domingo, 10 de outubro de 2010

CARTA AOS AMIGOS DA CRUZ

CARTA AOS AMIGOS DA CRUZ
Por São Luís de Montfort


Visto que a cruz divina me guarda em retiro e me previne de lhes falar pessoalmente sobre os sentimentos de meu coração na excelência e nas práticas de sua união à cruz sagrada de Cristo. De qualquer forma, nesse último dia de meu isolamento, eu deixo os deleites da vida interior para traçar sobre esse papel uns breves pontos da cruz com os quais penetro em seus corações generosos. Quisera Deus que eu pudesse usar o sangue de minhas veias em preferência à tinta de minha caneta! Aliás, mesmo que o sangue fosse requerido, o meu não seria bom o suficiente. Eu rezo com a intenção que o Espírito do Deus Vivo possa ser a vida, força e a mão orientadora dessa carta; que sua unção possa ser minha tinta, a cruz sagrada minha caneta, e seu coração meu livro.

I. EXCELÊNCIA DA ASSOCIAÇÃO

Amigos da Cruz, vocês são como cruzados unidos na batalha contra o mundo, não como religiosos que fogem do mundo a fim de que não sejam submetidos, mas como bravos e valentes guerreiros no campo de batalha, que se recusam a se retirar ou mesmo recuar uma polegada. Sejam bravos e lutem corajosamente. Vocês devem se juntar em uma união íntima de mente e coração, que é mais forte e bem mais formidável contra o mundo e as força do inferno daquele que é o exército de uma grande nação inimiga. Malditos espíritos estão unidos para destruí-los; vocês devem ficar unidos para esmagá-los. Os avarentos estão unidos para fazer dinheiro e acumular ouro e prata; vocês devem combinar seus esforços para adquirir tesouros eternos escondidos na Cruz. Os que procuram o prazer unem-se para se regozijar, vocês devem ficar unidos para sofrer.

A. Grandeza de Seu Título.

Vocês se chamam a si mesmos de "Amigos da Cruz". Que título glorioso! Eu devo confessar que eu fico encantado e cativado com isso. É mais radiante que o sol, mais alto que os céus, mais magnífico e resplandecente que todos os títulos que dão aos reis e imperadores. É o glorioso título de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. É o genuíno título de um Cristão.

Mas, se eu fico cativado pelo seu esplendor, eu não fico nem um pouco assustado pela sua responsabilidade, porque é um título que abraça dificuldade e obrigações inescapáveis, somadas nas palavras do Espírito Santo, "Uma raça escolhida, um sacerdócio real, um povo separado." Um Amigo da Cruz é alguém escolhido por Deus, dentre milhares que vivem somente de acordo com sua razão e juízo, para ser completamente divino, erguido sobre a simples razão e completamente oposto às coisas materiais, vivendo na luz da pura fé, e inspirado por um amor profundo à Cruz.

Um Amigo da Cruz é um rei todo poderoso, um campeão que triunfa sobre o demônio, o mundo e a carne em sua triplicada concupiscência. Ele destrói o orgulho de Satã pelo seu amor às humilhações; ele submete a ambição do mundo pelo seu amor à pobreza; ele refreia a sensualidade da carne pelo seu amor ao sofrimento. Um Amigo da Cruz é alguém que é santo e separado das coisas que são visíveis porque seu coração está erguido sobre tudo que há de transitório e perecível, e sua terra natal está no céu, ele viaja por todo seu mundo como um visitante e um peregrino, e, distante de colocar nisso seu coração, ele observa com indiferença e deixa tudo isso debaixo de seus pés com desprezo.

Um Amigo da Cruz é um prêmio glorioso ganho pelo crucificado Cristo no Calvário, em união com sua santa Mãe. É um Benoni ou Benjamin, um filho da aflição e da mão direita, concebido no coração sofrido de Jesus, vindo ao mundo através de seu costado trespassado, e batizado em seu sangue. Verdadeiro pela sua origem, sua vida abraça a cruz, e a morre para o mundo, a carne, e o pecado, de forma que vive cá embaixo uma vida oculta em Deus por Jesus Cristo. Em curtas palavras, um perfeito Amigo da Cruz é uma verdadeira árvore frutífera de Cristo, ou particularmente um outro Cristo, de forma que ele possa verdadeiramente dizer, "Eu vivo agora não com minha própria vida mas com a vida de Cristo que vive em mim."

Meus queridos Amigos da Cruz, vocês vivem de acordo com o nobre título que vocês sustentam? Ou, pelo menos, vocês têm um desejo real e uma determinação sincera para fazer isso com a ajuda da graça de Deus, sob o abrigo da Cruz de Cristo e de Nossa Senhora das Aflições? Vocês estão empregando os meios necessários para isso? Vocês estão caminhando junto com o verdadeiro modo de vida, que é o estreito e pedregoso caminho do Calvário? Ou vocês estão, talvez sem percebê-lo, na larga estrada do mundo que conduz á perdição? Vocês estão cientes que há uma estrada que é em todos os aspectos uma estrada correta e segura, mas que realmente conduz à morte eterna?

Vocês distinguem claramente a voz de Deus e sua graça daquela do mundo e da natureza humana? Vocês escutam a voz de Deus, nosso Pai do Céu, pronunciando sua maldição triplicada a todo aquele que segue os desejos do mundo: "Desgraça, desgraça, desgraça a todo povo da Terra;" o Pai que estica seus braços a vocês com apelo amoroso, "Revele-se, meu povo escolhido," queridos amigos da Cruz de meu Filho, fora do mundanismo, que foi por mim mesmo amaldiçoado, rejeitado pelo meu Filho, e condenado por meu Espírito Santo?

Cuide-se de seguir seus conselhos, de sentar em sua companhia, ou mesmo de hesitar na estrada que eles tomam. Apresse-se em sair da infame Babilônia. Escutem somente a voz de meu Filho querido e sigam somente a Ele, que eu lhes ofereci para ser seu caminho, sua verdade, sua vida, e seu modelo. (Ipsum audite.) "Escutem a Ele." Você escuta a voz de Jesus que, sobrecarregado com sua Cruz, gritou por vocês, "Vinde! Aquele que me segue não estará andando nas trevas; Coragem! Eu venci o mundo.."?

B. As Duas Companhias.

Meus queridos irmãos e irmãs, há duas categorias que aparecem diante de vocês a cada dia: os seguidores de Cristo e os seguidores do mundo. A companhia do nosso querido Salvador está à direita, escalando uma estrada apertada, tornou tudo mais estreito por causa da imoralidade do mundo. Nosso Mestre conduz o caminho, de pés expostos, coroado com espinhos, coberto com sangue, e onerado com uma pesada cruz. Aqueles que O seguem, embora mais corajosos, são somente uns poucos do mundo, ou porque ao povo falta coragem para segui-lO em sua pobreza, sofrimentos, humilhações e outras cruzes que Seus servos devem carregar todos os dias de suas vidas.

Na mão esquerda está a companhia do mundo ou do demônio. Essa é ainda mais numerosa, mais imponente e mais conhecida, pelo menos na aparência. A maioria do povo moderno corre para se juntar a ela, todos juntos abarrotados, embora a estrada seja larga e esteja continuamente se tornando mais larga como nunca se viu pela multidão que se derrama como uma torrente. Está espalhada com flores, margeada com todo tipo de distrações e atrações, e pavimentada com ouro e prata.

À direta, os poucos grupos que seguem a Jesus falam a respeito da aflição e penitência, rezam e têm indiferença pelas coisas mundanas. Eles encorajam continuamente uns aos outros dizendo, "Agora é hora de sofrer e ficar de luto, viver no retiro e na pobreza, humilhar-se e mortificar-se; por que aqueles que não possuem o espírito de Cristo, que é o espírito da cruz, não pertencem a Ele. Aqueles que pertencem a Cristo crucificaram todas suas paixões e desejos de auto-satisfação. Nós devemos ser verdadeiras imagens de Cristo ou estaremos eternamente perdidos."

"Tenha confiança," eles dizem uns aos outros. Se Deus está do nosso lado, conosco e diante de nós, quem pode ficar contra nós? Aquele que está conosco é mais forte do que aquele que está no mundo. O servo não é maior do que seu mestre. Essa nossa leve e momentânea tribulação nos trará uma imensa e eterna glória. O número daqueles que serão salvos não é tão grande quanto algumas pessoas imaginam. Somente os valentes e os esforçados arrebatam o céu pela força. Ninguém será coroado sem que haja combatido legitimamente segundo o Evangelho e não de acordo com as máximas do mundo. Vamos lutar com toda nossa força, vamos correr com toda velocidade, que nós podemos alcançar nosso objetivo e obter a coroa. Tais são alguns dos conselhos celestiais com os quais os Amigos da Cruz inspiram uns aos outros.

Aqueles que seguem o mundo, pelo contrário, encorajam-se para continuar em seus maus caminhos sem escrúpulos, chamando uns aos outros, dia após dia, "Vamos comer e beber, cantar e dançar, e nos divertir. Deus é bom. Não nos criou para nos destruir. Ele não nos proíbe de nos divertir. Nós não deveríamos ser destruídos por tão pouco. 'Não morrereis'."

Queridos irmãos e irmãs, lembrem-se que nosso amado Salvador tem Seus olhos em vocês nesse momento, e Ele diz a cada um de vocês individualmente:

"Veja como quase todos Me abandonaram na estrada real da Cruz. Os pagãos em sua cegueira ridicularizam Minha Cruz como loucura; Judeus obstinados são repelidos por isso como um objeto de horror; heréticos destróem e quebram-na em pedaços como algo desprezível. Mesmo Meu próprio povo – e eu digo isso com lágrimas nos olhos e sofrimento em Meu coração – Meus próprios filhos que Eu criei e instruí em Meus caminhos, Meus membros que eu ressuscitei com Meu próprio Espírito, voltaram as costas para mim e Me abandonaram se transformando em inimigos de Minha Cruz.

Vocês também irão embora? Vocês também Me abandonarão fugindo de Minha Cruz como os mundanos, que assim se tornam tantos anticristos? Vocês também seguirão o mundo; a despeito da pobreza de Minha Cruz para procurar então a riqueza; evitar os sofrimentos de Minha Cruz para procurar o divertimento; evita as humilhações de Minha Cruz para seguir então as honras do mundo? Em aparência tenho muitos amigos, que asseguram Me amar, porém, no fundo de seus corações Me odeiam. Eu tenho muitos amigos em Minha mesa, mas muito poucos de Minha Cruz. (Imit. II, 11, 1)."

Nesse apelo apaixonado de Jesus, vamos nos elevar sobre nossa natureza humana; não vamos nos deixar seduzir pelos nossos sentimentos, tal como Eva; mas mantenhamos nossos olhos fixados em Jesus crucificado, que nos conduz a nossa fé e nos induz à perfeição (Heb 12.2). Vamos nos separar das práticas do mal do mundo; Vamos mostrar nosso amor por Jesus da melhor forma, isto é, através de todo tipo de cruzes. Reflita bem nessas excelentes palavras de nosso Salvador, "Em seguida, Jesus disse a seus discípulos: Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me." (Mt 16.24; Lc 9.23).

II. AS PRÁTICAS DA PERFEIÇÃO CRISTÃ


A santidade Cristã consiste nisso:

1. Resolver se tornar um santo: "Se alguém quiser ser meu seguidor;"

2. Negação de si mesmo: "Renuncie a si mesmo;"

3. Sofrimento: "Tome sua cruz;"

4. Agir: "Siga-me."

A. Se alguém quiser me seguir...

"Se alguém," diz nosso Senhor, apontando o pequeno número dos escolhidos desejando conformar-se com Cristo crucificado carregando sua cruz. Seu número é tão pequeno que nós seríamos confundidos se nós o conhecêssemos. É tão pequeno que dificilmente há um em dez mil, como tem sido revelado por vários santos, incluindo São Simão Estelito (como é relatado pelo Abade Nilo), São Basílio, São Efraim e outros. É tão pequeno que, para reuni-los, Deus teria que convocá-los um a um como fez através de seu profeta, "Vocês serão reunidos um a um;" um de seu país, um daquela província.

"Se alguém quiser,"

Se alguém tiver um desejo genuíno, uma determinação, não estimulada pela natureza, hábito, amor próprio, interesse próprio, ou respeito humano, mas pela graça do Espírito Santo totalmente conquistada, que não é dada a qualquer um. "Não é dado a todos os homens conhecer seu mistério." Em verdade, somente umas poucas pessoas têm o conhecimento de como sobreviver ao mistério da Cruz na vida diária. Para um homem subir o Monte do Calvário e permitir ser pregado à cruz com Cristo no meio de seu próprio povo, deve ser corajoso, heróico, resoluto; alguém que é íntimo de Deus, e trata com indiferença o mundo e o demônio, seu próprio corpo e seus próprios desejos; alguém que é determinado a deixar todas as coisas, a tomar para si todas as coisas, e sofrer todas as coisas por Cristo. Vocês devem compreender, meus queridos Amigos da Cruz, que deveria se não houver alguém entre vós com essa determinação, este está andando somente com um pé, voando com uma asa. Ele não é digno de ser alguém de sua companhia, posto que ele não é digno de ser chamado um Amigo da Cruz, que nós devemos, como Jesus, amar "com uma mente rica e um coração desejoso." Só precisamos de um membro com meio coração para corromper o grupo todo, como um tolo repulsivo. Se um tal entrar em seu aprisco através da porta má do mundo, então, em nome de Cristo crucificado, expulse-o como você faria com um lobo do rebanho.

"Se alguém quiser ser um seguidor meu."

Se alguém quiser Me seguir que, assim se humilhe e se esvazie, e que chegue a parecer um verme e não um homem; comigo, que não vim ao mundo senão abraçar a cruz, aqui estou; para preparar Meu coração, para amar a sabedoria desde Minha juventude, para suspirar por ela em todos os dias da Minha vida, para levá-la alegremente, preferindo-a a todas as alegrias e deleites que o céu e a terra pudessem oferecer, e não se contentar plenamente até morrer em seu divino abraço.

B. Renuncie a si mesmo.

Se alguém, portanto, quiser Me seguir tão humilhado e crucificado, deve se gloriar, como eu, apenas na pobreza, humilhações e sofrimentos de Minha Cruz. "Renuncie a si mesmo." Excluídos, então, da companhia dos Amigos da Cruz o sábio mundano, os intelectuais e os céticos vinculados a suas próprias idéias e inflados com seus próprios talentos. Longe de vocês aqueles tagarelas sem fim que fazem um grande espetáculo, mas não produzem nada a não ser orgulho. Longe de vocês aqueles assim chamados devotos Católicos que em seu orgulho exibem a auto-suficiência do orgulhoso Lúcifer em todo lugar que vão, dizendo, "Eu não sou como o resto dos homens;" que não podem sofrer estando culpados sem darem desculpa, serem atacados sem responderem de volta, serem humilhados sem exaltarem a si mesmos.

Sejam cuidadosos para não admitirem no interior de sua sociedade aquelas pessoas delicadas e sensíveis que ficam com medo da mais leve picada de alfinete, que gritam e queixam-se à mínima dor, que não sabem nada do vestuário, da disciplina ou outros instrumentos de penitência, e que misturam-se com suas devoções modernas, uma mais refinada exigência e uma mais observada carência de mortificação.

C. Tome sua cruz.

"Tome sua cruz," aquela que é dele. Que o homem (ou mulher), de modo tão extraordinário, "muito além do preço de pérolas, tome sua cruz alegremente, abrace-a com amor, e carregue-a corajosamente em seus ombros, sua própria cruz, e não aquela de um outro – sua própria cruz que Eu, em Minha sabedoria, designei para ele em todos detalhes de número, medida e peso; sua própria cruz que Eu moldei com Minhas próprias mãos e com grande exatidão com relação às suas quatro dimensões: comprimento, largura, espessura e profundidade; sua própria cruz, traçada por Minha mão com exatidão; sua própria cruz, que é o maior presente que Eu posso conceder aos Meus escolhidos na terra; sua própria cruz, cuja espessura é feita à custa da perda de posses, humilhações, desprezo, sofrimentos, enfermidades e experiências espirituais, que vêm diariamente até sua morte em conformidade com Minha providência; sua própria cruz, cujo comprimento consiste de um certo período de dias ou meses sofrendo calúnias, ou vivendo como um doente acamado, ou sendo forçado a pedir, ou sofrer pelas tentações, secura, desolação, e outras experiências interiores; sua própria cruz, cuja largura é moldada sobre as mais ásperas e amargas circunstâncias produzidas por parentes, amigos, servos; sua própria cruz, cuja profundidade é moldada sobre as experiências escondidas que Eu nele deveria infligir sem ser capaz de encontrar qualquer conforto em outras pessoas, porque elas também, sob minha direção, afastar-se-ão dele e se reunirão comigo para fazê-lo sofrer.

"Tome-a," significa carregar sua cruz e não arrastá-la, ou livrar-se dela, ou diminuir seu peso, ou escondê-la. Em vez disso, venha suspendê-la no alto e carregá-la sem impaciência ou aborrecimento, sem reclamação intencional ou resmungo, sem hesitação ou encobrimento, sem vergonha ou respeito humano. "Tome-a" e ajuste-a em sua fronte, dizendo com São Paulo, "A única coisa que eu posso ostentar a respeito é a Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo." Carregue-a em seus ombros como Nosso Senhor, que tomara se torne a fonte de suas vitórias e o espectro de seu poder: "O domínio é colocado sob seus ombros." Ajuste-a em seu coração, onde, tomara, como a sarça ardente de Moisés, queime dia e noite com o puro amor de Deus sem ser consumida!

"A cruz": Carregue, porque nada é tão necessário, tão benéfico, tão agradável, ou tão glorioso como sofrer algo por Jesus Cristo.

1. Nada é tão necessário.

Queridos Amigos da Cruz, nós somos todos pecadores; não há ninguém entre nós que não tenha merecido o inferno, e eu muito mais do que qualquer um. Nossos pecados devem ser punidos ou nesse mundo ou no próximo. Se nós sofremos por eles agora, nós não deveríamos sofrer por eles depois da morte. Se nós, de bom grado, aceitamos o castigo por eles, essa punição será um ato do amor de Deus; porque é a misericórdia que sustenta poder e punições nesse mundo, e não a estrita justiça. Esse castigo será leve e temporário, acompanhado pela consolação e mérito, e seguido pelas recompensas tanto aqui quanto na eternidade.

Mas se o castigo devido por nossos pecados é adiado até o mundo vindouro, então será a justiça vingadora de Deus que oferece tudo ao fogo e à espada, que infligirá o castigo, um terrível e indescritível castigo: "Quem compreende o poder de sua cólera?" Julgamento sem misericórdia, sem reparação, sem mérito, sem limite e sem fim. Sim, sem fim. Esse pecado grave de um momento que você cometeu, esse mau pensamento voluntário que escapou ao seu cuidado, essa palavra que se arrastou com o vento, essa ação diminuta que violentou a lei de Deus – serão castigados pela eternidade, seja com Deus ou sem Deus, na companhia dos demônios no inferno, sem que esse Deus vingador tenha piedade de seus espantosos tormentos, em seus soluços e lágrimas, violentos o suficiente para lascar pedras. Padecer eternamente, sem mérito algum, sem misericórdia e sem fim.

Nós não pensamos nisso, meus queridos irmãos e irmãs, quando nós havemos de sofrer alguma experiência nesse mundo? Quão sortudos somos nós para sermos capazes de mudar um castigo eterno e inútil por outro passageiro e transitório somente por tolerar nossa cruz com paciência! Quantas de nossas dívidas ainda não estão pagas! Quantos pecados nós cometemos e que, apesar de uma confissão sincera e uma contrição profunda, nós havemos de sofrer no purgatório por vários anos, simplesmente porque nesse mundo nós nos contentamos com umas poucas leves penitências!

Ah, saldemos nossas dívidas com boa-vontade nessa vida carregando alegremente nossa cruz. No outro, tudo deverá ser pago pelas más até o último centavo, até uma palavra ociosa. Se lográssemos apanhar do diabo o livro da morte onde ele anotou todos nossos pecados e a punição que lhes é devida, que dívida pesada encontraríamos, e quão contentes ficaríamos por sofrer tão longos anos na terra em preferência a um único dia no mundo vindouro!

Amigos da Cruz, vocês não se elogiam pelo que vocês são, ou desejam vir a ser, os amigos de Deus? Bem, então, decidam beber o cálice que vocês devem beber para que se tornem amigos de Deus: "Aqueles que beberam o cálice do Senhor se tornaram amigos de Deus." A Benjamin, o amado filho de Jacó, foi dado o cálice, enquanto seus outros irmãos não receberam nada a não ser trigo. O discípulo amado de Cristo, tão querido pelo coração de seu Mestre, subiu até o Calvário e bebeu de seu cálice. "Você pode beber o cálice que eu estou indo beber?" Desejar que a glória de Deus seja excelente, mas desejar e rezar por ela sem resolver sofrer por coisas tão tolas quanto extravagantes: "Não sabeis o que pedis..." "Nós devemos experimentar muitas dificuldades antes de entrarmos no reino do céu." Para entrar em seu reino vocês devem sofrer muitas cruzes e tribulações.

Com razão vocês gloriam ser filhos de Deus. Vocês deveriam se gloriar, pois, também da correção que seu Pai Celestial lhes deu e lhes dará futuramente, porque ele castiga todos seus filhos. Se vocês não estão incluídos entre seus filhos amados, vocês estão - que desgraça! - incluídos entre aqueles que estão perdidos, como aponta Santo Agostinho. Ele também nos conta que, "Aquele que não fica de luto nesse mundo como um estrangeiro e um peregrino não se regozijará no mundo vindouro como um cidadão do céu."

Se seu Pai Celestial não lhe enviar algumas cruzes que valham à pena de tempos em tempos, é porque Ele não mais se preocupa e está furioso contigo; Ele está te manejando como um observador, não mais pertencendo a sua família e merecendo sua proteção, ou como um filho ilegítimo, que, não tendo nada do que reivindicar por uma porção da herança, não merece nem cuidado nem correção.

Amigos da Cruz, discípulos de um Deus crucificado, o mistério da Cruz é um mistério desconhecido aos Gentios, rejeitado pelos Judeus, e desprezado pelos hereges e maus católicos. Mas é o grande mistério que vocês devem aprender a praticar na escola de Cristo, e que só pode ser aprendido por Ele. Em vão vocês buscarão por todas as escolas dos tempos antigos um filósofo que assim ensinou; em vão apelarão à luz dos sentidos ou da razão. Somente Jesus pode ensiná-los e fazê-los gostar deste mistério por sua graça toda-poderosa, que pode lhes ensinar e fazer gostar desse mistério por sua graça vitoriosa. Esforce-se, então, para se tornar hábil em sua sublime ciência sob a guia de um Mestre tão excelente, e vocês entenderão toda as outras ciências, porque ela contém todas em um grau de eminência. É nossa filosofia natural e sobrenatural, nossa teologia divina e mística, nossa pedra filosofal, que, pela paciência, transforma os metais mais grosseiros em preciosos, as dores mais amargas em prazerosas, pobrezas em riquezas, as mais profundas humilhações em glória. Aquele de vocês que melhor saiba como carregar sua cruz, ainda que fosse um analfabeto, é o mais sábio de todos.

O grande São Paulo retornou do terceiro céu, onde aprendeu os mistérios escondidos mesmo dos anjos, declarou que não sabia nem queria saber de nada a não ser Cristo crucificado. Alegre-se, então, seu pobre Cristão, homem ou mulher, sem quaisquer habilidades escolares ou intelectuais, porque se você souber sofrer alegremente, você sabe mais do que um doutor da Universidade Sorbonne que não sabe como sofrer como você.

Vocês são os membros de Cristo, uma honra maravilhosa realmente, porém haveis de sofrer. Se a Cabeça é coroada com espinhos, os membros podem esperar serem coroados com rosas? Se a Cabeça é zombada e coberta com pó na estrada do Calvário, podem os membros esperar serem borrifados com perfumes em um trono? Se a Cabeça não tem travesseiro para descansar, podem os membros esperar reclinar entre plumas e edredons? Seria algo impensável! Não, não, meus queridos Companheiros da Cruz, não enganem-se a si mesmos. Esses Cristãos vocês vêem em todo lugar, vestidos de acordo com a moda, fastidiosos a seu modo, cheios de importância e dignidade, não são verdadeiros discípulos, verdadeiros membros do Cristo crucificado. E se pensarem de outro modo, ofereça a essa Cabeça coroada de Espinhos a verdade do Evangelho. Quantos assim chamados Cristãos imaginam que eles sejam membros de nosso Salvador quando em realidade são seus traiçoeiros perseguidores, porque embora com a mão eles façam o sinal da cruz, em seus corações eles são seus inimigos!

Se vocês são guiados pelo mesmo espírito, se vocês vivem com a mesma vida como Jesus, sua Cabeça coroada por espinhos, vocês devem esperar somente espinhos, chicotes e pregos; que significa, nada além da cruz; porque o discípulo deve ser tratado como o mestre e os membros como a cabeça. E se lhes for oferecido, como foi a Santa Catherine de Sienna, uma coroa de espinhos e uma de rosas, vocês deveriam, como ela, escolher coroar-se de espinhos sem hesitação e espremê-la sob suas cabeças, da mesma forma que Cristo.

Vocês sabem que são moradas do Espírito Santo e que, como pedras vivas, estão para ser marcados pelo Deus do amor na construção da Jerusalém celestial. E assim vocês devem esperar serem dispostos, cortados e talhados sob o martelo da cruz; de outra forma, vocês permaneceriam pedras brutas, boas para nada a não ser jogadas fora. Sejam cautelosos para que vocês não causem recuo ao martelo quando ele lhes bater; respeite o escultor que está lhe esculpindo e a mão que está lhes pondo forma. Pode ser que esse perito e amoroso artista precise de vocês para ter um lugar importante em seu edifício eterno, ou para ser alguns dos mais belos artífices em seu reino celestial. Portanto, deixe-o fazer o que Lhe apraz; Ele os ama, Ele sabe o que está fazendo, Ele teve experiência. Seus golpes são hábeis e dirigidos com amor; nunca os dá em falso, exceto por sua impaciência.

O Espírito Santo compara a cruz algumas vezes a um processo de filtração que separa o grão do refugo e da poeira. Como o grão diante do leque, deixemo-nos ser sacudidos sem resistir; pois o Pai da família está lhe esmiuçando e em breve o colocará em seu celeiro. Outras vezes, o Espírito Santo compara a cruz a um fogo que remove a ferrugem do ferro através da intensidade de seu calor. Nosso Deus é um fogo devorador residindo em nossas almas através de sua cruz para purificá-las sem consumi-las, como ele fez anteriormente com a sarça ardente. De novo, Ele compara a cruz à caçarola de uma fornalha em que o bom metal é refinado e o mau se dissipa na fumaça; o metal é purificado pelo fogo, enquanto as impurezas desaparecem no calor das chamas. E é na caçarola da tribulação e tentação que os verdadeiros amigos da cruz são purificados pela sua constância em sofrimentos, enquanto seus inimigos são varridos para fora pela sua impaciência e murmurações.

Meus queridos Amigos da Cruz, vejam diante de vocês uma grande nuvem de testemunhas que, sem dizer uma palavra, provam o que eu tenho dito. Considere, por exemplo, que o justo Abel, que foi morto pelo seu irmão; e Abraão, um homem justo que foi um estrangeiro na terra; Ló, um homem justo, expulso de seu próprio país; Jacó, um homem justo perseguido pelo seu irmão; Tobit, um homem justo golpeado com a cegueira; Jó, um homem justo que ficou empobrecido, humilhado e coberto com feridas da cabeça aos pés.

Considerem os incontáveis apóstolos e mártires que foram banhados em seu próprio sangue; as virgens e os confessores que foram reduzidos à pobreza, humilhados, perseguidos ou exilados. Todos eles podem dizer com São Paulo, "Olhem para Jesus, o pioneiro e o mais perfeito de nossa fé," a fé que nós temos nele e em sua Cruz; foi necessário que ele sofresse e depois entrasse, em sua glória, através da Cruz. Do lado de Jesus, vemos Maria sua Mãe, que nunca se manchou com qualquer pecado, original ou atual, apesar do coração puro e adorado trespassado de lado a lado. Se eu tivesse um tempo para enfatizar os sofrimentos de Jesus e Maria, eu poderia mostrar que o que nós sofremos não é nada comparado aos deles.

Quem, então, ousaria invocar estar isento da cruz? Quais de nós não se precipitará em se colocar onde sabe que a cruz o aguarda? Quem recusaria em dizer com Santo Inácio de Antióquia, "Podem vir o fogo, a forca, bestas selvagens e todos os tormentos do inferno, que eu posso deleitar-me na possessão de Cristo."

Mas se vocês não estão desejando sofrer pacientemente e carregar sua cruz com resignação como aqueles escolhidos por Deus, então vocês terão que carregá-la se lamentando e reclamando como aqueles na estrada da danação. Vocês estarão como os dois bois que puxavam a Arca da Aliança, mugindo; como Simão de Cirene que, totalmente sem vontade, levantou toda cruz de Cristo e não fez nada a não ser reclamar enquanto a carregava. E, no fim, você será como o bandido impenitente, que, do alto de sua cruz, se precipitou no abismo.

Não, sua terra maldita em que nós vivemos não está destinada a nos tornar feliz; nessa terra de escuridão não podemos esperar ver claramente; não há nenhuma tranqüilidade perfeita nesse mar tormentoso; nós nunca podemos evitar conflitos nesse campo de experiência e batalha; nós não podemos escapar de sermos arranhados nessa terra coberta de espinhos. Desejosa ou indesejosamente, todos devem carregar sua cruz, tanto aqueles que servem a Deus e aqueles que não servem. Tenha em mente as palavras do hino:

Escolha uma cruz das três do Calvário;
Uma deve ser escolhida, então escolha corretamente;
Vocês devem sofrer como um santo ou um bandido arrependido,
Ou como um reprovado, em uma tristeza sem fim.

Isso significa que se vocês não estão desejando sofrer como o bandido sem arrependimento, terão que beber o cálice da amargura até as sujeiras sem a ajuda consoladora da graça, e vocês terão que sustentar o peso completo de sua cruz, desprovido do poderoso apoio de Cristo. Vocês terão que carregar até a sobrecarga que o demônio acrescentará por meios da impaciência que lhes causará. E depois de participar da infelicidade do bandido impenitente na terra, vocês repartirão sua miséria na eternidade.

2. Nada é tão útil e tão agradável.

Mas se, ao contrário, vocês sofrem da forma correta, a cruz se tornará um jugo fácil e leve, visto que o próprio Cristo a carregará convosco. Dará asas a vocês para elevá-los aos céus; se tornará o mastro do seu navio, conduzindo-os direta e facilmente ao porto da salvação. Carregue sua cruz pacientemente, e será uma luz em sua escuridão espiritual, porque aquele que nunca sofreu provas é ignorante. Carregue sua cruz alegremente e você ficará completo com o amor divino; porque somente sofrendo podemos residir no puro amor de Cristo. Rosas são encontradas somente entre os espinhos. É a cruz sozinha que alimenta nosso amor de Deus, como a madeira é o combustível que alimenta o fogo. Lembre do belo dito na "Imitação de Cristo ", "Conforme você faça violência a si mesmo, sofrendo pacientemente, assim você progredirá" no amor divino.

Não espere qualquer coisa daquelas pessoas sensíveis e preguiçosas que rejeitam a cruz quando ela deles se aproxima, e que são cuidadosos em não procurar por cruzes. O que eles são senão uma terra inculta que não produzirá nada a não ser espinhos porque não foi trazida à tona, trabalhada e modificada por um lavrador experimentado? Elas são como água podre, que é inadequada tanto para lavar quanto para beber.

Carregue sua cruz alegremente e você encontrará nela uma força toda-poderosa que nenhum de nossos inimigos será capaz de resistir, e você encontrará nela um prazer além de tudo aquilo que você já conheceu. Realmente, irmãos, o verdadeiro paraíso terrestre é encontrado no sofrimento por Cristo. Pergunte a qualquer dos santos, e eles lhe contarão que eles nunca experimentaram um banquete mais delicioso para o espírito do que o experimentar os graves tormentos.

"Deixe todos os tormentos do demônio virem sobre mim," disse Santo Inácio, o Mártir. "Deixe-me sofrer ou morrer," disse Santa Teresa de Avila. "Não morrer sem sofrer," disse Santa Maria Madalena de Pazzi. "Eu posso sofrer e ser desprezada pelo seu propósito," disse o Bendito João da Cruz. E muitos outros têm falado nos mesmos termos, como nós lemos sobre suas vidas.

Meus queridos irmãos e irmãs, tenham fé na palavra de Deus, porque o Espírito Santo nos diz que quando nós sofremos alegremente por Deus, a cruz é a fonte de todo tipo de alegria para toda espécie de pessoas. A alegria que vem da cruz é muito maior que a de um homem pobre que repentinamente herda uma fortuna, ou de um camponês que é levado ao trono; maior do que a alegria de um negociante que se torna milionário; do que a de um líder militar sobre as vitórias que ele obteve; do que a dos prisioneiros libertos de suas correntes. Em resumo, imaginem maior alegria do que a que pode ser experimentada na terra, e entenda então que a felicidade de alguém que tolera seus sofrimentos no caminho da justiça contém, e até sobrepuja, todos elas.

3. Nada é tão glorioso.

Assim, regozijem-se e fiquem felizes quando Deus lhes favorece com uma de suas seletas cruzes; pois sem se darem conta, vocês são abençoados com o maior presente do céu, o maior presente de Deus. Se assim entendereis, se encarregareis das missas, fareis novenas nos santuários dos santos, tomareis para si longas peregrinações, como fizeram os santos, para obterem do céu o galardão divino.

O mundo chama isso de loucura, degradação, estupidez, uma falta de juízo e de senso comum. Eles estão cegos: deixe-os dizer o que gostam. Sua cegueira, que os faz ver a cruz em um caminho humano e distorcido, é uma fonte de glória para nós. Toda vez que eles nos fazem sofrer por sua zombaria e insultos, nos presenteiam com jóias, nos preparando um trono, e nos coroando com loureiros.

Mais que isso ... como diz São João Crisóstomo, "Toda a riqueza e honras, cetros e coroas ornadas com jóias de reis e imperadores não podem ser comparadas com o esplendor da cruz." É maior mesmo do que a glória de um apóstolo ou evangelista. "Se eu tivesse escolha," continua esse santo homem, iluminado pelo Espírito Santo, "Eu deixaria desejosamente o céu para sofrer pelo Deus do céu. Eu prefereria masmorras e prisões aos tronos do mais alto céu, e as mais pesadas das cruzes à glória dos serafins. Eu avalio a honra do sofrimento mais do que os presentes dos milagres, que por ele tenho o poder de subjugar espíritos maus, abalar os elementos do mundo, parar o sol em seu curso, ou elevar os mortos à vida. São Pedro e São Paulo são mais gloriosos em seus grilhões do que tendo alcançado o terceiro céu ou recebido as chaves do céu."

Realmente, não é a Cruz que deu a Jesus Cristo "o nome que está sobre todos os outros nomes, de forma que todos seres nos céus, na terra e no submundo curvariam os joelhos ao Seu Nome?" A glória de alguém que sabe como sofrer é tão grande como o céu, os anjos e os homens, e até o próprio Deus, contemplam-no com alegria como uma vista mais gloriosa. E se os santos no céu desejassem algo, seria retornar à Terra para que suportassem algumas cruzes.

Mas se essa glória é tão grande mesmo na terra, o que será no céu? Quem poderia descrevê-lo? Quem poderia mesmo entender completamente o peso eterno de glória que um único momento gasto na alegria carregando uma cruz nos oferece? Quem poderia compreender a glória ganha no céu por um ano, e às vezes por toda uma vida, em cruzes e sofrimentos?

Vocês podem ficar certos, meus queridos Amigos da Cruz, que algo maravilhoso os espera, visto que o Espírito Santo lhes uniu tão intimamente que todos muito cuidadosamente o evitam. E vocês podem ficar certos, também, que Deus quer fazer tantos santos quanto Amigos da Cruz existirem, se vocês forem fiéis às suas vocações e carregarem de bom grado suas cruzes assim como Cristo o fez.

D. Siga-me.

Porém, não basta sofrer, o mal e o mundo também têm seus mártires. Nós devemos sofrer e carregar nossa cruz nas pegadas de Cristo: "Siga-me," que significa que nós devemos sofrer carregando-a como Jesus. Para ajudar vocês a fazerem isso, há regras a serem seguidas:

AS QUATORZE REGRAS


Não procurar cruzes de propósito, nem pela própria culpa.

1) Não procure carregar cruzes deliberadamente.

Nós não devemos fazer algo errado para produzir algo bom; nem devemos, sem uma inspiração especial de Deus, fazer coisas más de modo a atrair a zombaria a nós mesmos. Havemos que imitar nosso Senhor, sobre Quem foi dito, "Ele fez bem todas as coisas," não por auto-estima ou vaidade, mas para agradar a Deus e triunfar sobre nossos semelhantes. E se você se dedicar a cumprir seus deveres, não lhe faltarão oposições, críticas e zombarias, que serão enviadas pela providência divina sem sua escolha ou exigência.

2) Olhar pelo bem do próximo.

Se acontecer de você fazer algo que não é nem bom nem mau em si mesmo, e seu próximo se escandalizar nisso – embora sem razão – se abstenha de fazê-lo por caridade, para evitar o escândalo dos fracos. Um tal ato heróico de caridade será de maior importância no olhar de Deus do que a ação que você estaria fazendo ou pretendendo fazer. Todavia, se o que você está fazendo é necessário ou benéfico para seu próximo, e algum hipócrita ou fariseu se escandaliza sem motivo, remeta a matéria a algum conselheiro prudente para descobrir se é realmente necessário ou vantajoso para eles. Se ele julgar que sim, então continue sem se preocupar com o que as pessoas dizem, enquanto que eles não detenham você. E você pode dizer-lhes o que nosso Senhor disse a alguns de seus discípulos quando eles lhe contaram que os escribas e fariseus ficaram escandalizados no que ele disse: "Deixai-os. São cegos e guias de cegos".

3) Admire a virtude sublime dos santos sem pretender imitá-la.

Embora certos grandes e santos homens tenham procurado e pedido por cruzes, e até pelo seu peculiar comportamento toleraram sofrimentos, desprezo e humilhações. Pois bem, contentai com admirável e gloriosa obra do Espírito Santo em suas almas. Humilhai à vista de tal virtude sublime sem tentar alcançar tais níveis por si mesmos. Comparados com aquelas águias ligeiras e leões fortes, nós somos carneiros de coração fraco.

4) Peça a Deus pela sabedoria da cruz.

Você poderia e deveria rezar pela sabedoria da cruz, aquele conhecimento da verdade que nós experimentamos dentro de nós mesmos e que pela luz da fé aprofunda nosso conhecimento dos mistérios mais escondidos, incluindo aqueles da cruz. Mas isso é obtido somente através de muito trabalho, grandes humilhações e orações fervorosas. Se necessitais esse espírito generoso que permite levar as cruzes mais pesadas corajosamente; esse espírito gracioso e consolador, que nos capacita, na parte mais elevada da alma a gostar das coisas que são amargas e repulsivas; de seu são e justo espírito que procura somente a Deus; de sua ciência da cruz que abraça todas as coisas; em resumo, desse inesgotável tesouro através do qual aqueles que fazem bom uso dele ganham a amizade de Deus – se você sustentar tal necessidade, ore pela sabedoria, peça por ela continuamente e fervorosamente sem hesitar ou temer não obtê-la, e será sua. Então você entenderá claramente em sua própria experiência como é possível desejar, procurar e encontrar alegria na cruz.

5) Humilhe-se pelas faltas de alguém, sem se preocupar.

Se você cometer um erro grave que traga a cruz sobre você, seja inadvertidamente ou mesmo pela sua própria culpa, incline-se sob a poderosa mão de Deus sem atraso, e na medida do possível não se preocupe com isso. Você poderia dizer consigo mesmo, "Senhor, aqui está um exemplo de minha obra." Se há algo errado no que eu tenho feito, aceite a humilhação como um castigo; se não foi pecado, aceite-a como um meio de conter seu orgulho. Freqüentemente, até muito freqüentemente, Deus permite a seus maiores servos, aqueles mais adiantados na santidade, cair nas mais humilhantes faltas de forma a humilhá-los diante de seus próprios olhos e dos olhos dos outros. Ele, assim, nos guarda dos pensamentos de orgulho que poderiam nos mimar por causa das graças que receberam, ou pelo bem que elas produzem de forma que “ninguém possa vangloriar-se na presença de Deus."

6) Deus nos humilha e purifica.

Você deve entender que através do pecado de Adão e através dos pecados que nós mesmos cometemos, tudo em nós se torna desprezado, não apenas em sentido corporal, mas também os poderes de nossa alma. E no momento em que nossas mentes corruptas consideram algum dom de Deus em nós, com morosidade e complacência, esse dom, essa ação, essa graça se mancha e se estraga, e Deus não mais olha por ela com favor. Se os pensamentos e reflexões da mente podem, desta forma, corromper as melhores ações do homem e os maiores dons de Deus, quão pior serão os maus efeitos da teimosia do homem, que são até mais corruptos do que aqueles da mente?

Depois disso, não nos estranha, pois, se Deus se apraz em ocultar seus amigos na guarida de sua presença, para que não venham a ser manchados pelos olhos atentos dos homens ou pelo seu próprio conhecimento. E mantê-los ocultos, o que esse Deus zeloso não permite e até faz! Quão freqüentemente Ele os humilha! Quantas faltas lhes procuram! De quais tentações permite que sejam atacados, como São Paulo! Em quais incertezas, escuridão e penumbra lhes deixa! Oh, que admirável é Deus em seus santos, e nas vias que Ele dispõe para conduzi-los à humildade e santidade!

7) Evite a armadilha do orgulho nas cruzes.

Não seja como aqueles orgulhosos e soberbos que vão às igrejas, imaginando que suas cruzes sejam pesadas, que eles estejam fortalecidos em sua fidelidade e sinais do amor excepcional de Deus por você. Essa tentação, elevando-se do orgulho espiritual, é mais enganadora, sutil e repleta de veneno. Você deve crer que:

1) Seu orgulho e sensibilidade faz transformar farpas em tábuas, arranhões em feridas, colinas em montanhas, uma palavra momentânea não significando nada além de um insulto escandaloso ou um desprezo cruel;

2) As cruzes que Deus lhe envia sejam punições amorosas para seus pecados, especialmente, sinalizando um favor especial de Deus;

3) Quais sejam as cruzes ou humilhações que Ele lhe envia são excessivamente leves em comparação com o número e a grandeza de suas ofensas, porque você deveria considerar seus pecados à luz da santidade divina, que não pode tolerar nada que seja poluído, e contra a qual você se coloca; na luz de um Deus sofrendo morte enquanto abrumado de dor por causa de seus pecados; à luz de um inferno eterno que você mereceu novamente;

4) Que na paciência com a qual padeceis, mesclais o humano e natural, bem mais do que crê. Testemunhas daqueles poucos caminhos que cuidam de ti, aqueles discretos procurando por simpatia, aquelas confidências que você faz de uma maneira natural aos seus amigos, e talvez a seu diretor espiritual, aquelas especiosas desculpas que você está pronto a dar, aquelas reclamações, ou, se preferir, críticas àqueles que lhe causaram prejuízo, tão bem formuladas, tão caritativamente expostas, esse reconsiderar e se condescender delicadamente em seus males, esse convencimento luciferiano que você é algo grande etc. Não acabaria nunca se houvesse que descrever todas as idas e voltas da natureza desses sofrimentos.

8) Aproveitar-se mais dos pequenos sofrimentos do que dos grandes.

Tomar vantagem dos pequenos sofrimentos, até mais do que dos grandes. Deus considera não tanto o que sofremos, mas como nós sofremos. Sofrer uma grande porção, mas duramente, é sofrer como o condenado, sofrer muito, até bravamente, mas por uma causa má, é sofrer como um discípulo do demônio; sofrer pouco ou muito para a causa de Deus é sofrer com um santo.

Se houvesse o caso em que pudéssemos ter uma preferência por certas cruzes, optaríamos pelas menores e discretas, frente as grandes e chamativas. Procurar e pedir por grandes e deslumbrantes cruzes, e até escolher e ficar bem com elas, pode ser o resultado de nosso orgulho natural; mas escolher pequenas e insignificantes e suportá-las alegremente pode somente vir de uma graça especial e uma grande fidelidade a Deus. Assim, faça o que um merceeiro faz em seu negócio: volte tudo para o lucro. Não permita que o menor pedaço da verdadeira Cruz seja perdido, ainda que seja somente uma picada de inseto ou uma picada de alfinete, uma pequena excentricidade de seu próximo ou algum desprezo não intencional, a perda de algum dinheiro, alguma pequena ansiedade, um pequeno desgaste corporal, ou uma leve dor em seus membros. Volte tudo para o lucro, como o dono de mercearia faz em sua loja, e você logo se tornará rico diante de Deus, da mesma forma que o dono da mercearia se torna rico em dinheiro juntando centavo por centavo em seu trabalho. Ao menor grau de aborrecimento, diga: "Obrigado, Senhor. Seja feita sua vontade." E armazene em seguida na memória de Deus, que vem a ser o seu alcance, a cruz que acabou de ganhar, e depois já não pense em mais nada a não ser repetir seus agradecimentos.

9) Amar a cruz, não com amor emocional, mas com amor racional e sobrenatural.

Quando a nós é contado o amor à cruz, esse amor não se refere a um amor emocional, impossível a nossa natureza humana. Há três tipos de amor: amor emocional, amor racional, e o amor sobrenatural da fé. Em outras palavras, o amor que reside na parte inferior do homem, em seu corpo; o amor na parte mais alta, sua razão, e o amor na parte mais elevada do homem, no pico da alma, isto é, a inteligência iluminada pela fé.

Deus não pede que você ame a cruz com o desejo da carne, posto que a carne é sujeita ao pecado e à corrupção, tudo isso procede do que é corrompido e, por si, não pode estar submetido ao desejo de Deus e sua lei crucificante. Era o desejo desse homem que nosso Senhor se referia no Jardim das Oliveiras, quando ele gritou, "Pai, que se faça a tua vontade e não a minha." Se a menor parte da natureza humana de Cristo, ainda que tão santa, não pudesse amar a cruz continuamente, então com ainda maior razão nossa natureza corrompida a rejeitará. É verdade que nós poderíamos às vezes experimentar até uma alegria sensível em nossos sofrimentos, como muitos dos santos experimentaram; mas essa alegria não vem do corpo, muito embora seja experimentada no corpo. Ela vem da alma, que fica tão estupefata com a alegria divina do Espírito Santo que transborda no corpo. Desse modo, alguém que está sofrendo grandemente pode dizer com o salmista, "Meu coração e minha carne exultam de alegria ao Deus Vivo."

Há outro amor da cruz que eu chamei de amor racional e que está na parte mais alta do homem, a mente. Esse amor é inteiramente espiritual; ele brota do conhecimento de quão feliz nós podemos ficar no sofrimento por Deus, e assim poder ser experimentado pela alma, para a qual dá força e alegria interior. Mas embora essa alegria racional e perceptível seja boa, na realidade, excelente, não é sempre necessária para sofrer alegremente pela causa de Deus.

E então, há um terceiro tipo de amor, que é chamado pelos mestres da vida espiritual o amor do pico da alma, que é conhecido pelos filósofos como o amor do intelecto. Nesse, sem qualquer sentimento de alegria nos sentidos ou satisfação na mente, nós amamos a cruz que nós estamos carregando, pela luz da pura fé, e nos deleitamos nela, muito embora a parte mais baixa de nossa natureza pudesse estar em um estado de conflito e perturbação, gemendo e se queixando, vertendo lágrimas e desejando por ajuda. Nesse caso, nós podemos dizer com nosso Senhor, "Pai, seja feita a tua vontade e não a minha;" ou como nossa Senhora, "Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo sua palavra."

É com algum desses dois mais altos amores que nós deveríamos amar e aceitar a cruz.

10) Sofrer todas os tipos de cruzes, sem exceção e sem escolha.

Meus queridos Amigos da Cruz, tomem a resolução de sofrer qualquer tipo de cruz sem excluir ou escolher qualquer pobreza, injustiça, perda, doença, humilhação, negação, injúria, secura espiritual, desolação, experiências interiores e exteriores, dizendo sempre, "Meu coração está pronto, Ó Deus, meu coração está pronto." Fiquem preparados, portanto, para serem abandonados pelos homens e anjos, e aparentemente pelo próprio Deus; serem perseguidos, invejados, traídos, injuriados, desacreditados e abandonados por todos; sofrerem fome, sede, pobreza, nudez, exílio, detenção, forcas e todos os tipos de tortura, muito embora vocês não tenham feito nada para merecer isso.

Finalmente, imaginem que vocês tenham sido privados de suas posses e seu bom nome, e expulso de sua casa, como Jó e Santa Elizabeth da Hungria; que vocês sejam atirados na lama, como Santa Elizabeth, ou arrastados para um monte de estrume, como Jó, todo coberto com úlceras, sem um curativo para suas feridas ou um pedaço de pão para comer que algumas pessoas não recusariam dar a um cavalo ou um cachorro. Imagine que, em acréscimo a todas essas terríveis desgraças, Deus lhes abandone a todas tentações do demônio, sem aliviar sua alma com a menor consolação sensível.

Vocês acreditariam firmemente que esse é o ponto mais alto da glória celestial e da alegria genuína para os verdadeiros e perfeitos Amigos da Cruz.

11) Quatro considerações para sofrer bem.

Para ajudá-lo a sofrer bem, adquira o bom hábito de refletir nesses quatro pontos:

a. O olho de Deus.

Primeiramente, o olho de Deus, que, como um grande rei do alto de uma torre, observa com satisfação seu soldado no meio da batalha, e elogia sua coragem. O que de Deus atrai a atenção pela Terra? Serão reis e imperadores em seus tronos? Com freqüência Ele nos olha sim com desprezo. Serão as grandes vitórias dos exércitos, pedras preciosas, ou o que quer que seja grande aos olhos dos homens? Não, "o que é altamente pensado pelos homens é repulsivo aos olhos de Deus". O que, então, Ele olha com prazer e satisfação, e do que ele pede conta aos anjos e mesmo aos demônios? É aquele que está lutando contra o mundo, contra o demônio, e somente ele pelo amor de Deus, o único que carrega sua cruz alegremente. Como o Senhor disse a Satã, "Não viu sobre a Terra uma maravilha imensa que todo céu contempla com admiração? Já viu meu servo Jó, que está sofrendo por minha causa?"

b. A mão de Deus.

Em segundo lugar, considerem a mão de Deus, que permite que nos sobrevenham males de toda natureza, desde o maior até o menor. A mesma mão que aniquilou um exército de cem mil homens é a que faz cair a folha da árvore e um cabelo de suas cabeças; a mão que espremeu tão duramente Jó, gentilmente lhes toca com uma tribulação leve. É a mesma mão que faz o dia e a noite, o arco-íris e a escuridão, o bem e o mal. Ele permitiu as ações pecaminosas lhe machucarem; ele não é causa de suas maldades, mas Ele permite as ações.

Se qualquer um, então, lhes trata como Shimei tratou o Rei David, lhes cobrindo de insultos e lhes atirando pedras, digam a si mesmo, "Não nos vinguemos deles. Deixemos que Ele atue, pois o Senhor dispôs que se fizesse dessa maneira. Reconheço que mereço todo tipo de ultrajes, e é com toda justiça que Deus me castiga. Detenham-se mãos!; Refreia-se língua!; não golpeie, não diga uma palavra. É verdade que esse homem me ataca, essa mulher me insulta, mas eles são representantes de Deus, que da parte de sua misericórdia vêm me castigar amistosamente. Não irritemos, pois, sua justiça, usurpando os direitos de sua vingança. Nem menosprezemos sua misericórdia resistindo aos amorosos golpes de seus açoites, para que Ele me entregasse, em vez disso, à justiça absoluta da eternidade."

Por outro lado, Deus em seu infinito poder e sabedoria o sustenta, enquanto aos outros ele aflige. Com uma mão ele entrega à morte, com a outra ele dá a vida. Ele o humilha até o pó e depois o eleva, e com ambas mãos ele alcança uma extremidade de sua vida à oura, com carinho e poder; com carinho, não lhe permitindo ser tentado além de suas forças, com poder, apoiando-o com sua graça na proporção à violência e duração da tentação ou aflição; com poder novamente, por vir dele mesmo, como ele nos conta através de sua Santa Igreja, "sustentá-lo na beira do precipício, guiá-lo a uma estrada incerta, ocultá-lo no calor abrasador, protegê-lo na chuva e do frio que o congela, carregá-lo em seu cansaço, ajudá-lo em suas dificuldades, fortificá-lo em caminhos escorregadios, ser seu refúgio no meio das tempestades " (Oração para uma Viagem).

c. As feridas e sofrimentos de Cristo crucificado.

Em terceiro lugar, reflitam nas feridas e sofrimentos de Cristo crucificado. Ele mesmo nos contou, "Ó vós todos, que passais pelo caminho: olhai e julgai se existe dor igual à dor que me atormenta, a mim que o Senhor feriu no dia de sua ardente cólera". Vejam com os olhos corporais e através dos olhos de sua contemplação, se sua pobreza, destituição, desgraça, aflição, desolação são como as Minhas; olhem para Mim que sou inocente e lamente porque vocês são culpados!

O Espírito Santo nos diz, através dos Apóstolos, a contemplarmos Cristo crucificado. Ele nos manda amarmos com esse pensamento, arma mais penetrante e terrível contra todos nossos inimigos que todas as demais armas. Quando vocês são assaltados pela pobreza, má reputação, aflição, tentação e outras cruzes, armem-se com o escudo, peitoral, capacete e espada de dois gumes, que é a lembrança de Cristo crucificado. Vocês haverão de encontrar a solução para todo problema e os meios de conquistar todos seus inimigos.

d. Acima, o céu; abaixo, o inferno.

Em quarto lugar, olhe pra cima e veja a bela coroa que lhe aguarda no céu se você carregar bem sua cruz. Foi essa recompensa que sustentou os patriarcas e profetas em sua fé e perseguições; que inspirou os apóstolos e mártires em seus trabalhos e tormentos. Os patriarcas podiam dizer com Moisés, "Nós preferiríamos ser afligidos como o povo de Deus, e sermos felizes com Ele para sempre a curtir por um instante os prazeres do pecado." E os profetas poderiam dizer com David, "Nós sofremos perseguição pela recompensa." Os apóstolos e mártires poderiam dizer com São Paulo, "Por nossos sofrimentos como sentenciados à morte, como espetáculo para o mundo, para os anjos e os homens, somos como lixo e anátema do mundo, pelo imenso peso de glória que nos produz a momentânea e ligeira tribulação."

Olhemos para o alto e vemos os anjos, que exclamam, "Cuidai para não apropriar-se da coroa que está marcada com a cruz que você recebeu, se você suportá-la bem, um outro irá carregá-la como convém e a arrebatará consigo". "Lute bravamente e sofra pacientemente, nos dizem os santos, e você receberá o reino eterno." Finalmente, escute ao Nosso Senhor, que lhe diz, "Eu darei minha recompensa somente aquele que sofre e é vitorioso pela paciência."

Contemplemos abaixo o lugar onde nós merecemos e que nos espera no inferno na companhia dos bandidos e todos aqueles que não se arrependeram, se nós sofrermos como eles sofreram, com sentimentos de ressentimentos, má vontade e vingança. Exclamemos com Santo Agostinho, "Senhor, trate como sua vontade nesse mundo por meus pecados, contanto que os perdoem na eternidade."

12) Nunca se queixem das criaturas.

Nunca se queixe de qualquer pessoa ou coisa que Deus possa usar para afligi-lo. Há três tipos de queixas que nós podemos fazer em tempos de sofrimento. A primeira é a natural e espontânea, como quando o corpo geme e reclama, verte lágrimas e lamentos. Não há falha nisso, desde que, como eu disse, o coração esteja resignado ao desejo de Deus. O segundo tipo de queixa é aquele da mente, como quando nós reconhecemos nossas maldades a alguém que pode nos dar algum alívio, tal como um doutor ou um superior. Poderia haver alguma imperfeição nisso se nós estivéssemos também ávidos para contar nossos problemas, mas não há pecado nisso. O terceiro tipo é pecaminoso: quer dizer, quando nós criticamos nosso semelhante tanto para livrar-se de um mal que nos aflige ou nos vingarmos dele; ou quando nós nos queixamos deliberadamente do que nós sofremos com impaciência e resmungos.

13) Aceite a cruz unicamente com gratidão.

Não importa quando você receber qualquer cruz, receba sempre com humildade e prazer. E quando Deus lhe favorece com uma cruz de alguma importância, mostre sua gratidão de um modo especial, peça a outros que façam o mesmo. Siga o exemplo da mulher pobre que havendo perdido tudo que ela tinha em um pleito injusto – com a única moeda que restava ofereceu para ter uma Missa em ação de graças pela boa fortuna.

14) Carregar algumas cruzes voluntárias.

Se você quer se tornar merecedor dos melhores tipos de cruzes, isto é, aquelas que vêm até você sem escolher, então sob a direção de um diretor prudente, tome algumas delas por seu próprio consentimento. Por exemplo, suponha que você tenha uma peça de mobiliário que você seja apreciador, mas que não é de qualquer uso pra você. Você poderia distribuir a alguém que precisasse disso, dizendo para si, "Por que eu deveria ter coisas que não preciso quando Jesus é tão pobre?"

Ou se você tiver um desgosto por um certo tipo de comida, uma aversão a uma prática de alguma virtude particular, ou um desgosto por algum odor desagradável, poderia pegar a comida, praticar a virtude, aceitar o odor, e assim conquistar a si mesmo.

Ou novamente, sua ternura por uma certa pessoa ou coisa talvez seja repugnante. Por que não vê menos essa pessoa ou se mantém distante dessas coisas que lhes seduzem?

Se você tiver uma inclinação natural nunca se perca. Vocês têm uma aversão natural a certas pessoas ou coisas? Então as evite e as domine.

Se em verdade sois verdadeiros Amigos da Cruz, o amor, que é sempre engenhoso, fará vocês encontrarem milhares de pequenas cruzes para enriquecê-los. E vocês não precisarão ter qualquer medo de vanglória, que tão freqüentemente corrompe a paciência que as pessoas exibem sobre cruzes espetaculares. E porque vocês têm sido fiéis nas coisas pequenas, o Senhor lhes estabelecerá um fardo maior, de acordo com Sua promessa. Isso quer dizer, fardos de maiores graças que Ele lhes proverá, das maiores cruzes que Ele lhes enviará, das maiores glórias que Ele lhes preparará....

PS: Grifos meus.

sábado, 9 de outubro de 2010

As santas almas do purgatório

AS SANTAS ALMAS DO PURGATÓRIO



Há na celebração da Missa, para os mortos, um rito muito instrutivo e tocante. Estando o Sacerdote prestes a comungar, depois de ter falado à Augusta Trindade, aos Anjos e Santos, se dirige pela primeira vez, a Vítima divina, que se acha presente no altar. Inclinando, em sinal de respeito, dirige-Lhe, por três vezes, estas palavras:

"Cordeiro de Deus que apaga os pecados do mundo, dá-lhes o descanso..."

Se o Sacerdote, por três vezes, junto da Vítima divina, digire-Lhe a mesma súplica, em favor dos mortos, é porque o estado das Almas do Purgatório é infeliz e digno de compaixão.

Vejamos os grandes padecimentos dos prisioneiros da justiça divina e o meio maravilhoso e eficaz do Santo Sacrifício da Missa para salvá-los.

I - As Almas, no Purgatório, estão sujeitas a duas espécies de penas:

a) Pena de danos - que é a privação da visão beatífica e de todos os bens que ela encerra.

- Estando as Almas separadas do corpo, vêm, com fé mais clara e viva, quão precioso é o Sumo bem que deveriam já ter possuído, mas que, por sua culpa, dEle se acham privadas por um certo tempo. Vendo também mais claramente quão bom e amável é Deus têm as Almas desejos veementes para gozar da visão beatífica, mas por estarem dela privada, aumentam-lhes os sofrimentos.

- As Almas do Purgatório, estando livres de todas as distrações, tendem irresistivelmente para o objeto de seu amor que é Deus. Achando-se, porém, separadas do divino bem e não sabendo o dia em que se hão de apresentar na presença de Deus - têm dessa privação e incerteza, grandes sofrimentos.

- Sofrem as Almas do Purgatório por não saberem do dia em que hão de deixar esse lugar de padecimento.

- Sofrem por não verem a Jesus Cristo, Nossa Senhora, os Anjos e os Santos.

b) Pena de sentido é o mal físico que aflige as Almas, com dores e sofrimentos. Os SS. Padres dizem que não há sofrimento nesta vida, que possa ser igualado aos padecimentos do Purgatório.

II - Meio eficaz para livrar as Santas Almas do Purgatório.

Quem dentre os cristãos, se não comoverá vendo as benditas Almas privadas da visão de Deus e arder no fogo vivo e ardente?!

A aliviar as dores das Almas detidas no Purgatório muito concorre o Sacrifício da Missa, que é sempre eficaz às Almas porque estando livres de todo o afeto a culpa e revestidas de caridade, não há para elas, impedimento algum para o perdão das penas.

O sacrifício da Missa dá-lhes alívio e consolação, diminui o tempo das penas e às vezes perdoa-lhes inteiramente.

É fora de dúvida que a Missa suplicada aos mortos muito concorre para aliviar as dores a que estão sujeitos ao Purgatório.

Essa doutrina da Igreja não é de hoje, mas antiga.

Confirmação disso temos na Homilia siriaca feita por Thiago, bispo de Saroug, datada do séc. 5º, na qual declara que a oferta para os mortos consiste, da parte dos fiéis, na oblação do pão e do vinho destinados ao Sacrifício Eucarístico, e da parte do Sacerdote, na aplicação deste Sacrifício as Almas dos mortos.

O Sacerdote tendo no altar o pão e o vinho para oferecer o Sacrifício, comemora a morte e a ressurreição de Jesus Cristo.

Lembra-se de todos os mortos e pede para cada um ser aliviado das dores que estão sofrendo no Purgatório, lembrando-se especialmente das almas que foram encomendadas particularmente. Em nome dos mortos... o Sacerdote oferece o Sacrifício, e o pão e o vinho convertem em Corpo e Sangue de Jesus que tudo santifica.

Por este Sacrifício o Sacerdote faz expiação por todos os mortos. Ao odor da vida que se eleva do grande Sacrifício, todas as Almas se reúnem e vêm para serem perdoadas. Através da virtude vivificante que comunica o Corpo do Filho de Deus, cada dia os mortos sentem o odor de vida e por este meio eles são perdoados.

E se a oblação feita por Judas Macabeu, oferecendo ao Senhor o sangue dos animais era frutuosa aos mortos - quanto mais as oblações feitas pela Igreja, nas quais se não oferecem o sangue dos animais, mas, por meio de sacrifícios que não perecem, ela oferece o Sacrifício imortal, o grande sacrifício do Filho de Deus que tudo purifica - a Santa Missa.

O bem-aventurado H.Suzo, uma das glória da Ordem de São Domingos, conta que, durante seus estudos em Colonia, fez com um de seus condiscípulos um pacto: - aquele que sobrevivesse deveria, durante um ano, celebrar cada segunda-feira, a Missa dos mortos e cada sexta-feira a da Paixão.

O amigo de Suzo foi o primeiro chamado a aparecer diante de Deus.

Algum tempo depois, o bem-aventurado vê o defunto, apresentando-se a ele todo desfigurado pelo sofrimento e se lamentando amargamente de sua infidelidade em executar o pacto que haviam combinado.

- "Meu amigo, diz Suzo, para se justificar, é verdade que não tenho celebrado as Missas, mas cada dia tenho instantemente recomendado vossa alma a Deus e me imposto penitências para livrar-te quanto antes, desses padecimentos."

- "Como, responde o defunto, é isso justamente o motivo de minha queixa; porque de todos os meios que empregaste para me socorrer, negligenciaste o mais eficaz, o mais poderoso, é o sangue de Jesus Cristo, acrescenta ele, é o sangue de Jesus Cristo que eu peço para acalmar estas chamas que me devoram: é o Santo Sacrifício que me livrará destes tormentos horrorosos."

O bem-aventurado, todo confuso, se apressa em responder a esse infeliz, que iria satisfazê-lo o mais cedo possível e que para reparar sua falta, celebraria ainda mais missas do que prometera.

Com efeito, desde o dia seguinte, muitos Sacerdotes. a pedido de Suzo, sobem o altar com essa mesma intenção e durante muitos dias eles continuaram a celebrar a Missa pelo defunto. E eis que de novo aparece o defunto ao nosso bem-aventurado, com o semblante alegre e com a auréola dos Santos sobre sua cabeça e diz-lhe:

- "Oh! agradecido, meu fiel amigo! eis me aqui, graças ao Sangue do Salvador, livre das chamas expiadoras; eu vou ao céu e não me esquecerei de vós!"

(O Santo Sacrifício da Missa, pelo Pe. Francisco Cipullo, ano de edição: 1916)

PS: Grifos meus.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Estima pelas indulgências

ESTIMA PELAS INDULGÊNCIAS
(Padre Faber)


“(...) Há ainda um assunto que reclama a nossa atenção enquanto nos ocupamos da oração vocal. Um homem dado à oração vocal está em grande parte à mercê dos livros de orações. A escolha das devoções preferidas é, portanto, de grande importância, e que devoções podemos escolher com mais segurança do que as aprovadas pela Igreja e por ela indulgenciadas?

Há uma grande relação entre as indulgências e a vida espiritual; e o emprego das devoções indulgenciadas é, pois, a pedra de toque pela qual reconhecemos de modo quase infalível um bom católico.

Segundo Santo Afonso, para tornar-se santo basta ganhar todas as indulgências possíveis, e São Leonardo de Porto-Maurício tem mais ou menos a mesma opinião. As revelações particulares e aprovadas dos Santos projetam uma luz importante sobre esta matéria. Santa Brígida foi suscitada em grande parte, como ela mesma diz, para propagar a glória das indulgências; e assim Santa Maria Madalena de Pazzi viu almas castigadas no Purgatório somente por havê-las menosprezado.

Há na vida espiritual o que chamarei as oito bem-aventuranças das indulgências.

Em primeiro lugar, por terem relação com o pecado, com a Justiça de Deus e com a pena temporal devida ao pecado, as indulgências conservam em nós certos pensamentos que pertencem à fase da purificação, o que para nós é salutar, embora desejemos com impaciência ir adiante e livrar-nos deles.

Em segundo lugar, produzirão em nós a feliz disposição de nos afastar deste mundo: conduzem-nos a um mundo invisível; cercam-nos de imagens sobrenaturais; infundem em nosso espírito uma ordem de idéias que nos desapega das coisas mundanas e exprobra os prazeres terrestres.

Em terceiro lugar, guardam continuamente diante de nós a doutrina do Purgatório, e assim nos obrigam ao constante exercício da fé e ao mesmo tempo nos sugerem motivos de um santo temor.

Em quarto lugar, fazem-nos praticar para com os fiéis falecidos o exercício da caridade, que facilmente chegará ao heroísmo, estando assim ao alcance dos que não podem fazer outras esmolas, e produz deste modo em nossa alma os efeitos que acompanham as obras de misericórdia.

Em quinto lugar, a glória de Deus tem muito interesse nas indulgências, por uma dupla razão: porque libertam as almas do Purgatório, apressando a sua entrada na corte celestial, e porque patenteiam especialmente algumas das perfeições divinas, tais como Sua infinita pureza, Seu ódio ao pecado ainda mesmo ínfimo, e o rigor da Sua justiça, aliada à mais engenhosa misericórdia.

Em sexto lugar, elas prestam homenagem às satisfações que Jesus ofereceu por nós. São para estas satisfações o que para os Seus méritos é a doutrina de que todo pecado não é perdoado senão devido a Ele. Portanto podemos dizer que, aproveitando d’Ele e dos Seus méritos o mais possível, as indulgências realçam a copiosidade da Redenção. Honram também as satisfações da Virgem Maria e dos Santos, de modo a honrar mais ainda a Jesus.

Em sétimo lugar, elas nos dão uma idéia mais séria do pecado e aumentam o horror que lhe temos. Com efeito, as indulgências lembram-nos constantemente a verdade de que o castigo é devido mesmo ao pecado perdoado, que este castigo é terrível ainda mesmo que seja apenas por algum tempo, e que só é possível livrar-nos dele pelas satisfações de Jesus.

Em oitavo lugar, elas nos mantêm em harmonia com o espírito da Igreja, o que é de suma importância para os que se esforçam por levar uma vida devota e caminham entre as dificuldades do ascetismo e da santidade interior. Depreciar as indulgências é um sinal de heresia, e o ódio que esta lhes vota é um indício de que o demônio as detesta, e isto mostra o valor do poder delas diante de Deus e da sua aceitação por parte d’Ele. Elas estão envolvidas em tantas particularidades da Igreja, desde a jurisdição da Santa Sé até à crença no Purgatório, nas boas obras, nos santos e na satisfação [das penas devidas ao pecado], que são, de certo modo, o sinal inconfundível da nossa ortodoxia [isto é, da nossa catolicidade]. A infeliz história dos erros que a Igreja sofreu a respeito da vida espiritual nos mostra que, para sermos verdadeiramente santos, devemos ser verdadeiramente católicos e católicos romanos, pois fora de Roma não pode haver nem catolicismo, nem santidade alguma.

Além do que, as devoções indulgenciadas oferecem em si a seguinte vantagem: temos certeza de que são mais que aprovadas pela Igreja. Sabemos que no mundo numerosas almas piedosas as empregam todos os dias, e unindo-nos a elas participamos mais inteiramente da Comunhão dos Santos e da vida da Igreja, que constitui sua unidade. Por todas as razões que enunciei, o emprego das indulgências espiritualiza cada vez mais a nossa alma a aviva a nossa fé. Elas nos levam a rezar como quer a Igreja e sobre assuntos por ela indicados, e assim podemos alcançar muitos fins ao mesmo tempo. Pois pelo mesmo ato não somente rezamos, como fazemos ato de veneração às chaves da Igreja, honramos a Jesus, Sua Mãe e os Santos, evitamos o castigo temporal que nos é devido, ou, o que é ainda melhor, libertamos os mortos [do Purgatório] e assim glorificamos a Deus. Podemos ainda verificar que, ao percorrermos as devoções indulgenciadas, transferimos para o nosso espírito muita doutrina tocante, que serve de alimento à oração mental e a um amor cheio de reverência.

Tomemos um exemplo. Não posso conceber que um homem seja espiritual se não tem o hábito de rezar o terço, que pode ser chamado a rainha das devoções indulgenciadas. Em primeiro lugar, considerai a importância do Rosário como sendo uma devoção própria da Igreja, imprimindo em nossa alma um caráter particularmente católico, conservando perpetuamente em nosso espírito a lembrança de Jesus e de Maria, e como sendo um precioso auxílio para alcançarmos a perseverança final, se o recitarmos com fidelidade, como no-lo provam diversas revelações. Considerai, em seguida, que São Domingos o instituiu em 1214, inspirado por uma visão, com o fim de combater a heresia, e considerai o êxito que o consagrou. (...)

Nada desejaria dizer que pudesse restringir qualquer devoção. Todavia, considerando bem todas as coisas, quando a Igreja indulgenciou um tão grande número de orações e devoções, por que recorrer a outras orações vocais em vez de procurar as indulgenciadas?”

(FABER, Padre Frederick William [1814-1864], in: O PROGRESSO NA VIDA ESPIRITUAL, tradução de Marianna Nabuco, Editora Vozes, Petrópolis: 1924, páginas 278-282, grifos nossos)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Ato de contrição

ATO DE CONTRIÇÃO


Eu, ruim e indigna criatura, me lanço a Vossos pés, Deus meu, e, com o coração contrito e aflito, reconheço e confesso diante de Vós, Redentor de tinha alma, que, desde o instante em que nasci até agora, tenho cometido inumeráveis negligências e pecados.

Tenho-Vos ofendido, Deus meu! Pequei, Senhor! Porém, detesto os meus pecados e me arrependo do íntimo do coração. Por isso, prometo solenemente não mais pecar. Porém, se Vós, em Vossa altíssima sabedoria, preveis que posso novamente ofender-Vos e cair outra vez no Vosso desagrado, de todo o coração Vos peço que me leveis agora desta vida, em Vossa graça.

Oxalá a minha dor fosse tão grande que o propósito de não mais Vos ofender permanecesse sempre imutável! Porque Vos devo infinito agradecimento pela vossa divina bondade e porque mereceis que Vos ame sobre todas as coisas, arrependo-me de meus pecados, não tanto para livrar-me dos tormentos eternos que por eles mereci, nem para gozar das delicias do Céu, que tão inconsideradamente desprezei, como porque Vos desagradam a Vós, Deus meu, que, por Vossa bondade e infinitas perfeições, sois digno de infinito amor.

Oxalá todas as criaturas Vos mostrem sem interrupção, amor, reverência e agradecimento. Amém.

Ato de contrição usual no Brasil

Senhor meu Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, Criador e Redentor meu, por serdes Vós quem sois, sumamente bom e digno de ser amado, e porque Vos amo e estimo sobre todas as coisas: pesa-me, Senhor, de todo o meu coração, de Vos ter ofendido; pesa-me, também, por ter perdido o Céu e merecido o inferno; e proponho firmemente, ajudado com os auxílios de Vossa divina graça, emendar-me e nunca mais Vos tornar a ofender. Espero alcançar o perdão de minhas culpas pela Vossa infinita misericórdia. Amém.

(A contrição perfeita uma chave de ouro do Céu, por J. de Driesch, sacerdote da arquiodiocese de Colônia, baixe aqui)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O valor do filhos na família

O valor do filhos na família
Conferência XV por Dom Tihamér Tóth


Foi doloroso e triste o quadro da família sem filhos que passou aos nossos olhos nas duas últimas instruções, mas o objeto das duas que virão agora é bem consolador e alegre: vou falar da "família numerosa".

O quanto é terrível, porque é contra a natureza, o silêncio do túmulo que reina em casa dos esposos sem filhos, tanto é alegre e cheio de promessas o riso argentino que enche o lar da família numerosa.

O quanto é abandonada e triste a velha árvore seca que perdeu sua folhagem, suas flores e todo o seu ornamento, o quanto é triste o caminhar para o túmulo, dos esposos sem filhos, atingidos pela velhice os que generosamente e confiantes no auxílio de Deus acolheram o filho. São como gigantescos carvalhos, cujos vastos ramos trazem ninhos onde sempre cantam novos pássaros. Estes velhos vêem, com a alma cheia de gratidão para com Deus aparecer, no lar de seus filhos e mesmo netos novos berços, e nestes berços, pequeninos seres que exprimem o seu reconhecimento aos pais e avós.

Estes velhos terão alguém para rezar por eles, e implorar a graça de Deus para o repouso de sua alma.

Sim, sempre foi assim; as famílias cristãs sempre amaram seus filhos; o seu mais belo móvel sempre esteve a um canto do quarto, o berço com um pequeno anjo risonho quase a dormir, enquanto num outro canto um bebê de três anos se mantém ativamente em seu cavalo de balanço, e mostra ao seu irmão maior de 5 anos toda sua habilidade.

As duas últimas instruções passaram-se numa paisagem árida, na família sem filhos. Nas duas, porém, que se seguem, subiremos às alturas consoladoras do lar feliz da família numerosa. Nesta instrução, mostrarei só de um modo geral que a verdadeira família cristã tem duas características:

I) Respeita o filho.
II) Dá a educação ao filho.

Na instrução seguinte, darei alguns detalhes sobre a maneira de educar cristãmente os filhos.

I) A família cristã respeita o filho

O cristianismo sempre rodeou a criança de um respeito particular. Ele a olha como uma "coisa santa" e uma "bênção divina", e como vamos ver, com muita justiça.

a) "A criança é uma coisa santa, Res sacra puer". Se os pagãos já assim falavam, quanto mais os cristãos! Como botões na árvore, quantas esperanças aguardam nela sua realização!

O filho é santo para seus pais. É, não somente o sustentáculo e o apoio dos pais na velhice, mas também a continuação terrestre de sua vida que se inclina para o túmulo.

O filho é santo aos olhos da nação. Ela vive por ele. Seu destino melhora com uma juventude robusta, previdente e casta, ou então desaparece o seu futuro, com uma juventude leviana e frívola.

O filho é santo aos olhos da Igreja. Dá ele sem cessar  novos membros à Igreja do Cristo e por eles a luz do Evangelho se espalha sobre a terra.

O filho é santo aos olhos de Nosso Senhor Jesus Cristo: com que amor Ele o olhou, e com que ternura deu Ele sua bênção... Que concepção profundamente cristã, do valor da criança! Sim. "Res sacra puer", a criança é uma coisa santa.

b) Mas na linguagem popular cristã o filho não é só uma coisa santa. É também uma bênção divina; "Uma bênção divina" são justamente as mãos pequeninas e fracas da criança que ligam mais solidamente aos laços da família.

Primeiramente, a família se torna mais unida pelos sofrimentos e pelas dores suportadas em comum. Quantas vezes não se renova sob formas diversas o caso de Santa Perpétua, com o seu filhinho.

Quem é São Perpétua? A jovem esposa de um cartaginês ilustre, que sob a ordem do imperador Severo havia sido jogada na prisão, e esperava a morte, por causa de sua fé cristã. Não era a prisão que a fazia sofrer, mas o fato de estar separada de seu filho recém-nascido.

Pode-se ler, nos atos de seu martírio, as lamentações desta mulher heróica: "Durante dias e dias, estive à mercê de amargas preocupações. Finalmente, obtive que meu filho pudesse ficar comigo na prisão. A criança tornou-se logo mais forte, e eu mesma me restabeleci, cuidando de meu filho. E a prisão tornou-se para mim um salão de festas, onde eu estou mais satisfeita que em qualquer outro lugar." (Ata Sanctorum dos Bolandistas, t. 632).

Que palavras magnificas! Cada mãe de família deveria meditá-las durante horas: Restabelecei-me, cuidando de meu filho. E a prisão tornou-se para mim uma sala de festas, porque meu filho estava comigo.

Mas a família está estritamente unida não só pelos sofrimentos padecidos em comum, como também pelas alegrias recíprocas. E se o provérbio "Alegria partilhada, alegria dobrada" é verdadeiro, é igualmente verdade que a alegria partilhada entre os membros da família aumenta à medida que cresce o número dos membros, com os quais ela pode ser compartilhadas.

São também de um grande calor educativo as pequeninas amabilidades que quebram a monotonia da vida quotidiana, tais como as felicitações de boas festas e de aniversário, as festas de família, as tardes de domingo passadas em uma doce intimidade, noite de natal esperada com emoção, etc.

É aqui preciso mostrar particularmente quanto seria importante proteger a família contra a dispersão e separação que em nossos dias, infelizmente, ameaçam-na sempre mais. A vida de família exige que os seus membros estejam reunidos em maior número possível. Infelizmente, as distrações modernas, o teatro, o cinema, esportes e reuniões diversas, afastam as pessoas de seu lar, e fazem perigar a tão necessária intimidade familiar.

Mas se não se passaram os anos da infância no circulo familiar, tão doce e tão quente, sentir-se-á aquela ausência em toda a vida sentimental e moral. Tem-se o costume de dizer, num sentido diferente, é verdade, falando-se de pessoas grosseiras e mal educadas, "sem educação"; como se poderia bem mais dizê-lo destes homens nervosos, desarvorados, indecisos, sem plano fixo, e sem finalidade definida porque lhes faltou na infância a felicidade da família.

E se hoje aumenta cada vez mais o número destes, uma das principais razões é que o número de santuários familiais tão íntimos e tão doces diminui sempre mais.

c) E pela mesma razão deplora-se tenham desaparecido da atual vida de família tantos exercícios religiosos feitos em comum, que existiam nas nossas antigas famílias e cujo valor educativo é inegável.

Aquele que um dia esteve no meio de uma família católica na Holanda conserva uma lembrança inesquecível da oração da noite, tal como existe ainda hoje. Não só os pais se ajoelham com seus oito, dez ou doze filhos, mas todos os da casa se reúnem para a oração em comum. Há educação mais social, pode-se apresentar melhor formação de alma para a criança em seu crescimento, que o espetáculo do Pai celeste para a oração comum? E quando pais e filhos, juntos, vão se confessar, comungar, há aí uma educação pedagógica mais eficaz que toda a ordem ou admoestação feita pelos pais.

Naturalmente, é o espírito interior que dá seu verdadeiro valor às práticas religiosas exteriores: o amor infinito por Deus, a confiança de filho e a fé cujo poder sobrenaturaliza cada ação da família. O que quer que se dê na família: acontecimentos alegres ou tristes, o que quer que digam ou julguem os pais, que projetem ou façam, atrás de tudo isto irradia-se o desejo de cumprir a santa vontade de Deus. Estamos convictos de que, se os filhos aprenderem dos pais este modo de pensar, receberão deles uma lembrança mais preciosa que todas as riquezas.

II - A família cristã preocupa-se da educação do filho

Chegamos à segunda ordem de idéias de nossa instrução de hoje: não só os pais cristãos respeitam o filho, mas justamente porque respeitam os grandes valores aí ocultos, dão-lhe a educação com amor e solicitude.

a) Nunca se repetiria demais que a educação do filho é o primeiro dever dos pais.

Educação! Que sentido profundo nesta palavra! Fazer do que é pequeno alguma coisa de grande, do que é fraco algo de forte, fortificar o corpo e a alma, extirpar a erva má e semear a boa semente. Quantos sacrifícios, que tarefa desinteressada, que noite de insônia, quantas lágrimas e cuidados nestas duas palavras "educação familiar!"

A educação familiar é um sacrifício, mas é também uma alegria.

Como seria preciso insistir muitas vezes, e sob formas diversas, junto aos pais, sobre esta imensa responsabilidade. Mas não para se concluir: "então é preferível não ter filhos", mas para fazer tudo conscienciosamente tendo em vista a felicidade futura de novos seres pequeninos lançados à vida.

Sim, a tarefa educadora é cheia de sacrifícios. mas é cheia também de alegrias.

Que é que dá aos pais esta alegria, esta felicidade e esta paz, enquanto educam, instruem, alimentam e protegem seus filhos? O pensamento de que eles cumprem assim o mais santo dever que repousa na lei natural e na lei divina. Mas, se, após o cumprimento de qualquer dever, provamos um sentimento de satisfação, este sentimento cresce na medida da obrigação da qual dependem os interesses primordiais de nosso destino terrestre e eterno, da raça humana, da nação e da Igreja.

Mas para que os pais sejam capazes destes sacrifícios contínuos, Deus criou em seus corações um dos mais belos sentimentos humanos: o amor paterno e materno.

O amor materno e paterno! Que palavra mágica. Quantas lágrimas e fadigas, quanto perdão e quanta indulgência, quantas vigílias e privações nestas palavras; amor paterno e materno!...

É um amor inesgotável, porque se nutre de três fontes: Os pais amam seus filhos porque são a carne de sua carne, e também a carne de outro ser, que eles mais amam no mundo, além de seus filhos; amam-nos ainda porque a alma do filho, desde que foi purificada pela água batismal, tornou-se filha de Deus.

Este amor paterno e materno nada e ninguém o substitui. Um filho pode ser educado por mil pedagogos, a governanta mais devotada, a melhor ama, ou educadora de crianças, sem o amor dos pais, nada mais é que "Ersatz", mas este "Ersatz" não substitui senão aproximadamenre o amor paterno e materno.

b) E quando começa o dever educativo dos pais? A partir de que idade? Quanto é preciso empreender a educação da criança? Aos cinco, seis ou dez anos?

Oh! Já seria bem tarde. É preciso começar a educação desde o primeiro instante da vida terrena do filho, e até antes de sua vida terrena.

Como? Não compreendo bem. Até antes de sua vida eterna? Que quer dizer isso?

Que a responsabilidade dos pais começa muito antes do novo ser. Começa desde a sua própria juventude, fazendo com que essa se passe no caminho da virtude. Atualmente uma ciência inteiramente nova, a ciência das leis de hereditariedade, ensina com uma força indiscutível o que a Igreja sempre proclamou, isto é, que a juventude dos pais, passada na pureza moral, é uma bênção para os futuros filhos, assim como lhes traz conseqüências fatais a juventude vivida leviana e imoralmente!

Mas por outro lado observamos hoje mais claramente a importância decisiva das impressões da primeira infância. Nada mais é do que aquilo que os antigos já suspeitavam quando diziam que alguém bebera tal ou tal coisa com o leite de sua mãe. Desde o instante em que as águas do batismo tocaram a fonte do recém-nascido, Cristo depôs na sua alma em germe a vida sobrenatural; e o dever grandioso dos pais, sua verdadeira vocação sacerdotal, é levar aquela vida cristã nascente ao supremo desenvolvimento pelo seu afeto de educadores. E esta tarefa deve ser iniciada em uma idade em que nem a escola e nem a Igreja influíram sobre a criança.

Milhares de ocasiões se apresentam aos pais sobretudo às mães, para elevar ao Pai celeste por meio de um amor cada vez mais ardente, a alma infantil que se está desenvolvendo. O efeito da grave emoção, o tom fervoroso com os quais a mãe fala de Nosso Senhor, do Menino Jesus, da Santa Virgem e das verdades fundamentais da religião, ao seu filho de três ou de quatro anos, estenderam-se por toda a sua vida. Não há educação, por melhor que seja, não há sacerdote por zeloso que seja, que saiba ensinar essas verdades com tanta delicadeza e sucesso como os pais.

Feliz o filho que recebeu essa educação de seus pais, e não somente belos vestidos, bons alimentos e presentes!

Feliz o filho que cresce num meio familiar cuja atmosfera se impregnou destes espíritos vivificantes de uma profunda piedade!

Feliz o homem que sob os golpes da sorte encontra sólido apoio na inquebrantável piedade, cujas bases foram lançadas pela sabedoria previdente dos pais, sobretudo da mãe, no solo enriquecido dos anos da infância!

c) Recordei já muitas vezes especialmente a tarefa da mãe de família. Pois se tudo quanto disse até aqui, a respeito do dever educador dos pais, serve uniformemente para ambos, a experiência mostra, porém, que a mãe é a mais apta para exercer uma profunda ação educadora, pois para cada filho, a primeira e a mais preciosa educadora é a mãe de família....

O Antigo Testamento já fornece exemplos inesquecíveis da mãe de família ideal. Bastará talvez citar apenas um só.

Pelo ano 166 antes de Jesus Cristo, brotaram dos lábios de uma heróica mãe palavras que nunca poderão ser esquecidas enquanto um homem viver sobre a terra. Elas não o serão, pois a Sagrada Escritura dá-lhes uma existência perpétua. É a questão da mãe heróica dos Macabeus, cujos sete filhos foram mortos por um tirano, por causa de sua fidelidade às leis de sua religião. Um após outro morreram, entre horrorosos suplícios, sob os olhos de sua mãe. Poderiam escapar desse sofrimento, se negassem a fé, mas nenhum deles o fez. E quando o mais jovem foi torturado, sua mãe encorajou o filho banhado de sangue, dirigindo-lhe essas sublimes palavras:

"Eu te conjuro, meu filho, olha o céu e a terra, e tudo que eles contêm, vê que Deus o criou do nada, e que a raça dos homens assim chegou à existência. Não temas este algoz, sê, porém, digno de teus irmãos." (2 Mac. 7, 28-29)

Assim morreu o mais jovem e depois também sua mãe. Mas não traíram sua fé.

Se o Antigo Testamento podia já produzir tais mães ideais, qual não deve ser então a imagem da mãe de família cristã, no Novo Testamento, ante a qual brilha como ideal o exemplo da Imaculada Mãe de Deus! Por que depois que a Santa Virgem levou em seus braços o Menino Deus, cada mãe de família traz uma coroa invisível. Uma coroa mais bela que todos os diamantes. Uma coroa digna de maior veneração que toda decoração terrena. Coroa de quem a leva. Mas uma coroa que se assemelha também à coroa de espinhos de Nosso Senhor!

Se todas as mães vivesse conscientes dessa dignidade sobrenatural! Se todos os homens soubesse que eles podem substituir em todas as coisas as mulheres, menos em tarefa vital em que ninguém a substitui! Na tarefa da mãe educando seu filho. Não é, pois compreensível que as mulheres ambicionem justamente essa carreira, única onde ninguém as substitui?

Infelizmente, a desordem da vida econômica atual obriga sempre a mulher a abandonar a calma do santuário familiar, e viv fazer concorrência ao homem na vida pública. Atualmente, não há só empregadas, mas há mulheres deputadas, advogadas, doutoras, artistas, professoras, motoristas de táxis, agentes de polícia... e em certas regiões há mulheres pastoras... e entre os soviéticos, mulheres soldados. Em todos os domínios, o homem pode produzir mais que a mulher, e em tudo isto a humanidade poderia viver sem a colaboração feminina.

Há todavia uma profissão que pertence única e exclusivamente à mulher: há uma carreira que, se as mulheres abandonarem, ninguém poderá substituí-las e sobre a qual repousa toda a humanidade: é a profissão de mãe de família.

Não creio que um homem possa provar maior alegria na terra, do que quando seu filho já crescido lhe diz o que o ilustre Széchenyi escrevia um dia à sua mãe: "Vós me instruístes, me educastes, plantastes no meu coração o bem no qual estou e ficarei, e o pouco que fiz para meu Deus, meu Rei e minha Pátria é vossa obra".

E agora que vou terminar essa instrução, na qual tratei do amor paterno e materno tão devotado, tão generoso até o sacrifício, vem-me à mente uma lembrança de guerra, que se desenrolou há vinte e poucos anos, e que eu nunca poderia esquecer.

Era primavera de 1915. Nossas tropas após a tomada de Gorlice avançaram rapidamente na Galícia enfim libertada, e a ambulância de campanha, à qual eu estava adido, mal podia seguir o exército. Um dia, trouxeram um jovem que recebera uma bala na cabeça: Teria vinte anos, e era de origem polonesa ou rutena. A bala atravessara-lhe a cabeça sem matá-lo, mas ele perdera a consciência. Durante alguns dias ficou entre nós, sem recuperar os sentidos e seu jovem e robusto organismo lutava contra a morte.

Permaneci ao seu lado a fim de poder confessá-lo, se recobrasse a consciência. Mas esta não vinha sequer um minuto. Seus lábios se moviam incessantemente, noite e dia, e durante dias, deste corpo inconsciente, saíram incansavelmente essas duas palavras: "Tatyinko, maminko... tatyinko, maminko..." papai, mamãe! Finalmente, o pobre jovem morreu!

Era terrível ouvir durante dias essas duas palavras.
Mas atualmente...

Atualmente, pergunto a mim mesmo: Quais eram o papai e a mamãe deste infeliz jovem? Que doce imagem deveriam despertar naquele cérebro atingido por uma bala, e desprovido de conhecimentos! Como deveriam ser bons para que o filho, no meio do sofrimento dos últimos dias, pudesse encontrar no seu nome tal doçura repetindo estas duas palavras: "Tatyinko, mamimnko".

A esses bons pais o meu último pensamento.

Que Deus abençõe o devotamento das boas mães de família. Amém.

(Casamento e família, por Dom Tihamér Tóth)

PS: Grifos meus.

domingo, 3 de outubro de 2010

Santa Catarina de Sena - A Vocação

(Segue o capítulo II da obra “Catarina de Sena”, de Sigrid Undset. Grifos nossos. A vida dos Santos é uma das leituras mais recomendadas à vida espiritual, visto que, como se sabe, “palavras comovem, mas exemplos arrastam”, e nos Santos é que vemos os melhores exemplos de imitação do Verbo Eterno encarnado e de Sua bendita Mãe. Aos olhos de Deus, como dizia o Padre Faber, “um Santo vale mais do que um milhão de católicos vulgares”. Daí a divulgação que ora fazemos, capítulo a capítulo, desta detalhada biografia de uma das maiores filhas da Igreja em todos os tempos, Santa Catarina de Sena. Talvez a Providência Divina esteja preparando alguma luz especial para ti na leitura destas páginas, caro amigo; afinal, o mesmo Pai Eterno disse assim à Catarina: “Eu quero que sejais Santos; tudo o que vos acontece têm essa finalidade”...)
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A VOCAÇÃO


Era costume, nas cidades italianas, uma moça com mais de doze anos não poder sair à rua sem ser acompanhada por uma mulher mais velha. Consideravam-na mais ou menos na idade de casar, e os pais tinham de começar a procurar-lhe um marido conveniente. Assim, quando Catarina chegou aos doze anos, deixou de fazer recados à mãe e de se escapar para ir visitar as mulheres casadas. Os pais e as irmãs tinham confiança em que seriam capazes de lhe arranjar um marido que trouxesse honras e benefícios para toda a família; Lapa, especialmente, sentia-se muito feliz, certa como estava de que conseguiria encontrar um homem verdadeiramente digno da sua encantadora e sensível filha mais nova, que era aliás a sua favorita.

Mas quando Lapa lhe disse que tinha chegado a altura de cuidar de si o melhor possível, arranjar o lindo cabelo da maneira mais apropriada, lavar o rosto mais vezes, e evitar tudo o que pudesse prejudicar a sua tez delicada e o alvo pescoço, ficou terrivelmente desapontada. Catarina não ficou nada entusiasmada com a idéia de se fazer bonita para agradar aos rapazes; pelo contrário, parece que se esquivava à companhia deles e fazia tudo para que não a vissem. Fugia dos próprios aprendizes e ajudantes que viviam em sua casa “como se fossem víboras”. Nunca se deixava ficar à porta da casa nem se debruçava nas janelas para ver os transeuntes e ser vista por eles.

Lapa procurou a ajuda de Bonaventura para tornar Catarina mais acessível, porque sabia da profunda amizade entre as duas irmãs; e por algum tempo houve a impressão de que Bonaventura conseguia realmente fazer com que Catarina passasse a ser um pouco mais obediente à mãe, porque começou a tomar mais cuidado com a sua apresentação. Segundo nos diz Raimundo [de Cápua], Catarina nunca fora uma beleza de espantar, mas, jovem e viva como era, delgada, de pele branca, belos olhos escuros e uma abundante cabeleira, brilhante e castanho-escuro, que os italianos sempre apreciaram tanto, deve ter sido, efetivamente, uma jovem bastante atraente.

Quaisquer que fossem as concessões que Catarina tenha feito às modas da época, sob a influência da irmã predileta, viria mais tarde a arrepender-se, com lágrimas ardentes e sofrimento sincero, [dizendo, em sua humildade] de ter assim perdido a graça de Deus entregando-se a uma vaidade pecaminosa. Quando o seu confessor Raimundo [mais tarde] lhe perguntou se alguma vez tinha desejado, ou pensado sequer, em quebrar o voto de castidade, Catarina respondeu logo que não, que nunca tivera tal pensamento. Raimundo era um padre sagaz, com longa experiência como confessor de freiras; por isso lhe perguntou também se nunca se arranjara de forma a agradar aos homens, em geral, ou a algum em particular, apesar da sua determinação de cumprir o voto; por outras palavras, se nunca namoriscado um pouco, sucumbindo à sua condição de mulher, no caminho da abnegação própria. Mas Catarina negou também isto.

Raimundo disse-lhe, então, que, se assim era, não cometera pecado ao ceder aos desejos da mãe e da irmã mais velha, ao que Catarina respondeu acusando-se de amar exageradamente a irmã, parecia-lhe mesmo que teria gostado mais de Bonaventura do que de Deus. Mesmo assim, Raimundo recusou-se a julgá-la com tanta severidade como ela se julgava a si própria: limitara-se apenas a obedecer à irmã, sem más intenções ou vaidade excessiva, e não era contra a Vontade de Deus amar Bonaventura. Mas, lamentava-se Catarina, que espécie de diretor espiritual era esse que lhe desculpava os pecados? “Oh, padre, como é que esta miserável criatura, que sem esforços ou méritos recebeu tantas graças de Deus, podia desperdiçar o tempo embelezando o seu corpo condenado a apodrecer, para tentar outras criaturas mortais?” Então, como em muitas outras ocasiões, o confessor Raimundo submetia-se à arrependida Catarina, porque ela tinha uma experiência religiosa maior do que a sua. O que ela dizia a respeito da pureza absoluta e da vontade como um todo devia ser verdadeiro.

Entretanto, deu-se uma súbita paragem nas pequenas andanças de Catarina pelas vaidades deste mundo, porque Bonaventura morreu de parto. Convenceu-se então [Catarina] que essa morte tinha sido um castigo de Deus por a irmã ter tentado afastá-la do serviço do Senhor. Mas Deus revelaria a Catarina que Bonaventura – que, fora disso, tinha sido em todos os aspectos piedosa, casta e justa – tinha permanecido pouco tempo no Purgatório antes de ser autorizada a entrar na bem-aventurança do Céu.

A morte da irmã mostrou ainda mais claramente à Catarina quão fúteis eram as vaidades do mundo; por isso se voltou com mais ardor ainda para o seu bem-amado Senhor e Lhe implorou perdão. Oh, se Ele lhe dissesse as mesmas coisas que tinha dito a Madalena: “São-te perdoados os teus pecados!”. Ela sentia que Santa Maria Madalena devia ser a sua padroeira particular e um exemplo a seguir.

A morte de Bonaventura tornou o problema do casamento de Catarina ainda mais premente para Jacopo e os filhos; para as pessoas da Idade Média, a família era o mais poderoso protetor dos direitos e bem-estar dos indivíduos. Numa época tão cheia de desassossego e perturbação, a proteção que alguém poderia esperar da comunidade – Estado ou município – era sempre incerta, no melhor dos casos. Mas um grupo, constituído por pai, filhos e genros, mantendo-se firmemente unidos e defendendo com fidelidade os interesses comuns, já prometia pelo menos uma certa segurança. Niccolo era ainda muito novo, mas, dada a morte de [sua esposa] Bonaventura, breve se casaria, entrando para outra família. Catarina tinha, portanto, o dever de obedecer aos pais e casar com um homem que viesse substituir o genro perdido.

Quando descobriram que Catarina era tão relutante em aceder aos seus desejos, cessou a admiração que nutriam pela sua sagacidade e doce timidez. Atiraram-se então à mocinha com uma fúria que nos faz acreditar que Shakespeare não exagerou quando descreveu a severidade dos Capuletos – o pai e a mãe que gritam e se insurgem contra a filha por ela não se mostrar devidamente grata quando eles lhe dizem que lhe arranjaram casamento.

Devemos recordar agora que a família de Catarina ignorava completamente o voto que ela tinha feito – Catarina nunca se atreveria a dizer-lho. Se ela tivesse manifestado o desejo de entrar para um convento, Jacopo escutá-la-ia compreensivamente, mesmo que não se sentisse muito disposto a dar-lhe desde logo o seu consentimento. Mas parece que Catarina nunca disse que queria ser freira. Para lá das fantasias que ela tinha tido em pequena – que seria ermitã ou que imitaria Santa Eufrosina fugindo de casa vestida de rapaz para ser monge – não sabemos se Catarina alguma vez imaginou ter um futuro diferente de uma vida de profunda solidão, como viria ser a vida de uma virgem desposada por Deus se continuasse a viver no meio de uma grande família, em que todos os outros membros só se preocupavam com o trabalho e os interesses do mundo.

No tempo dos Apóstolos seria esta a vida normal das mulheres cristãs que tivessem feito o voto de castidade; mas as exigências da vida prática logo levaram à fundação de conventos onde essas dedicadas mulheres podiam viver juntas sob uma certa regra. Mas uma vulgar casa de habitação da Idade Média não era o sítio mais apropriado para albergar, ano após ano, uma moça que se recusava a casar e que não pensava em trocar a sua casa por um convento.

Foi talvez Jacopo quem teve a idéia de mandar chamar um monge dominicano, velho amigo da família, para ver se convencia Catarina a ceder aos seus planos traçados. Esse monge não era outro senão Frei Tommaso della Fonte, que tinha sido criado com Catarina. Esta confessou-lhe secretamente que já havia prometido a Cristo que seria apenas Sua enquanto vivesse. Frei Tommaso limitou-se a aconselhá-la a enfrentar a severidade da família de tal maneira que eles compreendessem finalmente que ela nunca cederia. E pensou que se ela cortasse o cabelo, que era a sua maior atração, talvez eles a deixassem em paz.

Catarina aceitou este conselho como se tivesse vindo do Céu; e imediatamente pegou umas tesouras e cortou rentes as encantadoras tranças de tom castanho-escuro. Amarrou depois um véu sobre a cabeça raspada. Era contra os costumes desse tempo uma mulher solteira cobrir a cabeça, de maneira que, quando Lapa viu a filha com esse estranho toucado, logo se precipitou para ela a perguntar o que significava aquilo. A menina não ousou contar-lhe a verdade e também não queria mentir; por isso não respondeu. Lapa arrancou o véu, e quando viu a filha assim toda desfigurada, começou a soluçar de desgosto e de fúria: “Minha filha, minha filha, como pudeste fazer-me uma coisa destas?” Silenciosamente, a rapariga voltou a pôr o véu. Mas quando Jacopo e os rapazes chegaram a correr, atraídos pelos gritos e pelo choro de Lapa, e souberam o que tinha acontecido, atiraram-se furiosamente a Catarina.

Para tornar as coisas piores, Catarina tinha agora um pretendente, um jovem que os Benincasa estavam muito interessados em ter na família. Por isso a repreenderam severamente. “Oh, desgraçada, julgas que podes escapar à nossa autoridade por teres cortado o cabelo? Ele volta a crescer, e tu casarás, mesmo que isso te despedace o coração. Nunca viverás em paz e sossego enquanto não cederes e fizeres o que nós queremos”.

Tinha de haver um fim – pensavam eles – para todas essas tentativas que aquela estúpida fazia para se esconder, mesmo nos momentos mais estranhos, para rezar as suas orações e efetuar os seus exagerados atos de devoção! Deixou de poder dispor de um quarto de dormir só para si: disseram-lhe que teria de partilhar do quarto de qualquer outra pessoa da casa. Resolveu então partilhar do quarto de seu irmão Stefano, que ainda estava solteiro. De dia, enquanto Stefano trabalhava no tanque da tinturaria da cave, tinha o pequeno quarto só para ela; de noite, ele dormia como uma pedra, e não imaginava que a irmã permanecesse acordada tanto tempo em rezas e contemplações.

Lapa despediu a criada e viu que Catarina tinha bastante que fazer todo o dia em casa. Ela tinha de fazer as limpezas, preparar a comida e servir à mesa. Ainda por cima, toda a família a maltratava e censurava enquanto a faziam andar de um lado para o outro. Deviam julgar que a jovem acabaria por ver que era melhor ser dona de casa do que ser tratada como uma escrava numa grande família. Mas Catarina era ainda tão criança que era capaz de estender as suas brincadeiras às profundezas da vida espiritual.

Mais tarde, dirá a Raimundo que costumava imaginar que o pai era Nosso Senhor Jesus Cristo, a mãe era a Virgem Maria – isto ia ser muito difícil de imaginar quando Lapa tinha acessos de fúria – e os irmãos e os aprendizes eram os Apóstolos e os Discípulos. Então podia servi-los feliz e conscienciosamente, sem se cansar ou aborrecer, de tal maneira que mesmo contra a vontade, foram obrigados a admitir que ela era realmente espantosa. Esta brincadeira transformou a cozinha num santuário para Catarina, e era com alegria e delicadeza que servia à mesa, porque era o seu Amo e Senhor que ela servia.

O Espírito Santo tinha-lhe ensinado a construir dentro de si uma cela, um local de refúgio onde pudesse orar e pensar no Bem-Amado, e daqui ninguém a podia tirar, nem ninguém podia lá entrar para a perturbar. “O Reino de Deus está dentro de vós”; ela compreendia agora o significado destas palavras ditas por Aquele que é a própria verdade. Dentro de nós – aí é que o Espírito Santo lança os Seus dons para aperfeiçoarmos as nossas faculdades naturais e vencermos todos os obstáculos internos e externos. Se verdadeiramente desejarmos o Bem, o Senhor dos Céus virá dentro de nós, Aquele que disse: “Tende coragem, que Eu venci o mundo”.

Catarina confiava n’Ele e sentiu que surgira dentro dela, não construído por mãos humanas, um local de refúgio, de forma que não se devia lamentar por lhe terem tirado o pequeno quarto feito de pedra e madeira. Mais tarde, costumava aconselhar os seus discípulos, quando eles se queixavam de estarem tão sobrecarregados com os problemas do mundo que não conseguiam encontrar o sossego necessário para falarem com Deus ou para beberem da fonte que lhes dava a vida: “Construí uma cela na vossa alma, e nunca a deixeis”. Raimundo conta que não compreendera logo essas palavras da sua “mãe”, mas acrescenta: “É extraordinário ver como eu, e todos os que vivemos junto dela, compreendemos agora muito melhor [após a sua morte] as suas ações e as suas palavras do que nesse tempo, quando a tínhamos ao nosso lado”.

Um dia, estava ajoelhada, rezando profundamente, no quarto de Stefano, quando o pai entrou, a procurar qualquer coisa – ela estava rigorosamente proibida de fechar a porta à chave. Jacopo descobriu a filha ajoelhada a um canto, com um pombo branco como a neve em cima da cabeça, que, quando ele se aproximou, levantou vôo e fugiu pela janela. Mas Jacopo interrogando a filha sobre o pombo, Catarina disse que não, que não tinha visto nenhuma ave no quarto. Jacopo não disse nada, mas intimamente ficou a meditar nisto e em muitas outras coisas que já tinha observado.
* * *

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos e a colocação inicial. Agradeço a generosidade de quem me enviou, Deus lhe pague.

PS2: Ver a primeira parte aqui.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Jovem cristã: Dirás a mesma coisa?

Jovem cristã: Dirás a mesma coisa?



Dentro do meu peito tenho três corações: um de fogo para Deus, outro de carne para meu próximo, outro de bronze para mim - dizia Vicente Ferrer, santo e apostólico missionário.

Vamos lá, jovem cristã, de fato há também em teu peito alguma coisa de fogo, de carne, de bronze. Mas será na ordem citada pelo santo? É bem possível que o mundo tenha as labaredas de teu coração, teus caprichos e vontades tenham suas compaixões e o próximo fique com o duro bronze da indiferença, do egoísmo cruel, do ódio e da vingança.

Tanta cristã é vagarosa em se aquecer pelas coisas de Deus, ou tão teimosa em ficar tíbia diante dos convites divinos. Se de fato tivesse um coração em chamas por Deus, iria inegavelmente receber o braseiro de amor que é Deus na Hóstia consagrada.

Almas suaves para consigo - eis como o Espírito Santo chama as criaturas que fogem dos sacrifícios onde quer que os encontrem, mesmo na sombra do dever de cada dia. Entretanto, esse coração de carne, senhorita, o deves empregar nas relações com o próximo, que reclama tua benevolência e teu perdão; que abusa da tua paciência, que exige heroísmos de tua parte, com uma sem-cerimônia alarmante.

Para teus caprichos e "suavidades" hás de contar com o coração diante de algum sacrifício, nada de lhes lembrar sofrimentos passados, ingratidões suportadas, amizades traídas.

E nota-te uma coisa: esse coração de carne, esse coração benévolo e compassivo para com o próximo, é um sol fecundo na sociedade. Pois toda ação compassiva conduz a outra. Um só ato desse gênero deita raízes em toda parte e das raízes brotam novas plantinhas. Um só ato benigno não morre, mas estende as ondas invisíveis de sua influência através de séculos.

Tendo no coração fogo para Deus, carne para o próximo e bronze para ti mesma, serás feliz e farás felizes a inúmeros seres. E a felicidade, o contentamento interno é a atmosfera na qual se fazem coisas por Deus.

(Audi Filia! Páginas para moças, pelo Pe. Geraldo Pires de Souza)

Santíssimo Sacramento, a vida da Igreja - VII - O Viático e a Procissão

SANTÍSSIMO SACRAMENTO
A VIDA DA IGREJA
 
VII - O Viático e a Procissão
 
 
O Viático é o sexto mistério da vida da adorável Hóstia; e quem poderia dizer até aonde vai o seu poder? Com efeito, o Viático torna o homem no fim da sua carreira; condu-lo além do túmulo; é como um laço que prende a vida a morte, o tempo a eternidade e os sofrimentos deste mundo as alegrias imortais. Morremos fortificados pelo Viático, cuja influência benéfica nos suaviza a severidade do julgamento e tempera o ardor das chamas do purgatório, ao passo que sua poderosa energia não se debilita até que nos tenha deposto, qual mão de Juiz tutelar, ao pé do trono da Divindade.
 
Esta vida que se escapa; esta grande viagem que se aproxima; este combate interior e invisível de inumeráveis peripécias; enfim, esta morte cujos aspectos variam ao infinito, todas estas coisas encontram misteriosa realização na plenitude do Viático. A carne volta ao pó e é restituída pela decomposição aos elementos, que a constituem; levando consigo esta força invisível, este gérmen misterioso, incomensurável e indivisível que um dia haverá de reclamá-la a vida, restabelecê-la no seu estado primitivo, espalhando sobre ela o vivo fulgor da imortal beleza em gloriosa ressurreição.
 
O sétimo mistério do Santíssimo Sacramento é a Procissão, o ponto mais elevado, aonde é dado ao culto eclesiástico e as cerimônias católicas atingir. Como já disse no Prólogo, a Procissão exprime uma idéia de triunfo. O nosso Deus, velado sob as espécies sacramentais, adianta-Se sob as abobadas da igreja, como o conquistador da raça humana, com toda a pompa que o amor do homem, reduzido aos seus sós recursos, pode reunir em torno de si.
 
Então é que sentimos que Ele é nosso e que os Anjos têm menos que nós direito de O reclamar. A Procissão é a função da Fé, que arde no nosso coração, que refulge no nosso rosto e que faz a nossa voz tremer de emoção, quando o nosso Lauda Sion parece proclamar um desafio ao mundo dos incrédulos. É a função da esperança, pois que levamos conosco Aquele que fez da terra uma morada semelhante ao céu; Jesus que há de ser o nosso Recompensador eterno, colocou-se-nos entre as mãos, como para nos dar penhor das nossas promessas; e assim faremos tremer as potências infernais, dizendo-lhes pelos nossos gritos e cantos de alegria quanto seguros estamos de possuir o céu.
 
Entretanto, o adorável Sacramento, radioso de glória, despede relâmpagos que enchem de terror aos nossos inimigos invisíveis. É função, enfim, de amor, pois que, então, com o coração palpitando de alegria e reconhecimento, nos aventuramos a fazer o uso que Ele mesmo nos deu de nos tornarmos familiares com Ele.
 
Demais, a Procissão representa de um modo tocante aos olhos de Deus toda espécie de vida, privada, social, política e eclesiástica; com efeito, que são todas as existências dos homens e das famílias, senão outras tantas procissões de exilados que procuram através de escolhos e perigos deste tempestuoso mar, que se chama o mundo, alcançar a borda da pátria celeste, onde Jesus os espera?
 
E graças a este adorável mistério, não é somente para Ele que eles se dirigem, mas é em companhia do seu Deus que se dirigem para o Céu.
 
(O Santíssimo Sacramento ou As obras e vias de Deus, pelo Pe. Frederick William Faber, continua com o postConclusão)
 
PS: Grifos meus