segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O INFERNO

O INFERNO


O inferno com seus tormentos
seus gemidos, seus lamentos
não me faz estremecer!
Mas sim ver que me condeno
em penas do fogo eterno
sempre a Deus a aborrecer!

Do meu Deus já separado
que direi, já condenado?
Qual será minha aflição?
Só terei cruéis horrores,
tristeza, penas e dores
raiva e desesperação!

Pois não posso já salvar-me
nem sequer aliviar-me
das penas que vou sofrendo!
O tempo choro perdido,
em que pude, arrependido,
conquistar o Céu, querendo!

Triste inferno só ganhei,
trocando de Deus a lei
por um vil prazer, fugaz!
Neste fogo, ardendo sempre,
sem descaso, eternamente,
nunca mais posso ter paz!

(Sagrada Família, por um padre redentorista, 1910)

Nota: Aproveitamos para indicar a leitura deste excelente livro de Santo Afonso Maria de Ligório:

VI. O ANJO

VI. O ANJO


Ai! Jesus vai apenas entrando nesse mar doloroso da Paixão, e deve haver um como fatal progresso nas Suas humilhações.

Ao Seu inefável desalento teria faltado um sofrimento de escolha e todo íntimo, se Ele não tivesse tido que ir mendigar socorro... e se o não tivesse recebido de fora.

Ele, o Forte, o Grande, o Mestre, vai primeiro procurar um apoio nos Seus Apóstolos, qual um caniço que se quer arrimar a outros!

Naquele horto onde perpassa o vento terrível da Justiça superior, tudo está já deitado em terra... o Mestre... e os discípulos.

O Mestre, que estende a mão para que O levantem, e os discípulos que estão aniquilados, sem vontade, sem pena aparente senão de si próprios! A desgraça torna egoísta.

Ele que lhes repreendia outrora a timidez e o pavor nas ondas agitadas de Tiberíades, vê-se obrigado a vir por Sua vez agachar-se junto deles e dizer-lhes por toda a Sua atitude, por Seu Rosto macilento e por Sua palavra trêmula, esta expressão que faz ruir todo homem aos próprios olhos e aos olhos dos outros: Tenho medo!

Este quadro era terrível para a fé dos Apóstolos, a qual teve de vacilar e quando menos de se lhes entorpecer como as pálpebras e balbuciar como os lábios...

Já é o começo da fuga... do abandono daqueles com quem tínhamos o direito de contar e que nos deixam porque a nossa presença já não os honra e a nossa amizade lhes é perigosa.

Este traço doloroso – como todos os que mais sensíveis Lhe deviam ser – fôra assinalado de antemão pelos Profetas.

“Busquei em torno de mim alguém para me ajudar... e não achei” (Sl 69, 20)

“Estou esquecido como um morto, exceto pelos meus inimigos, que, estes sim, velam e avançam para me prender, enquanto sou para os meus próximos como uma coisa molesta, humilhante... e que se repele” (Sl 31, 12-13). “Pouco falta para que me censurem pela minha fraqueza e pela minha miséria...” (Eclo 13, 25), como se delas fosse Eu o culpado!

Tanto é verdade que aos entes superiores não lhes é lícito tornarem-se homens... sob pena de perderem todo crédito entre os outros homens.

A verdadeira humildade só de Deus é compreendida.

Quando Jesus viu que aquele apoio humano Lhe era recusado, quis então lançar-se desesperadamente para o lado do Céu.

Eis porém já mais de uma hora que Ele bate à porta do Coração de Deus por aquela palavra que conhecera sempre vencedora de todas as resistências: Pai, meu Pai, tudo Vos é possível... Meu Pai... Abba Pater!
Que doce humildade neste termo já tão doce!

E o Pai queda surdo; o Filho continua a tremer, a agonizar.

E depois das lágrimas é o Seu Sangue que corre, e nada vem do alto.
Nós temos horas semelhantes, e foi para as consolar que lhes quis Jesus sentir o peso.

Desde aquela agonia, se a terra nos repele e se Deus parece rejeitar-nos, temos um socorro. Podemos refugiar-nos no sofrimento cruel do abandono do Cristo, e dizer-Lhe com a certeza de encontrar eco:

– Vós pelo menos, Vós podeis, Vós deveis compreender-me.

Non habemos Pontificem qui non possit compati”, “Não temos um Pontífice que não possa compadecer-se...” (Hbr 4, 15).

Indubitavelmente Deus tivera sempre piedade dos homens, como de Sua melhor obra; era uma alta piedade. A partir de Jesus Cristo, porém, foi preciso achar um novo termo para designar a piedade que se abaixa a todas as chagas, porque as experimentou todas: é a compaixão.

E nós temos agora um Deus que... compadece.

Enquanto esse divino Salvador deixa assim penetrar no Coração esse gládio doloroso que Lhe permitirá doravante ser compassivo, o Céu parece entreabrir-se. Um raio de luz resvala na noite e vem incidir naquele Corpo que sofre e naquela Alma que agoniza.

O Pai ouviu.

O Filho ergue a cabeça para ver algo da Face augusta do Pai, aplica o ouvido para Lhe ouvir a palavra consoladora.

Vê só um Anjo.

O Evangelho nada nos conservou a mais. A piedade e a mística têm-se esmerado em pesquisar que Anjo era esse: Miguel ou Gabriel? Era mister nada menos que o mais elevado dos Espíritos Celestes.

Fiquemos na simplicidade do texto:

Apparuit illi Angelus – desceu um Anjo... é o bastante.

Deus não fala – o Pai se cala. O tempo passou em que a Voz dizia do alto, doce como a pomba do batismo, forte como o estrépito do trovão no Tabor e no Templo: Este é o meu Filho dileto, em quem pus todas as minhas complacências.

Neste hora não há mais Filho, não há mais Deus aparentemente... há o Pecador... há o Pecador universal...

“Eu Lhe mando porém o meu Anjo – porque o prometi mesmo ao pecador... mas não Lhe mando senão isto...

Apparuit illi Angelus.

É então um Anjo... um Anjo cujo nome não conhecemos... um desconhecido.
E que faz ele? Uma palavra o revela:

Confortans – fortifica – , vem para levantar, para dar coragem.
E Jesus escuta... baixando a cabeça, de mãos postas... humilhado desse socorro do alto que vem de um ser tão inferior... porém agradecido – pois tinha precisão dele.

Não procuremos penetrar indiscretamente as razões: é de joelhos que cumpre degustar essa humilhação tão consoladora. Basta que saibamos que Ele, Jesus, recebeu conforto do Anjo... e que nós teremos, sem dúvida alguma de O imitar sobre este ponto.

Efetivamente, seja qual for a sua força nativa ou adquirida, vem sempre uma hora, ainda que seja só a última, em que o homem tem necessidade de ser fortalecido.

Ora, bastas vezes Deus permite que o socorro necessário nos venha de um ser desconhecido... e até inferior, a fim de que de um lado sintamos mais a nossa fraqueza, e de outro reconheçamos melhor a fonte de todo benefício, que é Ele só.

Por mais que procuremos conchavar a nossa vida e a nossa morte, haverá sempre lugar para a surpresa vivida por Jesus Cristo.

Como o Salvador agonizante... procuraremos talvez em torno de nós os nossos próximos e os nossos amigos.

A surpresa não lhes terá permitido estarem lá; ou distanciá-los-á o decôro... e então os nossos olhos se fecharão sob semblantes que não terão conhecido.

Como Jesus ainda, procuraremos um arrimo nessa suprema penúria. Só acharemos talvez a mão de um estranho... e o socorro de um sacerdote de ocasião, pedido às pressas; e todavia tínhamos almejado e preparado melhor.

Baixemos a cabeça, juntemos as mãos, aceitemos o anjo consolador qualquer que seja, deixemo-nos fortificar por essa palavra desconhecida: beijemos este traço de semelhança com o nosso divino Mestre, e como Ele reergamo-nos corajosos para irmos aonde Deus quiser.

+ + +

(2ª parte da obra “A subida do Calvário”, do pe. Louis Perroy, SJ)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.

A DURAÇÃO NO ESFORÇO

FORMAÇÃO DA VONTADE - PARTE VII


A DURAÇÃO NO ESFORÇO

Qual é a importância desta segunda forma de perseverança: a persistência no esforço?
- Sem ela, a vontade deixa de ser vontade; nenhum progresso é possível; não se chega senão a fracassos: e, muitas vezes mesmo, corre-se para a morte...

- Com ela, todos os obstáculos se aplanam, são transpostos ou removidos; a inteligência abre-se e desenvolve-se; firma-se a virtude e a beleza moral resplandece com um brilho cada vez mais vivo.

Que é preciso fazer para chegar a praticar a persistência no esforço?
É preciso:

- Evitar a diversidade excessiva;
- Cingir-se às pequenas coisas;
- Concluir.

Por que é preciso evitar a excessiva diversidade?
1º - Porque é um dissolvente da vontade.

"Ao passo que a mudança de ocupações é necessária tanto para enriquecer e repousar o espírito como para amaciar a vontade, uma diversidade excessiva desagrega."
(P. Gaultier)

São Francisco de Sales descobre nisso um ardil do diabo, "porque muitas vezes o inimigo procura fazer-nos empreender e começar muitas coisas a fim de que, oprimidos com tanto trabalho, nada acabemos e deixemos tudo imperfeito."
(Tratado do amor de Deus, VIII, XI)

- Porque daí nasce um estado de excitação, e se confunde a agitação com a ação.

É muito necessário cingir-se às pequenas coisas?
- "O esforço banal e sem interesse aparente é a pedra do toque da vontade, o obstáculo que distingue os fortes, que triunfam, dos fracos que se deixam vencer."
(P.Gaultier)

- "As pequenas coisas", aliás, constituem a trama ordinária da nossa vida, e. por conseguinte, oferecem à vontade frequentes ocasiões de fazer sacrifícios necessários para a sua conservação e formação.

3º - "As pequenas coisas", enfim, são como que o alicerce do edifício da nossa vida moral.

Nunca teremos grandeza, solidez, beleza, se não estabelecermos como base da nossa ação a fidelidade constante e generosa aos pequenos deveres.

Quais são os "pequenos deveres" aos quais devemos esforçar-nos por ser fiéis?
Desde o primeiro instante do despertar até o momento de se entregar nas mãos de Deus, antes de ir repousar, as ocasiões dos atos da vontade aparecem às centenas.

- Para se levantar, por exemplo:

Muitos só marcam de manhã a hora exata do começo dos seus trabalhos. É o meio mais certo de ceder à preguiça. A hora deve ser marcada duma vez para sempre, ou fixada na véspera á noite.

Pela manhã, chegado o momento, a preguiça reclamará aos seus direitos, parecerá mesmo, às vezes, que se está indisposto, etc. São os assaltos do animal, descontente porque foi incomodado. É a hora do ato da vontade. É preciso então levantar-se sem hesitação: primeira vitória.

- Os exercícios de piedade.

Sentimo-nos mal dispostos, o coração sem amor, o espírito sem luz, a alma sem gosto. Que fazer nestas condições? Não é melhor deixar tudo e aguardar disposições mais favoráveis?

É o assalto do velho homem. É o momento de fazer agir, sem discutir, uma vontade imediata e enérgica.

- O trabalho.
Apresenta-se para se fazer. Teoricamente, impõe-se antes do divertimento e do repouso.

E é se tentado a deixar para mais tarde aquilo que mais custa e ter primeiramente alguma distração ou repouso. É o momento da vontade.

- A todos os momentos do dia, a graça atual, que é uma luz sobrenatural dada por Deus, para nos ajudar a evitar o mal e fazer o bem, oferece uma virtude a praticar, um sacrifício a fazer, uma instrução a ouvir, um sacramento a receber; é se tentado a dizer: amanhã.

E a vontade deveria obrigar a dizer: hoje, imediatamente.

- Em resumo: de cada vez que se faz um ato, em conformidade com a luz divina da fé, fortifica-se, e, portanto, forma-se a vontade.

Mas de cada vez que se hesita ou recua, enfraquece-se a vontade e, portanto, deforma-se...

Que se deve entender por esta expressão "concluir"?
Quer se dizer com isso que é preciso:

- Ir até ao fim da obra começada;
- Dar-lhe toda a perfeição de que é susceptível.

É difícil concluir?
Sim.

E convencer-nos-emos sem dificuldade, se atendermos ao pequeno número daqueles que conhecem a arte e realizam as condições dela: bem poucas são as crianças que levam até ao fim o caderno dos seus exercícios quotidianos; bem poucas são as pessoas grandes que lêem até ao fim um livro a sério; bem poucos são os cristãos e cristãs que recitam piedosamente até ao fim as suas preces quotidianas.

Sabia psicologia aqueles diretor espiritual que perguntava aos seus dirigidos: "Tendes dito bem: Assim seja?"
 (...)

Esta dificuldade (concluir) é insuperável?
Longe de nós tal pensamento!

- "Vai se longe ainda depois de cansado", diz um velho provérbio cheio de espírito e de sabedoria.

- "O trabalho concluído com probidade deixa no espírito um sentimento de alegria e, dalgum modo, de apetite satisfeito".
(Citado por Payot, na Educação da vontade, p. 150)

É importante o concluir?
"A arte de concluir é o sinal mais indiscutível da força e o mais poderoso agente de influência sobre os homens."
(J.Guiberv)

Por isso, nunca será demasiado cedo habituar as crianças a prosseguirem e a levarem com cuidado até o final os pequenos trabalhos a que se dedicam, nunca será demais incutir-lhes ânimo.

Uma grande escola católica, "A escola das artes e ofícios", em Lille, tomou  por divisa: "Finir!" - "Concluir!". O conselho lê-se sobre os escudos armoriados colocados em todas as arestas da cantaria.

Um professor de literatura, querendo acostumar os seus discípulos a faça bem, repetia-lhes: "Nunca deixeis nas vossas conversações uma frase incompleta".

Concluir!
Acabar!
Ir até ao fim!

É sempre importante.
É uma questão de vontade!
A vontade deve realizar esse propósito.

(Excertos do livro: Catecismo da educação, pelo Abade René de Bethléem, continua com o post: De alguns hábitos a fazer contrair. 1º- O bom caráter)

PS: Grifos meus.

sábado, 7 de agosto de 2010

CRUCIFIXÃO E MORTE DE JESUS

MEDITAÇÃO DO SÁBADO


CRUCIFIXÃO E MORTE DE JESUS

1 - Eis o Calvário convertido em teatro do amor divino; é um Deus que lá morre abismado num mar de dores. Chagado Jesus a explanada, os algozes arrancam-Lhe de novo, com violência, os vestidos, colados já a Suas dilaceradas carnes, e estendem-nO sobre a Cruz. Coloca-se o Cordeiro divino, naquele leito de morte; apresenta as mãos e os pés aos Seus inimigos, oferece ao Eterno Pai o sacrifício de Sua vida pela salvação dos homens. Pregam-nO, em seguida, desumanamente, e levantam a Cruz ao alto.

Olha agora, ó minha alma, para o Vosso Senhor, pendente naquele madeiro, sem alívio nem descanso.

Ah! Jesus de minha alma, que morte tão cheia de amargura, a Vossa! Tendes escrito no alto da Cruz, Jesus Nazareno Rei dos Judeus. E , na verdade, esse trono de penhascos, essas mãos cravadas, essa cabeça transpassada pelos espinhos, esse corpo despedaçado, proclamam bem alto que sois Rei, porém, Rei de Amor.

Eu me acerco de Vós, compadecido; eu me abraço a essa Cruz, onde, sacrificando-Vos por mim, quisestes morrer vítima de amor.

Desventurado seria eu, Senhor, se não houvéreis satisfeito, em meu nome, à Justiça divina. Dou-Vos por isso infinitas graças, e Vos amo, ó meu Jesus.

2 - Considera, como Jesus, estando cravado na Cruz, em ninguém achava conforto e consolação: pois que uns blasfemavam contra Ele, outros O insultavam com chufas e escárnios, estes Lhe diziam: "Se és o Filho de Deus desce da cruz." aqueles: "Pode salvar a muitos, mas a si mesmo não pode." Os próprios companheiros de suplício, os dois ladrões, em vez de manifestar-Lhe alguma compaixão e respeito, blasfemavam também, estava lá, é verdade, junto da Cruz Maria, assistindo com ternura e amor a Seu Filho moribundo; mas a vista de Sua Mãe aflita, em vez de consolar, mais atormentava o coração de Jesus: de maneira que, não achando consolação na terra, volveu o Salvador Seus olhos para o céu a pedi-la ao Eterno Pai; Deus, porém, ao vê-lO assim carregado com os pecados dos homens, por quem padecia, não quis atendê-lO, deixou-O sofrer e morrer sem alívio.

Foi então que Jesus exclamou: "Meu Deus, Meu Deus, por que me haveis abandonado?"

Ó Jesus meu! sobeja razão tendes de dizer que, havendo padecido tanto pelos homens, são mui poucos os que Vos amam! Ó preciosas chamas do amor! Se tivestes poder de consumir a vida dum Deus, tende-o também para consumir em mim todos os afetos terrenos; fazei que viva e se abrase o meu coração de amor somente por aquele Senhor que por mim morreu num patíbulo tão infamante.

E como pudeste Vós, ó meu Deus, sujeitar-Vos a morte por quem depois tanto Vos havia de ofender? Vingai-Vos agora de mim, Senhor, e sejam os Vossos castigos a minha salvação, dando-me uma dor profunda e intensa dos meus pecados, que sempre me traga mortificado, e arrependido de os haver cometido.

Vinde Vós, ó açoites, espinhos, cravos e Cruz do meu Senhor e Salvador, vinde ferir o meu coração; e a dor que eles me causarem, juntamente com o Vosso amor, sejam, ó meu Jesus, a minha salvação.

3 - Prestes já o divino Redentor a exalar o último suspiro, disse com voz amortecida: "Consummatum est," tudo está consumado: querendo dizer: - está cumprida, ó homens, a Minha missão: está terminada a obra do vosso resgate: eia pois, consagrai-Me o vosso amor, que nada Me resta já por fazer para o conquistar.

Alma minha, olha para o vosso Jesus, exalando o derradeiro alento; vê aqueles olhos amortecidos, aquele rosto pálido, aquele corpo inerte, aquele coração lânguido... O céu escurece, a terra treme, partem-se os rochedos, e os sepulcros abrem-se; tudo isto são sinais de que o Criador do Universo padece. Foi neste ponto que Jesus, tendo encomendado Sua alma a Deus, arrancou do Seu coração aflito um profundo suspiro, abaixou a cabeça, e, renovando o sacrifício de Sua vida pela nossa salvação, entregou, consumido pela violência das dores, o Seu espírito nas mãos do Eterno Pai.

Aproxima-te da Cruz, alma minha, beija com afeto os pés do vosso Salvador, e considera que Ele Se entregou a morte pelo incompreensível amor que tinha para contigo.

Ah! Jesus meu! até que extremos Vos levou a Vossa caridade! Fazei-me compreender bem, Senhor, quão digna é de admiração a morte de um Deus por meu amor, para que eu de hoje em diante não ame senão a Vós. Sim: eu Vos amo, ó Sumo Bem, verdadeiro amante da minha alma: nas Vossas mãos a entrego, e Vos peço pelos merecimentos de Vossa Paixão e morte, que, destruindo em mim todos os afetos terrenos, me façais viver unicamente para Vós, por que só Vós mereceis todo o meu amor. Ó Maria, minha esperança, rogai e intercedei por mim a Jesus.

(Sagrada Família por um padre redentorista, 1910)

PS: Grifos meus.

O valor da prece na família

O valor da prece na família


A prece é a seiva que alimenta a vida espiritual da família e dá as graças necessárias à vida espiritual de cada um dos seus membros.

Ela deve ser coletiva e individual. Coletiva, porque a família constitui uma sociedade na qual todos os membros são solidários. Individual, porque cada um se aplica em aumentar as suas próprias riquezas, afim de que elas redundem em bênçãos sobre os outros membros da família.

O verdadeiro patrimônio espiritual da família não se constituirá na prece comum presidida pelos pais, na presença de Deus, da Virgem Maria e dos Santos? Todos se sentem dependentes da soberania de Deus e todos desejam obter juntos as graças necessárias a todos os membros da sociedade particular.

Quando o pai ajunta às preces ordinárias alguma certa meditação, inspirada pelos acontecimentos do dia e inspira na própria fé os pensamentos que esclarecem a alma religiosa dos filhos, ele constrói em torno de si uma vida espiritual ativa e movimentada...

Há um pensamento que deveria estar constantemente presente a todos os membros da família, mesmo fora das horas da prece e das horas em que os pais falam de Deus aos filhos: é o dogma da comunhão dos santos. Esse pensamento seria para as almas, uma disciplina moral de todos os instantes. Se cada um se lembrasse que seus atos têm uma repercussão boa ou má no conjunto da vida familiar e que é um erro colocar sua alma à beira de um abismo pelo pecado, todos se aplicariam em enriquecer a alma da família praticando o bem.

Eles saberiam que todo o esforço moral, por menor que seja, aumenta o tesouro espiritual ao qual todos os membros da família podem recorrer. Com que entusiasmo os pais não se aplicariam para a perfeição, com o pensamento único de que assim contribuíram para santificar a alma de seus filhos. mostrando-lhes os seus esforços para conseguir isso!

Que admirável orientação espiritual seria dada aos filhos quando soubessem que as suas menores ações contribuíram para a felicidade de seus pais e de seus irmãos!

O Sacrifício da Missa, continuação do sacrifício de Jesus na Cruz, é uma outra grande luz que ilumina a vida familiar. Em união com Jesus, oferecendo seus labores e seus sofrimentos para a salvação do mundo, os esposos oferecerão, na Missa, para a sua própria salvação, e para a salvação de seus filhos, seus trabalhos e seus sofrimentos: o pai, seus cuidados; a mãe, suas fadigas. Esta verá nas dores da maternidade um meio de atrair sobre a cabeça de cada um de seus filhos as bênçãos redentoras da Cruz.

Por exemplo, os filhos presentearão a Deus os seus trabalhos e a sua boa vontade e a aceitação generosa dos sacrifícios que se deparam em toda a vida humana, mesmo nas vidas mais jovens.

O espírito de sacrifício animando todos os membros da família, enrijará as vontades, purificará os corações, obterá para todos em geral e para cada um em particular as graças que orientam as almas para Deus, pelo amor de Jesus Crucificado.

(O Casamento, pelo Cônego Jean Viollet)

PS: Grifos meus.

Ver também:

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Meditação da sexta-feira (Sobre a Paixão de Nosso Senhor)

MEDITAÇÃO DA SEXTA-FEIRA


O CAMINHO DO CALVÁRIO

1 - Por fim Pilatos, receoso de perder as boas graças e a amizade de César, depois de ter declarado muitas vezes a Jesus inocente, sentencia-O a morrer crucificado; lê-se a iniqua sentença, Jesus, ouve-a, e aceita-a com santa resignação, sujeitando-Se a vontade do Eterno Pai que quer que Ele morra na Cruz pelos nossos pecados.

"Humilhou-Se, diz o Apóstolo, e fez-Se obediente até a morte, e morte de cruz." Logo os verdugos se lançam sobre o divino Cordeiro, inocente, agarram-nO com furor, tornam a vestir-Lhe os Seus vestidos, e tomando em seguida a Cruz, formada de dois grossos e informes madeiros Lh'a apresentam: Jesus recebe-a e abraça-a e beija-a e a põe Ele próprio aos ombros.

"Ó inocentíssimo Salvador meu! disse banhado em lágrimas São Bernardo, que delito havíeis Vós cometido, para serdes condenado a semelhante gênero de morte? Mas, Senhor, prossegue o Santo, eu bem sei qual foi o Vosso delito, - foi o Vosso excessivo amor para conosco."

Ah! Jesus meu! Que mais podereis fazer para me obrigardes a amar-Vos? se um pobre escravo se tivesse oferecido a morte por mim, teria certamente conquistado o meu amor e gratidão. Como tenho eu, pois podido viver tantos anos sem Vos amar, sabendo que Vós, meu Senhor e Soberano, e meu Deus, quisestes morrer para me salvar? Eu Vos amo, ó Bem infinito, e, por Vosso amor, me arrependo, de haver-Vos ofendido.

2 - Saem os réus do tribunal, e dirigem-se ao lugar do suplício. Entre eles vai o Rei da glória, com a Cruz às costas. Saí, vós também, ó Serafins, e descei lá do Céu a acompanhar o Vosso Deus que Se encaminha para o monte Calvário a morrer crucificado. Que espetáculo! Um Deus que vai deixar-Se crucificar pelos homens! Vê, alma minha, o teu Salvador que vai morrer por ti; com a cabeça inclinada, o corpo oprimido, lacerado das feridas, derramando sangue; contempla-O coroado de espinhos, com aquele pesado madeiro aos ombros, e pergunta-Lhe - "Aonde vais, ó Cordeiro de Deus, assim fatigado?" - Eu vou, te responderá, acabar de morrer por teu amor, a fim de, quando Me vires morto, te lembrares do muito que te amei. Eia pois, lembra-te do Meu amor para contigo e consagra-Me o teu."

Ah! meu dulcíssimo Redentor, como tenho eu podido viver esquecido do Vosso amor? Os meus pecados foram os que amarguraram o Vosso coração, ó meu Jesus. Pesa-me, Senhor, dos agravos, que Vos hei feito; agradeço-Vos a paciência de que até agora tendes usado para comigo, e amo-Vos com todas as forças da minha alma, e a Vós só quero amar. Fazei-me lembrar sempre do Vosso amor, para que não deixe nunca de corresponder-Vos com o meu.

3 - Sobe  Jesus ao Calvário, e convida-nos a segui-lO com as palavras ditas aos Seus discípulos: "Quem quiser vir após de Mim, abnegue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-Me." Ouvida esta intimação, cheio de caridade o Apóstolo dirigi-se aos fiéis e diz-lhes: "Eia pois, vamos após Ele, e abracemos os Seus opróbrios e ignominias". Se Vós, Senhor, ides adiante de mim com a Cruz, sendo inocente, dai-me a que Vos aprouver impor-me, pois com ela quero ir até a morte!

Quero morrer conVosco, pois quisestes morrer por mim! Vós mandais que Vos ame, e eu nada mais desejo do que amar-Vos. Vós sois e sereis sempre o meu único amor. Ó Maria, minha esperança, rogai por mim a Jesus.

(Sagrada Família, por um padre redentorista, 1910)

PS: Grifos meus.

I - A OBRA-PRIMA DO AMOR

A BELEZA DE MARIA
II PARTE


I - A OBRA-PRIMA DO AMOR

Trataremos agora de uma matéria tão delicada quão consoladora!

O coração, isto é, a sede de amor, da bondade, da ternura, da misericórdia! Coração de Maria, isto é, o amor mais inefável, a bondade sem limites, a ternura mais expansiva, a misericórdia mais universal que jamais houve.

Como tratar tal assunto?...

Meu Deus, bem o sinto, só de joelhos podemos falar de tais belezas, com o coração elevado, bem alto, acima de todas as belezas da terra. Precisava ser ao mesmo tempo poeta e cantor, teólogo e santo!

De tempos em tempos produziu a humanidade seres extraordinários, figuras doces e radiosas, que apareciam como que banhadas em atmosfera de caridade terna e forte.

Mas, quando procuro um ponto de comparação para fazer uma idéia da beleza do coração da Mãe de Deus, sinto pulsar o meu próprio coração, sinto um como relâmpago iluminar a minha inteligência, mas tornar-se-me impossível formular as minhas impressões, que parecem congelar-se na ponta de minha pena.

Ó impotência da palavra humana e dor de um coração que ama e não sabe expressar o seu amor!

O coração de Maria é o amor, diria logo, e mais até que o amor, se alguma coisa pudesse ultrapassar o amor!

Que é o amor de uma mãe?... E quem jamais sondou o coração materno?... Quem compreendeu até hoje as riquezas do coração de Maria?... Só a própria Mãe de Deus compreenderá tudo o que Deus nEla depositou de riquezas, assim como tudo o que nEla acumulou de ternura e virtudes.

Aquele que A formou já antevia a Sua profundeza, assim como perscrutou os imperscrutáveis abismos.

"Querendo Deus exprimir a ternura de Seu amor para com os homens, diz Santo Afonso de Ligório, julgou que o melhor modo de no-la fazer compreender seria comparar-se a uma mãe: 'Poderia, diz ele, uma mãe esquecer o seu filho?'"

E, no entanto, o amor de todas as mães do mundo seria incapaz e impotente para salvar uma só alma. Entretanto, havia Deus decretado que um coração de mãe seria a fonte da salvação, não só de uma alma, mas de todas. Onde encontrar, pois este coração?

Ele devia ser tão misericordioso, que nenhuma ingratidão o pudesse vencer; tão bom, que miséria alguma o pudesse contristar; tão amante, que nenhuma alma pudesse escapar aos seus convites; tão santo, que pudesse merecer a redenção; tão grande, que pudesse conter todas as graças; tão elevado, que fosse a escada do Céu; tão agradável a Deus, que sempre pudesse aproximar-se do Seu trono; tão poderoso, enfim, sobre o coração de Deus, que não pudesse receber a mínima recusa!

Pois bem! Esta obra-prima incomparável saberá Deus encontrá-la nos tesouros de Sua sabedoria e de Sua bondade, e o Filho de Deus se tornará filho de de uma mulher, que havia chegado ao grau supremo do amor, mostrar-lhe-Á o Homem e lhe dirá: "Mulher, eis aí o Vosso Filho". Amai-O como me amastes".

Deste modo o coração de Maria recebe a missão de ser como que o centro da afeição de todos os filhos de Deus, de unir como em um feixe único as ternuras de seus corações para os oferecer ao Altíssimo.

Tornar-se-á assim a mediadeira entre Jesus e nós, assim como Jesus é o mediador entre o Pai e a humanidade decaída, isto é, Ela será uma digna Mãe de Deus.

E poderia Ela ser não somente uma digna Mãe de Deus, mas simplesmente "mãe", quando o coração é imperfeito?... Uma mãe é mãe mais pelo coração que pela geração. "Desde o instante de Sua Conceição Imaculada, diz Santo Afonso de Ligório, o coração de Maria foi de tal modo tocado e transpassado de amor, que parte alguma nele ficou sem que fosse abrasada."

Mas este fogo sagrado cresceu além dos limites, quando esta Virgem tão pura se tornou mãe e, mais ainda, Mãe de um Deus.

O amor das outras mães é dividido entre vários filhos, ou então se expande sobre outras criaturas.

Maria Santíssima, porém, não terá senão um Filho, e este Filho será incomparavelmente mais belo do que todos os demais filhos de Adão, será extremamente amável, pois todas as qualidades que O fazem amar; será obediente, virtuoso, inocente, santo, em uma palavra, será perfeito.

Além disso, o amor desta Mãe de nenhum modo abrangerá outros objetos; sobre este Filho único Ela despositará todas as Suas afeições, e jamais receará amá-lO em excesso, pois este Filho, sendo Deus, merecerá um amor infinito.

Agora, pergunto eu: Quem poderá sondar o coração de uma Mãe de Deus? Quem poderá avaliar o Seu amor?

Pois bem: exultemos de alegria! Jesus Cristo formou especialmente para nós este coração tão amante, e no-lo deu quando disse: "Eis a vossa mãe!"

Depois do coração do Homem-Deus, o coração de Maria é tudo o que há de melhor, mais puro, mais misericordioso, mais belo e, finalmente, tudo o que há de mais grandioso. Junto ao Coração de Deus, do qual não quer a Providência que seja jamais separado, nada de mais central.

"Tudo é para o Filho de Deus e a Sua Mãe" (S.Bernardo. I Sup. Salv. Reg.). Tudo, tanto na terra como no Céu, gravita em torno da Mulher cercada do sol divino, que é o Verbo encarnado. "Com o coração de Jesus, o coração de Maria é o centro do mundo". (Sauvé)

O coração de Maria revela admiravelmente o coração de Jesus, e lhe prepara os caminhos; o amor do coração da Virgem é o raio mais puro da redenção, e o Salvador não podia dar à terra um testemunho mais doce do Seu amor que o coração de Sua Mãe, que se une primeiro ao Seu próprio coração, para em seguida unir-nos a Jesus Cristo.

Primeiramente, o coração de Maria é um coração físico, o Seu coração palpitante de outrora, de tão profundas e puras alegrias, angustiado por inefáveis dores, este coração em que, como em todo o Seu puríssimo corpo, e em Sua alma santíssima, habita sempre a augusta Trindade, com inefáveis complascências.

O coração de Maria é ainda esta faculdade de amar, faculdade que Maria empregou em todo o Seu poder e em toda a Sua delicadeza, o Seu amor imenso que Lhe faz sacrificar para a honra de Deus e para a nossa salvação o Seu Filho adorado.

E não se deve reparar o interior deste amor, simbolizado pelo Seu coração, mas a ele incluir todos os tesouros de luz postos a serviço deste amor.

Para ter a fisionomia completa deste amor materno, seria preciso aproximar o abismo de Suas grandezas do abismo de Suas dignidades e de Seus privilégios e vê-los expandir-se no amor.

Seria preciso contemplar ainda os abismos de Suas virtudes, inspiradas todas pela caridade, os abismos de Suas alegrias penetradas pelo amor, de Seus sofrimentos, oriundos também da exuberância do Seu amor.

Então ter-se-ia o íntimo desde "Coração-Sol", como o chamou Paracelso, e compreender-se-ia que, depois do coração de Jesus, nada é mais capaz de comover-nos que o coração de Maria, tanto mais que neste coração todas estas maravilhas e todos estes mistérios de vida nos são mostrados como orientados para a manifestação suprema de Sua caridade para com Deus e para com os homens, isto é, a Cruz.

A este respeito é perfeito o paralelismo entre o coração de Jesus e o coração de Maria.

Todo o amor de Sua Mãe, e tudo o que resulta deste amor, tende sempre para o sacrifício supremo.

Ó coração admirável de uma Mãe!

Perdoai-me a indiferença passada, ó Maria! Fazei que agora ao menos a beleza inefável de Vosso coração cative o meu; arrastai-o conVosco, pregai-o a Vós, fazei-o gravitar em redor de Vós, assim como gravitam os planetas em redor do sol.

Vós sereis o sol de minha vida, por Vós receberei calor, luz e vida - "Vita, dulcedo et spes nostra, salve !"

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria, continua com o post: O amor de Deus)

PS: Grifos meus.

A mesa da família: autoridade e amor

Nota: Havíamos transcrito apenas excertos deste texto, segue ele inteiro.

A mesa da família:
autoridade e amor
(por Monsenhor Tihamér Tóth)




Creio não ser necessário explicar de um modo especial que, mencionando a mesa da família como primeiro móvel indispensável, penso particularmente em todos os problemas da vida comum dos esposos.

A mesa de família não significa, pois, somente o móvel ao redor do qual se reúne com amor toda a família, e onde o pai assenta-se ao entrar, fatigado do seu trabalho. Significa ainda mais a comunhão das almas, a perfeita harmonia, a união de corações, base indispensável de um casamento feliz, e que repousam sobre suas colunas: autoridade e amor. Porque, realmente, a felicidade familiar exige a conveniente união da autoridade e do amor.

A família não é uma associação, nem uma sociedade por ações, nem um sindicato, mas um organismo vivo. Ora, a vida de um organismo tem leis que não se podem modificar. Pode-se fortificar o organismo, favorecer seu desenvolvimento, facilitar seu trabalho, mas tudo com uma única condição: não se tocar nas bases sobre as quais está construída toda a sua vida.

Uma destas leis fundamentais é, por exemplo, no casamento, a inseparabilidade dos esposos, a indissolubilidade do laço conjugal, como já dissemos anteriormente. O que pode ser anulado não é casamento.

Mas para que a vida conjugal corra sem empecilhos, para que floresçam nela a felicidade e todas as alegrias que o próprio ideal cristão do casamento as cerra em si, torna-se necessária a realização de uma outra lei fundamental. Ei-la: é a boa ordem e a distribuição do trabalho entre os membros da família, ou em outros termos, o conveniente emprego da autoridade e do amor.

"As mulheres sejam submissas aos seus maridos como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça da Igreja" (Ef. 5,22-23)

Naturalmente ouvindo esta prescrição de São Paulo dirão, talvez, as mulheres:

"O Cristianismo não reconhece, pois, que a mulher é igual ao homem? Não é atraso exigir hoje que a mulher obedeça a seu marido? E o marido não abusa deste poder?"

De fato, é preciso reconhecer que realmente há homens que pela sua conduta e modo de pensar são indignos de chefiar uma família. Reconhecemos também que o marido pode abusar de sua autoridade. E contudo esta exigência do Cristianismo não é humilhante para a mulher. Pelo contrário, ela garante a felicidade familiar, e é o que veremos, se compreendermos bem o que não significa a obediência da mulher e o que ela significa na realidade.

Primeiramente ela não significa que a mulher tenha menos valor, menos dignidade que seu marido. Não se trata naturalmente disto. Não significa ainda mais que a mulher deva realizar todos os caprichos e todos os desejos de seu marido, mesmo aqueles que não podem ser satisfeitos sem humilhação para a mulher ou sem pecado. Enfim, não significa que o marido tenha o direito de tratar sua mulher como uma criança menor, privada do uso da razão, de tiranizá-la, brutalizá-la, e fazê-la sofrer.

Não se trata disto.

Mas então que significam estas palavras de São Paulo, exigindo da mulher a obediência ao seu marido?

Significam que a boa ordem e a felicidade familiar são incompatíveis com as máximas propagandas feitas pelas pessoas frívolas, incompatíveis com a "emancipação da mulher", e as suas manifestações, incompatíveis também com a emancipação fisiológica, econômica e social da mulher.

- A emancipação fisiológica significa que a mulher teria o direito de se furtar aos encargos, que acompanham a sua dignidade de esposa e mãe, o que o Cristianismo condena.

- A emancipação econômica significa que a mulher tem o direito de se entregar a operações econômicas independentes de seu esposo, sem sua participação, e mesmo contra a sua vontade, não cuidando de sua família. É isto que o Cristianismo condena.

- Quanto à emancipação social, ela consiste no direito, para a mulher, de destruir as muralhas do santuário familiar, de abandonar a sua missão no lar, de não cuidar de seu marido e de seus filhos e exercer um trabalho na vida pública. É isto que o Cristianismo condena.

Não o permite, porque se seu marido é a cabeça da família, a mulher é o seu coração, e não se pode, sem perigo mortal para ambos, tomar o coração independente da cabeça, emancipá-los um com relação ao outro e separá-los um do outro.

Onde dois vivem juntos, é absolutamente necessário que um deles, conduza e "mande". Se numa família não há "comando", nem "obediência" ela se desagregará cedo ou tarde. Obediência quer dizer inclinar a vontade, ceder. Quem cederá? O mais sábio. E é preciso que a mulher seja a mais sábia.

Infelizmente as moças imaginam muitas vezes o casamento como uma festa perpétua, um encanto continuo. Mas a vida não é isto. Não existe harmonia absoluta neste mundo, e cedo ou tarde, pequenas divergências surgirão entre os esposos, mesmo os mais cordatos, e então, é preciso que um dos dois ceda. Seja então a mulher. Porque se considerarmos realmente um casamento feliz, notamos e descobrimos que a mulher que sabe aplainar as dificuldades é a mais sábia. É pois, uma ilusão perigosa para as jovens pensar que poderão governar os esposos, e que isto será sempre assim, porque eles as amam.

Não interpreteis, contudo, como uma servidão indigna esta obediência em que pensa São Paulo, quando diz:

"O homem é a cabeça da mulher como Cristo é a cabeça da Igreja"

Esta frase de São Paulo indica diretamente que a obediência da mulher é, propriamente, não a seu marido mas a Cristo. A mulher obedece por causa de Cristo, e eis porque é muito natural que essa não possa obedecer-lhe senão nas coisas que Cristo também aprova e permite.

Esta consideração faz desaparecer definitivamente todo o receio de que esta obediência seja humilhante para a mulher. É humilhante para a Igreja obedecer a Cristo? Quanto ao mais São Paulo escreve literalmente:

"Mais, como a Igreja é sujeita a Cristo, assim também o sejam em tudo as mulheres a seus maridos" (Ef. 5,24).

É somente nesta concepção elevada, que se podem realizar na vida conjugal a santidade e a pureza que São Paulo exige claramente quando escreve:

"Cada um de vós saiba guardar seu corpo na santidade e pureza sem se abandonar aos arrebatamentos da paixão como fazem os pagãos, que não conhecem Deus" (I Tes. 4,45)

Quantas famílias São Paulo não deveria chamar hoje, de pagãs! Ele exige de fato que o esposo cristão viva com sua esposa cristã de tal forma que em suas relações com a mulher se manifestem a santidade e a pureza, isto é, que um e outro se testemunhem reciprocamente o respeito, o amor, e a delicadeza, que fazem da família um verdadeiro santuário.

Tudo, porém, que dissemos até agora, não é senão uma das bases da "mesa familiar" necessária à felicidade da família: a autoridade. Mas para que esta mesa tenha uma base mais firme, é lhe necessária uma outra base, o amor.

E as esposas que talvez pensem sempre com angústia nas palavras de São Paulo exigindo a obediência, reconciliar-se-ão certamente com ele, lendo a frase seguinte. Porque, se é verdade que ele exige da mulher obediência e submissão, escreve igualmente aos maridos:

"Maridos, amai vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja, e Se entregou Ele mesmo por ela a fim de santificá-la, purificando-a" (Ef. 5, 25-26)

Ah! é outra coisa. Vejo aqui a idéia perfeitamente cristã. O Cristianismo, como guarda supremo da ordem social, condena a tirania como a insurreição; condena-as na vida pública, e também na família.

Assim como a obediência e autoridade constituem a base importante da vida familiar, também o amor exerce um papel importante. A obediência preserva da insurreição, mas o amor preserva da tirania.

Se São Paulo proclama que o marido é o chefe da família, não proclama que ele é o tirano doméstico. O esposo é o chefe da família unicamente como Cristo é o chefe da Igreja. O marido deve, pois manifestar à mulher o mesmo amor generoso, sem limites, pronto a todos os sacrifícios, que Cristo manifestou à Igreja, sacrificando sua vida. O homem deve estar pronto, se preciso for, a sacrificar sua vida pela sua esposa, como Cristo fez pela Sua Igreja.

Esta concepção elevada das relações mútuas dos esposos é bem diferente da que publicam os romancistas ou cantam os poetas. Como é diferente o amor do Evangelho! O amor dos sentidos que se traduz em palavras ternas, em declarações vazias, em grande eloquência inflamada, extingue-se como fogos que, assobiando, se elevam aos céus. O amor conforme o Evangelho, ao contrário, é profundo, puro, santo, generoso, durável, não se derrama em ondas de palavras, mas em atos.

Como haveriam bem mais famílias felizes sobre a terra se não se esquecessem que só o amor recíproco generoso e devotado assegura a felicidade no casamento.

Os homens, infelizmente, pensam muito pouco nisto. Interroguemos apenas um deles antes de seu casamento: "dizei-me, pois, porque quereis casar?"

"Por que? Para ser feliz!"

Não é assim que responderia a maior parte? Ora, precisamente esta idéia superficial do casamento é causa do maior número de dramas familiares. Só tem uma idéia justa do matrimônio aquele que aí introduz a idéia do sofrimento. O casamento feliz, qual aquele tapete persa, não é traçado só com fios de alegria e de prazer, mas também com os do sofrimento, da renúncia, da paciência e da indulgência.

Esquecestes que o casamento se celebrou ao pé do altar? Ora, o altar é o lugar do sacrifício, é um perpétuo aviso aos dois esposos: Sem sacrifício recíproco não há felicidade.

"Amai-vos uns aos outros com amor fraternal, porfiando em honrar uns aos outros", diz a Escritura Sagrada (Rom. 12,10). Os esposos manifestam esta amabilidade por um amor delicado e terno, por atenções cheias de tato, adivinhando desejos ocultos, até mesmo se compenetrarem destas idéias, então o primeiro móvel da família, a mesa comum, será sólida.

Eis, pois, o que significa este primeiro móvel indispensável em um lar: a mesa da família.

(Casamento e família, por Mons. Tihamér Tóth)

PS: Grifos meus.

Emancipação da mulher por Lênin

Emancipação da mulher por Lênin


“Independentemente de todas as leis que emancipam a mulher, esta continua sendo uma escrava, porque o trabalho doméstico oprime, estrangula, degrada e a reduz à cozinha e ao cuidado dos filhos, e ela desperdiça sua força em trabalhos improdutivos, que esgotam seus nervos e a idiotizam. Por isso, a emancipação da mulher, o comunismo verdadeiro, começará somente quando e onde se inicie uma luta sem quartel, dirigida pelo proletariado, dono do poder do estado, contra essa natureza do trabalho doméstico, ou melhor, quando se inicie sua transformação total, em uma economia a grande escala."

(Lênin, Vladimir Ilich.- El poder soviético y la situación de la mujer)

PS: Grifos meus.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Meditação da quinta-feira (Sobre a Paixão de Nosso Senhor)

MEDITAÇÃO DA QUINTA-FEIRA


JESUS COROADO DE ESPINHOS

1 - Não satisfeitos aqueles infames soldados com o horrível tormento dos açoites, e com os estragos causados no corpo adorável de Jesus Cristo, inspirados sem dúvida por Satanás, e instigados pelos judeus, quiseram tratá-lO como a Rei de comédia e de escárnio, e cobriram-nO com um farrapo de púrpura, a servir-Lhe de manto real; meteram-Lhe na mão uma cana em vez de cetro; e puseram-Lhe na cabeça um manípulo de espinhos em forma de coroa; e juntando ao ludibrio um novo tormento, tiraram-Lhe a cana da mão e com ela, à força de bater, fizeram-Lhe cravar os espinhos na sagrada cabeça, "de maneira, que, diz São Pedro Damião, chegaram alguns a penetrar até ao cérebro", e foi tanto o sangue derramado destas feridas, que Lhe deixou empastados os cabelos, os olhos e as barbas, segundo se lê nas revelações feitas a Santa Brígida.

Foi este tormento da coroação não só doloríssimo, senão também mui demorado, pois tão profundamente cravados ficaram os espinhos que se renovava e recrudescia a dor ao pacientíssimo Cordeiro sempre, que Lhe tocavam na coroa ou na cabeça.

Ó cruéis espinhos! que assim torturais ao Vosso Criador!

Mas para que dirigir-me aos espinhos? Foste tu, ó minha alma, com teus maus pensamentos que transpassaste a cabeça sacrossanta do teu Salvador.

Ó meu amado Jesus, Vós que sois o Rei dos Ceús e da terra estais agora feito rei de opróbrios; a isto Vos impeliu o amor às Vossas criaturas! Eu Vos amo, ó Deus meu! mas aí! que enquanto vivo, estou exposto sempre ao perigo de Vos abandonar de novo, de negar-Vos o meu amor, como até agora  tenho feito. Se vedes, Senhor, que Vos hei de tornar a ofender, dai-me antes a morte porque espero e desejo morrer na Vossa graça.

2 - Quis além disto aquela gentalha abominável fazer de Jesus objeto de divertimento, e multiplicar as suas afrontas e para isso ajoelhavam diante d'Ele e diziam em ar de mofa: "Deus te salve, rei dos judeus" e, dizendo assim, cuspiam-Lhe no rosto, esbofeteavam-nO, dirigiam-Lhe palavras injuriosas e faziam diante d'Ele gestos de desprezo. Quem por ali passasse naquela ocasião e O visse assim desfigurado, coberto com aquele manto roto, com aquele cetro na mão, e aquela coroa na cabeça, escarnecido e tão mal tratado por aquela vil canalha, não O teria tomado pelo homem mais infame e malvado do mundo?!

Se eu olho para o Vosso corpo, ó meu Jesus, não vejo senão chagas, e sangue; se considero o Vosso coração, não encontro senão aflições e amarguras!

Ó meu Deus, quem poderia, senão a Vossa bondade infinita, sujeitar-se a sofrer tanto pelas criaturas!? Essas chagas são outros tantos sinais do amor que lhes tendes: oh! se os homens Vos contemplassem neste estado de dores e ignominias, como não ficariam cativos do Vosso amor? Eu Vos amo, Senhor, e me entrego todo a Vós; ofereço-Vos o meu sangue e a minha vida, e estou disposto a morrer como Vos aprouver; aceitai o sacrifício que de si mesmo Vos faz o mais miserável dos pecadores, que agora Vos quer amar de todo o seu coração.

3 - Entregue de novo Jesus a Pilatos, este mostrou-O duma varanda ao povo, dizendo "Ecce homo: eis aqui o homem" como quem diz: "Aqui está o homem que haveis apresentado no meu tribunal, acusando-o de querer proclamar-se rei: podeis já desvanecer esse temor, vendo-o reduzido a este extremo, prestes a perder a vida; deixai-o ir  morrer a sua casa." Os judeus, porém, que num excesso de cegueira haviam clamado antes:

"Se é inocente caia sobre nós a responsabilidade de haver derramado o seu sangue" gritavam agora: "tira-o da nossa vista, mata-o, crucifica-o."

Considera aqui, alma minha, que assim como Pilatos mostrou a Jesus ao povo, da mesma forma lá do Céu o Eterno Pai no-lO está mostrando a nós, dizendo:

"Aqui tendes o Homem, que Eu prometi para vos redimir, é o Meu próprio Filho Unigênito, a quem amo, como a Mim mesmo, vede-O feito homem de dores, o opróbrio dos homens; contemplai o Seu sofrimento, e amai-O."

Sim, ó meu Deus, eu considero os sofrimentos de Vosso Filho, e Lhe consagro o meu amor, e Vós, pelos merecimentos de Sua Paixão, perdoai-me as ofensas, que Vos tenho feito; deixai que desça sobre mim o orvalho de Vosso sangue e me alcance misericórdia. Eu me arrependo, ó Bondade infinita, de Vos haver ofendido, e Vos amo de todo o meu coração: e Vós, que conheceis a minha fraqueza, ajudai-me e tende piedade de mim. Maria, minha esperança, rogai por mim a Jesus!

(Sagrada Família, por um padre redentorista, 1910)

PS: Grifos meus.

Emancipação feminista por Engels

Emancipação feminista por Engels


"A emancipação da mulher só se torna possível quando ela pode participar em grande escala, em escala social, da produção, e quando o trabalho doméstico lhe toma apenas um tempo insignificante. Esta condição só pode ser alcançada com a grande indústria moderna, que não apenas permite o trabalho da mulher em grande escala, mas até o exige, e tende cada vez mais a transformar o trabalho doméstico privado em uma indústria pública."

(Engels - Origem da Família, da propriedade privada e do Estado - pág. 58)

PS: Grifos meus.

Sofrimento e a família!

Sofrimento e a família!


Era simplesmente magistral aquela professora no seu papel de educadora. Amor e dedicação acendrados dedicavam-lhes os alunos. Muita alegria colheu no seu magistério. Um dia, porém, adoece, indo parar nunca cadeira de rodas, com dores contínuas. Ao lado dessas sentavam-se também muita paciência e muita alegria.

Anualmente era peregrina de Lourdes, tornando-se figura proverbial para os padroeiros da gruta. Admiravam-se da teimosia da professora, sempre fracassada nos seus pedidos. Nunca recebia a saúde. É que ignoravam um segredo. Aquela doente rezava diferente. Não pedia a saúde. Pedia à Mãe de Deus que a não curasse. Queria sofrer pelas intenções apostólicas de seu amor cristão.

Veja a prezada família até aonde chegam os clarões da fé! Nossa paciente enxergava horizontes ocultos a muitos outros cristãos. Via e apalpava o valor do sofrimento. Por isso pedia a continuação de sua doença.

Os lares que me (lêem) tirem daí umas conclusões. Não digo que devam imitar a oração dessa professora. Mas copiem-lhe a visão cristã, valorizada, do sofrimento. Há nele um fator de salvação e de pedagogia insubstituível. Pesa na balança muito mais do que capital e juros, do que imóveis e terras. É paganismo receber uma família os sofrimentos com pedras na mão. Digo com reclamações, com interpelações dirigidas a Deus. Pior ainda quando no caso abandona a religião.

É visível que sua religiosidade era interesseira, como a dos judeus no Velho Testamento. Por causa da saúde dos filhos, das farturas em colheitas do campo e do pomar, da paz em suas propriedades, adoravam a Deus. É praticada só para receber de Deus como prêmio neste mundo a saúde, a ausência de sofrimentos físicos e morais.

Para os filhos o modo de aceitar os sofrimentos na família é lição de primeira grandeza. Grava-se em suas almas. Amanhã a dor achará o endereço deles, morem onde morarem. Tiveram diante de si uma atitude cristã mostrada pelos pais? Ei-los imitando o que viram. Viram o contrário? Irão copiar as atitudes pagãs e demolidoras.

Um lar cristão tem de acertar essa atitude correta. Deus não criou seus filhos para o sofrimento. Permite-o para maiores méritos na eternidade. O pecado trouxe a dor, mas a graça valoriza-a, suaviza-a. Há valores expiatórios e redentores neles. Se fracassam os meios humanos e lícitos para mitigar a dor, resta aceitá-la cristãmente. Entre ela e a coroa do céu não há proporção.

(Mundos entre berços, do Pe. Geraldo Pires de Souza)

PS: Grifos meus.