segunda-feira, 6 de setembro de 2010

ESPECIAL: Santa Catarina de Sena

Nota: Recebido por e-mail, mantenho os grifos. Agradeço a generosidade e caridade de quem me enviou. Deus lhe pague!

Nota do blogue (dia 29/04/2011)

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Principiamos agora também a publicação na internet da obra "Catarina de Sena", da escritora norueguesa Sigrid Undset. Agredecemos à srta. Aline, de Volta Redonda - RJ, por estar digitando para nós este material. Grifos em negrito nossos. Bom proveito para a vida espiritual de quantos se dispuserem a conhecer melhor esta gigante da santidade que foi Santa Catarina de Sena!

CATARINA DE SENA


SIGRID UNDSET

(1882- 1940; Terceira Dominicana; Premio Nobel de Literatura de 1928)
Tradução de Basílio Lopes Editorial Aster – Lisboa

ÍNDICE

I. Família e infância de Catarina
III. “Mantelata”
IV. O noivado místico
V. “O que fizerdes ao mais pequenino...”
VI. Corpos e almas
VII. A República de Sena
VIII. Um coração novo
IX. Instrumento de paz
X. Roma deserta
XI. Luta em várias frentes
XII. O Duque de Milão
XIII. Raimundo de Cápua
XIV. Gregório XI
XV. Medianeira
XVI. Em Avinhão
XVII. O Papa consulta Catarina
XVIII. O fim do “Cativeiro da Babilônia”
XIX. Um louco apaixonado
XX. O Conclave
XXI. O grande cisma do Ocidente
XXII. O “Diálogo”
XXIII. A Rainha Joana de Nápoles
XXIV. Catarina e Raimundo
XXV. A “Compania di San Giorgio”
XXVI. A última carta ao Papa
XXVII. “Pai, nas Vossas Mãos...”
XXVIII. Os estigmas da Paixão
XXIX. “Os “Caterinati

Capítulo I - FAMÍLIA E INFÂNCIA DE CATARINA

Nas cidades-estados da Toscana, os cidadãos – Popolani – homens de negócios , os mestres artífices e as classes profissionais, já na Idade Média, tinham exigido, e conseguido, o direito de participar no governo da república ao lado dos nobres – os Gentilhuomini. Em Sena, detinham um terço dos lugares da Câmara Alta desde o século XII. E apesar de os diferentes partidos e os grupos rivais dentro desses partidos estarem em desacordo constante e por vezes violento, e apesar das freqüentes guerras em Florença, o mais poderoso competidor entre os vizinhos de Sena, a prosperidade reinava dentro da cidade.

Os seus habitantes eram ricos e tinham orgulho de sua terra, que encheram de belas igrejas e de edifícios públicos. Os pedreiros, escultores, pintores e ferreiros que faziam as delicadas lanternas e gradeados, raramente estavam inativos. A vida era como um tecido de cores brilhantes, onde a violência e a vaidade, a avidez e o desejo incontrolável de prazeres sensuais, a ânsia de poder e a ambição, se entrelaçavam numa variedade infinita de modelos. Mas através desse tecido notavam-se fios prateados de caridade cristã, de profunda ingenuidade, nos mosteiros, entre os bons sacerdotes, e entre os irmãos e irmãs que se tinham consagrado à tarefa de ajudar o próximo. Gente abastada e o povo, em geral, proviam o melhor possível às necessidades dos doentes, dos pobres e dos desamparados, com generosidade ilimitada; e em todas as classes da comunidade havia pessoas com uma vida familiar calma, modesta e cheia de pureza e fé.

A família de Jacopo Benincasa era uma delas. Profissionalmente, Jacopo era um tintureiro de lãs, ofício que desempenhava na companhia dos filhos mais velhos e dos aprendizes, enquanto sua mulher, Lapa di Puccio di Piagente, dirigia com firmeza e segurança o governo da grande casa, apesar de sua vida ser um ciclo quase constante de gravidez e partos (cerca da metade de seus filhos tinham morrido ainda muito novos). Não se sabe quantos deles se criaram, o certo é que se encontraram treze nomes, dos que sobreviveram, numa velha árvore genealógica dos Benincasa. Tendo em conta a alta percentagem de mortalidade infantil desse tempo, devemos considerar Jacopo e Lapa como pessoas cheias de sorte por terem conseguido criar mais da metade dos filhos que haviam vindo ao mundo.

Jacopo Benincasa era um homem de largas posses quando em 1346 alugou uma casa na Vila dei Tintori, perto de Fontebranda, uma das belas fontes cobertas que asseguravam à cidade água fresca em abundância. O velho lar dos Benincasa, que se encontra ainda quase como nesse tempo, é para nossa maneira de ver uma casa pequena para tão grande família. Mas, na Idade Média, as pessoas não se preocupavam muito com o problema do alojamento, e menos ainda nas cidades fortificadas, onde todos se amontoavam o melhor que podiam sob a proteção das muralhas. O terreno para construção era caro; por outro lado, a cidade necessitava dos mercados ao ar livre, das igrejas e edifícios públicos, que, em todo o caso, teoricamente pertenciam a toda a população. As casas empilhavam-se nas ruas estreitas e cheias de curvas; assim, para esse tempo, o novo lar dos Benincasa era um edifício grande e majestoso.

Lapa já tinha vinte e dois filhos quando deu à luz, no dia da Anunciação, 25 de março de 1347, duas gêmeas que foram batizadas com os nomes de Catarina e Giovana. A mãe só podia amamentar uma das gêmeas; assim enquanto Catarina era alimentada por Lapa, Giovanna foi entregue a uma ama. Nunca antes Lapa tinha sentido a alegria de amamentar os seus próprios filhos – e uma nova gravidez quase a obrigou a entregar a criança a outra mulher. Mas Catarina conseguiu viver com o leite da mãe até ter idade para ser desmamada. Era portanto muito natural que Lapa, já bastante idosa, amasse esta filha com um amor materno exigente mas bem intencionado, que mais tarde, quando a criança cresceu, transformou as relações entre a simples e afável Lapa e a jovem filha numa longa série de desentendimentos angustiosos. Lapa amava-a sem medida, mas não compreendia.

Catarina ficou a ser o membro mais novo e mais querido da família, porque a pequena Giovanna morreu na infância, e uma nova Giovanna, nascida alguns anos mais tarde, seguiu em breve o caminho da irmã do mesmo nome. Os pais consolavam-se com a idéia de que essas pequenas inocentes crianças tinham partido diretamente dos seus berços para o Paraíso, enquanto Catarina, conforme escreve Raimundo de Cápua, usando um trocadilho ligeiramente forçado com seu nome e a palavra latina catena (cadeia) era obrigada a trabalhar pesadamente na Terra antes de poder levar consigo para o céu toda uma cadeia de almas que ela salvou.

Quando Raimundo de Cápua coligia material para a biografia de Santa Catarina conseguiu que a Madonna Lapa lhe contasse a infância da Santa – há muito, muito tempo, pois Lapa era nessa altura uma viúva de oitenta anos. Pelo que nos diz Raimundo ficamos com a impressão de que Lapa sentiu prazer em contar tudo o que lhe veio à memória a um ouvinte tão compreensivo e sensível. Falou-lhe dos tempos em que ela era uma pessoa muito atarefada em volta do rebanho dos filhos, sobrinhos e sobrinhas, netos e vizinhos, e Catarina era a menina querida de um casal já idoso.

Quanto ao marido, descreveu-o como um homem piedoso, justo e de bondade sem igual. Raimundo escreve que a própria Lapa não apresentava “qualquer sinal dos defeitos comuns às pessoas do nosso tempo”; era uma alma simples e inocente, absolutamente incapaz de inventar histórias que não correspondessem à verdade. Mas como tinha a seu cargo o bem-estar de tanta gente, não podia ser silenciosa e paciente como o marido; ou talvez porque Jacopo fosse realmente bom demais para este mundo, a esposa tinha de ser mais prática do que já era, e nas ocasiões devidas julgasse ter o direito de dizer uma ou duas palavras cheias de bom senso para proteger os interesses da família.

Com efeito, nunca Jacopo pronunciou uma palavra áspera e inoportuna, por mais indisposto que estivesse ou por piores coisas que lhe fizessem, e se outras pessoas da casa dessem largas aos seus maus humores ou empregassem palavras indelicadas e desagradáveis, ele procurava sempre apaziguá-las: “Por amor de Deus tenham calma e não digam palavras impróprias”. Certa vez, um indivíduo de Sena tentou obrigá-lo a pagar uma elevada quantia, que Jacopo não devia, e o honesto tintureiro foi perseguido até ficar quase arruinado por causa das calúnias levantadas por esse homem e pelos seus poderosos amigos. Mas, apesar de tudo, Jacopo não admitia que ninguém dissesse mal do homem. Aconteceu isso com Lapa, um dia, e o marido disse-lhe: “Deixa-o em paz, que Deus lhe mostrará o seu erro e nos protegerá”. E algum tempo depois, isso aconteceu realmente, segundo disse Lapa.

As palavras grosseiras e obscenas eram desconhecidas em casa do tintureiro. Sua filha Bonaventura, casada com um jovem de Sena, chamado Niccolo, ficava tão desgostosa quando o marido e os filhos usavam uma linguagem descuidada ao contarem anedotas ambíguas que ficou fisicamente doente e começou a definhar. Niccolo, que devia ser uma pessoa bem intencionada, ficou muito preocupado quando a viu tão magra e pálida, e quis saber o que tinha. Bonaventura respondeu com gravidade: “Em casa de meu pai não estava habituada a ouvir as palavras que aqui ouço todos os dias. Podes ter certeza de que, se tais conversas indecentes continuarem, ver-me-ás definhar até morrer”. O marido imediatamente providenciou para que esses maus hábitos, que tanto feriam os sentimentos de sua esposa, deixassem de se repetir, e manifestou abertamente a sua admiração pelas maneiras castas e modestas de Bonaventura e pela religiosidade dos sogros.

Assim se vivia em casa da pequena Catarina. Toda a gente a mimava e adorava, e quando ela era ainda muito novinha, toda a família admirava a sua “sagacidade” ao ouvir a sua tagarelice inocente. E como era também muito bonita, Lapa poucas vezes a conseguia ter junto de si porque todos os vizinhos a chamavam para as suas casas. Os escritores medievais raramente se preocuparam em descrever crianças ou tentar compreendê-las.

Mas Lapa consegue, em umas poucas páginas do livro de Raimundo, dar-nos a imagem de uma donzela italiana, séria mas ao mesmo tempo alegre, atraente e encantadora – e que começava já a mostrar aquela vitalidade e energia espiritual irresistíveis, que fariam com que, muitos anos mais tarde, Raimundo e outros “filhos” seus se rendessem à sua influência, com a sensação de que as suas palavras e a sua presença afastavam o desânimo e a timidez, e lhes inundavam as almas com a paz e o amor de Deus.

Logo que abandonou o círculo familiar, a pequena Catarina tornou-se chefe de todas as outras crianças da rua, ensinando-lhes jogos que ela própria tinha inventado – isto é, numerosos pequenos atos de devoção. Quando tinha cinco anos aprendeu sozinha o Ângelus, que gostava de repetir incessantemente; ao subir e descer as escadas de sua casa, costumava ajoelhar-se em cada degrau para rezar uma Ave-Maria. Para a piedosa filha de uma família tão religiosa, onde todos falavam com amabilidade e delicadeza com as outras pessoas, devia ter sido natural, ao ouvir falar de Deus, que ela começasse a dirigir-se-Lhe e aos Santos da mesma maneira. Nessa altura, isso era ainda uma espécie de brincadeira para Catarina; mas as crianças põem toda a alma e imaginação nas suas brincadeiras.

Os vizinhos chamavam-lhe Eufrosina, que é o nome de uma das Graças. Mas, Raimundo de Cápua tem certas dúvidas: teria a gente do bairro de Fontebranda um tal conhecimento da mitologia clássica para saberem o que tal nome significava? Inclina-se mais para a ideia de que Catarina, antes de saber falar com correção, se chamasse a si própria qualquer coisa que os vizinhos entenderam por Eufrosina, porque também há uma santa com esse nome. No entanto os habitantes de Sena estavam habituados a ver procissões e a ouvir cantigas e poesias, de maneira que bem podiam ter aprendido parte do vocabulário dos poetas, ao contrário do que Raimundo imaginava.

Assim, por exemplo, o pai de Lapa, Puccio di Piangente, escrevia versos nos momentos de ócio; profissionalmente era um artesão, fabricante de colchões. Além disso, era um homem muito piedoso e generoso para com o mosteiros, os monges e freiras: podia, pois, ter ouvido falar da Eufrosina cristã e da pagã. A própria Catarina esteve depois muito interessada na lenda de Sanata Eufrosiona, que parece ter-se vestido de rapaz para fugir de casa e entrar em um convento. E ela divertia-se com a idéia de vir a fazer a mesma coisa...

Uma noite, com cerca de seis anos, ia Catarina para casa depois de ter visitado sua irmã Bonaventura, já casada. Era acompanhada por dois jovens rapazes, um dos quais seu irmão Stefano – um ou dois anos mais velho e que era provavelmente muitas vezes encarregado pela mãe de cuidar da irmãzinha. Tinham chegado a um lugar onde a rua apresentava uma descida muito íngreme por entre muros de jardins e frontarias de casas viradas para o vale, onde a bela cobertura de pedra de Fontebranda encobre a fonte em que as mulheres do sítio faziam as lavagens ou donde tiravam a límpida água fresca para as vasilhas de cobre, que levavam para as suas casas à cabeça. Do outro lado do vale, erguiam-se as altas paredes de pedra da Igreja de S. Domingos, maciça e austera, que tinha como único ornamento uma série de janelas ogivais nas empenas do coro.

A jovem contemplou o vale que se chama Valle Piatta. Olhou depois para cima, para o alto da igreja, e viu uma coisa tão maravilhosa como nunca sonhara ver: o Salvador do Mundo sentado em um trono real, vestido como um bispo e com a tripla coroa do Papa na cabeça. A seu lado, encontravam-se os apóstolos S. Pedro, S. Paulo e S. João Evangelista. A criança ficou pregada no chão, contemplando com êxtase a visão “com todos os olhos do corpo e da alma”. Nosso Senhor sorriu-lhe amavelmente, levantou a mão e abençoou-a com o sinal da cruz, como fazem os bispos...

Catarina permanecia imóvel, enquanto o amor de Deus lhe inundava a alma, enchendo todo o seu ser e transformando-a para sempre. Prosseguia o movimento noturno das pessoas, descendo e subindo a rua, passavam carroças e cavaleiros, e lá no cimo continuava a jovenzinha, geralmente tão tímida, com o rosto e os olhos virados para o alto, tão estática como se fosse de pedra.

Os rapazes já iam a meio da descida quando Stefano se voltou à procura da irmã e a viu de pé no alto da rua. Chamou-a várias vezes, mas Catarina não se moveu. Dirigiu-se a ela, chamando-a sempre – talvez já um pouco impaciente; mas a irmã não se apercebeu da sua chegada, até que ele a pegou no braço e lhe perguntou o que estava a fazer. Então Catarina fitou-o como se tivesse acordado de um longo sono; olhou para baixo e respondeu: “Oh, se tu tivesses visto o que eu vi, tenho a certeza de que nunca me interromperias nem afastarias tão deliciosa visão dos meus olhos”. Quando levantou o olhar de novo, a visão tinha desaparecido; então começou a chorar angustiosamente, desejando nunca ter perdido aquela visão celestial.

Quando Raimundo de Cápua se tornou confessor de seu pai, Catarina contou-lhe que, a partir desse dia, começou a saber como é que os santos tinham vivido, especialmente S. Domingos e os Padres do Deserto, embora ninguém tivesse ensinado isto a ela, senão o Espírito Santo. Mas uma criança de seis anos é capaz de absorver uma certa quantidade de conhecimentos sem saber donde lhe vieram. O mosteiro dominicano com a sua igreja fortificada, erguia-se no alto da colina acima de sua casa, e os frades pregadores com as túnicas pretas e brancas da ordem, devem ter andado muitas vezes pelas ruas que os filhos dos Benincasa percorriam quando iam visitar os vizinhos e as irmãs casadas. Por outro lado, em sua casa viveu um rapaz que entrou depois para a ordem dos Dominicanos – Tommaso della Fonte – que era irmão de Palmiero della Fonte, casado com Niccoluccia Benincasa, e que tinha perdido os pais durante a peste de 1349, quando tinha dez anos, sendo recebido em casa dos sogros de seu irmão. O fato de Catarina ter um irmão de leite que queria ser dominicano e que vivia na mesma casa pode-a ter afetado mais do que ela pensava na altura, ou do que se podia recordar mais tarde.

O momento, porém, em que Catarina tinha tido a visão do Céu e recebido a benção do Salvador mudou-a para sempre. Era ainda uma criança, mas toda a gente em casa reparou que se tornara subitamente tão desenvolvida e tão extraordinariamente sensível que parecia uma pessoa crescida. Tinha sido iniciada. A alegre e pequena Eufrosina tinha vislumbrado a irresistível verdade que procurava em suas brincadeiras piedosas – tinha entrado nos mundos ilimitados do amor de Deus e do amor a Deus. Talvez compreendesse vagamente que as suas orações e meditações serviriam para se preparar para receber um chamamento – não sabia ainda bem o que seria – que viesse um dia d'Aquele que ela vira na visão e que a tinha abençoado com a mão estendida.

Qualquer que fosse a origem do seu conhecimento das vidas e obras dos santos, o que é certo é que Catarina tentava agora imitá-los o melhor que podia na vigilância e no ascetismo. Ao contrário da maioria das crianças, à medida que crescia tornava-se mais sossegada e comia cada vez menos. Durante o dia, seu pai e os outros homens da casa trabalhavam nos serviços da tinturaria na cave, enquanto a mãe e as restantes mulheres andavam ocupadas na grande cozinha, que era também a sala de estar da família – uma grande dependência no cimo da casa, com um terraço em frente, circundado por pequenos arbustos e vasos de plantas, onde a roupa lavada flutuava ao vento. Entretanto, os quartos do andar intermédio permaneciam vazios quase todo o dia. Catarina procurava então a solidão de um destes quartos e às escondidas batia nos seus magros ombros com um pequeno chicote.

Naturalmente que as outras jovenzinhas da vizinhança em breve descobriram isto, pois as crianças nunca respeitam a necessidade que uma pessoa possa ter de estar sozinha; queriam então fazer o mesmo que Catarina, porque se tinham habituado a imitá-la em tudo. Reuniam-se, pois, num outro canto afastado da casa, e batiam-se a si próprias, enquanto Catarina rezava o pai-nosso e a ave-maria tantas vezes quantas achasse necessárias. Era tudo feito em segredo delicioso, e o grupinho de pequenas irmãs de penitência devia-se sentir altamente edificado e feliz. Era também, como observava Raimundo, um prólogo para o futuro.

Mas algumas vezes Catarina ansiava por libertar-se dos companheiros, especialmente dos rapazes. Então, conforme sua mãe contou depois a Raimundo, ela costumava subir as escadas tão depressa, que Lapa tinha a certeza de que não pisava os degraus – era como se flutuasse. Isto aterrorizava a mãe, porque tinha medo que ela caísse e se machucasse. A ânsia da solidão e as lendas dos Padres do Deserto, em que ela tanto tinha pensado, faziam com que Catarina sonhasse com uma caverna num sítio ermo, onde pudesse esconder-se e conversar apenas com Deus.

Uma bela manhã de verão, Catarina guardou um bocado de pão e saiu sozinha em direção da casa de sua irmã casada, perto da Porta di San Ansano. Mas desta vez ultrapassou a casa da irmã, saiu da cidade e, pela primeira vez na sua vida, a pequena menina contemplou o tranqüilo Valle Piatta e os campos verdejantes. Estava tão acostumada ao seu mundo, com as casas umas em cima das outras na encosta, as ruas estreitas, a multidão a pé ou a cavalo, os burros, os carros de bois e as parelhas de machos, os cães e – membros infalíveis de todas as famílias italianas – os gatos, que deve ter pensado, com certeza, que este outro mundo, verdejante e calmo, era o deserto. Por isso continuou a andar, à procura de uma caverna. Nas colinas calcárias que ladeavam o vale havia muitas grutas, e logo que Catarina encontrou uma que lhe pareceu mais apropriada, entrou e ajoelhou-se.

Começou então a rezar com a maior devoção possível; e no instante a seguir foi percorrida por uma sensação extraordinária – era como se a erguessem do solo da caverna e a fizessem pairar sobre o teto. Teve receio de que isto fosse talvez uma tentação do Demônio, procurando amedrontá-la para não rezar mais. Continuou, pois, a orar com mais devoção e com mais firmeza. Quando despertou deste transe e se viu ajoelhada no solo da caverna, eram horas das Noas – três da tarde, a hora em que o filho de Deus morreu na cruz.

Veio-lhe então como uma inspiração do alto – que Deus não queria que ela fosse uma ermitã; Ele não queria que ela castigasse seu frágil corpo de forma a receber privações maiores do que eram apropriadas a sua idade, também não devia querer que ela abandonasse a casa de seus pais desta maneira. Foi um penoso regresso; estava cansada e receava ter assustado terrivelmente os seus pais – talvez eles pensassem que ela os tinha deixado para sempre. De novo orou com afinco, desta vez para poder chegar a casa a salvo; e de novo teve a estranha sensação de flutuar. Quando isto lhe passou, encontrava-se diante do portão da cidade. Correu então para casa o mais depressa que podia. Mas ninguém prestara grande atenção ao fato de ela não estar lá; julgavam que se encontrava em segurança, em casa da irmã. E ninguém soube da sua tentativa de se tornar ermitã, até Catarina o ter dito ao seu confessor, muitos anos mais tarde.

A sonhadora criança via como os adultos e as outras crianças a sua volta preocupavam-se com uma série de coisas que a Bíblia chamava “o mundo”. O seu mundo – um mundo em que ela ansiava penetrar mais profundamente – parecia estender-se para lá do que ela apercebia com os seus sentidos físicos. Era um mundo celestial, que ela tinha sido autorizada a contemplar só por um instante, quando viu Nosso Senhor regiamente sentado entre as nuvens, por cima dos telhados de S. Domingos. E a oração era a chave para entrar nesse mundo; mas a criança já tinha descoberto que também podia entrar nele por um caminho espiritual, sem se ver ou ouvir qualquer coisa com os sentidos exteriores.

A mãe e o pai, as irmãs e os irmãos, eram todos bons cristãos. Mas ficavam satisfeitos ao beberem dessa mesma fonte que fazia com que Catarina estivesse sempre com sede, por mais que bebesse. Rezavam, iam à missa, eram prestáveis e generosos para com os pobres e para os servos do Senhor, mas por vezes dedicavam-se resolutamente àquelas coisas que Catarina iria considerar cada vez mais como obstáculos que a impediam de realizar o desejo do seu coração. E por mais cuidado que houvessse em preservar os filhos dos Benincasa das más influências, eles não podiam deixar de vir a conhecer alguma coisa do orgulho dos cidadãos ricos, das rixas e das lutas entre homens grosseiros e sequiosos de sangue, e da vaidade das mulheres mundanas.

O coração de Catarina ardia em desejos de salvar todas aquelas pobres almas que se tinham afastado do amor de Deus, amor esse que ela já tinha experimentado de forma a ter antegozo da glória do Céu. Desejava poder tornar-se uma das pessoas que trabalham para salvar as almas dos homens – por exemplo, os dominicanos, porque ela sabia que essa ordem tinha sido fundada exatamente com tal objetivo. Muitas vezes, quando via os dominicanos passarem por sua casa, reparava por onde iam, e depois de passarem, saía de casa e ia muito respeitosamente beijar o sítio em que os pés deles tinham pisado.

Mas se ela tivesse qualquer dia a possibilidade de participar do trabalho destes frades e de toda a boa gente dos mosteiros e conventos, e conseguisse que as preocupações e prazeres que ocupavam tanto o tempo e os pensamentos de sua mãe e das irmãs casadas, não a expulsassem da sua vida secreta, então ela teria de permanecer sempre virgem. Isto compreendia ela bem: com sete anos apenas, já havia suplicado à Virgem Maria que intercedesse por ela, pois desejava ardentemente entregar-se ao Seu Filho Jesus Cristo, e ser Sua Noiva. “Amo-O com toda a minha alma, e prometo-Lhe, e a Vós também, que nunca arranjarei outro Noivo”. E ela rezava ao seu Noivo do Céu e a sua Mãe, para que a ajudassem, para que se conservasse sempre pura e sem mácula no corpo e na alma.

Uma menina italiana de sete anos, nos nossos dias, é mais desenvolvida que uma criança da mesma idade nos países nórdicos ou anglo-saxões, e na Idade Média as crianças de toda a Europa desenvolviam-se muito mais rapidamente do que hoje; na própria Noruega, consideravam os rapazes e as donzelas de quinze anos já preparados para o casamento. No Romeu e Julieta, Lady Capuleto recorda à filha, que ainda não tem catorze anos, que:

... mais novas do que tu.
Aqui em Verona, senhoras respeitáveis
já são mães ...

Apesar de tudo, quando Catarina fez o voto de castidade, ainda não devia saber muito sobre os instintos do corpo e da alma, a que ela jurara nunca obedecer. As tentações da carne, nessa altura, significavam apenas duas coisas para ela: o apetite – o apetite salutar da comida que toda a criança saudável sente na idade do crescimento (e Catarina, embora já secretamente tivesse começado a praticar o espírito de sacrifício, era uma menina saudável) – e, em segundo lugar, o receio do sofrimento físico. Este último já ela tinha começado a combater, disciplinando-se com a penitência do chicote mais vezes do que antes. A fim de dominar o seu apetite, limitava-se a comer pão e vegetais; as grandes pratadas de carne, que lhe serviam às refeições, passava-as às escondidas para Stefano, que se sentava ao lado dela, ou para os gatos que miavam debaixo da mesa. Claro que quer o rapaz, quer os gatos, aceitavam com prazer estas rações extras. E a grande família sentada ao redor da mesa bem fornecida de Mamma Lapa, nunca pareceu reparar no que acontecia lá para o fundo, onde ficavam os membros mais novos.

Mas não podiam deixar de reparar que Catarina se ia tornando cada vez mais paciente e mais calma. Muitos anos mais tarde, chegou a chamar paciência à essência da piedade, e dado o fato de a graça divina não alterar a nossa natureza, antes de a aperfeiçoar, somos levados a acreditar que esta jovem, que mais tarde, com uma energia e uma coragem que inspiravam respeito, iria fazer tudo o que as suas visões lhe diziam ser vontade de Deus, devia ter realmente nascido com uma reserva desusada de obstinação natural. Mas foi sempre obediente aos pais e recebia com paciência as censuras da mãe – porque Lapa tinha sempre tanto que fazer em sua casa, tantas pessoas a tratar, que facilmente se encolerizava e dava rédeas soltas à língua quando estava aborrecida. Mas nessa altura a família de Catarina ainda estava muito satisfeita com o seu comportamento exemplar, e admiravam-na porque a julgavam mais sensível do que era de esperar na sua idade, e muito piedosa, e delicada.

Foi talvez por já saber a alegria que sua filha favorita sentia, quando mandava fazer tais recados, que Lapa pediu uma manhã a Catarina que fosse à igreja paroquial oferecer uma certa quantidade de velas e dinheiro para o culto, e pedir ao padre para celebrar uma missa em honra de Santo Antônio. Este santo mostrara sempre durante toda a sua vida, tanta compreensão e simpatia pelas preocupações e tristezas das mulheres do povo, que todas as mães e donas de casa o consideravam como um amigo especial que tinham no Céu. Catarina foi e fez tudo o que a mãe lhe dissera; mas queria tanto participar dessa missa, que ficou na igreja até ela acabar e voltou para casa muito mais tarde do que a mãe esperava – Lapa tinha-lhe dito que viesse embora logo depois de falar com o padre. Recebeu, pois, a filha com um provérbio que se usava em Sena quando alguém chegava demasiado tarde e sem justificação :”Malditas sejam as más línguas que me disseram que tu nunca mais voltavas.”

A menina não disse nada ao princípio; depois puxou a mãe para o lado e disse-lhe, com um ar sério e humilde: “Querida mãe, se eu fizer qualquer coisa de mal, ou de menos bem do que queria que eu fizesse, bata-me para lembrar e portar melhor na próxima vez; é justo que o faça. Mas peço-lhe que não amaldiçoe ninguém, seja boa ou má pessoa, por minha causa. Não é próprio da sua idade, e rasga-me o coração”. Isto causou profunda impressão em Lapa, porque sabia que a filha tinha razão. Mas tentou mostrar-se insensível e quis saber porque demorara tanto. Catarina explicou-lhe então que tinha ficado na igreja para assistir à missa. Quando Jacopo chegou a casa, Lapa contou-lhe tudo o que a filha tinha feito e lhe tinha dito; Jacopo ouviu, silencioso e pensativo, e intimamente deu graças ao Senhor.

Desta forma Catarina cresceu até se tornar uma adolescente e descobrir que estava diferente, e que o mundo a sua volta também estava diferente.

* * *

sábado, 4 de setembro de 2010

O recolhimento de Nazaré

O RECOLHIMENTO DE NAZARÉ


Tais princípios de profundidade, como vimos na anunciação, só podiam se desenvolver no recolhimento, sob certo aspecto, mais admirável ainda de Nazaré, em que três criaturas perfeitíssimas, de importância universal se recolhem na profundeza da vida cotidiana.

Envolver-se alguém em um mistério, esconder-se no seio de uma Virgem ou no silêncio de uma oração, cobrir-se com a força do Altíssimo, parece sempre, aos olhos da imperfeição humana, alguma coisa de honroso, de sublime.

Mas ocultar-se alguém na simplicidade das coisas de cada dia, no prosaísmo do dever cotidiano, parece coisa de todos, até mesmo mais próprio das almas pequenas e sem idéias. Eis o heroísmo desconhecido do recolhimento de Nazaré!

Entremos, por instantes, naquele recolhimento fecundo em que vive a trindade da terra: Jesus, Maria e José. Como tudo é cheio de silêncio e de paz! Que bem faz à alma que se arrancou do bulício do mundo, ou, ao menos, da dissipação da sua vida, este mistério de escondimento, em que se reduz a nada a vaidade e a ostentação deste mundo e se dá todo valor às ações, por pequenas que sejam, que pesam para a eternidade.

Lá está José, ilustre descendente de Davi, na sua banca de carpinteiro a aplainar madeira, com a mesma dignidade e atenção, como se estivesse a realizar uma obra de arte. Não se preocupa com as vaidades do mundo, nem com os boatos das ruas, mas todo entregue ao seu trabalho humílimo, sabe que está cooperando para a reforma do mundo. De sua madeira, ele só tira os olhos para levantá-los ao céu, tão pertinho dele. Pois, não é céu, Maria? Não é céu, Jesus? E não eram eles todo o seu enlevo?

Eis o motivo de seu silêncio, de seu recolhimento. O trabalho e a oração eram toda a sua vida. Trabalho e oração, transformados em Amor, que beatificava a sua solidão.

Aqui se podia aplicar, maravilhosamente, a palavra de Ruysbroek: "O justo vive em um inviolável recolhimento". José, o justo, por excelência, apregoado pela Sagrada Escritura, vive, cresce, trabalha, se aperfeiçoa e se santifica, em um recolhimento que nem o mundo exterior, com todas as suas seduções e mentiras, nem o mundo interior com suas fantasias e más inclinações, conseguem violar. Varão feliz!

Que seu exemplo nos empolgue. Que a força de sua concentração nos vença e nos estabeleça naquele ambiente em que o trabalho, quer manual, quer intelectual, produz tudo o que pode produzir para a terra e para o céu.

E se já contemplamos, extasiados, o recolhimento singularíssimo da Virgem da Encarnação, olhemos para o Seu recolhimento humilde, na modesta habitação de Nazaré. Lá era o recolhimento do mistério, aqui, o recolhimento do lar: recolhimento de mãe, de esposa, de dona de casa.

A Santa Senhora se concentra naquele pedacinho do céu, Sua casa privilegiada; a esposa santa se concentra naquele varão justíssimo, envolvido todo de recolhimento; a mãe santa, e aí a concentração atinge o sublime, se concentra em Seu Filho, no Seu Jesus, que é Seu Deus e Seu tudo.

Aí, mas do que nunca. Maria guardava em Seu coração as palavras, guardava as ações, guardava os afetos e ensinamentos, que, ricamente, enchiam a pobreza daquele lar. E, sem desperdiçar um só de Seus olhares ou de Seus pensamentos, uma só parcela de Seu tempo, de Sua atenção e de Seu cuidado, era toda para a Sua casinha, cujo encanto a gente só imperfeitamente imagina; era toda para São José, era, principalmente, toda para Jesus.

Foi, sem dúvida, neste ambiente de Nazaré que Ela Se encheu daquela devoção, isto é, daquela prontidão e carinho para com as coisas de Deus, que, vinte séculos depois, nós, impressionados, santamente, ainda A invocamos: Receptáculo insigne de devoção, rogai  por nós!

E, chegando ao ápice, quando encontramos envolvidos neste recolhimento modestíssimo de Nazaré, não só José e Maria, mas até mesmo o Verbo humanado, Jesus Cristo, Nosso Senhor.

Ó escondimento sublime! Um Deus que Se oculta na vida cotidiana, nos trabalhos caseiros e nos serviços ordinários de uma oficina pobre. Que exemplo de mestre para a ostentação humana!

Era ali que Ele crescia em idade, sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens, inteiramente submisso e obediente a José e a Maria.

Entretanto, o Verbo feito homem viera ao mundo para pregar uma doutrina nova, doutrina que seria confirmada por milagres estupendos. Viera para salvar os homens perdidos, indicando-lhes o caminho da verdadeira e única casa paterna, viera para sofrer um martírio de horrores. Pois, parece que, esquecido de tudo isso, a Luz Se esconde sob o alqueire, pouco cuidadoso dos cegos que viera iluminar.

Justamente aí está o ensinamento de que o mundo tanto e tanto precisa.

A força que vence não está fora, está dentro de nós. As ações humanas não se medem ou pesam, pela sua retumbância, e, sim, pela sinceridade e amor com que são feitas.

Uma mesa tosca, diante de Deus, pode valer tanto ou mais do que o mármore trabalhado por mão do artista; uma plaina de carpinteiro pode valer tanto como o pincel de afamado pintor ou a pena de um clássico; o cicio humilde de um padre-nosso bem rezado pode concorrer mais para a paz social do que furioso discurso contra as injustiças dos ricos. E, talvez, se compreenderá um dia como os pés chagados de São Francisco de Assis caminharam mais para a verdadeira cultura e civilização, do que a rapidez fantástica dos aviões modernos.

Tudo isso e muito mais nos ensinou o Verbo Humanado, o Mestre, o Tamaturgo, o Salvador, juntando aparas e acendendo o fogo, no recolhimento incompreendido de Nazaré.

E, sem dúvida, para Sua missão, muito mais significativa do que o grito triunfal "Hosana ao Filho de Davi", foi a palavra de desprezo: "Eis o filho do carpinteiro".

Ó recolhimento magistral de Nazaré, estendei-vos pelo mundo, subjugai as almas, as nossas almas, vazias, enfatuadas...

(Recolhimento, pelo D. Fr. Henrique Golland Trindade O. F. M, bispo de Bonfim, edição 1945)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

II- A DOLOROSA PAIXÃO DE MARIA

AS DORES DE MARIA

II- A DOLOROSA PAIXÃO DE MARIA

Antes de considerarmos pormenorizadamente as imensas dores da Virgem-vítima, lancemos um olhar sobre o conjunto do Seu martírio, para compreendermos o Seu lado íntimo, que é, sem contradição, o mais penoso e o mais comovente.

O Filho de Deus Se fizera homem. A Virgem possuía o Desejado das colinas eternas. Ele Se tornara Seu Bem-Amado, o nosso Emanuel.

Haviam decorrido quarenta dias, dias de êxtase, quando Ela é obrigada a Se apresentar no templo de Jerusálem, para as cerimônias do resgate de Jesus, como o primogênito, para a Sua própria purificação. Era a lei.

O velho Simeão acabava de entrar no templo, ao mesmo tempo que a sagrada Família. Toma o Menino em seus braços, e, sob a inspiração do Espírito Santo que o animava, estava prestes a entoar um cântico de alegria. De repente, o seu rosto se perturba, os seus olhos cheios de lágrimas, fixam-se em Maria, e ele percebe, em uma visão profética, tudo o que esta Mãe terá que sofrer. Ele exclama, designando Jesus:

"Ele será o alvo de contradição". E em seguida, dirigindo-se a Sua Mãe: "Uma espada de dor trespassará a Vossa alma".

Maria escutara em silêncio esta terrível predição. Parece que Simeão não profetizou senão para Ela somente, ele, que é o profeta do gládio!

O lúgubre porvir apareceu-Lhe então: o Seu Jesus será imolado um dia, e Ela já Se imola com Ele.

Nobre filha de Israel, como o sofrimento já se torna, desde esse momento, a Vossa partilha! Desde esse dia ficais ciente da sorte que aguarda o Vosso Filho e Vosso Deus. E quem poderá descrever as Vossas apreensões? Elas eram ao mesmo tempo terríveis e delicadas. Terríveis pela sua intensidade, e delicadas na sua formação, pois, tinham, ao mesmo tempo, algo de Virgem e algo de Mãe.

Receios virginais que uma sombra é suficiente para aumentar, terrores de mãe que Lhe fazem apertar o Seu tesouro contra o seio, como para ocultá-lO aí. A nossa natureza, pecaminosa e endurecida, tem dificuldade em calcular semelhante inquietação. Ela Lhe provinha dos acontecimentos: o massacre dos inocentes, a fuga precipitada para o Egito, a perda de Jesus. Pobre Mãe, desde então Ela não viveu mais!

Um único pensamento deve ter ocupado a Sua alma: "Virão procurá-lO? Seria agora, quando me vejo separada daquele que é toda a minha vida?"

Ela Lhe sobrevinha no calmo retiro de Nazaré da leitura dos livros santos. "O Cristo será entregue à morte", dizia Daniel.

"Transpassaram minhas mãos e os meus pés, e contaram todos os meus ossos", Lhe explicava Davi. Que pressentimentos deviam dar-Lhe estas passagens! Que terror secreto!...

Inquietação que trazia, enfim, o pensamento do pecado, e que era o mais terrível. Ela sabia que o Seu divino Filho era o Redentor, o Salvador; que Ele vinha para resgatar os homens, e tomar sobre Si todas as suas iniquidades. Este pensamento enchia-A de admiração, mas também a mergulhava num terror horrível. A iniquidade de todos cair sobre o Meu Filho, ó céus, que cargo terrível!

Um violento combate, diz S.Tomás de Vilanova, devia se travar nela então. Dois amores gigantescos estavam em luta no Seu coração, como em uma arena: o amor de Seu Filho e o amor do gênero humano, que devia resgatar. - Pugnabant igitur in Virginis corde, ut in campo plano, duo illi gigantes amores, amor Filii et amor mundi, sesumque Virginis in diversa trahebant.

O primeiro Lhe fazia aborrecer a morte, e o segundo Lhe fazia aceitá-la. Ela era mãe, e o Seu coração, com toda a Sua energia, repelia a morte. Mas, como Mãe do Redentor, Ela dizia ao gládio do dia da apresentação: "Oh! trespassai-me, antes de trespassá-lO!"

E, depois desta hora, decorriam os dias, cheios de alegria que Lhe causava a presença do Seu Jesus. Mas também cheios de amargura e dos sofrimentos, que trazia ao Seu coração este pensamento constante: um dia Ele será imolado!

Apertando nas Suas as mães tão ternas de Jesus, parecia sentir já os pregos que deveriam atravessá-las. Abaixando a Sua fronte tão pura, Ela já sentia a coroa de espinhos. Estreitando-o ao coração, Ela já O contemplava, em espírito, coberto de sangue e de feridas, com o lado aberto e derramando por sobre os homens, até à última gota, o Seu sangue divino.

Ó dor e angústia da ternura materna!

Como em liras perfeitamente acordes, que ressoam uníssonas, a oblação de Jesus era a oblação de Maria. Seus corações estavam inebriados juntamente, com o pensamento de sacrifício. Depois, veio a hora da separação.

Jesus começa a Sua vida pública. Novos temores para Maria! Sem dúvida, o dia do sacrifício se aproxima a grandes passos! Ela o prevê e o espera. O ódio dos fariseus já Lhe é conhecido. Perseguem o Seu Jesus. Querem apoderar-se dele. Depois, numa tarde, vêm-Lhe dizer: Jesus está preso. Gente armada de bastões, cordas e gládios, prendeu-O no Getsêmani, guiada por um traidor, e O conduziu a Caifás.

Oh! que nos reserva o dia de amanhã?...
Que terrores não sentiu esta desolada Mãe!...

Jesus esta preso! e Ela é impotente para libertá-lO, para aliviá-lO. Jesus, longe dEla, nas mãos de Seus mais implacáveis inimigos! Que tristeza, que dor!... estar separada de um Filho tão amado, já condenado infalivelmente, de antemão, e nada poder fazer para unir-Se a Ele.

É o supremo sofrimento!

Que terror, quando Lhe dizem: Quem o julga é Caifás, é Pilatos, é Herodes.
Pobre Mãe! Quantas dores!...

E quando Ela reencontrou o Seu Filho na encosta que conduz ao Calvário, Ele havia sofrido de tal modo, desde a Sua separação que Lhe apareceu como não tendo mais algo de humano! Isaías Lho havia feito compreender. E o Seu coração não A enganara.

Que momento, quando os Seus olhares se encontraram!
"Meu Filho!"
"Minha Mãe!"

E Jesus subia até ao lugar de execução; e Maria, acompanhada de algumas piedosas mulheres, seguia o "Homem das dores".

Enfim, eis que o Cordeiro de Deus chegou até o cume do Gólgota. Maria bem sabia que Ele devia ser o Homem das Dores. Mas, quando a realidade veio e apareceu aos Seus olhos, quando Ela percebeu o corpo de Seu Filho dilacerado e triturado pelos azorragues da flagelação da manhã, quando Ela viu o Seu rosto, extenuado e irreconhecível, jorrando sangue, inundado do suor da morte, a cabeça encerrada num feixe de espinhos, o brado de Sua alma foi: "Oh! como os profetas o haviam dito bem! e como são sobrepujados os meus receios! Em que estado, pois, puseram o meu Bem-Amado!"

De fato, as Suas suspeitas e Sua previsões eram excedidas. As profecias estavam realizadas ao pé da letra. Agora compreendia melhor o sentido da palavra de Isaías; o Seu coração de Mãe se esforçava por compreender toda a extensão do "Ele será o Homem das Dores!" Seu espírito e Seu coração procuravam penetrar a fundo o sentido destas outras palavras: "Transpassaram minhas mãos e meus pés e contaram todos os meus ossos".

Pobre Mãe, Ela havia interpretado que eles contariam os Seus ossos, depois que Ele estivesse morto, ao passo que Ela mesma poderia contá-los, no corpo hirto do Seu Filho.

Chegou o momento supremo do holocausto!

Lágrimas e gemidos dos mártires nunca se podem igualar, mesmo em conjunto, à vivacidade e à imensidade das dores que a divina Mãe sofreu no Seu peito oprimido! Tão cruel era ao Seu coração o espetáculo do deicídio, que se desenrolava ante Seus olhos. Os algozes lançam Jesus sobre a Cruz. Ela percebe então os cravos com que vão pregá-lO; Ela ouve os golpes do martelo; Ela vê a crueldade do suplício, que jamais fora aplicado ás vítimas imoladas no templo, ou aos criminosos executados fora dos muros.

Os buracos preparados na madeira da Cruz, estão demais afastados; e eles empregam cordas, para puxarem violentamente os membros, que neles devem ser pregados. Ela ouve o estalar dos ossos,vê os músculos torcerem-se e percebe os suspiros de sofrimentos e os gemidos do Seu Filho. Ergue-se, enfim, a Cruz, e com que sofrimento balança-se um instante no ar, por cima dos assistentes, e fixa-se no solo.

Sobre a Cruz o corpo suspenso do Filho de Suas entranhas... E a Mãe das dores, em face do Homem de dores, pôde dizer, a nós e aos pecadores de todos os séculos: "Ó vós que passais por este caminho, considerai e vede se há uma dor semelhante à minha dor!"

E todos os séculos Lhe responderam: "A quem comparar-Vos, ó Virgem, filha de Sião? O excesso dos Vossos males é semelhante à extensão dos mares".

Sim, o profeta procurara em toda a natureza a quem poderia comparar a imensidade desta dor, que o Espírito Santo Lhe mostrava numa visão longínqua, e não encontrou senão o mar, cuja extensão, profundidade e largura puderam figurá-la.

E esta dor, cuja amargura tinha o infinito, o horroriza, pois é o preço da salvação da humanidade; a Santíssima Virgem vem colocar-Se, heróica e sublime, ao lado da Cruz.

"Stabat"! Ela estava em pé! Esta única palavra basta para narrar o prodígio de Sua intrepidez, assim como as palavras: "Faça-se a luz", fiat lux, haviam sido suficientes para dizer, desde a origem, que milhares de focos foram acesos no firmamento.

Jesus está abandonado por todos na terra, mas a sua Mãe está de pé ao Seu lado. Ela reconhecia, através de todas as Suas humilhações e de todos os Seus sofrimentos, o Cristo Redentor, o Homem das dores, vítima de Seu amor, o Homem-Deus.

Ela fica aí, de pé! E esta Virgem, seguramente a mais delicada e a mais tímida de todas as virgens, afronta os fariseus, os carrascos, a multidão, e até o inferno desencadeado contra o Seu Filho. Ela contempla as Suas chagas lívidas, os cravos que O contundem, o sangue que O cobre, todos estes sofrimentos e todas estas dores que O esmagam em um como lagar. E, esmagada Ela mesma, sucumbe a estas chagas, a estes cravos, a este esmagamento, a este esgotamento.

É a paixão e a compaixão ao mesmo tempo.

Seus olhos se encontram, Seus olhares se confundem, Seus corações comunicam entre si os Seus pensamentos, por uma linguagem secreta e cheia de ternura.

Ele Se oferece, e Ela O oferece pelos nossos pecados.

Jesus diz: "Perdoai-lhes". E Maria pede com Ele este perdão.

Jesus diz: "Tenho sede". E, com Ele Maria, tem sede, sede de almas.

Jesus diz: "Tudo está consumado". Ele deu tudo, e Ela também deu tudo, não poupando sequer o Seu próprio Filho, nem a Si mesma.

Ele dá um alto grito e expira. Ela não pode expirar, mas o Seu coração entra nos transes da morte.
(Jos. Lémann)

E quando O despregaram da Cruz e O puseram nos braços de Sua Mãe, Ela pôde, então, contemplar à vontade este corpo desfigurado e lívido, coberto de chagas e de sangue; Ela pôde sondar as chagas das mãos e dos pés, a chaga do lado, sobretudo, que dava entrada ao Seu coração. Um último brado escapava-se do Seu coração de Mãe:

"Meu Filho!"

Ó terna Mãe! dai-nos a graça de compreender este oceano de angústias e de torturas que fizeram de Vós a "Mãe das dores", para que participemos um dia das Vossas dores por nós e Vos consolemos pelo nosso amor e nossa fidelidade!

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria)

PS: Grifos meus.

A tática da "maçã"!

Nota: Maria Lacerda de Moura é conhecida como a pioneira do feminismo no Brasil. O texto que segue são excertos de uma dissertação apresentada à uma banca examinadora de um programa de Pós-graduação em História (apresentada por uma aluna favorecendo a visão feminista, o que é de se lastimar...).

Podemos ver como infelizmente os escritos e idéias desta feminista e de tantas outras como: George Sand, Ivone Gebara, Clara ZetkinElisabeth Badinter, Simone de Beauvoir, Betty Friedan, etc., influenciadas muitas vezes por diabólicos pensadores como: Lênin, Karl Marx (ver Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz - O marxismo: origem da ideologia de gênero); Engels, etc., tiveram grande influência na época no meio feminino e hoje os princípios feministas estão introduzidos até mesmo nos meios ditos "católicos".

Sugiro para reflexão as seguintes leituras:


Ver também:


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Maria Lacerda de Moura



Ativista durante as décadas de 1920 e 1930, Maria Lacerda declarou-se individualista, anti-social, anti-clerical, anti-fascista, adepta do amor livre, da maternidade consciente e da emancipação da mulher em relação ao homem e ao capital.

Maria Lacerda de Moura publicou vários artigos. Participou ativamente das discussões políticas de seu tempo ao dialogar com comunistas, anarquistas, feministas, educadores, democratas, jornalistas, enfim, vários segmentos importantes no Brasil do início do século XX.

Maria Lacerda de Moura nasceu na fazenda Monte Alverne em Manhuaçu/MG, em 16 de maio de 1887. Seu pai foi Modesto de Araújo Lacerda e, sua mãe, Amélia de Araújo Lacerda, ambos adeptos do anticlericalismo.

Em 1921 mudou-se para São Paulo e interou-se de questões importantes para a sua vida intelectual e militante; momento de engajamento na luta pela emancipação da mulher. Maria Lacerda de Moura e algumas militantes anarquistas, fundaram a Federação Internacional Feminina. A proposta da Federação era discutir questões relativas à mulher e à criança com vistas a transformar as relações estabelecidas na sociedade capitalista. As militantes questionavam a educação formal, as condições de trabalho, a subjugação da mulher aos dogmas católicos, o sistema representativo e a estrutura estatal. Uma das reivindicações da Federação era a introdução de uma disciplina que discutisse a história da mulher nos cursos superiores.

Maria Lacerda de Moura defendeu a emancipação de uma mulher servil, dependente e que não tinha autonomia sobre seu próprio corpo, pois não era livre para decidir sobre maternidade, casamento e vida profissional. Ao lado disso, defendeu a emancipação de um homem subordinado a um sistema escravizante, violento e excludente.

"Liberte-se! Liberte-se do embrutecimento causado pelo capitalismo e da mentira de sua inferioridade perante o homem! Lute pelo domínio de seu próprio corpo e não por um cargo político!" - dizia Maria Lacerda. "Homem: abandone a ganância, a violência, a guerra e a submissão de seus pensamentos! Seja livre!"

Lançou os livros Civilização - tronco de escravos (1931); Amai e ... não vos multipliqueis (1932); Serviço militar obrigatório para a mulher? - Recuso-me! Denuncio! (1933); Clero e fascismo - horda de embrutecedores (1934); Fascismo - filho dilecto da Igreja e do Capital (1934).

As críticas de Maria Lacerda ao clericalismo estavam relacionadas aos valores difundidos pela Igreja através de uma educação moralista e sexista, definidora dos papéis masculino e feminino na sociedade. À mulher cabia ser esposa, mãe e dona-de-casa. A religião, portanto, fortalecia a família burguesa e a manutenção da propriedade privada. Nesse sentido, o catolicismo contribuía para a domesticação feminina e a manutenção de sua condição de “dupla escrava”. Durante a década de 1930, Maria Lacerda se engajou na luta contra o fascismo e estabeleceu críticas à Igreja por apoiar o autoritarismo e a violência do Estado fascista.

Maria Lacerda apontou sua crítica à família ao analisar o sentimento de posse do homem sobre a esposa e os filhos. Em vários artigos, discutiu as relações autoritárias presentes nessas relações.

"A família é, logicamente, a fraude, a mentira, a exploração do trabalho da mulher no serviço doméstico obrigatório só para o “sexo fraco”, - porque é “indigno” do homem, do “sexo nobre”, do “superior."
(MOURA, Maria Lacerda de. Religião do Amor e da Beleza. São Paulo: O Pensamento, 2ª edição, 1929, p. 164.)

No entanto, Maria Lacerda afirmava que a Igreja Católica exercia poder principalmente sobre a mulher, a começar pela educação religiosa a qual é submetida desde criança. Esses ensinamentos imputavam às mulheres um sentimento de inferioridade e impureza, devido a idéia do pecado original.

A internalização desses dogmas impedia o crescimento intelectual das mulheres, a liberdade de pensamento
 
"A razão não tem o direito de sufocar o sonho. Reduzir a inquietude a preconceito religioso é um crime e um preconceito mais vulgar. Metafisica não é religião. A religião é muleta para os fracos e ignorantes. Não basta, não satisfaz à curiosidade dos que já escalaram mais alto. Também a ciência oficial nada pode explicar das cousas transcendentais. Paira à superfície. Cultiva o preconceito do saber absoluto. E não responde às nossas interrogações, à inquietação do nosso espírito insatisfeito".
(MOURA, Maria Lacerda de. Ferrer, o Clero Romano e a Educação Laica. São Paulo, Editorial Paulista,1934, p.58.)
 
"A vida social exige no homem e na mulher características especiais, atributos definidos afim de assegurar o bem estar coletivo.O homem nasce com qualidades indispensáveis aos feitos de homem. A mulher tem em si o gérmen hereditário para preencher as suas funções. Pondo de parte, porém, a questão dos sexos, a multiplicação da espécie, pergunta-se: uma humanidade só de homens seria completa? Da mesma maneira raciocinaremos com relação à mulher: fariam elas mundo harmonioso no seu conjunto? Não faltaria a essa humanidade algo viril para completa-la? O homem é homem antes de ser pai. É sábio ou generoso, filósofo ou operário, político ou guerreiro, inventor ou andarilho ... E por que razão nos dizem com arrogância axiomática: a mulher nasceu para esposa e mãe, para o lar? Se o homem, socialmente falando, tem fins a preencher independente do sexo, a mulher não menos, é claro. A enfermeira, a operaria, a cientista, a escritora, a professora, a medica, a farmacêutica, a diplomata, a filantropa, a diretora de hospitais e creches, etc., etc., entregar-se-á mais bem aos deveres sociais se não tiver filhos. Assim, também a mulher, socialmente falando, nasceu mulher antes de ser esposa ou mãe. Não há duvida: o homem não foi à plenitude do seu desenvolvimento quando não agiu senão em beneficio social - esquecendo-se da missão de pai de família. A mulher falhou na vida se não teve ocasião de derramar em volta do lar os tesouros de amor e carinhos reservados para um homem e para os filhos. Os dois se completam. São diferentes e indispensáveis um ao outro. A educação tem portanto dois ramos:

- Educar o pai de família para os deveres do lar.
- Educar o cidadão para ser útil á coletividade.
- Educar a mulher para esposa e mãe.
- Educar a mulher para colaborar na vida social"

(MOURA, Maria Lacerda de. Das vantagens da educação intelectual e profissional da mulher na vida pratica das sociedades. O Internacional, São Paulo, n. 74, p. 1, 15/05/1924).

É interessante perceber como Maria Lacerda fez apontamentos cruciais no que diz respeito à condição feminina. São críticas que remetem à problemática da divisão sexual do trabalho num momento em que as mulheres brasileiras entravam no mercado de trabalho formal.

O discurso que naturaliza a mulher como esposa e mãe contribui para a definição de papéis sociais para homens e mulheres, inclusive no que diz respeito ao mundo do trabalho. A autora questionava esse discurso limitador, sexista. Além disso, as análises de Maria Lacerda apontavam que os homens só se tornavam ótimos profissionais porque negligenciavam o lar. A enfermeira, a operaria, a cientista, a escritora, a professora, a medica, a farmacêutica, a diplomata, a filantropa, a diretora de hospitais e creches, etc., etc., entregar-se-á mais bem aos deveres sociais se não tiver filhos.
(Ibidem)


A naturalização da mulher como mãe e dona-de-casa é uma armadilha discursiva efetiva ainda vivenciada socialmente. Apesar da mulher ter ocupado o mercado de trabalho, ainda recai sobre ela a maior responsabilidade com o lar e os filhos. O mercado necessitou da mão-de-obra feminina, mas não houve, ainda, uma transformação radical na vida privada...
 
(PS: Grifos meus)

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Hora Santa de setembro

Hora Santa de Setembro 
(Podendo ser usada também na
Quinta-Feira Santa)

Pe. Mateo Crawley-Boevey, SS. CC.

Caía a tarde da Quinta-Feira Santa... Junto com as primeiras sombras, os horrores de uma agonia espantável inundavam já o Coração dilacerado de Jesus... O Nazareno Salvador era o Filho do Homem..., tinha uma Mãe, única em Sua ternura, divina em Sua formosura! Seu carinho e olhar eram para Jesus mais que o canto dos anjos, mais que a brisa perfumada dos céus... Era Ela a bênção do Pai... E devia deixá-lA, por amor aos homens!

Oh, Quinta-Feira Santa, dia das despedidas supremas do Mestre!... Havia chegado Sua hora: prostrado por terra, de joelhos ante a Virgem Maria, o Filho-Deus Lhe pede licença para morrer, para a redenção de Seus verdugos... E entrecortada a voz pelos soluços, descansando Sua cabeça soberana sobre o peito de Sua Mãe, Lhe confia Jesus Suas ovelhinhas recuperadas do rebanho... Maria O tem apertado em Seus braços, pondo a lembrança no berço de Belém, e os olhos, milagrosamente iluminados, no Calvário de amanhã...

E essa Rainha chora, ungindo a cabeça do Redentor com Suas preciosas lágrimas...; chora, oferecendo ao Eterno Pai essa Vítima, o Cordeiro Imaculado...; chora, bendizendo ao mundo, cujo resgate começou no casebre ditoso de Nazaré, e que terminará no dia seguinte em um cadafalso de horror, de sangue e de vergonha... Abraça, delirante de amor, ao Filho, e antes que os espinhos profanem Sua fronte, a beija em nome do céu, porque é Seu Deus...; volta a beija-lO em nome da terra, porque é Seu Rei..., e pronuncia um “fiat!” dilacerador, onipotente... Era já a noite; Jesus confiou Sua Mãe desolada aos amigos de Betânia e aos anjos, e Se separa, levando a alma inundada numa agonia mais amarga que a morte...

(Pausa)

As almas. Jesus sacramentado, recordai-Vos nesta hora e neste dia incomparável, Vossa primeira angústia crudelíssima: o sacrifício de Vossa Mãe, por amor ao mundo infeliz... Senhor!, não somente como Deus que sois, senão com Jesus, o Filho de Maria, Vós penetrais e compreendeis a crueldade mortais das separações da Terra... e a dor que provocam as ausências, as despedidas e a morte... Ah!, precisamente porque sois Jesus, viemos, pois, nos desafogar naquela primeira ferida de Vosso Coração, aberta ao Vos despedir de Maria, dolorosa como nenhuma Mãe, desde esse instante...

Vede nEla, Jesus, tantas mães, tantas esposas, tantas almas que choram hoje ante o Sacrário, a ausência de seres muito queridos... Quantas chegarão amanhã, sozinhas, ante a Cruz ensangüentada… Sim, virão sozinhas, porque a desgraça, ai!, e talvez a falta de fé, tenham separados do lar ou de vossos templos um irmão, um esposo ou algum filho... separados, mas não despedidos, mil vezes não, do Sacrário de Vosso Coração, que é a ressurreição dos caídos... Nele, como num cálice, vêm chorar conVosco, neste Gêtsemani, as angústias da ausência, muitas mães atribuladas, tantos pais cristãos, muitos irmãos desolados, que reclamam de Vosso Coração a paz, no triunfo de Vosso amor em seus lares..., a paz no regresso dos pródigos..., a paz na resignação pelas crueldades da morte...

Não importa que soframos nós, Mestre, aqui a Vosso lado; mas que os nossos sejam também Vossos, que Vos adorem, que Vos amem todos, como no dia sem manchas da Primeira Comunhão…. Oh!, doce Nazareno, recordai as aflições de Maria, ao Vos despedir dEla, na Quinta-Feira Santa…, não esqueceis o último abraço de Vossa Mãe, e o encargo que Vos fez de velar, com especial ternura, na Eucaristia sacrossanta, pelas mães doloridas… e por todos os ausentes do lar…

(Pausa)

(Pedi aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria que, pela mútua aflição da Quinta-Feira Santa, remediem tantas desgraças morais dos lares; neste dia em que nos obsequiou Seu Coração na Santa Eucaristia, não pode nos negar essa graça).

Com o Coração dilacerado, umidecido o peito e os cabelos com as lágrimas de Sua divina Mãe, sobe Jesus a colina de Sião e chega com os Seus à sala da última Ceia de Sua vida... Está ferido de amor... O choro avermelhou Seus olhos formosíssimos, e se esforça todavia em brotar abundantemente; mas o Mestre o contém prisioneiro em Seu Coração, que já agoniza... “E como nos houvesse amado sempre com amor sem limites, nessa hora sublime, nos amou com excesso”, com delírio infinito: deliciosamente enlouquecido, por Sua própria caridade, se fez Pão... se fez Eucaristia, e indefeso, aniquilado, Se entregou na Hóstia por nós, até a consumação dos tempo... “Venceu-Vos o amor, Jesus. Viva Vosso Coração Sacramentado!”.

(Pausa)

Ao recordar a dádiva por excelência do Coração de Jesus Cristo, Sua maravilhosa Eucaristia, temos exclamado, com ardor da alma: “Viva Vosso Coração Sacramentado!”. Mas ai!, não é esse, não, o grito de um mundo que herdou a dureza de um povo deicida, e ainda a perfídia do discípulo traidor. Aí tendes a Deus Sacramentado, aí está, decepcionado com milhares de Seus redimidos... Fabricou a prisão do Sacrário, inventou o céu da Hóstia, e Seu povo Lhe pagou com o esquecimento... Seu povo fez silêncio ao redor da Arca Santa, e aí onde O vedes, almas consoladoras, aí O tem abandonado entre as sombras desse pobre calabouço, sendo o Deus, que é a bem-aventurança dos céus...

Chama, e Sua voz se perde no deserto; pede, e Seu reclamo se dissipa no silêncio; Se queixa..., e Seu gemido é apagado, muitas vezes, com o clamor de Seus filhos, que riem e cantam, despreocupados por completo do Cativo do altar... E o Homem-Deus conheceu esta afronta, e a saboreou em toda sua inefável amargura, ao consagrar o primeiro pão, na Quinta-Feira Santa. Oh, sim, o soube, e Seu Coração não vacilou, porque esperava a vós, almas fidelíssimas..., porque os via chegar com uma oração de consolo e de vitória, ante Seu altar! Digamo-la com uma só voz, e que essa oração seja a um tempo o desagravo desse ignominioso esquecimento e o pedido imperioso de uma nova época de triunfo para o Coração de Jesus Eucaristia...

As almas. Com o íntimo fervor com que comungou São João, de Vossa mão benditíssima, e com a fé ardorosa de São Paulo, Vos suplicamos, Jesus Sacramentado, que desperteis nas almas incontáveis desejos de comungar. Conjuramo-Vos, pois, que nos escuteis:

Pela primeira Comunhão, distribuída a Vossos apóstolos na Ceia misteriosa da Quinta-Feira Santa...

(Todos em voz alta)

Reinai, Coração Divino, pela Comunhão de cada dia.

Pelos protestos de amor e de fidelidade, de Vossos discípulos ao lhes entregar o tesouro de Vosso Sagrado Coração...

Reinai, Coração Divino, pela Comunhão de cada dia.

Pelo poder maravilhoso conferido aos apóstolos e pela Iinstituição do sacerdócio para a perpetuidade dos mistérios eucarísticos...

Reinai, Coração Divino, pela Comunhão de cada dia.

Pela renovação, não interrompida desde então, do holocausto do Cenáculo e da Cruz, no maravilhoso Sacrifício da Missa...

Reinai, Coração Divino, pela Comunhão de cada dia.

Pelas inesgotáveis bondades de Vosso Coração, nas vitórias outorgadas à Vossa Igreja pelo Sacramento do altar...

Reinai, Coração Divino, pela Comunhão de cada dia.

Pelos prodígios incessantes de santificação, operados na recepção freqüente e cotidiana do maná sacramentado...

Reinai, Coração Divino, pela Comunhão de cada dia.

Por Vossa residência fidelíssima de vinte séculos de Sacrário, não obstante o esquecimento, o desdém e o sacrilégio...

Reinai, Coração Divino, pela Comunhão de cada dia.

Pela sabedoria de Vossa Igreja, ao convidar com santa pressa à recepção freqüente e diária da adorável Eucaristia...

Reinai, Coração Divino, pela Comunhão de cada dia.

Pela ternura redentora que abriu aos pequeninos de um mundo que se perde, o refúgio de Vosso Coração de Vosso Santo Tabernáculo...

Reinai, Coração Divino, pela Comunhão de cada dia.

(Pausa)

(Pedi com especial fervor o triunfo do Sagrado Coração na Comunhão diária)

Ele que é Senhor do céu e soberano na Terra, é já o divino escravo dos homens...; o que nos deu a vida, Se aniquilou... o que rompeu nossas correntes, as tomou para Si, e é, por amor incompreensível, prisioneiro nosso desde o Cenáculo...

Arrastando invisíveis cadeias, se interna entre os esquecimentos do Getsêmani... e, caindo aí de joelhos, ora e começa a agonizar... Se fecunda nesse instante a tempestade de todas as dores sobre Seu Coração despedaçado, e, em meio de todas as angústias, repete, entre soluços: “Amo-os, Pai! Feri-Me, mas salvai, perdoai os humanos!”... aumentam as angústias; passaram os carrascos, os blasfemos, os insultadores de Vossa Cruz, os negadores de Vosso Evangelho e de Vosso amor... E tem repetido: “Amo-os, Pai!... Perdoai os humanos!”.

Passaram os apóstatas, os infelizes renegados, que pisotearam o altar em que adoraram...; passaram a multidão infinita dos covardes, dos que temeram confessá-lO, dos que se envergonharam de seu Rei e Salvador, e tem exclamado, dolorido: “Amo-os, Pai!... Perdoai os humanos!”... Passaram os perseguidores de Vossa Igreja, os que lutaram mentindo, os sedutores dos povos, os hipócritas, os soberbos...; passaram os ruins, os indiferentes de consciência, a turba incontável dos gozadores que profanaram a alma num lodaçal de paixões nefandas..., e o divino Agonizante tem repetido: “Amo-os, Pai!... Salvai, perdoai os humanos!”... Passaram os sacerdotes tíbios e infiéis, os pais mundanos e culpáveis da perdição de seus filhos...; passaram os lares com todos seus delitos, as sociedades com todas suas orgias, os povos e governantes com todas as suas insultantes rebeldias...; passaram os que esbofetearam o Pontífice, Seu Vigário, e soluçando e afogando nesse lago insondável de tédios, de horrores e agonias, tem balbuceado: “Sim, os amo, Pai, os amo!... Perdoai os humanos!”...

Ai, como milhares de seitas vieram, enfim, a açoitar sacrilegamente Vosso rosto e transpassar Vosso Coração, os nomes dos malditos..., daquela legião inumerável de réprobos que, ungidos por Vosso sangue e resgatados com Vossa morte, quiseram, no entanto, morrer e maldizer eternamente!... Estala, então, o Coração de Jesus num soluço de dor infinita, e essa palpitação violenta rompe Suas veias... Empalidece Jesus...; mas, um instante depois, Seu rosto lívido, Seus cabelos desgrenhados, todo Seu corpo estremecido está encharcado em sangue... Cai então com a face sobre o pó, exclamando: “Pai, é aqui que vim fazer Vossa vontade...; mas, se for possível, afasta de mim este cálice!”... Estava prostrado por terra ainda quando ressoaram nossos nomes em seu Coração agonizante...

Nos viu, sim, nos viu a nós que estamos aqui presentes, nesta Hora doce e santa de consolo... Baixamos nós com o anjo para sustentá-lO.... Sentiu que O fazíamos descansar, desfalecido, entre nossos braços..., que O confortávamos com sacrifícios, com ternura, com amor da alma...; e desde então nos segue olhando, através de Suas lágrimas e das grades de Seu cárcere, como os amigos, como os confidentes de Seu entristecido Coração... Esse mesmo Coração palpita aí, nessa misteriosa tumba... Calemos, e que os batimentos de Seu coração nos contem Suas aflições secretas, Seus reclamos de amor, Seu desejo de triunfo...

(Pausa)

(Consagrai-vos nesta Hora mil vezes Santa a Seu Sagrado Coração, e jurai-Lhe amor eterno, em Sua Divina Eucaristia)

Era plena noite. “Vamos – disse, de pronto, Jesús despertando os Apóstolos --, vamos se aproxima o que vai Me entregar”. Um momento mais, e Seu Coração se estremeceu, cruelmente torturado, à vista de Judas, o traidor. Havia-o amado tanto!... Havia-o predestinado entre milhares...; o fez Seu apóstolo e sacerdote..., por um vil punhado de moedas vem entregar o Salvador!... Estende-lhe os braços... oh!, e aproximando-se do rosto de Jesus, onde o beijou Sua Mãe Imaculada, aí o beija Judas... Dulcíssimo, mas profundamente comovido, lhe diz Jesus: “Amigo, com um beijo me entregas?”... Ai, como não se perdeu, em tantos séculos, essa palavra de infamante reprovação!... É que os traidores vivem ainda espiando Seu Mestre. Essa raça perdura, vive de Seu sangue, segue sorteando Sua túnica e negociando Seu Evangelho... E o Senhor Jesus, porque é manso e porque é eterno, cala nesse Tabernáculo, testemunha das promessas que fizeram, monumento acusador das traições...

Beijam-nO e O entregam tantos, ai! que por renegar seu Mestre, recebem postos importantes, situação e moedas vis, sempre cobiçadas...

Beijam-nO com perfídia e O entregam os infelizes que se dizem desenganados de Sua doutrina salvadora... e é que não suportam a santidade de Seu olhar e de Sua lei...

Beijam-nO e O entregam... tantos tímidos, que temem aos doutores e fariseus que perseguem a esse Deus, que condena a falsidade e toda covardia... E estes Judas são refinadamente cruéis com Jesus, que se aproximam dEle com fingimento de respeito, O traem, segundo dizem, por dever iniludível de sua situação, por honradez de convicção, por delicadeza de consciência...

As almas ...Oh, nesta Hora Santa, sepulta no esquecimento o ultraje sangrento de tantos que se sentaram em Vosso banquete, que participaram de Vossas confidências, que foram Vossos amigos e depois Vos pospuseram à escória da Terra!...

(Todos, em voz alta)

Perdoai as traições, Coração Agonizante de Jesus.

Pela imensa dor que afligiu Vosso Coração, na traição vilã do apóstolo, que Vos entregou com um beijo de perfídia...

Perdoai as traições, Coração Agonizante de Jesus.

Pela decepção sofrida na fuga vergonhosa dos onze discípulos, que haviam jurado amar-Vos até à morte...

Perdoai as traições, Coração Agonizante de Jesus.

Pela amargura saboreada na tripla negação de Pedro..., pelas lágrimas humildes com que reparou sua presunção e, depois, sua lamentável covardia...

Perdoai as traições, Coração Agonizante de Jesus.

Pelo horrível desengano de Vosso povo, que depois de glorificar Vosso nome, aclamou Vossos carrascos e exigiu Vosso sangue...

Perdoai as traições, Coração Agonizante de Jesus.

Pela aflição que sofrestes pela ingratidão daqueles que curastes em Vosso caminhos, que recolheram Vossos prodígios e se unirão, no entanto, à turba deicida...

Perdoai as traições, Coração Agonizante de Jesus.

Pelo pranto que arrancou de Vossos olhos a maldição daquelas mães, cujos filhos bendissestes; pelo lodo que esses meninos lançaram em Vosso rosto...

Perdoai as traições, Coração Agonizante de Jesus.

Pela profunda ferida que Vos abriu o desespero de Judas, ao desconfiar de Vossa misericórdia inesgotável...

Perdoai as traições, Coração Agonizante de Jesus.

Pelas tristezas que Vos causaram as inumeráveis deserções previstas no Getsêmani, e que Vos ultrajaram, dilacerando no transcurso dos séculos, a túnica irrepartível da Vossa Igreja...

Perdoai as traições, Coração Agonizante de Jesus.

Pela agonia mortal sofrida pelas apostasias pública de alguns ministros de Vosso altar, por esse cruel golpe, pelos gemidos que Vos arrancaram as blasfêmias desses desditosos Judas...

Perdoai as traições, Coração Agonizante de Jesus.

(Desagravai a Jesus por tantas traições de baixo interesse e de covardia)

(Pausa)

A quem buscais?” – disse Jesus aos soldados, dominando com majestade divina uma dor imensa… –. “A Jesus de Nazaré” – contestam a uma voz os que vinham sedentos de Seu sangue –. Um momento mais, e o dulcíssimo Mestre Se adianta, oferece as mãos, dobra Seu pescoço... e cativo dos homens, lhes entrega novamente o enamorado Coração...

E vós, a quem buscais, almas fervorosas, nesta noite, aqui neste Getsêmani de Seu Sacrário?...

As almas. Viemos em busca de Vós, Jesus de Nazaré... Nesta hora do poder das trevas, da solidão e do pecado... Por isso temos escolhido o momento supremo de Vosso desamparo, oh, Divino Agonizante do altar!... para Vos surpreender a sós e ocupar nesta Hora Santa o posto de São João e dos Anjos... Sim, eu sou Vosso proprietário. Prisioneiro desse tabernáculo..., e de minha alma pobrezinha….; eu sou Vosso proprietário, como tenho sido tantas vezes Vosso carrasco... Deixai-nos, pois, nos aproximarmos de Vosso cárcere voluntário e permiti que beijemos Vossas correntes, que bendigamos os ditosos muros de Vosso calabouço; consenti que choremos de amor ao meditar no sublime e incomparável cativeiro do Filho de Deus vivo... Aqui já não foi um pecador que Vos entregou: foi Vosso próprio Coração, o ditoso, o amabilíssimo, culpável desta prisão de amor...

Permiti-nos, pois, Vos ressarcir agora das amarguras de Vosso cativeiro com o clamor de nossa humilde adoração... Aproximai-Vos, Jesus, das portas de Vosso cárcere e recolhe a prece de Vossos filhos fidelíssimos.

Nos Sacrários todos da Terra, nas Hóstias consagradas do mundo inteiro...

(Todos em voz alta)

Adoramo-Vos, Coração de Jesus-Eucaristia.

Naqueles Tabernáculos inteiramente abandonados e distantes onde ficais largos meses esquecido, entre o pó do altar...

Adoramo-Vos, Coração de Jesus-Eucaristia.

Naqueles inúmeros templos onde se ofende com irreverência a humilde majestade de Vosso Sacrário...

Adoramo-Vos, Coração de Jesus-Eucaristia.

No pavimento do Santuário, no pó do caminho, na lama, em que as mãos de um sacrílego profanaram a Hóstia consagrada...

Adoramo-Vos, Coração de Jesus-Eucaristia.

Nos lábios do que Vos recebe como Judas em seu coração manchado pela culpa...

Adoramo-Vos, Coração de Jesus-Eucaristia.

No esplendor e pompa com que a Igreja Vos louva nos cultos públicos desse sacramento do amor...

Adoramo-Vos, Coração de Jesus-Eucaristia.

No feliz retiro dos monastérios, no coração de Vossas esposas virgens, que cantam ao Cordeiro um hino de amor imaculado...

Adoramo-Vos, Coração de Jesus-Eucaristia.

Em união com todos Vossos amigos que, na adoração perpétua e na Hora Santa, vêm para reparar e para Vos visitar, oh, Deus encarcerado!...

Adoramo-Vos, Coração de Jesus-Eucaristia.

No peito do moribundo que Vos chamou em seu socorro, nesse coração agonizante que desfalece já, ferido de morte...

Adoramo-Vos, Coração de Jesus-Eucaristia.

(Pausa)

Não houve noite mais horrenda em suas dores que a noite da primeira Quinta-Feira Santa da Terra… Não tendes porque reconstituir a cena de vinte séculos atrás, almas fervorosas, quando aí tendes Jesus sentando sempre no banquinho dos criminosos... réu de um amor infinito. Aí O tendes, desde então, vendados os divinos olhos pelo pranto que Lhe arranca a tibieza dos bons, dos Seus...; aí está, objeto incessante do desprezo dos sábios e dos honrados da Terra...: aí segue sendo o ludíbrio sangrento dos que temem em Sua mesma inércia, em Seu silêncio sacramental... “Vós, que ressuscitais dos mortos – Lhe diz a incredulidade –saí, se podeis, dessa tumba...; se sois Rei, Lhe dizem os governantes, se é verdade que palpitas, Deus, nessa Hóstia, adivinha quem Vos feriu”. E O golpeiam com sacrílega legalidade, e profanam Seus templos... e insultam a mansidão de Seu Coração, que cala e que espera sempre perdoar...

Mas é, sobretudo, o pecado de altivez e de soberba o que mais Lhe ultraja na dulcíssima humildade de Seu Sacrário... É a rebeldia de Lúcifer, o orgulho humano, o excremento mais amargo de Seu cálice...

Oh!, neste dia, espera de nós, com direito, um consolo de humildade. Ah!, sim, recebei-o mil vezes, Jesus Sacramentando, em paga de amor, por aquela eterna noite de sacrílega profanação de Vossa pessoa, sofrida na Quinta-Feira Santa.

(Lento e cortado)

As almas.

Amamo-Vos, Jesus. Concedei-nos a glória de sermos pospostos, por Vosso entristecido Coração...

Amamo-Vos, Jesus. Outorgai-nos a sorte de sermos confundidos, por Vosso amargurado Coração...

Amamo-Vos, Jesus. Concedei-nos a graça de seremos desatendidos, por causa de Vosso misericordioso Coração...

Amamo-Vos, Jesus. Outorgai-nos a honra imerecida de sermos enganados, por Vosso acorrentado Coração...

Amamo-Vos, Jesus. Concedei-nos a recompensa de sermos desprezados, pela glória de Vosso ferido Coração...

Amamo-Vos, Jesus, outorgai-nos a distinção preciosa de sermos injuriados, pelo triunfo de Vosso Sagrado Coração...

Amamo-Vos, Jesus. Concedei-nos o gozo incomparável de sermos algum dia perseguidos, pelo amor de Vosso Divino Coração...

Amamo-Vos, Jesus. Outorgai-nos a coroa de sermos caluniados, no apostolado de Vosso Sagrado Coração...

Amamo-Vos, Jesus. Concedei-nos a amável regalia de sermos traídos, em holocausto de Vvosso Divino Coração...

Amamo-Vos, Jesus. Outorgai-nos a honra de sermos aborrecidos em união com Vosso Agonizante Coração...

Amamo-Vos, Jesus, concedei-nos o privilégio de sermos condenados pelo mundo, no obséquio de Vosso Divino Coração...

Amamo-Vos, Jesus, outorgai-nos a amargura deliciosa de sermos esquecidos, por amor a Vosso Sagrado Coração...

Se o discípulo não há de ser mais que seu Mestre, Vos suplicamos, Jesus, dai-nos a parte que nos corresponde nos vilipêndios de Vosso Coração Sacramentado... Consolai-Vos de todos eles, Mestre muito amado, pois estes Vossos amigos que, pondo em Vosso Lado ferido, uma palavra de humildade, Vos protestam que Vós sois nessa Hóstia sua única fortuna, seu único Paraíso.

(Breve pausa)

A Quinta-Feira Santa não foi senão a hora de caridade e de agonia daquele dia de séculos que viverá encarcerado nos altares, cativo dos corações, prisioneiro de nossos templos, Jesus-Eucaristia... A Quinta-Feira Santa do Cenáculo e do Getsêmani se perpetua para glorificação de Jesus até à consumação dos tempos; este Sacramento do amor e da fé ficará conosco até que a última Hóstia se consuma no peito do último homem que agonize...

Ah!, mas esse Sol de amor, o Coração oculto no peito de Jesus e nessa Hóstia, não permaneceu sempre velado a nossos olhos, não... Incontido em Seus ardores de caridade e nos fulgores de luz misericordiosa, pela ferida do Lado nos fala desse Coração Sagrado, com gemidos de pomba... e, por fim, se revela, um dia venturoso, em toda a magnificência de Seu amor. E é Ele, o Nazareno divino, é o Mestre da Judéia, apaixonado pelas almas... é o mesmo Agonizante adorável, o mesmo cativo triunfante do Getsêmani.... o que aparece ante os olhos extasiados de Margarida Maria, e o que, mostrando-lhe Seu Coração envolto em chamas, diz:

Eis aqui o Coração que tem amado tanto os homens...; tenho podido conter por mais tempo o amor que por eles me devora... Vede que aqui venho, pois, pedir amor por amor, coração por coração...; quero trocar Minha vida por vossa vida... Estou triste...: se Me esquece, se Me ultraja! Quero consolo, tenho ânsias de um solene desagravo numa grande festividade a Meu Coração!...Venho exigir para Ele uma homenagem, um culto vitorioso; pois por Ele tenho de reinar!...

Vinde acompanhar-Me na adoração reparadora...; vinde converter o mundo na Hora Santa... Ah, vinde comungar..., vinde, tenho sede de ser adorado no sacramento do altar!... Traze-Me almas..., muitas almas... e logo, levai-Me ao seio do lar, ao Coração do que padece, ao leito do pecador empedernido... e vereis as glórias e os prodígio de Meu amor... Tomai e recebei, nesta Eucaristia, Meu Divino Coração...; todo Ele vos pertence...; amai-O...; amai-O... e fazei-O reinar!”.

(Assim falou o Deus de Santa Margarida Maria, assim nos segue falando pela deliciosa chaga de Seu peito… Espera uma resposta nesta noite que ao esfumar-se, como uma visão do céu, irá confundir-se nas horas de uma eternidade feliz).

(Pausa)

As almas. Anjo do Gestêmani, São João e Margarida Maria, adoradores felizes do Cenáculo, Virgem Imaculada, aproximai-vos todos, velai e orai conosco, e depositai nossa última prece, não aos pés de Jesus Sacramentado, mas na feria sangrenta do Lado...

Senhor Jesus, Vós o dissestes, Vós sois Rei...; para isso viestes ao mundo; para reinar, estabelecestes o sacrifício perpétuo do altar; para reinar, nos revelastes os tesouros e as aspirações de Vosso Divino Coração... Não em vão nos assegurastes, Jesus, que por Ele incendiaríeis em Vosso amor o mundo infeliz...

Cumpre, pois, vossas promessas; estabelece já, exigimos, o reinado de Vosso amante Coração.

(Todos em voz alta)

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

1ª. Já, Jesus, sim, reinai imediatamente, antes que Satã e o mundo Vos arrebatem as consciência e profanem, em Vossa ausência, todos os estados da vida...

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

. Adiantai-Vos, Jesus, e triunfai nos lares, reinai neles pela paz inalterável prometidas aos que Vos têm recebido com Hosanas...

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

. Não demoreis, Mestre muito amado, porque muitos destes padecem aflições e amarguras, que somente Vós prometestes remediar...

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

. Vinde…, porque sois forte, Vós, o Deus das batalhas da vida; vinde, mostrai-nos Vosso peito ferido, como esperança celestial na hora da morte...

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

. Sede Vós o êxito prometido em nossos trabalhos; somente Vós a inspiração e recompensa em todas as empresas.

Venha a nós o reinado de vosso amante Coração.

6ª. E Vossos prediletos, quero dizer, os pecadores, não esqueceis que para eles, sobretudo, revelastes a ternura incansável de Vosso amor.

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

. Ai! São tantos os tíbios, Mestre, tantos os indiferentes, a quem deveis inflamar com esta admirável devoção!

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

. “Aqui está a vida”, nos dissestes, nos mostrando Vosso peito atravessado… Permiti, pois, que aí bebamos o fervor, a santidade a que aspiramos.

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

. Vossa imagem, a Vosso pedido, tem sido entronizada em muitas casas… Em nome delas Vos suplico que sigais sendo em todas o Soberano muito amado.

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

10ª. Colocai palavras de fogo, persuasão irresistível, vencedora, naqueles sacerdotes que Vos amam e que Vos pregam como João, Vosso apóstolo amado.

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

11ª. E a quantos ensinem esta devoção sublime, a quantos publiquem suas inefáveis maravilhas, reservai-lhes, Jesus, um espaço vizinho àquele em que tendes gravado o nome de Vossa Mãe.

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

12ª. E, por fim, Senhor Jesus, dai-nos o céu de Vosso Coração e a quantos compartilhamos Vossa agonia na Hora Santa, por esta hora de consolo e pela Comunhão das primeiras Sextas: cumpri conosco Vossa promessa infalível; Vos pedimos que, na hora decisiva da morte,

Venha a nós o reinado de Vosso amante Coração.

(Breve pausa)

E reclinados agora docemente em Vosso sagrado peito, deixai-nos dizer-Vos:

Bendizemo-Vos e amamo-Vos, Jesus, por todos os que Vos aborrecem.

Bendizemo-Vos e amamo-Vos por todos os que Vos blasfemam.

Bendizemo-Vos e amamo-Vos por todos os que Vos profanam com o sacrilégio.

Bendizemo-Vos e amamo-Vos por todos os que Vos negam neste Sacramento.

Bendizemo-Vos e amamo-Vos por todos os indiferentes que Vos esquecem.

Bendizemo-Vos e amamo-Vos por todos os bons que abusam da graça.

Bendizemo-Vos e amamo-Vos nesta Eucaristia com o Coração de Vossa divina Mãe, e com a caridade de todos os predestinados.

E se Vos negamos alguma vez, perdoai, oh, Deus Sacramentado!... e, em desagravo, deixai-nos Vos reconhecer no Sacrário em que Vós viveis... Se Vos ofendemos por fragilidade ou por malícia, deixai-nos Vos servir em eterna escravidão de amor eterno, porque é mais morte que vida a que não se consome em amar e em fazer amar Vosso amante, Vosso esquecido, Vosso Divino Coração, na Santa Eucaristia. Venha a nós o Vosso reino!

Pai-Nosso e Ave-Maria pelas intenções particulares dos presentes.

Pai-Nosso e Ave-Maria pelos agonizantes e pecadores.

Pai-Nosso e Ave-Maria pedindo o reinado do Sagrado Coração mediante a Comunhão freqüente e diária, a Hora Santa e a Cruzada da Entronização do Rei Divino nos lares, sociedades e nações.

(Cinco vezes)

Coração Divino de Jesus, venha a nós o vosso reino!

Ato final de consagração

Hosana a Vós, Jesus, hosana em reparação dos milhões de criaturas que ignoram por completo Vossa presença real nos Sacrários; em nome de todos eles Vos adoramos, Senhor, e Vos amamos com amor mais forte que a morte!

Hosana a Vós, Jesus, hosana em reparação dos que, crendo neste sublime mistério, vivem tranqüilos, sem comungar jamais, desprezando o maná de Vossos altares; em nome de todos eles, Vos adoramos, Jesus, e Vos amamos com amor mais forte que a morte!

Hosana a Vós, Jesus, hosana em reparação dos que crêem em Vossa Eucaristia e a profanam com horrendo sacrilégio; em nome de todos eles, Vos adoramos, Senhor, e Vos amamos com amor mais forte que a morte!

Hosana a Vós, Jesus, hosana em reparação dos que, por culpável tibieza, se afastam da mesa de comunhão e Vos recebem somente muito de tarde em tarde e com receios de um temor exagerado que Vos ofende; em nome de todos eles Vos adoramos, Senhor, e Vos amamos com amor mais forte que a morte!

Hosana a Vós, Jesus, hosana em reparação de tantos bons e piedosos, de tantos sacerdotes que poderiam ser santos unicamente se dando generosamente à devoção de Vossa sagrada Eucaristia, consagrando-se sem reserva a este amor dos amores, a este culto reparador, incomparável; em nome de todos eles, Vos adoramos, Senhor e Vos amamos com amor mais forte que a morte!

Oh, segui, Jesus, revelando as maravilhas de Vosso Coração desde essa Hóstia!... Avançai, Deus oculto e vencedor, avançai, conquistando na mesa de comunhão alma por alma, família por família, até que a Terra inteira exclame, alvoroçada: “Louvado seja o Divino Coração em sua Eucaristia salvadora...; a Ele, somente a Ele, nos altares, glória e honra pelos séculos dos séculos; venha a nós o Vosso reino!”.

Fórmula de consagração individual ao Sagrado Coração de Jesus,
composta por Santa Margarida Maria

Eu N. vos dou e consagro, ó Sagrado Coração de Jesus Cristo, minha pessoa e minha vida, minhas ações, penas e sofrimentos, para não querer mais servir-me de nenhuma parte de meu ser senão para Vos honrar, amar e glorificar.

É esta minha vontade irrevogável: ser todo Vosso e tudo fazer por Vosso amor, renunciando de todo o meu coração a tudo quanto Vos possa desagradar. Tomo-Vos, pois, ó Sagrado Coração, por único objeto de meu amor, protetor de minha vida, segurança de minha salvação, remédio de minha fragilidade e de minha inconstância, reparador de todas as imperfeições de minha vida e meu asilo seguro na hora da morte. Sede, ó coração de bondade, minha justificação diante de Deus, Vosso Pai, para que desvie de mim sua justa cólera. Ó coração de amor! Deposito toda a minha confiança em Vós, pois tudo temo de minha malícia e de minha fraqueza, mas tudo espero de Vossa bondade!

Extingui em mim tudo o que possa desagradar-Vos, ou se oponha à Vvossa vontade. Seja o Vosso puro amor tão profundamente impresso em meu coração, que jamais possa eu esquecer-Vos, nem separar-me de Vós. Suplico, por Vosso infinito amor, que meu nome seja escrito em vosso coração, pois quero fazer consistir toda a minha felicidade e toda a minha glória em viver e morrer como vosso escravo. Amém.