quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Obras de Santo Afonso Maria de Ligório

Nota: Para os que ainda não possuem os livros (em PDF): A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, volume I e volume II, deixo links para downloads, recomendo vivamente a leitura desta excelente obra de Santo Afonso Maria de Ligório.

A devoção pela santa Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo


Quanto agrada a Jesus Cristo que nós nos lembremos continuamente de Sua Paixão e da morte ignominiosa que por nós sofreu, muito bem se deduz de haver Ele instituído o Santíssimo Sacramento do altar com o fito de conservar sempre viva em nós a memória do amor que nos patenteou, sacrificando-Se na Cruz por nossa salvação.

Já sabemos que na noite anterior à Sua morte Ele instituiu este sacramento de amor e depois de ter dado Seu corpo aos discípulos, disse-lhes — e na pessoa deles a nós todos — que ao receberem a santa comunhão se recordassem do quanto Ele por nós padeceu: “Todas as vezes que comerdes deste pão e beber de deste cálice, anunciareis a morte do Senhor” (1Cor 11,26). Por isso a santa Igreja, na missa, depois da consagração , ordena ao celebrante que diga em nome de Jesus Cristo: “Todas as vezes que fizerdes isto, fazei-o em memória de mim”. E S. Tomás escreve: “Para que permanecesse sempre viva entre nós a memória de tão grande benefício, deixou Seu corpo para ser tomado como alimento” (Op. 57). E continua o santo a dizer que por meio de um tal sacramento se conserva a memória do amor imenso que Jesus Cristo nos demonstrou na Sua Paixão.

Se alguém padecesse por seu amigo injúrias e ferimentos e soubesse que o amigo, quando se falava sobre tal acontecimento nem sequer nisso queria pensar e até costumava dizer: falemos de outra coisa — que dor não sentiria vendo o desconhecimento de um tal ingrato? Ao contrário, quanto se consolaria se soubesse que o amigo reconhece dever-lhe uma eterna obrigação e que disso sempre se recorda e se lhe refere sempre com ternura e lágrimas? Por isso é que todos os santos, sabendo a satisfação que causa a Jesus Cristo quem se recorda continuamente de Sua Paixão, estão quase sempre ocupados em meditar as dores e os desprezos que sofreu o amantíssimo Redentor em toda a Sua vida e particularmente na Sua morte.

S. Agostinho escreve que as almas não podem se ocupar com coisa mais salutar que meditar cotidianamente na Paixão do Senhor. Deus revelou a um santo anacoreta que não há exercício mais próprio para inflamar os corações com o amor divino do que o meditar na morte de Jesus Cristo. E a S. Gertrudes foi revelado, segundo Blósio, que todo aquele que contempla com devoção o crucifixo é tantas vezes olhado amorosamente por Jesus quantas ele o contempla.

Ajunta Blósio que o meditar ou ler qualquer coisa sobre a Paixão traz-nos maior bem que qualquer outro exercício de piedade. Por isso escreve S. Boaventura: “A paixão amável que diviniza quem a medita” (Stim. div. amor. p. 1. c. 1). E falando das chagas do crucifixo, diz que são chagas que ferem os mais duros corações e inflamam no amor divino as almas mais geladas.

(A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - volume I, Santo Afonso Maria de Ligório)

PS: Grifos meus.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

III- AS FONTES DAS DORES DE MARIA

AS DORES DE MARIA

III- AS FONTES DAS DORES DE MARIA



Após a consideração das dores  de que foi repleta a vida da Rainha dos mártires, e fizeram da Sua existência um martírio prolongado, e de cada um dos Seus dias uma etapa para o Calvário, detenhamo-nos nos pormenores dos Seus sofrimentos.

De fato, em parte alguma o amor cintila tão puro, tão desinteressado e tão atraente, como através das lágrimas e das dores.

Aliás, a Virgem não sofre senão por amor. O Seu corpo virginal não está crucificado, mas, ao contrário, que gládio trespassou a Sua alma! gládio de duplo gume, afiado incessantemente pelo Seu amor a Jesus e o Seu amor aos homens.

Antes de tudo, quais eram as fontes principais destas dores?... Quatro principalmente:

A primeira, era ver Jesus morrer, e não poder morrer com Ele. Não há uma só mãe que, em semelhança circunstâncias, não tivesse desejado vivamente a morte. Para um coração triturado, a morte é preferível à vida. E, se a morte se apresenta, não como uma separação, mas como uma união realizada mais íntima, que mãe aflita a não consideraria uma inexprimível favor?...

Tal se dá com Maria. Jamais um filho foi, aqui na terra, tão querido de sua mãe, como Jesus de Maria; jamais um filho foi tão bom e tão belo, tão amável e tão verdadeiramente "filho" como Jesus.

Os direitos do pai e da mãe concentravam-se, ao mesmo tempo, no coração da Virgem. Ela só O havia gerado, e isto sobrenaturalmente, de tal modo que Jesus era como duas vezes Seu Filho. E este Seu Filho estava revestido, ao mesmo tempo, de todos os atrativos da humanidade e de todos os encantos da divindade.

Que amor veemente, digamos melhor, que paixão divina não devia excitar, no coração de Maria, a contemplação das amabilidades infinitas de Jesus!

E este Filho, tão divinamente amado, partia desta vida, partia, deixando a Sua Mãe só, desolada, com o coração transbordando do mais veemente desejo de segui-lO, e com a Sua alma cheia de dolorosas lembranças do Calvário.

Jesus ia-se embora... Desde então Ele não estaria mais com Ela, para falar-Lhe do céu... E Ela estaria separada dEle.

Mas, então, por que vivia Ela ainda?...

Sua união com Ele era habitual e tão estreita que Ela Se tornara a Sua vida; e agora, na hora suprema, esta união ia ser rompida, quando Ela desejava o mais vivamente possível assemelhar-Se a Ele!

Como, pois, era prodigioso o amor de Maria, para obedecer assim à vontade de Seu Filho no Calvário, vontade esta que Lhe prescrevia a separação e a obrigava a prolongar a Sua vida durante vinte e quatro anos de um incompreensível martírio! (Dizemos 24 anos, na opinião de que Maria viveu até 72 anos; mas uma outra diz 63 anos)

A segunda causa da aflição para Maria foi o ser Ela testemunha ocular da Paixão, sem poder aliviar os sofrimentos do Seu divino Filho. As revelações dos santos nos ensinam que a Santíssima Virgem, embora corporalmente ausente do Getsêmani, assistia em espírito e seguia interiormente às diversas fases da agonia do Salvador.

Mas Ela estava corporalmente presente no caminho do Calvário, e na crucifixão; Ela O seguia e assistia (com que dor!) a cada nova tortura que a impiedade judaica inventava para aumentar os sofrimentos do Seu Filho. Ela assistia a tudo, via tudo e Se desolava por não poder proporcionar o menor alivio a Jesus.

Os espinhos faziam o sangue correr lenta e penosamente, sobre os olhos do Salvador, e Maria não podia Se aproximar para enxugá-lO.

Os lábios de Jesus estavam ressequidos e descorados pela sede, e a Mãe desolada nem sequer podia ir depor neles [um refrigério].

Esta cabeça dolorida, admirável aos olhos dos anjos e tão divinamente radiante de dor e de amor, desaparecia sob o pó, o suor e o sangue... e a Virgem nem mesmo podia, como a Verônica, enxugá-la com o Seu véu, e lavá-la com as Suas lágrimas.

Depois, Ela vê o Seu Filho suspenso no patíbulo dos malfeitores, com as mãos e os pés trespassados, e com o corpo sangüinolento e lívido. A cabeça do divino paciente cai para trás, os espinhos penetram mais fundo, e, inclinando-Se para a frente, todo o corpo fica suspenso dos pregos, que Lhe dilaceram mais as Suas mãos delicadas.

Oxalá pudesse Ela sustentá-lO nas Suas mãos maternais e deixá-lO repousar nelas até à hora suprema, em que Ele deve morrer!

Mas, não! Esta última consolação não Lhe será dada, senão depois que Ele tiver expirado.

Uma terceira fonte das dores de Maria é a visão distinta que Ela tem do pecado, e a apreciação que Lhe inspiram as cenas sangrentas da Paixão e do Calvário.

Com efeito, não podemos duvidar de que Nosso Senhor tenha permitido que Ela participasse, em certa medida, do Seu conhecimento sobrenatural da extensão do pecado, da sua excessiva malícia e do ódio que ele excita em Deus, conhecimento este que distinguiu Jesus e deu aos sofrimentos da Sua Paixão o seu verdadeiro caráter.

Foi a visão do pecado que crucificou a alma de Jesus no Jardim das Oliveiras; foi à visão da cólera do Seu Pai contra o pecado, que Ele pediu com tanta tristeza que Se Lhe afastasse esta cálice.

Lemos que Santa Catarina de Gênova caiu desfalecida, um dia, quando Deus lhe mostrou, em uma visão, que horror é preciso ter a um só pecado, mesmo venial.

Em Maria não podia haver este desfalecimento, pois os dons que Lhe havia outorgado o Seu divino Filho ultrapassavam os dos santos, o mais que poderíamos dizer; por conseguinte, o Seu horror ao pecado sobrepujava a todas as nossas concepções. Deste modo, apareceu aos Seus olhos, sobre os ombros chagados do Seu Filho, a visão hedionda e repelente dos pecados do mundo inteiro.

Ela via como era verdadeiramente a Deus que o pecado atingia, ofendia e cobria de opróbrios. O terror que deles sentia o Salvador fazia-Lhe sofrer mil mortes interiores.

Faltam-nos palavras para pintar um tal suplício. Enfim, a estas fontes tão cruéis de sofrimentos acrescenta-se a perda prevista de tantas almas, para as quais o sangue divino ia ser inutilmente derramado. É a quarta fonte.

Pensemos no valor de cada gota deste sangue divino. Ele foi derramado para cada alma em particular; e, entretanto, quantas almas perdidas para a eternidade! Eis o preço que Cristo pagou para o resgate das almas; e, entretanto, Ele vê desaparecer o Seu valor.

Se uma só alma, para a qual toda esta Paixão foi sofrida de propósito, tivesse que perecer para toda a eternidade, tornando inútil, pelas suas ofensas, o amor do seu Salvador, que angústia imensa era a Sua dor, pois que não era só uma alma, um número incalculável delas que haviam de perder-se!...

Ah! Jesus sofria, sobre a Cruz, uma outra crucifixão invisível, e muito mais angustiosa do que aquela que aparecia aos algozes e aos espectadores; era a crucifixão de um coração saciado de sofrimento ao pensar na multidão inumerável dos que se separariam dEle, que deixariam de ser Seus membros e que se perderiam irrevogavelmente.

Também neste cálice Maria teve o Seu importante quinhão. E se, neste momento, Ela discerniu o que este pensamento Lhe fazia sofrer por causa do Seu imenso amor a Jesus, e por via de conseqüência, por causa do Seu imenso amor às almas, Ela viu então dois abismos separados e hediondos, nos quais Ela devia entrar voluntariamente, apesar do horror que deles A afastava.

E nesta multidão de pecados, cujo peso torturava a alma virginal de Maria, estavam os nossos próprios pecados. A Virgem os distinguiu, e o Seu olhar cheio de lágrimas elevou-se ao céu, para implorar-nos o perdão e a misericórdia.

Quando, enfim, amaremos nós aquela que nos amou tanto, e que, para provar-nos o Seu amor, submeteu-Se a angustiosas torturas e a suplícios intensos!

Digamos-Lhe, portanto, com a Igreja: "Ó Mãe, ó fonte de amor, fazei que eu sinta a Vossa dor, e que eu chore conVosco".

"Eia Mater, fons amoris,
Me sentire vim doloris
Fac ut tecum lugeam!"

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria, continua com o post: Caracteres das dores de Maria)

PS: Grifos meus.

Sermão do Nascimento da Virgem Maria

Sermão do Nascimento da Virgem Maria
(Padre Antônio Vieira)


Debaixo da invocação de N. Senhora da Luz, título da Igreja do colégio da Companhia de Jesus, na cidade de S. Luís do Maranhão. Ano de 1657.

Por que no dia do nascimento da Virgem nos propõe a Igreja o Evangelho do nascimento de Cristo? O sol nasce duas vêzes; quando aparece a luz e quando aparece o astro. Desse modo é que se deve interpretar o que dizem os evangelistas e o Gênesis. Quem é o sol duas vêzes nascido? É Cristo, que nasceu quando nasceu Maria em Nazaré, e quando êle próprio nasceu em Belém.

Celebramos hoje o nascimento; mas que nascimento celebramos? Se o perguntarmos à Igreja, responde que o nascimento de Maria; se consultarmos o Evangelho, lemos nele o nascimento de Jesus: De qua natus est Jesus. Assim temos encontrados nas mesmas palavras que propus, o texto com o mistério, o tema com o sermão, e um nascimento com outro. Se a Igreja celebrara neste dia o nascimento glorioso de Cristo, muito acomodado Evangelho nos mandava ler; mas o dia e o nascimento que festejamos não é o do Filho, é o da Mãe.

Pois se ainda hoje nasce a Mãe, como nos mostra já a Igreja e o Evangelho não a mãe, senão o Filho nascido: De qua natus est Jesus? Só no dia de Nossa Senhora da Luz se pudera responder cabalmente a esta dúvida. O sol, se bem advertirdes, tem dois nascimentos: um nascimento com que nasce quando nasce, e outro nascimento com que nasce antes de nascer. Aquela primeira luz da manhã que apaga ou acende as sombras da noite, cuja luz é? É luz do sol. E esse sol então está já nascido? Não e sim. Não, porque ainda não está nascido em si mesmo. Sim, porque já está nascido na sua luz. De sorte que naturalmente vêem os nossos olhos ao sol duas vêzes nascido: nascido quando nasce, e nascido antes de nascer.

Grande prova temos desta filosofia na mesma história evangélica, e é um dos mais aparentes encontros que se acham em toda ela. Partiram as Marias ao sepulcro na manhã do terceiro dia, e referindo o evangelista S. Marcos a hora a que chegaram, diz assim: Valde mane uma subbatorum veniunt ad monumentum orto jam sole: Ao domingo muito de madrugada chegaram ao sepulcro sendo já o sol nascido. Notável dizer! Se era já o sol nascido: Orto jam sole, como será muito de madrugada: Valde mane? E se era muito de madrugada: Valde mane, como era muito de madrugada: Orto jam sole? Tudo era e tudo podia ser, diz S. Agostinho, porque era o sol nascido antes de nascer. Ora deve. O tempo em que vieram as Marias ao sepulcro era muito de madrugada: Valde mane, diz S. Marcos; Valde diluculo, diz. S. Lucas.

Era muito de madrugada: Valde mane? Logo já havia alguma luz que isso quer dizer diluculo. Havia luz? Logo, já o sol estava nascido: Orto jam sole. Provo a conseqüência, porque o sol, como dizíamos, tem dois nascimentos: um nascimento quando vem arraiando aquela primeira luz da manhã a que chamamos aurora; outro nascimento quando o sol descobre, ou acaba de desaparecer em si mesmo. E como o sol não só nasce quando nasce em si mesmo, senão também quando nasce na sua luz, por isso disse o evangelista com tôda a verdade, que era de madrugada e que era sol nascido.

Nenhuma destas palavras é minha: todas são da glosa de Lirano seguindo a S. Agostinho: Valde mane, orto jam sole: Sol enim potest oriri dupliciter: uno modo perfecte, quando primo, egreditur et apparet super terram; alio modo, quando lux ejus incipit apparere, scilicet in aurora, et sic accipitura hic ortus solis. Não o podia dizer mais em português. De maneira que àquela primeira luz com que se rompem as trevas da noite, chamou S. Marcos nascimento do sol, porque em todo o rigor da verdade evangélica, não só nasce o sol quando nasce em si mesmo, senão quando nasce na sua luz. Um nascimento do sol é quando nasce em si mesmo e aparece sobre a terra: Quando primo egreditur et apparet super terram: o outro nascimento é antes de nascer em si mesmo, quando nasce e aparece a sua luz: Quando luxe jus incipit apparere.

É o que estamos vendo neste dia, e o que nos está pregando a Igreja neste Evangelho. O dia mostra-nos nascida a luz, o Evangelho mostra-nos nascido o sol, e tudo é. Não é o dia em que o sol apareceu nascido sobre a terra: Quando primo egreditur et apparet super terram, mas é o dia em que aparece nascido na luz da sua aurora: Quando luxe jus incipit apparere scilicet in aurora: por quê?

Porque o sol pode nascer de duplo modo: de modo perfeito, quando nasce e aparece sobre a terra, e de outro modo, quando sua luz começa a aparecer com a aurora, e neste sentido é aqui tomado o nascimento do sol. Se o sol não está ainda nascido em si mesmo, já está nascido na luz de que há de nascer: De qua natus est Jesus.

Estava dito. Mas por que parecerá novidade dar dois nascimentos e dois dias de nascimento a Cristo, saibam os curiosos que não é novidade nova senão mui antiga, e uma das mais bem retratadas verdades que o Criador do mundo nos pintou no princípio dele. No primeiro dia do mundo criou Deus a luz, no quarto dia criou o sol. Sobre estes dois dias e estas duas criações há grande batalha entre os doutores, porque se o sol é a fonte da luz, que luz é esta que foi criada antes do sol? Ou é a mesma luz do sol, ou é outra luz diferente? Se é a mesma, por que não foi criada no mesmo dia?

E se é diferente, que luz é, ou que luz pode haver diferente da luz do sol? Santo Tomás, e com ele o sentir mais comum dos teólogos, resolve que a luz que Deus criou o primeiro dia, foi a mesma luz de que formou o sol ao dia quarto. De modo que em ambos estes dias e em ambas estas criações foi criado o sol. No primeiro dia foi criado o sol informe; no quarto dia foi criado o sol formado. São os termos de que usa Santo Tomás. No primeiro dia foi criado o sol informe, porque foi criado em forma de luz; no quarto dia foi criado o sol formado, porque foi criado em forma de sol. Em conclusão, que entre todas as criaturas só o sol teve dois dias de nascimento: o primeiro dia e o quarto dia. O quarto dia em que nasceu em si mesmo, e o primeiro em que nasceu na sua luz. O quarto dia em que nasceu sol formado, e o primeiro em que nasceu na luz de que se formou. Pode haver propriedade mais própria? Agora pergunto eu, se alguém me não entendeu ainda: quem é êste sol duas vêzes nascido?

E quem é esta luz de que se formou este sol? O sol é Jesus, a luz é Maria, diz Alberto Magno. E não era necessário que ele o dissesse. Assim como o sol nasceu duas vêzes, e teve dois dias de nascimento; assim como o sol nasceu uma vez quando nascido e outra antes de nascer; assim como o sol uma vez nasceu em si mesmo, e outra na sua luz; assim, nem mais nem menos, o sol Divino, Cristo, nasceu duas vezes e teve dois dias de nascimento. Um dia em que nasceu em Belém, outro que nasceu em Nazaré. Um dia em que nasceu quando nascido, que foi em vinte e cinco de dezembro, e outro dia em que nasceu antes de nascer, que foi neste venturoso dia. Um dia em que nasceu de sua Mãe, outro dia em que nasceu com ela. Um dia em que nasceu em si mesmo, outro dia em que nasceu naquela de quem nasceu: De qua natus est Jesus.

Temos introduzido e concordado o Evangelho, que não é a menor dificuldade deste dia. Para satisfazermos à segunda obrigação, que não é senão a primeira, peçamos à Senhora da Luz nos comunique um raio da sua. Ave Maria.

II - Razões por que devemos festejar este dia antes por nascimento da luz que por nascimento do sol. Cristo sol de justiça, e a Senhora da Luz, Mãe de misericórdia.

De qua natus est Jesus. Suposto que temos neste natus do Evangelho dois nascidos, e nesse nascimento dois nascimentos: o nascimento da luz, Maria, nascida em si mesma, e o nascimento do sol, Cristo, nascido na sua luz, qual destes nascimentos faz mais alegre este dia? E por qual deles o devemos mais festejar? Por dia do nascimento da luz, ou por dia do nascimento do sol? Com licença do mesmo sol, ou com lisonja sua, digo que por dia do nascimento da luz. E por quê? Não por uma razão, nem por duas, senão por muitas. Só quatro apontarei, porque desejo ser breve. Primeira razão: porque a luz é mais privilegiada que o sol. Segunda: porque é mais benigna. Terceira: porque é mais universal. Quarta: porque é mais apressada para nosso bem. Por todos estes títulos é mais para festejar este dia por dia do nascimento da luz, que por dia, ou por véspera, do nascimento do sol.

Mas porque este sol e esta luz, entre os quais havemos de fazer a comparação parecem extremos incomparáveis, como verdadeiramente é incomparável Cristo sobre todas as puras criaturas, entrando também neste número sua mesma mãe, antes que eu comece a me desempenhar deste grande assunto, ou a empenhar-me nele, declaro que em tudo o que disse, procede a comparação entre Cristo como Sol de justiça, e a Senhora da luz, como Mãe de misericórdia, e que assim como os efeitos da luz se referem à primeira fonte dela, que é o sol, assim todos os que obra a Senhora em nosso favor, são nascidos e derivados do mesmo Cristo, cuja bondade e providência ordenou que todos passassem e se nos comunicassem por mão de sua Mãe, como advogada e medianeira nossa, e dispensadora universal de suas graças. Assim o supõe com S. Bernardo a mais pia e bem recebida teologia: Nihil Deus nos habere volui, quod per manus Mariae nos tranisset. Isto pôsto: É vontade de Deus que nada tenhamos senão pelas mãos de Maria.

III- Primeira razão: a luz é mais privilegiada que o sol. A luz, e não o sol, é a chave que abre as portas do dia. O dia é filho da luz e não do sol. O papel importante da luz na criação do mundo. O nascimento da Virgem e a criação da luz.

Começando pelo primeiro título, de ser a luz mais privilegiada, digo que é mais privilegiada a luz que o sol, porque o dia, que é a vida e a formosura do mundo, não o faz o nascimento do sol, senão o nascimento da luz. É advertência de Santo Ambrósio, e advertência que quis o grande doutor que soubéssemos que era sua: Advertimus quod lucis ortus, antequam solis, diem videatur aperire. Tenho advertido, diz Santo Ambrósio, que o que primeiro abre e faz o dia, é o nascimento da luz, e não o do sol. Está esta grande máquina e variedade do universo coberta de trevas, está o mundo todo fechado no cárcere da noite, e qual é a chave que abre as portas ao dia? O sol?

Não, senão a luz, porque ao aparecer do sol, já o mundo está patente e descoberto: Diem sol clarificat, lux facit: O sol faz o dia mais claro, mas a luz é a que faz o dia. E se não, vêde, diz o santo: Frequenter coelum nubibustexitur, ut sol tegatur, nec ullus radius ejus appareat; lux tamem diem demonstrat: Quantas vezes acontece forrar-se o céu de nuvens espêssas, com que não aparece o sol, nem o menor de seus raios, e contudo, ainda que não vemos o sol, vemos o dia. Por quê? Porque no-lo mostra a luz. Bem se segue logo que o dia, tão necessário e tão proveitoso ao mundo, é filho da luz, e não filho do sol.
Parece que tem alguma coisa de sofístico este discurso de Santo Ambrósio, porque sendo a luz efeito do sol, quem faz a luz faz o dia. Assim parece, mas não é assim. E quero dar uma prova valente a uma razão que parece fraca. Noutras ocasiões declaramos a Escritura com o santo; agora declararemos o santo com a Escritura. Diz o Santo Ambrósio que o dia é filho da luz, e não do sol. Provo e pergunto:

O sol, em que dia o criou Deus? Diz a Sagrada Escritura que criou Deus o sol ao dia quarto: Luminare majus, ut praesset diei; et factum est dies quartus. Deus criou o sol ao dia quarto? Logo, antes de haver sol já havia dias. Antes de haver sol já havia dias? Logo o dia não é filho do sol. Pois de quem é filho? É filho da luz. O mesmo texto sagrado: In principio creavit Deus caelum et terram: No princípio, antes de haver nem dia nem noite, nem tempo, criou Deus o céu e a terra. Et tenebrae erant super faciem abyssi: E o mundo tôdo estava sepultado em um abismo de trevas. Dixitque Deus, fiat lux, et facta est lux: Disse Deus, faça-se a luz, e foi feita a luz. Appellavitque lucem diem, et tenebras noctem: et factus est dies unus: E chamou Deus à luz dia, e às trevas noite, deste modo se fez o primeiro dia que houve no mundo. De maneira, como bem dizia Santo Ambrósio, que o dia é filho da luz e não do sol; ao nascimento da luz e não ao do sol deve o mundo o benefício do dia.

O tempo ditosíssimo da lei da graça em que estamos é o dia do mundo; o tempo da lei da natureza e da lei escrita, que já passou, foi a noite. Assim o diz S. Paulo: Nox praecessit, dies autem appropinquavi. E quem foi a aurora que amanheceu ao mundo este dia tão alegre, tão salutífero e tão vital, senão aquela luz divina? O sol fez o dia mais claro, mas a luz, a que rompeu as trevas, a luz foi a que venceu e despojou a noite, a luz foi a que fez o dia: Diem sol clarificat, lux facit. Grande privilégio da luz sobre o sol, que ela e não ele, ou ao menos, que ela primeiro que ele, seja a aurora do dia.

Mas eu, sem sair do passo, ainda hei de dizer outro privilégio maior da mesma luz. Criou Deus a luz três dias antes de criar o sol. Tanto que houve sol no mundo, logo que houve também olhos que o vissem e que gozassem de seus resplendores, porque o sol foi criado ao quarto dia, e as aves e os peixes ao quinto; os animais da terra e os homens ao sexto. De sorte que, como notou S. Basílio, todos os dias em que a luz estêve criada antes da criação do sol, não havia olhos no mundo. Pois se não havia olhos no mundo, para que criou Deus a luz? Que crie Deus o sol no quarto dia, bem está; porque no quinto e no sexto dia havia de criar os olhos d todos os viventes; mas se no segundo, no terceiro e no quarto dia não houve nem havia de haver olhos no mundo, por que cria Deus a luz no primeiro? Porque o sol criou-o Deus para os olhos dos homens e dos animais; a luz criou-a Deus para os seus olhos. E assim foi. Fiat luz; et facta, et vidit Deus lucem quod esset bona: Disse Deus: Faça-se a luz, e fez-se a luz; e no mesmo ponto que nasceu e apareceu, logo foi o emprêgo e suspensão dos olhos de Deus: Vidit Deus lucem. Digo emprêgo e suspensão porque quando Deus criou a luz, já estava criado o céu, a terra, os elementos, os anjos e nada disto levou após si os olhos de Deus, senão a luz. Ela encheu os olhos de Deus de maneira que sendo os olhos de Deus imensos, parece que não deixou neles lugar para os por noutra coisa. Assim era a luz criada para os olhos de Deus, como o sol para os dos homens e animais.

Não cuideis que digo injúrias do Sol Encarnado, que assim quis Ele que fosse. Aparece no mundo o Sol Encarnado, Cristo, e que olhos o viram nascido? Olhos dos homens e dos animais. Para o verem nascido olhos de animais, Ele mesmo foi buscar os animais a um presépio, e para o verem nascido olhos de homens, Ele os mandou buscar por uma estrela entre os reis, e por um anjo entre os pastores. Os homens, pelo pecado, estavam convertidos em animais: Homo, cum in honoré esset non inteleexit; comparatus est jumentis. Por isso se mostra o sol nascido aos olhos dos homens e dos animais porque nascia para fazer de animais homens. Porém a luz, como nascia para Mãe de Deus, ocultava-se a todos os olhos criados, e só nasce manifesta aos divinos: Vidit Deus lucem. Os olhos de Deus foram os que festejaram o nascimento desta soberana luz, e festejaram-na aqueles.

O homem, quando estava na honra, não o entendeu; foi comparado aos brutos irracionais três dias em que não houve sol, nem outros olhos, porque tomou cada pessoa da Santíssima Trindade um dia da festa por sua conta: Ipse est enim lux, quase primum distinxit dierum nostrorum trinitatem, disse S. Dionísio Aeropagita. Os olhos do Padre festejaram o nascimento da luz o primeiro dia: Et vidit Deus lucem, quod esset bona: E viu Deus Padre que a luz era boa para Filha.

Os olhos do Filho festejaram o nascimento da luz o segundo dia: Et vidit Deus lucem, quod esset bona; E viu Deus Filho que a luz era boa para Mãe. Os olhos do Espírito Santo festejaram o nascimento da luz o terceiro dia: Et vidit Deus lucem, quod esset bona: E viu Deus Espírito Santo que a luz era boa para Esposa. Assim festejou tôda a Santíssima Trindade o nascimento daquela soberana luz, e assim o devemos festejar nós. Ponde os olhos, cristãos, naquela luz, e pedi-lhe que os ponha em vós e vereis como é boa para tudo: Vidit lucem, quod esset bona. Boa para a consolação, se estiveres afligido; boa para o remédio, se estiveres necessitado; boa para a saúde, se estiveres enfêrmo; boa para a vitória, se estiveres tentado; e se estiveres caído e fora da graça de Deus, boa, e só ela boa, para vos conciliar com Ele. Tão cheia de privilégios de Deus nasce hoje esta luz de quem Ele há de nasccer! De qua natus est Jesus.

IV- Segunda razão: a luz é mais benigna que o Sol. O sol e nuvem guiava os filhos de Israel pelo deserto. Os rigores do sol da justiça e as benignidades da luz. O nascimento de Maria é a passagem do sol do signo de Leão para o signo da Virgem. Maria é a sarça ardente do deserto. S. João, o novo signo celeste é a humanização do sol.

O segundo título por que se deve mais festejar o dia deste nascimento é por ser a luz mais benigna. É a luz mais benigna que o sol, porque o sol alumia, mas abrasa; a luz alumia e não ofende. Querei ver a diferença da luz ao sol? Olhai para o mesmo sol e para mesma luz de que nasce, a aurora. A aurora é o riso do céu, a alegria dos campos, a respiração das flores, a harmonia das aves, a vida e o alento do mundo. Começa a sair e a crescer o sol, eis o gesto agradável do mundo e a mesma composição da mesma natureza mudada. O céus acende-se, os campos secam-se, as flores murcham-se, as aves emudecem, os animais buscam covas, os homens as sombras. E se Deus não cortara a carreira ao sol, com a interposição da noite, fervera e abrasara-se a terra, arderam as plantas, secaram-se os rios, sumiram-se as fontes, e foram verdadeiros e não fabulosos os incêndios de Faetonte.

A razão natural desta diferença é porque o sol, como dizem os filósofos, ou verdadeiramente é fogo, ou de natureza mui semelhante ao fogo, elemento terrível, bravo, indômito, abrasador, executivo, e consumidor de tudo. Pelo contrário, a luz em sua pureza, é uma qualidade branda, suave, amiga, enfim, criada para companheira e instrumento da vista, sem ofensa dos olhos, que são em toda a organização do corpo humano a parte mais humana, mais delicada e mais mimosa. Filósofos houve que pela sutileza e facilidade da luz, chegaram a cuidar que era espírito e não corpo.

Mas porque a filosofia humana ainda não tem alcançado perfeitamente a diferença da luz ao sol, valhamo-nos da ciência dos anjos. Aquele anjo visível que guiava os filhos de Israel pelo deserto, diz o texto, que marchava com duas colunas de prodigiosa grandeza, uma de nuvem de dia, outra de fogo de noite: Per diem in columna nubis, per noctem in columna ignis. E por que e para que levava o anjo estas duas colunas de nuvem e fogo? A de nuvem, para reparo do sol, e a de fogo para continuação da luz. Tanto que anoitecia, acendia o anjo a coluna de fogo sobre os arraiais, para que tivessem sempre luz. E tanto que amanhecia, atravessava o anjo a coluna de nuvem, para que ficassem reparados e defendidos do sol. De maneira que tôdo o cuidado do anjo sobre os seus encomendados consistia em dois pontos: o primeiro, que nunca lhes tocasse o sol; o segundo, que nunca lhes faltasse a luz. Tão benignas qualidades reconhecia o anjo na luz, e tão rigorosas no sol.

Estas são as propriedades rigorosas e benignas do sol e da luz natural. E as mesmas, se bem o considerarmos, acharemos no Sol e na Luz divina. Cristo é sol, mas sol de justiça, como lhe chamou o profeta: Sol justitiae. E que muito que no sol haja raios e na justiça rigores? Todos os rigores que tem obrado no mundo o sol natural, tantas secas, tantas esterilidades, tantas sedes, tantas fomes, tantas doenças, tantas pestes, tantas mortandades, tudo foram execuções do sol de justiça, o qual as fez ainda maiores.

O sol material nunca queimou cidades, e o sol de justiça queimou e abrasou em um dia as cinco cidades de Pentápolis inteiras, sem deixar homem à vida, nem dos mesmos edifícios e pedras mais que as cinzas. Tais são os rigores daquele sol divino. Mas a benignidade da luz que hoje nasce, e de que ele nasceu, como a poderei eu explicar? Muitas e grandes coisas pudera dizer desta soberana benignidade, mas direi só uma que vale por todas. É tão benigna aquela divina luz, que sendo tão rigorosos e tão terrível os raios do divino sol, ela só basta para os abrandar e fazer também benignos.

Por que vos parece que nasce a Virgem Maria em tal dia como hoje? Se o dia do nascimento de Cristo foi misteriosos, e misterioso o dia do nascimento do Batista, por ser o precursor de Cristo, quanto mais o dia da Mãe de Cristo? Pois que mistério tem nascer a Senhora neste dia? Muito grande mistério. O mistério do dia do nascimento de Cristo, como notou Santo Agostinho, foi porque naquele tempo volta o sol para nós, e começam os dias a crescer. O mistério do dia do nascimento do Batista foi porque naquele tempo se aparta o sol de nós, e começam os dias a diminuir. E o mistério do nascimento da Senhora é porque neste tempo passa o sol do signo de Leão para o signo da Virgem, e começa o mesmo sol a abrandar. O caminho do sol é pelos doze signos celestes, em que tem diferentes efeitos, conforme a constelação e qualidades de cada um.

Quando o sol anda no signo de Leão, como se tomara a natureza daquele animal colérico e assanhado, tais são os seus efeitos: calores, securas, enfermidades malignas, tresvarios, sangue, mortes. Porém tanto que o sol passa do signo de Leão ao signo de Virgem, já o Leão começa a abrandar, já vai manso, já vai pacifico, já vai cordeiro. O mesmo sucedeu aos rigores do nosso sol. Lede o Testamento Velho, e achareis que Deus antigamente afogava exércitos, queimava cidades, alagava mundos, despovoava paraísos. E hoje, sendo os pecados dignos de maior castigo pela circunstância do tempo, da fé e dos benefícios, não se vêem em Deus semelhantes rigores. Pois por que, se Deus é o mesmo, e a sua justiça a mesma? Porque então estava o sol no signo do Leão; agora está no signo de Virgem.

Como o sol entrou no signo de Virgem, logo aquela benigna luz lhe amansou os rigores, lhe embargou as execuções, e lhe temperou de tal maneira os raios, que ao mesmo fogo abrasador de que eram compostos, lhe tirou as atividades com que queimava e só lhe deixou os resplendores com que luzia. Grande caso, mas provado!

Vê Moisés no deserto uma sarça que ardia em fogo, e não se queimava. Pasma da visão, parte a vê-la de mais perto, e quanto mais caminha e vê, tanto mais pasma. Se fogo, o que estou vendo, não há dúvida; aquela luz intensa, aquelas chamas vivas, aquelas labaredas ardentes, de fogo são; mas a sarça não se consome, a sarça está inteira, a sarça está verde. Que maravilha é esta? Grande maravilha para quem não conhecia o fogo nem a sarça, mas para quem sabe que o fogo era Deus, e a sarça Maria, ainda era maravilha maior, ou não era maravilha. O fogo era Deus que vinha libertar o povo. Assim diz o texto. A sarça era Maria, em quem Deus tomou forma visível, quando veio libertar o gênero humano. Assim o diz S. Jerônimo, Santo Atanásio, S. Basílio, e a mesma Igreja.

Como o fogo estava na sarça, como Deus estava em Maria, já o seu fogo não tinha atividades para queimar. Luzir sim, resplender sim, que são efeitos da luz; mas queimar, abrasar, consumir, que são efeitos de fogo, isso não, que já lhos tirou Maria. Já Maria despontou os raios do sol; por isso luzem, e não ferem, ardem e não queimam, resplandecem e não abrasam. Parece-vos maravilha que assim abrandasse aquela benigna luz os rigores do sol? Parece-vos grande maravilha que assim lhe apagasse o fogoso e o abrasado, e lhe deixasse só o resplandecente e luminoso? Pois ainda fez mais. Não só abrandou, ou apagou no sol os rigores do fogo, senão também os rigores da luz.

O sol não é só rigoroso e terrível no fogo com que abrasa, senão também na luz com que alumia. Em aparecendo no Oriente os primeiros raios de sol, como se foram archeiros da guarda do grande rei dos planetas, vereis como vão diante fazendo praça, e como em um momento alimpam o campo do céu, sem guardar respeito nem perdoar a coisa luzente. O vulgo das estrelas, que andavam como espalhadas na confiança da noite, as pequeninas somem-se, as maiores retiram-se, todas fogem, todas se escondem, sem haver nenhuma, por maior luzeiro que seja, que se atreva a parar nem a aparecer diante do sol descoberto. Vedes esta majestade severa? Vedes este rigor da luz do sol, com que nada lhe pára, com que tudo escurece em sua presença?

Ora, deixai-o vir ao signo de Virgem, e vereis como essa mesma luz fica benigna e tratável. Viu S. João no Apocalipse um novo signo celeste: Signum magnum apparuit in caelo. Era uma mulher vestida do sol, calçada da lua e coroada de estrelas: Mulier amicta sole, luna sub pedibus ejus, et in capite ejus corona stellarum duodecim. Não reparo no sol e na lua; no sol e nas estrelas reparo. Calçada da lua, e vestida de sol, bem pode ser, porque diante do sol também aparece a lua. Mas vestida de sol, e coroada de estrelas? Sol e estrelas juntamente?

Não é possível, como acabamos de ver. Pois se na presença do sol fogem e desaparecem as estrelas, e o sol estava presente, e tão presente no vestido da mesma mulher, como apareciam nem podiam aparecem as estrelas da coroa? Aí vereis quão mudado está o sol depois que vestiu uma mulher, ou depois que uma mulher o vestiu a ele! Este signo em que o sol apareceu a S. João, era o signo de Virgem: Signum magnum apparui in caelo: Mulier amicta sole. E depois que o sol entrou no signo de Virgem, depois que o sol se humanou nas entranhas da Virgem Maria, logo os seus raios não foram temerosos, logo a sua majestade não foi terrível, logo a grandeza de soberania da sua mesma luz foi tão benigna que já não fogem nem se escondem dela as estrela, antes lhes consente que possam luzir e brilhar em sua presença. Assim amansou aquela luz divina o sol, noutro tempo tão severo, assim humanou a intolerável grandeza de sua luz, assim temperou e quebrou a força de seus raios.

Para que vejamos quanto se deve alegrar neste dia, e quando deve festejar o nascimento desta benigna luz o gênero humano todo, e mais aquêles que mais tem ofendido o Sol. Quantas vezes havia de ter o Sol de justiça abrasado o mundo? Quantas havia de ter fulminado com os seus raios as rebeldias de nossas ingratidões, e as abominações de nossos vícios, se não fora pela benignidade daquela luz? Para isso nasceu e para isso nasce hoje: para o fazer humano antes de nascer, e para lhe atar as mãos e os braços depois de nascido: De qua natus est Jesus.

V- Terceira razão; a luz é mais universal; o sol é limitado no tempo e no lugar. Diversidades entre o sol material e o sol de justiça. O sol de justiça e as trevas do Egito. O Papa Inocêncio II e a comparação do Cântico dos Cânticos.

O terceiro título, por que se deve mais festejar o dia deste nascimento, é por ser a luz mais universal. É a luz mais universal que o sol porque o sol nunca alumia mais que meio mundo e meio tempo; a luz alumia em todo o tempo e a todo o mundo. O sol nunca alumia mais que meio mundo, porque quando amanhece para nós, anoitece para nossos antípodas, e quando amanhece para nossos antípodas, anoitece para nós. E nunca alumia mais que meio tempo, porque das vinte e quatro horas do dia natural as doze assiste em um hemisfério, as doze no outro. Não assim a luz. A luz não tem limitação de tempo nem de lugar: sempre alumia, e sempre em toda parte, e sempre a todos.

Onde está o sol, alumia com o sol, onde está a lua, alumia com a lua, onde não há nem sol nem lua, alumia com as estrela, mas sempre alumia. De sorte que não há parte no mundo, nem movimento de tempo, ou seja dia ou seja noite, em que, maior ou menor, não haja sempre luz. Tal foi a disposição de Deus no princípio do mundo. Ao sol limitou-lhe Deus a jurisdição no tempo e no lugar; à luz não lhe deu jurisdição limitada, senão absoluta para todo o lugar e para todo o tempo. Ao sol limitou-lhe Deus tempo, porque mandou que alumiasse o dia: Luminare majus ut pracesste diei; e limitou-lhe lugar, porque só quis que andasse dentro dos trópicos de Câncer e Capricórnio, e que dêles não saísse. Porém à luz, não lhe limitou tempo, porque mandou que alumiasse de dia por meio do sol, e de noite por meio da lua e das estrelas: Luminare majus praesset diei; luminare minus ut praesset nocti, et stellas. E não lhe pos limitação de lugar, porque quis que alumiasse não só dentro dos trópicos, senão fora deles, como faz a luz, que dentro dos trópicos alumia por meio do sol e da lua, e fora dos trópicos por meio das estrela, para que por este modo, de dia e de noite, no claro e no escuro, na presença e na ausência do sol, sempre houvesse luz como há.

Esta mesma diferença se acha na verdadeira luz e no verdadeiro sol, Cristo e sua mãe. Cristo é sol do mundo, mas sol que tem certo hemisfério, sol que tem seus antípodas, sol que quando nasce, nasce para alguns e não para todos. Assim o disse Deus por boca do profeta Malaquias: Orietur vobis timentibus nomem meum sol justitiae: Nascerá o sol de justiça para vós, os que temeis o meu nome. Fala o profeta não da graça da redenção, ou suficiente, que é universal para todos, senão da santificante e eficaz, de que muitos, por sua culpa, são excluídos, e por isso diz que o sol de justiça não nasce para todos, senão só para aqueles que o temem. Todo este mundo, tomado nesta consideração, se divide em dois hemisférios: um hemisfério dos que temem a Deus, outro hemisfério dos que o não temem.

No hemisfério dos que temem a Deus, só nasce o sol da justiça, e só para eles há dia; só eles são alumiados. No hemisfério dos que não temem a Deus, nunca jamais amanhece o sol; sempre há perpétua noite, todos estão em trevas e às escuras. Neste sentido chamou o profeta a este sol, sol de justiça: Sol justitiae. O sol material, se bem se considera, é sol sem justiça, porque trata a todos pela mesma foram, e tanto amanhece para os bons como para os maus: Qui solem suum oriri facit super bonos et malos. É possível que tanto sol há de haver para o bom, como para o mau? Para o cristão, como para o infiel? Para o que adora a Deus, como para o que adora o ídolo? Tanto há de amanhecer o sol para o diligente, como para o preguiçoso? Tanto para o que abre a janela, como para o que lha fecha? Tanto para o lavrador que o espera, como para o ladrão que o aborrece? Notável injustiça do sol matéria! Não assim o Sol da Justiça. É sol da Justiça porque trata a cada um conforme o que merece. Só para os bons amanhece, e para os maus esconde-se; só alumia aos que o temem, e aos que o não temem sempre os tem às escuras.

Parece coisa dificultosa que no mesmo hemisfério, na mesma cidade, e talvez na mesma casa estejam uns alumiados e outros à escuras; mas assim passa, e já isto se viu com os olhos no mundo algum dia. Uma das pragas do Egito foram as trevas. E descrevendo- as, o texto diz assim: Factae sunt tenebrae horribiles in universa terra Aegypti. Nemo vidit fratrem saum, nec movit se de loco in quo erat; ubicumque autem habitabant filii Israel, lux era: Houve em toda a terra do Egito umas trevas tão horríveis, que nenhum egípcio via ao outro, e nenhum se podia mover do lugar onde estava; mas onde habitavam os hebreus, no mesmo tempo havia luz. Brava maravilha!

Em toda a terra do Egito havia umas casas que só eram habitadas de egípcios, outras que eram habitadas de hebreus e egípcios juntamente. Nas que eram habitadas de egípcios, todos estavam em trevas; nas que eram habitadas de hebreus, todos estavam em luz; nas que eram habitadas de hebreus e egípcios juntamente, os hebreus estavam alumiados, e os egípcios às escuras. Isto que fez no Egito a vara de Moisés, faz em todo mundo a vara do Sol de Justiça. Muitas casas há no mundo em que todos são pecadores; algumas casas haverá em que todos sejam justos; outras já, e é o mais ordinário, em que uns são justos e outros pecadores. E com toda esta diversidade de casas e de homens, executa a vara do Sol de Justiça o que a de Moisés do Egito. Na casa onde todos são justos, todos estão em luz; na casa onde todos são pecadores, todos estão em trevas; na casa onde há pecadores e justos, os justos estão alumiados e os pecadores às escuras. De sorte que o Sol de Justiça, nesta consideração em que falamos, é sol tão particular e tão parcial, que não só no mundo tem diferentes hemisférios, mas até na mesma casa tem antípodas.

Não assim aquela luz que hoje nasce, que para todos e para todo o tempo, e para todo lugar é sempre luz. Viram os anjos nascer hoje aquela formosa luz, e admirados de sua beleza disseram assim: Quae est ista quae progreditur quasi aurora consurgens, pulchra ut lua, electa ut sol? Quem é esta que nasce e aparece no mundo, diligente como a aurora, formosa como a lua, escolhida com o sol? À aurora, à lua e ao sol comparam os anjos esta Senhora, e parece que dizem menos em três comparações do que diriam em uma. Se disseram só que era semelhante ao sol, diriam mais, porque de sol à lua é minguar, de sol à aurora é descer. Pois por que razão, que não podia ser sem grande razão, uns espíritos tão bem entendidos como os anjos, ajustam umas semelhanças tão desiguais, e comparam a Senhora quando nasce à aurora, à lua e ao sol juntamente? Deu no mistério advertidamente o Papa Inocêncio III.

Comparam os anjos a Maria quando nasce, juntamente ao sol, à lua e à aurora, para mostrar que aquela Senhora é luz de todos os tempos. Todos os tempos ou são dia ou são noite, ou são aquela hora de luz duvidosa que há entre a noite e o dia. Ao dia alumia o sol, à noite alumia a lua, à hora entre noite e dia, alumia a aurora. Pois por isso chamam os anjos juntamente à Senhora aurora, lua e sol, para mostrarem que é luz que alumia em todos os tempos. Luz que alumia de dia, como sol; luz que alumia de noite, como lua; luz que alumia quando não é noite nem dia, como aurora. E que são ou que significam estes três tempos? Ouvi agora a Inocêncio: Luna lucet in nocte, aurora in diluculo, sol in die. Nox autem est culpa, diluculum poenitentia, dies gratia:

A lua alumia de noite, e a noite é a culpa; a aurora alumia de madrugada, e a madrugada é a penitência; o sol alumia de dia, e o dia é a graça. E para todos estes tempos, e para todos estes estados é Maria luz universal. Luz para os justos que estão em graça, luz para os pecadores que estão na culpa, e luz para os penitentes que querem passar da culpa à graça: Qui ergo jacet in nocte culpae, respiciat lunam, deprecetur Mariam; qui surgit ad diluculum poenitentiae, respiciat auroram, deprecetur Mariam; qui vivit in dia gratiae, respiciat solem, deprecetur Mariam: Pelo que, conclui exortando o grande pontífice, se sois pecador, se estais na noite do pecado, olhai para lua, fazeis oração a Maria para que vos alumie e vos tire da noite do pecado, para a madrugada da penitência.

Se sois penitente, estais na madrugada do arrependimento, ponde os olhos na aurora, fazei oração a Maria, para que vos alumie e vos passe da madrugada da penitência ao dia da graça. Se sois justo, se estais no dia da graça, ponde os olhos no sol, fazei oração a Maria, para que vos sustente e vos aumente nesse dia, porque disse dia ditoso não há para onde passar. Assim alumia aquela soberana luz universalmente a todos, sem exceção de tempo nem de estado, o Sol de justiça alumia só aos que o temem: Timentibus nomem meum; mas a Luz de misericórdia alumia aos que o temem, porque o temem, e aos que o não temem, para que o temam, e a todos alumia. O sol de justiça nasce só para os justos, mas a Luz de misericórdia nasce para os justos e mais para os pecadores. E por este modo é mais universal para todos a luz que hoje nasce, do que o mesmo sol que dela nasceu: De qua natus est Jesus.

VI- Quarta e última razão: a diligência de Maria. Em Cana, ainda não era chegada a hora de Jesus e já era chegada a hora de Maria. A presteza de Cristo e de Maria declaradas por Daví e S. João. Maria e o sacramento do batismo. A causa da perdição das cinco virgens néscias. Admoestação de Habacuc. Maria e a mãe de Jacó.

O quarto e último título por que se deve mais festejar este dia, é por ser a luz mais apressada para nosso bem. Ser mais apressada a luz que o sol, é verdade que vêem os olhos. Parte o sol do oriente e chega ao ocidente em doze horas. Aparece no oriente a luz, e em um instante fere o ocidente oposto, e se dilata e se estende por todos os horizontes, alumiando em um momento o mundo. O sol, como dizem os astrólogos, corre em cada hora trezentas e oitenta mil léguas. Grande correr! Mas toda esta pressa e ligeireza do sol, em comparação da luz, são vagares. O sol faz seu curso em horas, em dias, em anos, em séculos; a luz sempre em um instante.

O sol, no inverno, parece que anda mais tardo no amanhecer, e no verão mais diligente, mas nunca se levanta tão cedo o sol, que não madrugue a luz muito diante dele. Ó luz divina, como vos pareceis nesta diligência à luz natural! Foram convidados a umas bodas a luz e o sol: Cristo e Maria. Faltou no meio do convite aquele licor que noutra mesa, depois de o sol posto e antes de o sol se pôr, deu matéria a tão grandes mistérios. Quis a piedosa Mãe acudir à falta, falou ao Filho, mas respondeu o Senhor tão secamente como se negara sê-lo: Quid mihi et tibi est mulier? Nondum venit hora mea: Que há de mim para ti, mulher? Ainda não chegou a minha hora. Aqui reparo: esta hora não era de fazer bem? Não era de encobrir e acudir a uma falta? Não era de remediar uma necessidade?

Pois como responde Cristo que não era chegada a sua hora? Nondum venit hora mea. E se não era chegada a sua hora, como trata a Senhora do remédio? Era chegada a hora de Maria, e não era chegada a hora de Cristo? Sim, que Maria é luz, e Cristo é sol, e a hora do sol sempre vem depois da hora da luz: Nondum venit hora mea. Ainda não era vinda a hora do sol, e a hora da luz já tinha chegado. Por isso disse Cristo à sua mãe com grande energia: Qui mihi et tibi? Como se dissera: Reparai Senhora na diferença que há de mim a vós na meteria de socorrer aos homens, como agora quereis que faça. Vós os socorreis, e eu os socorro; vós lhes acudis, e eu lhes acudo; vós os remediais, eu os remedeio, mas vós primeiro, e eu depois; vós logo, e eu mais devagar; vós na vossa hora, que é antes da minha, e eu na minha, que é depois da vossa: Nondum venit hora mea. É aquela gloriosa diferença que Santo Anselmo se atreveu a dizer uma vez, e todos depois dele a repetiram tantas: Velocior nonnunquam salus memorato nomine Mariae quam invocato nomine Jesus: Que algumas vezes é mais apressado o remédio, nomeado o nome de Maria que invocado o de Jesus. Algumas vezes, disse o santo, e quisera eu que dissera sempre, ou quase sempre. Vêde se tenho razão.

Todos os caminhos de Cristo e os de Maria foram para remédio do homem; mas tenho eu notado que são mui diferentes as carroças que este Rei e Rainha do céu escolheram para correr à posta em nosso remédio. Cristo escolheu por carroça o sol, e Maria escolheu a lua. O primeiro viu-o Davi: In sole possuit tabernaculum suum. O segundo viu-o S. João: Et luna sub pedibus ejus. Cá nas cortes da terra vemos o rei e a rainha, quando saem, passearem juntos na mesma carroça; o Rei e a Rainha do céu, por que o não fariam assim? Por que razão não aparece a Rainha do céu na mesma carroça do sol, como seu Filho? Por que divide carroça e escolheu para si a da lua? Eu o direi.

A lua é muito mais ligeira que o sol em correr o mundo. O sol corre o mundo pelos signos do zodíaco em um ano; a lua em menos de trinta dias. O sol corre o mundo em um ano, uma só vez; a lua doze vezes, e ainda lhe sobejam dias e horas. E como as manchadas pias que rodam a carroça da lua são muito mais ligeiras que os cavalos fogosos que tiram pelo carro do sol, por isso Cristo aparece no carro do sol, e Maria no da lua. Não é consideração minha, senão verdade profética, confirmada com o testemunho de uma e outra visão, e com os efeitos de ambas. Tomou Cristo para si o carro do sol, e que se seguiu? Exultavit ut gigas ad currendam viam, diz Davi: Largou o sol as rédeas ao carro e correu Cristo com passos de gigante.

 Tomou Maria para si a carroça da lua, e que se seguiu? Datae sunt mulieri alae duae aquilae magnae, ut volaret, diz S. João: Estando com a lua debaixo dos pés, deram-se a Maria duas asas de água, para que voasse. — De sorte que Cristo no carro do sol corre com passos de gigante, e Maria na carroça da lua voa com asas de águia. E quanto vai das águias aos gigantes, e das asas aos pés, e do voar ao correr, tanto excede a ligeireza velocíssima com que nos socorre Maria à presteza, posto que grande, com que nos socorre Cristo. Não vos acode primeiro nas vossas causas o advogado que o juiz? Pois Cristo é o juiz, e Maria a advogada.

Mas não deixemos passar sem ponderação aquela advertência do evangelista: Aquilae magnae. Que as asas com que viu a Senhora, não só eram de águia, senão de águia grande. De maneira que Cristo, para correr em nosso remédio com passos mais que de homem, tomou pés de gigante: Exultavit ut gigas; e a Senhora, para correr em nosso remédio com passos mais que de gigante tomou asas de águia: Datae sunt mulieri alae duae aquilae. Mas essas asas não foram de qualquer águia, senão de águia grande: Aquilae magne, para que a competência ou a vantagem fosse de gigante a gigante.

Que coisa é uma águia grande, senão um gigante das aves? Cristo correndo como gigante, mas como gigante dos homens; a Senhora correndo como gigante, mas como gigante das aves. Cristo, como gigante com pés, a Senhora como gigante com asas. Cristo como gigante que corre, a Senhora como gigante que vôa. Cristo como gigante da terra, a Senhora como gigante do ar. Mas assim havia de ser para fazer a Senhora em nosso remédio os encarecimentos verdades. O maior encarecimento de acudir com a maior presteza, é acudir pelo ar. Assim o faz a piedosa Virgem. Cristo com passos de gigante acode aos homens a tôda a pressa, mas a Senhora com asas de águia acode-lhes pelo ar. Isto mesmo é ser luz, que pelo ar nos vem toda.

E para que de uma vez vejamos a diferença com que esta soberana luz é avantajada ao divino sol na diligência de acudir a nosso remédio, consideremo- los juntos e comparemo-los divididos. E o que acharemos? Coisa maravilhosa! Acharemos que quando o nosso remédio mais se apressa, é por diligência da luz, e quando alguma vez se dilata, é por tardanças do sol. Veste-se de carne o Verbo nas entranhas da Virgem Maria, e diz o evangelista, que logo, com muita pressa se partiu a Senhora com seu Filho, a livrar o menino Batista do pecado original: Exsurgens autem Maria abiit in montana cum festitatione.

Nasce enfim Cristo, cresce, vive, morre, ressuscita, e do mesmo dia da Encarnação a trinta e quatro anos institui o sacramento do Batismo: Baptizantes eos in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. O batismo já sabeis que é o remédio do pecado original, que foi o que Cristo principalmente veio remediar ao mundo, como restaurador das ruínas de Adão. Pois se Cristo veio ao mundo principalmente a remediar o pecado original, e depois dilata-se tanto tempo? Sim. Porque então estava Cristo dentro em sua Mãe: Exsurgens Maria; e agora estava fora, e apartado dela. E para remediar os males do gênero humano é mui diferentemente apressado Cristo em si mesmo, ou Cristo em sua Mãe. Cristo em sua Mãe, obra por ela, e ela como luz obra em instante; Cristo fora de sua Mãe, obra por si mesmo, e ele como sol obra em tempo, e em muito tempo. Vêde se mostra a experiência o que eu dizia, que quando o nosso remédio mais se apressa, é por diligências daquela divina luz, e da mesma maneira, quando se dilata, ou quando se perde, bem que por culpa nossa, é com tardanças do sol.

Das dez virgens do Evangelho, com desgraça não imaginada, perderam-se cinco, e posto que a causa de sua perdição foi a sua imprudência, a ocasião que teve essa causa foi a tardança dos desposados. Se os desposados não tardaram até a meia-noite, não se apagaram as lâmpadas, e se as lâmpadas se não apagaram, não ficaram excluídas as cinco virgens. Agora pergunto. E qual dos desposados foi o que tardou? O esposo nesta parábola é Cristo; a esposa é Maria. Qual foi logo dos dois o que tardou, se acaso não foram ambos? Foi o espôso ou a espôsa? Foi Cristo ou sua Mãe? Não é necessário que busquemos a resposta nos comentadores: o mesmo texto o diz: Moram autem faciente sponso, dormitaverunt omnes, et dormierunt. E como tardasse o espôso, adormeceram todas e dormiram.

De modo que o que tardou foi o espôso. É verdade que o espôso e a espôsa estavam juntos, mas o que tardou, ou o que foi casa da tardança, não foi a espôsa, senão o espôso: Moram autem faciente sponso. Atemos agora esta desgraça das virgens com a ventura do Batista. No Batista conseguiu-se o remédio por diligências: mas cujas foram as diligências? Estavam juntos Maria e Cristo, mas as diligências foram de Maria: Exsurgens Maria abiit in montana cum festitatione. Nas virgens perdeu-se o remédio, como sempre se perde, por tardanças; mas cujas foram as tardanças? Estavam juntos o espôso e a espôsa, mas a tardança foi do espôso: Moram autem faciente sponso. O divino espôso de nossas almas, é certo que nunca falta nem tarda; nós somos os que lhe faltamos e lhe tardamos. As suas diligências e as de sua Santíssima Mãe, todas nascem da mesma fonte, que é o excessivo amor de nosso remédio; mas é a Senhora por mais agradar e mais se conformar com o desejo do mesmo Cristo, tão solícita, tão cuidadosa, tão diligente em acudir, em socorrer, em remediar aos homens, que talvez, como aconteceu neste caso, as diligências de seu Filhos, comparadas com as suas, parecem tardanças.

Tudo é ser ele sol e ela luz. O sol nunca tarda, ainda quando sai mais tarde, porque quem vem a seu tempo não tarda. Assim o disse o profeta Habacuc falando à letra, não de outrem, senão do mesmo Cristo: Simoram fecerit, expecta illum, quia veniens veniet, et non tardabit: Se tarda, esperai por ele, porque virá sem dúvida, e não tardará. Como não tardará, se já tem tardado e ainda está tardando: Si moram fecerit, non tardabit? São tardanças de sol, que ainda quando parece que tarda, não tarda, porque vem quando deve vir. Mas esse mesmo sol que, regulado com suas obrigações, nunca tarda, comparado com as diligências da luz, nunca deixa de tardar. Sempre a luz vem diante, sempre a luz sai primeiro, sempre a luz madruga e se antecipa ao sol.

Ó divina luz Maria, ditoso aquêle que merecer os lumes de vosso favor! Ditoso aquêle que entrar no número dos vossos favorecidos, ou dos vossos alumiados! Tendo-vos de uma parte a vós e da outra a vosso Filho, dizia aquêle grande servo e amante de ambos: Positus in meio, quo me vertam? Néscio: Posto em meio dos dois, não sabe Agostinho para que parte se há de voltar. E quando Agostinho confessa que não sabe, sofrível é em qualquer homem, qualquer ignorância. Ut minus sapiens dico: como ignorante digo: Virgem Santíssima, perdoe-me vosso Filho, ou não me perdoe, que eu me quero voltar a vós. Já ele alguma hora deixou a seu Pai por sua Mãe; não estranhará que eu faça o mesmo.

Tenha a prerrogativa de Esaú quem quiser, que eu quero antes a dita de Jacó. Esaú era mais amado e mais favorecido de seu pai; Jacó era mais favorecido e mais amado de sua Mãe; mas a bênção levou-a Jacó. E por que levou Jacó a bênção? Pelo que temos dito até agora: porque as diligências da Mãe foram mais apressadas que as do pai. Quomodo tam cito invenire potuisti, fili mi? Como pudeste achar tão cedo, disse Isaac, o que eu mandei prevenir para lançar a bênção ao meu primogênito? E que respondeu Jacó? Sendo que tudo tinham sido prevenções e diligências de sua Mãe, respondeu que fôra vontade de Deus: Voluntas Dei fuit. E assim é. A mãe de Jacó representava neste passo a Mãe Santíssima, e quem tem de sua parte as diligências desta me, sempre tem de sua parte a vontade de Deus. Esaú teve de sua parte as diligências do pai, mas quando chegou, chegou tarde, porque por mais diligências que faça o sol, sempre as da luz chegam mais cedo: Quomodo tam cito? As diligências da mãe já tinham chegado, e as do pai ainda haviam de chegar. Assim como hoje: a luz já tem nascido, e o sol ainda há de nascer. De qua natus est Jesus.

VII- Admoestação final. Santo Tomás, pela luz mede a perfeição das coisas. São Tiago e os dons de Deus, pais dos lumes. Oração.


Ora, cristãos, suposto que aquela soberana luz é tão apressada e diligente para nosso remédio, suposto que é tão universal para todos e para tudo, suposto que é tão piedosa e benigna para nos querer fazer bem, suposto que é tão privilegiada e favorecida por graça e benignidade do mesmo sol, metamo-nos todos hoje debaixo das asas desta soberana protetora para que nos faça sombra e nos dê luz, para que nos faça sombra e nos defenda dos raios do Sol de justiça, que tão merecidos temos por nossos pecados, e para que nos dê luz para sair deles, pois é Senhora da Luz.

Aquela mulher prodigiosa do Apocalipse, que S. João viu com as asas estendidas, toda a Igreja reconhece que era a Virgem Maria. E nós podemos acrescentar que era a Virgem debaixo do nome e invocação de Senhora da Luz. A mesa luz o dizia e o mostrava, que da peanha até a coroa toda era luzes: a peanha lua, o vestido sol, a coroa estrelas; toda luzes e toda luz. E pois a Senhora da Luz está com as asas abertas. Metamo-nos debaixo dela, e muito dentro, para que sejamos filhos da luz. Dum lucem habetis, credite in lucem ut filii lucis sitis, diz Cristo.

Enquanto se vos oferece a luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Sabeis, cristão, por que não acabamos de ser filhos da luz? É porque não acabamos de crer na luz. Creiamos na luz, e creiamos que não há maior bem no mundo que a luz, e ajudem-nos a esta fé os nossos mesmo sentidos. Por que estimam os homens o ouro e a prata, mais que os outros metais? Porque tem alguma coisa de luz. Por que estimam os diamantes e as pedras preciosas mais que as outras pedras?

Porque têm alguma coisa de luz. Por que estimam mais as sedas que as lãs? Porque têm alguma coisa de luz. Pela luz avaliam os homens a estimação das coisas, e avaliam bem, porque quanto mais tem de luz, mais têm de perfeição. Vêde o que notou Santo Tomás: Neste mundo visível, umas coisas são imperfeitas, outras perfeitas, outras perfeitíssimas; e nota ele com subtileza e advertência angélica, que as perfeitíssimas tem luz, e dão luz; as perfeitas não têm luz mas recebem luz; as imperfeitas nem têm luz, nem a recebem.

Os planetas, as estrelas e o elemento do fogo, que são criatura sublimes e perfeitíssimas, têm luz e dão luz; o elemento do ar e da água, que são criaturas diáfanas e perfeitas, não têm luz mas recebem luz; a terra e todos os corpos terrestres, que são criaturas imperfeitas e grosseiras, nem têm luz, nem recebem luz, antes a rebatem e deitam de si. Ora, não sejamos terrestres, já que Deus nos deu uma alma celestial; recebamos a luz, amemos a luz, busquemos a luz, e conheçamos que nem temos, nem podemos, nem Deus nos pode dar bem nenhum que seja verdadeiro bem, sem luz. Ouvi umas palavras admiráveis do apóstolo S. Tiago na sua epístola: Omne datum optimum, et omne donum perfectum de sursum est, descendens a Patre luminum: Toda dádiva boa, e todo dom perfeito descende do Pai dos lumes.

Notável dizer! De maneira que quando Deus nos dá um bem que seja verdadeiramente bom, quando Deus nos dá um bem que verdadeiramente seja perfeito, não se chama Deus pai de misericórdias, nem fonte das liberalidades: chama-se pai dos lumes e fonte da luz, porque no lume e na luz, que Deus nos dá com os bens, consiste a bondade e a perfeição deles. Muitos dos que nós chamamos bens de Deus, sem luz são verdadeiramente males, e muitos dos que nós chamamos males, com luz são verdadeiros bens. Os favores sem luz são castigos, e os castigos com luz são favores; as felicidades sem luz são desgraças, e as desgraças com luz são felicidades; as riquezas sem luz são pobreza, e a pobreza com luz são as maiores riquezas; a saúde sem luz é doença, e a doença com luz é saúde.

Enfim na luz ou falta de luz consiste todos o bem ou mal desta vida, e todo o da outra. Por que cuidais que foram santos os santos, senão porque tiveram a luz que a nós nos falta? Eles desprezaram o que nós estimamos, eles fugiram do que nós buscamos, eles meteram debaixo dos pés o que nós trazemos sobre a cabeça, porque viam as coisas com diferente luz do que nós as vemos. Por isso Davi em todos os salmos, por isso os profetas em todas suas orações, e a Igreja nas suas, não cessam de pedir a Deus luz e mais luz.

Esse é o dia, cristão, de despachar estas petições. Peçamos hoje luz para nossas trevas, peçamos luz para nossas escuridades, peçamos luz para nossas cegueiras, luz com que conheçamos a Deus, luz com que conheçamos o mundo, e luz com que nos conheçamos a nós.

Abramos as portas à luz para que alumie nossas casas; abramos os olhos à luz, para que alumie nossos corações; abramos os corações à luz, para que more perpètuamente neles. Venhamos, venhamos a buscar luz a esta fonte de luz, e levemos daqui cheias de luz nossas almas. Com esta luz saberemos por onde havemos de ir; com esta luz conheceremos donde nos havemos de guardar; com esta luz, enfim, chegaremos àquela luz onde mora Deus, a que o apóstolo chamou luz inacessível: Qui lucem inhabitat inaccessibilem, que só por meio da luz que hoje nasce, se pode chegar à vista do sol que dela nasceu: De qua natus est Jesus.

(VIEIRA, Antônio — Os Sermões, Vol. 1, Centro Difusor de Cultura Ltda., págs. 74 a 89)

PS: Grifos meus.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A língua, órgão da palavra

A LÍNGUA, ÓRGÃO DA PALAVRA



Quem ouve, responde; quem quer tudo ouvir, em geral, quer também tudo dizer; o abuso do sentido do ouvido não se separa, portanto, do abuso da palavra e ambos acarretam os mesmos males.

A necessidade de falar manifesta-se desde muito cedo; a criança, possuindo tão poucas idéias, já procura exprimir-las; se nada se opuser a essa tendência, ela se desenvolverá e poderá degenerar numa grande tentação. Falamos sem motivo, por leviandade, unicamente para dizer o que nos vem à mente, sem interesse as mais das vezes para os ouvintes.

Falamos por vaidade, para provocar elogios ou suscitar a admiração daqueles que nos ouvem. Falamos por malícia, para aliviar os sentimentos de antipatia, de inveja, e dar livre curso à vontade de difamar, de rebaixar o próximo, de criticar, de murmurar.

Embora não sejam motivos indignos os que nos levam a empreender a conversação, embora a prosa fora inocente de início, tais inconvenientes se insinuam com facilidade, sem que os possamos perceber.

In multiloquio non deerit pecatum: "Onde as palavras abundam, não falta o pecado".

A humildade é ferida; aproveitamo-nos de uma ocasião para nos fazer valer, atribuir-nos vantagens insignificantes, ou fazermos notar nossa habilidade, nossa prudência, nossas virtudes, nosso talento. A caridade é ofendida, dizemos aquilo que deveríamos calar; narramos aquilo de que não temos certeza; transmitimos uma impressão como se fosse uma realidade; julgamos, baseados em dados falsos ou incertos, ou sem levar em conta as circunstâncias, sem conhecer as intenções; aumentamos os fatos, exageramos pormenores sem importância, generalizamos fatos isolados; numa falta de fragilidade discernimos um defeito habitual.

Será, pensamos nós, que o Senhor, atacado em Seus membros, ferido em Suas afeições, pois deu a vida por esses que estão sendo difamados e alimenta-os com Sua carne, vive neles, quer unir-Se-lhes por toda a eternidade, será que possa ver com prazer esse falador, que se deixa impressionar pelo seu espírito, por suas palavras mordazes, que veja com satisfação usurpar o direito, que só a Ele pertence, de julgar os homens?

Não, as palavras contra a caridade afastam as graças, privam as almas das bênçãos divinas, e muitas pessoas, que se queixam de não mais receber as consolações da piedade, devem-no à imoderação da língua.

As paixões se irritam com essas conversações culpáveis; animamo-nos, excitamo-nos ao falar; o ressentimento motivado por uma injustiça, ou aquilo que assim julgamos, aumenta à medida que a ela nos referimos; a aversão que experimentávamos, cresce quando relembramos as faltas do próximo, ou apontamos os seus defeitos, e essa aversão se comunica aos nossos ouvintes.

O recolhimento torna-se então impossível, pois as idéias, revolvidas pelas palavras, ocupam o espírito e pouco lugar deixam aos pensamentos piedosos, à lembrança de Deus; os sentimentos assim despertados invadem o coração, comprimem e sufocam o amor divino ou, pelo menos não permitem senão raras elevações a Deus. Além do mais, o que foi dito será talvez repetido e de uma palavra imprudente, levada a pessoa interessada, nascem frequentes descontentamentos, rupturas, discórdias, ódios, palavras lascivas, ímpias, blasfemas.

Uma pequena chama, diz São Tiago, pode causar um incêndio capaz de devorar uma grande floresta; a língua é esse "fogo destruidor aceso pelo inferno", que pode "consumir todo o curso de nossa vida". "é um mundo de iniquidades", que, colocado junto a outros membros, "contamina-os todos", e pode levar o corpo inteiro à perdição.

Entretanto, se a língua pode causar danos terríveis, pode também ser o princípio de grandes bens; "por ela bendizemos a Deus, nosso Pai, e também por ela falamos mal dos homens, feitos à imagem de Deus"; "bênção e maldição", a oração, o louvor divino, assim como a maledicência, a blasfêmia e a impiedade, saem do mesmo órgão.

Feliz de quem a sabe reger; quem modera e regula suas conversações e "não peca por palavras é um varão perfeito"; dirige a sua natureza inteira com suas concupiscências; é senhor de suas inclinações, governa todo o seu ser pela língua, qual cavaleiro, que, pelo freio, dirige o animal; qual piloto que, com o leme, dirige todo o navio.

Mas o homem - é sempre São Tiago quem fala - que sabe domar as feras, não pode, por suas próprias forças, "vencer a língua", carece do auxílio de Deus, e Deus não dá esse auxílio senão  aos homens sinceros e generosos que praticam o silêncio, se abstêm de palavras inúteis, procuram a solidão, e se privam de conversar com as criaturas para melhor conversar com Deus.

Quando o Senhor, para salvar Seu povo, elegeu a Moisés, dirigiu de tal sorte os acontecimentos que este último precisou deixar a corte agitada do rei do Egito, retirar-se para uma terra pouco habitada, e aí levar a vida tranquila e solitária dos pastores. Era grande a tribulação entre os filhos de Israel; parece que havia urgência em socorrê-los; entretanto, o Senhor deixou Moisés durante quarenta anos nesse país meio selvagem; e só o julgou ato a cumprir com a grande missão que lhe queria confiar depois desse longo retiro.

Foi no deserto que, desde sua infância, se refugiou São João Batista para aí crescer no amor divino e preparar-se a exercer seu ofício de precursor.

O próprio Jesus, nosso divino modelo, depois de trinta anos de uma vida escondida e frequentemente silenciosa, vai passar quarenta dias no deserto antes de iniciar sua pregação evangélica.

Desde então, todas as almas ávidas de perfeição desejaram o recolhimento e a solidão e os santos fundadores de ordem religiosa, sem exceção alguma, impuseram o silêncio como uma das regras fundamentais, um dos grandes meios de formação à vida interior, e reconhecem-se as almas fervorosas na maneira pela qual observam essa grande lei do silêncio.

Mesmo no meio do mundo, quem aspira a uma vida perfeita deve recear o turbilhão dos negócios, evitar, mesmo no exercício do zelo, o excesso das obras exteriores e impor-se horas de recolhimento, em que, só, com Deus só, se entregue a expansões afetivas e goze as doçuras de um colóquio todo celeste.

(O Caminho que leva a Deus, pelo Cônego Augusto Saudreau, edição de 1944)

PS: Grifos meus.

Educação sobrenatural - Parte II

EDUCAÇÃO SOBRENATURAL
PARTE II


Operações que regulam a vida sobrenatural

"Eu sou a vinha, vós sois os sarmentos"
(João XV, 5)

Quais são as diversas operações que regulam a vida sobrenatural?
São: a sua criação (cap. I), a sua iluminação (cap. II), o seu amparo (cap. III), a sua ressurreição (cap. IV), a sua frutificação (cap. V), a sua extensão (cap. VI), a sua transfiguração (cap. VII).

CAPÍTULO I - A CRIAÇÃO DA VIDA SOBRENATURAL: O BATISMO

"A graça é o princípio da glória; a glória é a consumação da graça".
(São Tomás de Aquino)

Quando se deve conferir o batismo?
O mais cedo possível.

Segundo o ritual, os padres devem exortar os pais a que batizem os filhos sem demora, no próprio dia do nascimento, ou, o mais tardar, no dia seguinte.

Esta recomendação do ritual impõe-se como obrigatória?
Não, indubitavelmente.

Mas o certo é que representa uma falta grave expor as crianças, por negligência, a morrerem sem serem batizadas.

"Uma mãe cristã deve ter o cuidado de, antes do parto, lembrar às pessoas que lhe assistirem que não será preciso chamar o padre, se a vida da criança estiver ameaçada. Sabe-se que, em tal caso, qualquer pessoa pode e deve conferir o batismo. Se a criança sobreviver, avisar-se-á o pároco da freguesia que decidirá, se for oportuno, repetir o batismo feito condicionalmente."
(P. Charruan, Às mães, p. 33)

E o coração da mãe, embora tenha pouca fé, não pede o que a Igreja impõe?
Sim, certamente.

Efetivamente, como se poderia abandonar, de propósito, o recém-nascido ao demônio e com a mancha original?

"Como se poderia estreitar uma criança deserdenada, maldita, quando seria possível beijar um anjo?"
(Mgr. Pichenot)

Acaba de nascer um irmãozinho.
- Beija-o, diz a mãe a sua filhinha loira de quatro anos.
- Se a mamã não se importasse com isso, ou antes não queria beijá-lo; é melhor beijá-lo amanhã, depois do batismo, quando vier o Menino Jesus.

Que fazem os pais cristãos em relação aos padrinhos e as madrinhas dos seus filhos?
Os padrinhos e as madrinhas são, na ordem espiritual, os verdadeiros pais e as próprias mães das crianças que apresentaram ao batismo.

Por isso, os pais cristãos escolhem-nos de tal maneira que o filho, quando crescido, baste pôr os olhos no padrinho, para conhecer os seus deveres, e de tal sorte que a filha, à maneira que se vai desenvolvendo, encontre, na sua madrinha, o exemplo de todas as virtudes que deve praticar.

Que nome se deve dar a sua criança?
- O nome dum santo.
(P. Leschamps, L. J., publicou, pela Maison de la Bonne Presse: Os nomes dos santos ou os nomes de batismo e a devoção dos santos, 200p. in-16).

Os pais cristãos eximem-se às seduções da moda que os levariam a preferir nomes estrangeiros, extraordinários, deturpados ou irreconhecíveis.

- Um nome dum grande santo ou de santo conhecido.

E isto para que a criança possa, à medida que vai crescendo, instruir-se na vida e nas virtudes do seu padroeiro e modelo.

- Um nome que, aliado ao nome de família, não possa ter um significado ou formar uma consonância ridícula ou pouco convenientes. Segundo diz Mgr. Pichenot, são estas as recomendações feitas nas conferências de Angers.

Qual a importância deste nome?
O nome que a criança recebe no batismo é o único nome que ela usa doravante na assembléia dos santos.

É sob esse nome que o bispo lhe há-de administrar o sacramento da Extrema-Unção e recolher, para as abençoar, as promessas sagradas do seu casamento.

É sob esse nome que há-de ser encomendado a Deus, no dia do seu funeral.

É sob esse nome que ele há-de subir aos céus: os anjos assim o hão-de chamar pelos séculos dos séculos.

Não é conveniente, desde então, a este nome o maior respeito?
Sim, o maior respeito.

- É preciso dar-lhe o primeiro lugar; é o pronome, isto é, o nome que se escreve ou se pronuncia antes do nome de família.

- É preciso escrevê-lo por inteiro.

O soberano Pontífice Pio IX, ao acabar um dia a leitura duma obra importante que lhe tinham enviado, não pôde deixar de fazer esta observação:

"Este trabalho contém muitas coisas boas. É para lamentar que, a julgar pela assinatura, o seu autor não seja batizado. E todavia deve sê-lo, visto que é um padre... Mas então, por que não põe o seu nome de batismo? Porque se assina como um pagão?"

O cardeal Pitra escrevia um dia ao margrave de Ségur, a respeito de uma súplica que tinha sido dirigida à Santa Sé:

"... Falta o nome do candidato. Aqui em Roma, ficamos constantemente admirados de que em França se esqueçam com tanta facilidade do nome cristão".

- É preciso nunca o deturpar na conversação. Os pais e as mães devem reagir contra a mania demasiado espalhada de deturpar, mascarar, ridicularizar o nome dado às crianças no dia do batismo: Maria, por exemplo, torna-se Mimi, ou Mia; Francisco, Chico; Suzana, Zaninha; Manuel, Neca, etc.

E o que há de mais estravagante é que os pais só tratam os filhos pelo seu verdadeiro nome quando os repreendem, lhes ralham ou os ameaçam.

Numa casa de educação cristã, onde está estabelecido como regra tratar as crianças pelo seu nome de batismo - o que sob muitos aspectos é digno de elogio - julgou-se a melhor solução, quando foi preciso procurar o meio de evitar confusões, alterar os nomes que se desejam distinguir. A segunda Maria Teresa tornou-se Riate; a terceira Teza; a quarta, Tima, etc.

Será inútil dizer que a solução não nos parece feliz.

Que se deve fazer quando a criança atingiu a idade da razão?
- "Logo que a criança chegou à idade da razão, é conveniente explicar-lhe a natureza do Sacramento do Batismo e as cerimônias que acompanham a sua administração, edificá-la sobre os compromissos contraídos em seu nome, e fazer-lhe renovar as suas promessas".
(P. Charruau, Às mães, p.86)

- A criança deve guardar a sua certidão de idade, reter a data, e festejar piedosamente o aniversário desse dia. [quanto mais o dia do seu batismo]

(Catecismo da educação pelo Abade René de Bethléem, continua com o post:  A iluminação da vida sobrenatural)

PS: Grifos meus