quinta-feira, 16 de setembro de 2010

ESPECIAL: Santíssimo Sacramento, a vida da Igreja

SANTÍSSIMO SACRAMENTO

  
(O Santíssimo Sacramento ou As obras e vias de Deus
pelo Pe. Frederick William Faber,
edição de 1929)

INTRODUÇÃO

Se o Santíssimo Sacramento é a obra-prima de Deus, a mais perfeita imagem dEle mesmo, a completa representação de Jesus, há concluir que nEle reside a vida da Igreja, pois que o Sacramento não é um dom concedido por Jesus, mas o próprio Jesus.

Isto é verdade, quer consideremos o Santíssimo Sacramento em nossas relações com Ele, quer o consideremos em Suas relações conosco; em outros termos, quer o consideremos como devoção ou como um poder. Considerado sob um ou outro destes dois aspectos, o Santíssimo Sacramento tem dupla missão, sendo que é, ao mesmo tempo, um sacrifício e um sacramento.

A devoção do Santíssimo Sacramento é a rainha das devoções. É um centro, em torno do qual todas as outras devoções vêm se reunir e se agrupar, quais outros tantos satélites. Umas se destinam a celebrar os seus mistérios; mas a Eucaristia tem por fim celebrar ao próprio Jesus. É a devoção universal. Ninguém a pode dispensar, se quer ser cristão. Como poderá ser cristão, quem não adore a viva Presença de Cristo?

É a devoção de todos os países, de todos os séculos e de todas as idades. O caráter nacional não deixou nela nenhuma impressão, está alheia a qualquer influência de país, sangue ou governo; convêm igualmente a todas as classes, a todas as profissões, a todos os estados, a todos os temperamentos individuais. E assim deve ser, pois que é o culto de Deus convertido em devoção pela adição dos véus sacramentados. Demais é uma devoção quotidiana.

Todos os instantes lhe pertencem. Como sacrifício, a Eucaristia é uma expiação de todos os dias; como Sacramento, é o pão de cada dia dos fiéis. É a razão de ser e o objeto de numerosas ordens religiosas, cuja vida toda e toda a energia vão se concentrar nela. A adoração Eucarística nunca se suspende um só momento no seio da Igreja.

Há cidades, onde, em acontecendo cessar o culto do Santíssimo Sacramento numa igreja, logo se apressam os fiéis em oferecer-lho em outra igreja; e dia e noite, os habitantes velam e oram em Sua presença. Em inumeráveis conventos, ternas vítimas de reparação consagram o silêncio das noites a chorar e gemer perante o Seu Tabernáculo solitário.

Há países, onde piedosos seculares, homens e mulheres, se reúnem em associações para se revezarem umas as outras nas sucessivas horas de adoração. Em nosso hemisfério, como nos antípodas, se abrangermos em nossos piedosos cálculos toda a extensão da terra, acharemos que as Missas se sucedem sem interrupção durante as vinte e quatro horas diurnas. Que dizemos das inumeráveis preparações que precedem a Missa ou a santa Comunhão, e das ações de graças que a seguem?

Se, em determinada hora, nos fosse possível contemplar o mundo inteiro ao mesmo tempo, veríamos multidões sem fim, absorvidas de coração e pensamento no Santíssimo Sacramento.

A poderosa influência da Eucaristia sobre a vida privada não é menos admirável. Achamo-la sem cessar contribuindo a fazer os homens mais felizes, desviando-os do pecado, adoçando o que era amargo, apaziguando o que estava irritado, vertendo o bálsamo salutar sobre as chagas do coração e dando ocasião a uma multidão de obras de misericórdia. A vida social, com o seu casamento e instituições domésticas, ressente-se constantemente  da sua influência benéfica; e no mundo político quantas vezes não tem servido para reanimar a paz entre o governo e os súbditos?

Ela mesma tem o poder de atrair os heréticos por uma espécie de encanto e nestes corações puros e honestos, mas aonde o erro se insinuou despercebido, ela faz ouvir sem ruído a sua doce voz; e assim tem recolhido mais almas ao rebanho de Pedro, do que os raciocínios cerrados dos mais hábeis controversistas ou a influência das palavras ardentes do homem piedoso que prega sinceramente por Jesus Crucificado: Nada poderá quebrar a aliança que existe entre o Santíssimo Sacramento e a vida espiritual das almas interiores: Ele as conduz para as alturas onde se aprendem a renúncia de si mesmo e as maravilhas da oração sobrenatural.

Quanto ao mundo ordinário, ao mundo moral, social, político, literário, devoto, eclesiástico e místico, o Santíssimo Sacramento paira por sobre eles, desde vinte séculos, com o seu poder fecundo, pacífico e criador.

Ó turbilhão silencioso do amor divino! com que forças, a um tempo calma e irresistível, atrais as Vossas criaturas ao seio da Vossa amável influência e aos círculos interiores onde ela se exerce! Ah! em Vossa misericórdia dignai-Vos de nos atrair pelo caminho mais curto e mais seguro às profundezas do amor eterno, a estes abismos, a que enche a Visão Beatífica da Santíssima Trindade!

Sim, o Vosso nome é Jesus, porque salvareis o Vosso povo do pecado!

Mas o Santíssimo Sacramento não constituí somente a vida devocional da Igreja; é por si mesmo um poder vivificante. Realmente Ele como que abrange a Igreja inteira e se multiplica para satisfazer a todas as necessidades da humanidade, redimida sem dúvida, mas ainda condenada aos rigores do exílio. Esta missão Ele a preenche de sete modos diferentes: pela Missa, pela Comunhão, pela Bênção, pela Residência no Tabernáculo, pela Exposição, pelo Viático e pela Procissão

São estes os sete mistérios principais de nosso Deus oculto sob os véus sacramentais: cada um deles é animado de um espírito que lhe é próprio e opera de um modo particular que o distingue dos outros; é assim que os diversos mistérios da vida mortal de nosso Senhor diferenciam-se todos, um do outro. Para falar dignamente destes sete augustos mistérios, seria preciso um tratado; mais, em razão do espaço que me é dado, não posso senão dizer algumas palavras.

NB: Daremos continuidade deste texto em outros post por ser um texto longo.
PS: Grifos meus.


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Educação sobrenatural - IV Parte

EDUCAÇÃO SOBRENATURAL
PARTE IV - O OBJETO DESTA INSTRUÇÃO


"A manifestação das vossas palavras ilumina; dá a inteligência aos pequenos".
(I Tessal., II, 7)

Como se devem instruir as crianças?
Devem instruir-se as crianças, com uma progressão refletida, nas verdades fundamentais da religião:

- Deus;
- Jesus Cristo;
3º- A alma;
- A graça;
- Os últimos fins.

1 - Deus

Qual é a primeira verdade que se deve ensinar a criança?
É a existência de Deus.

- Quem é Deus: perguntamos um dia a uma criança de catecismo.
- Ah! senhor - respondeu ela - ainda não chegamos a essa lição.
(Charruau, As mães, 17)

É evidente que a criança deveria aprender esta lição desde o primeiro despertar da alma, logo que manifeste alguns vislumbres de inteligência.

Como se pode dar as crianças uma idéia da existência de Deus?
Elevando-as até Ele pela consideração das coisas deste mundo.

"A criança não tem dificuldade em conhecer o mundo invisível por detrás das coisas visíveis... Dir-se-ia que ainda ontem estava na presença de Deus".
(Newmann, citado por Cl. Bouvier, A educação religiosa, p. 32)

"Pode-se mostrar as crianças uma casa, e acostumá-las a compreender que essa casa não se edificou por si mesma. As pedras, dir-lhes-eis, não se elevaram sem que alguém as transportasse. É bom mesmo mostrar-lhes os pedreiros que edificam; depois fazer-lhes contemplar o céu, a terra e as principais coisas que Deus fez para uso do homem; dizer-lhes: Vede como o mundo é mais belo e mais bem feito do que uma casa. Fez-se por si mesmo? Não, sem dúvida; foi Deus que o edificou por Suas próprias mãos".
(Fenelon, Da educação das filhas, cap. VI)

Devem contentar-se os educadores com ensinar as crianças a existência de Deus?
É preciso deduzir desta noção confusa a idéia dum Deus Providência, dum Deus presente em toda a parte, dum Deus, justo e bom.

Como se pode incutir a criança a fé na Providência?
1º- Ensinando-lhe, com o catecismo, que nada, absolutamente nada, vem ao mundo sem ordem ou permissão de Deus.

- Fazendo-lhe conhecer o que a Bíblia nos ensina sobre esta verdade. José, indignamente vendido por seus irmãos, disse-lhes mais tarde, quando os tornou a ver: "Não fostes vós, foi Deus que fez tudo; enviou-me diante de vós".

O Salvador, no Evangelho, ensina-nos que "nem um só cabelo da nossa cabeça cairá sem a permissão de Deus".

- Familiarizando-a com o pensamento dos santos e dos bons cristãos...

- Habituando-a a aplicar estas profundas verdades aos menores incidentes da vida quotidiana.

Como pode incutir à criança a fé na presença de Deus?
1º- Ensinando-lhe, neste ponto, a bela e fecunda verdade teológica: Deus está em toda a parte; nada Lhe escapa: é nEle que nós temos o ser, o movimento e a vida; banhando-nos nEle como o peixe na água.

- Exercitando-a a viver neste pensamento.

"Nunca se insiste bastante, dizia Diderot, sob a presença de Deus. Os homens baniram a divindade de entre eles; parece que os muros dum templo limitam a sua vida e que ela se não prolonga mais além. Se tivesse uma criança para educar, acrescenta ele, far-lhe-ia da divindade uma companhia tão real, que lhe custaria a separar-se dela. Em lugar de lhe citar o exemplo dum outro homem, que ela conheça, talvez mais pecador do que ela, dir-lhe-ia bruscamente: Deus ouve-te e tu mentes!..." As crianças querem ser formadas pelos sentidos; multiplicaria, portanto, em volta dela, os sinais indicativos da presença divina. Se ela fizesse, por exemplo, um círculo na minha presença, marcaria aí um lugar a Deus, e acostumaria o meu educando a dizer: 'Nós somos quatro; Deus, o meu amigo, o meu diretor e eu'".

A que fim deve tender este ensinamento relativo a Deus?
Deve tender, desde a mais tenra idade, a inspirar às crianças o amor e o temor de Deus.

"Representaria Deus assentado sobre um trono, com os olhos mais brilhantes que os raios do sol e mais penetrantes que os relâmpagos; fazei-o falar; dai-lhe ouvidos que ouvem tudo, mãos que sustentam o universo, braços sempre levantados para punir os maus, um coração terno e paternal para tornar felizes aqueles que O amam".
(Fenelon, ob., cit. cap. VI)

Procedendo assim, depositam-se na alma das crianças este princípios da fé que são o fundamento da sua felicidade eterna. E quando as paixões rugirem, fazendo calar todas as vozes humanas, as crianças escutarão ainda a voz da sua consciência ou sua mãe, que lhes fala em nome de Deus:

- Isto não é permitido: é Deus que o proíbe; se cedes, temes o castigo; se resiste, terás a recompensa do céu, etc.

(Catecismo da educação, pelo Abade René de Bethléem, continua com o post: Jesus Cristo)

PS: Grifos meus.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

As dores de Maria (Conclusão)

Nota: Prometi e cumpri. Amanhã é o dia de Nossa Senhora das dores (Sete dores de Nossa Senhora), transcrevi o piedoso capítulo escrito pelo Pe. Júlio Maria sobre este tema. Confira os demais posts aqui: As dores de Maria

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AS DORES DE MARIA
VIII - CONCLUSÃO


Após a consideração minunciosa das dores da angusta Virgem e das disposições que animaram a doce co-redentora, que nos resta ainda a dizer? Nada mais do que recolhermos estes raios esparsos e reunir todas estas dores num foco imenso, escrevendo nele a palavra "amor".

O amor é, de fato, o princípio, a base e coroação de todo este drama doloroso, como ele é a fonte e o princípio da bondade e da misericórdia da divina Mãe.

Por que Maria é tão poderosa e tão cheia de ternura para conosco?

- Porque Ela nos ama.

Por que Maria é tão transbordante de misericórdia para com os pobres pecadores?

- Porque Ela os ama.

Por que a divina Mãe consetiu entregar o Seu Filho aos algozes e à colera dos malfeitores, e condenou-Se a sofrer com Ele e por Ele?

- Por que Ela ama os homens e quer salvá-los.

Depois de cada dor de Maria, como depois de cada sofrimento de Jesus, pode-se exclamar: "Sic dilexit mundum. - É porque amaram o mundo".

A salvação do mundo! - Eis, com efeito, o termo de tudo.

Deus quis salvar o mundo, e quis salvá-lo pelo sofrimento. E, não contente de sofrer só, Ele associou Sua própria Mãe, à Sua obra redentora.

Podia Ele dar-nos uma prova maior do Seu amor?...

- Sofrer por outrem é sublime!

Mas fazer sofrer, para salvar um inimigo, àqueles que amamos mais terna, mais apaixonadamente, é divino!

E eis o que nosso Salvador não hesitou em fazer. Fixando-o o Seu olhar sobre esta criatura pura e ideal, que Ele amava mais do que todas as outras criaturas reunidas, Ele ousou dizer:

Ó minha Mãe, minha Bem-Amada, Minha privilegiada, eis a humanidade perdida, eu poderia salvá-la por uma simples palavra; mas quero que ela saiba que eu a amo, e, para mostrar-lho, morrerei por ela. E não o bastante!

Para mostrar-lhe toda a intensidade e toda a extensão de Meu amor, vou sacrificar aquela que mais amo depois de Minha divindade - Minha Mãe!

Vai, pois, ó Virgem benigna; que a dor te triture como uma vítima! Que as angústias te estreitem como um círculo de ferro! Vai, sofre, imola-Te comigo... vive e morre para a humanidade, e que, por este sinal, ela compreenda o amor que lhe tenho, pois permito que a Minha própria Mãe seja vítima para a sua salvação.

E foi visto tão grande espetáculo! - Uma Mãe imolando o Seu Filho e imolando-Se a Si mesma para a salvação dos Seus algozes.

"Deste modo, diz São Bernardo, Maria vive e não vive, morre e não pode morrer. Ela vive, porém morrendo; morre, mas conservando a vida; Ela morre e não pode morrer; tem uma vida mais penosa do que a morte".

Eis o que nos representa o Calvário. Eis como Maria se torna a nossa Mãe, e por que preço Ela adquire este título que devia proporcionar-Lhe tão pouca consolação. Ela deu à luz os pecadores entre angústias e dores. É preciso que o Seu título de Mãe dos homens Lhe custe o Filho. Ela não pode ser Mãe dos cristãos senão com a condição de dar à morte o seu Filho único.

Que dolorosa fecundidade!

Recordo-me aqui de São Paulino de Nola, que, falando de sua parenta, Santa Melânia, a quem de numerosa família nada mais restava que uma criancinha, traça a Sua dor por estas palavras:

"Ela estava com esta criança, sobrevivente infeliz de uma grande ruína, que, bem longe de a consolar, aguçava as suas dores, e parecia que lhe fora deixada para fazê-la lembrar-se do seu luto, antes que para reparar a sua perda".

Não vos parece que estas palavras foram ditas para representar as dores da divina Mãe?

"Mulher, diz Jesus, eis aí o vosso filho".

"Esta palavra, diz Bossuet, num arroubo de gênio, esta palavra mata-A e fecunda-A. Ela tira das Suas entranhas, com a espada e gládio, estes novos filhos, e entreabe-se o Seu coração com uma violência incrível, para aí entrar este amor de Mãe, que Ela deve ter a todos os fiéis.

Ó filhos de Maria, filhos de sangue e de dor, continua o eloquente prelado, podeis ouvir sem lágrimas nos olhos os males que causais à Vossa Mãe? Podeis esquecer os gemidos, entre os quais Ela vos deu à luz?

Gemitus matris tuae ne obliviscaris. - Não esqueças os gemidos de tua mãe.

Lembra-te dos lamentos de Maria, lembra-te das dores cruéis com que dilaceraste o Seu coração no Calvário; deixa-te comover pelos gemidos de uma Mãe. Ó pecador, qual é o teu pensamento?

Queres elevar uma outra cruz, para nela pregar Jesus Cristo?

Queres fazer com que Maria veja o Seu Filho crucificado ainda uma vez?

Queres coroar a Sua cabeça com espinhos, calcar aos pés, ante os Seus olhos, o Seu sangue do novo Testamento e, por um tão horrível espetáculo, reabrir ainda todas as feridas do Seu amor materno?

Praza a Deus que não sejamos tão desnaturados!
Deixemo-nos comover pelos gemidos de uma Mãe.

Meus filhos, diz ela, até agora nada tenho sofrido, tenho como nada todas as dores que Me afligiram na cruz. O golpe que me dais  por causa dos vossos pecados, eis o que me fere. Vejo morrer o Meu Filho querido, mas, como Ele sofre pelo vossa salvação, consenti em imolá-lO, eu mesma; deixai que eu traga este amargor com alegria.

Meus filhos, crede no Meu amor. Parece-me não ter sentido este martírio, quando o comparo às dores que me causa a vossa impenitência. Mas, quando vos vejo sacrificar as vossas almas ao furor de Satanás, quando vos vejo a perder o sangue de Meu Filho, tornando inútil a Sua graça, é então que me sinto mais vivamente tocada.

Eis, meus filhos, o que trespassa o coração; é isto que me arranca as entranhas".

(Bossuet: Sermão sobre a compaixão da santa Virgem)

O ódio ao pecado e o desejo de reparar as nossas faltas, por uma vida pura e cheia de amor, eis, de fato, qual deve ser a conclusão do estudo das dores de Maria.

Amar é tornar-se semelhante, tanto quanto possível, ao objeto de nossas afeições.

Maria é a pureza, é o amor!... Como Ela, sejamos puros, amemos e consolemos as Suas dores pela nossa fidelidade em corresponder à graça, para que as Suas lágrimas não se tornem inúteis, mas façam germinar em nossas almas uma seara de virtudes, um desabrochar de santidade!

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria)

PS: Grifos meus.

Exaltação da Santa Cruz

Nota: Hoje a Igreja comemora a festa da Exaltação da Santa Cruz, escolhi alguns textos já publicados no blogue para meditação.



"Ó bendito lenho e benditos cravos
que tão suave peso sustentastes,
só vós fostes dignos de sustentar
o Rei e Senhor dos Céus.
 Aleluia."

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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

VII- MARIA, RAINHA DOS MÁRTIRES

AS DORES DE MARIA
VII- MARIA, RAINHA DOS MÁRTIRES


De tudo o que acabamos de dizer resulta que Maria é, verdadeiramente, em toda a extensão da palavra, a "Rainha dos mártires".

Que mártir sofreu jamais dores semelhantes às Suas? Qual entre os nossos heróis é àquele em cujas torturas poderíamos verificar caracteres, imensidade e profundeza semelhante àqueles que são o fundo e que forma o complemento das dores de Maria?

É um sentimento admitido por todos os teólogos que uma dor suportada por amor de Deus é capaz de causar a morte e suficiente para constituir o martírio, mesmo que não ocasionasse a morte. É assim que São João Evangelista é reputado mártir, embora não tenha expirado na caldeira de óleo fervente, saindo dali mais forte do que antes.
(Brev. Rom. Dia 06 de maio)

Para merecer a auréola do martírio basta, pois, segundo Santo Tomás, que levemos a obediência até ao seu grau supremo, que é oferecer-se a si próprio à morte.
(Summ. 2.2 q. 124 a 3)

Ora, Maria, o fez em grau que ultrapassa a toda concepção humana.

"Se o Seu coração não caiu sob os golpes de um algoz, diz Santo Afonso, o Seu coração bendito foi trespassado pela dor que Ela sentiu da Paixão de Seu Filho, dor que bastava para Lhe dar mil vezes a morte. Daí devemos concluir que Maria não foi somente mártir em toda a força do termo, mas que o Seu martírio sobrepujava ainda a todos os outros" (S. Lig., Sermão sobre as Dores de Maria), visto ter sido ele mais longo, mais intenso e mais profundo.

Ó Virgem Maria, Vós bem podeis dizer com o salmista:

"A minha alma se desvaneceu na dor, e os meus anos decorreram nos gemidos", pois a dor Vos foi sempre presente, foi o Vosso pão cotidiano, Vos revestiu de todas as partes, penetrou-se e Vos consumiu inteiramente, Vosso martírio atinge o infinito, sois verdadeiramente a Rainha dos mártires.

Não repercutiu em Vosso coração a Paixão do vosso Jesus, que foi mais do que o Rei dos mártires? E Vós mesma não esperastes os dias da Paixão para entregar o Vosso coração às agonias mortais?...

Ainda jovem, aprendestes com os profetas a história antecipada dos sofrimentos do Vosso Jesus. E a partir desta primeira revelação, quantas lágrimas ardentes correram sobre as Vossas faces virginais!

E tornando-Vos Mãe de Deus, quem poderia exprimir os gládios que então Se cravaram em Vosso coração para trespassá-lo?

E, no entanto, nada mais eram que os pressentimentos da Paixão.

No dia em que ela se realizou, que martírio de sangue não produziu no Vosso coração, ó boa Mãe! Pois todas as circunstâncias da Paixão de Jesus, expirando em sofrimentos inauditos, reproduziram se dolorosamente em Vós, Sua Mãe.

Sim, Jesus foi o Rei dos mártires, e Vós, ó Maria, fostes a Rainha dos mártires.

Duas coisas elevaram o martírio de Maria acima dos tormentos de todos os mártires reunidos - o tempo e a intensidade.

O tempo, que mitiga as dores comuns, não aliviou as dores de Maria, mas, ao contrário, aumentou-as. De uma parte, Jesus aparecia a Sua santa Mãe cada vez mais belo e mais amável, à medida que crescia. E, de outra parte, o dia de Sua morte se aproximava sempre.

"Assim como a rosa cresce entre os espinhos, dizia o anjo a santa Brígida, assim também a Mãe de Deus progredia em anos, no meio das tribulações. E como os espinhos crescem ao mesmo tempo que a rosa, assim adiantou-Se em idade, Maria, esta rosa escolhida do Senhor, sentiu que os espinhos das Suas dores penetravam mais profundamente em Sua alma".

Segundo uma outra revelação a Santa Brígida, a Santíssima Virgem lhe diz que, mesmo depois da morte  e da ascensão de Seu Filho, Ela tinha a Paixão continuamente presente no Seu pensamento; e, quer tomando os Seus alimentos, quer trabalhando, o Seu coração amante estava ocupado nesta lembrança.

Quanto à intensidade, é como um abismo insondável.

"Se Deus não tivesse conservado a vida de Maria por um grande milagre, diz Santo Anselmo, a Sua dor teria sido suficiente para Lhe dar a morte a cada instante que Ela passava na terra".
(De excel. Virg. c.5)

Como é que os sofrimentos da humilde Virgem foram muito mais intensos que os de todos os mártires?... Eles o foram, sobretudo, de três modos;

Primeiramente, a alma sobrepuja o corpo, tanto quanto os sofrimentos da alma ultrapassam os do corpo.

Em certa ocasião, Nosso Senhor disse a Santa Catarina que entre as dores da alma e as do corpo não há comparação possível- Inter dolorem animae et corporis, nulla est comparatio.

Ora, foi no corpo que os mártires sofreram os golpes do ferro e do fogo. Maria, ao contrário, sofreu em Sua alma, segundo a profecia do santo velho Simeão.

O segundo modo, como o faz notar Santo Antonino (P. 4.t. 5. c. 24, par. I), consiste no fato de que o suplício dos mártires atinge à perda da própria vida; o da Santíssima Virgem consiste no sacrifício de uma vida que Lhe era muito mais cara do que a Sua própria vida - a vida de Seu Filho.

Deste modo Ela sofreu não somente em Sua alma tudo o que Jesus Cristo sofria em Seu corpo, mas a vista dos sofrimentos de Seu Filho afligiu mais o Seu coração que se Ela  mesma tivesse padecido todos eles.

"Jesus sofria nos Seus membros, e Maria no Seu coração", diz o bem-aventurado Amadeu - Ille carne, illa corde passa est (de laud. B. Virg. Hom 5), "de modo que, ajunta São Lourenço Justiniano, o coração de Mãe se tornou como o espelho das dores do Filho; os escarros, os golpes, as chagas, tudo o que Jesus sofria, vinha refletir-se nEla". - Passionis Christi speculum effectum erat cor Virginis; in illo agnoscebantur sputa, convicia, verbera, vulnera (De Trin. Chr. Ag. C. 21).

Dizem que os pais sentem mais vivamente os sofrimentos dos Seus filhos do que os seus sofrimentos pessoais. São Bernardo nos dá a razão disto:

"A alma está mais naqueles que ela ama do que naquele que ela anima" - Anima magis est ubi amat quam ubi animat.

Se isto é verdade, podemos dizer, portanto, que "Maria sofreu mais vendo as dores do Seu querido Jesus, do que se Ela mesma tivesse sofrido toda a Paixão". - Maria torquebatur magis quam si torqueretur in se; quoniam supra se incomparabiliter diligebat id unde dolebat.
(Se laud. B. Virg. Hom 5).

É a conclusão do bem-aventurado Amadeu. Enfim, um terceiro modo é que o martírio de Maria foi privado de toda consolação. Sem dúvida, os mártires sentiram vivamente os tormentos que lhes infligiam os tiranos, mas seu amor a Jesus lhes tornava doces e amáveis os seus sofrimentos.

Mais eles amavam a Jesus Cristo, menos sentiam os tormentos da morte; e a vista de um Deus crucificado bastava para os consolar. Mas que consolação hauria a Mãe de Jesus ante o espetáculo dos Seus sofrimentos, já que os próprios sofrimentos deste Filho querido eram o objeto da Sua aflição e o amor que Lhe tinha era o Seu único e mais cruel algoz?

Portanto, o martírio de Maria consistia precisamente na compaixão que Ela sentia à vista do seu Filho inocente e querido entregue a tão horrorosos suplícios. E, por conseguinte, mais Ela amava, mais amarga era a Sua dor, e mais se afastava toda consolação.

É o que se quer representar, quando apresentamos os santos mártires, cada qual com o seu instrumento de suplício: São Paulo, com a espada; Santo André com a cruz; São Lourenço, com a grelha...

Quanto à bem-aventurada Virgem, representamo-lA tendo em Seus braços o Seu divino Filho morto, porque só Jesus foi o instrumento do Seu martírio, em razão do amor que Ela Lhe consagrava.

Depois disso, figuramo-nos a Mãe de Deus de pé, junto à Cruz, na qual Jesus expira, dirigindo-nos estas palavras do profeta:

"Ó vós todos que passais por este caminho, considerai-me e vede se há dor semelhante à minha dor". - O vos omnes qui transitis per viam! attendite et videte se est dolor sicut dolor meus (Thren.I).

Vós que passais a vossa vida na terra, sem sequer lançardes um olhar de compaixão sobre a Vossa Mãe aflita, detende-Vos um instante para considerar-me e ver se entre todos aqueles que são presa da aflição e dos tormentos, há um só cuja dor seja  semelhante à minha.

"Não, ó Mãe desolada, responde-Lhe são Boaventura, não há dor mais cruel do que a Vossa, porque não há filho mais querido do que o Vosso". - Nullus dolor amarior, quia nulla proles carior
(Off. comp. B. Virg.).

Eis como o martírio da amável Virgem ultrapassou as dores de todos os mártires, pois Ela sofreu em Sua alma, enquanto os mártires sofreram no corpo. A Sua dor cresceu durante toda a Sua vida, enquanto que a dos mártires sofreram no corpo. A Sua dor cresceu durante toda a Sua vida, enquanto que a dos mártires tinha um termo muitas vezes limitado.

Enfim, Ela não teve consolação alguma.

Ó sim, ó Maria, Vós sois verdadeiramente Rainha dos mártires. Ninguém merece melhor a soberania sobre a dor do que Vós, que sofrestes como nunca sofreu criatura alguma.

E quais são os nossos deveres para com a nossa Mãe desolada?... Escutemos a própria Santíssima Virgem dizer a Santa Brígida:

"Minha filha, eu passo em revista todos os habitantes da terra, para ver se há entre eles quem pense em meu martírio e se comova ao vê-lo; mas eu encontro muito poucos. E tu, minha filha, não faças como o grande número, não te esqueças de mim, considera as minhas dores, e chora comigo tanto quanto o podes".

O próprio Nosso Senhor revelou à bem-aventurada Verônica de Binasco que, de certo modo, Ele se comprazia mais em ver-nos compadecidos das dores de Sua Mãe, do que dos Seus próprios sofrimentos.

Eis as Suas palavras:

"Minha filha, as lágrimas derramadas sobre a Minha Paixão são por mim amadas; mas, como amo com um amor imenso a minha Mãe Maria, é-me mais agradável a meditação das dores que Lhe causou a Minha morte".
(Boll, 13 jan.)

Acrescentemos que preciosos favores foram concedidos àqueles que meditam muitas vezes sobre as dores desta Mãe querida.

Em seu "Journal de Marie", Marchèse relata uma tradição antiga, que nos mostra São João Evangelista chorando a morte daquela que ele tomara por todo o seu bem. Para consolá-lo, e por ter ele velado sobre os últimos anos de Maria, Nosso Senhor dignou-Se aparecer-Lhe, em uma visão, acompanhado de Sua Mãe.

O santo ouviu Maria pedir ao Seu Filho que concedesse alguma graça particular àqueles que honram as Suas dores.

Jesus prometeu quatro principais, que são:

1- Aqueles que invocam a Mãe das dores merecerão fazer, antes da morte, uma penitência sincera dos Seus pecados.

2- O próprio Jesus os protege em suas tribulações, sobretudo na hora da morte.

3- Ele imprimirá neles a memória de Sua Paixão, e lhes dará a recompensa do Ceú.

4- Colocá-los-á nas mãos de Sua Mãe, a fim de que deles disponha segundo o seu parecer, e lhes alcance todas as graças que quiser.

Portanto, amenos, honremos e consolemos a amável e doce Rainha dos mártires.
Choremos com Ela na terra, a fim de termos a felicidade de um dia nos alegrarmos com Ela no Céu.

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria, continua com o último post: Conclusão)

PS: Grifos meus.

domingo, 12 de setembro de 2010

VI- AS RAZÕES DAS DORES DE MARIA

AS DORES DE MARIA
VI- AS RAZÕES DAS DORES DE MARIA


A vista das imensas dores desta Virgem tão compadecida, perguntamos imediatamente a nos mesmos como Deus permitiu que Ela fosse triturada a este ponto.

A questão merece seguramente uma resposta, pois Ela supõe o conhecimento dos sublimes desígnios de Deus sobre Maria, e nos ensina como é que devemos carregar as cruzes que a Providência coloca sobre nossos ombros, e mesmo desejar o sofrimento por amor de Deus.

Os sofrimentos de Maria não eram necessários, por necessidade absoluta, para operar a redenção do mundo, mas Deus quis que fossem necessários por necessidade de conveniência.

"O ódio da serpente infernal, diz São Crisóstomo, começara por Eva a perpetrar o desastre original; convinha, por conseguinte, que Maria, nova Eva, interviesse no ato da reparação, efetuado pelo novo Adão".
(S.J.Crys.: De interdict)

É o mar de Deus a Maria.

Pode o amor dar algo de melhor do que a si mesmo?...

Ora, em Jesus tudo era sofrimento. Maria deverá, portanto, assemelhar-Se ao Seu divino Filho, deverá participar das Suas dores, porque participa do Seu amor.

A lei que atinge a Jesus deverá envolver Maria. E esta lei, nós o sabemos, era uma lei de sacrifício e de expiação, em que a ignomínia e a abjeção deviam chegar quase ao aniquilamento. Maria teria sido um simples instrumento e não uma mãe, se Ela tivesse  sido separada de todas estas coisas.

O crescimento dos méritos da Santíssima Virgem foi mais uma razão dos Seus sofrimentos. E sobretudo nos sofrimentos que se acumulam os méritos. A qualidade de Mãe de Deus não teria sido uma razão suficiente para que Maria fosse elevada ao céu, sem a graça santificante que precedeu e seguiu esta dignidade da maternidade divina.

A elevação legítima de Maria devia depender  dos Seus méritos e os Seus méritos deviam ser adquiridos evidentemente por uma longa série de sofrimentos. (Cfr. Bourdaloue: Sermão sobre a Assunção)

Como avaliar então os arrebatamentos que atualmente enchem no céu a alma de nossa Mãe querida e nos quais Ela reconhece as recompensas especiais devidas a cada uma de Suas dores?...

E por prodigiosa que seja a grandeza da recompensa, Ela vê pormenorizadamente como correspondeu a cada um dos Seus sofrimentos em particular, e como esta recompensa nasceu dos Seus sofrimentos.

Setenta e dois anos de alegria estática jamais teriam, na ordem atual dos desígnios de Deus, elevado o Seu trono tão próximo do trono de Deus. (Jamar: Maria Mãe da dor)

Uma terceira razão das dores da Imaculada era a glória que Deus devia receber dEla.

A maior misericórdia de Deus para com as criaturas é o permitir-lhes contribuírem à Sua glória e fazê-lo de um modo inteligente e livre.

Mas quem melhor do que Maria se achava em condições de procurar esta glória? Ela que era tão próxima de Deus e tão vibrante de amor e de vida sobrenatural. Dela Deus pode receber mais glória não só do que de qualquer outra criatura, mas ainda do que de todas as criaturas reunidas, excetuando-se, evidentemente, a natureza de Jesus Cristo.

A Mãe de Jesus estava cumulada, sem dúvida, das graças poderosas que exigia uma correspondência tão maravilhosa à vontade divina, mas Ela nunca recebeu do Seu divino Filho dom algum, ao qual ligasse tanto apreço, como à Sua compaixão. Não! para ganhar o mundo, Ela não teria consentido em se privar da menor circunstância que pudesse agravar a Sua dor.

Portanto, foi Maria quem pagou, por assim dizer, a dívida que os santos tinham contraído com Jesus pela Sua paixão e que eles nunca podiam saldar.

Maria, ao pé da Cruz, era o mundo em adoração, pois nenhuma criatura adorava então a Jesus em Suas humilhações. Tudo se concentrava, pois, na pessoa desta Virgem das dores; Ela era como que o centro, o coração e a voz do mundo inteiro.

A quarta razão das dores de Maria é que Ela era mãe, e qual é a mãe que não sofre para com o seu filho?...

A mãe não é mãe por um título nobiliárquico, e, sobretudo, ela não pode ser "Consoladora dos aflitos", como Maria o deveria ser, por um simples decreto emanado da vontade. Poderia dar-se isto, mas Deus não o quis.

A sentença promulgada contra Eva: "Darás à luz na dor", é, ao mesmo tempo, uma lei e um mistério, uma condenação e uma profecia.

A partir deste momento a dor se torna uma condição inevitável para a mulher se tornar mãe, tanto na ordem natural, como na ordem da graça. A qualidade de mãe é inseparável da qualidade de mártir.

"Maria, ao pé da Cruz, diz São Bernardino de Sena, adquiriu o titulo de Mãe dos cristãos com o preço das mais incompreensíveis dores e, gerando-nos à graça, Ela sentiu, ao mesmo tempo, todas as dores suportadas pelas mães que comunicam a vida na natureza aos seus filhos. Maria sentiu-as todas ao mesmo tempo, gerando-nos à graça ou dando-nos à luz da graça, e deste modo, os seus sofrimentos igualaram os sofrimentos de todas as mães".

A razão por ele apresentada prova-nos que Maria tendo-nos gerado a todos para a salvação, teve que sofrer para casa um de nós em particular.

Uma quinta e última razão que entrevemos das dores da Virgem, é o desígnio de Deus em dar-nos Maria por modelo.

A dor caracteriza mais ou menos toda a vida humana e, encerrando em si os meios particulares de união com Deus, desarranja e perturba, mais do que qualquer outra coisa, as nossas relações com Ele.

cristãmente a dor é talvez a obra mais elevada e mais árdua que temos nós a realizar, e está em grande parte nos desígnios de Deus que a soma das dores que devemos suportar cresça com o grau de santidade que nos torna capazes de as suportar.

E, sob este ponto de vista, que horizonte luminoso se abre aos nossos olhos!...

A mais pura, a mais doce, a mais santa das criaturas nos aparece esmagada e triturada pela dor e nos ensina como devemos sofrer e como devemos galgar o Calvário da nossa vida.

Como é doce, nas horas de lassidão e de provação, apoiar a cabeça e o coração sobre o coração sanguinolento de Maria!

Como aí irradia levemente o amor, através das lágrimas e das angústias!

Como ele atrai e repousa o coração! Como ele nos pede sobretudo um pouco de reciprocidade de amor, a pequena chama de nosso coração para uni-la ao incêndio do coração da "Virgem das dores"!

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria, segue com o post: Maria, Rainha dos mártires)

PS: Grifos meus.

sábado, 11 de setembro de 2010

V- A IMENSIDADE DAS DORES DE MARIA

AS DORES DE MARIA
V- A IMENSIDADE DAS DORES DE MARIA


De boa vontade empregamos em nossa linguagem esta grande palavra "imensidade". Raramente ela é justificada pela soma ou pelo peso dos nossos sofrimentos. De fato qual é a dor humana, que em nada se possa atenuar, seja da parte da terra, onde temos e onde sabemos encontrar tantos refúgios, apoios e distrações, seja da parte do céu, tão poderoso para consolar-nos e sempre tão propenso a fazê-lo?

Mas, quando dizemos de Maria que a Sua dor é imensa, é absolutamente e terrivelmente verdade.

"Todos os rios correm ao mar, escreve o Sábio, e o mar nunca transborda".

Compreendei que estes rios são torrentes de angústias, e que este mar, em que tudo se precipita, e que Deus fez tão vasto para receber e conter tudo, é o coração da Virgem imaculada, e tereis aí uma imagem da imensidade da Sua desolação.

É ante o pensamento desta imensidade das dores de Maria que a Igreja exclama, com o profeta Jeremias:

"Ó vos todos que passais pelo caminho, considerai vede se há uma dor semelhante à minha dor! A quem vos hei de comparar, ó filha de Jerusalém? A quem direi que vos assemelhais?... Onde encontrarei alguma coisa igual aos vossos males? O excesso dos vossos males é semelhante a um mar. Quem porá nele um limite?"

É do mesmo modo que os doutores e os santos falaram da grandeza dos sofrimentos de Maria.

Santo Anselmo disse:

"Qualquer que tenha sido a crueldade maquinada contra os mártires, era superficial, ou antes, não era nada, comparada à crueldade da paixão de Maria".
(De excell, Virg. C.V)

Um anjo revelou a Santa Brígida que "se Nosso Senhor não tivesse sustentado miraculosamente Sua Mãe, Ela não teria podido conservar a vida durante o Seu martírio".

Eis o eco de todos os santos e de todos os doutores. Procuremos compreender, por um rápido exame, que de fato foi sim... Donde provém a imensidade das dores da Virgem imaculada?... Provém sobretudo, de quatro causas. Meditemo-las aqui atentamente.

O que nos mostra antes de tudo a imensidade destas dores é que elas ultrapassaram todos os tormentos dos mártires.

Não somente, diz o Pe. Faber (no livro: Aos pés da cruz), nunca houve um único mártir, por prolongadas ou complicadas que tenham sido as suas torturas, que igualasse a Maria em sofrimentos, mas mesmo as angústias de todos os mártires reunidas, com a Sua variedade e intensidade, não se aproximaram da agonia de Sua paixão.

Os mártires sentiram uma consolação inefável em contemplar a Jesus, cuja beleza e glória os fortificavam. O seu espírito estava repleto desta luz divina. A sua agonia era mitigada e contrabalançada, quase metamorfoseada pela consolação interior que experimentavam na sua alma inundada de graça e de amor. Mas onde a visão interior de Maria procurará uma consolação? É preciso que os Seus olhos espirituais lancem os seus olhares lá onde os Seus olhos corporais já estão fixos, isto é, sobre Jesus, e é esta visão que causa a Sua tortura.

Ela vê a Sua natureza humana, e Ela é a Sua Mãe, e Mãe acima de todas as outras mães, amando como nunca outra mãe amara; e muito mais ainda como nunca poderiam amar todas as mães reunidas, se pudéssemos reunir a totalidade dos seus atos de amor, no mais enérgico e mais inexprimível dos atos.

Ele é o Seu Filho!...  que Filho!... e de que modo maravilhoso!...

Ele é o Seu tesouro e o Seu tudo! Que fonte de torturas agudas, vivas, mortais, incomparáveis, havia nesta contemplação! E entretanto, não estava tudo aí, pois havia mais ainda: aí havia a natureza divina do Salvador.

Jesus tinha direito às adorações de todos os homens, e ninguém O via como Maria. Jesus era Deus, e Ele não recebia nenhuma das homenagens devidas à Sua divindade. Ele era Deus, e Maria O via, através da obscuridade do eclipse, coberto de sangue, de escarros, de lama, de chagas repelentes, de contusões lívidas.

Que significava tudo isso sobre uma pessoa divina?...

É inútil indagar um nome para uma dor, como a que submergia a alma de Maria Santíssima. Jesus,  a alegria dos mártires, aqui é como o algoz de Sua Mãe! Nenhum martírio foi igual àquele e não lhe podemos atribuir outro nome que o de "imensidade de dores", a "dor incompreensível".

Em segundo lugar, os sofrimentos da Santíssima Virgem podem ser chamados imensos, em relação às Suas proporções com as Suas outras qualidades, isto é, que se depois de Jesus e para Jesus Ela tivesse que ter a preeminência de dor, os Seus sofrimentos deviam ser proporcionados à Sua dignidade, à Sua santidade e às Suas luzes.

Dores proporcionadas à Sua dignidade, e Ela era Mãe de Deus. Dignidade tal, diz São Tomás, que a própria Onipotência não teria podido imaginar uma grandeza mais elevada. É dizer que era impossível imaginar uma dor maior do que a da Mãe de Deus!

Dores proporcionadas também à Sua santidade. As provações dos santos são sempre medidas sobre a sua força e a sua capacidade de sofrer, e análogas aos seus méritos, que elas igualam, e aos quais se ligam de um modo particular.

Ora, quem dirá a santidade e os méritos de Maria?...

Questão insolúvel, falta de algarismos, dissemos precedentemente.

Mas, se esta santidade não é absolutamente ilimitada (e é a menor coisa que dEla se possa dizer), não sabemos ao menos que enorme fardo de sofrimento exigia uma tal santidade para alcançar o Seu nível e fecundá-la, amadurecê-la, acrescê-la e coroá-la, por uma outra imensidade - a imensidade da dor.

Dores proporcionadas, enfim, às Suas luzes.

O conhecimento aguça sempre mais a dor, e a sensibilidade aumenta a sua violência. Ora, todo o ser da Santíssima Virgem estava repleto de luz. Não só uma razão e uma inteligência de perfeição extrema resplandeciam em todas as Suas faculdades, mas a Sua vida interior se passava no seio de uma atmosfera sobrenatural, toda de luz.

Nas Suas dores inenarráveis, este conhecimento que A esclarecia era uma tortura terrível.

Podemos bem dizer que ninguém, exceto o Salvador, compreendeu perfeitamente a paixão, nem pode avaliar e agrupar todos os horrores no que ele tem de mais hediondo; ao menos a compreensão que delas teve Maria é a única que se aproximou da que tinha o Seu Filho.

Assim, pois, ainda que, a extensão das dores da Santíssima Virgem nos escapa, porque não podemos medir a extensão das luzes sobrenaturais a que elas eram proporcionadas e com as quais cresciam talvez simultâneamente.

As dores de Maria são ainda por causa da sua multidão.

Cada olhar, cada palavra ou ação de Jesus causava à doce Virgem, uma superabundância de sofrimentos nos quais o passado e o futuro se confundiam em uma visão única, mas terrível, sempre presente à Sua alma.

E se, por causa da sua multiplicidade, não podemos contar todas as aflições da Santíssima Virgem, ao menos qual não foi a sua violência, quando todas se concentraram como que sobre um ponto único e culminante, donde se espalharam a cada momento e de todos os lados sobre a Sua alma, com uma tal diversidade de sofrimentos que não poderíamos imaginar?...

Maria pôde dizer com justiça:

"A minha amargura é a mais amarga de todas as amarguras".

Há também um outro ponto de vista, sob o qual as dores de Maria foram verdadeiramente imensa: - é a superioridade a tudo o que a força humana pode suportar. De fato, elas ultrapassaram em energia ao mais robusto homem.

É opinião unânime dos autores, apoiada sobre as revelações dos santos, que Maria conservou a vida por milagre sob o peso dos Seus intoleráveis sofrimentos. A previsão que Ela teve das Suas dores foi tão viva, que, sem um socorro particular de Deus, Ela não teria podido viver sob um aguilhão tão cruel.

Não vemos, algumas vezes, pais ou mães que morreram de desgosto?... Na expressão de nossas dores de ordinário há algum exagero e a imaginação as aumenta. Mas nos sofrimentos de Maria tudo era verdadeiro e real. Elas eram avivadas pela perfeição superior da Sua natureza, pela Sua graça superabundante, pela beleza perfeita, e, sobretudo, pela divindade de Jesus.

Deste modo, cada uma das Suas dores era perfeitamente aceita, quer na sua intensidade, quer na sua extensão, quer na sua duração. Sua natureza física, isenta dos estragos do pecado, estava repleta da mais enérgica vitalidade, dotada da mais terna e viva sensibilidade; por conseguinte, era de uma capacidade única para sofrer.

Logo, nada houve em Maria, quer na Sua razão, quer nos Seus sentimentos, que pudesse amortecer um só dos golpes que Ela recebia.

Esta realidade das dores de Maria, é na verdade muito extraordinária, e foi preciso o coração de um Deus, para permitir que a Sua Mãe sofresse tanto pela nossa salvação. E nós correspondemos às vezes tão mal e tão covardemente às ternuras que tantas dores nos revelam.

Até quando seremos ingratos?... E quando, enfim, misturaremos algumas lágrimas de compunção à torrente de dores de nossa Mãe?...

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria, continua com o post: As razões das dores de Maria)

PS: Grifos meus.

Educação sobrenatural - Parte III

EDUCAÇÃO SOBRENATURAL
III- PARTE

A ILUMINAÇÃO DA VIDA SOBRENATURAL

"Aquele que Me segue não caminha nas trevas"

Como se obtém a iluminação da vida sobrenatural?
- Pela instrução religiosa.
- Pela formação da consciência.

Artigo I - A instrução religiosa

Como se divide este artigo da instrução religiosa?
Em três parágrafos que tratam:

- De diversas circunstâncias desta instrução;
- Do objeto desta instrução;
- Do meio principal desta instrução.

1º- As diversas circunstâncias desta instrução

"Ai do conhecimento estéril que não conduz a amar e se atraiçoa a si mesmo".
(Bossuet)

Qual é a importância desta instrução?
- A instrução religiosa ocupa o primeiro lugar pela dignidade do seu objeto, que é Deus.

- Merece este primeiro lugar por sua necessidade. Bento XV afirma que uma grande parte daqueles que foram condenados, sê-lo-ão por causa da sua ignorância dos principais mistérios da fé.

- "É na verdade, pensando bem, a única instrução necessária. Ela pode, se for preciso, substituir todas as outras, e nunca pode ser substituída. De que aproveitaria a vossos filhos saber tudo o mais, se não conhecessem a religião, se não conhecem Jesus Cristo? De que vale a ciência das línguas àquele cuja boca se fechará em breve e que a morte vai reduzir a silêncio? De que vale no outro mundo a geografia deste? De que valem os escritos, a música, a pintura, às mãos que em breve se mirrarão e que amanhã estarão envoltas num sudário? O conhecimento da história do tempo para aqueles que deve entrar na eternidade?"
(Mgr. Pichenot)

Quem deve primeiramente dar esta instrução?
São os pais, e sobretudo a mãe.

Nas famílias cristãs, o pai e a mãe consideram como uma das suas primeiras obrigações a de ensinar a seus filhos a doutrina do catecismo, os principais fatos da história sagrada, as mais belas cenas do Evangelho; os serões de inverno, as longas horas dos domingos e dias feriados são consagrados em grande parte a este nobre trabalho.

Não será exagerado fazer votos para que esta prática se generalize. Pais e filhos melhor instruídos e mais facilmente preservados.

Quando se deve dar esta instrução?
Deve dar-se esta instrução logo que a criança revele alguns vislumbres de inteligência, por conseguinte desde os primeiros anos.

A Sagrada Escritura no-lo recomenda.

O velho Tobias ensina seu filho a temer a Deus e a fugir do mal ab infantia, desde a mais tenra idade. Os santos, os verdadeiros cristãos, têm procedido sempre da mesma forma.

A razão e a experiência confirmam a veracidade do provérbio: o que o berço dá a tumba o leva. É bom não esquecer que as lições devem ser curtas e frequentes.

As crianças, numa idade tão tenra, são capazes de compreender alguma coisa das verdades da religião?
Sim, muito mais do que geralmente se crê. E isto por três razões:

- Elas possuem a graça, e está escrito: Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus.

- Com a graça, tem a fé infusa.

- Têm um mestre no fundo do coração: o Espírito Santo.

Como se deve dar esta instrução religiosa?
Deve dar-se de maneira a penetrar a alma.

E como penetrará o educador a alma dos seus alunos, se ele mesmo não estiver penetrado? E como temperará a mãe a alma dos seus filhos, se ela mesmo o não estiver? Como lhes comunicará a fé, o amor de Deus e todas as outras virtudes cristãs, se ela as não sentir transbordar na sua alma? É aqui, sobretudo, que se faz sentir a necessidade fundamentalmente da santidade pessoal.

A instrução religiosa pode dar-se como qualquer outra instrução?
Não.

O ensinamento das coisas humanas, em rigor, não demanda mais que clareza nas exposições e paciência nas repetições. Ao passo que o ensinamento das coisas divinas exige a clareza, a paciência e um ardente amor de Deus.

Há muitos pais educadores que satisfaçam a estas condições?
Não, desgraçadamente.

São Paulo (I Cor., IV, 15) diz-nos que há milhares de pedagogos mas pouco pais.

Quantos pais e educadores não passam de pedagogos, quer dizer, professores que ensinam a religião como explicam um problema ou uma página de gramática; que projetam no espírito uma luz sem calor; que só exigem de seus alunos saber sem amor; que não traduzem nas suas palavras e nas suas atitudes nem fé, nem amor pelas verdades ensinadas!

Quando do inquérito aberto pela Croix, há alguns anos, sobre a ignorância religiosa, um padre contava, com uma humildade encantadora, que tinha encontrado um dia um dos seus antigos alunos de catecismo, tornado depois franco-maçom militante, e lhe perguntava a razão da sua apostasia.

- Então que quer? Eu desejaria triunfar... E depois que é que me poderia deter? A minha instrução religiosa era apenas aquele que me havia ensinado no catecismo, e o senhor ensinava mal!

Seria isto verdade? No caso particular a que nos referimos, duvidamos disso. Mas o que é certo é que os pedagogos são absolutamente incapazes de penetrar a alma e de dar convicções.

Qual é o grande meio de fazer penetrar as verdades religiosas na alma das crianças?
É fazer com que elas as amem...

Como farão os pais amar a religião?
- Pelas suas palavras.

Dirão a seus filhos que o primeiro mandamento não é: tremerás, mas: amarás. Mostrar-lhes-ão Jesus Cristo tomando a forma duma criancinha, fazendo-Se realmente nosso irmão para arrebatar o amor dos nossos corações. Ensinar-lhes-ão que Nosso Senhor Jesus Cristo enviou os Seus apóstolos como cordeiros ao meio dos lobos, e que São Paulo se assemelhava a uma ama que acarinha os seus filhinhos. Tanquam si nutrix foveat filios suos. (I. Tes. II, 7)

Repetir-lhes-ão estas palavras de Santo Agostinho:

"Tudo o que Jesus Cristo ensina é verdade, tudo o que ordena é caridade; tudo o que promete é felicidade".

- Pelos seus atos.

Tomarão uma expressão de felicidade quando falarem de Deus e dos deveres da vida cristã. Nos dias da comunhão estarão mais bem dispostos, mais carinhosos, mais amáveis. Quando forem obrigados a começar pelo temor, acabarão ordinariamente pelo amor.

(Catecismo da educação, pelo Abade René de Bethléem, continua com o post: O objeto desta instrução)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

IV - CARACTERES DAS DORES DE MARIA

AS DORES DE MARIA
IV - CARACTERES DAS DORES DE MARIA


Os caracteres distintivos das dores da santíssima Virgem têm uma relação estreita com as fontes de que tiveram a sua origem. Assinalemos alguns deles. O Seu estado far-nos-á compreender mais o amor que Maria nos testemunha pelas Suas dores e excitar-nos-á a corresponder-Lhe por um amor recíproco mais extenso e mais generoso.

Estes caracteres são em número de quatro.

1- O primeiro destes caracteres particulares das dores de Maria foi que eles duraram toda a Sua vida. A dor que a nós se apega, algumas vezes deixa-nos sentir menos fortemente o seu aguilhão.

A desgraça que persegue um homem no decorrer de toda a sua vida parece, em certas ocasiões, fatigar-se de o perseguir, e muda então de direção, como se renunciasse à sua presa, ou como se quisesse conceder-lhe algum descanso. Mas "para Maria tal não se deu, diz o Pe. Faber, a dor era-Lhe como inerente".

"Quando Deus quer consolar uma alma, Ele a inebria, disse Mons. Gay, mas, quando Ele quer desolar uma delas, Ele a tritura".

"Ele me estabeleceu em uma aflição tão profunda, que permanece o dia inteiro", dizem os livros santos.

De que se trata?... Da sexta-feira santa, em que morreu o Salvador, depois de haver passado pelo crisol de Sua Paixão. Mas este dia começava desde a véspera e, para Maria, ao menos, Ele tinha um dia posterior. A véspera era o Getsêmani; o dia seguinte era o santo sepulcro, ou , para melhor dizermos, esta véspera era a vida terrestre e humilhada de Jesus; e este dia seguinte eram todos os anos que Maria ainda devia passar na terra sem Ele.

O Calvário era um círculo em que tudo se concentrou: o passado, o futuro, o céu, a terra e o próprio inferno com o seu ódio, a terra com os seus crimes, o céu com os seus esplendores; mas o ponto central destes raios tão divergentes era o coração triturado de Jesus e o coração desolado de Sua Mãe.

2- Mas as dores da Virgem não eram somente de todos os instantes de Sua vida; elas também cresciam continuamente. Mais familiar se Lhe tornava a visão dos sofrimentos, mais Ela sentia o seu doloroso amargor. Quando os primeiros ventos da tempestade começaram a soprar sobre o Seu coração, Ela apertou contra ele o Seu Jesus. Ele Lhe parecia mais amável que nunca. Deste modo decorreram os doze primeiros anos. Depois vieram os outros dezoito anos, em que cada palavra, cada olhar, cada movimento de Jesus estavam repletos de mistérios divinos.

Finalmente, chegaram os três anos do ministério público do Salvador e as Suas palavras, as Suas obras, os Seus milagres pareceram carregar o mundo de mais belezas sobrenaturais do que Ele podia suportar. E então, ó dor, os homens se precipitaram com furor, para extinguir esta luz que os feria com o seu brilho e fulgor.

A medida que crescia assim a beleza de Jesus, crescia igualmente o amor de Maria, e com o Seu amor crescia a Sua agonia. Ah! é que a presença de Jesus se tornara para Ela um hábito do qual não podia se afastar sem deixar de viver. E é assim que os Seus sofrimentos aumentaram mais depressa do que crescem as plantas na primavera; e eles aumentariam com tanto maior rapidez, quanto mais se aproxima o termo fatal.

3- O terceiro caráter das dores de Maria é que Ela suportou tudo voluntariamente por amor. Ó Deus, mil vezes misericordioso e clemente, tereis, porventura, depositado esta coroa, este fardo, esta montanha , este mundo de aflições sobre a cabeça de Maria, a Vossa imaculada e a privilegiada do Vosso Coração, se Ela mesma, vendo Jesus carregado por Vós de iniquidades, não Vos tivesse pedido instantemente que A deixásseis participar deste cargo?...

Quando a dor atinge aquilo que amamos, sobretudo aquilo que amamos infinitamente mais do que a nós mesmos, quando Ela não só a atinge, mas o encerra, o esmaga, o penetra, o inunda, o desola, e acaba por matá-lo, proibir então ao amor de sofrer (supondo-se que isto fosse possível), seria impeli-lo a um estado tão violento, e infligir-lhe um suplício tão grande que os sofrimentos mais atrozes, recebidos do objeto amado, ao lado deles, pareceriam um refrigério e uma libertação.

Sim, Maria devia sofrer! Seu amor a Deus e o amor que Deus Lhe tem o exigiam.

Não poderíamos conceber uma mãe sem lágrimas ao lado de um filho ensangüentado, e nem para Deus e nem para nós seria admissível tal suposição.

Qualquer coisa teria faltado eternamente à beleza moral de Maria, se Jesus a tivesse subtraído a esta imolação, pela qual Ele resgata o mundo. Parece que, amando-A por tantos títulos, Ele não A teria amado até ao grau supremo do amor, pois que Lhe teria recusado dar esta grande e alta prova do Seu amor, que consiste em sofrer por aqueles que amamos, e em sofrer por amor.

Aliás, não há mérito onde não há amor habitual de Deus. Se as dores da Santíssima Virgem não tivessem tirado a Sua origem de Seu amor, elas não teriam sido meritórias: do excesso de amor vinha o excesso de sofrimento.

4- Um quarto caráter das dores de Maria é a resignação com que ela suporta o peso de angústias que sobre Si se acumulam. Nada podemos imaginar de maior do que a violência dos tormentos de que foi torturado o coração maternal desta Virgem Santíssima.

"Mas, não! enganamo-nos, diz Santo Amadeu; acima dos sofrimentos e das dores de Maria há qualquer coisa de maior e de mais admirável - é a coragem com que Ela os suporta. O prodígio de Sua resignação tão calma eleva-A infinitamente acima do prodígio dos Seus sofrimentos. Vede: a Sua aflição está no auge, e, entretanto, Ela não se entrega a gemidos. O que Ela sofre é inexprimível, e, no entanto, Ela não está abatida - Ela fica de pé e imóvel, com uma constância e uma grandeza de alma que ultrapassam a grandeza do Seu sofrimento".
(Sto. Amadeu: Homil. 5 de mart. B. Virg)

E Santo Anselmo acrescenta:

"A Sua face não manifesta qualquer sinal de impaciência; os Seus lábios não proferem uma só palavra de murmúrio, de indignação ou de vingança; o Seu coração está repleto de amargura, e di-lo-iam impássivel; a Sua alma está abismada de dor e as lágrimas misturadas de lamentos. Ó maravilhoso acorde de pudor e de coragem, de paciência e de amor! A mais pura, a mais delicada e a mais tímida de todas as virgens é a mais magnânima, a mais heróica de todas as mulheres".

Em Sua alma mais do que crucificada é impossível descobrir-se o menor traço de indignação. Ela não faz o mínimo apelo à justiça; Ela vê tudo, mas só olha uma coisa: Jesus. O Seu coração se entrega à justiça divina, com a doçura e a resignação de um cordeiro, e Ela Se Lhe entrega toda inteira, com Ele e como Ele.

Quantos a desejar qualquer castigo para os outros, quaisquer que sejam, dos crimes que causaram ou cercaram este grande sacrifício, Ela não teve necessidade, nem o pensamento e, muito menos ainda, a tentação.

Por toda parte e sempre, mas sobretudo no Calvário, Ela é a "mulher", a mãe, a Virgem clemente, a advogada dos pecadores, a Mãe de Misericórdia.

Ó Maria, incomparável Virgem e Mãe, possa tanta ternura tocar enfim o meu coração e penetrá-lo de reconhecimento e de amor! Para me salvar e para me santificar é que sofrestes tanto!

Eu não posso reconhecer um tal benefício senão pelo amor. Fazei, pois, que a minha alma seja penetrada por ele e que eu viva dele, até à minha hora derradeira.

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria, continua com o post: A imensidade das dores de Maria)

PS: Grifos meus.