quarta-feira, 21 de julho de 2010

Dia do Juízo

Dia do Juízo


Se ao justo Juiz irado
hei-de ser apresentado
p'ra, terrível, me julgar
minhas culpas, meu pecado!
Como vivo descuidado?
Como ouso ainda pecar?

Dor intensa hei-de sentir
no coração, se me vir
naquela hora condenado!
Se o meu Deus, meu Criador,
meu supremo Julgador,
de Vós me houver afastado!

Que será do pecador
ante a face do Senhor,
severo, irado a julgar?
Ó Jesus, Pai de bondade,
pela Vossa piedade,
não me queirais condenar.

(E se por justiça isso acontecer)
Adeus, Senhor Superno!
Adeus, Mãe do Amor Eterno!
Que eu, longe do Meu amado,
irei, triste, desterrado!
Pr'a sempre, sem Deus, sem Pai!

(Sagrada Família, por um padre redentorista, 1910)

Os inimigos da obediência da esposa

Os inimigos da obediência da esposa


- É uma indignidade a servidão de um cônjuge para com outro. Pois são iguais os direitos de ambos. A esposa há de viver emancipada. Três são os modos dessa emancipação: social, econômica e fisiológica.

R - Todos os que empanam o brilho da fidelidade e castidade conjugal, atiram por terra também, facilmente, a confiante e nobre sujeição da mulher ao marido. Esta não é a verdadeira emancipação da mulher, nem a digníssima liberdade que compete ao nobre e cristão ofício de esposas. Muito ao contrário, é a corrupção do caráter próprio à mulher e da sua dignidade de mãe. É o transtorno de toda sociedade familiar, pelo qual ao marido se tira a esposa, aos filhos, a mãe, e ao lar, a dona vigilante.

Essa igualdade antinatural só acarreta danos à mulher, pois a faz descer do trono em que o Evangelho a colocara dentro dos muros do lar.

- Nas inovações sobre os direitos políticos, sociais e econômicos da mulher, basta ter em vista as correntes ideológicas dos tempos, as exigências da ordem social.

R - Não; tenha-se em conta o que reclamam a índole diversa do sexo feminino, a pureza dos costumes e o bem comum da família... A sociedade doméstica foi estabelecida por uma autoridade mais excelsa do que a humana. Por conseguinte, não pode ser mudada nem por leis públicas, nem por preferências privadas.

(As três chamas do lar, pelo Pe. Geraldo Pires de Souza, págs. 80 e 81)
PS: Grifos meus.

Ver também:

Mãe

Mãe



Em ti penso, contigo sonho, anjo da guarda da minha infância! Treme a minha pena e o meu coração bate mais depressa quando escrevo esta palavra: "Mãe". A grandeza desaparecida dos dias passados torna à minha presença como se me acenasse de um longínquo e espesso nevoeiro. Surgem as recordações dos dias soalheiros da primavera, das carinhosas mãos da mãe que tão solicitamente me cuidavam. E vibram as cordas da minha alma.

Quem pode compreender totalmente o sentido dessa palavra? Quem há que não estremeça ao pensar naquela que nunca o deixou de amar desde o primeiro instante da vida, que sorria como um sol sobre o seu berço, que sofria quando o seu pequeno estava doente e padecia?

Que coração se não enche de emoção quando pensa naqueles dias da infância em que  nada mais existia além da mãe? Talvez tenha sido para muitos a primeira e a única alegria da vida!

É bom pensar nesses tempos, em que a alegria e a claridade nos rodeavam, em que a dor e as preocupações ainda não tinham aparecido, porque a mãe impedia a sua entrada na sagrada ilha da infância.

Quem pode dizer o significado da palavra "Mãe"?

Estudiosos, novos e velhos, aprenderam na vida muitas definições, procurei-a durante muito tempo e nunca a poderei esquecer, embora tenha sido difícil encontrá-la.

Se reuníssemos tudo o que Petöfi escreve em longínquas terras, e Torth Kalman canta sobre a mãe no lar, ou o que um órfão soluça no cemitério; se ouvíssemos as canções populares e os grandes poetas do povo ou os brilhantes elogios dos grandes educadores; se nos fosse possível penetrar na alma despedaçada de qualquer mãe quando visita na prisão o seu filho perdido; se contássemos as horas em que o olhar materno vela junto do berço de um filho doente; se pudéssemos convoca, da longínqua história, a orgulhosa mãe dos Gracos ou juntar em salva de ouro o delicado coração de Elisabeth Szilagy ou de Hellene Zriny e o fiel coração da mulher de um trabalhador que incansavelmente cuida, noite e dia, dos que ama; se, finalmente, trouxéssemos ainda a célebre figura de mãe do cemitério de Génova e, sobre isto tudo, fizéssemos resplandecer a imagem da Madona, teríamos apenas um débil reflexo do que é a mãe. Mas a profundidade dessa maravilha não estaria ainda esgotada.

(A Mãe, pelo Cardeal Mindszenty)

PS: Grifos meus.

terça-feira, 20 de julho de 2010

IV. A TRISTEZA, O TEDIO, O PAVOR

IV. A TRISTEZA, O TEDIO, O PAVOR


A vereda que sobe ao horto de Getsêmani é talhada no rochedo; passa primeiramente em frente ao túmulo de Absalão, sempre entulhado das pedras que nele jogam por desprezo ao filho revoltado [que ele foi], e alonga-se em seguida entre duas muralhas de rochas secas e frias.

Naquela noite inundavam-na as claridades da lua... e as sombras dos muros, dos ciprestes e das oliveiras estiravam-se muito negras no solo alvacento. Jesus, atravessada a torrente, tomara a dianteira, como o fazia às vezes, e avançava só, penosamente... quase a roçar as muralhas secas, como se sentisse necessidade de apoiar-se.

Atrás, o grupo amedrontado dos discípulos seguia-O, espreitando-Lhe os movimentos incertos e o caminhar infirme.

Nada interrompia o pesado silêncio daquela subida já dolorosa e que uma palavra do Cristo ia tornar lúgubre.

Com efeito, a um ponto da estrada tenebrosa, Jesus pára: parece oprimido e sem poder avançar mais, volta-se. Os Apóstolos se consternam à vista da Sua palidez assustadora... Todo o Corpo Lhe treme, tremulha-Lhe a voz entre os lábios cerrados, e Ele deixa cair estas palavras desoladoras:

– Eu estou triste... até o fundo d’Alma... e triste até a morte.

Que contraste! Ainda há pouco, quando descia as encostas do Ofel, tranqüilizava os Seus, e a coragem Lhe brotava forte e vivificante para ir levantar a alma cadente dos discípulos. E agora: Eu estou morrendo... de tristeza. Há apenas um instante, do outro lado da torrente, a Sua voz se elevava firme, vibrante, subindo como um derradeiro incenso até ao trono do Pai, pedindo sem dúvida, porém determinando ao mesmo tempo: Pater... volo... – Pai, Eu quero.

E agora, não só Ele já não quer, mas parece já não poder orar sozinho, pois diz aos Apóstolos: Parai ali... e orai... e velai... comigo.

Tem medo da solidão... e leva consigo os três privilegiados, Pedro, João e Tiago, e repete-lhes: Orai comigo, vigiai comigo.

Ainda uma vez, que mudança! Já não é o mesmo.

Os Apóstolos não compreendem nada. Nunca O haviam visto assim, medroso, tão vacilante, tão humano.
Viram-nO triste algumas vezes até a chorar; viram-nO irritado, severo em certos momentos, mas apesar de tudo senhor de si sempre.

Agora o leme parece largado, a Alma flutua-Lhe como um destroço à mercê de vagas encapeladas e invisíveis.

É de não se acreditar: Ele, desanimado, triste de tristeza mortal, Ele, com medo e amargamente entediado até à náusea suprema! Ele!

E os três, que estão parados a uma rocha à flor do solo, miram o Mestre que se vai a alguns passos mais longe, entra numa gruta sombria, profunda... eles aplicam o ouvido, escutam. Uma voz plangente sai do antro escuro: – Meu Pai, soluça Ele, se é possível, passe longe de mim este cálice doloroso e cheio...

Como? Que quer Ele dizer? Terão eles ouvido bem? – Passe, prossegue a voz terrificada e súplice, longe, longe de mim!

Que cálice? Por que rejeitá-lo?

Os Apóstolos se entreolham – não, não, já não é o mesmo, está mudado.
Sim, está mudado... ei-lO com efeito que cai de joelhos, não se agüenta mais.

– Meu Pai, repete incessantemente – pois diz sempre a mesma coisa e parece só desejar essa coisa – Meu Pai, tudo Vos é possível; passe longe de mim este cálice. Eu não o posso beber, passe...

E os Apóstolos, os três que O viram glorioso e fúlgido como a neve cintilante no Tabor, enxergaram-nO então não já de joelhos, não já de braços erguidos, não mais de Face erguida e a fitar o alto, porém estendido a fio, aniquilado... no chão...

“Que lamentável postura!” (Bossuet).

Será mesmo Ele, em verdade? E os três se recordam, Pedro principalmente. Quando um dia O tomara este à parte para Lhe dizer baixinho, por amor: – Absit, Domine (Mat 16, 22) – Não, Senhor; Vós entregue, flagelado, crucificado? Absit, nunca! Repreendera-o então abertamente o Mestre, até a Lhe dizer: – Vai-te, demônio tentador... a carne e o sangue não podem compreender as coisas de Deus...

... E lá está ela, essa coisa de Deus: um Ser estendido, sem movimento, a pedir e a suplicar, implorando misericórdia...

Os outros também se podem lembrar daquilo que Ele dizia falando da Sua Paixão: – Eu sofro singularmente... de a ver retardada... é um banho em que aspiro a mergulhar: Quómodo coárctor (Lc 12, 50)...

Pois bem, ei-la, a Vossa Paixão, estais nele, nesse banho tão suspirado – ei-lo, esse batismo de Sangue...
Para que então mostrar tanto ardor antes, se se havia de ter tão pouca coragem no momento!

E todos estes pensamentos abatem a tal ponto o espírito dos Apóstolos, que eles sucumbem também, aniquilados, e caem no torpor...

Quanto tempo assim ficam?
Quem sabe?

Súbito uma voz os desperta, uma mão toca-os: – Oh, como?... estais dormindo... tu, Pedro... que prometestes seguir-me... não podes vigiar... comigo, perto de mim... uma hora sequer!
Eles abrem os olhos – o semblante que os fita está coberto de um suor estranho, as mãos que os tocam estão úmidas de Sangue... será um sonho?

Continuam a não compreender nada – tartamudeiam, não sabem o que respondem, tornam a cair pesados no solo. E Jesus se vai embora só, desalentado, sem apoio humano, cambaleante; e ei-lO de novo por terra e a gemer o Seu mesmo estribilho que Lhe ditam a tristeza, o tédio e o pavor...

+ + +

(2ª Parte da obra “A subida do Calvário”, do Pe. Louis Perroy, SJ)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.

Coroa das 7 Dores de Nossa Senhora

Coroa das 7 Dores de Nossa Senhora
(Segundo o livro "As mais belas orações de Santo Afonso")



No início:

- Vinde, ó Deus, em meu auxílio;
- Senhor, apressai-Vos em me socorrer!

- Glória ao Pai...
- Assim como era...

Anunciam-se as Dores como se fazem com os Mistérios no Rosário. Assim:

- 1ª Dor: A Profecia de Simeão à Nossa Senhora, anunciando-Lhe a espada de dor que um dia Lhe traspassaria a Alma, na Paixão de Seu diletíssimo Filho;

- 2ª Dor: A Fuga e Exílio para o Egito;

- 3ª Dor: A Perda do Menino Jesus no Templo;

- 4ª Dor: O Encontro com Jesus carregando a Cruz;

- 5ª Dor: Nossa Senhora assiste a Crucificação, Agonia e Morte de Seu adorado Jesus;

- 6ª Dor: Nossa Senhora vê o Coração de Jesus ser traspassado pela lança, e depois recebe em Seus Braços o Corpo de Seu Divino Filho, morto pelos nossos pecados;

- 7ª Dor: O Sepultamento de Jesus.

- Após o anúncio de cada Dor, segue-se um Pai-nosso e 7 Ave-Marias. (Sem o Glória-ao-Pai no final)

Para ganharem-se as Indugências requer-se que se contemple interiormente, enquanto se rezam as preces vocais, cada Dor anunciada, como se faz no Rosário com os Mistérios.

- No fim da Coroa se dizem 3 Ave-Marias em honra das Lágrimas de Nossa Senhora.

PS: Existe um terço próprio para essa devoção com 7 dezenas, contendo 7 bolinhas em cada dezena e uma bolinha (maior) no intervalo delas.

Oração em homenagem às Dores da Virgem Maria

Oração em homenagem às Dores da Virgem Maria
(Extraída da obra “As mais belas orações de Santo Afonso”)



V: Vinde, ó Deus, em meu auxílio.
R: Senhor, apressai-Vos em me socorrer.

V: Glória ao Pai...
R: Assim como era...

I. Ó Mãe aflita, eu me condôo da dor que Vos causou a primeira espada que traspassou o Vosso Coração, quando no Templo, à voz de São Simeão, Vos foram representados todos os tormentos que os homens deviam fazer sofrer a Vosso amadíssimo Jesus, os quais já conhecíeis pelas divinas Escrituras, tormentos que chegariam a fazê-lO morrer ante os Vossos olhos, cravado num madeiro, esgotado em Sangue, abandonado de todo o mundo e sem que O pudésseis socorrer. Por esta lembrança cheia de amargura, que angustiou a Vossa Alma tantos anos, ó minha Rainha, suplico-Vos me obtenhais a graça de ter sempre gravadas no meu coração, durante a minha vida e na hora da minha morte, a Paixão de Jesus Cristo e as Vossas dores.

Pai nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...

II. Ó Mãe aflita, eu me condôo da dor que Vos causou a segunda espada que Vos traspassou o Coração, quando vistes o Vosso Filho inocente, apenas nascido, perseguido para a morte pelos mesmos homens para cuja salvação veio ao mundo, de sorte que fostes então obrigada a fugir para o Egito, de noite e às ocultas. Por tudo o que sofrestes, jovem e delicada Virgem, com o Vosso divino Filho exilado, durante esta longa e penosa viagem por lugares abruptos e desertos, e durante a Vossa estada no Egito, onde, estrangeiros e desconhecidos, vivestes tantos anos, pobres e desprezados, Vos suplico, ó minha amadíssima Soberana, me obtenhais a graça de suportar com paciência, na Vossa companhia, até a morte, as penas desta miserável vida, a fim de escapar na outra às penas eternas que mereci. Amém.

Pai nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...

III. Ó Mãe aflita, compadeço-me da dor que Vos causou a terceira espada que traspassou o Vosso Coração, quando perdestes, sem culpa Vossa, o Vosso caro Filho Jesus em Jerusalém, onde três dias ficou ausente de Vós. Certamente, durante essas noites cruéis, que tivestes de passar sem ver ao Vosso lado o objeto do Vosso amor, sem saber a causa de Sua ausência nem onde Ele se encontraria, não pudestes achar repouso, e não fizestes outra coisa que suspirar e chorar por Aquele que era todo o Vosso bem. Por estes suspiros e lágrimas, por esta separação tão amarga e penosa, ó minha Rainha amantíssima, suplico-Vos me obtenhais a graça de jamais perder o meu Deus pelo pecado, a fim de que, constantemente unido a Ele durante a minha vida, tenha a felicidade de sair deste mundo nesta santa união. Amém.

Pai nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...

IV. Ó Mãe aflita, eu me condôo da dor que Vos causou a quarta espada que traspassou o Vosso Coração, quando vistes o Vosso divino Filho condenado à morte, amarrado, coberto de Sangue e Chagas, coroado de espinhos, caindo no caminho sob o peso da Cruz que levava sobre Seus machucados ombros, indo como um Cordeiro inocente morrer pelo nosso amor: os Seus olhos e os Vossos se encontraram então, e estes mútuos olhares foram outros tantos dardos cruéis que feriram reciprocamente os Vossos Corações ardentes de amor. Por esta grande dor, ó minha generosa Advogada, suplico-Vos me obtenhais a graça de viver em perfeita resignação com a Vontade de meu Deus, levando a minha Cruz com alegria, após Jesus, e até o último suspiro. Amém.

Pai nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...

V. Ó Mãe aflita, eu me condôo da dor que Vos causou a quinta espada que traspassou o Vosso Coração, quando, no Calvário, vistes com os Vossos próprios olhos morrer, pouco a pouco, no meio de incríveis sofrimentos e humilhações, sobre o duro leito da Cruz, o Vosso amadíssimo Jesus, sem Lhe poderdes acudir com o mínimo alívio, coisa que em artigo de morte não se recusa nem mesmo aos maiores facínoras. Pela agonia que então sofrestes com o Vosso divino Filho agonizante; pela comoção que experimentastes ouvindo as últimas palavras que Ele Vos dirigiu do altar da Cruz, despedindo-Se de Vós e deixando-Vos por filhos todos os homens na pessoa de São João; pela coragem que tivestes de vê-lO depois pender a cabeça e dar o último suspiro, ó terna Mãe, suplico-Vos me obtenhais do Vosso Amor Crucificado, a graça de viver e morrer crucificado a todas as coisas deste mundo, a fim de viver unicamente para meu Deus, até a mote, e chegar um dia a vê-lO no Paraíso, Face a face. Amém.

Pai nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...

VI. Ó Mãe aflita, eu me condôo da dor que Vos causou a sexta espada que traspassou o Vosso Coração, quando lancearam o doce Coração do Vosso Filho já morto, e morto por esses ingratos que, depois de Lhe tirarem a vida, ainda Lhe dilaceram o Cadáver. Por este cruel tratamento, cuja pena tanto sentistes, ó Mãe das dores, suplico-Vos me obtenhais a graça de habitar no Coração de Jesus, ferido e aberto para mim, neste Coração, digo, que é o belo asilo, retiro de amor, em quem buscam e acham repouso todas as almas amantes, e onde Deus só, enquanto eu aí repousar, será o objeto dos meus pensamentos e afetos. Ó Virgem Santíssima, podeis alcançar-me esta felicidade; de Vós espero consegui-la. Amém.

Pai nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...

VII. Ó Mãe aflita, eu me condôo da dor que Vos causou a sétima espada que traspassou o Vosso Coração, quando vistes entre os Vossos braços o Corpo do Vosso Filho, não mais no brilho da Sua beleza, como O tínheis outrora recebido na gruta de Belém, mas ensangüentado, lívido, e rasgado todo de feridas, que haviam penetrado até aos ossos. “Ó meu Filho, diríeis então, ó meu Filho e meu Deus, a que estado Vos reduziu o amor!” E quando O levaram para o sepulcro, quisestes acompanhá-lO e compô-lO com as Vossas próprias mãos; e, enfim, constrangida a Lhe dardes o último adeus, deixastes sepultado com Ele o Vosso Coração ardente de amor. Por todos estes martírios sofridos pela Vossa bela Alma, ó Mãe do santo amor, obtende-me o perdão dos pecados de que me fiz réu contra meu Deus; pesa-me deles de todo o meu coração. Protegei-me contra as tentações, e socorrei-me na hora da minha morte, a fim de que, salvo pelos merecimentos de Jesus Cristo e pelos Vossos, vá, um dia, graças à Vossa assistência, após este miserável exílio, cantar no Paraíso os Vossos louvores e os de Jesus, durante toda a eternidade.

Pai nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...

V: Rogai por nós, ó Virgem aflitíssima,
R: Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Oremos:

Senhor, sede-nos propício, e concedei-nos a graça de aproveitar os felizes efeitos da Vossa Paixão, na qual, como Simeão o havia profetizado, uma espada de dor traspassou a Alma tão terna da gloriosa Virgem Maria, Vossa Mãe, cujas Dores honramos com a nossa devoção. Ó Vós que viveis e reinais pelos séculos dos séculos. Assim seja.

domingo, 18 de julho de 2010

Feminista e "teóloga" Ivone Gebara (Ataque a Igreja Católica)

Nota: Segue duas entrevistas concedidas por Ivone Gebara, feminista e "teóloga".

PRIMEIRA ENTREVISTA


A teóloga Ivone Gebara, paulistana, é doutora em Filosofia pela Universidade Católica de São Paulo e em Ciências Religiosas pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. Ela lecionou durante 17 anos no Instituto de Teologia do Recife, até sua dissolução, decretada pelo Vaticano, em 1989. Atualmente, vive e escreve em Camaragibe, Pernambuco. Percorre o Brasil e diferentes partes do mundo, ministrando cursos, proferindo palestras sobre hermenêutica feminista, novas referências éticas e antropológicas e os fundamentos filosóficos do discurso religioso. Tem vários livros e artigos publicados em português, espanhol, francês e inglês, entre eles As Incômodas filhas de Eva na Igreja da América Latina. São Paulo: Paulinas, 1989; e Rompendo o silêncio: uma fenomenologia feminista do mal. Petrópolis, Vozes, 2000.

A seguir, a entrevista que Ivone Gebara concedeu à IHU On-Line, por telefone, na qual falou sobre a caminhada das mulheres e do movimento feminista nos últimos tempos e o que isso provocou na sociedade e nas igrejas.

Ivone Gebara: A crise do masculino se situa na falta de sua nova identidade

IHU On-Line - Fazendo um balanço das lutas das mulheres pelo reconhecimento de seus direitos e de sua dignidade, o que as mulheres têm para comemorar, reivindicar e lamentar neste dia 8 de março?

Ivone Gebara - Uma das coisas mais importantes para o movimento feminista no Brasil é que nós não abandonamos a busca pelos direitos das mulheres e pela afirmação da nossa dignidade. Por exemplo, nós aprovamos a lei Maria da Penha e agora estamos com uma luta importante com os meios de comunicação, que têm veiculado imagens extremamente distorcidas das mulheres, particularmente das feministas. Enfim, eu faço um balanço positivo, no sentido de que, apesar de tantos senões à luta feminista, nós estamos fortes, estamos com essas bandeiras intensamente mobilizadoras da sociedade.

(...)

IHU On-Line - Quais os principais desafios que o feminismo coloca hoje à masculinidade ou às diferentes formas de se compreender e viver a masculinidade? Em outros termos, em que consiste a crise da masculinidade em meio aos desdobramentos dos movimentos feministas?

Ivone Gebara - A primeira questão da crise do masculino é que, ao mudarmos, nós, a nossa identidade submissa e dependente, ao deixarmos, nós, mulheres, de nos identificarmos como seres para e, nesse sentido, seres para os homens, para a família patriarcal, nós já estamos, ao afirmar nossa nova identidade, nossa busca de identidade, insistindo para que os homens entrem nesse processo de redefinição de sua identidade. O sexo forte, o sexo masculino, o gênero forte, masculino, só é forte e dominador na medida em que nós aceitarmos a dominação. E como nós não estamos mais aceitando o paradigma da dominação, eles estão em crise. Hoje em dia, a crise do masculino se situa numa espécie de falta de nova identidade do masculino. Isso tanto do ponto de vista das relações sociais quanto do interior das igrejas.

IHU On-Line - As teorias feministas e o movimento feminista tiveram um significativo desenvolvimento nos últimos anos e se desdobraram em diferentes perspectivas. Como a senhora avalia o impacto das teorias feministas e das reivindicações das mulheres no mundo acadêmico? E na teologia?

Ivone Gebara - Do ponto de vista da antropologia, da sociologia e da psicologia, talvez as teorias feministas tiveram um espaço maior no mundo acadêmico. Mas não estou convencida disso. Tenho a impressão de que também a psicologia, a psicanálise, a sociologia e a antropologia feministas não foram bem acolhidas pelo mundo acadêmico dominado pelos homens.

E a teologia feminista não foi de forma alguma. Ela ficou como um apêndice, como um cursinho, uma matéria a parte que se dá em muitos institutos de teologia. Esses, quando vão falar de teologia feminista, tiram o “feminista” e insistem em falar em “teologia feminina”, ou dizem que a teologia feminina não tem lugar, porque teologia é teologia, não existe teologia feminina e masculina. Mas sabemos que a teologia é masculina. Então, o impacto do feminismo no mundo acadêmico e, especialmente, da teologia, foi pouco significativo, mas, por sua vez, o feminismo e a teologia feminista tiveram um impacto maior nos movimentos sociais e muito particularmente nos movimentos de mulheres.

IHU On-Line - Na sua opinião, o que sustenta as mulheres, especialmente as mulheres desprivilegiadas em nossa sociedade, em suas lutas e resistências cotidianas? De onde tiram sua força?

Ivone Gebara - A grande força mobilizadora das mulheres é o próprio sofrimento no qual elas vivem. Não imaginemos que há uma força extraordinária, que vem do alto, ou da academia, ou dos governos. Mas a grande força das mulheres se localiza no sofrimento do seu próprio corpo. Não dá para agüentar ficar nas filas dos hospitais esperando atendimento. Não dá para agüentar ser violada e violentada continuamente dentro de casa. Não dá para agüentar viver sempre submissa às ordens de uma igreja que privilegia muito mais os corpos masculinos.

A grande força das mulheres está naquilo que se percebe: o sofrimento feminino é aumentado por conta de uma estrutura socioeconômica e política que privilegia, primeiro, uma elite e, segundo, uma elite masculina. Não abre a possibilidade para relações de igualdade de gênero. A força que sustenta as mulheres é a dor coletiva, é a solidariedade coletiva na mesma dor e a esperança coletiva de tentar vencer esses sofrimentos, que não são abstratos, são sofrimentos concretos.

O que sustenta, por exemplo, a luta das empregadas domésticas para não morar no emprego, para ter uma casinha digna, é o fato de ela ter sofrido no seu próprio corpo que o espaço que lhes é dado é sempre o pior espaço, com as piores condições dentro de uma casa ou um apartamento. É o próprio corpo que é o mobilizador das lutas, é o sofrimento do corpo que é mobilizador para que a mulher busque estados e situações de conforto maior esperança.

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SEGUNDA ENTREVISTA

Ivone Gebara: "Hierarquia da Igreja, obstáculo para empoderamento feminino"
(Em entrevista a Adital)

Adital - Como você analisa a condição das mulheres hoje na Igreja Católica? Existem possibilidades reais de mudanças favoráveis às mulheres na Igreja?

Ivone Gebara - Confesso a você que na conjuntura atual eu acho complicado porque a questão do movimento feminista é uma questão que toca em poderes, no poder de visibilidade das mulheres, numa liderança, por exemplo, política, econômica, nos sindicatos, nos movimentos populares...E esse tipo de liderança, infelizmente, é rejeitado não só pela hierarquia, mas pela cultura religiosa presente nas Igrejas.

Essa cultura, inclusive das mulheres que são a maioria, que são as devotas, digamos, tem uma espécie de emoção coletiva em torno da figura do padre. O padre exerce várias funções, não apenas a função do líder da Igreja. Em geral, os padres são mais educados que os próprios maridos ou que os próprios pais. É como se eles também representassem um ideal de homem, respeitador. E funciona também como uma autoridade, uma referência.

Por isso que tem o lado da manutenção de uma imagem hierárquica patriarcal do lado das mulheres, mas tem também o lado dos homens, da própria hierarquia. Então eu vejo a possibilidade de uma mudança dentro das instituições de Igreja a muito longo prazo. A curto prazo nós vamos ter aquisições em nível da sociedade civil e política. A sociedade religiosa é muito mais fechada, muito mais tradicionalista. As referências são muito mais, digamos, com fundamento religioso tão para além da história que eu acho difícil. Mas isso não significa que não há que trabalhar. Há que tentar trabalhar.

Adital - Dentro de todo esse contexto hierárquico, como a Teologia Feminista vem se firmando?

Ivone Gebara - Ela vem se firmando no Brasil, porque em outros países como nos Estados Unidos e no Canadá, é diferente. No Brasil ela se consolida, infelizmente, a partir das margens. A partir de pequenos grupos de congregações religiosas que se interessam pela Teologia Feminista. Há também alguns estudantes de faculdades de Teologia ou de Filosofia ou mesmo de Sociologia que têm interesse em sociologia da religião.

Alguns movimentos sociais, populares, como, por exemplo, o Movimento das Mulheres Camponesas, o Movimento pela Moradia, o Movimento das Mulheres contra a Carestia. Não são todos os movimentos, só alguns grupos, alguns núcleos que buscam. Alguns grupos de mulheres que foram educadas na Igreja Católica ou na Igreja Protestante que, por conta de seu feminismo, se sentem distantes. Aí vêem na Teologia Feminista uma chance de retomar certos valores e referências cristãs que elas tinham no passado. Acho que é por aí.

Adital - O movimento feminista despontou dentro dos movimentos sociais. Como se dá o diálogo entre a Teologia Feminista e os movimentos sociais?

Ivone Gebara - Na conferência de hoje [Seminário sobre Teologia Feminista, que aconteceu nos dias 2 e 3 de outubro, em Fortaleza, Ceará], a Isabel [Félix, teóloga] lembrava que era preciso retomar esse diálogo. Eu não sei como. Só sei dizer que, por exemplo, eu me sinto solicitada por grupos feministas de diferentes tendências para dar uma contribuição, para dar uma entrevista, para uma palestra. Mas tenho a impressão que por conta da posição um pouco retrógrada da Igreja Católica em relação aos desafios propostos pelas mulheres, as feministas têm se desinteressado de um estudo bíblico.

Elas ficam se perguntando: para que vai servir um estudo bíblico para nossas bandeiras? E acabam se interessando apenas num momento crítico como, por exemplo, a interrupção da gravidez quando se trata de certos anencefálicos. Aí todo mundo vai busca a tradição, a bíblia. Há quase dois anos, quando houve a discussão e o Supremo Tribunal Federal apresentou essa problemática e vários juízes começaram a discutir. Todos eles usaram textos bíblicos e usaram os teólogos - tanto os padres da Igreja, quanto os teólogos medievais.

Mas é interessante que ninguém usou a Teologia Feminista. Isso é uma coisa que chama a minha atenção, pois até nessas lutas que são bandeiras feministas pouco se faz uso da Teologia Feminista. É como se a autoridade viesse da Teologia feita pelos homens. Chamo a atenção disso para dizer que não sou pessimista em relação ao trabalho que faço e ao trabalho que algumas companheiras teólogas fazem. Mas se percebe que nesse ambiente atual, uma alternativa que abre para além de uma concepção hierárquica do mundo não encontra adeptos muito facilmente.

Adital - Tanto a Teologia Feminista, como a Negra, a Índia, têm o objetivo de aproximar a Igreja de diferentes realidades...

Ivone Gebara - A questão toda é que a gente não considera que a Igreja é somente a hierarquia. E quando o pessoal, inclusive os políticos, quando vão falar de Igreja estão considerando a hierarquia. Pode ser uma comunidade local ou uma internacional, de pessoas que se ligam à fé cristã, aos valores evangélicos, sem necessariamente se ligarem às ordens de uma hierarquia vaticana. Esse é um fenômeno novo. E não sei quais serão os contornos para o futuro. Acho que é um fenômeno novo de ser um cristão sem Igreja. Cristão sem uma instituição, mas como comunidade constituída de pessoas amigas que são referência, mas sem ter aquela preocupação de ser membro de uma instituição governada por uma hierarquia.

Adital - Como as comunidades em que você trabalha percebem ou assimilam este tema da Teologia Feminista?

Ivone Gebara - Eu trabalho com alguns grupos populares. Os grupos em que trabalho agora já têm, digamos, uma consciência política. Estão percebendo, por exemplo, a relação entre a opressão econômica social e política e a opressão religiosa. Como também percebem que existem políticas libertárias e existem dimensões de libertação nas instituições religiosas. Percebo, por exemplo, quando eu vou com as mulheres camponesas, que há busca de autonomia delas, o desejo que elas têm de estudar, de se empoderar. Elas não encontram eco na Igreja Católica. É um pouco aquilo que a Mary Daly fala, elas têm a impressão que na Igreja católica elas têm que ser procissão, elas têm que ir atrás do que os padres e os bispos falam. Eles que lideram. E elas já não querem mais. Não existe mais esse reconhecimento. Elas querem ser elas as líderes das buscas delas.

Adital - Na linha desses temas relevantes que a Teologia Feminista vem colocando a questão do aborto é uma das que mais tem visibilidade. Como você vê isso?

Ivone Gebara - Eu gostaria de dizer que a questão do aborto não é a primeira bandeira do feminismo. É uma bandeira. Hoje em dia nós estamos colocando situações extremas como a violência sexual contra as mulheres em situação de guerra ou em situação doméstica. Estamos levantando um problema trágico que é a exploração sexual contra as crianças. É uma coisa espantosa o número de crianças que tem chegado nos hospitais públicos, vítimas de violência dentro de casa, de violência dos pais, dos padrastos, ou dos avôs ou dos tios, ou dos irmãos. Fatos como esses têm sido bandeira.

Outra coisa que tem sido bandeira é a educação das mulheres. Não só uma educação social e política, mas uma educação sexual. O aborto, a descriminalização é também uma das bandeiras. Mas aí o pessoal chega e pergunta: mas porque você polariza tanto? Acho que a polarização vem muito mais dos meios de comunicação e também de uma espécie de negação dessa problemática de discussão aberta feita pelas diferentes Igrejas e pelas diferentes instâncias sociais.

Então parece que é o movimento feminista que polariza. Mas quero dizer que a polarização vem dos grupos conservadores que usam a questão do aborto para delapidar, para tirar pedras do movimento feminista.

Adital - Nós temos, hoje, diferentes Teologias. Há uma articulação entre elas?

Ivone Gebara - A articulação é pouca. Houve um tempo em que a Associação de Teólogos e Teólogas do Terceiro Mundo buscavam uma articulação maior dessa produção. Hoje sinto que em todos os lugares do mundo há uma espécie de cansaço das organizações que nasceram no passado.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a Confederação das Conferências Episcopais, a CRB, a Conferência Latino-americana dos Religiosos, as Associações dos Teológos... está havendo um enfraquecimento dessas instituições. Por que? Acho que a própria conjuntura está levando a isso, a uma espécie de urgência de começar outro tipo de organização a partir de outros moldes e a partir de outras referências. Isso está sendo debatido.

Adital - Falamos aqui de todo esse peso hierárquico que ainda domina a Igreja. Nesse panorama, como será o caminho a ser trilhado pela Teologia Feminista?

Ivone Gebara - Imprevisível. Muito difícil. Tem esforços de congregar de novo as teólogas, fazer reuniões sobre a Teologia Feminista, sobre os novos rumos. Posso dizer que eu aposto, mas desconfiando. Aposto muito mais na ligação das teólogas aos grupos sociais, aos grupos populares. Aposto muito mais em pensar a fé junto com o grupo das empregadas domésticas, de pensar a fé junto com os grupos de mulheres que buscam alternativas de trabalho. Acho que nós deveríamos ser muito mais teólogas inseridas nos movimentos sociais. Mais do que uma associação de teólogas, nós deveríamos nos comprometer, ajudar e dialogar com os diferentes movimentos, na busca de sentidos e vivências dos valores humanos.


PS: Grifos meus.

sábado, 17 de julho de 2010

IV- Quae est ista?...

A BELEZA DE MARIA


IV- Quae est ista?...

Que espetáculo não deverá ser no céu para os anjos, à vista desta criatura "cheia de graça" e aumentando ainda todos os dias esta plenitude inicial!...

No seio de Seu êxtase eterno, deviam eles interromper um instante os seus concertos, e inclinar-se para a terra, exclamando, alegres: "Quae est ista?"

Até então, toda criatura humana que entrava na existência era percebida pelos anjos como tendo a mancha original. Desta vez, porém, a criança que dorme neste berço parece subir do deserto; é única e isolada, e com respeito desviaram-se a carne e o sangue. A pequenina Imaculada é bem um deserto sobre o qual está o Infinito. Este berço apresenta aos anjos purezas, belezas e superioridades tais, que eles aspiram tê-lA como Rainha.(L.Lemann)

"Quem é esta que se adianta como a aurora a despontar?" (Cant 6,9).

Desde o despertar do Seu espírito e de Seu coração, Maria põe em prática, sem que disso duvide a sua candura, a significação da palavra "alma", pela qual Isaías anunciou ao mundo "uma virgem oculta, retirada, subtraída a todos os olhares".

Com a idade de três anos, se devemos crer na tradição, os primeiros passos da imaculada criança conduzem-nA para o altar do Senhor. Ela possui todas as graças da infância, todas as delicadezas da pureza, toda a irradiação do amor.

Sua alma virginal ilumina o Seu pequeno corpo santificado, os anéis de Seus cabelos louros cingem-lhe a fronte, como que de uma auréola de modéstia, e o Seu límpido olhar faz nascer a virtude e conduz a Deus.

É uma como aparição vinda do Céu; é a Virgem criancinha!

Sua alma se abre radiosa diante de Deus. As Suas pequenas mãos se estendem para o Santo dos santos, os Seus olhos fitam, iluminados, a eternidade. E os anjos cantam deslumbrados: Quae est ista?, quem é aquela que se adianta tão pura, tão santa e tão imaculada?...

E a Virgem criancinha cresce em graça e em beleza diante de Deus e diante dos homens. E Ela, que já parecia saturada dos eflúvios da divina graça, nEla se sacia avidamente e se dilata, e aquela que Lhe foi abundantemente dada, ela ajunta o que pede, o que atrai e o que merece.

Para falar sem figuras, esta plenitude inicial de graças, com que o Céu a gratificou, enriqueceu-se de uma plenitude adquirida por Sua cooperação santa.

No templo, a tenra Virgem Se entrega às santas meditações, às leituras sagradas e aos exercícios piedosos. Ela Se dá à prece com uma avidez insaciável. Os seus pequenos braços não abandonam o trabalho, a obediência dirige os Seus passos, a humildade constitui a sua auréola, a pureza eleva-A ao ponto culminante do heroísmo, em enquanto doce e cândida, Ela faz a Deus o voto de virgindade, todas as virtudes vêm como que personificar-se nesta débil e doce criatura que Suas companheiras chamarão "a pequena Maria".

E, nas alturas, os anjos não contemplam simplesmente, mas admiram até. E à vista desta luz então mais aparente e mais viva, que brilha à sombra do santuário, eles cantam com maior alegria e maior júbilo: "Quae est esta? - quem é, pois, aquela que tem a beleza silenciosa e casta dos astros da noite? É Ela que era luz, ei-lA agora foco.

E a Virgem cresce sempre e Se torna cada vez mais "o que deve ser", transformando a graça, puro dom de Deus, em mérito, riqueza adquirida - Ela cresce.

A medida parece estar repleta, mas o coração da Virgem adolescente se dilata sempre, aumenta, sob a pressão das novas "plenitudes", que sucedem à plenitude inicial.

Por meio da fé, dos santos desejos, do amor e da prece, Ela voa até Deus, vai alcançá-lO, Ela O toca!...

E os anjos, comovidos, cantam, extasiados: "Quae est ista? - Oh! quem é aquela que Se aproxima assim de Deus, que tanto é amada por Ele, e que O ama com um amor tão intenso, tão divino?...

O mistério realizou-se aqui na terra, e Deus engrandeceu de tal modo o coração de Maria, que Ela chega ao ponto supremo de santidade, e Se coloca em contato com Deus.

Deus Se precipita em Maria, diz Mons. Bolo (H. Bolo: Cheia de graça), pela simples lei da afinidade que rege o mundo sobrenatural, como o mundo natural. Sendo Maria Santíssima uma simples criatura, não pode ser divinizada, no sentido próprio da palavra, mas Deus substituiu a distância que Ela não podia transpor: - Ele se encarna.

Maria Santíssima não Se torna Deus em Deus, mas o Verbo Se faz carne em Sua carne.
Que plenitude! Que incompreensível grandeza! Ser Mãe do Verbo de quem o Eterno é o Pai!...

Os anjos, que contemplam sempre, velam a face com as suas asas...
Quae est ista?... Quem, pois, é Ela?... Eleita por Deus, Maria brilha entre os eleitos como aquele que os ilumina, resplandesce como o sol!

Parará aí a Virgem?... Haverá uma altura mais elevada de graças do que aquela que causa vertigem aos anjos?... Será possível ultrapassar a grandeza e a beleza de visão de uma Virgem que possui, amamenta, aquece em Seus braços a Luz e o Salvador do mundo?

Impossível aos homens, impossível aos anjos, porém não o é para Deus. Querendo torná-lA ainda mais bela, dotando-A com toda a plenitude de beleza, Ele a fará subir um novo degrau da escada do infinito.

E, de fato, mesmo aqui neste mundo, a grandeza, a elevação, o poder, os encantos da alma, do coração e do espírito não são a última palavra de beleza... fica-lhe ainda a dor.

Escreveu a respeito um eminente poeta:

"Dir-se-ia que a vida não faz senão tocar de leve a superfície da alma daqueles que não sofrem, disse Mons. Bougaud (O cristianismo e os tempos presentes), seus sentimentos são sem intensidade, o seu coração não tem ternuras, o seu espírito não possui um horizonte! Sobre a dor são graduadas a beleza e a grandeza das almas".

E esta auréola vem juntar-se às demais auréolas que iluminam a fronte virginal de Maria.

Mas, meu Deus, será possível?... Fazer sofrer esta criatura amante, pura, ornada de todas as graças e de todas as ternuras de Vosso coração?... Magoar esta alma cândida de que sois a única aspiração, calçar este coração amante que não suspira senão por Vós?

Oh! quem, entre os homens, teria a barbaridade de fazer sofrer esta Virgem?... Quem?...
Entretanto, é preciso, porque a dor é o píncaro da beleza moral!...

E no alto dos céus, os anjos, mais e mais maravilhados, entoam ainda o seu "Quae est ista? - Quem será esta jovem aflita, absorvida, mergulhada num abismo de dores, às quais não se assemelha nenhuma outra dor?

Sim, a Virgem "cheia de graça" é também "cheia de dores" subiu ao Calvário, e aí, de pé, sob a alude esmagadora de Seu Filho, que todos abandonaram, e com Ele em espírito sobre o patíbulo da Cruz, Ela ajunta à plenitude de Sua beleza a plenitude do heroísmo.

Ela se torna então a Mãe da dor, a Mãe aflita, a Rainha dos mártires!...

E os anjos, em sua admiração, recomeçam, jubilosos: "Quae est ista?... Quem é esta mulher forte, feita de amor, de beleza e de heroísmo?...

"Ela é terrível como um exército em ordem de batalha" (Cant. 6,9).
Tudo isto é sublime, inenarrável, divino!

Até aqui, diz Mons. Bolo, a Virgem, vítima, teve ainda o Seu Jesus junto a Si, para fortificá-lA e encorajá-lA pelo exemplo e pela palavra.

O Seu coração se inflamava ao contato de Seu Filho e Seu Deus.
Sua alma se dilatava, desejosa de sofrimento e de martírio, ao contato da alma do Salvador.

Deus, porém, vai pedir-Lhe um sacrifício supremo: - o de sobreviver ao Seu Jesus, durante mais de vinte anos, sozinha, desamparada, sem o apoio d'Aquele que era tudo para Ela. Que sacrifício!...

E a pobre Mãe dolente viu estenderem-se ainda as trevas de Seu longo luto, após a luz tão resplandecente da Sua união a Jesus. A santa e virginal Mártir ficará na terra meditando sem cessar os sofrimentos de Seu amado Filho, visitando lacrimosa os lugares das torturas, beijando e cobrindo de ternura tudo o que Jesus tocara e santificara na terra.

Ela ficará assim durante mais de vinte anos, carregando o horrível fardo da lembrança dos sofrimentos de Jesus.

Que martírio! se sob um tão grande peso - o peso esmagador de tantas lembranças, Sua energia, longe de desfalecer, cresce ainda mais, se o Seu coração amante, em vez de se esgotar, se torna mais largo e mais profundo em Seu amor, durante esta longa ausência do Bem-Amado, não será isso uma nova plenitude, acrescentada às demais?...

Eis por que Maria espera na terra, continuando o Seu misterioso crescimento. E isto, até à hora em que a graça, pela sua abundância, rompe o vaso abalastrino de Sua carne, que já não podia conter tanto perfume, em que Ela voa em corpo e alma para a morada da plenitude absoluta da graça, por não poder a terra ficar em posse de um tesouro demais ideal, de que só o céu é digno.

E os anjos exultam, emociona-se o paraíso, vão eles, enfim, possuir em Jesus e Maria o ideal da beleza criada. A multidão celeste vai ter Sua Rainha e vai fazer-Lhe as honras do triunfo, de cuja demora já estão impacientes.

E embora saibam desde muito tempo o Seu nome, eles cantam: "Quae est ista? - Quem é esta que sobe do deserto deste mundo como uma leve coluna de fumo, composta de aroma de mirra, de incenso e de toda espécie de aromas?"... (Cant. 3,6).

O triunfo é completo. A beleza da Virgem está concluída e atingiu a Sua plenitude. Ela reina lá nos Céus à direita de seu Filho, radiante de todas as graças, com a fronte cingida de todas as glórias, resplandescendo de todas as belezas.

E Ela se nos mostra a nós, que somos Seus filhos, para ser amada!...
E quem não A amaria?... Corremos ao encalço da beleza para dar-lhe o nosso coração, e atingindo o nosso ideal, inebriamo-nos ao Seu aspecto!...

Elevemos os olhos, fitemos Maria, bela com todos os encantos! Ela deslumbrou o coração de Deus, dos anjos, dos santos e não deslumbraria o nosso coração?... Ó Maria! "Specie tua et pulchritudine tua, prospere procede et regna", por Vossa beleza e Vossas graças, apoderai-Vos dos nossos corações e reinai sobre nós!

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A FORMAÇÃO DA VONTADE - Parte III

A FORMAÇÃO DA VONTADE
Parte III

A iluminação sincera da inteligência


Por que é que a inteligência deve ser sinceramente esclarecida?
A inteligência deve ser sinceramente esclarecida porque é a ela que compete tomar as decisões.

Quais são os meios a empregar para garantir a iluminação sincera da inteligência?

- É, principalmente, nada fazer que a possa contrariar.
- É, em seguida, precavê-la contra as ilusões e causas clássicas de erros de juízo.
- É de se reportar aos princípios.
- É, se for preciso, pedir conselho.

Quais são as causas que poderiam contrair a iluminação sincera da inteligência?
- São as mentiras, os embustes, as infantilidades, etc... nunca se deve enganar as crianças.

- São as lisonjas que dariam às crianças uma idéia presumida das suas capacidades e do seu poder de ação, e que as arrastaria a quererem o impossível.

Quais são as ilusões e as causas clássicas de erros de apreciação contra as quais é preciso precaver as crianças que se hão de formar?
São muito especialmente as ilusões que em nós produzem o interesse e o prazer...

Como é que o interesse pessoal falseia a visão?
Criando em nós uma deplorável confusão entre as nossas impressões e as nossas apreciações.

Uma ligeira conversa ouvida num escritório:

- Tu sabes Untel, ele desapareceu, levando 30.000 francos.
- Mas também levou o teu guarda-chuva.
Oh! canalha!

Eis aí o prisma do interesse.

A inteligência considera as coisas sãmente; chama crime o roubo de 30.000 francos, e pequeno furto o roubo dum guarda-chuva. Pelo prisma do interesse pessoal, chamamos finório àquele que rouba 30.000 francos a outrem, e canalha àquele que nos rouba um guarda-chuva.

Como podemos preservar as crianças deste erro de apreciação?
Habituando-as a julgar as coisas como elas são em si mesmas; as suas faltas, como fariam com as dos outros; e os interesses do próximo como os seus próprios interesses.

Quando o profeta Nathan procurou David para exprobar o seu duplo crime, serviu-se de um apólogo. David não se reconheceu nessa alegoria e deixou-se arrebatar pela indignação:

- Quem é esse homem? - exclamou ele.
- Esse homem és tu! - respondeu o profeta.

E David voltou contra si a cólera de que estava possuído.

Como pode o prazer falsear a visão?
Substituindo as prescrições do catecismo e da consciência por fórmulas vãs, máximas ilusórias, preconceitos mundanos.

A luz da fé projeta raios muito claros e muito penetrantes sobre os pensamentos, os sentimentos, os desejos, as imaginações, os olhares, as palavras e os atos nas suas relações com a virtude.

E o mancebo e a donzela, cuja sensibilidade e delicadeza têm sido embotadas pelas leituras, pelas conversações, pelas visitas, pelas diversões, pelos prazeres, satisfazem-se com as palavras que tomam como se fossem razões:

"É preciso gozar a mocidade!"
"A gente não nasceu para freira!"
"Não é proibido ser amável."
"Não falo nada com má intenção!"

E a conclusão é que não há motivos para constrangimentos. Por outras palavras, não se procura a luz divina: queremos recebê-la do mundo. Não são as estrelas que servem de guia: é o brilho do ouro ou deslumbramento do luxo.

Que se deve fazer para preservar as crianças desta ilusão?
É preciso acordar a sua consciência e habituá-las a raciocinar segundo os princípios.

Qual será a vantagem deste amor aos princípios nas decisões tomadas pela inteligência?
Será de cortar cerce toda a fraqueza, ou melhor, de cortar o mal pela raiz.

Quem se apega aos princípios, aos bons princípios, naturalmente, é guiado pela razão reta, pela consciência e por Deus. Não se pode transviar.

Quais os meios de inspirar nas crianças este amor pelos princípios?
- É dar-lhes o exemplo; e, à medida que a sua inteligência se vá desenvolvendo, mostrar-lhes em toda a sua evidência as razões superiores da linha de procedimento a seguir.

- Devemos repetir-lhes de maneira a compenetrá-los bem da verdade, algumas sentenças bem escolhidas, algumas máximas expressivas, algumas divisas dignificadoras que iluminem o espírito e despertem um nobre entusiasmo nos corações.

"As sentenças são como pregos agudos que fixam a verdade na nossa lembrança".
(Diderot: O Espírito Santo disse no Eclesiastes: "Verba sapientium sicut stimuli, et quasi clavi in altum defixi: As palavras dos sábios são como aguilhões e como pregos cravados profundamente" - XII, 11)

"As boas máximas são o gérmen de todo o bem e, fortemente gravadas na memória, alimentam a vontade". (Joubert)

Eis alguns exemplos:

"Quem trabalha, Deus ajuda!"
"O custar está no principiar!"
"Não há gosto sem desgosto!"
"Faz bem, e deixa falar quem fala!"

A iluminação da inteligência e conhecimento dos princípios são sempre suficientes para dar origem, por si sós, a uma decisão racionalmente fundada?
Não: É preciso em certos casos recorrer à experiência doutrem; é preciso tomar conselho.

O conselho deve ser considerado como necessário?
É muitas vezes necessário aos adultos, pode dizer-se que o é sempre às crianças.

Com que disposições se deve pedir o conselho?
É preciso ser sincero; sincero na exposição do caso; sincero na docilidade prévia, que é a base de toda a consulta séria.

Um dia uma pessoa anunciou-nos que viria visitar-nos, para pedir o nosso conselho sobre uma questão, cujo assunto indicava vagamente. Dizendo-lhe que estimaríamos muito poder ser-lhe útil e teríamos muita honra em receber a sua visita, demos-lhe a entender, ou antes, fizemo-lhe sentir que não estávamos bem de acordo com o seu modo se ver.

Não recebemos a visita anunciada.
Não se tornou a falar na consulta.

E essa pessoa procedeu duma maneira completamente diferente daquela que lhe teríamos aconselhado. (Autêntico)

(Excertos do livro: Catecismo da Educação, pelo Abade René de Bethléem, continua com o post: A docilidade em relação à razão e ao conselho dado).

PS: Grifos meus.

A Cruz da Missão

A Cruz da Missão

"Eu me propus ir sempre contra a corrente"
(Santa Verônica Giuliani)

Oh! vinde, Cristãos,
a Cruz adoremos,
a Cruz exaltemos
que o mundo salvou!

Adoro-te, ó Cruz
do meu Salvador,
qual rico tesouro
de graça e amor!

Teus braços abertos
dissipam temores,
e nos corações
formentam amores!

Piedade e perdão,
meus braços cansados,
me alcancem de Deus
Contigo abraçados!

Vinde, almas fiéis,
e beijai com amor
a chave dos céus,
a Cruz do Senhor!

A Cruz é um livro
que da salvação
ensina a ciência
em muda dicção.

Inspira ao pecado
horror salutar,
e abranda o Juiz
que nos vem julgar.

Quisera trazer-te
guardada no peito,
do meu coração
qual único leito.

Com doces encantos
o peito enamoras
e nele de Cristo
o amor entesouras.

És fonte perene
de força invencível
e inspira pavor
ao dragão terrível!

Tesouro inexausto
da graça dos céus,
em Vós nos concede
O Sangue de Deus!

Amemos, Cristãos
deveras a Cruz
pois, nela cravado
expirou Jesus!

Oh! lenho divino!
Oh! fonte de glória!
Do meu Redentor
eterna memória!

Deixa que me lance
nesses braços teus
e neles expire
amando ao meu Deus!

(A Sagrada Família, por um padre redentorista, 1910)

Prática da humildade

Prática da humildade


Quem não for humilde não pode agradar a Deus, porque o Senhor não suporta os soberbos, resiste-lhes. Prometeu Ele escutar os que O invocam e Lhe pedem; se, contudo, for um soberbo que o faça, não o atende; e, pelo contrário, aos humildes liberaliza as suas graças. Consiste a prática desta virtude:

- Em nunca nos fiarmos nas nossas próprias forças, nem nos nossos propósitos, e desconfiarmos sempre e arrecearmo-nos de nós mesmos.

- Em nos não vangloriarmos das nossas coisas, como talentos, boas obras, família, parentes e outras semelhantes. Por isso convém que nunca falemos de nós mesmos, uma vez que não seja para referirmos os nossos defeitos: posto que seja melhor não falarmos de nós, nem dizendo bem nem mal; porque não poucas vezes o mal que se diz, desperta a vanglória e o vão desejo de sermos louvados, e tidos por humildes, e desta arte a própria humildade degenera em soberba.

- Em não nos impacientarmos contra nós mesmos depois de alguma falta. Porque isto procede muitas vezes do orgulho, e é ardil do demônio, para nos fazer perder a confiança e abandonar uma vida regular.

- Em não nos admirarmos das quedas dos outros, mas compadecendo-nos deles, pedirmos ao Senhor, que a todos nos tenha na Sua mão: pois que, procedendo de outra forma, poderia Deus castigar-nos, deixando-nos cair nos mesmos pecados, ou talvez em outros ainda maiores.

- Em ter-nos a nós pelos maiores pecadores, e isto ainda quando soubéssemos que outros tinham mais pecados do que nós, porque as nossas culpas, cometidas depois de tantas luzes e graças de Deus, tornam-se muito mais indesculpáveis perante o Senhor.

- Em nos alegrarmos de ser desprezados pelos nossos semelhantes, pois que havendo merecido o inferno, merecido temos o andar debaixo dos pés dos demônios.

- Em recebermos com paz e ânimo agradecido, qualquer advertência, sem desculpar-nos, senão quando o exija a necessidade de evitar algum escândalo.

(Retirado do livro: A Sagrada Família, por um padre redentorista, 1910)

PS: Grifos meus.

A LEITURA ESPIRITUAL

A LEITURA ESPIRITUAL
(SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO)


I. Grande utilidade da leitura espiritual

A leitura espiritual nos é talvez tão útil na tendência à perfeição como a oração, porque ela nos conduz tanto à oração como à virtude, diz São Bernardo (De modo bene viv., c. 59). 'A meditação e a leitura espiritual, diz o mesmo Santo, são excelentes meios para se vencer o demônio e conquistar o Céu'.

Não podemos ter sempre nosso diretor espiritual junto de nós para pedir-lhe conselho em todas as nossas ações e, especialmente, em nossas dúvidas; a leitura espiritual, porém, supre o seu lugar, dando-nos as luzes de que necessitamos e os meios de evitar os enganos do demônio e do amor próprio, e de viver segundo a Vontade de Deus. E por isso, segundo afirma Santo Atanásio, não se encontrará um fervoroso servo de Deus que não seja dado à leitura de livros espirituais.

Do mesmo modo, tanto quanto é perniciosa a leitura de maus livros, é útil a leitura dos bons. Como aquela precipita tantas vezes a mocidade na perdição, assim esta é, muitas vezes a causa da conversão de muitos pecadores.

O autor dos livros bons é, em última análise, o Espírito de Deus, ao passo que o demônio é propriamente o inspirador dos maus. Este sabe esconder a muitos o veneno de que estão impregnados esses livros, pretextando que, pela leitura deles, se apropria um bom estilo ou uma reta norma de vida, ou que, pelo menos, assim se aproveita convenientemente o tempo. Eu afirmo, de minha parte, que não há coisa mais prejudicial que a leitura de maus livros, particularmente para aqueles que desejam levar uma vida devota.

Por maus livros entendo não só os que a Santa Sé proibiu em razão de sua matéria herética ou imoral, mas também todos os que tratam de amores profanos. Que piedade poderá ter um cristão que se ocupa com a leitura de romances ou de novelas amorosas? Que recolhimento de espírito terá ele na meditação ou na santa Comunhão? Mas que mal poderão causar os romances e poesias mundanas, que nada têm de indecoroso? - perguntará alguém. Causam um mal imenso: excitam a sensualidade; inflamam as paixões, que facilmente arrastam consigo a vontade, ou, ao menos, a enfraquecem tanto que o demônio já encontra o coração preparado para uma queda desastrosa no abismo do pecado, quando sobrevêm uma ocasião para um amor impuro.

Um douto escritor diz que a heresia se alastrou tanto e ainda se espalha cotidianamente, justamente em conseqüência da leitura de tais livros, porque essa leitura favorece a imoralidade, que aplaina o caminho para o erro. O veneno de tais livros penetra pouco a pouco na alma, apodera-se do entendimento, corrompe e perverte a vontade, e traz a morte à alma. Em verdade, o demônio não possui talvez um meio mais seguro para perverter os jovens do que a leitura de livros tão venenosos. Um só livro dessa espécie pode bastar para perder toda uma família.

Por isso, querido leitor, se chegar às tuas mãos um tal livro, lança-o imediatamente ao fogo, para que não apareça mais; e, se és pai de família, faze o que estiver em tuas forças para afastar de tua casa uma tal peste, se não quiseres dar um dia rigorosas contas a Deus.

[Nota: Que diria, então, o Santo Doutor, a respeito da televisão, por exemplo, se ainda vivesse neste mundo?...]

Além disso, deves notar bem, alma cristã, que alguns livros não são em si mesmos maus, mas, em todo caso, não podem concorrer para o teu bem espiritual e, por isso, a leitura desses livros é prejudicial, porque te rouba muito tempo, que poderias empregar em coisas úteis à tua salvação. São Jerônimo, no retiro de Belém, lia com grande gosto os escritos de Cícero, como ele conta à sua discípula Eustóquium, enquanto que achava certa repugnância na leitura da Sagrada Escritura, cujo estilo lhe parecia muito simples. Sobreveio-lhe, então, uma grave enfermidade, na qual pareceu-lhe estar diante do tribunal de Jesus Cristo.

À pergunta do Senhor de quem ele era, respondeu o Santo: Eu sou um cristão. Mentes, respondeu-lhe o divino Mestre, és um ciceroniano, e não um cristão. E Jerônimo, por mandado do divino Juiz, foi castigado por um Anjo. Ele prometeu emendar-se e, voltando a si, percebeu que suas costas estavam todas feridas pelos açoites que recebera nessa visão. Desde então, deixou o Santo a leitura das obras de Cícero, e dedicou-se à leitura da Sagrada Escritura.

Não resta dúvida que, às vezes, se encontra nos livros mundanos um ou outro pensamento que é proveitoso para a vida espiritual, mas, como escreve São Jerônimo a uma de suas discípulas, 'por que procuras alguns grãos de ouro em tão grande imundície?' (Ep. ad Fur.). Lê livros piedosos, onde encontrarás ouro puro, sem mistura impura alguma. (...)

Consideremos os preciosos frutos que produz a leitura de bons livros.

Primeiramente, os bons livros enriquecem o nosso coração de bons pensamentos e santos desejos, ao passo que os maus livros enchem o nosso coração de pensamentos mundanos e sumamente prejudiciais. Quem emprega seu tempo na leitura de livros vãos, pelos quais nascem em ssua alma uma multidão de pensamentos mundanos e inclinações terrenas, não poderá de forma alguma permanecer recolhido. Como poderá se ocupar com pensamentos piedosos? Como se conservar na presença de Deus e fazer repetidos atos de virtude? O moinho mói o que nele se põe; como se poderá então esperar uma fina farinha quando se põe um fruto deteriorado?

Se alguém, que passou a maior parte do dia na leitura de um livro profano, quer se entregar à oração ou receber a Comunhão, em vez de pensar em Deus e fazer atos de amor e confiança, estará sempre distraído, porque todas aquelas coisas vãs que pouco antes leu, vêm-lhe novamente à lembrança. Pelo contrário, quem lê, por exemplo, as máximas e exemplos dos Santos, estará ocupado com santos pensamentos não só durante a oração, mas também em toda ocasião, e estes o conservam quase ininterruptamente unido a Deus.

Em segundo lugar, uma alma que está como que embebida em bons pensamentos pela espiritual, está mais preparada para repelir as tentações do demônio. São Jerônimo deu o seguinte conselho a Sabina, sua filha espiritual: Procura ter sempre um bom livro às mãos, para que te possas defender com esse escudo contra os maus pensamentos.

Em terceiro lugar, a leitura espiritual nos facilita o conhecimento das manchas de nossa alma e a purificação das mesmas. São Jerônimo escreve a Demétrias que ela devia servir-se da leitura espiritual como 'de um espelho'; pois, assim como o espelho mostra as manchas no rosto, assim também a leitura de livros espirituais nos aponta as manchas de nossa consciência.

Em quarto lugar, pela leitura espiritual obtêm-se muitas luzes e inspirações divinas. 'Quando rezamos falamos com Deus, quando lemos é Deus que nos fala', diz São Jerônimo (Ep. ad Eust.). É o que diz também Santo Ambrósio (De offic., 1.1, c. 30): 'Falamos a Deus quando rezamos; ouvimo-l'O quando lemos'. Como já acima notamos, não podemos ter sempre à nossa disposição o nosso confessor, ou ouvir um pregador zeloso que nos sirva de guia por meio de suas instruções, no caminho do Céu; os livros espirituais, porém, nos oferecem uma compensação por isso.

Conforme Santo Agostinho (Enarr. in ps. 30, ser. 2), são eles outras tantas cartas de Nosso Senhor, por meio das quais nos avisa de iminentes perigos, nos mostra o caminho da salvação, nos ensina a suportar as adversidades, ilumina-nos e inflama-nos em Seu santo amor. Quem, pois, desejar salvar-se, deve ler amiúde essas cartas do Céu.

Quantos Santos não foram levados, pela leitura de um bom livro, a abandonar o mundo e a se consagrar a Deus! É notório que Santo Agostinho, que viveu muitos anos preso nos laços dos vícios e paixões, ao ler uma epístola de São Paulo, abriu os olhos à luz divina e começou a tender à santidade. Igualmente Santo Inácio de Loyola encetou uma vida perfeita em conseqüência da leitura da vida dos Santos.

Por acaso tomou-a nas mãos para distrair-se no seu leito de enfermo, a que estava condenado por ter sido ferido no ataque a Pamplona; com isso converteu-se e tornou-se o fundador da Companhia de Jesus, que é uma Ordem sumamente benemérita da Igreja. São João Colombini, ao ler, quase que contra a sua vontade, um livro espiritual, tomou a resolução de abandonar o mundo, começou uma santa vida e tornou-se o fundador de uma Ordem religiosa.

Na história das Carmelitas se narra que uma nobre dama de Viena, que pretendia tomar parte de uma diversão mundana, ao ficar sabendo que esta não se realizaria, cheia de raiva, começou a ler um livro espiritual, que, por acaso, lhe caiu nas mãos. Esse livro inspirou-lhe um tal desprezo pelo mundo, que renunciou a todas as suas vaidades e fez-se carmelita.

A leitura de bons livros não foi proveitosa aos Santos unicamente em sua conversão, mas em toda a sua vida, para se manterem firmes no caminho da perfeição e fazerem cada vez maiores progressos nele. São Domingos beijava seus livros espirituais e apertava-os amorosamente ao coração, dizendo: 'Estes livros dão-me o leite que me sustenta'. O grande servo de Deus, Tomás de Kempis, não conhecia maior consolação do que esconder-se em um canto de seu quarto com um livro que tratasse das coisas espirituais. São Filipe Néri empregava todo o tempo livre na leitura de livros espirituais, principalmente da vida dos Santos.

Oh! Como é útil tomar a vida dos Santos por objeto de nossa leitura espiritual! Os livros que tratam das virtudes ensinam-nos o que devemos fazer; na história dos Santos vemos, porém, o que de fato fizeram tantos homens e mulheres, rapazes e donzelas, que eram homens como nós. Mesmo que a meditação dos exemplos dos Santos não nos trouxesse outro proveito, nos obrigaria a nos humilharmos profundamente, porque, lendo as grandes coisas que os Santos praticaram, devemos certamente nos envergonhar de ter feito e de fazer ainda tão pouco por Deus. Santo Agostinho dizia de si mesmo: 'Ó meu Deus, quando eu considerava os exemplos de Vossos servos, envergonhava-me de minha preguiça e sentia arder em mim o fogo de Vosso santo amor' (Conf., I. 9, c. 2). São Francisco de Assis, ao pensar nos Santos e em suas virtudes, sentia-se abrasar em chamas de amor divino (S. Boav., Vita S. Franc., c. 9).

São Gregório Magno conta que, em seu tempo, vivia em Roma um homem, chamado Sérvulo, que era muito doentio e devia esmolar a sua subsistência. Dava uma parte das esmolas que recebia aos outros pobres e a outra a empregava na compra de bons livros. Ele não sabia ler e, por isso, pedia àqueles que ele abrigava em sua choupana durante a noite, que lhos lessem. Dessa maneira alcançou uma grande paciência nos sofrimentos, diz S. Gregório, e uma admirável sabedoria nas coisas celestes. Ao morrer, pediu aos seus amigos que lhe lessem alguma coisa; antes, porém, de expirar, interrompeu-os, dizendo: Calai-vos, calai-vos; não ouvis como todo o Céu ressoa com cânticos e aprazível música? Logo depois expirou. Apenas deu o último suspiro, espalhou-se em seu quarto um cheiro celestial, que testemunhava a santidade desse mendigo que, pobre em bens terrenos, porém rico em virtudes e mereciemntos, deixara este mundo. [Hoje a Igreja o venera sob o nome de São Sérvulo.]



§ II. Maneira de se fazer a leitura espiritual

Para tirar grande proveito da leitura espiritual, devemos observar as seguintes regras:

1. Antes de começar a ler, devemos pedir a Deus que nos ilumine a respeito do que vamos ler. Já se disse acima que Nosso Senhor mesmo se digna falar conosco na leitura espiritual; por isso, devemos dizer-lhe, tomando o livro nas mãos: 'Falai, Senhor, que Vosso servo escuta'. Fazei-me conhecer a Vossa Vontade, pois Vos quero obedecer em tudo.

2. Na leitura espiritual não devemos ter a intenção de contentar o nosso desejo de saber ou até nossa curiosidade, mas unicamente procurar crescer no amor de Deus. Quando se lê para se aumentar seus conhecimentos, não é isso leitura espiritual, mas um simples estudo. É coisa pior, porém, ler-se por pura curiosidade, como fazem alguns que, por assim dizer, devoram os livros e nada mais têm em vista do que a satisfação de sua curiosidade. Que proveito poderão tirar de tal leitura? Todo o tempo que empregam nisso é perdido. Muitos lêem, e lêem muito, diz São Gregório (Hom. in Ezeq.), e, apesar disso, seu espírito não fica saciado, porque lêem só por curiosidade.

3. Para tirar proveito dos livros espirituais devemos lê-los com vagar e ponderação.'Pela leitura espiritual tua alma deve ser alimentada', diz Santo Agostinho. Ora, querendo alimentar-se convenientemente, não se deve engolir a comida, mas antes, mastigá-la bem. Pondera, pois, bem, o que lês, e procura aplicá-lo a ti mesmo. E se o que leste te causou uma forte impressão, segue o conselho de Santo Efrém (De pat. et. cons. saec.) e torna a ler repetidas vezes.

4. Se recebemos uma luz especial durante a leitura, ao se nos depar um belo pensamento ou uma ação virtuosa que nos comove o coração, devemos parar um pouco, para elevar a nossa mente a Deus, fazer um propósito, um ato de piedoso afeto e uma fervorosa súplica a Deus. Não faz nenhum mal se, entretanto, se escoa todo o tempo determinado para a leitura, pois um proveito maior do que o sobredito não podemos tirar da leitura espiritual. Muitas vezes a leitura de algumas linhas é mais proveitosa do que a de uma página inteira.

5. Finalmente, antes de fechar o livro, alma cristã, deves reter na memória algum pensamento piedoso que encontraste, para te ocupares com ele durante o dia, à semelhança do que se costuma fazer quando se passa por um jardim, apanhando-se uma flor para levá-la consigo.

(Santo Afonso Maria de Ligório; Escola da Perfeição Cristã; Compilação de textos do Santo Doutor, pelo padre Saint-Omer, CSSR; Editora Vozes, IV Edição, Petrópolis: 1955, páginas 468-473)

PS: Recebido por e-mail, grifos meus.