quinta-feira, 19 de agosto de 2010

HINO À VONTADE DE DEUS

HINO À VONTADE DE DEUS
(Santa Teresa d’Ávila)


Sou Vossa, Sois o meu fim:
Que mandais fazer de mim?
Vossa sou, pois me criastes;
Vossa, porque me remistes,
Vossa, porque me atraístes
E porque me suportastes;
Vossa, porque me esperastes
E me salvastes por fim:
Que mandais fazer de mim?

Morte dai-me, ou dai-me vida;
Saúde ou moléstia dai-me;
Honra ou desonra mandai-me;
Dai-me paz ou guerra e lida.
Seja eu fraca ou destemida,
A tudo direi que sim:
Que mandais fazer de mim?

Se quereis, dai-me oração;
Se não, dai-me soledade;
Abundância e devoção,
Ou aridez e esterilidade.
Soberana Majestade,
A paz só encontro assim:
Que mandais fazer de mim?

Se me quereis descansando,
Por amor o quero estar.
Se me mandais trabalhar,
Morrer quero trabalhando.
Dizei: onde? como? e quando?
Dizei, doce Amor, por fim:
Que mandais fazer de mim?


(Poesia extraída da obra: Teresa de Jesus,
Filha da Igreja, Filha do Carmelo,
publicada pelo Instituto de Espiritualidade
Tito Brandsma, S. Paulo. Páginas 90-91)

PS: Recebido por e-mail.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

II - O AMOR DE DEUS

A BELEZA DE MARIA
II PARTE


II - O AMOR DE DEUS

Deus encontra toda a Sua felicidade em amar-Se a Si mesmo; entretanto, em Sua infinita bondade, quis ser amado pelos homens. Para este fim é que Ele lhe deu este mandamento, o primeiro mandamento da lei: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração: Diliges Dominum Deum tuum ex toto corde tuo".

Entre todas as criaturas, nenhuma há que tenha realizado mais perfeitamente este preceito do que Maria Santíssima. Saiu radiante das mãos de Deus. Jamais o pecado alterará, ou simplesmente ofuscará este fogo de amor e de toda ternura.

Desde o momento de Sua Conceição imaculada, a Virgem santa descobriu em Deus tanta amabilidade, que Seu coração pulsou unicamente para Ele. E o que dá toda perfeição ao Seu amor é que, sem visar os Seus interesses pessoais, e sem outro desejo que o de agradar a Deus, Ela O amou puramente, por Ele mesmo, isto porque, sendo infinitamente amável, merece ser soberanamente amado.

E quem avaliará a intensidade deste amor?...

"Tão ardente foi ele, diz um piedoso autor (Dom. L. Rouvier: Novena completa), que foi preciso Deus fazer um milagre contínuo para que Ela não fosse consumida, em todos os instantes de Sua vida, pelas afeições ardentes de Seu coração".

Diz um santo que, quando Maria transportava o menino Jesus, podia-se exclamar: "Eis o fogo que carrega o fogo". Isto é tão verdade que, se se reunissem o amor de todos os serafins, de todos os apóstolos, de todos os bem-aventurados, todos esses amores juntos se assemelhariam a uma centelha diante do vasto incêndio do amor de Maria. É o que faz dizer a Ricardo de São Lourenço que "os serafins, embora sejam todo amor, teriam podido descer do céu, para vir aprender no sagrado coração de Maria o amor de Deus".

"Esta augusta Virgem, diz São Germano, foi maravilhosamente figurada pelo altar de propiciação, onde ardia o fogo de noite e de dia".

"Semelhante a estas flores que acompanham sempre o sol, diz São Pedro Damião, Maria tinha habitualmente os olhos de Sua alma elevados para o sol divino".

Ensina-nos São Bernardino de Sena e Santo Ambrósio, que o próprio sono, por um privilégio singular, não interrompia as afeições de amor produzidas pelo sagrado Coração de Maria.

Para termos uma idéia desta intensidade, basta considerar a fonte desse amor. Ora, esta fonte é o amor que Deus Lhe tem. Ama-a Deus e é este amor que faz com que o Padre eterno A associe À Sua eterna geração, fazendo-A Mãe de Seu Filho único, "comunicando-Lhe, como diz Bossuet, um raio de Sua fecundidade infinita". (Sermão da Anunciação)

Convém notar que o amor das crianças nasce do amor do Criador, como a flor nasce da planta que a sustenta. O amor, ou caridade, é uma virtude sobrenatural que, por isso mesmo, não pode ser adquirida nem pelo esforço, nem pela luta. Ele é um dom de Deus, dom gratuito, outorgado àqueles que o impetram com as disposições necessárias. Isto nos auxilia a compreender a origem sublime do amor incomparável da Virgem.

E é comunicado a Maria - segundo diz o eloqüente bispo de Meaux - um raio de Sua fecundidade, que Lhe comunicou Deus o dom de Seu amor. "Daí é que nasceu o amor, diz-nos ainda Bossuet, Deu-se uma efusão do coração de Deus no Seu próprio coração, e o amor que Ela tem a Seu Filho, esse lhe é dado pela mesma fonte que Lhe deu o Seu Filho único". (Bossuet: ibidem)

Que intensidade não supõe uma tal fonte, sobretudo quando se pode infiltrar em um coração tão admiravelmente disposto, como o coração da imaculada Virgem.

Como calcular a extensão desse amor?...

Dá-nos Santo Alberto Magno uma regra, que nos permite entrevê-lo em parte.

"Quanto mais um coração se esvazia de si mesmo, diz ele, tanto mais cheio será de caridade para com Deus - Ubi major puritas, ibi major charitas". (Sup. Missus est q. 15).

E quem poderá dizer quando Maria foi humilde foi humilde e desapegada de Si mesma e do mundo?... Quem o dirá?... Quem tal fizesse, diria ao mesmo tempo qual foi a extensão de Seu amor.

"O amor divino, diz São Bernardo, feriu, transpassou o coração de Maria Santíssima até à Sua última fibra". Segundo Santo Ildefonso, "o Espírito Santo penetrou Maria com Suas celestiais chamas, assim como o fogo penetra o ferro de modo que nada se vê e nada se sente nela, que não seja o fogo do amor divino". (De Ass. 5. I)

E, pois com muita razão, conclui São Bernardo, que São João A viu sob o emblema de uma mulher revestida do sol, pois Ele foi tão estreitamente unida a Deus, que nenhuma outra criatura a poderá jamais igualar". (In sig. m)

Concluamos, pois, dizendo com Santo Alberto Magno: "Tornando-Se Mãe de Deus, a gloriosa Virgem ficou repleta, por assim dizer, de toda caridade, de que nesta vida era capaz uma simples criatura". (Sup. missus, q. 61, parte 2)

"Esta caridade ardente tornou Maria tão bela aos olhos do Senhor, observa santo Tomás de Vilanova, que, arrebatado de amor por Ela, Ele desceu do céu para o Seu seio, e revestiu-Se de nossa humanidade". (In nat. Dom. conc. 4) Daí, esta exclamação de São Bernardino:

"Ó poder da Virgem, uma filha da terra tocou e arrebatou o coração de Deus".
(Pro festo B.Virg., q. 61,2)

"Mas, amado de tal modo a Seu Deus, diz Santo Afonso de Ligório, Maria exige de Seus servos, antes de tudo, que amem também a este Deus com todas as Suas forças". É o que ela recomendava um dia à bem-aventurada Ângela de Foligno, que acabava de comungar: "Ângela, sê bendita de Meu Filho, lhe dizia Ela, age, porém, de tal modo, que O ames tanto quanto o podes". (Boll: 4 de junho, c. q) Ela também disse a Santa Brígida: "Minha filha, se tu queres apegar-te a Mim, ama ao Meu Filho - Si vis me tecum devenire, ama Filium meum".

De fato, Maria não guarda para Si o amor que Lhe consagramos. Ela sabe que Ela não é o fim, mas sim, o meio. Por isso, cada vez que Lhe chamamos "Maria", Ela repete: "Jesus", diz o bem-aventurado de Montfort.

Ela não deseja que nós A amemos, senão para nos fazer amar cada vez mais ao Seu divino Filho.

Ela não é Rainha senão por ser Mãe e Filha do Rei.
Ela não é "amante das almas" e "arrebatadora dos corações" senão para conduzi-las e uni-las a Jesus, e para dar jesus àqueles que A amam.

Ó irmãos queridos em nossa doce Mãe, quereis amar a Jesus?... Quereis amá-lO muito? amá-lO ardentemente, apaixonadamente?...

Amai a Maria!

Não merece todo o vosso amor aquela que tanto amou a Deus e O amará, e cujo amor se confunde de certo modo com o amor de Deus?

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria, edição de 1945, continua com o post: As causas deste amor)

PS: Grifos meus.
PS2: Conferir demais posts deste livro aqui

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Conferência XIII - Casal sem filho

Conferência XIII - Casal sem filho
Dom Tihámer Tóth


No lugar onde se encontrava a casa da bem-aventurada Virgem-Maria, no quarto em que se deu a aparição do arcanjo Gabriel, onde Lhe deu a extraordinária mensagem de Deus, e no qual o Filho de Deus, no instante mesmo da humilde aceitação da Virgem, Se encarnou em Seu puríssimo seio, em Nazaré, cidade bendita, levanta-se hoje uma igreja cujo altar-mor tem em seu frontispício esta inscrição: "Verbum caro hic factum est - Aqui o Verbo se fez carne". O Filho de Deus, querendo vir entre nós, começou aqui Sua existência humana, sob a forma humana.

Palavras sublimes! Cada vez que as pronunciamos, recitando o "Angelus", ajoelhemo-nos. Mas o sacerdote também, na missa, genuflete quando na recitação do "Credo" chega a estas palavras: "Et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine, et homo factus est". Ele Se fez homem. O Filho de Deus se fez homem, para começar Sua carreira terrestre, sob o aspecto de uma criancinha incapaz de falar, toda pequena vida humana que começa, resplandece, diante de nós uma coisa santa. E depois que a SS.Virgem trouxe em Seus braços o Menino-Deus uma espécie de auréola sobrenatural circunda a fronte de toda mãe de família. É também santa a dignidade de mãe.

Todos acharão, pois, natural que, nesta série de instruções sobre a família cristã e o casamento ideal, eu deva chegar a este ponto e queira consagrar-lhe vários sermões: O berço é um móvel indispensável na família. A criança faz parte integrante da família. Se o casamento não se expressasse em latim senão pela "coniugium": "jugo-comum", bastariam para realizá-lo plenamente e torná-lo feliz, as duas peças do mobiliário de que já falamos anteriormente, e que auxiliam a levar alegremente este jugo comum: a mesa de família e o crucifixo.

Mas o casamento se diz também em latim "matrimonium", e isto indica um círculo inteiramente novo de obrigações: a criança precisa de um outro móvel: o berço. Dizei-me, vistes já a pequena ave fazer o seu ninho para que permaneça vazio? Ou apenas para que aí chilreie um passarinho? Não. Não há pássaro não há só um animal que assim faça, mas só o homem. Unicamente o homem descobriu essa coisa insensata: a família sem filhos.

Sim, é preciso falar disso, e bem alto, desta cátedra cristã, por delicado e difícil que seja o assunto. Consternados ouvimos jovens combinar antes se seu casamento e declararem: "Nós não teremos filhos, isto é natural, ou quando muito, um só". São porventura muito severas as palavras de Santo Agostinho, quando chama tal existência, não um matrimônio, mas sim relações pecaminosas, sancionadas pelas formas legais?

Não trememos quando ouvimos as mães e mesmo as avós dizerem à sua filha, ou à sua neta ao se casarem, e repetirem com insistência: "Minha filha, cuidado, nada de filhos, Compreendestes? Nada de filhos".

Olhemos de frente esta maneira perniciosa de ver as coisas. É preciso mostrar que a família voluntariamente estéril é como a árvore seca condenada a ser cortada. É preciso demonstrar que o filho pertence à idéia de família, não um, nem dois, mas vários. Naturalmente é preciso examinar as objeções e os pretextos que se apresentam no mundo moderno contra o filho.

Estas objeções formarão o objeto da instrução próxima. Nesta mostrarei que a exclusão do filho em uma família é um pecado. Um pecado:

I-) Contra Deus.
II-) Contra o filho.
III-) Mesmo contra os interesses bem compreendidos dos próprios esposos.


I-) UM PECADO CONTRA DEUS

Primeiramente preciso mostrar, categoricamente que o Cristianismo sempre designou o filho como fim primeiro do matrimônio, e hoje ainda com bastante coragem, levanta uma voz contra certas idéias que se espalham pelo mundo, contra um modo de agir incrivelmente frívolo, que cada vez mais perigosamente contagia os esposos, mina a felicidade familiar e ao mesmo tempo a força da nação. Esta palavra de ordem terrível, essas idéias, este modo frívolo, é o receio de filhos.

A) Precisamos constatar dolorosamente que sobre esta questão se tinha uma idéia mais bela e mais nobre já antes do Cristianismo, quer entre os pagãos, quer entre os povos anteriores a Nosso Senhor Jesus Cristo.

É muito conhecido o caso da pagã Cornélia, a quem suas amigas, visitando-a ornadas de ricas jóias, perguntavam-lhe num tom afetado: "E vós mostrai-nos vossas jóias". E esta pagã apresentou-lhes seus filhos dizendo: "Eis minhas preciosas jóias".

Não mais preciso lembrar particularmente o magnífico amor aos filhos, manifestado pelo povo do Antigo Testamento, onde a ausência do filho passava por uma vergonha. Mesmo hoje não se pode ler sem emoção nos Santos Livros as fervorosas orações que as mulheres sem filhos dirigiam a Deus, pedindo a maternidade.

B) Chega, porém, o Cristianismo, e cresce ainda mais a grandeza deste nobre sentimento.

Com uma gravidade sem exemplo, fala do papel dos pais na transmissão da vida, porque sabe que o homem recebeu da confiança divina aquela faculdade de dar a vida, e por isso os pais participam da obra criadora de Deus. A vida conjugal e o exercício do dever conjugal não são, pois, nem uma humilhação, nem um pecado aos olhos do Cristianismo. Mostram, porém, neles, traços divinos, traços que enobrecem os colaboradores do Criador.

Dar a vida! Nunca, em parte alguma o homem o pode fazer, senão aqui neste instante. O homem pode tomar a vida de mil maneiras. O homem pode destruir a vida de mil formas. Mas dar a vida, ele não o pode, salvo dar o corpo, instrumento da alma, que Deus criou no momento da formação de um novo corpo humano. Ele mesmo a criou imediatamente e a depôs neste corpo humano, menor que um ponto.

Ah! Se os esposos vivessem sempre com a idéia que o Criador Se encontra entre eles; se sentissem, por assim dizer, o ruflar das asas do anjo que o Deus Criador envia neste instante ao pequenino corpo humano!

C) Veio, porém, o mundo egoísta atual e transformou esta nobre maneira de ver.

O mundo não quer ouvir falar senão de comodidades e prazeres, mas não deseja conhecer os sacrifícios que os acompanham. Para o mundo a criança não é mais um "dom de Deus", e sim, "uma catástrofe", um peso do qual se deve libertar por todos os meio, a fim de que não se perturbem os prazeres de duas pessoas grandes.

Eis, porém, a Igreja Católica, que não teme afirmar aberta e formalmente que é um pecado contra Deus impedir, de qualquer maneira, o nascimento do filho, aconteça isto por uma intervenção humana ou de qualquer outro modo. É uma profanação e um aviltamento da vida conjugal, uma grave ofensa ás leis naturais e aos mandamentos divinos, que o mundo frívolo chama de precaução e "sabedoria", mas a que a Igreja não pode senão aplicar estas palavras de São Tiago: "Uma semelhança sabedoria não vem do alto, é terrestre, é carnal, diabólica" (Tiago, 3,15).

Sim, uma sabedoria diabólica, pois Nosso Senhor chama o demônio "homicida desde o princípio" (Jo 8,44). Se o profeta Isaías vivesse atualmente, ele diria que esses esposos fizeram um pacto com a morte, e uma aliança com o inferno (Is. 28,15). E se o salmista escrevesse hoje, faria ouvir a estes esposos estas terríveis palavras: "Amou a maldição e ela cairá sobre ele; não quis a bênção, e ela dele se afastará. Cobriu-se da maldição como de uma veste, e ela entrou como água dentro dele, e como óleo em seus ossos. Seja ela para ele como a veste que o cobre, e como a cintura que o cinge sempre". (Sl 108, 18-19)

Quem não conhece famílias sem filhos, onde tudo isto se realizou se maneira terrível? Espíritos vingadores e mudos os terrificam, assim como as doenças do corpo e do espírito, falta de coragem, abatimento, e todos os flagelos de uma consciência inquieta, pois afastar o filho por meios pecaminosos é um pecado contra a ordem formal do próprio Deus Criador.

II - UM PECADO CONTRA OS INTERESSES DO FILHO

É igualmente um pecado contra os interesses do filho, da criança.

Não podemos racionalmente duvidar que o filho faz parte da família. Eis por que a maior parte dos esposos quer receber um filho das mãos de Deus; mas um só; quando muito dois. E não mais, por nada do mundo. E não pensam o quanto eles pecam contra o filho único que possuem, não querendo, sob diversos pretextos, outros filhos.

A) Os pais de filho único têm o costume de dizer muitas vezes que não é o número que importa, e sim a qualidade; eles não darão muitos filhos à Pátria, mas somente um; este, porém, será um ilustre personagem.

Infelizmente a vida mostra muitas vezes o contrário. Mostra que os verdadeiros homens ilustres não vêm das famílias de filhos únicos, mas, sim, de famílias numerosas. Se buscarmos a causa disto, constataremos, vários filhos do que um só.

Isto parece contraditório e no entanto é assim na realidade. Onde há vários filhos, a autoridade e o amor dos pais são divididos mais racionalmente, e assim não dificultam à personalidade dos filhos, pelas ordens perpétuas, e nem quebram a força de seu caráter por lisonjas contínuas. E a prova é que há mais homens ilustres nas famílias numerosas que nas famílias de filho único.

Demais, onde há vários filhos, estes são obrigados a aprender logo cedo a se absterem de muitas coisas. Onde há vários filhos, casa um deles é forçado a se contentar com pouco, e ouvir muitas vezes responder aos seus pedidos: "Não, meu filho! Não, minha filha! É preciso isto também para teus irmãos e tuas irmãs". E isto não é um mal. É mesmo um bom princípio de educação. Porque, assim, eles aprendem melhor a prática da renúncia, e suportarão melhor, na idade adulta, as privações e as dificuldades da existência.

Ao contrário onde não há senão um só filho, os pais incessantemente o incomodam ou sem cessar o lisonjeiam. Todo o amor e todo o instinto educativo que a natureza depositou em seu coração de pais, eles o empregam agora para o seu filho único; ao infeliz não lhe fica sequer uma ocasião para firmar sua personalidade, para exercer suas faculdades de iniciativa, e eis por que, crescendo, ele se torna uma desajeitado, inepto, tímido, efeminado, sem expediente.

Mas se ordinariamente as famílias numerosas dão filhos mais bem educados que as famílias de filho único, há ainda uma outra causa. É principalmente que não são só os pais que educam os filhos, mas também os irmãos e as irmãs reciprocamente.

B) É um fato muito conhecido que a criança gosta de brincar, e para isto necessita de companheiros. Ora os melhores companheiros de brinquedos para a criança são seus próprios irmãos e irmãs. A criança que cresceu sem irmãos e sem irmãs nunca foi verdadeiramente uma criança, nunca pode viver plenamente a sua infância; sempre no meio dos grandes torna-se uma criança precoce, ao princípio um pouco arrogante, mais tarde pretenciosa, um insensível e desiludido, velho antes da idade.

O filho único, que cresce só, está pois privado dos mais felizes momentos da vida, a idade dos brinquedos, e eis por que ele se torna uma criança que se aborrece, um ser retraído, triste, invejoso, sem alegrias. Ao contrário, onde há vários irmãos e irmãs, há alegres brincadeiras e saltos, barulhos, lutas, bagunças, brigas, reconciliações, eles vivem seus momentos mais felizes, a sua infância.

Acrescentemos que os irmãos e irmãs são uns para com os outros não só companheiros de brinquedos, mas, também, são, entre si, os melhores educadores. Enquanto juntos eles se divertem, são obrigados a tomar conta um dos outros, a portarem-se com inteligência, a dominarem-se e a se privarem de alguma coisa. Assim cada um compreende que não é o centro do mundo, mas que o segundo, o terceiro, o quarto de seus irmãos e irmãs, têm tanto direito como eles.

Onde vivem juntos vários irmãos e irmãs, eles se equilibram mutuamente, se refreiam e se educam.

Há, sem dúvida, choques entre si, mas é assim que se aviva o caráter, como os seixos do riacho, que se tornam polidos e luzidios, batendo uns aos outros incessantemente.

Onde, juntos vivem vários irmãos e irmãs, cada um deles é obrigado a aprender a dominar-se, a amar seu próximo, a perdoar, a abster-se, e a praticar o desinteresse.

C) É bom ainda mostrar um terceiro aspecto interessante dessa questão. Não só os pais educam seus filhos, mas os filhos também educam seus pais.

Ensinam a seus pais a virtude de que precisam para se ornarem bons educadores. Ensinam-lhes em primeiro lugar o amor devotado até o sacrifício. Será interessante examinar a fundo a transformação proveitosa que se opera na mulher mais superficial, quando pela primeira vez põe em seus braços o filho recém-nascido. Seria interessante observar com que terno amor, com que delicadeza o pai leva o filho em seus braços robustos.

Em seguida, constatamos o sentimento de responsabilidade e o gosto que desperta nos pais o cuidado da alma  do corpo do filho. Pensam na responsabilidade que têm, em cada palavra que pronunciam diante do filho, em cada exemplo que lhes dão. Cada filho olha seu pai, sua mãe como dois seres melhores, mais sábios, mais inteligentes do mundo, são para eles o seu ideal.

E que aviso para os pais indicando-lhes o quanto pelo menos devem trabalhar para não ficarem longe desse ideal, que a alma de seus filhos evoca a esse respeito!

Não acreditais que os filhos possam ser os educadores dos pais? Pois bem! Escutai esta ingênua historieta.

Havia uma filha que, todas as manhãs e todas as noites, fazia piedosamente suas orações com a mãe. Uma noite que a mãe, tendo muito trabalho, não estava pronta para a oração, a filha lhe disse: "Mamãe venha fazer a sua oração". A mãe respondeu um tanto impaciente: "Hoje farás tua oração com teu pai". "Com papai?" diz a criança. "Mas papai não sabe rezar". Ela nunca o via rezar, e pensava, com razão, que ele não sabia fazer as orações. Há muito tempo que o pobre homem se afastara de Deus... Mas agora... aquele ingênuo aviso de uma criança inocente, abalara sua alma e o tinha retornado aos deveres religiosos.

Certamente, seria preciso uma grande dureza, para que o coração de uma mãe ou de um pai não se enternecesse, para que não se despertassem neles as santas resoluções de domínio de si, de transformação de vida, quando o olhar inocente de seu filho ou de sua filha pousasse em seus olhos com tanta confiança, amor, entusiasmo e respeito.

Sim, os filhos, são também educadores dos pais.

III - UM PECADO CONTRA OS INTERESSES DOS PAIS

Precisamo-nos adiantar na exposição das nossas idéias. A exclusão culpável do filho é não só um pecado contra Deus e contra o filho, mas o é, ainda, contra os interesses bem compreendidos dos pais.

A) Primeiramente, o filho não é um filho, é um cuidado perpétuo.

A vida dos pais é uma inquietação contínua: Pode resfriar-se, pode-lhe acontecer qualquer coisa, e, sem ele, tudo estaria acabado para nós; esse receio é fundado porque as estatísticas demonstram que morrem muito mais crianças nas famílias de um ou de dois filhos, do que nas numerosas.

Se nestas famílias numerosas, um dos filhos morre, naturalmente os pais sentem e se enlutam, mas, ao menos, lhes ficam os outros para consolá-los. Que fica, porém, após a morte do filho único? o berço vazio, o quarto da criança emudece, seus brinquedos órfãos, ficam os amargos remorsos de consciência, recordando que poderia ser de outro modo, se mãos criminosas não contrariassem os planos divinos...

B) "Mas vários filhos custam mais caro", tal a objeção mais comum.

Dou-lhe agora uma resposta muito curiosa e incrível.
Não, meus irmãos. O filho único custa mais que vários filhos.

Por toda parte onde há um só filho, não se conhecem as palavras privação e sacrifício; ao contrário, onde há vários, os pais são mais econômicos e trabalhadores.

Os esposos que afastam os filhos por meios culpáveis são mais irritáveis, menos afetuosos entre si, não se sentem bem entre as paredes de seu lar vazio e mudo.

Onde não há crianças, não há mais alegria, nem raios de sol, nem sorrisos, nem calor. É preciso procurar tudo isto fora do lar. E isto custa tão caro que se poderia, com a mesma soma, educar vários filhos.

Recordo-me o que conta em um de seus livros uma romancista húngara que passara o mais feliz e alegre natal, numa família de oito filhos, onde os pais trabalhavam duramente para sustentá-los. E quando ela perguntou aos pais, que riam com seus filhos, de que eram feitos aqueles brinquedos e presentes de todas as formas, a mãe respondeu com semblante alegre: "De madeiras, de trapos... e de amor".

O filho contribui, pois, assim, para a realização e conservação da felicidade familiar.

É verdade, o filho causa também uma multidão de cuidados, despesas, temores e sacrifícios, mas é igualmente verdade que o filho dá em troca muitas coisas aos pais: dá-lhes alegrias, sol, vivacidade, esperança, um apoio para o futuro, enfim, é um reforço da vida conjugal.

É assim que se compreende esse fato curioso, que em 50% de lares divorciados não há sequer um filho, e que em 25% há apenas um. Pode-se, pois, tirar daí uma conclusão: Mais filhos, menos divórcio, pois, seguindo os planos admiráveis da divina providência, são as mãozinhas fracas da criança que mantêm unidos os braços robustos de dois adultos.

Mas, ao mesmo tempo, que prova terrível de que o filho não é obstáculo à felicidade dos pais, e que não é a sua ausência que traz a felicidade! Pois, muitas vezes, os lares que se separam são precisamente aqueles cuja felicidade não foi perturbada pela presença de filhos.

É justamente o contrário.

O sexto mandamento, o grande mandamento da felicidade, une igualmente interna e externamente. Aquele que vive no âmbito do matrimônio transgredindo as leis divinas dá facilmente o segundo passo, pelo qual se torna infiel também fora do casamento.

C) Mas, mesmo em outro sentido, os filhos são o consolo dos pais...

Examinaremos, porém, uma outra questão: Quem os amará em sua viuvez? Se um dos esposos morre, o outro fica só: Certamente se há vários filhos ficam ao sobrevivente muitos cuidados; mas se não há filhos, então ele se encontra num abandono cem vezes mais penoso. Que consolo para o viúvo ou para a viúva a presença dos filhos cuja tagarelice recorda a voz do caro desaparecido e cujos olhos revivem o olhar do morto!

É o que experimentava o poeta norte-americanos Longfelloe, quando, após 19 anos de felicidade, a morte arrebata-lhe a esposa. Em uma de suas cartas escreveu estas linhas:

"É uma coisa penosa reconstruir uma existência destruída. Tudo cai como a areia. Mas eu experimento e sou paciente... Meus filhos vão todos bem, isto me consola, e me dá coragem... minhas filhinhas tagarelam alegremente em meu quarto, como duas avezitas. Estão alegres por celebrarem o aniversário de suas bonecas... Que mundo maravilhoso o das crianças! Como é cheio de vida... Sou feliz por contemplar estas agitações, e sinto a doçura das palavras que foram pronunciadas um dia por lábios benditos: 'Deixai vir a mim as criancinhas".

É com estas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, um pouco modificadas, que desejo terminar esta instrução: Deixai as criancinhas virem ao mundo.

Ficamos sempre profundamente emocionados, cada vez que lemos na Sagrada Escritura, o morticínio dos Santos Inocentes, cometido por Herodes. Que gritos de dor dos lábios das mulheres de Belém. Com que desespero não apertaram, contra o peito, os seus filhos, quando os algozes chegaram para matar estas vítimas inocentes! Compadecemo-nos destas mães enlutadas!

O mundo atual porém tudo mudou. O mundo atual produziu mães, que não procuram com angustiado amor salvar da morte os seus filhos, mas vão elas mesmas procurar os algozes, e pagam bem para que tirem a vida a estas crianças inocentes. Haverá no vocabulário humano uma expressão bastante forte que possa caracterizar este crime? Terá o Céu bastantes raios para castigar dignamente esta monstruosidade?

Creio que sim.

Pois, aquele que cometeu este pecado e dele não fez penitência deve esperar duas espécies de castigos aqui na terra, todos  os dois terríveis. Ou bem a sua consciência se desperta, e então não encontra em parte alguma repouso ante as sombras fúnebres dos pequeninos assassinados, ou então ele se endurece no pecado, e mata a sua consciência juntamente com os filhos, e neste caso cai em uma aridez de alma são indescritível, que lhe fica apenas um traço humano durante toda a sua vida.

Não se trata, em ambos os casos, de uma vida conjugal feliz e pacífica, mas só de um desgosto e de uma licença desenfreada, como o provam tantos exemplos tristes...

Senhor, nós vo-lO pedimos humildemente, dai à nossa pátria, que deles tanto precisa, esposos generosos, amantes de seus filhos. Amém.

(Excertos do livro: Casamento e família, por Dom Tihamér Tóth)

PS: Grifos meus.

Ver também:

O devotamento aos filhos, consolidação da harmonia conjugal
O golpe profundo
Muitos filhos: confiança em Deus
Muitos filhos e muitos netos
Filho não é doença
A mulher e o divórcio
Doutrinas anticoncepcionais -STOP
Casamento pagão - Para longe de nós essa lepra!
Exemplo de uma boa família! (foto)
O divórcio e a prole
O filho único e a família numerosa

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A ORDEM

A FORMAÇÃO DA VONTADE - PARTE IX


A ORDEM

Que se deve entender pela ordem, cujo hábito convém fazer contrair à crianças?
Damos a esta palavra uma ampla acepção; eis porque, além da ordem propriamente dita, nos referimos à regularidade sob todas as suas formas.

A ordem propriamente dita

Quais são as vantagens da ordem propriamente dita?
- A ordem economiza o tempo.

"Tendes necessidade duma coisa? Não perdereis nunca um momento a procurá-la... Encontrá-la-eis logo à mão."
(Fénelon, Da educação das filhas, cap. XI)

- A ordem encanta a vista.
"Esta bela ordem faz parte integrante do asseio; o que mais desperta a atenção é ver este arranjo tão cuidadoso."
(Fénelon, ob. cit., cap. XI)

"A ordem valoriza os objetos mais ordinários, o vestuário mais simples, os móveis mais vulgares."
(Abade Knell)

- A ordem conserva as coisas.

"O lugar que se dá a cada coisa, desde que seja aquela que mais vantajosamente lhe convém, não só para regalo da vista, mas também para conservação do próprio objeto, faz que este se deteriore menos; e, de ordinário, não se estrague por efeito de desastre."
(Fénelon, ob. cit)

- A ordem atrai a estima.

"É uma carta de recomendação que toda a gente pode ler".
(Abade Knell)

As donzelas, sobretudo, devem considerá-la como necessária à acomodação da sua vida no caminho da felicidade e da prosperidade.

- A ordem favorece a virtude.

Torna aos "criados o serviço rápido e fácil", remove "por si mesma a tentação de se impacientarem muitas vezes pelos atrasos que resultam da desorganização em que se acham as coisas que levam tempo a encontrar".
(Fénelon, ob. cit., cap. XI)

- A ordem assemelha-nos a Deus.

São Paulo na sua epístola aos Romanos, dá-nos a entender que a ordem é o sinal de Deus nas Suas obras. (São Paulo, Rom. XIII)

Como se podem obrigar as crianças a contraírem o hábito da ordem?
- Submeter-se-ão, desde o nascimento, a uma regularidade pontual, em todas as operações referentes à vida vegetativa: alimentação, sono, etc.

- À medida que forem crescendo, habitua-se-ão a arrumar os brinquedos e os objetos de que se servem.

- Nunca se lhes permitirá que deixem pelo chão os livros, as roupas, o calçado, etc.

- Ir-se-ão aperfeiçoando, confiando-se à sua responsabilidade material qualquer objeto.

- Não se lhes tolerará negligência no trajar: nem o chapéu à banda, nem a gravata mal posta, nem as botas desapertadas, nem os atacadores a arrastar, nem rasgões descosidos, nem a falta dum botão, etc.

- Felicitar-se-ão por todos os esforços que empregarem e por todas as ações que realizarem, desde que a uns e a outras presida a boa vontade.

- Dar-se-lhe-á sempre o exemplo do hábito que se pretende que elas adquiram.

A regularidade

"A primeira condição de toda a boa educação é a regularidade, porque a inteligência das crianças, como o seu caráter, como o seu coração, têm, antes de tudo, necessidade de ordem, com a qual se granjeia tanto a saúde moral como a física".
(E. Legouvé, As nossas filhas, p. 206)

Que é regularidade?
- A regularidade é essa forma superior da ordem que determina o emprego do tempo e o uso das faculdades.

Ela é necessária a toda a educação séria.
Ela exige um regulamento.
É a regularidade pessoal.

- A regularidade é essa forma delicada da polidez que produz a exatidão nas diversas relações da vida de família e de sociedade. É a regularidade familiar e social.

Por que é necessária a regularidade pessoal, a toda a educação séria?
Porque a educação exige uma ação racional, refletida, contínua e enérgica; só a regularidade é capaz de proporcionar estas vantagens.

Há muitas famílias onde a regularidade seja respeitada?
Há!

Por diversas razões, que nem sempre devem ser atribuídas à vontade, a regularidade quase se não respeita em nenhumas famílias. Na maior parte delas, a não ser nas coisas de mais alto alcance, vive-se sem regra, à mercê dos caprichos e das circunstâncias.

Que sucede às crianças em semelhante meio?
As crianças, se lhes é ministrada a educação em casa ou nalgum externato, não têm outra vigilância que não seja a dos seus professores... E Deus sabe como esta vigilância é geralmente insuficiente.

O capricho e a fantasia invadem uma grande parte da sua vida, tornam ineficazes as leves tentativas da regulamentação feitas pelo professor ou impostas pelos estudos.

Não resta o recurso do internato para suprir o que falta no seio da família?
Para fazer calar a voz da consciência, que reprova a insuficiência duma tal educação, procura-se no expediente do colégio a eficácia mais maravilhosa, dizendo:

- Bem sabemos que a vida, como se passa entre nós, não é de molde a educar bem as crianças, mas eles aprenderão a regularidade no colégio.

Pois bem: não é verdade!

Se a família só vive a seu bel-prazer, as crianças nunca aprenderão a regularidade no colégio; sofrerão o seu jugo, mas não se entranhará na sua vida. Pelo menos, enquanto os pais forem os destruidores, talvez inconscientes, mas reais, do bem que a regularidade da vida do colégio possa ter introduzido nos hábitos dos seus filhos.

Mgr. Dupanloup estigmatiza com palavras vibrantes o processo empregado:

"Quando os pais não exortam os filhos a conformarem-se com esta dura regra e com este penoso trabalho, senão com palavras como estas: 'Não tens mais que um ano para estar aqui... Só faltam três meses para as férias... quinze dias para a próxima saída'. E isto com o acompanhamento obrigado das consolações mais compassivas... Quando os pais procedem desta maneira, o que não é raro, que mais é preciso, pergunto eu. para a traição de todos os mais sérios deveres, para o aniquilamento de toda a educação?"
(Da educação, t. II, p. 263)

Que se deve pensar da irregularidade na vida da família e da sociedade?
Não nos deixemos iludir, vendo nisto um capricho da juventude que desaparece com o ardor dos primeiros anos.

Na verdade, a irregularidade tem causado múltiplos estragos: tem perturbado mais que uma vida; tem inutilizado as melhores qualidades; e, quando ela se acha inveterada, resiste muitas vezes aos esforços reunidos da ternura e da vontade.

Como pode a irregularidade perturbar a vida?
- Tornando impossível as doces reuniões da família em volta da mesa comum.

"As minhas obrigações faziam-me sair a uma hora fixa e exigiam uma regularidade absoluta nas horas das refeições. O almoço devia ser servido às onze horas em ponto. Às onze horas entrava na sala de jantar... Ninguém! Algumas vezes nem mesmo estava nada sobre a mesa! A senhora tinha dado as ordens muito tarde ou se o almoço estava pronto, era a senhora que não estava. Esperava dez minutos, um quarto de hora e, aborrecido, começava sozinho uma refeição que me fazia mal, porque comia só, porque comia muito depressa, porque comia de mau humor. Tentava, por vezes, algumas observações, ligeiras ao princípio, depois mais vivas. Minha mulher recebia umas e outras com o mesmo ar amável, o mesmo desejo de se corrigir; mas, dezesseis anos de maus hábitos tinham tão profundamente enraizado nela o seu defeito nativo, que ele triunfou das melhoras resoluções. Depois de alguns dias de regularidade, as demoras recomeçaram, e eu tive de renunciar a esta agradável reunião da manhã à mesa comum; almoçava só no meu gabinete, e não via minha mulher senão à tarde."

(E. Legouvé, As nossas filhas e os nossos filhos, p. 205-208)

Submetendo a uma prova demasiado dura a paciência e a boa harmonia...

Como é que a irregularidade estraga as melhores qualidades?
- Tornando-se inúteis, por haver deixado perder as ocasiões que as fariam valer.

"O marechal Gouvion-Saint-Cyr, refere, nas suas Memórias, que um general cheio de fogo e de gênio militar, mas habitualmente falto de pontualidade por preguiça, perdeu a honra duma vitória certa por ter chegado ao campo da batalha meia hora mais tarde da marcada".

(E. Legouvé, As nossas filhas e os nossos filhos, p. 209-221)

- Empanando essas qualidades com certos defeitos muito odiosos, filhos da irregularidade: a mentira, por exemplo.

"Todo o homem falto de pontualidade é forçosamente um mentiroso. Quer queira, quer não, mentiu, mente ou há-de mentir".
(E. Legouvé, As nossas filhas e os nossos filhos, 209-221_

Como chegaremos a fazer praticar às crianças a regularidade familiar e social?
- Dando-lhes sempre o exemplo;
- Reprimindo toda a irregularidade sem motivo;
- Resguardando-as contra a influência do mau exemplo;
- Ensinando-lhes a aproveitar o tempo que a irregularidade lhes deixa à disposição.

Qual é a importância do bom exemplo dado pelos pais na prática da regularidade?
É capital.

Sem exemplo, os melhores conselhos tornam-se ineficazes.

É necessário reprimir toda a irregularidade sem motivos?
Sim, porque um defeito não combatido desenvolve-se e toma rapidamente proporções desastrosas.

Por que é preciso resguardas as crianças contra os maus exemplos?
Porque a irregularidade é muito frequente.

E, como ela se combina bem com a preguiça que se oculta no fundo de cada um de nós,  tem probabilidades de provocar, naqueles que se não defendem. esta forma particular da sensualidade que se chama a sem-cerimônia e o deixa-correr.

Qual será então o melhor meio de se defender?
Será os indivíduos metódicos e, portanto pontuais, aproveitarem o tempo que passam à espera dos que o não são...

(Excertos do livro: Catecismo da educação, pelo Abade René de Bethléem, continua com o post: A probidade)

PS: Grifos meus.

domingo, 15 de agosto de 2010

Se não quisermos viver bem...

Se não quisermos viver bem...


Se não quisermos salvar-nos, quem nos salvará, mau grado nosso?

Os amigos?... O confessor ou o diretor?... Os Santos e a Virgem?... A inteligência?... A Graça...A  velhice?... O sacerdócio?... Os milagres? Não, de modo nenhum. E vamos prová-lo.

(Por método analítico, especificamos e separamos estas diferentes causas. Mas há algumas que se compenetram. Assim, é evidente que a Graça não é separável de Deus).

a) Os amigos

Podem prestar-nos muitos serviços, ser inteiramente dedicados, morrer por nós, mas não substituir-nos no negócio da salvação. O amigo mais terno é impotente para nos levar ao céu, se recusarmos, e terá de confessar: "Não posso nada sem ti".

b) Os confessores, os diretores espirituais

Mostram-nos o bom caminho. A nós incumbe trilhá-lo. Não basta que nos indiquem a direção: devemos segui-la.

Suponde que um marinheiro tem um bússola de uma precisão perfeita e os sinais de um farol. Se não fizer caso desta bússola e deste farol, perder-se-á apesar do instrumento de precisão, apesar das luzes de aviso.

Assim nós, no mar do mundo, temos estas bússolas, estes faróis que se chamam confessores, diretores, pregadores, autores ascéticos. Mas devemos, além disso, obedecer às suas sugestões.

c) A Santíssima Virgem, os Santos

São modelos; mas um artista não se pode contentar só com ter um modelo: deve imitá-lo. Na arena da virtude, os Santos assemelham-se a treinadores... Mas imaginemos que um homem apesar dos treinadores excelentes, fica imóvel; como ganharia estão um prêmio de corrida?

d) Deus

Incita-nos ao bem de mil modos... mas este mesmo Deus deu-nos o livre arbítrio e espera a nossa decisão generosa. "Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti". (Santo Agostinho)

e) As luzes da inteligência

Iluminam as provas racionais da religião. Sim, mas colocados diante do sol, podemos voltar-lhe as costas.

"A luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas que a luz, porque as suas obras eram más. Com efeito todo aquele que faz o mal, odeia a luz". (Joan. III 19 e 20).

Todos nós conhecemos pessoas de inteligência perspicaz, que, todavia, vivem mal.

Estas pobres existências carecem de fundamento estável.

São uma perpétua contradição entre os princípios e o procedimento, entre o crer e o fazer. Conhecer a verdade e viver a verdade, são, infelizmente duas coisas diferentes: a sua distinção não é uma sutileza racional, mas uma verificação de fatos.

Esta falta de lógica nota-se não só nas pessoas das classes ordinárias, mas em homens distintos, nos aristocratas do pensamento e da arte, em sábios ilustres. "Ciência não é virtude", dizia Platão.

O nobre Péguy deixou-nos páginas magníficas sobre a Eucaristia. Apesar disso, não comungava. Durante a guerra, antes de um assalto singularmente perigoso, os oficiais receberam a comunhão. Pégut, o cantor da Eucaristia, absteve-se... Sem dúvida, não era nem indiferença, nem desprezo. Mas contraíra uma união que não pudera regularizar ainda. O poeta encontrava-se laqueado numa situação que lastimava, é verdade, mas que deploravelmente não suprimia...

f) Graça

Os teólogos ensinam-nos que algumas vezes ela é "necessitante". Mas acrescentam que, na imensa maioria dos casos, é simplesmente convidativa e que a nós pertence responder a este divino convite.

Lancemos mão de algumas comparações, para compreender que não basta ter uma ocasião preciosa, mas que importa aproveitá-la.

Suponhamos que o melhor médico do mundo apresenta o melhor remédio do mundo no mais belo prato do mundo. É preciso ainda que o doente se dê ao cuidado de estender a mão, para tomar esse remédio.

Eis que este mesmo doente passa diante de uma farmácia onde está exposto um medicamento que deu cem vezes boa conta de si. A cura será obtida só pelo fato deste homem descobrir uma droga por detrás de uma vitrina? Tem de comprar o produto e servir-se dele.

Outra hipótese: alguém vê uma fortuna. não será rico senão com a condição de pegar nesse dinheiro. Muitos empregados, nos bancos, são pobres, quando incessantemente manipulam avultadas letras... mas avultadas letras que não lhes pertencem.

Última suposição. Oferece-se uma iguaria a um esfomeado. O insensato despreza-a. De que serve então o alimento?

Resumamos: pode-se continuar doente junto do remédio; pode-se continuar pobre, junto de montes de ouro; pode-se continuar esfomeado, junto de uma mesa bem provida.

Eis, pois, sob a forma de uma tríplice imagem, toda a história dos que se recusam a cooperar com a graça. Essa graça, remédio, riqueza, alimento da alma, é-nos oferecida por Deus. Mas espera que façamos o gesto tão simples de a aceitar, de "colaborar". O dom vem d'Ele; a aceitação vem de nós. Falta-nos a boa vontade? Nesse caso, as graças não passam de proposições sem resposta.

Não poucos, infelizmente, maltratam estas diligentes antecipações divinas. Loucura!

Que pensaríamos de um homem que se deixasse morrer de sede, junto de uma água cristalina, fresca, abundante? Pois bem; muitos homens, postos junto de uma fonte viva de graças, recusam dessedentar-se.

Será necessário descer a algumas aplicações?

Lisieux é uma das fontes espirituais de que falamos. Ora, Chéron, antigo Ministro, veio a ser presidente do conselho municipal de Lisieux. Conhecera Teresa Martin, a futura Santa tamanhinha, e afirma-se que, para a entreter, tocava harmônica no compartimento por detrás da loja. Os anos passam. Teresa é canonizada; Chéron é nomeado para chefiar a administração desta cidade onde incessantemente cai uma chuva de rosas, onde afluem milhares de peregrinos.

E ele, que viu tudo isso, abraçou a religião? Reconheçamos lealmente que não exerceu nenhum sectarismo contra o Carmelo. Sei até de uma excelente testemunha, que vive em Lisieux, que o presidente do município se descobria quando passava diante da capela de Santa Teresa e que por fim consentiu que rezassem à Santa por ele. É já alguma coisa, e a amável Santa e Cristo misericordioso não podiam esquecer isso. Ignoramos o juízo divino. Apesar disso, temos o direito de notar que o Senhor não nos pede só que tiremos o chapéu, mas que demos o coração. Não basta consentir que os outros rezem, temos nós próprios de rezar.

De esperar é que o extinto fizesse mais que descobrir-se e autorizar orações. Verificamos somente que as provas faltam, e que, exteriormente ao menos, não houve, da sua parte, um esforço decisivo do ponto de vista sobrenatural...

g) Velhice

Converte necessariamente, dir-se-á. Quando o homem experimentou a decepção dos prazeres, quando já só tem paixões amortecidas, quando se sente próximo do ataúde e do grande Tribunal, como poderia não refletir e não se voltar para Deus?

Ah! sim, as coisas deviam passar-se deste modo.
Mas esta ordem normal tem muitas exceções. (Trata-se agora de conversões. Mas poderíamos fazer a mesma observação se falássemos do progresso na virtude e da perfeição. "De que serve viver muito tempo, já que nos corrigimos tão pouco? Ah! uma longa vida nem sempre corrige; muitas vezes aumenta ainda as nossas faltas. Há alguns que contam os anos da sua conversão; mas muitas vezes, quão pouco se mudaram e quão estéreis foram esses anos! Se é terrível morrer, talvez seja mais perigoso viver longo tempo." - Imitação, L. I, cap. XXIII: Meditação da morte).

Tenhamos a coragem de reconhecer a realidade, porque, segundo a expressão inglesa, "um fato é mais respeitável que um Lord Maior".

Ora, a história mostra-nos muitos desses fatos mais respeitáveis que os Lordes Maiores.

Mons. Baunard começa assim o capítulo XXV do Vieillard: "É muito cedo - e podemos calá-lo? - que ao lado e abaixo das belas e santas velhices... há um grande número de velhices profanadas, desonradas: as velhices sem Deus." E este capítulo XXV acumula os exemplos.

É lamentável! Nos jovens, o vício tem um dourado de poesia artificial. Mas no velho! Nem sequer é já um prazer, mas um tique vergonhoso. "Senilis amor foetet".

Que dó, essas obsessões senis de memórias libidinosas! E todavia, isso existe...


Que o pecado seja a impureza, ou o orgulho, ou a revolta ou a indiferença, o certo é que a obstinação não se cura sempre com a idade. Anatole France expirou, sem ter deposto, aos oitenta anos, o seu asqueroso cepticismo. Voltaire chegou aos oitenta e quatro anos. No fim da vida, escrevia muitas vezes ao fundo das cartas, antes da assinatura, esta fórmula: "A sombra de Voltaire". Era, pois velho e dizia-o; percebia que já não era um homem, mas a sombra de um homem; e assinava esta confissão. Apesar de tudo, retratou a sua obra de escândalo? Doellinger morreu no seu nonagésimo primeiro ano! Até ao último momento não teve a humildade de se submeter ao Papa e regressar à Igreja.

Há alguns meses, no intervalo de dois retiros sacerdotais de Saint-Brieuc, tive ocasião de ver a estátua de Renan, colocada junto da catedral de Tréguier, como um reto ímpio. Renan nascera na católica Bretanha; esteve algum tempo em Saint-Sulpice; atingiu avançada velhice. E, diante desta estátua, a mim próprio perguntava se não se realizava talvez para ele e para alguns outros, que por aí têm os seus bronzes, a terrível reflexão de Santo Agostinho:

"São louvados onde já não estão; são castigados onde estão"
 Laudantur ubi non sunt; cruciantur ubi sunt"...

h) Sacerdócio

Para o sacerdote, como para os leigos, vale a grande lei de que é preciso corresponder aos favores divinos. Ora, até nas fileiras do sacerdócio, pode haver falta de correspondência à graça. O infeliz Turmel, "excomunicatus vitandus, degradandus", posto no Index por catorze livros disfarçados sob falsos nomes, obstina-se em multiplicar publicações anti-religiosas. Ei-lo no entardecer da vida. Nasceu em 1854. Faça-se a conta!... [NB: a edição deste livro é de 1949]

Loisy (substituído por um outro desertor) retirou-se do combate. Experimentou a necessidade de escrever as suas Memórias. Pungentes! Ousa pretender que muitos dos seus confrades no sacerdócio pensam como ele, simplesmente lhes falta a franqueza.

É lançar indignamente a suspeita sobre todo o corpo sacerdotal. Demais (e isto faz arrepiar) pede que nos seus últimos momentos não chamem um padre e retrata antecipadamente toda a retratação, porque, diz, um gesto de penitência não se explicaria senão pelo delírio da agonia ou pelo enfraquecimento das faculdades mentais.

É horrendo o caso deste sacerdote que toma antecipadamente precauções para que um outro sacerdote o não venha absolver no último momento!

Pode-se, pois, encontrar a infidelidade à vocação em toda a parte, até no sacerdócio.

i) Milagres

Tal adversário exclama: "Veja eu um milagre e converte-me-ei".

Primeiro que tudo, notemos que é insolência pedir um milagre, e presunção contar com ele. Com efeito define-se: uma exceção a todas as leis da natureza. Pode-se racionalmente exigir de Deus um meio tão extraordinário?

Mas suponhamos que Deus faz um milagre. Haverá quem creia que a impressão de um tal acontecimento se tornará uma prova fulgurante diante da qual necessariamente a gente se inclinará? Julga-se que a testemunha do milagre se converterá infalivelmente?

Mas o Antigo e o Novo Testamento ensinam-nos o contrário.

Antigo Testamento. Faraó vira, não um milagre, mas dez e todavia, depois de cada um, endureceu o seu coração.Quantos homens se assemelham ao Faraó!

Diante das provas acumuladas, insensibilizam os corações! O salmo 94, recitado todos os dias como Invitatório, acautela-nos contra esta obstinação: "Não endureçais o vosso coração!"

Novo Testamento. Os que viveram perto de Nosso Senhor conheciam muito bem os Seus milagres. Se não eram testemunhas oculares, eram pelo menos testemunhas auriculares, porque a narração de atais prodígios devera espalhar-se pelo país, pouco extenso, onde se tinham passado. Mas aqueles homens rendiam-se sempre à evidência?

Procuravam às vezes subterfúgios miseráveis, atribuindo os fatos à intervenção de Belzebu, ou objetando que o repouso do sábado fora violado!

São João tem um texto significativo: "Embora tivesse feito tantos milagres na presença deles, não acreditavam n'Ele". (XII, 37).

São Mateus conta que Jesus curou o homem cuja mão estava seca. Os Fariseus estavam aí. Queremos saber o efeito neles produzido? É mais que inesperado: "Os Fariseus, depois de sair, deliberam contra ele, sobre os meios de o perder."! (XII, 14)

Oh! quão felizes somos por ter, a orientar-nos a vida, as luzes da fé!...

(Excertos do livro: Em face do dever - Volume I, pelo Pe. G.Hoornaert, S.J, traduzido por Pe. Elísio Vieira dos Santos, o original que serviu para esta tradução é o da 1ª Edição francesa que tem por título: "Face au Devoir")

PS: Grifos meus.

Ver também:

sábado, 14 de agosto de 2010

A Inexcedível formosura de Maria, Senhora Nossa

A Inexcedível formosura de Maria, Senhora Nossa


Escreve o Padre Euzébio de Nieremberg, referindo-se a outros autores, o seguinte caso admirável. Um clérigo, devotíssimo de Nossa Senhora, considerando quanta seria a formosura daquela soberana Virgem, que excede incomparavelmente a todas as formosuras que Deus criou no Céu e na terra, se ascendeu em fervorosos desejos de A ver.

E como os que nascem do amor santo e sincero tem seus atrevimentos e confianças pias, fez instante e continuada petição à mesma Senhora que o deixasse ver Sua formosura, para mais A venerar e estimar. Foi-lhe revelado por um anjo, que não se podia ver tão grande Majestade sem que perdesse a vista, por quanto não era decente que olhos que viram a Senhora se empregassem em outros objetos da terra.

O clérigo respondeu, como animoso e namorado, que não importava que ficasse cego, contanto que lograsse tal excessiva dita. Mas, advertindo depois que, perdendo a vista, ficava reduzido a pedir esmola de porta em porta para sustento da vida, lhe pareceu que seria conveniente abrir um só dos olhos, para lograr o favor e reservar outro para a sua necessidade.

Assim se fez quando a Senhora se dignou aparecer-lhe: e vendo, ainda que só por um relâmpago, tanta graça e tão aprazível beleza; quis mui depressa abrir ambos os olhos, para melhor lográ-lA. E já no mesmo instante, tinha a Virgem desaparecido. E o Seu devoto, ainda que se achasse meio cego, dizia consigo, com grande mágoa e sentimento: Que teria importado se eu perdesse mil olhos, se mil tivesse? Ó, se durasse mais aquele favor!

Assim Vos ausentastes, ó Mãe amabilíssima; vi-Vos, e não Vos vi, ó beleza incrível: com este pinguinho de orvalho me acendestes mais a sede. Ó, já que não ceguei totalmente de ver, cegue eu agora de chorar! Mas Vós, ó Sacratíssima Virgem, mais piedosa sois do que eu posso imaginar. Ora, Senhora, vinde ainda outra vez; vinde, ó formosíssima: eu de boa vontade quero cegar de todo; antes o terei por grande interesse.

Estes, e outros semelhantes requerimentos fazia aquele devoto: e é tão pia e benigna a Senhora, que admitiu a petição, e a despachou melhoradamente. Porque a mesma luz excessiva, que no primeiro relâmpago o deslumbrou, e lhe cegou um dos olhos, no segundo lhe deixou a vista restituída e clara.

(Tratados Diversos, pelo Pe. Manuel Bernardes)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

15ª Conferência: A mulher forte e a verdadeira beleza

Nota: As transcrições deste livro não estão sendo feitas de forma sequencial, porém existe um marcador próprio no blogue para este livro onde se é possível encontrá-las numeradas. Recomendo vivamente a leitura destas conferências.

PS: A parte do texto que segue em azul é um resumo da 14ª Conferência que transcreverei em outra oportunidade.

Décima quinta conferência
feitas às senhoras da associação de caridade
Monsenhor Landriot
(Retirada do livro: Mulher forte, 1877)


MULHER FORTE E A VERDADEIRA BELEZA

Fortitudo et decor indumentum ejus,
et ridebit in die novissimo.
Os suum aperuit sapientiae,
et lex clementiae in lingua ejus.

Uma força misturada de graça é o seu vestido,
e ela terá alegria nos seus últimos dias.
Ela abriu a boca a sabedoria
e a lei da clemência está em seus lábios.

(Prov. XXXI, 25-26)

Nós temos o hábito de começar os nossos entretenimentos pelo resumo do entretenimento precedente: este método tem  talvez, a dupla vantagem de ligar o conjunto da doutrina e recordar sucessivamente o que se disse da última reunião.

A mulher forte deve ter o talento de enobrecer seu marido pelo doce contato de uma natureza diferente, de lhe tornar flexível o caráter, de comunicar-lhe alguma coisa da estranha penetração, do olfato dos pequenos nadas, que tanta importância têm nas relações sociais. É esta uma das mais nobres e mais esplêndidas missões da mulher, quando a toma a peito dá algumas vezes um grandíssimo valor ao que estaria em estado de vinha inculta. Sobre isto explicamos as palavras da Bíblia: - "O marido da mulher forte será ilustre nas assembléias, quando sentado no meio dos senadores da terra"; e se o lugar do senador está reservado para alguns privilegiados, a mulher forte pode, todavia, praticar num sentido, o conselho do Espírito Santo: Perto dela o marido adquire uma certa distinção que lhe permite sustentar-se, ao menos, com conveniência na assembléia dos velhos e dos prudentes, pois tal é a primitiva etimologia da palavra senador.

O versículo seguinte forneceu-nos ocasião de darmos alguns conselhos práticos as pessoas envolvidas no comércio. Recomendamos-lhes especialmente a probidade e a afabilidade: a probidade que sabe negociar honestamente e que é a mãe de um verdadeiro e sólido sucesso, e o único que devem ambicionar o homem que atrai as práticas e que se torna uma das melhores e mais legítimas condições do bom êxito.

O texto seguinte será o tema da nossa conferência de hoje:

"Uma força misturada de graça é o seu vestido, e ela terá alegria nos últimos dias. Ela abriu a boca a sabedoria, e a lei da clemência está em seus lábios."

"Uma força misturada de graça é o seu vestido."

A mulher forte tem no ar, no aspecto, na fisionomia e no olhar, uma dignidade cheia de encantos. Não é uma beleza efeminada, que se dirige principalmente aos sentidos; é um raio do céu, cuja beleza exterior não serve senão para cobrir uma nobre e varonil virtude.

Caminha assim, levando aos ombros este manto de glória; e há tanta simplicidade nos seus modos, tanta bondade nas suas palavras e no seu olhar, tanta expressão na sua fisionomia, que a inveja desarma-se: admira-se e ama-se. "A raiz desta beleza - diz Santo Ambrósio - é uma virtude interior, sempre viçosa, cuja flor se projeta em todos os órgãos." (De offic., 1.I, c. 45)

A vista dessa mulher admirável eleva os pensamentos em lugar de os abaixar, e a luz do seu olhar purifica sempre. Quando a gente se encontra, lembra logo a bela máxima de Clemente de Alexandria:

"O que olha a beleza com uma casta afeição esquece a beleza da carne pela da alma: só admira o corpo como uma estátua, e eleva-se por essa terrestre, até ao primeiro artista, até a própria essência da beleza. Para ele as formas exteriores são um símbolo sagrado que ele mostra aos anjos guardadores, das avenidas do Céu; é o cunho luminoso da justiça, é o perfume de uma alma perfeitamente harmonizada, é a manifestação dos sentimentos íntimos de um coração, que a presença do Espírito Santo faz estremecer." (Stromat., I. IV. cap. 13)

Eis a verdadeira beleza da mulher forte: é uma água pura que sabe de um coração virtuoso, é uma água límpida, em que se reflete a claridade de um sol interior, e que parece refrescar o olhar. A sua força é cercada de graça, e a graça é protegida pelo baluarte de uma força divina: Fortitudo et decor indumentum ejus.

Todas estas admiráveis qualidades, cuja base está sempre no interior, podem encontrar-se nas mulheres que não possuem precisamente, o que, por convenção, se chama a beleza física das feições. Há pessoas as quais o mundo confere, ao menos em palavras, um prêmio de beleza, e que, para o observador atento, têm uma expressão de fealdade pronunciadíssima: traem-se-lhes a alma em certas linhas fugitivas, em certas rugas que vão e vêm, produzindo um efeito que a pena não pode descrever, mas que o pensamento agarra na sua rápida passagem.

Encontram-se, ao contrário, figuras que certa gente chamaria feias, e que são admiravelmente belas na expressão e na forma imaterial. O verdadeiro belo, o que arte da alma, está impresso na fisionomia; está sempre claro, semelhante a um formoso diamante que não estivesse ricamente lapidado, e ao qual a forma externa fornece ocasião para mais cintilar.

Contemplando-as lembra logo o pensamento de outro Padre, que já por mais de uma vez temos citado:

"A virtude brilha como uma flor nos corpos em que habita e reveste-os de uma luz suave e pura."
(Clem. Alex, Pedag. I. II, c. 12)

Eu não tenho receio de entrar em todas estas minuciosidades, a fim de vos fazer compreender, mais e mais, que a religião é um aroma que conserva tudo, mesmo o que a mulher tem de mais frágil e, algumas vezes, de mais perigoso nas suas qualidades. O cristianismo é suficientemente forte para dizer tudo, mesmo sobre as matérias as mais delicadas, é suficientemente forte para tudo preservar, porque é divino.

Sejam quais forem as vossas qualidades exteriores, andai de modo que elas tenham sempre o reflexo de uma alma grande e virtuosa. Se Deus vos deu algumas vantagens corporais, seja a virtude a raiz que as alimente: terão sempre mais frescura e verdade, semelhantes as árvores cuja profunda raiz bebe a seiva interiormente, e que se estiolam quando ela é a superfície. Se a natureza não fez por vós tudo quanto tendes, talvez, sonhado, tenha a vossa virtude uma luz mais viva; e a flor da alma, como a chamam os santos, brilhará tanto mais nos vossos orgãos, quanto a condecinha flor mais simples; o ramo de flores tem às vezes um encanto a mais, quando o vaso que o contém não encerra toda a elegância da arte.

Muitas vezes, no mundo decaído há contrastes entre a forma e a riqueza interior, e as coisas são tanto mais sólidas e seguras, quanto menos predomina nelas o elemento natural.

Que a força ornada da graça seja, pois, o vosso vestido: Fortitudo et decor indumentum ejus.

Na igreja, no passeio, em um encontro com os amigos, seja a vossa fisionomia o espelho do quanto a gente gosta de supor no coração de uma mulher virtuosa; tenha o vosso sorriso a graça de uma bondade sobrenatural; sejam os vossos olhares a pintura abreviada dos vossos sentimentos; tenha o vosso porte a dignidade e a simplicidade de uma alma verdadeira; que tudo enfim, imponha respeito, atraindo as almas e elevando os caracteres.

A Sagrada Escritura ajunta que "a mulher forte terá alegria nos seus últimos dias."

Um dos mais belos e mais enternecedores espetáculos é o de ver uma mãe de família cercada dos seus filhos, que ela educou no temor de Deus, que ela viu crescer e prosperar em torno dela, como rebentos de oliveiras, sempre verdejantes: Sicut novellae olivarum (Ps. CXXVII, 3.)

Expande-se-lhe o coração e sorri-lhe o rosto; é o sol que vai em breve esconder-se num céu puro, e que, antes de desaparecer no extremo do horizonte, parece deter o seu curso, lançando um olhar de saudade sobre a natureza que vivificou: Et ridebit in die novissimo.

Ela recorda com ventura as alegrias da sua mocidade maternal, as bênçãos que o Céu se aprazia em derramar sobre a sua família, e os puros júbilos de seus filhos e de seu marido. Os trabalhos que empreendeu, as penas que sofreu, as dores inseparáveis das felicidades deste mundo, as preocupações e os cuidados do seu amor, tudo se lhe converte em assunto de ventura: é feliz, e goza, como o jardineiro que acha, na recordação dos seus rudes trabalhos e dos seus suores, motivo de consolação, porque recolhe no outono os frutos abundantes dos seus dias de labor e de sofrimento.

Ditosa mãe, rejubilai-vos com o bem que praticasteis, rejubilai-vos em Deus, porque essa alegria é um dom do Céu: Hoe donum Dei est (Ecles.I, II).

Que a ventura, a virtude, a prosperidade da vossa numerosa família formem em volta de vós uma como coroa de flores, um como tapete de verdura, a fim de ensombrecer-vos os últimos dias e embalsamar-vos de antemão os membros fatigados, antes de descerem ao túmulo, aonde encontrarão o derradeiro repouso: Et ridebit in die novisimo.

É sobretudo na derradeira hora, e sobre o leito fúnebre que o sorriso da mulher forte toma uma expressão angélica. E, como o santo patriarca, é, sem dúvida obrigada a dizer: - "A minha peregrinação foi semeada de dias curtos e maus" (Gen. XLVII), pois tal é a lei de todas as criaturas humanas, e as lágrimas da dor e do sacrifício são o melhor orvalho para certos crescimentos sobrenaturais da alma.

Porém depois desta confissão, que a verdade reclama, a mulher forte deve ajuntar: - Meu Deus, acabei o meu curso, terminei a obra que me confiasteis, e agora volto a Vós, como Autor de toda a paternidade, a fim de Vos amar e de Vos suplicar ainda com mais amor e fervor por aqueles que vão permanecer depois de mim.

O padre responde-lhe: - Parti, alma cristã, porque o Cristo vai receber-vos nos prados verdejantes do Céu - Intra paradisi semper amaena virentia. (ritual romano)

A alma levanta-se com estas palavras, toma vôo, e depois de partida, fica sobre os lábios, nos olhos, e na fronte uma expressão de sorriso angélico, que é como o último adeus da alma, e que parece ficar para falar ainda da sua ventura: Et ridebit in die novissimo.

Ponhamos em paralelo um outro quadro: esbocemo-lo brevemente, para que não vos entristeçais.

Vede essa mulher do mundo, que nunca tomou a vida a sério. Passou a juventude nos prazeres, nas festas e no meio dos divertimentos da terra. Descurou a sua casa, não soube fixar o coração de seu marido, pelas sólidas qualidades, que são a melhor salvaguarda da afeição duradoura. Abandonou a educação dos filhos, entregou-os às primeiras mãos que encontrou, e não vigiou o seu lar; pouco e pouco a desordem introduziu-se nele sob todas a formas, as ilusões dissiparam-se, a idade avançou, as sombras sedutoras desapareceram, e começou o reino das mais amargas decepções. Acabou por sentar-se na vida como um velho tronco mirrado; olhou em roda e tudo desapareceu, exceto o fantasma das suas tristes recordações; sepultou-se-lhe o coração e agora só tem lágrimas solitárias para derramar...

Pobre alma tão desgraçada! Deixai que eu vá em vosso socorro e vos diga que nem tudo está perdido para vós, se quiserdes seguir o meu afetuoso conselho. Soa a hora de vos voltardes para Deus, pois Deus é tão bondoso que nunca acha tarde. Suplicai-Lhe com amor e arrependimento, e Ele descerá para derramar sobre vós o orvalho que prepara sempre para os corações aflitos; tomareis o vosso coração com as raízes quase secas, mergulha-lo-eis no banho celeste, e ele rejuvenecerá ainda. Todos os dias o retemperareis com lágrimas de compunção e de esperança, e essas lágrimas misturadas ao rossio do alto, dar-vos-ão uma existência nova, e direis a Deus com o acento de um amor penetrado de reconhecimento:

O velho tronco não perdeu toda a esperança... as suas raízes envelheceram na terra, e a sua haste parecia morta ao pó, mas ele reverdeceu ao primeiro contato de água, e cobre-se de folhagem, como no dia em que foi plantado pela primeira vez: Ad odorem aquae germinabit, et faciet comam quasi cum primum plantatum est. (Job. XIV, 9)

"Ela abriu a sua boca a sabedoria e a lei da clemência está em seus lábios."

A reserva e o silêncio são uma das primeiras qualidades da mulher forte, e tanto mais, quanto a mulher está mais exposta a faltar a ela. Há alguns anos que consagramos três instruções aos defeitos da língua e eu não quero tratar isso agora minuciosamente. Diremos algumas palavras apenas, para explicação da sentença do sábio: - "Abriu a sua boca a sabedoria."

Quantas pessoas que abrem todos os dias a boca a tolice, a cólera, a vingança, a calúnia e ao vício da impureza!

Pois haja ao menos, aqui e ali, algumas mulheres verdadeiramente cristãs, que tenham confiado a sabedoria a chave da sua boca. Sabedoria na natureza das palavras, nada dizendo de inconveniente, nada de indigno, para uma alma religiosa, respeitando a autoridade, as crenças, a moral e as decências da sociedade. Sabedoria na parcimônia do discurso: meditai antes de falar, e não solteis o vosso pensamento com a precipitação da leviandade: algumas palavras pronunciadas com senso e sobriedade farão mais efeito que a interminável conversação dos espíritos superficiais, que dizem tudo, porque ignoram tudo.

Poucas palavras e muitas ações boas, eis o meio de fazer bem, e de adquirir a reputação dos espíritos sábios e retos que sabem conter-se em justos limites. Sabedoria na oportunidade dos tempos e das circunstâncias! Tal palavra será inofensiva hoje, e amanhã será óleo sobre o lume. A conversação empenha-se em tal assunto, provoca-se o vosso parecer, e vós o dais com toda a prudência e franqueza: a vossa resposta será de um excelente efeito. Se, ao contrário provocais a conversação, se tendes ar de pôr e de querer estabelecer sentenças, fatigais o auditório e pondê-lo de prevenção contra vós.

Há, com relação a isto, uma infinidade de cambiantes imperceptíveis, que é necessário saber apanhar e compreender: é preciso tato, reserva e reflexão.; tato para adivinhar a direção do vento; reserva para melhor estudar, reflexão para a seguir convenientemente.

Sabedoria na oportunidade da escolha das pessoas: estais num pequeno círculo de pessoas amigas e seguras: quantas coisas podereis dizer inocentíssimamente, e que chegariam o lume a pólvora se as proferísseis perante outras pessoas!

Por que?

Porque as que nos escutam hoje são caracteres firmes e bem intencionados; compreendem o verdadeiro sentido das vossas palavras, o limite em que se fixa o vosso pensamento, e param sempre perante as exagerações, que é fácil prestar a uma idéia muitíssimo justa em si. Mas se essas palavras que saem do coração numa conversa íntima e sem serem alinhadas com o compasso geométrico, forem proferidas diante de pessoas desconfiadas, mal dispostas, e pouco inteligentes; diante de espíritos fracos, de almas mesquinhas e naturalmente malévolas, sabeis o que acontecerá?

Será dado a vossa conversa um sentido que exclui precisamente o vosso pensamento; apresentar-se-á como expressão da vossa idéia quanto havíeis repelido formalmente, porque tínheis recomendado que não vos invertessem as palavras e que as sustentassem nos limites, além dos quais sairiam necessariamente da verdade e da razão; envenenar-se-á a sincera candura da vossa alma; alguma viborazinha que deslize para junto de vós sem que a vejais, preparará o dardo que vos há de ferir; lançará o veneno nos vossos melhores pensamentos, nos vossos inofensivos projetos: e bem depressa recebereis pela posta do público uma segunda edição de vós próprias, não aperfeiçoada, mas malissimamente aumentada, falsificada, invertida. E não tereis quase que o direito de vos queixardes!

Porque tendes deixado cair a luz íntima da vossa vida, sobre os vidros raiados, contornados, facetados, que se chamam espíritos falsos e corações malévolos?

Não vos admireis se o objeto da vossa idéia, e a forma das vossas palavras, forem representadas inversamente, e segundo a natureza dos espíritos que vos ouviram.

Eu peço-vos, senhoras, que antes de abrirdes a boca, chegueis a porta a ver se é a sabedoria que bate; se for, nada de melhor, abri de pronto, abri-a de par em par. Falai com toda a confiança e Deus abençoará o que sair do vosso coração. Mas tomai cuidado: há interiormente vozes de "sereias", que pedem emprestadas a linguagem e a voz da sabedoria. Essas "sereias" são numerosas e de formas múltiplas: chama-se a intemperança da língua, a necessidade de sair da sua casa, isto é, do seu coração, a vingança, a cólera, o furor de maldizer e caluniar, o prurido desse órgão que o Apóstolo chama o mal inquieto .

Velai, senhoras, com o maior cuidado: detende-vos antes de falar, refleti, em na dúvida, guardai silêncio, estas preocupações são tanto mais necessárias, quanto, no meio de eminentes qualidades, o vosso sexo é mais fraco por este lado, a darmos crédito aos moralistas.

Eis o retrato, que a propósito deste versículo, traça um dos comentadores da Sagrada Escritura:

"Há mulheres, que são ociosas e curiosas, e que falam continuamente: nem sempre têm a cabeça sólida, e agitam-se aos ventos de todas as paixões. Assim, dizem muitas imprudências, maldades, e, às vezes, até insolências: - Multa imprudenter, dicuciter et procaciter effetiunt et vociferantur".
(Cornelius a Lapide, in Prov. XXXI)

Cito esta passagem muito convencido de que não se aplica a nenhuma de vós; mas algumas vezes é bom explicar a moral pelo exposto dos extremos.

Por fim a Escritura diz que "a lei de clemência está em seus lábios."

Que admirável sentença! Os lábio da mulher forte são depositários da lei da clemência: Lex clementiae in lingua ejus.

Ao homem a força, a coragem e uma certa autoridade no interior da família. Não digo mal desta austeridade, porque é necessária, e, sem ela, dissolver-se-ia a família num excesso de mole bondade; mas apesar de tudo não é ela suficiente, tem o seu complemento no coração e nos lábios da mulher. Quando o marido faz ouvir a sua voz cheia de autoridade, que lança em tudo o movimento e a vida, chega a mulher, e, como óleo de suavidade, desliza através das engrenagens, adoça os atritos e facilita a execução.

Se o pai mostra aos filhos a firmeza, que é a garantia do êxito, a mulher lá está para vigiar os movimentos muito bruscos, para os acalmar, para lhes dar flexibilidade, sem nada subtrair à sua atividade; a uma palavra enérgica e paternal, junta ela um conselho de mãe; uma frase do seu coração, um olhar afetuoso; e esta sábia combinação de esforços contrários faz com que tudo vá bem na família.

O sábio disse nalguma parte, e já o citamos, que, nas obras de Deus, há tendências e energias opostas. Este pensamento que bem explica contradições exteriores, aplico-o à família.

Existem, devem existir no marido e na esposa aptidões diversas, operações variadas, que convergem ao mesmo fim, por caminhos aparentemente opostos.

Desgraçadamente os consortes nem sempre compreendem suficientemente esta doutrina: a mulher censura a severidade ao marido, e este, por sua vez fala da fraqueza da mulher, e estas palavras são trocadas por um e outro como censuras.

Em lugar da mutuação de recriminações, não valeria mais unir a bondade da mulher à firmeza do homem?

Nesta união encontrariam precisamente o que procuram ambos...

Que o homem conserve nos lábios uma lei de firmeza, e a mulher uma lei de clemência, e estes dois elementos fundidos por uma afeição reciprocamente, farão  a felicidade e assegurarão o futuro da família.

Poder-se-ia ainda dar um outro sentido as palavras:

 "A lei de clemência está em seus lábios: - Lex clementia in ore ejus."

"A mulher forte - diz o comentador já citado, não é impertinente, mordente nem berradora; é doce, suave, modesta e benévola: - Non est aspera, morosa, clamorosa, iracunda, sed levis, blanda, modesta, suavis ut non nisi clementia et benevola proferat."

Que tristíssima coisa não é a malevolência! E todavia, como é vulgar!

Como é rara a benevolência! E no entretanto, que doce e preciosíssima qualidade da alma! Pois não só é excelente, mas até mais ordinariamente conforme com a verdade!

Quantas línguas de víboras neste mundo!
Quantas invejas a morderem e a rasgarem!

Essas, posso jurá-lo, não têm a lei da clemência sobre os lábios, mas a lei da malvadez, da perfídia e da mais negra invenção.

Quanto a vós, senhoras, conservai-vos sempre no número das mulheres fortes, tais como as quer o Espírito Santo: elaborai para vós uma lei da benevolência, da caridade, e da clemência nas imprecações, e da benignidade nas palavras.

Como sereis mais felizes e mais tranquilas convosco!

Quando a víbora humana entrar nos seus subterrâneos, sofre cruelmente, e a recordação do veneno que derramou não lhe permitirá dormir; mas a vida feliz e serena, os sonos pacíficos são a partilha das almas cristãs, que respeitam as pessoas e as ações de seus irmãos, que espalham palavras serenas em volta de si, e que, mesmo sobre abismos, mais gostam de lançar flores do que atirar pedras.

Seguindo estas máximas atraíreis a benevolência geral, o vosso bondoso coração será conhecido, e todos confiarão nele.

"A vossa memória será um excelente preparador; deixareis uma recordação, doce como mel, e harmoniosa como um concerto musical, num banquete de vinhos deliciosos." (Ps. LI)

Se, ao contrário, rasgardes os outros, em breve tereis feito uma reputação má. Cada um dirá, depois de vos ter ouvido falar do próximo: - Que afiada navalha, que serra não é esta língua! Sicut novacula acuta! (Isai. XXVIII)

Como corta em toda a gente!
Provavelmente a minha hora soará em breve, e eu passarei também  pelos dentes da serra: In serris triturabitur (Eccl. XLIX).

Quando uma pessoa é assim conhecida e apreciada, far-se-lhe-á talvez boa cara pela frente, porque se receia dela; mas apenas voltar as costas. a recompensa é certa, e encontram-se também instrumentos para a retalhar.

É a pena de Talião: - Olho por olho, dente por dente (Lev. XXIV): os homens podem ser injustos, e o são, muitas vezes, aplicando a lei, mas outras tantas se serve a Providência da maldade deles para cumprir a obra da Sua alta e omnipotente justiça.

Então o culpado experimenta por sua vez a triste verdade das palavras de São Crisóstomo:

"Nada há pior que a língua , pois é mais perigosa que os embustes e mais cruel que a espada". (Job, c.5)

Neste caso, senhoras, a lei da clemência em vossos lábios e nas vossas palavras! Se a grande carta da benevolência fosse adotada por todos, quanta alegria nas sociedades! Quanta sinceridade nas relações!

Juntai-lhe a lei da sabedoria, que a Sagrada Escritura recomenda também a mulher forte, e então merecereis completamente o elogio do Espírito Santo:

"Ela abriu a boca a sabedoria, e a lei da clemência está em seus lábios: - Os suum aperuit sapientiae, et lex clementiae in lingua ejus."

(A mulher forte, por Monsenhor Landriot)

PS: Grifos meus.