quinta-feira, 26 de agosto de 2010

FALSOS MOTIVOS

Nota: Este texto é continuação do post: Néo-maltusianismo, um grande golpe do inimigo

FALSOS MOTIVOS


São insubsistentes os motivos com que pretendem justificar-se os fraudadores. Examinemos alguns dos mais comuns.

1) Situação econômica

Autoriza a continência periódica desde que seja real. Nunca autorizará um ato contra a natureza. Na verdade, os que argumentam com situação econômica são, em geral, os que melhor a desfrutam. Guilherme Schimidt chegou a estabelecer como uma tese que "o temor dos filhos é fruto da abundância, e não da necessidade". Têm com que manter os próprios filhos e estão ainda obrigados em consciência a concorrer para as crianças pobres que vivem na miséria. Mas desejam uma vida cada vez mais burguesa, gozadores, impenitentes e insaciáveis.

Move-os a desmedida ambição da riqueza, a preocupação obsedante do luxo, a vaidade imbecil da ostentação. Aqueles, cuja situação econômica é deveras penosa, são os grandes procriadores em que se estaria a densidade demográfica, se o Estado acudisse à mortalidade infantil que dizima assustadoramente as classes proletárias.

2) Melhor educação aos filhos

Não consiste, porém, em colégios caros, vida folgada, estágios no estrangeiro, mimos excessivos, absoluta ociosidade servida à mão por serviçais bem pagos. Pelo contrário. Nada melhor para prejudicar a educação dos filhos! Como nada melhor para realizar uma boa educação doméstica e social do que o ambiente da família numerosa.

3) Saúde da esposa

Quer o marido poupar a saúde da esposa, em prejuízo da consciência dela impondo-lhe sacrifícios morais, enchendo-a de remorsos, atribulando-lhe o coração cristão - contanto que ele não diminua a dose de prazeres sexuais! esta é a verdade. Sei de casos em que o "delicado" esposo, para poupar a cara metade, franzida e doentia, fê-la correr o risco de uma operação esterilizadora - quando o cavalheirismo (já não digo o amor) mandava conter-se, se fosse real o motivo alegado.

Já vimos que os processos anti-concepcionais são todos eles nocivos aos cônjuges, especialmente à esposa. Ao invés, a medicina diz que é na maternidade que se realiza plenamente o organismo feminino. A maternidade é necessária à saúde e ao desenvolvimento da mulher, diz o Dr.Pinard. A maternidade é uma função normal e fisiológica do organismo feminino, junta o Dr. Guchtencere. Podíamos alinhar dezenas de citações semelhantes.

Mas não se trata somente do aspecto físico do problema. Igualmente importante é o lado psíquico. Os processos anti-concepcionais não são tão esterilizantes como parecem... Não geram filhos, mas geram perturbações nervosas. Alguns são unicamente responsabilizados pelos médicos como fonte de desequilíbrios psíquicos.

"O nervosismo da mulher contemporânea progride inquietadoramente dia a dia, escreve o Dr. Cattier em seu La Procréation Humanine. Eis um fato em que todos convêm... Já sabemos, agora, de modo seguro, que a causa do desequilíbrio da mulher reside muitas vezes na esfera genital. Deve-se perguntar se, na vida conjugal, os atos contra a lei natural e a lei fisiológica e principalmente as fraudes anti-concepcionais... não são as verdadeiras causas do desequilíbrio tantas vezes verificado".

E ele conclui esta página dizendo:

"É banal repetir que a mulher foi feita para a maternidade. É para ela uma lei inelutável: procurando fugir-lhe, ela o faz sempre em prejuízo de sua saúde geral".

O médico belga Schockaert (Mariage et Natalité) depois de acentuar os males orgânicos dos métodos neo-maltusianistas..., aponta os inconvenientes psíquicos: irritabilidade, irascibilidade, tristezas, emotividade, falta de energia e coragem, idéias de suicídio. Os estados de angústia se acentuam quando a mulher é católica - o que quase sempre acontece entre nós, o estado de pecado a abate; o remorso a tortura; o pensamento da morte a apavora. Vive sobressaltada. Repelida (dos Sacramentos) da Confissão e da Eucaristia, sente-se diminuída, humilhada em face das companheiras piedosas, retrógrada espiritual em vista dos seus tempos de vida sacramental.

Não sei como é possível preconizar o neo-maltusianismo em nome do bem-estar da esposa.

4) Ordem médica

Há um grave risco de vida com nova concepção, afirma o médico; e vai logo aconselhando a evitar filhos... Esses riscos graves são, em geral, muito fáceis em proclamá-los; mas a experiência mostra felizmente que eles são mais raros. A verdadeira medicina, em vez de secar a fonte da vida, cuja proteção e defesa é sua missão, tem feito precisamente diminuir os inevitáveis perigos que acompanham a maternidade.

Os cuidados acépticos e anticépticos reduziram a porcentagem mínimas a mortalidade obstétrica. Há um século, Semmelweis estabelecia 10% de morte nestes casos; já hoje De Lee dá 1,5% (NB: a edição deste livro é de 1955). E que fossem os perigos frequentes; poderão os homens transtornar as leis naturais, mudar a natureza das coisas e sobrepor-se à vontade de Deus? Têm com que substituir a graça divina nas almas? Irão defender seus clientes no tribunal definitivo que decide da eternidade? Para o verdadeiro "é melhor morrer do que pecar". As senhoras que morreram vítimas da maternidade, nos raros casos em que isto acontece, são verdadeiras heroínas, que não devem ser lastimadas, mas glorificadas.

São um exemplo, não apenas às outras senhoras, mas a todos os que só sabem cumprir deveres fáceis e se acovardarem diante do sacrifício. Mas, não esqueçamos de apontar o egoísmo gozador desses maridos: não sabem conter-se nem ante os riscos da vida da esposa! Ela é que deve sacrificar a consciência à sua fome de sexo.

5) A saúde dos filhos

Têm sido franzinos ou subnormais. Há casos frequentes de degenerecência na família - máculas perigosas. Preferimos, sem dúvida, uma prole sadia. Mas a eugenia nunca poderá tornar lícitos processos imorais. Recorram à continência periódica; aos atos contra a natureza, nunca. Para quem sabe o que é a graça de Deus mais valem filhos doentios do que um só pecado mortal. Os cristãos, sem perderem de vista os cuidados científicos, procriam primeiramente para gerar filhos de Deus.

Chamamos a atenção para a solução simplista e apressada de certos médicos. Correm logo ao "remédio" anti-concepcional, em vez de buscarem os verdadeiros remédios. É assim quando se trata da saúde da esposa, é assim quando se trata da saúde dos filhos. Àquela cortam os riscos, desviando-a da maternidade; destes se descartam, eliminando-os... A ciência tem já hoje preciosos recursos para prevenir males hereditários: eles os desconhecem, ou não querem aplicá-los. A lei do menor esforço diminui, ao mesmo tempo, a necessidade dos estudos e... os clientes.

No entanto, quem acompanha os progressos da pediatria, da psicoterapia, e vê como realizam verdadeiros prodígios os médicos e educadores conjugados, sabe quanto bem se pode fazer às crianças mal dotadas. Se isto não autoriza facilidades perigosas aos que vão contrair matrimônio, muito menos deve autorizar desrespeito às leis divinas e naturais aos que já o contraíram.

A Igreja reconhece as razões da verdadeira eugenia. Ainda a nova ciência não tinha organização e nome, e a Igreja já cuidava da saúde dos homens e exigia em consciência cuidados preciosos ao bem-estar da prole possível e nascitura. Nunca, porém, aprovará meios eugênicos que colidam com os princípios naturais em que se espelha a Razão Eterna, fonte imutável de toda a Moral.

Grande coisa é a saúde: muito mais importa a higidez espiritual. Na hierarquia de valores dos que se conservam fiéis à Moral mais vale a alma que o corpo, mais vale o espírito que os músculos, mais vale a virtude que a força. A humanidade cultura sábios e santos, que viveram em corpos fracos e doentios: o saber e a bondade deram-lhes auréola.

Venha a eugenia dentro da Moral. Cuide-se dos corpos, sem prejuízo das almas. Melhorem-se as condições físicas, sem detrimento das espirituais. Revigore-se a saúde, revigorando ainda mais a virtude. Que os cuidados higiênicos não sirvam para estabelecer o domínio dos instintos sobre o espírito. O progresso humano não deve ser medido pela resistência física mas pela inteligência e pela consciência.

Os que acreditam no espírito sabem que as disposições morais se transmitem aos filhos, tal como as físicas. E que mais precisamos de caracteres que de atletasO grande mal dos nossos tempos, é que os homens estão ficando menos homens. Uma eugenia que procure melhorar a "raça", em vez de elevar os homens, e que liberte as consciências dos preceitos espirituais para considerar as condições do "produto", e que repute a geração humana condicionada exclusivamente às normas da higiene - equiparando a geração dos homens com a reprodução dos irracionais, está desservindo à civilização e fazendo retrogradar a humanidade.

A maior de todas as medidas eugênicas é a virtude. Os subprodutos humanos nascem da libertação dos instintos - que é o pecado. Da impureza vêm os sifilíticos; da embriaguez, os agitados - e assim por diante. Pois, em geral, os "eugenistas" são pregadores da liberdade sexual, e não se pejam de repetir que a castidade é impossível e até nociva. Acima das necessárias condições fisiológicas, venham as mais necessárias ainda condições morais!

6) É só por algum tempo...

Fosse por única vez!... É gravíssimo pecado mortal. E não se pode cometer um pecado que seja, mesmo que para salvar o mundo.

As maternidades, em si, não são prejudiciais. Já vimos precisamente o contrário: são benéficas. E de modo geral não são tão frequentes que se tornem indesejáveis. A média apresentada pelas estastisticas é de um intervalo de dois anos no mínimo... Os primeiros filhos vêm mais próximos; os outros vão-se naturalmente espaçando. A própria amamentação é, em muitas senhoras, um óbice à concepção.

Restam os casos de excessiva fecundidade e de senhoras realmente fraquinhas - em que se pode recorrer à continência periódica.

Nunca, porém, seria lícito, por nenhum motivo, seja para que for, recorrer a processos pecaminosos. Só os que desconhecem o que seja o pecado, os que calejaram a pobre consciência, ou os que perderam a fé e o santo temor de Deus, poderão apelar para o pecado mortal, mesmo que fosse uma só vez na vida. E os que não entendem esta linguagem não são dignos do reino do céu.

7) Já tem a "família normal"

Isto é, os três filhos de que falam os sociológos e economistas. Mas esta linguagem não tem sentido em moral. Em moral cada ato fraudado é contrário à natureza e à vontade de Deus. Tanto faz ter dez filhos como não ter nenhum. Trata-se de um ato intrinsecamente mau que nenhuma razão poderá jamais contestar.

Os que se detêm no segundo ou no terceiro filho cortam o passo à felicidade, mesmo natural. Interessantes pesquisas sobre a felicidade conjugal determinam que as famílias com muitos filhos são mais felizes. Têm mais com quem compartilhar os sacrifícios e mais a quem proporcionar alegrias. Têm menos preocupações absorventes e assustadoras. A perda de um filho é sempre dolorosa, é naturalmente compensada pelos que ficam. Eis mais um castigo da própria natureza aos que calculam contra ela!

8) A intolerância da Igreja

Aliás, não se trata de uma doutrina da Igreja propriamente dita. Trata-se de uma lei natural, que a Igreja não poderá jamais modificar, nem modificará. Esta sagrada intransigência só pode honrá-la. Enquanto os bispos anglicanos (protestantes dos mais conservadores) autorizam o desrespeito às leis naturais, a Igreja mantém-se inabalável como a rocha em que Cristo a firmou. Enganam-se os que pensam que ela venha um dia a ceder nesta matéria.

A própria Bíblia é positiva, quando afirma que Onam "fazia uma coisa detestável" porque, quando se unia à esposa, "impedia que ela concebesse". E a severidade do castigo indica a gravidade da falta: "E por isto o Senhor o feriu de morte" (Gen. 38,10). De resto, contam pouco com a Igreja os cônjuges neo-maltusianos...

9) Não casou para a continência

É frequente este argumento na boca dos maridos. Laboram num engano: pensam que o casamento não exige continência. Exige, e não pequena. O nascimento de um filho exige de um marido decente o mínimo de dois meses de continência. Como o guardará, se não é capaz de conter-se uns poucos dias cada mês? Argumentando assim, ele justificará a infidelidade nas ausências ou enfermidades da esposa.

Não se casou para a continência absoluta, certo; casou-se, porém, para a continência conjugal, talvez ainda mais penosa. A esses maridos árdegos e sôfregos perguntaremos:  Casaram-se, acaso, para o pecado? Ou pensam que o matrimônio dá-lhes alvará de licenciosidade conjugal?

(Excertos do livro: Noivos e esposos, do Pe. Álvaro Negromonte)

PS: Grifos meus.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

III- AS CAUSAS DESTE AMOR

A BELEZA DE MARIA
PARTE II


III- AS CAUSAS DESTE AMOR

Ninguém duvida que Maria tenha amado a Deus. E é este amor da Virgem imaculada para com Deus que atraiu ao Seu seio o Verbo feito carne. E quem poderá dizer-nos a extensão, a veemência, e a profundidade de um amor que produziu tais efeitos?... Mas qual era a causa deste amor, a fonte do contínuo crescimento que ele experimentava?

Esta causa é dupla: o conhecimento de Deus e a Sua união íntima com Ele.

Antes de tudo, Maria conhecia a Deus com um conhecimento perfeito, que não era inferior senão ao conhecimento face a face e sem véu, na pátria celeste.

Ama-se perfeitamente o que se conhece bem, e mais o objeto conhecido  é amável e digno de ser amado, mais o coração se inflama.

Ora, aqui são dois abismos que se desvendam aos nossos olhos: - Deus, tão infinitamente amável... e Maria, que O conhecia como nunca homem algum O conheceu. Ele era o Seu Filho... e Ela era a Sua Mãe, e quem, melhor do que uma mãe, compreende e penetra os mistérios do coração do Seu Filho?...

Oh! quão inefável foi o amor que Maria hauriu nesta primeira e não única fonte!

Maria, por Sua fé e por Seu coração, via a Deus tal qual Ele é, fonte de todo bem, foco de amor, abismo de grandeza, oceano de beleza. Ela O contemplava e O conhecia mais e mais, para amá-lO sempre mais nestes trinta anos passados com Jesus, ao mesmo tempo que nEla aumentavam o conhecimento das perfeições divinas, e tornavam mais vivas as chamas de Seu amor. E estes benefícios derramados por Deus a mancheias, e cada vez mais perfeitamente conhecidos por Maria, eram novo combustível lançado nos braseiros de sua alma. (Petitalot)

Contemplando-Se, Maria sentia-Se escolhida por Deus, enriquecida por Ele de todas as prerrogativas que podem ornar uma criatura, elevada a um trono, de onde dominava todos os demais tronos, excetuado o de Deus.

Ela via o Seu Deus feito Seu Filho, e via-Se chamada a participar da incomunicável paternidade divina e também da fecundidade do Espírito Santo. E, à vista de tantas maravilhas sem iguais no passado, como sem espécimes nas idades futuras, poderia Ela amar demais?... ou mesmo podê-lo-ia amar bastante?...

Além disso, Maria amava a Deus por causa dos laços que os uniam reciprocamente. Não era Ela ao mesmo tempo filha, irmã, mãe e esposa de Deus?... E Deus A preferia tanto, que a cognominava Sua "Bem-amada", Sua "Única", a "Toda-bela".

E como é que a Virgem não corresponderia por reciprocidade a este amor do Seu Deus?...

Os pais amam os seus filhos, e não era Jesus o filho de Maria?... E que filho! Ela podia, pois, amar neste Menino Deus, o Seu filho, o mais amante, e o mais amável dos filhos, o Seu filho único, osso de Seus osso e carne de Sua carne, formado todo Ele de Sua substância.

A esposa ama o seu esposo. Desposada com o Espírito Santo e com a Santíssima Trindade, como não amaria Ela o Seu Deus, que é amor?

Sobre um assunto tão divinamente terno e tão ternamente divino, um anjo poderia apenas balbuciar; amando a Deus, amada por Deus, Maria Santíssima não Lhe era unida senão por laços de amor. Nela tudo é amor, como tudo é fogo em um forno incandescente, como tudo é água no imenso oceano.

Oh! como é admirável o coração de Maria!

Se o amor divino tão vivamente pôde comover o coração de um São Filipe Neri, que abriu uma das suas costelas para dar lugar à sua impetuosidade, se um São Francisco Xavier com igual razão sentia arder o seu peito, a ponto de ele abrir as suas vestes, para refrescar o peito, se um Santo Estanislau Kostka devia refrescá-lo com toalhas embebidas em água, se uma Santa Teresa morreu, tendo o coração transpassado por uma flecha de amor que lhe cravou um serafim, é preciso concluir que não se pode explicar nem sequer conceber o celeste e amoroso ardor que abrasou continuamente o coração da Santíssima Virgem, superior ao coração de todos os santos reunidos, na intensidade e na grandeza de Seu amor para com Deus.

Se a Santíssima Virgem pôde sustentar tanto tempo em Seu coração uma violência tão excessiva de amor, sem sucumbir, é preciso atribuí-lo a um prodígio sobrenatural, como foi um milagre ter Ela suportado em Sua alma um martírio de dor, sem por Ele morrer vitimada.

Oh! que motivo para amarmos a Maria!

Honra-se o coração de um São Francisco de Sales, de um São Carlos Borromeu, de uma Santa Teresa, porque foram abrasados do amor de Deus. Mas se pudéssemos encontrar um coração que, em amor para com Deus, igualasse os corações destes três santos unidos, não seria ele mais venerável?

Se houvesse um coração do qual se pudesse dizer que amou tanto a Deus quanto O amaram os santos todos juntos, que na solidão não se preocupava senão em pensar em Deus e em amá-lO, não mereceria ele, seguramente, um culto mais especial e mais elevado?...

Ora, o que se deveria dizer do coração de Maria, que amou mais a Deus do que a todos os santos do Antigo e do Novo Testamento?

É pouco assemelhá-lA, como fez São Bernardino de Sena, a uma fornalha ardente do divino amor. - Quis thesaurus melior quam ipse divinus amor, quo fornaceum cor virginis ardens erat? (Serm. 9 de vir.).

Depois do coração de Jesus, não há coração que mereça um amor tão alto e tão extenso como o coração de Maria, pois não há coração que possa, não digo ser comparado ao Seu amor para com Deus, mas que possa dEle aproximar-se. (Muzzarelli: Opúsculos)

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria, continua com o post: O amor supremo)

PS: Grifos meus.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Oração de São Boaventura - Santa Comunhão

Oração de São Boaventura - Santa Comunhão


(Indulgência de três anos)

Feri, ó dulcíssimo Senhor Jesus, o mais íntimo e profundo de meu ser com o dardo suavíssimo e salutar do Vosso amor, com aquela santíssima e inalterável caridade que foi brasão e timbre dos Vossos Apóstolos, para que minha alma se deleite e elanguesça com a febre sempre crescente de Vos querer mais. 

Dai à minha alma que se queime em desejos de Vós, que desfaleça nos Vossos  átrios, e deseje dissolver-se e confundi-se conVosco. Que tenha fome de Vós, ó Pão dos Anjos, Pão das almas santas, Pão nosso de cada dia, supersubstancial, fonte inexaurível de paz e suavidade.

Ó Vós a quem unicamente os Anjos desejam contemplar! Oh! que o meu coração tenha fome de Vós, que só de Vós se alimente, e que só do prazer que de Vós deriva se comovam as entranhas do meu ser; que só de Vós tenha sede, ó fonte da vida e da sabedoria e da ciência e da luz eterna, ó torrente de todos os prazeres, ó riqueza da casa de Deus, só por Vós ansie, só a Vós procure, só a Vós encontre, só para Vos caminhe, só a Vós alcance, só em Vós pense, só de Vós fale, e tudo o que fizer seja para honra e glória do Vosso nome, com humildade e discrição, com prazer e amor, com alegria e afeto, com perseverança até o fim.

Sede, Senhor, a minha única esperança: só em Vós confie, só de Vós seja rico, só em Vós me regozije e alegre, ó meu descanso, ó minha paz, ó meu amor, aroma que me inebriais, doçura que me deleitais, pão que me revigorais, refúgio que me defendeis, auxilio que me escudais, sabedoria que me iluminais, herança e tesouro que espero. Em quem só a minha alma e o meu coração vivam e se radiquem de maneira firme e inabalável. Amém.

(Missal quotidiano e vesperal por Dom Gaspar Lefebvre, 1951)

O ESPÍRITO DE SACRIFÍCIO

Nota: Havíamos transcrito apenas excertos deste texto, segue ele inteiro e finalizamos com este post o capítulo sobre a formação da vontade.

A FORMAÇÃO DA VONTADE
PARTE XI


O ESPÍRITO DE SACRIFÍCIO

"Não há nada maior no universo do que Jesus Cristo; não há nada mais sublime em Jesus Cristo que o Seu sacrifício".
(Rene Banzin, A doce França, p. 86)

Que veremos neste capítulo?
- A natureza do espírito de sacrifício;
- A sua importância;
3º- Os meios a empregar para incutir nas crianças.

1º- A natureza do espírito de sacrifício

O que é o espírito de sacrifício?
O espírito de sacrifício é uma virtude que consiste em saber sofrer por uma intenção que eleva.

Quais são as formas principais do espírito de sacrifício?
- A resignação cristã em face dos males que é preciso sofrer.

Em todo o dia há que sofrer; o calor, o frio, uma dor de cabeça, uma contrariedade, uma repreensão, uma afronta, etc.

- Uma prática espontânea de certas mortificações, que alentam e desenvolvem a virtude.
Uma criança que se haja habituada a aceitar os pequenos sofrimentos da vida, sem se queixar e a oferecê-los a Deus; que se tenha acostumado a ajudar o seu esforço pessoal e livre aquilo que as circunstâncias lhe impõe, essa criança terá o espírito de sacrifício.

2º- A importância do espírito de sacrifício

"Tudo esmorece, tudo se estiloa, tudo morre na criança a quem nada se recusa".
(Mons. Gibier, A desorganização da família, p. 315)

Qual é a importância do espírito de sacrifício?
É imensa. Por que se pode dizer que a felicidade, a virtude, a santidade e a salvação dependem dele.

Como pode o espírito de sacrifício dar a felicidade?
- Disciplinando os nossos desejos.

A felicidade, com efeito, não consiste na fruição desta ou daquela soma de vantagens materiais ou morais. É o resultado do equilíbrio entre aquilo que se deseja e o que se tem.

Ora o coração humano, entregue a si próprio, é insaciável: as satisfações que lhe são concedidas não fazem senão aumentar os seus desejos. Somente a disciplina interior, quer dizer o espírito de sacrifício, pode reduzir a ansiedade de gozar a proporções razoáveis, em harmonia com aquilo que possui.

Parece-nos sobremaneira admirável a reflexão daquele campónio que passeava na rua mais comercial duma grande cidade, à hora em que, ao cair da noite, as ondas de luzes, nas montras dos armázens, faziam rebrilhar os objetos mais variados, próprios para excitar a cobiça dos trausentes:

- Que coisa de que eu não tenho necessidade, dizia ele.

E era feliz. Devia ser um homem capaz de se sacrificar.

- Produzindo esse delicado prazer que a generosidade dá sempre aos corações bem nascidos. Quando se fazem generosamente os sacrifícios que as ocasiões  oferecem, encontra-se nisso uma tal felicidade que se tem pena quando esses sacrifícios já não são necessários. Neste mundo, quanto mais sacrifícios se fazem, mais felizes nos sentimos.

- Suprimindo o egoísmo e o mau caráter, que são as causas ordinárias duma multidão de dificuldades exteriores, que perturbam a tranquilidade e a felicidade.

É verdade que a virtude depende do espírito de sacrifício?
Não há dependência mais direta, nem mais completa do que aquela: aos dois termos corresponde mais ou menos a mesma definição; são praticamente inseparáveis; e será sempre verdadeiro o dizer-se que quem se não sabe sacrificar é incapaz de adquirir alguma virtude.

"Tendo a virtude por base e por essência o sacrifício, as virtudes mais meritórias são aquelas que se adquiriram com maiores esforços... Um homem não tem importância quando é incapaz de fazer um sacrifício".
(J de Maistre)

Como depende a santidade do espírito de sacrifício?
Não sendo a santidade mais que a virtude levada a um grau heróico, depende, como a própria virtude, do espírito de sacrifício.

Como depende a salvação do espírito de sacrifício?
Se não fizerdes penitência, não vos salvareis, diz Nosso Senhor. E que penitência farão aqueles que não sabem reprimir-se, mortificar-se, sacrificar-se?


Não farão nenhuma, e perder-se-ão.

Que conclusões derivam destas considerações sobre a importância do espírito de sacrifício?
Quem quiser assegurar a felicidade, a virtude e a salvação das crianças que tem a seu cargo, deve necessariamente habituá-las ao sacrifício. Seria um "desejo egoísta" querer desviar delas todo o sofrimento, toda a pena, toda a fadiga, toda a privação.

3- Os meios a empregar para incutir o espírito de sacrifício nas crianças

Que meios se devem empregar para incutir o espírito de sacrifício nas crianças?
É preciso:

- Não as enervar;
- É preciso por meio dum regime austero habituar as crianças a serem valorosas;
- Exercitá-las no sofrimento;
- Fazê-las praticar atos;
- Fazê-las agir sobrenaturalmente.

1º- Não se devem enervar as crianças

"Pais que favoreceis a moleza do corpo, a moleza da vontade, corrompeis as gerações em flor".
(Mons. Gibier, A desorganização da família, p. 315)

Com que devem ter cuidado os pais que não querem enervar as crianças?
Devem ter cuidado com o ardor e a frequência das suas carícias e dos seus abraços; reprimir algumas dessas demonstrações; tornar outras menos expansivas; compenetrar-se bem de que os seus filhos nada perderam com este regime, e que eles próprios serão com isso beneficiados.

Com efeito, as manifestações exageradas de ternuras esgotam o coração dos pais, e não dão às crianças senão moleza; ora, a moleza torna sensível a menor impressão.

2º- É preciso por meio dum regime austero habituar as crianças a serem valorosas

"Não basta fortalecer a alma da criança; é preciso enrijar-se-lhe os músculos".
(Montaigne, Ensaios)

Quer isto dizer que se devem submeter ao regime espartano?
Não dissemos nem pensamos nada semelhante. O regime espartano, com efeito, consistia em educar a criança, privando-a de todo o conforto.

"Adestravam-nas a suportar, sem se queixar, o frio e o calor, a fome e a sede, a fadiga e a dor. Usavam o mesmo fato em todas as estações. Dormiam sobre caniços, que eles mesmos cortavam no Eurotas. Alimentavam-nas mal, e obrigavam-nas a roubar para matar a fome. Havia concursos de resistência às pancadas. Todos os anos se chicoteavam diante do altar de Artemis, e o vencedor era o último a queixar-se. Houve crianças que morreram sem soltar um gemido...".
(Albert Malet, A antiguidade, p. 175)

Que é pois, o austero regime educativo da coragem?
Sem ir até ao excesso do regime espartano, nem mesmo caminhar resolutamente pelo caminho que conduz à Lacedemônia, parece vantajoso submeter as crianças a uma certa austeridade de regime.

Mestres experimentados recomendam este método - chamam-lhe "regime educativo da coragem": Consiste em inspirar a energia contra a dor; a privação voluntária duma injúria; a aceitação resoluta duma punição merecida; a sinceridade na confissão duma falta.

O emprego deste meio não apresenta algum perigo?
Sim.

É que o "austero regime educativo da coragem" degenera em estoicismo ou em rigidez orgulhosa. Evita-se esse perigo purificando e espiritualizando as intenções da criança.

3º - É preciso habituar as crianças ao sofrimento.

Qual é o primeiro meio a empregar para ensinar às crianças a suportarem as dificuldades?
É de não prestar àquilo que as contraria senão uma atenção relativa.

"Não lhes mostreis jamais um interesse muito grande quando as encontrardes com um parecer um pouco demudado; faz-se-lhes um mal que nem imagina com estas perguntas: 'Como estás?', olhando-a fixamente. É o meio de as predispor para as doenças e, sobretudo, para os abalos nervosos, torná-las preocupadas com a sua saúde. Temei menos os pequenos acidentes do que as emoções morais; ensinai as crianças a ser ágeis à custa mesmo de algumas contusões na cabeça".
(D.Donné, citado por Depoisier, Da educação, p. 303-304)

Qual é o segundo meio a empregar para ensinar às crianças a suportarem as dificuldades?
É o de só lhes prestar atenção proporcional às contrariedades que sofrem...

4º- É preciso obrigar as crianças a fazerem sacrifícios

"Um cristão não sucumbe, sacrifica-se"

Como podem os pais obrigar os filhos a fazerem sacrifícios?
De quatro maneiras:
1) Proporcionando-lhes a ocasião;
2) Ajudando-os a aproveitar as ocasiões;
3) Levando-os a provocarem as ocasiões;
4) Obrigando-os a prestarem contas, todas as noites, do que fizeram durante o dia.

Quais são as ocasiões de sacrifícios que os pais podem proporcionar aos seus filhos?
"Podem, por exemplo, não lhes conceder tudo quanto desejam; não lhes dar imediatamente o que eles pedem com instância; habituá-los, por meio de conselhos, exercícios e lições de coisas, a serem contrariados sem se irritarem, e esperar sem se impacientarem, a sofrer provações sem chorarem, a sentir a falta de qualquer coisa sem julgarem tudo perdido".
(Das palhetas de ouro, 1º- série, p. 113 e 133)

Como podem os pais ajudar as crianças a aproveitarem as ocasiões de se sacrificar?
- Avivando-lhe frequentemente o pensamento de fazerem um esforço;
- Indicando-lhes uma ou outra ocasião que se apresentar: obediência, privação, esmola, bom porte, amabilidade, etc.

Alguns exemplos:

- Ocupar um lugar menos cômodo, dizendo com um sorriso: "Como estou bem aqui!"

- Apresentar-se para um trabalho obrigatório com toda a naturalidade e com os modos alegres, próprio de quem nisso sente um grande prazer.

- Privar-se dum objeto de pequeno valor, dando-o sem afetação a quem, ao vê-lo, manifestou o desejo de possuir um igual.

- Colocar no seu lugar os objetos que estão fora dele, sem que se saiba que os arrumou.

- Remediar os esquecimentos.

- Proporcionar pequenas alegrias, sem que aquele que as desfruta tenha manifestado a ninguém a felicidade que lhes deviam dar.

Esta procura dos sacrifícios não ultrapassa a capacidade moral das crianças?
Não, certamente.

As crianças são em geral, muito generosas; por pouco que se incitem, lançam-se no caminho do sacrifício com uma facilidade prodigiosa; põem nisso a mesma impetuosidade que outros imprimem à aquisição dos seus prazeres.

É importante finalizar o que fazem as crianças?
Sim; é muito importante, apesar de geralmente esquecido.

A criança, com efeito, é um aprendiz; precisa dum mestre; a sua vontade é inconstante: carece dum apoio; a sua consciência não lhe basta: têm necessidade dum socorro exterior. E, no entanto, esta fiscalização não se exerce senão raramente.

Temos pedido muitas vezes às crianças da catequese que arranjem uns cadernos de lembranças em que registrem os seus sacrifícios; de quando em quando, nós examinamo-los. Mas o que mais nos admira é a indiferença dos pais. Eles deveriam ser os primeiros a querer e a empregar este meio de educação... e vemos que se desinteressam! Ah! os pais desinteressam-se frequentemente de muitas coisas!

Uma jovem, à qual nos esforçamos um dia por fazer compreender a importância dum regulamento cheio de senso, respondeu-nos:

- Mas que quer? Ninguém me fala nisso a são ser o senhor. Ninguém mais me incita a cumprir esses regulamento!

5º- É preciso fazer agir as crianças sobrenaturalmente

Que comporta esta recomendação?
Comporta uma dupla operação:

A primeira consiste em fazer oferecer a Deus os pequenos sacrifícios do dia.
A segunda consiste  em oferecer uma intenção sobrenatural ou elevada à generosa atividade das crianças.

É importante  fazer oferecer a Deus os pequenos sacrifícios de cada dia?
Sim.
E por muitas razões:

- É, primeiramente, o único meio de não perder o merecimento.

- E, além disso, este pensamento de Deus, por cuja intenção se procede, é um recurso sem igual, para sustentar a vontade da criança.

- Oferece a tua dor de cabeça a Deus, dizia uma mãe a um seu filhinho de poucos anos.
- E se eu a oferecer a Deus, Ele querê-la-á?

Esta ingenuidade, que parece desconcertante, fornece uma ocasião para uma explicação edificante e educativa; todas as mães, verdadeiramente mães, a aproveitarão com solicitude.

Que intenções se podem sugerir à criança para animar a sua generosidade ao sacrifício?
A conversão dum pecador conhecido; uma graça particular cujo valor a criança possa conhecer; a imitação do Menino Jesus e dos santos, etc.

Qual será a eficácia deste meio seriamente utilizado?
Será maravilhoso.

"A alma das criancinhas é cândida e pura, e Deus compraz-Se com esta inocente simplicidade. Ele o declara no Seu Evangelho. Quantas graças, pois, estes pequeninos seres poderiam obter do Céu por suas mortificações, para a conservação dos bons e a conversão dos maus! Quando o santo cura de Ars queria obter de Deus uma grande graça, a conversão dum pecador em particular, reunia as criancinhas, conduzia-as diante do tabernáculo e fazia-as orar com os braços em cruz. São Filipe de Nery usava do mesmo meio".
(Simon, A arte de educar as crianças. p. 119)

Todos os missionários o empregam.
Os pais e as mães deveriam inspirar-se neste pensamento sobrenatural e eficaz.

(Catecismo da Educação, pelo abade Rene de Bethléem)

PS: Grifos meus.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A PROBIDADE

A FORMAÇÃO DA VONTADE
PARTE X


A PROBIDADE

"O temor de Deus é o princípio da sabedoria, e, por conseguinte, da probidade".

Em que consiste a probidade?
Consiste na observância rigorosa e delicada de todas as leis da justiça.

Quais são os perigos que corre a probidade das crianças?
- Uns são pessoais, e nascem das paixões.
- Outros são exteriores, e resultam das ocasiões e do escândalo.

Quais são as paixões que expõem a desfalecimentos a probidade das crianças?
- É a gulodice.

Um rouba bombons, chocolate, frutas, guloseimas; outro rouba dinheiro, para poder comprar o que lhe lisonjeia o gosto e o paladar.

- É a vaidade.

Certas crianças roubam para fazer alarde do que roubaram: dinheiro ou doces. Outras roubam para poder comprar bugigangas que mostram aos seus companheiros.

- É a cólera ou o capricho.

A criança parte uma vidraça, suja uma parede, risca um móvel, rasga um livro, corta um objeto com uma faca, faz um estrago mais ou menos importante; umas vezes, procede assim, porque não está satisfeita e precisa de descarregar os nervos; outras vezes, porque nada tem o que fazer e sente necessidade de fazer alguma coisa; e, ainda outras, pelo simples prazer de irritar, de contrariar, de ver o que acontecerá...

Como é que as ocasiões são um perigo para a probidade das crianças?
A ocasião faz o ladrão, diz um provérbio, que em tudo é verdadeiro, e mais verdadeiro ainda quando se trata de crianças.

Quantas, que se tornaram ladrões, não continuariam a trilhar o caminho da probidade, se, na idade em que ensaiaram os primeiros passos na estrada da virtude, não houvessem encontrado a ocasião, quer dizer, a facilidade de praticar o mal! Por isso, são culpados os pais que expõem os filhos a frequentes tentações.

Qual é o grandes escândalo que mais pode abalar a probidade da criança?
É o espetáculo da injustiça triunfante; e, talvez ainda mais, o ilogismo de certas pessoas reputadas muito honestas, mas que não são probas.

"Certos homens, por exemplo, que vos não enganariam num centavo em uma conta, vender-vos-iam sem escrúpulo, como excelente, um cavalo em que reconhecessem um defeito irremediável, mas não redibitório; a probidade destas pessoas fica à porta da estrebaria. Outros, que se envergonhariam de vos roubar dinheiro, não vos dão aquele que vos pediram emprestado. Outros dão-vos o vosso dinheiro, e não vos restituem os vossos livros. Alguns colecionadores apaixonados de gravuras, de autógrafos, de objetos de arte, encontram na sua paixão uma circunstância de tal modo atenuante que nem sequer lhes passa pela idéia a aguilhoada do remorso da sua improbidade... Um homem considerar-se-ia desonrado, se o supusessem capaz de jogar com certas marcadas; mas, se o acaso ou mesmo a astúcia  o faz senhor dum segredo, cuja divulgação influirá certamente sobre os fundos públicos, correrá a jogar na Bolsa, seguro e firme, como quem arma um laço".
(E. Legouvé, A nossas filhas... p. 227-228)

Que meio se devem empregar para precaver a probidade das crianças contra o escândalo exterior?
Recordar-se-lhes-á o sétimo mandamento do Decálogo; dir-se-lhe-á que da vontade de Deus não há apelo; procurar-se-á convencê-las de que o procedimento dos homens em nada muda o rigor do preceito; e que, por fim, é Deus que nos há-de julgar, e que não é sensato, nem prudente, nem lógico, infringir as Suas leis.

Devemos contentar-nos com estes meios defensivos?
Não.

- Os pais empregarão sempre uma linguagem em harmonia com a equidade, a justiça e o bom direito;

- Procederão em harmonia com as suas palavras;

- Jamais permitirão a seus filhos dizerem ou fazerem seja o que for que prejudique os direitos ou a prosperidade de outrem; não os deixarão colher uma flor, nem apanhar um fruto sem licença;

- Fá-los-ão imaginarem-se no lugar daqueles aos quais estão tentados a causar qualquer prejuízo;

- E, sobretudo, acostumá-los-ão a considerarem-se sempre na presença de Deus, que declara que os roubadores jamais entrarão no reino dos céus.

Millet conta que, depois de uma tempestade tão forte que tinha arrebatado o colmo das casas e partido as asas dos pássaros, mesmo nas gaivotas, descera à praia. "Então, dizia ele, apanhei do chão uma pequena escultura em madeira, proveniente talvez dalgum navio perdido nas nossas costas. Quando minha mãe me viu com ela, ralhou-se com energia, benzeu-se e obrigou-me a ir pô-la onde havia encontrado e a pedir perdão ao bom Deus do meu latrocínio, o que eu fiz sem demora, envergonhado da minha ação".
(Rene Banzin, A doce França, p. 86)

E, se, no entanto, se sabe que a criança faltou à probidade que atitude se deve tomar?
Deve-se procurar impressioná-la, mostrando horror por semelhante ação, e manifestar tristeza, como quem está de luto.

É preciso, não obstante, conservar o fato em segredo e não humilhar o delinquente senão na medida julgada útil à sua emenda. Depois, quando se tiver ocasião oportunas, reprova-se a indignidade, mas sem alusão, faz-se ressaltar a desonra que recai sobre a família dos pequenos ladrões, mostra-se que ninguém tem confiança em quem não é duma rigorosa probidade, etc.

(Excertos do livro: Catecismo da educação, do abade Rene de Bethléem, o próximo post será sobre o espírito de sacrifício)

PS: Grifos meus.

domingo, 22 de agosto de 2010

O amor aos prazeres dos sentidos e o orgulho

O amor aos prazeres dos sentidos e o orgulho


O amor aos prazeres dos sentidos

O amor aos prazeres dos sentidos é uma paixão degradante que obscurece a inteligência e enfraquece os caracteres. Não se rebaixam ao nível dos animais aqueles que se entregam sem freio à sensualidade? Concentram todos os pensamentos, empregam todas as forças íntimas, sem saciar suas vis paixões; então, a razão desprezada e a inteligência, ou adormecida ou voltando sempre os olhos aos mesmos objetos indignos dela, estando o próprio corpo abatido pela paixão, o espírito perde a prudência, o juízo, a retidão; e os sentidos, em vez de obedecerem, ordenam; os instintos inferiores desenvolvem-se em excesso, sufocam as nobres aspirações do coração; e os afetos verdadeiros e puros desaparecem. É assim que vemos o vício tornar estúpidos homens de talento e valorosos soldados, fracos, quando já haviam afrontado rudes combates. Em outros, outrora afetuosos e respeitosos, produziu a dureza de coração e a mais negra ingratidão.

Além do mais, o viciado não guarda, em si mesmo, a corrupção de que se alimenta e que aspira por todos os poros; seu coração que se tornou qual reservatório, em que se acumulam as impurezas recolhidas pelos sentidos, transborda em torno de si; sua língua distila o logo envenenado, que, com demasiada freqüência, mancha aqueles que dele se aproximam.

Sem dúvida, se a sensualidade não causa sempre esses pavorosos estragos, nunca deixa, porém, de causar uma degradação, um enfraquecimento das potências superiores da alma naquele que domina, e de lançar os germes do mal em outras almas. O viciado exerce sempre, embora, talvez, inconscientemente, uma influência perniciosa.
O orgulho

Se a paixão da volúpia é a mais aviltante, não é a mais perigosa, nem a mais difícil de curar. As separações, e, sobretudo, as decepções, as traições das pessoas em cuja amizade confiava, podem reconduzir o homem idólatra das criaturas ao culto do verdadeiro Deus; a enfermidade pode obrigar o viciado a reprimir suas inclinações grosseiras; grandes infortúnios podem desapegar o avaro dos bens da terra.

Por vezes também o exemplo de homens virtuosos levará o libertino a refletir consigo mesmo; o ébrio, cujos excessos já lhe comprometeram a saúde, lamentará sua funesta tendência; uma salutar vergonha apoderar-se-á daqueles que têm a fraqueza de ceder a todos esses vícios e, ao menos de longe em longe, sentirão o desejo de sair de sua baixeza, mas o orgulho, essa vã adoração das próprias qualidades, essa idolatria do eu, quem poderá sanar tão grave enfermidade? O orgulhoso está contente consigo mesmo, não reconhece seus erros, não sente a necessidade de mudar de vida.

O orgulhoso encontra em si o seu próprio ídolo; e se prende muito mais a ele do que o avaro ao seu dinheiro, o sensual, às iguarias, o amante à pessoa amada na ligação pecaminosa. Quem queima incenso a outros ídolos, reconhece, por isso mesmo, que lhe falta algum bem, e vai procurá-lo fora de si; o orgulhoso, ao contrário, não confessa, de maneira alguma, sua pobreza, e nada quer dever a uma criatura; as penas, as contradições, que muitas vezes desconcertam os outros pecadores e os refreiam em sua revolta, irritam o soberbo e lhe atiçam o orgulho em vez de enfraquecê-lo; insurge-se contra a humilhação e tanto mais se envaidece quanto mais humilhado for.

Que terrível desregramento é o orgulho, quando, nunca combatido, se desenvolve ao ponto de merecer o nome de idolatria! É realmente idólatra de si mesmo, quem se constitui a si como centro de tudo, quem se compraz na contemplação de suas pretensas qualidades, quem julga severamente seus semelhantes, desprezando-os enquanto se considera superior a todos. Nada pode desiludi-lo; a sua arrogância, a sua néscia presunção inspiram horror a que dele se aproxima, mas não deixa por isso de comprazer-se em si mesmo.

Está de tal forma enamorado de sua pessoa, menospreza de tal maneira tudo quanto não lhe diz respeito, que ao próprio Deus pouco considera. Não sente necessidade do auxílio divino, tal é a confiança em seu próprio engenho, em seu talento; pretende, aparentemente, viver sem Deus, aspira a usurpar-Lhe o lugar e a dirigir os negócios deste mundo. Se lhe for observado que os desígnios de Deus podem ser contrários aos seus e inutilizar-se os esforços, revolta-se; nele existe, como um germe, a pretensão de Lúcifer: Subirei além das nuvens e serei igual ao Altíssimo (Is 14,14).

Adora-se e quer se adorado. Saber que os outros pensam nele, que se preocupam com ele, é-lhe uma espécie de volúpia. Ao ver-se admirado, prezado, sua alegria aumenta, sem, todavia, ficar ainda satisfeito. Quer que todos se submetam a ele; tem sede de domínio, e, para sentir-se contente, deverá impor as leis de sua vontade e os decretos de sua sapiência.

Que meios não empregará para conquistar a admiração? Em presença dos intelectuais, procura passar por inteligente, faz alarde de sua veia, de seu saber, de sua habilidade; com as pessoas virtuosas, mostra-se partidário da virtude, afeta a linguagem da honestidade, da lealdade, levanta-se com energia contra o vício. A preocupação de se fazer admirar nunca o abandona e faz-lhe compor o semblante, preparar frases, disfarçar os pensamentos, preparar frases, disfarçar os pensamentos, ignorando por completo a amável simplicidade.

Que pensará de mim meu intelecutor?” – eis seu único cuidado. Em caso de necessidade saberá renunciar às suas idéias, contrariar seus gostos, pronto a tudo sacrificar ante seus méritos, por outro desculpa suas faltas, dissimula suas fraquezas. Toma a máscara das virtudes que lhe faltam; por vezes mesmo, reprime outras paixões para satisfazer ao orgulho; preguiçoso, sacudirá a moleza, realizará obras difíceis na esperança de elevar-se aos próprios olhos e aos do próximo.

Tais eram os fariseus soberbos que mereceram a censura de nosso Senhor porque praticavam a virtude para serem vistos pelos homens. O orgulhoso não somente é capaz de fazer esmolas e de jejuar, como esses pérfidos inimigos do Senhor, mas é tão ávido de provocar a admiração que por vezes recorrerá a atos que, inspirados em outros motivos, seriam chamados heróicos!

Quantos gladiadores, e outros personagens sequiosos de glória, ostentaram calma e impassibilidade diante da morte, não pensando, em tão grave momento, senão em legar à posteridade um bom conceito de sua pessoa.
Quanta cegueira não causa o orgulho?

O humilde é leal, sincero; convicto de sua miséria, confessa-a a Deus e não procura ocultá-la aos homens e assim vive na verdade; é simples e reto em toda sua conduta, ante grandes e pequenos, sábios e ignorantes. Permanece em paz, não lhe perturbando a preocupação do que for pensado ou dito a seu respeito; desconhece as angústias do orgulhoso, tão numerosas quanto as pessoas com as quais tem relação.

O soberbo não procura a verdade, mas sim iludir o próximo com aparências sedutoras, tão preocupado está em agradar ou causar admiração. Procura também iludir-se a sim mesmo, querendo, a todo custo, crescer em sua própria estima, e chegando, de fato, a julgar-se inteiramente diferente do que é.

Só descobre a verdade quem sinceramente deseja conhecê-la. Ora, o orgulhoso teme a verdade, que lhe manifestaria seus defeitos e assim foge dela para precipitar-se no erro oposto.

Será necessário acrescentar que o demônio, pai da mentira, favorece esta funesta tendência, circunda em suas dobras o soberbo e o envolve numa qualidade de erros e de idéias falsas, obscurecendo-lhe a inteligência e cobrindo-a com densas trevas? Dentro em breve, esses erros aceitos, desejados, procurados, tornam-se, por assim dizer, invencíveis, e o orgulhoso chega a convencer-se de que ninguém pode divergir do seu modo de pensar. Se tivesse receio de enganar-se, talvez rezasse, pedisse a Deus a luz que Ele sempre concede aos humildes; mas, comprazendo-se em seu erro, continua a admirar-se. A idolatra-se.

Daí, quantas conseqüências deploráveis! Inveja, em relação a quem o poderia eclipsar; antipatia, ódio mesmo, contra quem não o admira, ou recusa submeter-se; cólera, se for contestado ou contrariado.

O orgulhoso é um instrumento dócil nas mãos de Satanás, e o inimigo das almas o prefere ao avaro, ao sensual e mesmo ao impudico, para ajudá-lo em sua obra de perversão; o orgulhoso, com efeito, contanto que saiba esconder sua desprezível audácia e não inspirar horror domina os fracos, forçando-os a aceitar-lhes os erros, ou então, insinua-se pelas adulações.

Todos os meios lhe convêm, contanto que faça partilhar suas falsas idéias, contanto que seja considerado como um doutor que merece ser ouvido, como um homem hábil, cujos conselhos devem ser seguidos. Desse modo arrasta em seus desvarios muita pobre gente que se deixa fascinar por ele.

Os heresiarcas foram sempre grandes orgulhosos. Em todos os tempos, os fundadores de escolas de erro, os mestres ou mero propagadores de falsas doutrinas, que perturbaram ou destruíram a fé de muitos de seus irmãos, foram levados a essas novidades pela confiança exagerada que tinham em suas próprias luzes. Constituíram-se em ídolo da própria ciência e do próprio talento. Tinham, inconscientemente a princípio, e conscientemente depois, afastado a Deus de seu coração, renegando o ensinamento divino; tais homens são legítimos agentes de Satanás...

São menos raros do que parecem esses exemplos de insano orgulho que torna o homem idólatra de sua própria pessoa. O leitor pensará talvez: “Estou longe de cair em tão deploráveis loucuras; não me iludo a tal ponto; não sacrifico tudo ao desejo de agradar ou brilhar, tenho pouca humildade, convenho, mas não encontro em mim esse orgulho néscio”. É verdade. Quem lê essas páginas, não chegou, graças a Deus, aos excessos que acabamos de descrever; mas para avaliar uma árvore é mister examiná-la ao brotar da terra a primeira haste.

A serpente que acaba de nascer não pode matar pela mordedura; a planta venenosa que começa a elevar-se acima do solo não pode causar dano; mas, se a serpente for agasalhada, alimentada, se a planta for cultivada, um dia virá em que ambas poderão tirar a vida ao homem imprudente que lhes dispensou cuidados.

A volúpia que nasce, o orgulho que aponta, contêm em si um princípio de perdição que, se não matam ainda, todavia paralisam, aniquilam as forças e o vigor espiritual. Quem combate molemente estes vícios e lhes faz concessões, quem sem se deixar arrastar pelas paixões a excessos de uma gravidade evidente, é por elas atingido, quem cede de livre propósito, e, sobretudo de modo habitual, ao amor do bem-estar, aos gozos sensuais, a sentimentos de complacência própria, faz à sua alma um caminho da verdadeira virtude e priva-se, por toda a eternidade, da superabundância de alegria e de glória que o Senhor reserva, no céu, aos que na terra foram seus fiéis amigos. Quem, ao contrário, avalia a monstruosidade destes dois vícios e sabe quanto desagradam ao Senhor, quem os guerreia sem dó, se faz jus aos favores divinos.

Piedosos leitores, embora não tenhais sequer a censurar-vos qualquer fraqueza para com esses piores inimigos de vossa salvação, embora vossa alma generosa não esteja manchada senão por faltas ligeiras que escapam à fragilidade humana e não provêm se um consentimento refletido e deliberado; cabe-nos, entretanto instruir-vos sobre as desordens graves em que caem tantos irmãos vossos: vossa compaixão para com os pecadores se dilatará, e compreendereis melhor quantas orações, quantos sacrifícios são necessários para lhes obter a conversão e a salvação.

Compreendereis também quantas expiações reclamam tais desregramentos. Foi a uma alma inocente que a Virgem Imaculada repetiu em Lourdes as palavras – penitência - penitência, penitência! – Maria desejava que este apelo, dirigido a Bernadete, fosse ouvido, não só pelos justos, como também pelos pecadores. E foi por acaso obedecida? – Não será porque os bons não souberam expiar pelos culpados, que a justiça de Deus hoje nos fere?

As expiações dos amigos de Deus têm, a Seus olhos, grande valor e são necessárias para aplacar-Lhe a justiça. E, se não forem feitas voluntariamente, não as exigirá Ele de uma maneira muito mais terrível?

(Excertos do livro: O caminho que leva a Deus, do Cônego Augusto Saudreau, edição 1944)

PS: Grifos meus.

Ver também:

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Da idolatria do povo cristão

Da idolatria do povo cristão

"Fillioli custodite vos a simulacris"
"Meus filhinhos, guardai-vos dos ídolos"
(I Jo 5,21)

Como as paixões se podem tornar em ídolos


Quem luta generosamente, pondo em Deus toda a esperança, alcança infalivelmente o triunfo; a luta poderá prolongar-se, mas acabará por uma vitória... Quem cede sem se incomodar, aquele cuja vida é assinalada por capitulações contínuas, será finalmente derrotado e cairá na escravidão; será dominado, tiranizado por suas más tendências, e, longe de gemer sob o jugo, aceita-o, ama-o, e se recusa a fazer esforços para dele se libertar.

O homem não deve aceitar senão a soberania de Deus; quando se curva sob o jugo divino, quando se prostra em presença do Senhor, submetendo-Lhe a vontade, prestando-Lhe os deveres de culto, ele se dignifica e se engrandece [diante do Senhor]; quem, ao contrário, se torna escravo dos sentidos, quando, seduzido pelos encantos ilusórios da criatura, se prostra diante dela, alienando sua liberdade para deixar o vício dominar-lhe o coração como senhor absoluto, ele se degrada e se avilta vergonhosamente...

Que ninguém  se admire se classificarmos de idolatria a conduta do cristão que se deixa levar pelas inclinações viciosas, sem opor resistência. O Espírito Santo, pela palavra de São Paulo, não denominou também idolatria a avareza e o gozo da vida a luta? "Seu deus, disse ele, é o ventre" (Fp. 3,19). E alhures: "O avaro que é um idólatra" (Ef. 5,5).

Uma única paixão não combatida pode tornar-se em ídolo e não nos devemos considerar ao abrigo da idolatria por não ser ainda completa a nossa sujeição. Quando começamos a ceder a uma tendência culpável, somos inclinados a iludir-nos; julgamo-nos ainda livres, proclamamos sinceramente que, tomando tal decisão e mantendo-a apesar das objeções e dos obstáculos, não fazemos mais que seguir a razão e dar prova de energia; na realidade, obedecemos a uma paixão inconfessada, e fortalecemo-la, obedendo-lhe. Se cedermos com freqüência, virá um dia em que exercerá abertamente seu domínio; será então difícil resistir-lhe.

Para descobrir o valor de uma alma e saber se ela é realmente escrava do vício, é mister verificar o que lhe desperta as concupiscências, lhe excita as faculdades e lhe delícia o coração. A paixão não combatida estende seu domínio até ao recôndito da alma; assim os olhares, as conversações, as leituras preferidas, os devaneios habituais, denotam-lhe as inclinações e revelam o falso deus que adora. Quais são os objetos que lhe atraem os pensamentos, e as recordações que lhe entretêm a memória?

Se os objetos que a alma procura de bom grado forem ilícitos; se, embora não proibidos em si mesmos, ela os prezar excessivamente, ao ponto de os desejar a todo custo, ou desprezar as leis divinas, para frui-los, essa alma é verdadeiramente idólatra.

Ficará, então, como que fascinada pelo objeto de sua adoração. Quando um espetáculo magnífico nos prende o olhar, quando uma melodia suave nos encanta os ouvidos, estes sentimentos nos impressionam fortemente e caímos em uma espécie de êxtase, que nos faz esquecer todos os seres, que deixam, por assim dizer, de existir para nós. Assim, também, a alma que, atraída por um objeto criado, que lhe parece fascinante, não se obriga a afastá-lo, será seduzida sem demora e perderá a noção de tudo; sua vida então se concentrará na contemplação do objeto que lhe prende os pensamentos, como se fosse para ela o único necessário.

Tal é o estado da alma idólatra.

Sente pela criatura o que experimentam por Deus as almas generosas que desejaram, procuraram e obtiveram o perfeito amor; almas que, comprendendo a beleza de Deus, se apaixonaram pelos Seus encantos, pensando nEle, lembrando-se dEle, aspirando a Ele. E Deus reina plenamente em seu espírito, em sua memória e em seu coração.

É preciso ainda, para conhecer o valor de uma alma, sondar-lhe as disposições das faculdades superiores, a inteligência, e sobretudo a vontade. Deus reina sobre um povo quando as autoridades que o governam fazem profissão de Lhe seguir as leis. Reina sobre uma alma quando as faculdades superiores Lhe estão submetidas, principalmente a vontade, rainha de todas as potências.

Que fim se propõe a vontade, que impulso motiva suas resoluções?
Visa a alma ao praticar este ou aquele ato a sua salvação, o agrado de Deus?

Se tal é a intenção que formula sinceramente antes de agir, embora perca por algum tempo a lembrança de Deus, os atos que pratica Lhe serão agradáveis. Entre as recordações que lhe ocupam a memória, entre as visões que lhe invadem a imaginação, entre os encantos que lhe comovem o coração e os desejos que a solicitam, pode haver algo de involuntário, que procura afastar sem o conseguir [tentações]. É mister descobrir a verdadeira intenção que motiva os atos, e a qual obedece livremente. Se em geral a alma obedece aos instintos sensuais, leva uma vida degradante e bestial; ... se obedece a motivos sobrenaturais, vive da fé.

Não é raro, infelizmente, encontrarem-se, mesmo entre cristãos, almas que só se propõem a satisfação dos instintos da concupiscência. A vontade pervertida põe então ao serviço do ídolo as demais potências da alma. Em vez de aplicar os recursos da inteligência em obras úteis, emprega-as na procura dos gozos; alimenta livremente a imaginação com idéias nascidas da paixão; entretém a memória com fatos passados, em que se nutriam os maus desejos. Vai, às vezes, até a sacrificar tudo ao ídolo: fortuna, saúde, a própria honra; mergulha na dor pais dignos de todo respeito e de todo afeto; despreza amigos os mais dedicados; não leva mais em conta nem Deus, nem os homens.

Não vemos, em torno de nós, exemplos de semelhante loucura? Famílias inteiras desprezam as leis divinas. Em muito lares Deus é destronado, enquanto vê Suas criaturas prestarem homenagem ou ao "deus dinheiro", ou ao "deu orgulho", ou ao "deus volúpia", ou aos três de uma vez. Todas as preocupações dessas pessoas voltam-se para o gozo e a vaidade, e parece que só foram postas no mundo para si mesmas e para seus ídolos.

Poupará a justiça divina esses insolentes, cuja vida equivale a uma desafio ao Criador? Qui habitat in caelis irredebit eos et Dominus subsannabit eos.

Rir-me-Ei de vós, diz aos pecadores esse Deus temível, julgais que vos esqueço porque vos deixo mergulhar nos baixos gozos de vossas paixões, mas virá o dia em que sentireis o peso de Minha coléra. Clamareis então: Senhor, Senhor, salvai-nos. E poderia responder-Vos: Eu não sou mais vosso Senhor e vosso Deus; vós preferistes ídolos vãos; onde estão hoje esses falsos deuses, objeto de vosso culto profano? Invocai-os e vede se vos poderão salvar de vossos males.

A idolatria reinou no mundo durante séculos. Engendrou males horríveis. Os costumes bárbaros dessa triste época foram-lhe, ao mesmo tempo, conseqüência e castigo: Deus, porém, não castigava tão severamente o crime de idolatria nos povos pagãos, como no Seu povo escolhido. Sua justiça exigia mais daqueles a quem mais deu. A culpa dos israelitas, caindo na idolatria, era muito superior à das outras nações, que não haviam recebido tantas luzes, nem ouvido com tanta freqüência a voz de Deus, chamando-as a seus deveres.

As nações católicas têm a plenitude da verdade; recebem com prodigalidade os recursos para viverem conforme as leis de Deus; quando deles abusam, grande é a sua responsabilidade, e terrível o castigo que as aguarda.

A França, que foi tão abundantemente favorecida pelos dons do céu, que ouviu tão amiúde os avisos e as exortações dos amigos de Deus, que viu tantos santos exemplos, e onde as obras de salvação foram tão numerosas, abusou de tais graças agravando assim a sua culpa, e sacrificando aos ídolos.

* Contam-se aí, mais que alhures, famílias voluntariamente pequenas. Não é esta uma prova de amor ao bem-estar, levado até à idolatria, e a causa dessa infame perseguição que ataca em primeiro lugar a alma da criança? Semelhante dissolução não pode deixar de atrair sobre um povo as maiores desgraças. Não é o amor idólatra às vantagens humanas que, em tantas províncias, leva os católicos, com o fim de obter favores governamentais, a elegerem para o Parlamento inimigos de Deus e da Igreja? E quantos funcionários e magistrados sacrificam seus deveres de cristãos e de juízes aos interesses pessoais. Não é isto renegar a Deus, preferindo-lhe um ídolo? (NOTA DE RODAPÉ)

São numerosos os ídolos modernos e os principais são facéis de distinguir. o que reina hoje, o que domina no coração de muita gente, o que rouba a Deus o lugar que Lhe é devido, é o amor aos prazeres sensuais, é o orgulho.

(Excertos do livro: O caminho que leva a Deus, pelo Cônego Augusto Saudreau, capelão Mor da Casa Mãe do Bom Pastor, edição de 1944)

PS: Grifos meus.
PS2: Trataremos em outro post sobre esses "dois ídolos modernos" citados no texto: o amor aos prazeres sensuais e o orgulho.

Prática da paciência

Prática da paciência


O apóstolo São Tiago disse que a paciência era por excelência a obra perfeita de uma alma. A terra é lugar onde se conquistam merecimentos, e portanto não é lugar de descanso, mas de trabalho e padecimento: e aquele que não sofre com paciência, sofre menos e salva-se; ao passo que sofre muito mais quem sofrer com impaciência, e pode condenar-se. A paciência deve praticar-se:

- Nas enfermidades. Estas são a pedra de toque, para discernir o espírito das pessoas. Algumas há que são devotas, e até, ao parecer, fervorosas, enquanto gozam boa saúde: mas se a enfermidade as visita, impacientam-se, queixam-se de todos, entregam-se a tristeza e cometem muitas outras faltas.

- Na morte dos parentes. Quantos há que pela perda dum parente ficam inconsoláveis, a ponto de deixarem a oração, os Sacramentos e todas as obras de piedade, chegando alguns a queixar-se até do próprio Deus! Que temeridade!

- Na pobreza, sofrendo com resignação a perda de seus interesses, confiando no Senhor, que não deixará de socorrer a quem a Ele confia.

- Nos desprezos e perseguições: pois se Jesus, sendo a própria inocência, padeceu tanto por nosso amor; que muito será que nós padeçamos alguma coisa pelo d'Ele. Diz o Apóstolo que, todo aquele que quiser viver neste mundo, unido com Jesus Cristo, a de ser perseguido.

- Nas angústias de espírito, que são os sofrimentos mais duros e custosos de suportar a uma alma que ama a Deus: são, porém, um meio de que Deus Se serve para provar os Seus escolhidos. Nestas circunstâncias deve haver sumo cuidado em não omitir nenhuma das obras de piedade costumadas, como orações, devoções, visitas, leituras espirituais etc. Pois que, ainda quando tudo pareça perdido, por se fazer com tédio e dificuldade, cumpre-se, com inteiro agrado de Deus, a Sua Santíssima Vontade.

 - Nas tentações. Almas a tão pusilânimes, que, se a tentação for mais demorada, assustam-se e julgam-se abandonadas de Deus. E não obstante Deus nunca permite que sejamos tentados além do que as nossas forças comportam, e a cada tentação vencida correspondem muitas graças de glória. É necessário, sem dúvida, pedir ao Senhor que nos livre das tentações, mas quando elas chegam, não é menos necessário resignar-nos com a vontade de Deus e pedir-Lhe força para resistir e vencer.

(Sagrada Família, por um padre redentorista, 1910)

PS: Grifos meus.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

NÉO- MALTUSIANISMO - UM GRANDE GOLPE DO INIMIGO

NÉO- MALTUSIANISMO
UM GRANDE GOLPE DO INIMIGO

(Foto: Robert Malthus)

"Qualquer uso do matrimônio, em que pela malícia humana,
o ato seja destituído da sua natural virtude geradora,
é contra a lei de Deus e da natureza,
e aqueles que ousem cometer
esses atos tornam-se réus de culpa grave".


Os erros vêm de longe quando atingem o terreno moral.  O individualismo racionalista tem velhas raízes. A Renascença iniciou muita desgraça, que os erros acumulados foram alastrando. A Reforma protestante, sendo também  um fruto, inclinou ainda mais rapidamente, caindo em abismos. O Comunismo é o último deles - e não sabemos se é possível virem outros piores. Do individualismo religioso do frade apóstata sairia facilmente o individualismo pedagógico e político de Rousseau ou o individualismo econômico de Adam Smith.

Outros individualismos viriam. Ou melhor novas formas e aplicações do mesmo sistema, em que o indivíduo se coloca no centro do mundo e da sociedade, fazendo que tudo gire em torno dele. Assim é que veio o individualismo demográfico de Malthus.

Robert Malthus, economista inglês, pastor protestante, é o responsável mais próximo por um dos mais desgraçados crimes do individualismo. O homem, levantando-se contra a comunidade, irá perseguir a espécie nas suas próprias fontes, estancando-as. O bem social da propagação da espécie humana vai reverter em mero instrumento de prazer individual sem ônus. Pouco importa que com isso se desrespeitem as mais evidentes leis da natureza. Triunfe o indivíduo, embora pereça a espécie!

Homem de pouca visão. Malthus se impressionou com o empobrecimento crescente do solo da Inglaterra e com o espantoso aumento de população nos Estados Unidos. Jogando com estes dois dados, conclui, erradamente, para todo o mundo, que as populações cresciam em progressão geométrica, enquanto a terra produzia em progressão aritmética. O remédio estava em diminuir os nascimentos.

APLICAÇÕES IMORAIS

Para alcançar seus fins propunha Malthus meio honesto: - a continência. [não para o caso tratado] Os seus continuadores tiraram conseqüências mais próximas da malícia e da fraqueza dos homens. Ensinaram o emprego de meios positivos para impedir a geração. Realiza-se o ato sexual, mas se lhe frustra o fim natural e primeiro. É o prazer sem a geração. O neo-maltusianismo teve logo numerosos propagadores tanto na Inglaterra como na França e principalmente nos Estados Unidos.

Preconizaram-se mil modos de burlar a finalidade que a própria natureza aponta à função do ato sexual. Hoje é um dos crimes mais divulgados do mundo. Tem feito a ruína de inúmeras almas, corrompendo os corações, animalizando os sentimentos, manchando a dignidade dos leitos conjugais, rebaixando as esposas à desgraçada condição de instrumento de prazer aos homens paganizados deste século.

Os que usam do matrimônio, empregando meios para evitar a geração, cometem um gravíssimo pecado mortal. Enumeremos as razões:

1º - É contra a mente de Deus

O ato sexual foi instituído por Deus para a geração. Para isto criou o homem e a mulher... Aparelhou-os orgânica e psicologicamente para o nobre mister da reprodução. Associou-os à Sua obra de Criador, porque os pais geram o corpo e Deus infunde a alma a cada novo homem que vem ao mundo. Atraiu-os e compensou-os dos encargos da geração com os prazeres dos sentidos e as alegrias espirituais da vida conjugal. Portanto, transformar o ato sexual em meio de prazer, impedindo-lhe a finalidade geradora, é agir contra a mente de Deus.

2º - É contra a natureza

A natureza indica o fim da união dos sexos. Estão no homem e na mulher, os germes de uma nova vida. Entre os animais a união só se dá para a geração: realizada esta, a fêmea se recusa sistematicamente. O ato, é, pois, realizado primariamente para a geração, embora não o seja unicamente para isto. Admite fins secundários; mas não admite que se impeça e destrua o fim primeiro. Não se pode proceder contra a natureza.

O Catecismo, na sua linguagem enérgica, enumera o pecado sensual contra a natureza entre os "pecados que bradam aos céus e pedem vingança a Deus." Para que se lhe aquilate melhor da perversidade, basta considerar que a prostituição ou mesmo a infidelidade conjugal - embora pecados mortais - são menos graves do que ele.

3º - É contra o matrimônio

No contrato matrimonial faz-se a doação dos corpos em vista da geração dos filhos, portanto. Os cônjuges se unem no matrimônio para o exercício da função sexual. Ela constitui matéria e finalidade do próprio contrato matrimonial. O cônjuge, dá-se ao outro para colaborarem ambos na procriação, que é o termo natural da função conjugal. E não se dá para nenhum ato contrário à natureza mesma do contrato - como seria realizar a união excluindo por meios positivos o seu fim natural.

4º - É contra o amor

Os homens corrompidos acordaram em chamar amor à função sexual. A sublimidade da palavra escusa-lhes a baixeza dos sentimentos. É-lhes vantajoso o disfarce. Mas a dignidade do amor não se compadece. É o amor conjugal um misto das atrações da carne e de aspirações morais. O amor tem no homem outras faces e se pode elevar às alturas do puro espiritual. Não é esta a natureza do amor conjugal. Mas seria bestial colocá-lo na esfera do instinto e confiná-lo ao sexo.

Mesmo entre cônjuges chega-se ao amor espiritual, sem o sexo; mas nunca merecerá o nome de amor a fome de sensualidade que tanto se sacia com a esposa como procura a mercenária.

Amor...

"Amor" comprado a dinheiro nas feiras da volúpia!
"Amor" que abandona a esposa, quando esta não ceva a besta humana!
"Amor" que só vê o sexo, e despreza a pessoa!

Se fosse isto o amor, como chamaríamos à dedicação desinteressada das almas nobres, ao devotamento de uma esposa cujo marido a moléstia inutilizou para tais funções, ao afeto espiritualizado de dois velhinhos em quem a idade extinguiu o fogo da paixão? A verdade é que a função sexual é separável do amor - e os que a procuram por ela não sabem o que é o amor. São tremendos egoístas - e nada mais contrário ao amor do que o egoísmo.

CONSEQÜÊNCIAS

Gravíssimo pecado mortal, tão contrário às leis divinas e naturais, à própria condição do matrimônio e do amor, é ainda o neo-maltusianismo uma sementeira de males.

1. A ciência médica condena os vários processos anti-concepcionais como nocivos à saúde, principalmente da esposa. Distúrbios nervosos e psíquicos, perturbações do aparelho genital, repercussões patológicas no sistema glandular, fibromas, adenoma uterino, etc., além dos inevitáveis perigos de infecção local, são o triste cortejo desses degradantes processos.

Copio de Ensaios de Biologia, do capítulo "A esterilidade voluntária e sua patologia", de Barbosa Quental, algumas opiniões.

"A mulher está toda organizada em vista da maternidade; a falta de reprodução ou a insuficiência de reprodução vicia todo o seu metabolismo".
(Dutalollis, em Troubes, Funcionels et Dystrophies en Gynecologie)

"Todas as vezes que o útero não produz filhos tende a fazer fibromas".
(Pinard)

"Todos os processos anti-concepcionistas são de natureza a lesar a saúde daqueles que os usam regularmente".
(Max Marcuse)

"O uso repetido dessas práticas não pode deixar de influenciar a saúde num sentido desfavorável e de provocar perturbações mentais".
(Max Cann)

"Sabido como é... que no útero e no colo uterino uma tal irritação é produzida pela introdução de produtos químicos, pelas injeções anti-sépticas e pela presença prolongada de corpos estranhos como pessários oclusivos, etc., há sérias razões para crermos que o aumento acusado dos cânceres genitais esteja ligado às práticas desta natureza".

Os que desejarem um conhecimento mais largo do assunto vejam La Limitation des Naissances de Raoul de Guchteneere e La Vie Intime des Époux de Gaston Monin. Aliás, é fácil perceber que a natureza nunca deixa violar impunemente as suas sábias leis.

2. As conseqüências sociais são igualmente graves. Alarmam-se sociólogos e moralistas com a crescente diminuição da natalidade. Os que aprofundaram o assunto ficaram horrorizados ante as perspectivas. (Ver L'Indiscipline de Moeurs de Paul Bureau, talvez o mais completo estudo sobre a questão) A derrota da França, minada de anti-concepcionismo, era prevista desde há muito, não somente por Mussolini e Rommel, mas pelos franceses a quem o vício não cegara.

No Brasil já temos centros em que o neo-maltusianismo, de mãos dadas às misérias físicas, leva o nível demográfico abaixo da necessidade de estabilidade da população. [NB: Essa preocupação não é algo relativo apenas a década de 50, comprove) Os sociólogos chamam "família normal" a que tem três filhos: dois respondem pela falta dos pais e um representa o aumento da população. Menos do que isto constitui inevitável baixa demográfica, verdadeiro suicídio de uma nação. Não estamos considerando agora o aspecto moral, mas o demográfico, deste importante problema.

E mesmo assim vemos que é criminoso o procedimento dos cônjuges que ficam no segundo filho, quando não se contentam com o "filho único", de tão perigosas perspectivas.

Os neo-maltusianistas pretendem que a limitação na natalidade diminuirá a porcentagem da mortalidade infantil. Enganam-se. Diminuirá evidente e conselheiralmente o número de crianças mortas: nascem menos, morrem menos. Mas até aumentará a porcentagem. De fato, o birth-control elimina precisamente os filhos da classe em que morrem menos crianças. As classes mais desfavorecidas de meios econômicos, educação higiênica, etc. são os que mais procriam, e onde há maior coeficiente de crianças mortas. A razão da mortalidade infantil é outra, se morrem de preferência as crianças da classe mais prolifera não é porque a mortalidade esteja na proporção da natalidade e sim por falta de educação, higiene e meios econômicos.

O remédio está não em estancar as fontes da vida, mas em acudir as classes abandonadas com assistência social, educação e recursos necessários à condigna subsistência.

*A comparação entre a natalidade e a mortalidade infantil de vários países mostra precisamente o que acabamos de dizer. Países com natalidade fraca (como a França) têm grande percentil de mortos, enquanto outros, cuja natalidade é bastante forte (Holanda) têm um baixo nível de mortalidade. Países há (Alemanha, Itália) em que, ao mesmo tempo que a natalidade cresceu, a mortalidade diminuiu, graças à divulgação dos meios de proteção à vida infantil. Esses meios, divulgados entre as classes proliferas, têm conseguido em toda parte, uma sensível diminuição na mortalidade. (NOTA DE RODAPÉ)

Se os neo-maltusianos argumentassem de verdade, deviam proceder de outra maneira. Estão sendo dizimadas as crianças? Corre risco a manutenção do nível demográfico - e então é necessário intensificar a natalidade. Imaginem um economista que reclamasse diminuição de produção por ver escassear o artigo...

Não: o remédio está em eliminar as causas das mortes das crianças - tal como tem feito a ciência com crescente eficácia. E não na solução simplista de eliminar preventivamente os filhos. Assim, ter-se-ia de eliminar muita coisa. Para evitar desastre de avião, suprimia-se a aviação...

3. Do ponto de vista moral são múltiplas as conseqüências, e cada qual mais grave.

a) Já insinuamos quanto se rebaixa o homem que faz o amor apenas a função sexual. Agravemo-lo agora com a degradante circunstância de desvirtuar esta função, arrebatando-a do serviço da espécie para o desfrute pessoal.

b) Precisaria de apontar a degradação da esposa, transformada em mera ceva de incontestável paixão sedenda de prazeres e trânsfuga das responsabilidades? Basta pensar no que exigem da mulher certas práticas anti-concepcionais, mesmo fisicamente...

c) A experiência ensina que a provocação de abortos acompanha quase sempre os cuidados neo-maltusianos. E os crimes vão se acumulando, cada qual mais grave. Abyssus abyssum invocat.

d) O egoísmo passional dos fraudadores vai-se alimentando. A diuturnidade os caleja. Embotam-se os sentimentos elevados. Recurvados sobre si, como um caracol moral, só enxergam a si próprios, seus interesses e seus sentidos, num criminoso desprezo da sociedade, do próximo e dos próprios bens superiores.

e) Atentem os maridos nestas duas últimas considerações que lhes vamos apresentar, sem pretendermos esgotar o assunto:

1) Os desentendimentos a que dá lugar a limitação da natalidade. É este um aspecto que pouco tem preocupado os maridos, e, no entanto, é importante e grave. As mulheres  se tornam, com os processos anti-concepcionais, insatisfeitas, irritadiças - nevropatas. Vai-se a paz, a harmonia do lar. Diminui a resistência espiritual, a capacidade de tolerância, e multiplicam-se os atritos.

Afastada dos Sacramentos da Penitência e da Comunhão, a mulher perde o mais forte esteio em que se apoia a alma, e começa a perder o equilíbrio. E ai de um lar cuja esposa perde a linha justa!...

Eis preparado o caminho para desgraças maiores.

2) A infidelidade conjugal é, muitas vezes, o castigos desses pecadores. Vem primeiro a suspeita. Estes processos frequentemente falham. Mas o marido confia cegamente neles. E a mulher aparece grávida!... Conheço verdadeiras tragédias por isto. São fáceis de imaginar, aliás.

* Sei de um médico que só se convenceu depois do exame de sangue para prova de paternidade. Avaliemos porém, o estado de espírito deste homem durante todo aquele tempo, e a situação doméstica sob tão opressiva atmosfera. (NOTA DE RODAPÉ)

3) As conseqüências espirituais já ficaram insinuadas. Afastamento dos Sacramentos; vida em permanente pecado mortal; progressivo abandono das outras práticas religiosas; insensibilidade espiritual, verdade da fé; extinção das inquietações e do próprio remorso - paz em charco que precede a impenitência final! O quadro é horroroso, porém verdadeiro.

(Excertos do livro: Noivos e esposos, do Pe. Álvaro Negromonte, edição de 1955)

PS: Grifos meus.