domingo, 27 de junho de 2010

Princípios da vida de intimidade com Maria Santíssima - NOÇÕES FUNDAMENTAIS

Primeira parte


(Princípios da vida de intimidade com Maria Santíssima
segundo os Santos, os Doutores e os Teólogos
pelo Pe. Julio Maria,
missionário de Nª. Srª. do SS. Sacramento)

Sob este título trataremos, não somente do fim da devoção para com a divina Mãe de Jesus, mas do fim mesmo de toda a religião e de todas as criaturas.

No Apocalipse Deus chamou-se o principium et finis (Apoc. 1.8), o princípio e o fim de tudo: isto é, da devoção, assim como o é de todas as obras humanas.

Ele é então o fim de nosso amor para Maria, como também é o princípio.

O princípio de toda obra sobrenatural é, de fato, a graça. Ora, só Ele é o autor e a fonte da graça. Nele nós a devemos procurar e após tê-la obtido, pela via e pelos meios, que indicaremos mais adiante, é ainda a Ele que ela deve voltar, carregada de méritos.

É o que veremos, estudando sucessivamente Jesus Cristo em si mesmo, em nós e no próximo.

***

Capítulo I

NOÇÕES FUNDAMENTAIS

Antes de tratarmos as questões puramente doutrinais, nós exporemos aqui algumas noções gerais, de um importância capital, das quais nos devemos compenetrar, para melhor comprender a extensão e o fim dessas páginas, onde vão colocar-se sob nosso olhar as questões mais delicadas e mais elevadas sobre nossos mistérios e sobre nosso dogma.

Rogamos ao leitor não passar adiante, sem se compenetrar destas noções que resumiremos nos cinco princípios seguintes:

PRIMEIRO PRINCÍPIO:
Nossos dogmas são a fonte da piedade, pelo conhecimento que conferem de seu objeto e pelos sentimentos que inspiram.

SEGUNDO PRINCÍPIO:
Os mistérios, conquanto que incompreensíveis, nos põem em contato com o objeto que eles encerram, e que é uma iniciação à vida sobrenatural.

TERCEIRO PRINCÍPIO:
A primeira resolução de toda alma que quer honrar a Maria, deve ser, não somente amá-lA, mas antes de tudo estudá-lA.

QUARTO PRINCÍPIO:
A vida de intimidade não é um caminho particular pois ela foi indicada pelo Senhor para todos os homens, mas pode tornar-se uma devoção particular, concentrando ali suas forças e seus esforços.

QUINTO PRINCÍPIO:
A vida de intimidade com Maria abrange todo o dogma da economia da graça, reunindo admiravelmente o fim, o caminho e os meios da salvação, indicados por Nosso Senhor.

_________________________________

PRIMEIRO PRINCÍPIO

Nossos dogmas são a fonte da piedade,
pelo conhecimento que conferem de seu objeto
e pelos sentimentos que inspiram.

Pensa-se exageradamente que a parte dogmática da religião é fria, sem alma e puramente especulativa.

Há nisto um erro tão sem fundamento quão funesto para a piedade. Esta falsa idéia da "Dogmática" provém da distração, do espírito de dissipação com que se faz a leitura de livros deste gênero.

Nos dogmas há belezas, há sentimentos que se assemelham a estas cores delicadas que um dia nublado desfigura. Não se deve lê-los sem meditar e sem orar, porque, para penetrar as coisas divinas, é preciso ter um senso divino, e é o Espírito Santo quem no-lo dá.

Sem recolhimento e sem oração não se pode compreender as belezas, nem sentir o calor das verdades dogmáticas.

O dogma nos ensina a conhecer a Deus. Ora, que há que possa ser comparável a Deus?... Deus, perfeição infinita, beleza suprema, fonte e alimento de toda vida!

E conhecer a Deus é ver como este Ser de Majestade nos ama, a nós tão pequenos; é saber que Ele nos convida a gozar de Sua beatitude; e que de certo modo fazendo-nos participantes de Sua própria natureza, nos dá direito a que o chamemos: "Meu Pai!"

Bem compreendidas, estas grandes verdades trazem verdadeiros jatos de luz e de calor, nos quais a nossa alma vai haurir os sentimentos da mais terna e mais elevada piedade.

Aqui a imaginação encontra seus carinhos; a esperança, os seus anelos; a generosidade, os impulsos de grandes dedicações e o amor exulta invejando santamente crescer e embelezar-se, para se aproximar do objeto que ama e ao qual  quer agradar.

Como vedes, Deus não é somente a fonte da piedade, porque Ele no-la dá, mas é também porque as verdades dogmáticas, através das quais Ele se nos manifesta, são o verdadeiro alimento desta piedade. Meditar estas verdades é nutrir-se de Deus.

Quando o verão nos apresenta os campos repletos de trigo sazonado, nós dizemos: eis aí a vida do homem; de igual modo, contemplando as verdades da religião, pode dizer-se: eis aqui a vida da alma.

SEGUNDO PRINCÍPIO

Os mistérios, conquanto que incompreensíveis,
nos põem em contato com o objeto que eles encerram,
e que é uma iniciação à vida sobrenatural.

Em matéria de religião, as verdades mais abstratas, os mistérios mais profundos têm o seu lado prático. Alguns poderiam imaginar que ocupar-se de coisas incompreensíveis, como são os mistérios, é agitar-se no vácuo, sem nada apreender.

Esta, é uma objeção feita por certos sábios modernos, mas que está em plena contradição com os seus próprios atos. Se lhes acontece lançar um olhar distraído sobre os nossos dogmas, imediatamente gritam: isto é muito subtil, demais misterioso!

Mas, então, ó sábios inconsequentes, se a subtilidade e a profundeza são defeitos, porque então fazeis vós vossas investigações ao microscópio, para chegar até as mais secretas profundezas das coisas?...

Quantas investigações engenhosas, que de raciocínios subtis, para estabelecer vossas descobertas!...

E tendes razão.

Mas, como é que nós não temos razão, quando empregamos vossos métodos, para um objeto de uma importância muito maior?... Humildemente confessai que é somente a vossa ignorância a respeito dos nossos mistérios que vos faz desdenhá-los.

Quereríeis compreender no ser Infinito o que nem sequer sois capazes de compreender em um átomo.

Logo, distingui bem: os mistérios não são subtilezas: são simplesmente verdades, acima de nossa razão; mas verdades reais, vivas, incompreensíveis quanto ao fundo, mas não quanto às noções que delas Deus mesmo nos dá.

Os mistérios ocultam realidades e realidades compreensíveis. Deus nos revela o mistério, não para que nós o penetremos, o que nos é impossível, mas para nos pôr em contato com o objeto que ele encerra.

E qual é este objeto?
É a iniciação à vida sobrenatural.

Quantas luzes, por exemplo, não brotariam do mistério da Encarnação, da Redenção, da SS. Trindade, da graça,  etc... quantos jatos luminosos, que esclareceriam tudo, que iluminariam tudo, fazendo-nos entrever a divindade e as sublimes relações existentes entre ela e nós.

Estes mistérios esclarecem tudo; entretanto eles mesmos permanecem impenetráveis aos nossos olhos. É o que nos mostra a necessidade de estudar o dogma, de contemplar os mistérios, afim de que a luz e o calor que deles dimanam nos aclarem e aqueçam.

TERCEIRO PRINCÍPIO

A primeira resolução de toda alma que quer honrar a Maria,
deve ser, não somente amá-lA, mas antes de tudo estudá-lA.

Uma lacuna muito comum da piedade em geral, e em particular para com Maria Santíssima, diz muito bem um profundo teólogo e ilustre escritor (Pe. Sauvé. SS.Culto do Coração de Maria C.V) é não ser bastante esclarecida sobre o inefável objeto que ela venera, é contentar-se com afeições que com o tempo podem esgotar-se ou pelo menos enfraquecer-se.

Tendo no espírito uma débil força, apenas esfriadas as primeiras impressões do fervor, o coração e a vida começam a sentir esta pobreza doutrinal.

Eis porque a primeira resolução de toda alma que quer honrar a Maria, deve ser estudá-lA, e estudá-lA com toda a sua alma.

Se é necessário procurar a verdade por todos os meios, é também a verdade que diz ser à Maria que se devem aplicar estas palavras; como ocupar-se de Maria, de seu amor, sem fazê-lo de todo o coração?...

Deste modo nascerá necessariamente o pensamento vivo e habitual de nossa Mãe, e este pensamento que produzirá o amor.

Em Deus o Verbo respira o amor - Verbum spirans amorem.
Em nós o pensamento de Maria deve respirar o amor.

Sem este estudo a devoção para com a Santíssima Virgem é necessariamente incompleta e superficial.

"Nós, diz ainda o Pe. Sauvé - obra citada - fazemos de Maria uma idéia fraca, pálida, incompleta. Maria Santíssima está em um canto da vida, em um altar lateral da alma, quando deveria ocupar aí o altar principal, unida a Jesus como a Mãe é unida ao Filho, no mistério da Encarnação ou de Belém, como a nova Eva ao novo Adão, sobre o Calvário e reinando com Ele em toda a parte".

Tal deve ser pois a primeira prática do nosso culto para com Maria: estudá-lA, para que deixemos de vez esta concepção indigna de Suas grandezas e de Seu amor.

QUARTO PRINCÍPIO

A vida de intimidade não é um caminho particular pois ela foi indicada pelo Senhor para todos os homens, mas pode tornar-se uma devoção particular, concentrando ali suas forças e seus esforços.

Para provar esta asserção, basta compreender bem o ensino de Nosso Senhor, ao nos lembrar continuamente a necessidade de estarmos unidos a Ele, para vermos em seguida o que é uma devoção particular.

Estas duas questões receberão o seu plano de desenvolvimento nos domínios deste estudo. Resumamo-las aqui sucintamente, para que a sua idéia esteja continuamente presente desde esse instante e esclareça as páginas que seguem.

Para provar que a vida de intimidade foi ensinada por Jesus Cristo, basta provar que Ele é o tronco, e nós somos os ramos. (S.João XV. 5)

Do mesmo modo que os ramos não podem produzir frutos, se não estão unidos ao tronco, também nós nada podemos, se não estamos unidos a Ele. (S.João XV. 5)

E orando ao Seu Pai por nós, Ele assim diz: "Meu Pai... que o amor com que amaste esteja neles". (S. João XVII. 26) Já no Antigo Testamento Ele se dizia o esposo de nossas almas: "Eu te desposarei e nossas núpcias serão eternas". (R.P.Coulé S.J)

A vida de intimidade não é pois uma vocação especial, mas sim o próprio fundamento e o fim do cristianismo. (S.Mateus, XI. 18)

O convite de Nosso Senhor não admite exceções: "Vinde a mim todos... (S. Mateus. XI 18) e aqueles que se julgam opressos de trabalhos, afazeres, das penas da vida, ele acrescenta: Vinde a mim todos vós que estais atarefados e afadigados, e encontrareis repouso". (S.Mateus XI. 18)

Sem dúvida, Deus não nos pede um misticismo de eremita, mas sim uma união íntima e constante com Ele, como condição essencial à vida sobrenatural.

Referindo-se a vida de intimidade, isto é verdade, como o é também, referindo-se à união com a SS.Virgem. E a razão é simples: é que Deus tendo desejado que todas as graças passassem pelas mãos imaculadas de Sua Mãe, nós devemos necessariamente, para receber estas graças ser unidos Aquele que no-las comunica.

Entretanto, é por ela que nós devemos ser unidos ao próprio Jesus. Jesus Cristo teria podido traçar-nos outro caminho, mas não o fez. Logo, o caminho único para chegar até Ele é Maria. E tanto isto é verdade, que o Beato Montfort escreveu: "aquele que diz ter Deus por pai, não querendo ter Maria por mãe, é um mentiroso e um enganador". (Vraie Devotion envers la Très S. V)

Sendo Jesus nosso modelo, é necessário que se possa dizer de nós, como se pode dizer d'Ele: "Maria de qua natus est Jesus". É necessário que nasçamos da Virgem, que sejamos educados por Ela, e que por Ela enfim subamos ao céu, como por Ela o Filho de Deus baixou até nós.

Considerada sob outros ponto de vista, esta prática, embora destinada a todos, pode ser o objeto de uma devoção particular.

Chama-se devoção particular a concentração de nossos esforços, reflexões e práticas, sobre um ponto determinado da religião, afim de melhor penetrá-lo e, por meio deste conhecimento mais profundo, dar-lhe todo o nosso coração.

Aqui a alma enamorada de Maria, desejosa de amá-lA cada vez mais, e com todas as suas forças, faz suas investigações sobre o mistério da vida de união com esta terna Mãe, concentra-se esforçadamente sobre este ponto e chega por assim dizer a condensar todas as suas afeições sobre esta prática.

Sem esquecer os outros mistérios, sem rejeitar as outras devoções, ela procura aplicar a esta toda a sua força e todo o seu esplendor. E isto é para ela de uma imensa vantagem, pois especializa-se nesta devoção e superioriza-se nela, do mesmo modo que um sábio, que se dedica a um ramo da ciência, em breve se torna especialista neste mesmo ramo.

Neste sentido a vida de intimidade com a Mãe de Jesus é verdadeiramente uma devoção particular e talvez a que mais agrada ao maternal coração de Maria.

QUINTO PRINCÍPIO

A vida de intimidade com Maria abrange todo o dogma da economia da graça,
reunindo admiravelmente o fim, o caminho e os meios da salvação,
indicados por Nosso Senhor.


Geralmente o dogma da graça não é bastante conhecido pelos cristãos, somente os sacerdotes, em consequência de seus estudos teológicos, conhecem todas as belezas, todas as riquezas ocultas nesta parte do dogma.

Os simples cristãos julgam que estas questões são demasiadamente abstratas, puramente especulativas, fora de prática. É um erro. A graça é a parte viva do cristianismo, é de certo modo o próprio Jesus Cristo.

O dogma da graça, sendo de uma maneira toda especial o fundamento e o fim da vida de intimidade com a Santíssima Virgem, encontrará aqui um desenvolvimento suficiente - o que raramente se encontra em obras populares - para mostrar a todos as riquezas e belezas desta divina economia, fazendo-o em uma linguagem bastante simples, para que seja por todos compreendido.

O fim da vida de intimidade com Maria outro não é senão Jesus Cristo. Ele é a cabeça; a Virgem é o pescoço; nós somos os membros unidos o pescoço e por ele a cabeça.

Tirai a cabeça, e o pescoço não tem mais razão de existir. Do mesmo modo, a união à Santíssima Virgem de nada serviria, se Ela não nos unisse ao Redentor, nossa cabeça.

O caminho a seguir é aquele que Jesus Cristo nos mostrou. Pode dizer-se que é Ele mesmo, pois tudo quanto se encontra em Maria é d'Ele. Digamos mais: Não está Ele mesmo em Maria e não nasceu d'Ela?

Unir-nos à Maria é pois unir-nos a Ele. Passar pelo caminho de Maria é ir diretamente e sem desvios ao encontro de Jesus.

E qual é o meio desta prática?

Este meio é a Encarnação. É Maria, de quem nasceu Jesus, que está encarregada de o produzir espiritualmente em nossas almas.

***

Assim, desde o início aparece claramente o princípio, a divisão, o conjunto e a perfeita concordância das três partes em que se divide esta obra.

Está traçado o nosso plano. Não é uma série de teses que estabeleceremos acerca da devoção à Santíssima Virgem; muito menos ainda é um estudo de Seu poder ou de Suas grandezas, mas simplesmente uma indicação do fim, do caminho e do meio de nossa vida de intimidade com Ela.

Este assunto, embora bem fixo aqui, é extremamente vasto, e não menos profundo. Abrange de certo modo toda a economia da graça em Jesus Cristo, em Maria e em nós.

E com efeito a ordem que seguiremos é a seguinte:

Jesus Cristo: Fonte de graça.
A Virgem Maria: Distribuidora da graça.
Nós: Necessitados e sujeitos da graça.

Jesus Cristo: O fim e a vida.
Maria: o caminho e o modelo.
Nós: os receptores e os imitadores.

Na PRIMEIRA PARTE estudaremos pois Jesus Cristo, como autor da graça. Estudá-lO-emos em si mesmo e considerado nos efeitos de Sua graça.

Na SEGUNDA PARTE  consideraremos Maria no plano divino, Suas plenitudes de graça e as incomparáveis riquezas de dons celestiais com que foi embelezada.

Na TERCEIRA PARTE veremos o papel de Maria junto a Jesus, para nos comunicar a graça - para nos santificar - bem como o seu papel junto a nós, para nos elevar até Seu divino Filho e nos tornar participantes da natureza divina.

Em outros termos poderíamos resumir tudo dizendo que:

Na primeira parte tratar-se-á da graça em Jesus.
Na segunda, da graça em Maria.
Na terceira, da graça de Jesus em nós, por Maria.

A conclusão geral deve ser:

- Ter os olhos fixos continuadamente sobre o fim.
 - Seguir exatamente o caminho que conduz a este fim.
- Empregar os meios, que nos fazem progredir neste caminho até o fim.

(Princípios da vida de intimidade com Maria Santíssima segundo os Santos, os Doutores e os Teólogos pelo Pe. Julio Maria, missionário de Nª. Srª. do SS. Sacramento, continua com o post: Natureza da Vida de intimidade)

PS: Grifos meus.

sábado, 26 de junho de 2010

Jesus e o mundo

143ª Contemplação

Jesus e o mundo


(Contemplações evangélicas, doutrinais e morais sobre a Paixão
de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. Júlio Maria)


Prelúdios

Vejamos o divino Mestre, o olhar flamejante, o braço estendido, lançar as Suas maldições sobre a perversidade do mundo.

Meu Jesus, elevai-me acima deste mundo, e dai-me a graça de odiá-lo, de fugir dele, conforme as Vossas recomendações.

***

Jesus continua (Jo 16,8-11):

8 - E quando vier o Espírito Santo convencerá o mundo quanto ao pecado, à justiça e ao juízo.
9 - Quanto ao pecado, porque não creram em mim;
10 - Quanto à justiça, porque eu vou para o Pai e já não me vereis.
11 - E quando ao juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado.

Depois de todas as sublimes virtudes que descobristes a Vossos apóstolos, ó Salvador amado, Vós lançais um último anátema ao mundo e repetis-lhes ainda uma vez que o mundo é Vosso inimigo - Omnes declinaverunt, simul inutiles facti sunt (Sl 13,3), que é perverso - Mundus totus in maligno positus est (I Jo 5,19) e que não pode haver o menor pacto entre o mundo e as Vossas instruções divinas, - Quae autem conventio Christi ad Belial aut quae pars fideli cum infideli (II Cr 6,15), pois que tudo que é do mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e orgulho da vida... - Quoniam omne quod est in mundo concupiscentia carnis est, concupiscentia oculorum et superbia vitae. (Jo 2,15)

Vossa doutrina, ao contrário, é pureza, desapego, humildade e mortificação... Si quis vult post me venire, abneget semetipsum, et tollat crucem suam et sequatur me (Mt 16,24). É portanto impossível servir a dois senhores, é preciso necessariamente amar um e odiar outro.

Os apóstolos compreendiam, sem dúvida, estas sublimes lições, mas a prática deixava ainda o são, eles entrevêem a elevação destas instruções... aspiram a reduzi-las em prática, mas falta-lhes esta convicção profunda que é o motor e o móvel dos atos generosos.

E na Vossa bondade sempre paciente e misericordiosa, ó Jesus, não lhes imputais como crime esta fraqueza, mas encorajai-los, dizendo-lhes que o que agora não compreendem, nem sabem ainda fazer, o Espírito Santo lhes ensinará e dará a força de praticar.

Quanto ao mundo, continuais, não cessais de dizê-lo, é preciso fugir dele, pois quem ama o mundo, não possui a caridade de meu Pai - Si quis diligit mundum, non est charitas Patris in eo (I Jo 2,15) - que é o princípio de salvação. Quando vier o Espírito Santo, Ele vos convencerá que o mundo é pecado, injustiça e perdição. - Arguet mundum de peccato, de justitia et de judicio (Jo 16,8)

Pecado, pois que os mundanos não crêem em mim, apesar das maravilhas que operei... e o obstáculo à sua fé é viverem no pecado e são seus pecados que os afastam de mim. - Iniquitates vestrae diviserunt intra vos et Deum vestrum (Is 59,2).

Injustiça, pois que eu volto a meu Pai, após ter ensinado e praticado a virtude, e no entanto eles me condenam, perseguem-me e dentro em pouco me darão a morte, como a um malfeitor, sabendo muito bem que eu sou inocente, mas não escutando senão o seu orgulho e o seu ciúme.

Perdição, porque Satanás, o príncipe do mundo, já está julgado e condenado. E a sorte dos aderentes e imitadores deve ser igual à do chefe que seguem. Aqueles que me seguem terão a vida eterna... aqueles que seguem a Satanás terão a morte eterna.

Meu Reino não é deste mundo... o reino de Satanás é deste mundo. Cada um é livre de escolher o seu mestre, apegar-se a ele e de esperar dele a sua recompensa.

Se eu não tivesse vindo e não lhe tivesse falado claramente da minha divindade, eles não teriam pecado em não ter acreditado em mim, mas agora eles não têm escusa de seu pecado - Si nom venissem et locutus fuissem eis, peccatum non haberent; nunc autem excusationem non habent de peccato suo (Jo 15,22) - e a incredulidade deles não pode ser senão o efeito de sua aversão por mim e pela minha doutrina.

Ora, aquele que a mim odeia, odeia a meu Pai. - Qui me odit, et Patrem meum odit (Jo 12,23) - Se eu não tivesse feito no meio deles obras que nenhum outro fez, eles não teriam pecado por não me terem reconhecido pelo Filho de Deus; mas agora eles as viram e não me deixaram de odiar a mim e a meu Pai.  Eis por que a sua sentença está pronunciada... como o foi a de seu pai Satanás: Onde está o pai lá estarão os filhos!

***

Ó Salvador adorável, que magistral lição dais a Vossos apóstolos e a mim. Eram-me necessárias estas palavras, estas condenações ao mesmo tempo formidáveis e precisas, para convencer-me da maldade do mundo de suas idéias, de suas máximas e de suas práticas.

Muito facilmente, infelizmente, eu me deixo invadir por essas ilusões de que o mundo não é tão mau como se diz... quereria convencer-me que se poderia muito bem amar-Vos e servir-Vos, e ser ao mesmo tempo deste mundo, procurar sua estima, suas honras e suas amizades... E assim eu não sou nem vosso nem do mundo... quereria conservar-me entre os dois...

E aí está por que Vossa palavra divina corta esta indecisão: Ou sou do mundo e neste caso Vos odeio a Vós mesmo, pois que a aliança entre estes dois amores é impossível.

Ó bom Jesus, confuso e arrependido, eu me prostro a Vossos pés... Compreendi a Vossa lição... dai-me a força de -la em prática. Enviai-me também o Vosso Espírito Santo, para que Ele acabe a Vossa obra, dissipe minhas últimas ilusões e me arranque para sempre ao mundo, a seus prazeres e a suas amizades, afim de que eu possa exclamar com São Francisco de Assis: "Meu Deus e meu tudo! Deus meus et omnia!"

Minha boa Mãe, em que deposito minha inteira confiança, ajudai-me a descobrir o que Jesus deseja de mim, para satisfazer o Seu amor. Quero renunciar a tudo o que é deste mundo... Não haveria em mim qualquer amizade demasiadamente humana?... alguma afeição que perturbe?... alguma procura de minha comodidade?... qualquer desejo de ser estimado, preferido! de ser aplaudido? Meu corpo, meu coração, meus pensamentos e desejos são eles todos unicamente de Deus?...

Respondei, ó Mãe, eu estou disposto a cortar tudo, a queimar tudo o que não é digno de Deus.

(Contemplações evangélicas, doutrinais e morais sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. Júlio Maria)

PS: Mantenho os grifos do autor.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Servir a Deus e salvar assim a sua alma

Nota: Os grifos em azul são notas do tradutor.

Servir a Deus e salvar assim a sua alma

(Foto: Morte de Santa Rita de Cássia)

Servir a Deus

Ele quer que o nosso louvor e o nosso respeito tomem esta forma bem concreta: servi-lO. Este serviço é por sua vez, claramente precisado pelos mandamentos de Deus e da Igreja, pelos deveres do próprio Estado.

Servir, é nobre ideal quando nos despendemos por uma grande causa, por um chefe simpático. Ora, nenhuma causa é mais esplêndida que a de Deus. Nenhum chefe que nos deva inspirar mais entusiasmo que Nosso Senhor.

Salvar a sua alma

A nossa salvação é a grande realidade que permanece, a imortalidade da alegria. Tudo o mais passa.

A beleza passa. No fim da vida M.me Récamer (Nasceu em Lião. Mulher célebre pelo engenho, pela beleza e pela sala de Abbaye-au-Bois, onde, na Restauração, reunia a mais brilhante sociedade, 1777-1849) estava cega.

Os olhos "azuis ou negros, sumamente amados, sumamente belos" apagar-se-ão. Um dia sairão deles vermes.

O amor passa. Heloísa e Abelardo (Filósofo francês, célebre pela sua paixão por Heloísa e pelos seus infortúnios, 1079-1142) estão ainda perto um do outro. Mas sob a terra pesada do cemitério, no Père-Lachaise. Aproximação de cinzas. E ainda há dúvidas sobre a sua autenticidade.

A popularidade passa. Que diriam os políticos.

O êxito literário passa. A. Dumas pai escreveu duzentos e oitenta e dois livros! Quantos sobrenadam?

As frivolidades passam: as das mundanas de lábios quimicamente vermelhos, de cílios postiços, onde tremulam postiças lágrimas; as dos ambiciosos que multiplicam as intrigas por uma condecoração.

A eloqüência passa. Com muito mais razão a verborreia se esvanece. Segundo o cálculo de um cronista, uma língua feminina agita-se, de maneira a percorrer, em média, 950 quilômetros por ano. É difícil de verificar. Vários provérbios do mesmo gênero foram escritos por homens. Com isso se explicam muitas coisas.

A juventude passa. Apesar de tantos reclamos que prometem uma eterna primavera, vamos acumulando anos. Ou antes perdemo-los.

A vida passa. Temos médicos em quase todas as ruas. Todavia os homens ficam fiéis ao velho hábito de morrer. O professor Augusto Lumière diz que em França, noite e dia, um canceroso expira em cada dez minutos e um tuberculoso em cada cinco minutos. Além de que, nada importa o diagnóstico do médico quando a gente se vai...

A fortuna dos corações passa. A urna que contém o coração de Voltaire foi transferida de local em local. Tornava-se embaraçoso este lamentável coração. No cortejo fúnebre que transportou o coração de Luís XIV, via-se apenas uma dúzia de antigos cortesãos.

O cavaleiro que levava o coração de Vauban (Engenheiro militar e marechal de França. Nasceu pobre e privado de qualquer proteção, mas, pelo trabalho, habilidade e nobreza de porte, ascendeu aos mais altos postos. Dizia-se comumente: "Cidade cercada por Vauban, cidade tomada; cidade fortificada [ou defendida] por Vauban, cidade tomada; cidade fortificada [ou defendida] por Vauban, cidade inexpugnável"; 1633-1707) teve a funambulesca aventura de o esquecer numa estrebaria de posta.

A glória dos monarcas passa. A princesa Luísa da Bélgica escreveu um livro de título impressionante: "A volta dos tronos que vi cair".

Napoleão I, o prestigioso capitão de sessenta batalhas campais, esteve na ilha de Santa Helena cinco anos, seis meses e dezoito dias; mais da décima parte da sua existência, pois que não chegou aos cinquenta e dois anos.

Na sua ilha, vigiado por Hudson Lowe, teve tempo de meditar sobre as traições dos seus irmãos, dos marechais, de Nery (Marechal de França. Cobriu-se de glória em vários campos de batalha, especialmente na Rússia. Napoleão cognominou-o o Bravo dos bravos; 1769-1815) que jurava reconduzi-lo numa jaula de ferro!

Recentemente, nos Inválidos, depois de ter contemplado as duzentas bandeiras de glória, eu olhava para o famoso túmulo. Naquele dia, tinham-se esquecido de lhe tirar o pó. Ter sido Imperador, e nem sequer ser espanejado!...

Tudo passa! Exceto o rito de servir a Deus e de salvar a alma.
Salvar a alma é preferir a alma ao corpo.

***

1- Corpo

Não é em nós o elemento principal. Consultemos este balanço esboçado pelo doutor Ch. Mayne, de Rochester, e citado por outros médicos. Previno que é horrivelmente realista e de um cinismo mortificante para a vaidade humana. Agora, lealmente prevenidos, vejamos:

No corpo humano, encontram-se estes produtos principais:

Ferro: Equivalência => um prego médio.
Açúcar: Equivalência => dois torrões ordinários.
Gordura: Equivalência => sete pequenos bocados de sabão.
Fósforo: Equivalência  => duas mil e duzentas cabeças de fósforos.
Magnésio: Equivalência  => o necessário para uma foto.
Potassa e enxofre, em pequena quantidade.

Total: Estes elementos reunidos vender-se-iam pouco mais ou menos por 40 escudos. Eis o nosso valor mercantil, a nossa cotação comercial. (Consideramos o preço das matérias primas. Um ponto de vista absolutamente diferente é a organização e o funcionamento da máquina humana. É uma pura maravilha, descrita nos artigos Le corp humain, que Prêtre et Apôtre publicou desde novembro de 1936)

Pobre corpo! Não merece o primeiro lugar, pois que Deus, que nos ama tanto, permite para ele quatro grandes humilhações: as doenças, a deteriorização progressiva, a agonia, a decomposição.

Doenças.

a anarquia na célula". Fórmula original. Mas há uma coisa que preferíamos a esta definição imaginosa: a cura. Mas isso!...

O número dos sanatórios, das clínicas, vai crescendo. Objetar-se-á, talvez, que, se há doentes, há felizmente médicos. Mas os médicos conseguem sempre curar as enfermidades das esposas, dos filhos? Não têm eles mesmos os seus achaques? Vivem notavelmente mais tempo que o comum dos mortais? Estes senhores da vida podem prolongar muito a sua? ...

Deterioração

O corpo fatiga-se. Que motor, construído embora de modo impecável e de aço de primeira qualidade, poderia, sem um minuto de descanso, funcionar cinquenta anos?

O nosso corpo é um motor de uma complicação inaudita e trabalha anos e anos. Chega algumas vezes a centenário. Nem um instante de inacção, visto que, mesmo em plena noite, o funcionamento continua para vários órgãos, por exemplo, para o coração.

O coração, no homem, tem, em média, por minuto cerca de setenta pulsações (cada uma com sístole e diástole). Façamos, num dia de lazer, o cálculo das nossas sístoles e diástoles, desde o nascimento até à idade em que nos encontramos: é vertiginoso.

Mas é evidente que o coração não produz impunemente um trabalho tão prodigioso. Paga continuamente a sua contribuição. E tenhamos em conta choques emotivos, desgostos. A própria idade contribui, porque, a partir dos cinquenta anos, o homem já não caminha só com as pernas, mas também com o coração.

A máquina humana gasta-se pelo seu labor.

Fórmulas estranhas, mas exatas: vivemos com a condição de nos matarmos progressivamente; a vida esfacela-se perpetuamente pelo esforço que fazemos para a conservar.

Agonia

Os literários (por exemplo, Lamartine, que, na sua peça Le crucifix, conta o trespasse de sua mãe) tentam poetizar os últimos momentos. Falam-se de crisálida... Muito belo! Mas, vós que contemplais agonias, dizei-me: pensáveis em crisálidas? Pela minha parte, confesso não ter pensado nunca em borboletas de asas matizadas, quando estava perto do leito em desordem onde um homem agonizava.

A agonia, do ponto de vista que nos ocupa neste momento, isto é, considerada pelo lado puramente corporal, é bem uma humilhação total e um fenômeno extremamente prosaico.

Decomposição

Se alguns poetas se esforçaram por enfeitar a agonia, nenhum pensa em fazer uma discrição risonha do cadáver em plena deliquescência. Desta vez, já não há meio de suavizar a pintura.

Eis reduzido a um horror sem nome esse corpo ao qual instintivamente nos apegamos, esse corpo de que Chrysale dizia: "Farrapo sim, talvez; mas amo o meu farrapo" (Femmes savantes, Act. I, 26-7)

Eva Lavalliere fazia esta observação verdadeira, que muitas faltas ordinárias, são pecados do corpo: guloseima, preguiça, impureza...

É finalmente abandonado aos vermes este corpo pelo qual os mundanos passaram tantas horas nos salões de beleza, suportaram o capacete enorme e quente que seca as ondulações, se sujeitaram os banhos turcos que fazem emagrecer, dispenderam muito dinheiro com os melhores cosméticos.

Até para aqueles que não têm nenhuma preocupação de galanice, o corpo  é ainda um escravo exigente. Que tempo ele reclama! Que subtração o orçamento da nossa curta vida! Se se fizesse a adição de todos os quartos de hora passados a barbear-se! Contem-se as horas de sono, as que supõem o toucador, as refeições, os descansos. Ficaremos espantados por ver que um bom terço de vida se passa a sustentar ou a repousar o corpo.

E todavia, tem apenas uma importância de segunda ordem. Lamentamos de todo o coração os materialistas, os que escrevem como Aug. Lameere, antigo Reitor da Universidade livre de Bruxelas: "O homem é um animal como os outros: já não se pode pensar em atribuir-lhe uma alma imortal." (Carta de Lameere ao jornal Le Peuple, onde está citada em primeira página, 25 de novembro de 1934)

2- A alma

Qual é o seu valor?

Interroguemos sucessivamente as religiosas, os missionários, os Santos, Cristo...

Resposta das religiosas

O fim das religiosas contemplativas, docentes, hospitaleiras, etc., é antes de tudo dar glória a Deus: mas, além disso, salvar a sua alma e outras almas. Contemplemos essas santas mulheres que se ocupam de crianças anormais, as Irmãzinhas dos pobres, tão dedicadas por velhos desiludidos, algumas vezes estropiados. Os destroços humanos sobre que delicadamente se inclinam são interessantes? Não, mas conservam uma alma. Que ela esteja num corpo arruinado, que importa?

Quando nos oferecem um diamante com o estojo, que é nos preocupa? o preço do estojo, ou o do diamante? Ora bem; a alma do enfermo mais miserável é (se se pode empregar comparação manifestamente imperfeita) a pérola fina, de subido preço, num escrínio lamentável.

Resposta dos missionários

Aqui, no Gésus de Bruxelas, quantos deles vemos partir cheios de entusiasmo, quantos vemos voltar arruinados pelas fadigas! Façamos passar pelo espírito tudo o que a vida do missionário supõe: dilacerações do coração; afastamento da pátria; calores sufocantes; sacrifícios do conforto e destas mil facilidades ás quais, sem o pressentirmos, nos habitua pouco a pouco a civilização moderna; relações cotidianas com seres grosseiros cuja maneira de ver  difere totalmente da nossa.

Mas esses pobres gentios têm uma alma; eis o que explica todos os labores dos missionários.

Resposta dos mártires

Os das grandes perseguições antigas, os das grandes perseguições modernas, suportaram os tormentos, de preferência a perder a sua alma. (Leia-se, no II Livro dos Macabeus, o capítulo VI - suplício dos Judeus fiéis, de Eleázaro, dos sete irmãos)

Resposta dos Santos

Eles, que tinham as nossas tendências, praticaram magnificamente o "Vince teipsum". Simples homens, levaram uma vida que estava acima da natureza humana. Se tiveram este heroísmo cotidiano, era em vista de santificar a alma.

Pelo mesmo motivo, todos os cristãos devem algumas vezes contrarias os próprios gostos, impor-se penosos deveres. Paulo Bourget fez, em Némésis, esta observação justa: "O cristianismo repousa todo sobre o valor, sobre o preço das almas." (Plon, cap. I, pág. 109)

Resposta de Cristo

Ensina-nos, melhor que qualquer outro, quanto as nossas almas são preciosas. Por elas, deu um alto preço: "Fostes libertados, não por coisas perecíveis, prata ou ouro, mas por um sangue precioso, o do Cordeiro" (1ª Epistola de S.Pedro, I, 18 e 19). E Santo Agostinho: "O Redentor veio e deu o preço: derramou o sangue. Perguntais o que comprou? Vede o que deu e sabereis o que comprou. O sangue de Cristo é precioso." (Iº de Julho) que o Breviário nos recorda estas palavras do grande Doutor, tão enérgicas e preciosas, em latim:

"Venit Redemptor et dedit pretium: fudit sanguinem suum. Queritis quid emerit? Videte quid dederit et invenietis quid emerit. Sanguis Christi pretium est".

Dissemos que a grande sabedoria era salvar a nossa alma. Notemos bem que a salvação depende de nós. Somos livres. Evidentemente que, quando se trata do dever, da salvação, não temos uma liberdade moral (o direito de escolher o mal), mas uma liberdade física (a possibilidade de pôr um ato culpável).

Podemos nós cometer o pecado, perder-nos? Não, no sentido de que o mal não é permitido. Sim, no sentido de que a falta é uma ação realizável. O Senhor quis deixar ao homem uma liberdade que faz a legitima altivez do seu mérito, uma liberdade que é perfeitamente dirigida pelas leis divinas, encorajada pela promessa das recompensas, estimulada pela ameaça dos castigos.

"No princípio, Deus criou o homem, e deixou-o nas mãos do seu conselho. Deu-lhe também os Seus mandamentos e preceitos. Se guardando constantemente a fidelidade que Lhe agrada, quiseres cumprir os mandamentos, eles serão a tua salvação.

Pôs diante de ti a água e o fogo; estende a mão para o que mais te agradar. Diante do homem está a vida e a morte, o bem e o mal; o que escolher lhe será dado". (Ecli. XV, 14-18).

Praticar o bem, obedecer a Deus, é por excelência "o serviço pessoal". Nenhuma substituição possível.

A salvação da alma é questão que nós mesmos decidimos. Nós, com a graça de Deus. Colocados entre os dois caminhos, da direita e da esquerda, adotamos e seguimos livremente uma destas rotas... Isto é de tal modo verdadeiro que podemos formular estes dois princípios:

Se o homem está decidido a salvar a sua alma, nada pode impedi-lo;
Se o homem está decidido a perder a sua alma, nada é capaz de lhe violentar a resolução.

(Excertos do livro: Em face do dever - Volume I, pelo Pe. G.Hoornaet, S.J, traduzido por Pe. Elísio Vieira dos Santos, o original que serviu para esta tradução é o da 1ª Edição francesa que tem por título: "Face au Devoir")

PS: Grifos meus.


Educação do espírito

Educação do espírito


Mais cedo do que seria de esperar, chega o momento em que é preciso dar às crianças alguma resposta sobre o belo, o bem e a verdade, sobre os problemas de Deus, a alma, a morte e o além. Mécs conta que "a mãe pôs diretamente na sua boca infantil o nome de Deus". Mas também o mal desperta na criança antes do tempo.

O primeiro fulgor da inteligência, o primeiro balbuciar das palavras são o momento oportuno para fazer compreender alguma coisa acerca  de "Aquele que está mais alto que as estrelas". As crianças têm uma sensibilidade especial para o que é santo. É o momento de falar do Menino Jesus e as ensinar a rezar com as palavras e com o coração.

A mãe de São Clemente Hofbauer, pouco depois do falecimento do pai, colocou a criancinha diante de uma cruz e disse-lhe: "Desde agora, este será teu pai!" Ao longo da sua vida, nunca o santo esqueceu essas palavras.

Em qualquer época e para qualquer idade, os santos são os modelos eternos. São Francisco de Sales conta que, na infância, ouvia ler à sua mãe as vidas dos santos e Santa Teresa ficou tão impressionada ao conhecer as hagiografias que, sendo ainda uma criança, fugiu da casa paterna para ir a terra de infiéis e ser martirizada. Erna Haider (1916-1924) venerava com fervor o seu anjo da guarda e todas as noites lhe confessava as suas faltas.

As crianças compreendem com maior facilidade as vidas dos santos e fixam-nas melhor do que se se tratasse de uma doutrina profunda. Surge nelas o pensamento de que devem fazer como eles ou melhor: eu posso fazer como eles.

Hoje em dia, fala-se muito de educação e, no entanto, talvez nunca, como hoje, ela tenha sido estabelecida em bases tão deficientes. Constrói-se sobre a areia em vez de construir sobre rocha firme.

Eduquemos as crianças como filhos de Deus, como cristãos que o são de coração e não apenas de nome e conseguir-se-á o mais importante. Nada pode substituir a fé: e sobre esse fundamento poderão crescer harmonicamente as forças do corpo e da alma. Depois de ter ensinado a evitar o pecado, venerar a Deus e amar a virtude, pouco mais falta fazer.

Estas palavras, porém, tornaram-se tão vulgares que é preciso enchê-las de um sentido novo e profundo. Devemos aprender outra vez que é algo de verdadeiramente grande o conhecer a Deus, orar e orientar a vida segundo a vontade divina. Também aqui se aplicam as palavras do Senhor: "Buscai primeiro o reino de Deus e o resto vos será dado por acréscimo".

Eis o motivo por que a mãe deve pedir para si e para o seu filho o espírito de fortaleza a fim de não se curvar perante a fraqueza da criança e poder conduzi-la com pulso firme como um piloto através da tempestade. Eis o único fundamento necessário para o futuro e nunca o filho se esquecerá dele. De modo expressivo diz De Maistre:

"Se a mãe considerar como seu primeiro dever fazer o mais depressa possível o sinal da cruz na fronte do filho, poderá ter a certeza de que nunca esse sinal se apagará por obra do pecado".

(A Mãe, Cardeal Mindszenty)

PS: Grifos meus

quinta-feira, 24 de junho de 2010

"A mamã será sempre bela!"


Através das janelas ornadas de verde
penetram os raios de sol.
A avó está sentada e dorme durante todo o dia.
O seu cabelo é branco e no seu rosto
cavou o tempo sulcos profundos,
e a seus pés, ajoelhada, brinca uma criança.

"Porque dormes durante todo o dia?"
pergunta ingenuamente a pequena.
"O avó, tu não és bela!
Teus cabelos são feios e na fronte
tens umas rugas tão grandes!
A mamã é muito mais bela!
Que bela que é a ma!"

A avó fitou a pequena favorita:
"A beleza passa veloz e o tempo fez-me isto
mas também a mamã vai envelhecer".

Paira um hábito de tristeza.
"Oh, não! a mamã será sempre bela!"

(A mãe, pelo Cardeal Mindszenty)

O coração deve ser desinteressado

A importância da formação do coração
Parte V


O coração deve ser desinteressado

"Sem dúvida, quando Deus criou o coração do homem, diz Bossuet, pôs nele primeiramente a bondade, mas Satanás aproximou-se por sua vez, e nele insuflou o egoísmo."
(João Evangelista de Lima Vidal, Arcebispo de Ossirinco)

Qual é o grande perigo que corre o coração das crianças em relação aos afetos de que ele é o centro?
É o egoísmo.

O que é o egoísmo?
É esse monstro hediondo que habita no coração, quando nos amamos só a nós próprios, quando reportamos tudo a nós mesmos, pessoas e coisas, quando não amamos os outros senão por nós próprios.

"Enquanto estou na vida
eu desejo perfurmar-me,
e coroar-me de flores;
quero ser o meu próprio herdeiro
para gozar à vontade,
não quero viver para os outros.
É doido o pelicano que se mata
pelos filhos seus, é louco o que sofre amarguras
a trabalhar pelos seus."
(Ronsard, Canção)

O egoísmo é frequente?
"O egoísmo desponta mesmo nas pequeninas almas bem nascidas, que têm o seu eu desde o primeiro alvor da razão."
(R.P. Delaporte, As criancinhas de cinco anos..., p.125)

Quais são as causas do egoísmo?
É primeiramente esta maldade inata que temos como conseqüência do pecado original.

As crianças não estão mais isentas dela do que as pessoas grandes: é preciso, por conseguinte, crer a priori, que estão, pelo menos, expostas a cair no egoísmo.

É também o orgulho:

"Quando alguém se julga um pequeno ídolo é muito natural que se contente em receber o incenso e os serviços dos seus adoradores."
(Abade Knell)

Qual é, praticamente, a causa mais ordinária do egoísmo?
É a má educação.

- Que fazeis todo o dia? perguntavam a uma jovem mãe.
- Animo os meus filhos.

Alguns exemplos (retirados da obra de F.Nicolay , As crianças mal educadas, p.3-4)

- Sai-se, vai-se passear. É o bebê que diz aonde quer ir. A mamãe tinha voltas a dar, compras a fazer, determinados casos a tratar... que importa? Não é a crianças quem governa?

- Faz-se uma visita:
Vai em breve sentar-se, ou antes deixar-se cair desleixadamente sobre os joelhos maternos, ou encostar-se com indolência ao sofá.

E diz com ar aborrecido e num tom arrastado:
- Vamo-nos embora, mamãe.
E a mãe, num tom decidido, responde logo:
- Sim, meu queridinho! Vamos já, sê bonito...

- À mesa, a criança indica os bocados do seu agrado, aqueles que ela "quer"; o resto é, naturalmente, para a família.

- Deseja qualquer coisa?
- Muito bem, que se vá procurar!...

E, se se lhe objeta que nada se obtém sem dinheiro, responderá atrevidamente:
- O papai tem-no.

- Quanto aos criados, são, a seus olhos, pessoas nascidas para servir.

Quais são os meios de evitar o egoísmo?
"Desde muito cedo, antes que as crianças tenham perdido a primeira simplicidade dos impulsos próprios, é preciso fazer-lhes apreciar o prazer duma amizade cordial e recíproca."
(F.Nicolay, As crianças mal educadas, p.3-4)

Praticamente:

- Far-se-lhe-á repartir com os irmãos e irmãs os chocolates e os brinquedos que têm.

- Se alguma pessoa da família está doente, devem fazer-lhe uma carícia e dar-lhe um beijo; será para elas a maneira mais própria para suavizarem o sofrimento; farão uma prece ao Menino Jesus para obter ou apressar a cura.

- Obrigar-se-ão a dizer "obrigado", todas as vezes que receberem qualquer coisa; dar-se-lhes-á o exemplo do reconhecimento, quando tiverem prestado algum serviço.

"É preciso louvar as crianças por tudo o que a amizade as levou a fazer, contanto que não seja fora de propósito ou com demasiado transporte."
(Fénelon, A educação das filhas, cap. V)

- Habituem-nas a sorrir às carícias que lhes fazem, a serem serviçais, a sacrificarem-se pelos outros...

5º- "Suprimam-se, diante delas, a respeito dos amigos, cumprimentos supérfluos, fingidas demonstrações de amizade, e todos os falsos carinhos, pelos quais se lhes ensina a tratar com hipocrisia pessoas que elas devem amar." (Fénelon, A educação das filhas, cap. V)

- Eduquem-se no pensamento de ter sempre cuidado com os outros.

- Enfim, se se tratar de alguma criança doente, dever-se-á ter cautela em que esses cuidados de que é preciso rodeá-la se não convertam num alimento de egoísmo.

Quais são os meios de corrigir o egoísmo?
Para corrigir o egoísmo, "este impulso da vida que recai nela própria, é preciso o impulso da vida que se desentranha de si mesma e que se dá." (Abade Knell)

Não há, pois, senão um único remédio verdadeiramente específico contra o egoísmo: é o amor e a dedicação.

(Excertos do livro: Catecismo da educação, pelo Abade René de Bethléem, continua com o post: O coração deve ser entusiasta)

PS: Grifos meus.

O devotamento aos filhos, consolidação da harmonia conjugal

O devotamento aos filhos,
consolidação da harmonia conjugal


Para viver em perfeita harmonia, os esposos devem partilhar os múltiplos cuidados relativos à saúde dos filhos, à formação de seu caráter, à sua educação moral e religiosa e a seu futuro social. Estes cuidados aumentam com o número dos filhos. Mas, muito longe de constituir um obstáculo para a intimidade conjugal, eles contribuem para consolidar e estreitar a união dos corações numa mesma vontade de dedicação.

Os filhos se tornam, assim, uma ocasião de alegria para os pais, e tanto mais profunda quanto mais os pais tiverem consciência de ter cooperado juntamente para a sua formação moral. Que alegrias podem ser comparadas às alegrias dos pais que assistem ao desenvolvimento de suas faculdades? Chegados à idade madura como não haveriam de amar-se mais ainda ao recordar os esforços e devotamentos comuns que tiveram como resultado a formação da personalidade da qual legitimamente se orgulham?

***

O número dos filhos, uma vez que estes sejam bem-educados, longe de ser uma ocasião de empobrecimento da sociedade familiar, quase sempre é a fonte de uma grande prosperidade. Se a família numerosa conhece anos difíceis enquanto os filhos forem demasiadamente jovens para o trabalho, ela entra numa fase de grande atividade produtora quando os filhos começam a revelar o valor de suas energias de trabalho acumuladas no decurso da infância laboriosa.

É um fato que o gosto pelo trabalho, o sentimento da dedicação e da atividade, a aptidão em se adaptar às dificuldades da vida geralmente são muito mais desenvolvidas no filho de uma família numerosa do que no filho único. Preparar o filho para as lutas da vida é fazê-lo partilhar dos cuidados e das dificuldades de uma família numerosa. Até mesmo as privações servem para modelar as vontades e os caracteres.

O adolescente que sabe que seu futuro está assegurado graças à fortuna dos pais, é facilmente tentado a não fazer nada. Não é com o dinheiro que se fortalecem as energias.

Quanto mais os pais derem o exemplo de trabalho e devotamento, tanto mais os filhos serão levados a imitá-los e a segui-los. Trata-se de preparar homens e não rendeiros. O verdadeiro amor não consiste em entorpecer o filho pela perspectiva de uma bela situação financeira, mas em obrigá-lo a não ter confiança senão em seus esforços pessoais. Os sábios não são os que têm medo da vida, mas o que lhe aceitam corajosamente os riscos e os trabalhos.

É lamentável que a inviolabilidade das consciências não nos permita conhecer o número dos esposos que restringem o número de seus filhos por motivos de consciência, comparado ao dos esposos que o fizeram por amor aos prazeres e por medo das responsabilidades. O número destes últimos se elevaria certamente a proporções consideráveis em relação ao dos outros.

Contaram-me recentemente a seguinte anedota:

Uma senhora tomara-se de amores, num jardim público, por uma menina que brincava sempre sozinha e parecia não gostar muito. Tendo perguntado à criança se ela não seria feliz em ter um irmãozinho para dividir com ele os brinquedos, a criança, entusiasmada pela idéia e toda radiante de esperança, precipitou-se em direção à sua mãe e diz: "Mamãe, dê-me um irmãozinho". E a mãe responde com estas odiosas palavras: "Se eu te der um irmãozinho, serás menos feliz porque precisarás dividir com ele tudo o que eu te dou, doces, carícias e beijos". A infeliz não compreendia que ao falar assim ela matava em sua raiz os mais generosos sentimentos se sua filha. Mas a criança deu à mãe uma severa lição, afirmando que sua alegria seria precisamente dividir com o irmãozinho tudo o que ela possuía. Perturbada com estes argumentos, a mãe não encontrou senão uma resposta: "Muito bem! dar-te-ei um cãozinho!"

Eis como uma mãe, deformada pelo egoísmo, pode chegar a comparar o devotamento a um animal ao devotamento a um irmãozinho. Semelhantes histórias não merecem comentários. Elas dizem muito sobre os desvios sentimentais de alguns de nossos contemporâneos. Com efeito, vêem-se mulheres recusar filhos, enquanto que aceitam, por causa de seus animaizinhos, incômodos e fadigas consideráveis...

Disposições morais tão contrárias à lei divina e à generosidade do coração não podem senão prejudicar à evolução normal do amor, tanto conjugal como paterno e materno.

Os pais que tomam a decisão de não criar mais que um filho preparam os mais graves desvios da personalidade de tal filho. Por exemplo, como farão eles nascer na consciência dele a noção de justiça, se nunca tem algo a dividir com irmãos e irmãs? Como conhecerão suas paixões, que não se manifestam a não ser durante as brincadeiras e contatos cotidianos entre filhos de uma mesma família?

O filho único não se conhece e muito menos o conhecem seus pais. Eles são incapazes de prever quais serão as suas reações diante das tentações e das lutas do futuro. Numa família numerosa, a vida em comum dos filhos espontâneamente faz aparecer as boas e as más tendências de cada natureza.

Os pais do filho único dificilmente reagem contra seus caprichos. Para ter paz, satisfazem suas vontades sem se preocuparem com as conseqüências. O filho começa a impor a própria vontade e o consegue com grande facilidade, uma vez que não se acham presentes os irmãos e irmãs para protestarem e fazerem valer seus direitos. Não há ocasião de descobrir as deploráveis conseqüências de seus atos sobre os que o cercam...

Na família numerosa o filho é constantemente obrigado a pensar nos outros e a eles se dar. Sua personalidade insensivelmente é modelada para o devotamento. Estou persuadido de que um estudo aprofundado da mentalidade dos adultos teria como resultado provar que os homens mais egoístas, os mais preocupados com os próprios desejos, os mais indiferentes às injustiças sociais são, na maioria das vezes, filhos únicos.

Eles não tiveram, na sua infância, a ocasião de lutar contra seu egoísmo natural. Os cidadãos mais devotados e mais desinteressados, ao contrário, são recrutados entre os filhos de famílias numerosas. Não se habituaram eles, desde pequenos, a dividir com os outros suas alegrias, penas e trabalhos?

***

Poderíamos seguir o mesmo raciocínio com relação à maioria das qualidades humanas. Tomemos o exemplo da coragem em face do trabalho. No caso de uma família numerosa, os filhos, são testemunhas das lutas e das fadigas de seus pais. Vêem seu pai procurar melhorar de situação, não por ambição ou para proporcionar-se meios de diversão, mas unicamente por amor a seus filhos e para que não lhes falte o necessário.

São testemunhas dos sacrifícios que sua mãe constantemente faz para prover às necessidades do lar. Se ela mesma procura não fazer gastos inúteis, ao mesmo tempo está incitando os filhos a não descuidarem de seus negócios para ajudar ao bom equilíbrio do orçamento. Daí resulta uma atmosfera de economia, de trabalho que distingue cada um dos membros da família, preparando-o para os esforços do futuro.

***

O filho toma facilmente conhecimento da dedicação que os pais lhe prodigalizam. Se ele for o único a receber seus cuidados e atenções, deles aproveitará sem que seu coração desperte para o reconhecimento. Está de tal modo habituado com a dedicação materna, que se porta como um cego, que não vê nem a claridade do dia. Na família numerosa, ao contrário, cada filho é testemunha do que fazem os pais junto aos irmãozinhos, dos cuidados dispensados ao doente, das preocupações provocadas pela conduta de um ou de outro. O devotamento que o filho não teria descoberto se se tratasse de filho único, ele o constata todos os dias por causa de seus irmãos e irmãs.

A formação do caráter está ligada às múltiplas reações da vida cotidiana. Não é um adágio popular que as implicâncias formam o caráter? Mas o que começa quase sempre em disputas normalmente acaba, entre irmãos, em reconciliações. Graças à vida em comum o filho, aprende a melhor conhecer a si mesmo.

Um é obstinado, outro quase não conhece argumentos notáveis, um terceiro é sempre tentado a ceder e a deixar-se convencer. Se um dos filhos mentir, os outros logo cuidarão de o denunciar; se outro abusar de sua força, imediatamente será levado diante do tribunal paterno. Aquele que se recusar a um trabalho coletivo, logo será obrigado pelos outros a corrigir a preguiça.

Numa palavra, tão somente o jogo das forças coletivas da família em breve faz manifestar e corrigir os excessos e os egoísmos individuais. Nada de semelhante se dá quando o filho está sempre sozinho diante de si mesmo.

A explosão espontânea das paixões infantis desperta a atenção dos pais e leva-os a ver e a compreender o que certamente lhes teria escapado se se encontrassem diante de um filho úncio. Estas descobertas fazem com que eles exerçam uma autoridade cada dia mais esclarecida e façam uma idéia mais advertida e mais aprofundada de suas responsabilidades.

O pai e a mãe unidos numa mesma vontade de educação moral exercem sua autoridade em condições particularmente favoráveis e realizam, com relação a todos os filhos, o ideal de uma sociedade onde reinam a paz e a justiça. Exigem de cada um esforços proporcionais às suas capacidades e todos têm direito de esperar da autoridade deles os juízos que farão de cada um segundo seus direitos e necessidades.

O fato de melhor conhecer os filhos terá como resultado facilitar a união dos esposos. Tendo múltiplas ocasiões para se preocupar juntamente com a formação moral (e espiritual) dos filhos, sua intimidade somente se aprofundará. Nada mais favoráveis à harmonia do que estar obrigado a refletir em comum, a procurar junto os melhores métodos de educação, e preocupar-se dos dois com o futuro de cada um dos filhos.

Às preocupações comuns virão juntar-se as alegrias comuns. As alegrias que não repousam senão na união conjugal são precárias. tendem a diminuir e a restringir-se com o tempo. As que têm origem nos filhos são mais duráveis, pois são mais desinteressadas.

***

A alegria de uma família repousa, em grande parte, na presença de filhos pequenos. De certo modo o pequeno faz rejuvenecer a todos os que o cercam. Todos o amam porque é fraco e ainda não causou sofrimentos a ninguém. Traz ele consigo as promessas do futuro. Seu sorriso faz esquecer as penas e os sofrimentos da vida. É por isso que uma família que vê aparecer um novo filho conhece alegrias tão puras; essas contribuem poderosamente para a união e a boa vontade de todos os seus membros.

Até os avós, vendo-se rodeados de tantos netos, como que rejuvenescem. O enternecimento que experimentam em presença deles não ocasiona uma união mais íntima num mesmo sentimento de alegria e de reconhecimento a Deus?

A presença de crianças contribui para melhorar o caráter dos adolescentes e dos adultos. O adolescente é objeto de tentações particulares: da carne, do egoísmo sentimental e da independência. Quer viver sua vida e com dificuldade suporta as obrigações e os sacrifícios da vida em família. Discute e sempre quer ter razão. É levado a procurar fora da família as afeições de que seu coração necessita. Estas tentações encontram, de certo modo, um antídoto natural, na presença das crianças. A presença de um irmãozinho ou de uma irmãzinha contribui para conservar na família o coração dos adolescentes; é como que um derivativo para as suas tentações juvenis.

A criança rejuvenesce a atmosfera familiar e facilita, assim, a união e a intimidade de todos os membros. 

(Harmonia conjugal, pelo Cônego J. Viollet)

PS: grifos meus.