, você será como o bandido impenitente, que, do alto de sua cruz, se precipitou no abismo.

Não, sua terra maldita em que nós vivemos não está destinada a nos tornar feliz; nessa terra de escuridão não podemos esperar ver claramente; não há nenhuma tranqüilidade perfeita nesse mar tormentoso; nós nunca podemos evitar conflitos nesse campo de experiência e batalha; nós não podemos escapar de sermos arranhados nessa terra coberta de espinhos. Desejosa ou indesejosamente, todos devem carregar sua cruz, tanto aqueles que servem a Deus e aqueles que não servem. Tenha em mente as palavras do hino:

Escolha uma cruz das três do Calvário;
Uma deve ser escolhida, então escolha corretamente;
Vocês devem sofrer como um santo ou um bandido arrependido,
Ou como um reprovado, em uma tristeza sem fim.

Isso significa que se vocês não estão desejando sofrer como o bandido sem arrependimento, terão que beber o cálice da amargura até as sujeiras sem a ajuda consoladora da graça, e vocês terão que sustentar o peso completo de sua cruz, desprovido do poderoso apoio de Cristo. Vocês terão que carregar até a sobrecarga que o demônio acrescentará por meios da impaciência que lhes causará. E depois de participar da infelicidade do bandido impenitente na terra, vocês repartirão sua miséria na eternidade.

2. Nada é tão útil e tão agradável.

Mas se, ao contrário, vocês sofrem da forma correta, a cruz se tornará um jugo fácil e leve, visto que o próprio Cristo a carregará convosco. Dará asas a vocês para elevá-los aos céus; se tornará o mastro do seu navio, conduzindo-os direta e facilmente ao porto da salvação. Carregue sua cruz pacientemente, e será uma luz em sua escuridão espiritual, porque aquele que nunca sofreu provas é ignorante. Carregue sua cruz alegremente e você ficará completo com o amor divino; porque somente sofrendo podemos residir no puro amor de Cristo. Rosas são encontradas somente entre os espinhos. É a cruz sozinha que alimenta nosso amor de Deus, como a madeira é o combustível que alimenta o fogo. Lembre do belo dito na "Imitação de Cristo ", "Conforme você faça violência a si mesmo, sofrendo pacientemente, assim você progredirá" no amor divino.

Não espere qualquer coisa daquelas pessoas sensíveis e preguiçosas que rejeitam a cruz quando ela deles se aproxima, e que são cuidadosos em não procurar por cruzes. O que eles são senão uma terra inculta que não produzirá nada a não ser espinhos porque não foi trazida à tona, trabalhada e modificada por um lavrador experimentado? Elas são como água podre, que é inadequada tanto para lavar quanto para beber.

Carregue sua cruz alegremente e você encontrará nela uma força toda-poderosa que nenhum de nossos inimigos será capaz de resistir, e você encontrará nela um prazer além de tudo aquilo que você já conheceu. Realmente, irmãos, o verdadeiro paraíso terrestre é encontrado no sofrimento por Cristo. Pergunte a qualquer dos santos, e eles lhe contarão que eles nunca experimentaram um banquete mais delicioso para o espírito do que o experimentar os graves tormentos.

"Deixe todos os tormentos do demônio virem sobre mim," disse Santo Inácio, o Mártir. "Deixe-me sofrer ou morrer," disse Santa Teresa de Avila. "Não morrer sem sofrer," disse Santa Maria Madalena de Pazzi. "Eu posso sofrer e ser desprezada pelo seu propósito," disse o Bendito João da Cruz. E muitos outros têm falado nos mesmos termos, como nós lemos sobre suas vidas.

Meus queridos irmãos e irmãs, tenham fé na palavra de Deus, porque o Espírito Santo nos diz que quando nós sofremos alegremente por Deus, a cruz é a fonte de todo tipo de alegria para toda espécie de pessoas. A alegria que vem da cruz é muito maior que a de um homem pobre que repentinamente herda uma fortuna, ou de um camponês que é levado ao trono; maior do que a alegria de um negociante que se torna milionário; do que a de um líder militar sobre as vitórias que ele obteve; do que a dos prisioneiros libertos de suas correntes. Em resumo, imaginem maior alegria do que a que pode ser experimentada na terra, e entenda então que a felicidade de alguém que tolera seus sofrimentos no caminho da justiça contém, e até sobrepuja, todos elas.

3. Nada é tão glorioso.

Assim, regozijem-se e fiquem felizes quando Deus lhes favorece com uma de suas seletas cruzes; pois sem se darem conta, vocês são abençoados com o maior presente do céu, o maior presente de Deus. Se assim entendereis, se encarregareis das missas, fareis novenas nos santuários dos santos, tomareis para si longas peregrinações, como fizeram os santos, para obterem do céu o galardão divino.

O mundo chama isso de loucura, degradação, estupidez, uma falta de juízo e de senso comum. Eles estão cegos: deixe-os dizer o que gostam. Sua cegueira, que os faz ver a cruz em um caminho humano e distorcido, é uma fonte de glória para nós. Toda vez que eles nos fazem sofrer por sua zombaria e insultos, nos presenteiam com jóias, nos preparando um trono, e nos coroando com loureiros.

Mais que isso ... como diz São João Crisóstomo, "Toda a riqueza e honras, cetros e coroas ornadas com jóias de reis e imperadores não podem ser comparadas com o esplendor da cruz." É maior mesmo do que a glória de um apóstolo ou evangelista. "Se eu tivesse escolha," continua esse santo homem, iluminado pelo Espírito Santo, "Eu deixaria desejosamente o céu para sofrer pelo Deus do céu. Eu prefereria masmorras e prisões aos tronos do mais alto céu, e as mais pesadas das cruzes à glória dos serafins. Eu avalio a honra do sofrimento mais do que os presentes dos milagres, que por ele tenho o poder de subjugar espíritos maus, abalar os elementos do mundo, parar o sol em seu curso, ou elevar os mortos à vida. São Pedro e São Paulo são mais gloriosos em seus grilhões do que tendo alcançado o terceiro céu ou recebido as chaves do céu."

Realmente, não é a Cruz que deu a Jesus Cristo "o nome que está sobre todos os outros nomes, de forma que todos seres nos céus, na terra e no submundo curvariam os joelhos ao Seu Nome?" A glória de alguém que sabe como sofrer é tão grande como o céu, os anjos e os homens, e até o próprio Deus, contemplam-no com alegria como uma vista mais gloriosa. E se os santos no céu desejassem algo, seria retornar à Terra para que suportassem algumas cruzes.

Mas se essa glória é tão grande mesmo na terra, o que será no céu? Quem poderia descrevê-lo? Quem poderia mesmo entender completamente o peso eterno de glória que um único momento gasto na alegria carregando uma cruz nos oferece? Quem poderia compreender a glória ganha no céu por um ano, e às vezes por toda uma vida, em cruzes e sofrimentos?

Vocês podem ficar certos, meus queridos Amigos da Cruz, que algo maravilhoso os espera, visto que o Espírito Santo lhes uniu tão intimamente que todos muito cuidadosamente o evitam. E vocês podem ficar certos, também, que Deus quer fazer tantos santos quanto Amigos da Cruz existirem, se vocês forem fiéis às suas vocações e carregarem de bom grado suas cruzes assim como Cristo o fez.

D. Siga-me.

Porém, não basta sofrer, o mal e o mundo também têm seus mártires. Nós devemos sofrer e carregar nossa cruz nas pegadas de Cristo: "Siga-me," que significa que nós devemos sofrer carregando-a como Jesus. Para ajudar vocês a fazerem isso, há regras a serem seguidas:

AS QUATORZE REGRAS


Não procurar cruzes de propósito, nem pela própria culpa.

1) Não procure carregar cruzes deliberadamente.

Nós não devemos fazer algo errado para produzir algo bom; nem devemos, sem uma inspiração especial de Deus, fazer coisas más de modo a atrair a zombaria a nós mesmos. Havemos que imitar nosso Senhor, sobre Quem foi dito, "Ele fez bem todas as coisas," não por auto-estima ou vaidade, mas para agradar a Deus e triunfar sobre nossos semelhantes. E se você se dedicar a cumprir seus deveres, não lhe faltarão oposições, críticas e zombarias, que serão enviadas pela providência divina sem sua escolha ou exigência.

2) Olhar pelo bem do próximo.

Se acontecer de você fazer algo que não é nem bom nem mau em si mesmo, e seu próximo se escandalizar nisso – embora sem razão – se abstenha de fazê-lo por caridade, para evitar o escândalo dos fracos. Um tal ato heróico de caridade será de maior importância no olhar de Deus do que a ação que você estaria fazendo ou pretendendo fazer. Todavia, se o que você está fazendo é necessário ou benéfico para seu próximo, e algum hipócrita ou fariseu se escandaliza sem motivo, remeta a matéria a algum conselheiro prudente para descobrir se é realmente necessário ou vantajoso para eles. Se ele julgar que sim, então continue sem se preocupar com o que as pessoas dizem, enquanto que eles não detenham você. E você pode dizer-lhes o que nosso Senhor disse a alguns de seus discípulos quando eles lhe contaram que os escribas e fariseus ficaram escandalizados no que ele disse: "Deixai-os. São cegos e guias de cegos".

3) Admire a virtude sublime dos santos sem pretender imitá-la.

Embora certos grandes e santos homens tenham procurado e pedido por cruzes, e até pelo seu peculiar comportamento toleraram sofrimentos, desprezo e humilhações. Pois bem, contentai com admirável e gloriosa obra do Espírito Santo em suas almas. Humilhai à vista de tal virtude sublime sem tentar alcançar tais níveis por si mesmos. Comparados com aquelas águias ligeiras e leões fortes, nós somos carneiros de coração fraco.

4) Peça a Deus pela sabedoria da cruz.

Você poderia e deveria rezar pela sabedoria da cruz, aquele conhecimento da verdade que nós experimentamos dentro de nós mesmos e que pela luz da fé aprofunda nosso conhecimento dos mistérios mais escondidos, incluindo aqueles da cruz. Mas isso é obtido somente através de muito trabalho, grandes humilhações e orações fervorosas. Se necessitais esse espírito generoso que permite levar as cruzes mais pesadas corajosamente; esse espírito gracioso e consolador, que nos capacita, na parte mais elevada da alma a gostar das coisas que são amargas e repulsivas; de seu são e justo espírito que procura somente a Deus; de sua ciência da cruz que abraça todas as coisas; em resumo, desse inesgotável tesouro através do qual aqueles que fazem bom uso dele ganham a amizade de Deus – se você sustentar tal necessidade, ore pela sabedoria, peça por ela continuamente e fervorosamente sem hesitar ou temer não obtê-la, e será sua. Então você entenderá claramente em sua própria experiência como é possível desejar, procurar e encontrar alegria na cruz.

5) Humilhe-se pelas faltas de alguém, sem se preocupar.

Se você cometer um erro grave que traga a cruz sobre você, seja inadvertidamente ou mesmo pela sua própria culpa, incline-se sob a poderosa mão de Deus sem atraso, e na medida do possível não se preocupe com isso. Você poderia dizer consigo mesmo, "Senhor, aqui está um exemplo de minha obra." Se há algo errado no que eu tenho feito, aceite a humilhação como um castigo; se não foi pecado, aceite-a como um meio de conter seu orgulho. Freqüentemente, até muito freqüentemente, Deus permite a seus maiores servos, aqueles mais adiantados na santidade, cair nas mais humilhantes faltas de forma a humilhá-los diante de seus próprios olhos e dos olhos dos outros. Ele, assim, nos guarda dos pensamentos de orgulho que poderiam nos mimar por causa das graças que receberam, ou pelo bem que elas produzem de forma que “ninguém possa vangloriar-se na presença de Deus."

6) Deus nos humilha e purifica.

Você deve entender que através do pecado de Adão e através dos pecados que nós mesmos cometemos, tudo em nós se torna desprezado, não apenas em sentido corporal, mas também os poderes de nossa alma. E no momento em que nossas mentes corruptas consideram algum dom de Deus em nós, com morosidade e complacência, esse dom, essa ação, essa graça se mancha e se estraga, e Deus não mais olha por ela com favor. Se os pensamentos e reflexões da mente podem, desta forma, corromper as melhores ações do homem e os maiores dons de Deus, quão pior serão os maus efeitos da teimosia do homem, que são até mais corruptos do que aqueles da mente?

Depois disso, não nos estranha, pois, se Deus se apraz em ocultar seus amigos na guarida de sua presença, para que não venham a ser manchados pelos olhos atentos dos homens ou pelo seu próprio conhecimento. E mantê-los ocultos, o que esse Deus zeloso não permite e até faz! Quão freqüentemente Ele os humilha! Quantas faltas lhes procuram! De quais tentações permite que sejam atacados, como São Paulo! Em quais incertezas, escuridão e penumbra lhes deixa! Oh, que admirável é Deus em seus santos, e nas vias que Ele dispõe para conduzi-los à humildade e santidade!

7) Evite a armadilha do orgulho nas cruzes.

Não seja como aqueles orgulhosos e soberbos que vão às igrejas, imaginando que suas cruzes sejam pesadas, que eles estejam fortalecidos em sua fidelidade e sinais do amor excepcional de Deus por você. Essa tentação, elevando-se do orgulho espiritual, é mais enganadora, sutil e repleta de veneno. Você deve crer que:

1) Seu orgulho e sensibilidade faz transformar farpas em tábuas, arranhões em feridas, colinas em montanhas, uma palavra momentânea não significando nada além de um insulto escandaloso ou um desprezo cruel;

2) As cruzes que Deus lhe envia sejam punições amorosas para seus pecados, especialmente, sinalizando um favor especial de Deus;

3) Quais sejam as cruzes ou humilhações que Ele lhe envia são excessivamente leves em comparação com o número e a grandeza de suas ofensas, porque você deveria considerar seus pecados à luz da santidade divina, que não pode tolerar nada que seja poluído, e contra a qual você se coloca; na luz de um Deus sofrendo morte enquanto abrumado de dor por causa de seus pecados; à luz de um inferno eterno que você mereceu novamente;

4) Que na paciência com a qual padeceis, mesclais o humano e natural, bem mais do que crê. Testemunhas daqueles poucos caminhos que cuidam de ti, aqueles discretos procurando por simpatia, aquelas confidências que você faz de uma maneira natural aos seus amigos, e talvez a seu diretor espiritual, aquelas especiosas desculpas que você está pronto a dar, aquelas reclamações, ou, se preferir, críticas àqueles que lhe causaram prejuízo, tão bem formuladas, tão caritativamente expostas, esse reconsiderar e se condescender delicadamente em seus males, esse convencimento luciferiano que você é algo grande etc. Não acabaria nunca se houvesse que descrever todas as idas e voltas da natureza desses sofrimentos.

8) Aproveitar-se mais dos pequenos sofrimentos do que dos grandes.

Tomar vantagem dos pequenos sofrimentos, até mais do que dos grandes. Deus considera não tanto o que sofremos, mas como nós sofremos. Sofrer uma grande porção, mas duramente, é sofrer como o condenado, sofrer muito, até bravamente, mas por uma causa má, é sofrer como um discípulo do demônio; sofrer pouco ou muito para a causa de Deus é sofrer com um santo.

Se houvesse o caso em que pudéssemos ter uma preferência por certas cruzes, optaríamos pelas menores e discretas, frente as grandes e chamativas. Procurar e pedir por grandes e deslumbrantes cruzes, e até escolher e ficar bem com elas, pode ser o resultado de nosso orgulho natural; mas escolher pequenas e insignificantes e suportá-las alegremente pode somente vir de uma graça especial e uma grande fidelidade a Deus. Assim, faça o que um merceeiro faz em seu negócio: volte tudo para o lucro. Não permita que o menor pedaço da verdadeira Cruz seja perdido, ainda que seja somente uma picada de inseto ou uma picada de alfinete, uma pequena excentricidade de seu próximo ou algum desprezo não intencional, a perda de algum dinheiro, alguma pequena ansiedade, um pequeno desgaste corporal, ou uma leve dor em seus membros. Volte tudo para o lucro, como o dono de mercearia faz em sua loja, e você logo se tornará rico diante de Deus, da mesma forma que o dono da mercearia se torna rico em dinheiro juntando centavo por centavo em seu trabalho. Ao menor grau de aborrecimento, diga: "Obrigado, Senhor. Seja feita sua vontade." E armazene em seguida na memória de Deus, que vem a ser o seu alcance, a cruz que acabou de ganhar, e depois já não pense em mais nada a não ser repetir seus agradecimentos.

9) Amar a cruz, não com amor emocional, mas com amor racional e sobrenatural.

Quando a nós é contado o amor à cruz, esse amor não se refere a um amor emocional, impossível a nossa natureza humana. Há três tipos de amor: amor emocional, amor racional, e o amor sobrenatural da fé. Em outras palavras, o amor que reside na parte inferior do homem, em seu corpo; o amor na parte mais alta, sua razão, e o amor na parte mais elevada do homem, no pico da alma, isto é, a inteligência iluminada pela fé.

Deus não pede que você ame a cruz com o desejo da carne, posto que a carne é sujeita ao pecado e à corrupção, tudo isso procede do que é corrompido e, por si, não pode estar submetido ao desejo de Deus e sua lei crucificante. Era o desejo desse homem que nosso Senhor se referia no Jardim das Oliveiras, quando ele gritou, "Pai, que se faça a tua vontade e não a minha." Se a menor parte da natureza humana de Cristo, ainda que tão santa, não pudesse amar a cruz continuamente, então com ainda maior razão nossa natureza corrompida a rejeitará. É verdade que nós poderíamos às vezes experimentar até uma alegria sensível em nossos sofrimentos, como muitos dos santos experimentaram; mas essa alegria não vem do corpo, muito embora seja experimentada no corpo. Ela vem da alma, que fica tão estupefata com a alegria divina do Espírito Santo que transborda no corpo. Desse modo, alguém que está sofrendo grandemente pode dizer com o salmista, "Meu coração e minha carne exultam de alegria ao Deus Vivo."

Há outro amor da cruz que eu chamei de amor racional e que está na parte mais alta do homem, a mente. Esse amor é inteiramente espiritual; ele brota do conhecimento de quão feliz nós podemos ficar no sofrimento por Deus, e assim poder ser experimentado pela alma, para a qual dá força e alegria interior. Mas embora essa alegria racional e perceptível seja boa, na realidade, excelente, não é sempre necessária para sofrer alegremente pela causa de Deus.

E então, há um terceiro tipo de amor, que é chamado pelos mestres da vida espiritual o amor do pico da alma, que é conhecido pelos filósofos como o amor do intelecto. Nesse, sem qualquer sentimento de alegria nos sentidos ou satisfação na mente, nós amamos a cruz que nós estamos carregando, pela luz da pura fé, e nos deleitamos nela, muito embora a parte mais baixa de nossa natureza pudesse estar em um estado de conflito e perturbação, gemendo e se queixando, vertendo lágrimas e desejando por ajuda. Nesse caso, nós podemos dizer com nosso Senhor, "Pai, seja feita a tua vontade e não a minha;" ou como nossa Senhora, "Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo sua palavra."

É com algum desses dois mais altos amores que nós deveríamos amar e aceitar a cruz.

10) Sofrer todas os tipos de cruzes, sem exceção e sem escolha.

Meus queridos Amigos da Cruz, tomem a resolução de sofrer qualquer tipo de cruz sem excluir ou escolher qualquer pobreza, injustiça, perda, doença, humilhação, negação, injúria, secura espiritual, desolação, experiências interiores e exteriores, dizendo sempre, "Meu coração está pronto, Ó Deus, meu coração está pronto." Fiquem preparados, portanto, para serem abandonados pelos homens e anjos, e aparentemente pelo próprio Deus; serem perseguidos, invejados, traídos, injuriados, desacreditados e abandonados por todos; sofrerem fome, sede, pobreza, nudez, exílio, detenção, forcas e todos os tipos de tortura, muito embora vocês não tenham feito nada para merecer isso.

Finalmente, imaginem que vocês tenham sido privados de suas posses e seu bom nome, e expulso de sua casa, como Jó e Santa Elizabeth da Hungria; que vocês sejam atirados na lama, como Santa Elizabeth, ou arrastados para um monte de estrume, como Jó, todo coberto com úlceras, sem um curativo para suas feridas ou um pedaço de pão para comer que algumas pessoas não recusariam dar a um cavalo ou um cachorro. Imagine que, em acréscimo a todas essas terríveis desgraças, Deus lhes abandone a todas tentações do demônio, sem aliviar sua alma com a menor consolação sensível.

Vocês acreditariam firmemente que esse é o ponto mais alto da glória celestial e da alegria genuína para os verdadeiros e perfeitos Amigos da Cruz.

11) Quatro considerações para sofrer bem.

Para ajudá-lo a sofrer bem, adquira o bom hábito de refletir nesses quatro pontos:

a. O olho de Deus.

Primeiramente, o olho de Deus, que, como um grande rei do alto de uma torre, observa com satisfação seu soldado no meio da batalha, e elogia sua coragem. O que de Deus atrai a atenção pela Terra? Serão reis e imperadores em seus tronos? Com freqüência Ele nos olha sim com desprezo. Serão as grandes vitórias dos exércitos, pedras preciosas, ou o que quer que seja grande aos olhos dos homens? Não, "o que é altamente pensado pelos homens é repulsivo aos olhos de Deus". O que, então, Ele olha com prazer e satisfação, e do que ele pede conta aos anjos e mesmo aos demônios? É aquele que está lutando contra o mundo, contra o demônio, e somente ele pelo amor de Deus, o único que carrega sua cruz alegremente. Como o Senhor disse a Satã, "Não viu sobre a Terra uma maravilha imensa que todo céu contempla com admiração? Já viu meu servo Jó, que está sofrendo por minha causa?"

b. A mão de Deus.

Em segundo lugar, considerem a mão de Deus, que permite que nos sobrevenham males de toda natureza, desde o maior até o menor. A mesma mão que aniquilou um exército de cem mil homens é a que faz cair a folha da árvore e um cabelo de suas cabeças; a mão que espremeu tão duramente Jó, gentilmente lhes toca com uma tribulação leve. É a mesma mão que faz o dia e a noite, o arco-íris e a escuridão, o bem e o mal. Ele permitiu as ações pecaminosas lhe machucarem; ele não é causa de suas maldades, mas Ele permite as ações.

Se qualquer um, então, lhes trata como Shimei tratou o Rei David, lhes cobrindo de insultos e lhes atirando pedras, digam a si mesmo, "Não nos vinguemos deles. Deixemos que Ele atue, pois o Senhor dispôs que se fizesse dessa maneira. Reconheço que mereço todo tipo de ultrajes, e é com toda justiça que Deus me castiga. Detenham-se mãos!; Refreia-se língua!; não golpeie, não diga uma palavra. É verdade que esse homem me ataca, essa mulher me insulta, mas eles são representantes de Deus, que da parte de sua misericórdia vêm me castigar amistosamente. Não irritemos, pois, sua justiça, usurpando os direitos de sua vingança. Nem menosprezemos sua misericórdia resistindo aos amorosos golpes de seus açoites, para que Ele me entregasse, em vez disso, à justiça absoluta da eternidade."

Por outro lado, Deus em seu infinito poder e sabedoria o sustenta, enquanto aos outros ele aflige. Com uma mão ele entrega à morte, com a outra ele dá a vida. Ele o humilha até o pó e depois o eleva, e com ambas mãos ele alcança uma extremidade de sua vida à oura, com carinho e poder; com carinho, não lhe permitindo ser tentado além de suas forças, com poder, apoiando-o com sua graça na proporção à violência e duração da tentação ou aflição; com poder novamente, por vir dele mesmo, como ele nos conta através de sua Santa Igreja, "sustentá-lo na beira do precipício, guiá-lo a uma estrada incerta, ocultá-lo no calor abrasador, protegê-lo na chuva e do frio que o congela, carregá-lo em seu cansaço, ajudá-lo em suas dificuldades, fortificá-lo em caminhos escorregadios, ser seu refúgio no meio das tempestades " (Oração para uma Viagem).

c. As feridas e sofrimentos de Cristo crucificado.

Em terceiro lugar, reflitam nas feridas e sofrimentos de Cristo crucificado. Ele mesmo nos contou, "Ó vós todos, que passais pelo caminho: olhai e julgai se existe dor igual à dor que me atormenta, a mim que o Senhor feriu no dia de sua ardente cólera". Vejam com os olhos corporais e através dos olhos de sua contemplação, se sua pobreza, destituição, desgraça, aflição, desolação são como as Minhas; olhem para Mim que sou inocente e lamente porque vocês são culpados!

O Espírito Santo nos diz, através dos Apóstolos, a contemplarmos Cristo crucificado. Ele nos manda amarmos com esse pensamento, arma mais penetrante e terrível contra todos nossos inimigos que todas as demais armas. Quando vocês são assaltados pela pobreza, má reputação, aflição, tentação e outras cruzes, armem-se com o escudo, peitoral, capacete e espada de dois gumes, que é a lembrança de Cristo crucificado. Vocês haverão de encontrar a solução para todo problema e os meios de conquistar todos seus inimigos.

d. Acima, o céu; abaixo, o inferno.

Em quarto lugar, olhe pra cima e veja a bela coroa que lhe aguarda no céu se você carregar bem sua cruz. Foi essa recompensa que sustentou os patriarcas e profetas em sua fé e perseguições; que inspirou os apóstolos e mártires em seus trabalhos e tormentos. Os patriarcas podiam dizer com Moisés, "Nós preferiríamos ser afligidos como o povo de Deus, e sermos felizes com Ele para sempre a curtir por um instante os prazeres do pecado." E os profetas poderiam dizer com David, "Nós sofremos perseguição pela recompensa." Os apóstolos e mártires poderiam dizer com São Paulo, "Por nossos sofrimentos como sentenciados à morte, como espetáculo para o mundo, para os anjos e os homens, somos como lixo e anátema do mundo, pelo imenso peso de glória que nos produz a momentânea e ligeira tribulação."

Olhemos para o alto e vemos os anjos, que exclamam, "Cuidai para não apropriar-se da coroa que está marcada com a cruz que você recebeu, se você suportá-la bem, um outro irá carregá-la como convém e a arrebatará consigo". "Lute bravamente e sofra pacientemente, nos dizem os santos, e você receberá o reino eterno." Finalmente, escute ao Nosso Senhor, que lhe diz, "Eu darei minha recompensa somente aquele que sofre e é vitorioso pela paciência."

Contemplemos abaixo o lugar onde nós merecemos e que nos espera no inferno na companhia dos bandidos e todos aqueles que não se arrependeram, se nós sofrermos como eles sofreram, com sentimentos de ressentimentos, má vontade e vingança. Exclamemos com Santo Agostinho, "Senhor, trate como sua vontade nesse mundo por meus pecados, contanto que os perdoem na eternidade."

12) Nunca se queixem das criaturas.

Nunca se queixe de qualquer pessoa ou coisa que Deus possa usar para afligi-lo. Há três tipos de queixas que nós podemos fazer em tempos de sofrimento. A primeira é a natural e espontânea, como quando o corpo geme e reclama, verte lágrimas e lamentos. Não há falha nisso, desde que, como eu disse, o coração esteja resignado ao desejo de Deus. O segundo tipo de queixa é aquele da mente, como quando nós reconhecemos nossas maldades a alguém que pode nos dar algum alívio, tal como um doutor ou um superior. Poderia haver alguma imperfeição nisso se nós estivéssemos também ávidos para contar nossos problemas, mas não há pecado nisso. O terceiro tipo é pecaminoso: quer dizer, quando nós criticamos nosso semelhante tanto para livrar-se de um mal que nos aflige ou nos vingarmos dele; ou quando nós nos queixamos deliberadamente do que nós sofremos com impaciência e resmungos.

13) Aceite a cruz unicamente com gratidão.

Não importa quando você receber qualquer cruz, receba sempre com humildade e prazer. E quando Deus lhe favorece com uma cruz de alguma importância, mostre sua gratidão de um modo especial, peça a outros que façam o mesmo. Siga o exemplo da mulher pobre que havendo perdido tudo que ela tinha em um pleito injusto – com a única moeda que restava ofereceu para ter uma Missa em ação de graças pela boa fortuna.

14) Carregar algumas cruzes voluntárias.

Se você quer se tornar merecedor dos melhores tipos de cruzes, isto é, aquelas que vêm até você sem escolher, então sob a direção de um diretor prudente, tome algumas delas por seu próprio consentimento. Por exemplo, suponha que você tenha uma peça de mobiliário que você seja apreciador, mas que não é de qualquer uso pra você. Você poderia distribuir a alguém que precisasse disso, dizendo para si, "Por que eu deveria ter coisas que não preciso quando Jesus é tão pobre?"

Ou se você tiver um desgosto por um certo tipo de comida, uma aversão a uma prática de alguma virtude particular, ou um desgosto por algum odor desagradável, poderia pegar a comida, praticar a virtude, aceitar o odor, e assim conquistar a si mesmo.

Ou novamente, sua ternura por uma certa pessoa ou coisa talvez seja repugnante. Por que não vê menos essa pessoa ou se mantém distante dessas coisas que lhes seduzem?

Se você tiver uma inclinação natural nunca se perca. Vocês têm uma aversão natural a certas pessoas ou coisas? Então as evite e as domine.

Se em verdade sois verdadeiros Amigos da Cruz, o amor, que é sempre engenhoso, fará vocês encontrarem milhares de pequenas cruzes para enriquecê-los. E vocês não precisarão ter qualquer medo de vanglória, que tão freqüentemente corrompe a paciência que as pessoas exibem sobre cruzes espetaculares. E porque vocês têm sido fiéis nas coisas pequenas, o Senhor lhes estabelecerá um fardo maior, de acordo com Sua promessa. Isso quer dizer, fardos de maiores graças que Ele lhes proverá, das maiores cruzes que Ele lhes enviará, das maiores glórias que Ele lhes preparará....

PS: Grifos meus.