terça-feira, 22 de junho de 2010

A beleza de Jesus

6ª Contemplação


A beleza de Jesus

Prelúdios:

Contemplemos Jesus à idade de 33 anos, na época de começar a Sua Paixão... É de uma beleza majestosa, a fronte alta, o olhar doce, a fisionomia delicada, de estatura mediana, de gesto calmo, de porte digno e paternal...

Ó Jesus, quanto desejaria ver-Vos nesta idade!... Eu o posso pela contemplação!... Oh! colocai-Vos diante de mim, afim de que eu possa formar uma idéia de Vossa beleza humana, iluminada de beleza divina!...

O salmista já cantava a beleza de Jesus. (Sl. 44, 3 e 5)

3 - Vós sois o mais belo dos filhos dos homens... a graça espalha-se sobre os Vossos lábios: é por isso que Deus Vos abençoou por toda a eternidade.

5 - Ide, prosperai pelos caminhos e reinai por Vossa beleza e Vossos atrativos.

Ó Jesus, antes de iniciar a contemplação de Vossas instruções e de Vossa Paixão, eu sinto a necessidade de recolher-me, de colocar-me bem em presença de Vossa pessoa divina, para observá-la, contemplá-la e gravar no meu espírito e no meu coração Vossos traços inefáveis...

A beleza tem para nós atrativos irresistíveis... E quando a beleza moral se une aos reflexos de beleza física, nós sentimos em nós uma impressão de simpatia e de ternura, que deixa por vezes traços indeléveis.

É um destes traços que eu queria imprimir na minha alma, imprimi-lo em caráteres de fogo, afim de que no decurso destas contemplações eu Vos tenha continuamente no espírito, afim de que eu possa ler no Vosso olhar os sentimentos de Vossa alma e os desejos do Vosso coração.

A fase de Vossa vida, que eu quero contemplar aqui, é aquela em que a Vossa pessoa, a Vossa fisionomia e os Vossos gestos atingiram a plenitude da idade, da expressão, da dignidade... principalmente da beleza que nós estimamos ver aureolar a fronte daqueles que nos são caros.

Como éreis belo, Jesus, na idade de 33 anos, ao termo de Vossa vida apóstolica, à hora de começar a vossa Paixão - belo de uma beleza majestosa e doce.

Segundo o aviso profético. "Vós sois o mais belos dos filhos dos homens" - Speciosus forma prae filius hominum, diffusa est gratia in labiis suis (Sl. 44,3). E de outro modo não podia ser. Quando uma natureza não encontra nenhum destes obstáculos que deixa o pecado, é a alma que modelo o exterior; é a sua missão: ela imprime-lhe a sua imagem, ou para melhor dizer, passa para ela e irradia.

A alma sai, por assim dizer, de seu retiro, transpira através da poeira do corpo, e, subindo ao semblante, dá-lhe uma beleza sem igual na ordem das coisas criadas. A fisionomia fala antes que a boca se abra. Os olhos sabem dizer coisas que as palavras não traduzem. A bondade se expande no sorriso e não sei que simpatia misteriosa desperta um belo timbre de voz.

Ah! quando uma alma é ao mesmo tempo elevada e bela, forte e eterna, em uma palavra, quando ela é perfeita, tudo se harmoniza em seu exterior - Et super omne quod visu pulchrum est (Is. 2,16).

Que dizer então de Vossa beleza, ó Jesus?... Beleza que não era somente humana, mas se elevava na irradiação da divindade. Assim como quando se encontra natureza privilegiada, basta ver-lhe a fisionomia, os olhos, os lábios, basta ouvir-lhe a palavra, diz-se: eis aí uma alma onde há grandeza, nobreza, bondade, nio; do mesmo modo bata ver-Vos, ó Jesus, para ser levado a dizer:

Eis uma alma onde divindade!

O amor que inspirais é tão puro, que difunde uma paz extrema; é tão profundo que sacia esta imensa necessidade de amar e de ser amado, tormento do pobre coração humano! - Specie tua et pulchritudine tua intende, prospere, procede et regna (Sl. 44,5).

***

Ó Jesus, como é possível que não tenhais atraído todos a Vós, pelo encanto de Vossa beleza? Muitas almas, sem dúvida, se afeiçoaram a Vós e Vos amaram apaixonadamente... mas tantas outras Vos fugiam, caluniavam e perseguiam com o seu ódio?

Duas razões o explicam: a primeira é uma lei muito humana: Nós a tudo nos habituamos e as coisas mais extraordinárias cessam de no-lo parecer tal, se as revemos diariamente. A Vossa primeira aparição, não há dúvida, Vós excitastes a admiração, a simpatia e o amor. Não importa: ele é um de nós, diziam, e seu pai é o carpinteiro - Nonne hic est faber, filius Mariae, frater Jacobi? nonne et sorores ejus hic vobiscum sunt? (Mc. 6,3).

Tão verdade é que num meio restrito toda a superioridade granjeia inimigos e se choca com a malquerença - Omnes qui pie volunt vivere in Christo Jesus, persecutionem patientur (II Tim. 3,12).

A esta razão de ordem natural vem reunir-se uma razão mais elevada, tirada do plano divino: O plano divino exigia que Vos distinguísseis o menos possível do comum, para melhor salvaguardar a liberdade humana. Quereis atrair tudo a Vós, porém, mais pela santidade de Vossa doutrina, do que pela beleza e encanto de Vossa pessoa - Et cum elevatus fuero omnia trahan ad me ipsum (Jo)

Para atingir este alvo, Deus, de um lado, lança uma espécie de véu sobre as Vossas belezas divinas; e de outro, retinha cativos os olhos daqueles que não deviam reconhecer-Vos - Oculos habent et non videbunt

Ó Jesus, não se dará comigo o mesmo que se deu com aqueles que Vos cercavam durante a Vossa vida mortal?... O que eles contemplavam diariamente acabou por não mais os comover... O que eu leio, o que eu contemplo de Vossas belezas divinas, não acabou também por me deixar indiferente?

Será possível, ó Jesus, que Vossa beleza divina se apague em meu espírito?... Sob a luz de Vossa beleza, como a vida seria doce e pura!... Oh! eu quero desconfiar do enfado dos sentimentos que o hábito traz consigo... Em minhas contemplações, quero preservar-me dele, gravando fortemente em meu espírito a imagem que os prelúdios indicam e que deve acompanhar-me durante todo o tempo do exercício!

Virgem santa e pura, Vós que Vos comprazeis tanto em contemplar a Jesus, conservai-me perto d'Ele... e que Ele triunfe em mim pelo encanto de Sua beleza!...

(Contemplações evangélicas, doutrinais e morais sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. Júlio Maria, missionário de N.ª S.ª do SS. Sacramento)

PS: Mantenho os grifos do autor.

O amor ao dever

A importância da formação do coração
Parte IV

O amor ao dever

Que é preciso fazer para sugerir às crianças o amor ao dever?
- É preciso ensinar-lhes exatamente o que é o dever.

- É preciso apresentar-lhes o dever como uma coisa séria, prática, definitiva e sagrada.

- É preciso dar-lhes, acerca do dever, uma idéia amável.

- É preciso infundir-lhes a noção e a estima do dever até à medula e ao sangue.

Que é então o dever e como se devem instruir nele as crianças?
Dir-se-á às crianças:

- Que o dever não está subordinado à impressão, ao prazer ou ao interesse; que se não identifica como o saber viver.

- Que o dever é aquilo que se impõe à consciência onde quer que se esteja; é o que elas devem fazer para agradar a Deus na situação em que se encontram, é, numa palavra, a vontade de Deus.

Como se podem habituar as crianças a considerar o dever como uma coisa séria?
Atribuindo-lhes a máxima importância, encarando-o não só pelo seu  enunciado, mas também por tudo o que se lhe correlacione, lhe diga respeito, e o traduza ou o represente: os professores e o modo como estes se exprimem, os pregadores e a natureza das suas predicas, as lições e as suas finalidades, etc.

Como se podem habituar as crianças a considerar o dever como uma coisa prática?
Obrigando-os a cumprir, todas as vezes, o que se lhes dá a conhecer...

Como se podem habituar as crianças a considerar o dever como uma coisa definitiva?
Apresentando-o às crianças sempre sob um aspecto imutável, independente das necessidades, do humor e do capricho.

No entanto, em quantos lares se ouvem ordens contraditórias que se sucedem quase sem interrupção:

- Por que é que não vais brincar?
E a seguir:
- Tu fazes muito barulho.

Ou então:

- Tu comes muito!
E seguidamente:
- Vamos! mais este pastelinho...

Como se podem habituar as crianças a considerar o dever como uma coisa sagrada?
- Dando-lhes sempre, nas suas palavras e ações, a prioridade dos interesses, nos gostos, nos afetos, no repouso e até na vida;

- Habituando as crianças a comportarem-se da mesma maneira, a perguntarem sempre a si mesmas: que devo eu fazer? e nunca: que é que eu gosto de fazer? que interesse tenho eu em fazer? etc.

- Exercitando-as no cumprimento do seu dever, porque é o dever, isto é, a vontade de Deus.

Como proceder para dar, do dever, uma idéia amável?
- É preciso cumpri-lo e obrigar a cumpri-lo francamente e com decisão.

- É preciso cumpri-lo e obrigar a cumpri-lo com generosidade, sem temor de ultrapassar os estritos limites.

- É preciso cumpri-lo e obrigar a cumpri-lo alegremente.

Para longe esses suspiros resignados em face do dever... "Não há remédios"!... "Ah! se eu pudesse fazer i que eu desejo"!...

Para longe esse mau humor que acompanha o tempo do trabalho e essa alegria expansiva que se sente apenas nos dias de repouso.

Não! Não!

Os dias em que há mais que fazer, os dias em que se exige mais esforço às crianças, devem ser marcadas por um aumento de alegria familiar. Assim o quer o Evangelho, quando recomenda que se abracem com alegria as obrigações custosas da penitência: Unge caput tuum et faciem tuam lava: Perfuma a tua cabeça e lava o teu rosto. (Mat. VI, 17)

Como se pode infundir a estima do dever "até a medula" e ao sangue das crianças?
- Mostrando-lhes as vantagens que derivam do cumprimento do dever.
- Incitando-as a cumprir sempre o dever.

Quais são as vantagens que resultam do cumprimento do dever?
- A alegria da consciência. - "Se soubésseis como se é feliz todas as vezes que, volvendo os olhos para o interior da nossa alma, aí se encontra o sorriso e se ouve a voz amada da consciência a dizer-nos: Cumpriste o teu dever!"
(Palhetas de ouro, 1ª série, 135)

- A segurança.- "O dever cumprido é um travesseiro sobre o qual se repousa sem inquietação, esperando, com o sorriso nos lábios, a recompensa prometida aos servos fiéis."
(Palhetas de ouro, 1ª série, 135)

- A santificação. - "O dever é o martelo que deita abaixo o que em nós há de terrestre e nos ajuda a fazer brilhar os dons celestiais que Deus nos concedeu. O dever é a barreira, talvez incômoda e embaraçosa para a fantasia, mas que nos impede de nos afastarmos para longe do caminho da virtude. Um santo pode definir-se: uma alma que cumpre perfeitamente o seu dever."
(Palhetas de ouro, 5º série, 43-44-45)

- O próprio bem-estar físico. - "O ar que se respira é mais suave, as plantas são mais perfumadas, o pequeno quarto onde se trabalha é mais ameno, o próprio trabalho tona-se mais fácil, a vida é mais bela. É um oásis que derrama sombra por todos os caminhos, fontes por entre os areais, vozes misteriosas e animadoras por todas as solidões."
(Palhetas de ouro, 5º série, 43-44-45)

- A benevolência para com os outros. - "O dever cumprido dá, para com os outros, essa bondade misericordiosa que se espalha como uma doce atmosfera, e atrai as almas. O dever é a pedra dura e rugosa que pule as asperezas do caráter e as substitui por uma disposição cheia de benevolência e de caridade."
(Palhetas de ouro, 5º série, 43-44-45)

É preciso então cumprir sempre o nosso dever?
Sim, sempre.


- Mesmo quando não agrada.
Aquele que cumpre o seu dever nunca está só; tem sempre em si, consigo e perto de si, Deus; Deus, testemunha dos seus esforços, Deus sustentáculo da sua fraqueza, Deus recompensa de sua generosidade.

- Mesmo quando possa ter conseqüências humanamente lamentáveis.

Faz o que deves, suceda o que suceder, diz um provérbio familiar a nossos pais. É preciso cumprir sempre o dever ainda que à custa da nossa vida, dizia Pe. Deroulède. Um velho cavaleiro, o conde Gruyère, partindo para a cruzada de Godofredo de Bulhão, bradava a seus companheiros este grito dos bravos: "Avante! Trata-se de chegar lá, volte quem voltar!" (R.Razin, A doce França, Não temais.)

"Conheço o meu dever, cumpre-me segui-lo;
não quero ponderar se perderei a vida."
(Racine, Bérénice, II, 2)

(Excertos do livro: Catecismo da educação, do Abade René de Bethléem, continua com o post: O coração deve ser desinteressado)

PS: Grifos meus.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Algumas igrejas


IGREJA SÃO FRANCISCO

CATEDRAL DE URUGUAIANA

CATEDRAL DE VITÓRIA

IGREJA DE SÃO FRANCISCO II

IGREJA PARAITINGA

Do mundo

Do mundo


(Manual das almas interiores,
do Pe. Grou
Companhia de Jesus, edição de 1932)

Que é o mundo? E que deve ele ser para o cristão? Duas questões bem interessantes para todos quantos desejam pertencer inteiramente a Deus e assegurar a salvação.

Que é o mundo? É o inimigo de Jesus Cristo, o inimigo do Evangelho. É esse conjunto de pessoas que, presas às coisas sensíveis, fazendo consistir nelas a felicidade, têm horror aos sofrimentos, à pobreza, as humilhações e consideram estas e aqueles, como verdadeiros males de que cumpre fugir e contra os quais de deve estar garantido, custe o que custar; que, em contraposição ligam o maior apreço aos prazeres, as riquezas e as honrarias; reputam umas e outras, verdadeiros bens; os desejam e buscam portanto, com ardor extremo e sem escolherem os meios; os disputam, invejam e arrebatam uns e outros; só se estima ou desprezam-se mutuamente, na medida em que os possuem; em suma, fundam na aquisição e no gozo desses bens todos os seus princípios toda a sua moral, todo o plano de sua conduta.

O espírito do mundo é, pois, evidentemente oposto ao espírito de Jesus Cristo e do Evangelho. Jesus Cristo, na oração por Seus eleitos, declara não orar pelo mundo; anuncia, aos Apóstolos e, nas pessoas destes, a todos os cristãos, que o mundo os há de odiar e perseguir, como a Ele próprio odiou e perseguiu. Quer que a seu turno façam eles contínua guerra ao mundo.

Nos primeiros séculos da Igreja, quando quase todos os cristãos eram santos e a parte restante da humanidade achava-se abismada na idolatria, fácil tornava-se discernir o mundo, conhecer a gente que se podia freqüentar e a que se devia evitar.

O mundo, então desencadeado contra Jesus Cristo, distinguia-se por sinais inequívocos. Depois que nações inteiras abraçaram o Evangelho e o relaxamento se introduziu entre os cristãos, formou-se pouco a pouco no meio deles um mundo no qual reinam todos os vícios da idolatria, um mundo ávido de honras, prazeres e riquezas, um mundo cujas máximas combatem diretamente as máximas de Jesus Cristo.

Mas, como esse mundo professa exteriormente o cristianismo, hoje é mais difícil discerni-lo. A sua freqüentação também se tornou mais perigosa porque ele disfarça sua má doutrina com mais habilidade, propaga-a com mais tento, emprega toda a sua sutileza para conciliá-la com a doutrina cristã e, nesse intuito, enfraquece, suaviza tanto quanto pode o santo rigor do Evangelho escondendo cuidadosamente, por outro lado, todo o veneno da sua moral.

Daí um perigo de sedução tanto maior porquanto não se percebe e contra ele não se está em guarda; daí certo espírito de transigência e adaptação, pelo qual procura-se conciliar a severidade cristã com as máximas do século sobre a ambição, a cobiça, o gozo dos prazeres; acordo impossível, condescendências ou atenuações que tendem a lisonjear a natureza, alterar a santidade cristã e formar consciências falsas. É incrível a que ponto chega o desconcerto, mesmo entre pessoas que se prezam de ser piedosas e devotas: desvario num sentido mais difícil de reprimir do que o resultante de uma conduta abertamente mundana e criminosa, porque não querem reconhecê-lo e a seu respeito se iludem.

Se quisermos viver nesta terra sem participar da corrupção do século, só temos um partido a tomar, o de rompermos absolutamente com o mundo pelo coração e entrarmos a sentir com São Paulo, quando exclamava: O mundo está crucificado para mim, e eu estou crucificado para o mundo.

Oh! que belas palavras, e quão profundo o sentido que encerram!
A cruz era outrora o suplício mais infame, o suplício dos escravos.

Dizendo o Apóstolo que o mundo está crucificado para ele, é como dissesse: Tenho pelo mundo o mesmo desprezo, a mesma aversão, o mesmo horror que por um vil escravo crucificado pelos seus crimes: não posso suportar-lhe a vista, ele é para mim objeto de maldição, com o qual toda ligação em todo trato e toda relação me são interditos.

Nada de exagerado tem, ao invés, apenas justo e legítimo é esse sentimento de São Paulo, que deve ser o de todo cristão e a razão é evidente: o mundo crucificou Jesus Cristo, depois de havê-lO caluniado, insultado, ultrajado; crucifica-O ainda todos os dias: é, pois, justo que o mundo, por sua vez, esteja crucificado para o discípulo de Jesus Cristo; é justo ter o discípulo horror ao inimigo capital do Mestre, do seu Salvador, do seu Deus. Assim a renúncia ao mundo é uma das promessas mais solenes do batismo, uma condição essencial, sem a qual a Igreja não nos teria admitido entre seus filhos.

Pensamos nessa promessa?
Pensamos nas obrigações que ela acarreta?
Examinamos até onde deve chegar a nossa renúncia?

A renúncia do cristão a respeito do mundo deve ir tão longe quanto a renúncia do mundo a respeito de Jesus Cristo.

Esta regra é clara e em face da sua precisão fora impossível nos enganarmos. Só nos resta aplicá-la em toda a extensão. O mundo tem o seu evangelho: só temos que tomá-lo numa das mãos e o Evangelho de Jesus Cristo na outra; só temos que comparar, sobre os mesmos objetos, a doutrina e os exemplos de um e de outro,  só temos que opor Jesus Cristo na Cruz, no sofrimento, no opróbrio e na nudez, ao mundo cercado e embriagado de honras, riquezas e prazeres, e dizer a nós mesmos: A quem desejo pertencer?

Eis aí dois inimigos irreconciliáveis, fazendo-se reciprocamente a guerra mais cruel. A favor de qual deles desejo declarar-me? É me impossível ficar neutro, ou tomar o partido de ambos. Se escolho Jesus Cristo e a Sua Cruz, o mundo me reprova; se me prendo ao mundo e às suas pompas, Jesus Cristo me rejeita e condena: poderei hesitar? É cristão aquele que hesita sequer um instante?

Mas, se uma vez nos alistamos sob o estandarte da Cruz, não é evidente que desde esse momento o mundo se torna inimigo com o qual não há mais a fazer pazes nem lhe dar tréguas?

Como isso vai longe, ainda uma vez! e como os cristãos seriam santos se da grandeza de seus compromissos bem se compenetrassem.

Não basta estar o mundo crucificado para nós, é preciso que consintamos estar também crucificados para o mundo, isto é, que o mundo nos crucifique como crucificou a Jesus Cristo; nos guerreie do mesmo modo que guerreou a Jesus Cristo; nos persiga, calunie e ultraje com igual furor; nos arrebate, finalmente, os bens, a honra, a própria vida.

É mister não só consentirmos em todos esses sacrifícios de preferência a renunciarmos à santidade cristã, mas também fazer disso motivo de alegria e triunfo. O discípulo deve gloriar-se de ser tratado como o Mestre: Se eles me perseguiram, dizia Jesus Cristo a Seus Apóstolos, também vos perseguirão: é coisa infalível. O mundo não seria o que é, ou os cristãos não seriam o que devem ser, se escapassem à perseguição do mundo.

Procuramos muitas vezes certificar-nos do nosso estado; quiséramos saber se somos agradáveis a Deus, se Jesus Cristo nos reconhece como pertencentes a Ele. Eis um meio bem próprio para esclarecer-nos e dissipar todas as nossas inquietações: indaguemos se o mundo nos estima e considera, se fala bem de nós e nos procura. Neste caso não pertencermos a Jesus Cristo. Pelo contrário, se ele nos censura e ridiculariza, se nos calunia foge de nós, nos despreza e odeia, oh! que grande motivo de consolação, oh! que poderosa razão para crermos que pertencemos a Jesus Cristo!

Vejamos, pois, seriamente diante de Deus, o que o mundo é para nós e o que somos para o mundo. Sondemos as nossas disposições interiores, estudemos os sentimentos mais profundos do nosso coração: acharemos por certo, motivo para nossa confusão e humilhação; verificaremos haverem as máximas do mundo deixado profundos vestígios em nosso espírito e que em muitas circunstâncias delicadas os nossos juízo se aproximam ainda dos seus; verificaremos que somos ciosos de sua estima e temeremos seus desprezos; que gostamos de cultivar e entreter certas relações e veríamos com desprazer os outros afastarem-se de nós; que temos, em várias ocasiões, condescendências, atenções, respeitos humanos que nos incomodam peiam e conservam numa espécie de constrangimento e dissimulação. Veremos, numa palavra, que não somos bem claramente a favor de Jesus Cristo e contra o mundo.

Mas não desanimemos: triunfar plenamente do mundo, afrontá-lo, desprezá-lo, achar bom que por sua vez ele nos afronte e despreze, não é obra de um momento. Exerçamo-nos nas pequenas ocasiões que se apresentam: se Deus nos ama, jamais deixará de no-las proporcionar e pelas pequenas vitórias reparemo-nos aos grandes combates. Lembremo-nos, sendo preciso, das palavras de Jesus Cristo: Tende confiança, eu venci o mundo. Supliquemo-Lhe que nos ajude a vencer, ou antes, que Ele mesmo vença em nós o mundo e destrua em nossos corações o reino deste para aí estabelecer o Seu.

(Manual das almas interiores, do Pe. Grou - Companhia de Jesus, edição de 1932)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

São poucos os que amam a Cruz de Jesus Cristo

Livro II - Capítulo XI
(Imitação de Cristo)


São poucos os que amam a Cruz de Jesus Cristo

1. Tem Jesus muitos que amam Seu Reino celeste, poucos que carreguem a Sua cruz; muitos desejam as Suas consolações, poucos, os Seus sofrimentos; muitos são os companheiros de Sua mesa, poucos, de Sua abstinência. Todos almejam gozar com Ele, poucos querem sofrer algo por Seu amor. Muitos acompanham Jesus até ao partir do pão, poucos até ao beber do cálice de Sua paixão. Muitos admiram os Seus milagres, poucos abraçam a ignomínia da cruz. Muitos amam a Jesus enquanto não lhes bate à porta a adversidade; louvam-nO e bendizem-nO enquanto d'Ele recebem consolações. Se Jesus, porém, Se esconde ou deles se afasta por algum tempo entram logo a queixar-se e a cair em excessivo desalento.

2. Os que amam a Jesus por Jesus e não pela própria satisfação bendizem-nO tanto nas tribulações e angústias como nas maiores consolações. E ainda quando os não quisesse consolar nunca, eles O louvariam sempre e sempre Lhe dariam graças.

3. Oh! quanto pode o amor de Jesus quando puro e sem mescla de interesse ou de amor próprio! Não merecem porventura o nome de mercenários os que andam sempre à busca de consolações? Não dão provas de amar mais a si que a Cristo os que não pensam senão em seus cômodos e interesses? Onde se encontrará quem queira servir a Deus gratuitamente?

4. É raro encontrar uma alma tão adiantada na vida espiritual que esteja desapegada de tudo. O verdadeiro pobre de espírito, desprendido de todas as criaturas, quem o achará? “Tesouro precioso que debalde se buscaria até às extremidades da terra” (Prov. XXXI, 10). Se o homem abrir mão de toda a sua fortuna, isso é nada. Se fizer grande penitência ainda é pouco. Se adquirir todas as ciências, ainda está longe. Se tiver grandes virtudes e piedade fervorosa, muito ainda lhe falta; falta-lhe a coisa mais necessária. Qual? Que, tendo deixado tudo, deixe a si mesmo e saia totalmente de si, sem nenhuma reserva de amor próprio; e tendo cumprido o que julga se seu dever, sinta que nada fez.

5. Não tenha em muita conta o que por grande poderiam estimar os homens, mas com sinceridade se confesse servo inútil, conforme a palavra da Verdade: “quando fizerdes tudo o que vos foi mandado dizei: servos inúteis somos.” (Luc. XVII, 10). Poderá ser então verdadeiramente pobre de espírito e desapegado de tudo, dizer com o Profeta: “sou pobre e só no mundo” (Sl XXIV, 16). Ninguém, todavia, é mais rico, mais poderoso, mais livre do que aquele que soube deixar a si mesmo e a todas as coisas e colocar-se no último lugar.

Terço em favor das almas do purgatório

Terço em favor das almas do purgatório


Início: O sinal da cruz
Oferecimento:

Meu Deus, pelo dulcíssimo Coração de Maria, eu vos ofereço todas as indulgências que puder ganhar, e rogo-vos que as apliques às almas ( ou à alma de....) do Purgatório. Amém.

Reza-se, dizendo em cada conta do terço comum as duas orações seguintes, que são ao mesmo tempo as mais curtas e as mais indulgenciadas.

I ) Nas contas grandes recitam-se os atos de Fé, Esperança e Caridade com as seguintes fórmulas:

Creio em Vós, Senhor, porque sois a verdade eterna.
Espero em Vós, Senhor, porque sois a fidelidade suprema.
Amo-vos, Senhor, porque sois a bondade infinita.

II ) Nas contas pequenas, reza-se a invocação:

Doce Coração de Maria, sede nossa salvação.

O Sumo Pontífice Bento XIV e Pio IX concederam muitas indulgências para essa devoção:

- Uma indulgência parcial cada vez que os recita.
- Uma indulgência plenária cada mês, quando os tem rezado ao menos uma vez por dia.
- Uma indulgência plenária em artigo de morte, quando os tem rezado muitas vezes durante a vida.

(Para lucrar a indulgência plenária requer o cumprimento das três condições: confissão sacramental, comunhão eucarística e a oração em intenção ao Papa)

Poucos minutos bastam para rezar esse terço, e pode-se ganhar cada vez pelas almas do purgatório muitas indulgências.

(Livro : Sulfrágio, Editora da Divina Misericórdia)

Oração a São José consagrando-lhe o trabalho

Oração a São José consagrando-lhe o trabalho
(Composta pelo Papa São Pio X)


Glorioso São José, modelo de todos os que se dedicam ao trabalho, obtende-me a graça de trabalhar com espírito de penitência para expiação de meus numerosos pecados; de trabalhar com consciência, pondo o culto do dever acima de minhas inclinações; de trabalhar com recolhimento, alegria, olhando como uma honra empregar e desenvolver pelo trabalho os dons recebidos de Deus; de trabalhar com ordem, paz, moderação e paciência, sem nunca recuar perante o cansaço e as dificuldades; de trabalhar sobretudo com pureza de intenção e com desapego de mim mesmo, tendo sempre diante dos olhos a morte e a conta que deverei dar do tempo perdido, dos talentos inutilizados, do bem omitido e da vã complacência nos sucessos, tão funesta à obra de Deus!

Tudo por Jesus, tudo por Maria, tudo à vossa imitação, oh Patriarca São José.
Tal será minha divisa na vida e na morte.

Amém.

NOVENA DA GRAÇA A SÃO FRANCISCO XAVIER

NOVENA DA GRAÇA A SÃO FRANCISCO XAVIER


Origem da Novena

São Francisco Xavier, aparecendo ao Padre Marcelo Mastrilli, SJ, que estava agonizante, em Nápoles, curou-o milagrosamente e prometeu-lhe que todos os que fizessem, em sua honra, uma Novena, começando no dia 04 de Março e acabando no dia 12, aniversário da sua Canonização, e recebessem dignamente os Santos Sacramentos, num dos nove dias, podiam esperar, com confiança, que alcançariam, por sua intercessão, a graça que pedissem.

ORAÇÃO

Ó amabilíssimo e amantíssimo São Francisco Xavier, adoro respeitosamente convosco a Majestade Divina e lhe dou fervorosas ações de graças pelos dons singulares com que Vos favoreceu durante a vossa vida, e pela grande glória a que Vos elevou depois da vossa morte. Peço-Vos, com todo o ardor da minha alma, que me alcanceis, pela vossa poderosa intercessão, a importantíssima graça de uma santa vida e santa morte, como também a graça particular (designar a graça que se deseja). E, se o que eu peço não é segundo a glória de Deus e o maior bem da minha alma, alcançai-me o que mais for conforme com uma e outra coisa. Amém.
Pai Nosso, Ave Maria e Glória.

(Aos que fizerem esta Novena em particular ou a ela assistirem em público é concedida a Indulgência de 3 anos, recitando a dita oração, composta pelo mesmo Venerável Padre Mastrilli – martirizado no Japão em 1637 – ou, se a não tiverem, recitando 5 Pater, Ave e Glória, - e a Indulgência Plenária, nas condições costumadas, no fim do exercício).

Vida eucarística de Maria no Cenáculo

Vida eucarística de Maria no Cenáculo
(escritos e sermões de São Pedro Julião Eymard)



O amor pede mais que as homenagens assíduas da conversação e da presença. Pede comunhão de vida.

Maria, no Cenáculo, vivia da vida eucarística de Jesus. Assim como partilhava a vida de Seu Filho em todos os Seus ministros - pobre como Ele em Belém, escondida em Nazaré, perseguida durante a Sua vida evangélica, imolada na hora de Sua vida padecente - assim também devia, com maior razão, viver da vida eucarística do Salvador, fim e coroação de todas as outras.

Ora, a vida de Jesus no Santíssimo Sacramento é uma vida escondida, uma vida interior, vida sacrificada. Tal foi também a vida da Augusta Virgem durante os últimos vinte e quatro anos se Sua peregrinação terrena.

Vida escondida

Jesus leva uma vida escondida no Santíssimo Sacramento. Aí honra o silêncio e a solidão, as duas condições essenciais da vida em Deus. Aí está morto ao mundo, à glória, aos bens, aos prazeres do século. Sua vida é toda ressuscitada e toda celeste.

Tal a vida de Maria depois da Ascensão de Seu divino Filho. Retira-se para o Cenáculo, no monte Sião, e envolve-se na obscuridade e no esquecimento. Os santos evangelistas não repetirão mais Suas palavras admiráveis; não reproduzirão, para edificar nossa piedade, Suas ações santas, Suas virtudes tão puras; deixaram-na no Cenáculo, ao pé da adorável Eucaristia, no exercício habitual de adoração humilde e aniquilada.

Vivendo esse centro de Amor, está de agora em diante morta ao mundo com Seu divino Filho. A Hóstia Santa é-lhe todo o bem, toda a glória, toda a felicidade. Não está ela toda entregue ao Seu Jesus?

Tal também deve ser a vida dos adoradores, filhos de Maria. Devem estar mortos ao mundo profano e terreno; a vida ressuscitada de Jesus deve ser o princípio de sua vida sobrenatural; as espécies eucarísticas, silenciosas e solitárias, devem levá-los a fugir do mundo, a só ter com ele as relações impostas pelo seu estado e pelas conveniências sociais, e assim proporcionar às suas almas alguns momentos de liberdade e de paz para visitar o Deus oculto no Santíssimo Sacramento.

Pois em absorver de tal forma os homens pela vida exterior, pelas exigências tirânicas dos negócios terrenos, e não deixar um momento à alma e a Deus, está a escravidão do mundo e a tentação de Satanás. Ora, a primeira condição de vida cristã e eucarística é a liberdade espiritual, a isenção de toda servidão mundana; é saber dar à alma o repouso e o Pão de vida, sem os quais está condenada a morrer.

Vida interior

No Santíssimo, Jesus leva uma vida toda interior. Está perpétuamente a prestar a homenagem de Si mesmo ao Amor e à Graça do Pai, cujas perfeições Sua alma humana está sempre a contemplar.

Em Seu estado sacramental, Jesus continua as virtudes de aniquilamento de Sua vida mortal. Essa humildade levou-O a rebaixar-Se até tomar a forma de escravo. Aqui, humilha-Se até revestir as espécies de pão, une-Se a uma mera aparência de ser, atinge o derradeiro limite do nada.

Na Eucaristia, Jesus continua Sua pobreza. Do Céu só traz Sua Pessoa adorável, Seu amor, contando com a hospitalidade do homem, embora tendo a dum simples presépio, dele esperando os paramentos de Seu culto e a matéria de Seu Sacrifício.

Na Eucaristia, Jesus continua Sua obediência, que se torna maior, mais universal. Obedece a todos os sacerdotes, a todos os fiéis, até a Seus inimigos. Obedece dia e noite, obedece sempre. Não quer ter nem escolha, nem liberdade. O amor a tudo despreza.

Na Eucaristia, Jesus continua Sua vida de oração; mais ainda, a oração torna-se a única ocupação de Sua alma. Jesus contempla Seu Pai, contempla-Lhe a grandeza e a bondade; adora-O, pelo rebaixamento profundo que associa a Seu estado de glória; agradece-Lhe incessantemente os dons e os benefícios concedidos aos homens; pede continuamente para os pecadores a graça da misericórdia e da paciência divina; solicita a todo momento a caridade do Pai celeste em favor daqueles que foram remidos pela Sua Cruz.

Tal a vida contemplativa de Jesus. Tal também a vida de Maria. Ela honra em Si mesma as virtudes humildes de Jesus; fá-las reviver numa perfeita imitação. Com Deus escondido, quisera ser uma mera aparência humana, toda mundana, toda transformada na vida de Jesus.

Maria é pobre, tão pobre quanto Jesus no Sacramento do Altar; mais pobre ainda, já que pode sentir de fato as necessidades e privações da santa pobreza.

Vive de obediência, não somente em relação aos Apóstolos, mas até a os últimos ministros da Igreja e da sociedade. É simples, doce na obediência, e alegra-se de poder obedecer como Jesus!

Mas a vida interior de Maria reside principalmente no amor que tem ao Seu divino Filho, partilhando com Ele todos os Seus pensamentos, todos os Seus sentimentos, todos os Seus desejos. Ela nunca perdia a lembrança da Presença de Jesus; unia-Se incessantemente à Sua oração e às suas adorações; vivia n'Ele e para Ele, recolhida na contemplação ininterrupta de Sua Divindade e de Sua santa Humanidade, toda submissa, toda entregue à influência de Sua graça.

Que o agregado imite com Maria as virtudes interiores de Jesus no Santíssimo Sacramento e se aplique com constância e paciência à prática da virtude do recolhimento, ao exercício da contemplação de Jesus, pelo silêncio, pelo esquecimento das criaturas, pelos atos de união, fervorosa e repetidos.

Ditosa a alma que compreende essa vida de amor, que a deseja, que a pede sem descanso, que nela se exercita sem cessar! Tal alma já conquistou o reino de Deus em si.

Vida sacrificada

Maria adorava Seu querido Filho nesse novo Calvário onde Seu amor o crucificava e apresentava-O a Deus pela salvação de Sua nova família. A lembrança de Jesus na Cruz, com Suas Chagas abertas, renova-Lhe na alma o martírio de Sua compaixão. Parecia-Lhe estar a ver, na Santa Missa, o Seu Jesus Crucificado, derramando o Seu sangue com efusão, por entre as dores e os opróbrios, abandonado dos homens e de Seu Pai, e morrendo no ato supremo de Seu amor.

Depois de adorar, na Consagração, o Seu Filho presente sobre o Altar, Maria vertia lágrimas abundantes sobre o seu estado de vítima, à vista sobretudo dos homens, que, não fazendo caso do augusto Sacrifício, tornavam estéril, para suas almas, este Mistério da Redenção; à vista ainda daqueles que ousavam ofender, desprezar esta Vítima adorável, ofertada sob seus olhos e para sua própria salvação.

Maria, teria querido sofrer mil mortes a fim de reparar tamanhos ultrajes, pois os desgraçados que se tornavam réus eram Seus filhos, aqueles que Jesus Lhe confiava.

Pobre Mãe! Não Lhe bastou, porventura, o Calvário? Por que renovar diariamente Suas dores e ferir-Lhe o coração com esses novos gládios de impiedade? Todavia, como a melhor das mães, em vez de repelir, de amaldiçoar os pecadores, Maria tomava sobre Si, com Jesus, a dívida de seus crimes e expiava-os pela penitência; constituía-se vítima aos pés do altar, implorando graça e misericórdia pelos filhos culpados.

À vista de Sua santa Mãe imolando-Se com Ele, Jesus Se consolava do abandono dos homens e então prezava os sacrifícios que tanto Lhe custaram, preferindo esse Seu estado de aniquilamento e de opróbrio à Sua glória. Maria O compensava de tudo, e Seu amor encontrava indizível satisfação em acolher Sua oração e Suas lágrimas, derramadas pela salvação do mundo.

Que os adoradores saibam, pois, unir-se com Maria ao Sacríficio de Jesus, a fim de serem eles mesmos uma consolação para a Augusta Vítima. Que o sofrimento voluntário, abraçado por amor, tenha um lugar em sua vida; que se tornem salvadores com Jesus, completando em si mesmos aquilo que faltou à Sua Paixão eucarística.

(A Divina Eucaristia, escritos e sermões de São Pedro Julião Eymard)

PS: Grifos meus

quinta-feira, 17 de junho de 2010

XV. A IMOBILIDADE E A ESCURIDÃO

XV. A IMOBILIDADE E A ESCURIDÃO


Havia que chegar a isto. Todo o fatal progresso da Paixão do Cristo tende a privá-lO gradualmente da Sua liberdade, para Lhe comprar a cada privação um sofrimento novo, até que o derradeiro esforço desse trabalho superior da Justiça de Deus consiga imobilizá-lO na dor.

Primeiro os laços, depois a entrega entre as mãos de soldados debochados, depois a privação da vista no corpo da guarda, o amortecimento das forças e a exaustão que a marcha acarreta e, finalmente... os cravos que O fincam na Cruz: é a tremenda imobilidade! A simples reflexão pode nos dar uma idéia deste último instrumento de suplício. Estar preso, fixado por quatro Chagas a se alargarem de minuto em minuto a um sofrimento a que não se pode escapar!

O menor movimento não faria, aliás, senão aumentar esse sofrimento. E três horas durou esse tormento assombroso! O doente preso de dor revolve-se penosamente no leito; tem necessidade desse movimento que, se não lho suprime, muda-lhe ao menos o sofrimento: descansa de um pelo outro. Na Cruz, porém, nenhum descanso a esperar a não ser numa morte que só há de vir lentamente. Mais uma vez: era preciso. O homem, pecando, abusa da sua liberdade: o castigo correspondente à sua culpa devia ser a privação dessa liberdade. O Filho do Homem, que expia por toda a humanidade, será, pois, conseqüentemente com o Seu papel de Vítima expiatória, privado de toda a liberdade.

Está feito, e é sobretudo nesse exato momento que Ele salva os pecadores. Gritam-Lhe galhofando: “Desce agora, se podes”. Já não pode. Está cravado. As almas que se queixam de estar presas à mesma cruz, pesada, esmagadora, sem esperança de a poder largar neste mundo, devem vir ao pé desta Cruz de Jesus.
Eu venho, meu Deus, e ante a Vossa imóvel atitude, ante esses cravos que Vos fincam ao dever sangrento da Redenção, eu nem sequer em desejo procurarei despregar-me de uma cruz que em alguns pontos quisestes tornar semelhante à Vossa.

Quando os algozes levantaram assim ao alto, como um troféu, a Sua Vítima sangrenta, passaram aos dois ladrões. Não tardou que se completasse o espetáculo: as três cruzes se alçaram no cume do Gólgota. Nesse momento o campo foi deixado livre à multidão. Houve um ímpeto em direção ao Cristo pendurado no meio. Si exaltatus fuero, omnia traham ad meipsum. “Quando eu for levantado, atrairei tudo a Mim” (Jo 12, 32). Por enquanto o ímpeto é de ódio: amanhã – que digo? – daí há pouco, transformar-se-á num ímpeto de amor cujas vastas ondas virão até o fim dos tempos bater naquele rochedo e naquela Cruz divina.

Podemos supor os soldados a conterem com dificuldade a populaça que se atira ao espetáculo daqueles três supliciados. Podemos crer também que o grupo das santas mulheres se tenha deixado de bom grado arrastar pela corrente, pois eis que elas estão mais perto da montanha. O Cristo, a Quem o Sangue tolhe a vista, vislumbra-as ao longe. Mas esta visão, que O teria aliviado, é ofuscada pela multidão que circula sussurrante, qual enxame malfazejo, em torno aos três patíbulos. Circumdederunt me sicut apes. Rodearam-me semelhantes a uma nuvem de abelhas irritadas. E todas as injúrias que sobem até Ele crepitam como o fogo que arde através das sarças e dos espinhos. Exarserunt sicut ignis in spinis (Sl 117, 12).

Há nesse crepitar de ódio uma covardia cruel, dado que a Vítima está imobilizada e que a morte que a vai colher bem devia bastar a cevar todas as cóleras.

Aqueles que são realmente crucificados com Jesus têm que passar por essas contradições das línguas; o mundo não cessará de falar sobre o que vê e de julgar o que não conhece; é por isto que ele é fundamentalmente injusto. Os eleitos se consolam no testemunho único da sua consciência que será a base do último julgamento de Deus.

Quem entretanto se sente bastante forte contra esse enxame de línguas maldizentes? Senhor, exclamava Davi perseguido por seus inimigos, muta fiant lábia dolosa, emudecei essas bocas peçonhentas e protegei os Vossos servos dessas contradições turbadoras das línguas inimigas, protege nos a contradictione linguarum (Sl 30, 31).

A minha fraqueza Vos dirige a mesma súplica, ó Jesus; mas, quando eu me acerco da Vossa Cruz, onde como num alvo único cospem todas as bocas as suas blasfêmias, o meu amor susta-me nos lábios o anelo da minha fraqueza e diz-Vos tremendo, porém, suplicando-Vos:

- Tomarei também eu o cálice do meu Senhor, tomá-lo-ei, bebê-lo-ei... Nas Suas Mãos estão as tempestades e as borrascas da minha vida... Tomarei o cálice do meu Senhor, o mesmo, quero nele beber, e invocarei o Seu Nome como o meu melhor sustentáculo.

In manibus tuis sortes meae (Sl 30, 16).

Calicem salutaris accipiam et nomem Domini invocabo (Sl 111, 13).

A partir do momento em que a Cruz de Jesus fôra erguida, o céu se havia progressivamente toldado, o sol parecia velar o seu disco luminoso. Entregue inteiramente ao espetáculo que aguardava, a multidão não deve ter prestado grande atenção a esse fenômeno. A pouco e pouco, porém, o céu se enchia de sombras crescentes, e logo trevas espessas cobriam o Calvário, os jardins, a cidade de Jerusalém, e, diz-nos o Evangelista, estenderam-se pela terra inteira.

Aquela noite esquisita, caindo assim subitamente e subtraindo à vista a Vítima divina, lançou a inquietação nas filas da multidão. As vozes que blasfemava calaram-se pouco a pouco. Os soldados que montavam guarda aos supliciados quase não os viam: admiraram-se. Além de que aquilo lhes atrapalhava a partida de dados...

Em breve não houve naquele cume desolado mais que sombras a circularem medrosas, falando-se baixo. Foi favorecidas por essas trevas que as santas mulheres se insinuaram até ao pé da Cruz. Ninguém lhes tolheu o passo. Elas subiram ao alto e se conservaram de pé muito perto dos patíbulos; Madalena, Maria de Cléofas, algumas outras mais e, na primeira fila, Maria, a Mãe de Jesus: um só discípulo, João, o predileto.

Jesus, através da noite que O oprime, já os distinguiu. Fita-os longamente, é para Ele um consolo supremo, e ao mesmo tempo um como doloroso instrumento de suplício, pois é a renovação do encontro de ainda há pouco; pois é também a renovação da ferida que Lhe fez o abandono dos Seus, visto que, dos Apóstolos, apenas João lá está, sozinho, fiel, ao pé da Cruz. Fita e cala-se. Este silêncio de Jesus entre as Suas três primeiras palavras, antes das trevas, e as quatro últimas, antes da morte, durou cerca de três horas. Três horas de silêncio imóvel e de escuridão! É mister sentir esta derradeira angústia, ficar ao pé da Cruz nessa escuridão, escutar esse silêncio e imitá-lo.

Porque também, todos os instrumentos de suplício estão esgotados, só resta a morte a esperar. Cada qual veio à sua hora bater e dilacerar aquele Corpo. Sob os Seus golpes sabiamente dirigidos, mais sabiamente ainda renovados, porque no Calvário se acham compendiadas todas as dores já experimentadas, sob os seus golpes aquele Corpo divino, esticado no madeiro da Cruz, vai retumbar o hino da dor e também da vitória.

Mas, ó Senhor Jesus, resta-me penetrar mais dentro ainda no mar doloroso e profundo da Vossa Paixão. Depois do Vosso Corpo sagrado, é o Vosso Coração divino que eu quero ver, triturado, despedaçado, aberto, traspassado de lado a lado.

De joelhos, pois, no cimo do Calvário, ao pé da Vossa Cruz, durante aquelas três horas de silêncio e de escuridão, ouvindo só os surdos gemidos da Vossa oração e da Vossa agonia, ou o ruído abafado e irregular do Sangue que escorre em terra, eu vou tornar a subir essa onda de Sangue e de dor que Vos trouxe até aqui, para distinguir nele, cruelmente revolvido por essas águas dolorosas, o Vosso Coração! Esse Coração que me amou até querer extinguir-se por mim.

Ó vós todos que passais, parai pois um momento e vejamos juntos se há sofrimento que se possa comparar ao de Jesus na Cruz!

+ + +
(“A subida do Calvário”, do Pe. Louis Perroy, SJ - Fim da Primeira Parte)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.

A formação do coração - III Parte

A formação do coração
Parte III


2º - O amor dos pobres e dos criados

A criança será assaz amante, quando tenha sido criada no amor da família?
Não.

O seu coração deve alargar-se; a sua bondade nativa deve atingir outros objetos e exercer-se, muito especialmente, em relação às pessoas que facilmente consideraria como seres inferiores, se não estivesse bem formado: quero referir-se aos pobres e aos criados.

Como se deve despertar, na criança, a bondade para com os pobres?
Dando-lhe, muito cedo, aquilo que a Sagrada Escritura chama o cuidado do pobre: Beatus qui intelligit super egenum et pauperem (Ps. XLI)

Chegaria facilmente a criança, entregue a si mesma, a este cuidado afetuoso?
Não.

Apenas veria, no pobre, os farrapos mais ou menos sórdidos que o cobrem, e as feições descompostas; e facilmente a assaltaria a repugnância ou a tentação de escarnecer.

Que fará a mãe para dar à criança a inteligência cristã do pobre?
Bousset fala da sublime dignidade do pobre: é que, sob os farrapos da miséria, pode existir uma grandeza oculta. (Kieffer, ob. cit., 345)

Sim, há uma grandeza oculta: é a inteligência humana primeiramente; é a dos sofrimentos que suporta com coragem; é a do dever cumprido, talvez sem consolação; é a da vida sem seduções, porque não têm alegria nem esperança; é, sobretudo, a semelhança do pobre com Jesus Cristo.

A mãe revelará a seu filho esta grandeza e esta bondade, abrir-lhe-á a alma ao respeito de que esse pobre merece ser rodeado.

Os pais contentar-se-ão com estas considerações gerais?
Estabelecerão, à maneira de lições de coisas, uma comparação entre a situação da criança e a situação do pobre, e mais especialmente a situação duma certa criança pobre.

- Os pais esforçam-se por proporcionar a seu filho todo o conforto possível.

É natural e, geralmente, legítimo.

Mas, se eles querem criar o amor pelos pobres, não devem esquecer-se de fazer notar que estas vantagens nem a todos estão asseguradas; que muitos são privados delas e sê-lo-ão sempre, sem que, no entanto, tenham nisso alguma culpa; que era possível que ao próprio filho essas vantagens faltassem por completo, como é ainda possível que nem sempre as goze.

- Dir-lhe-ão que há crianças, como ele, que não tem vestuário, nem lar, nem carne, nem gulodices, nem mesmo pão; que esse pequenino pobre, a quem ele dá muitas vezes uma moeda, sem afeição, como se ele fora duma natureza totalmente diferente da sua, é, no entanto, um ser semelhante a ele; e estimaria, tanto ou mais do que ele, as doçuras e os prazeres que dão o bem-estar e a riqueza.

Estas revelações interessam-no.
Tornar-se-á grave.
Fará mais perguntas.

E no seu coração germinará um caule de flor tríplice: a alegria do benefício, a gratidão para com os benfeitores, e a bondade para com aqueles que têm necessidade.

Como se poderá despertar a bondade do coração para com os criados?
Avivando-lhe que "legal, moral e cristãmente, esses servidores, tendo deveres, não podem deixar de ter também direitos; que alienam a sua liberdade por necessidade; que se deve ser bom para com eles, porque são menos felizes"
(Nicolay, ob. cit., p. 5-6)


3º - O amor ao trabalho

A criança tem necessidade de ser educada no amor pelo trabalho?
Sim.

Porque a criança é mais ou menos preguiçosa. O trabalho, com efeito,  tem estado sempre, depois da queda, ligado a qualquer relutância ou esforço, e o homem procura instintivamente subtrair-se a ele. Por isso ninguém se deve admirar de encontrar nas crianças repugnância pela aplicação e pelo trabalho. Mas é de toda a necessidade triunfar dessa repugnância.

Como se educará a criança no amor pelo trabalho?
- Pela persuasão;
- Pelo atrativo;
- Pelo horror de perder o tempo.

Que considerações se podem aduzir para persuadir a criança da importância do trabalho?
Far-se-á compreender que o trabalho é uma obrigação, uma glória, um preservativo e uma fonte de bens.

Como se fará compreender à criança que o trabalho é uma obrigação?
Recordando-lhe e comentando estas palavras de São Paulo: "Se alguém não quer trabalhar, que também não coma." (II Tes., III, 10)

Como se fará compreender à criança que o trabalho é uma glória?
- Mostrando-lhe que, pelo trabalho, o homem se encontra, de algum modo, associado ao próprio poder do Criador.

- Dizendo-lhe como Mgr. Gibier: "É preciso que o trabalho seja uma coisa muito bela, para que Deus tivesse paixão por ele. É preciso que o suor que escorre da fronte do operário seja muito nobre, para que Jesus Cristo o tenha querido sentir na sua fronte"!
(Os nossos flagelos sociais, p.14)

- "É pelo trabalho que se reina"! dizia Luís XIV.

Quais são os males de que o trabalho nos preserva?
- A necessidade. Os homens, na grande maioria, são obrigados a trabalhar para ganhar a vida; e todos, sem exceção, devem submeter-se à lei do trabalho, se querem conservar a saúde: "A ociosidade é como a ferrugem, diz Franklim; estraga mais do que o trabalho; a chave que se usa está sempre limpa".

- O tédio, "o inexorável tédio, como lhe chama Bossuet, que existe no íntimo de toda a alma humana, depois que o homem perdeu o gosto divino" (Máximas e reflexões sobre a comédia) e ao qual ninguém pode escapar senão entregando-se ao trabalho, a um trabalho consciente e perseverante. Porque o "tédio entrou no mundo pela preguiça" (La Bruyére)

- O vício

"Imoralidade, incredulidade, preguiça, fazem um círculo, escreveu Joubert; o princípio está onde se quiser." (Pensamentos)

Ocupando a alma, o trabalho preserva-a dos "ensinamentos do mal que a ociosidade multiplica" (Eccli., XXXIII, 27). Deus confiou ao trabalho a missão que deu ao vento norte, a de purificar o coração, como o vento purifica a atmosfera.

Quais são os bens de que o trabalho é a fonte?
- A ciência. O trabalho dá ao operário, como ao homem de estudo, uma ciência útil e honrosa.
- A virtude. Santo Antônio, o patriarca do deserto, beijando as mãos de S.Macário, num ímpeto de admiração pelo trabalho que lhe haviam dado, dizia: "Eis umas mãos que têm muita virtude".

- A piedade. "O trabalho exerce uma influência salutar na observância da religião e reconduz os homens melhor do que os prazeres e a riqueza." (Le Play, reforma social, t.III)

Não é preciso também descansar?
Sim, evidentemente.

Mas o repouso é o estado acidental, que uma alma generosa considera humilhante por ele mesmo.

"Tendes necessidade duma casa, diz Bossuet, como duma defesa necessária contra as injúrias do tempo; isto é uma fraqueza. Tendes necessidade de alimento para reparar as vossas forças que se perdem; outra fraqueza. Tendes necessidade dum leito, quando estais fatigado e nele vos entregais ao sono, que prende e sepulta a vossa razão; mais uma fraqueza deplorável. E vós fazeis de todas estas provas, de todos estes testemunhos da vossa fraqueza, uma ostentação de vossa vaidade! Parece que quereis fazer alarde da miséria que vos cerca de todas as partes."
(Tratado da concupiscência)

Não se deve, portanto, repousar na medida estritamente necessária do descanso e da recuperação da energia vital.

Estas considerações serão sempre eficazes?
Facilmente, o serão, por uma parte, os pais tiverem bastante fé para transmitirem a convicção às palavras; e se, por outra parte, pais e filhos, acossados pela necessidade, forem compelidos para o caminho do trabalho pela obrigação cotidiana de ganhar a vida.

Não há uma dificuldade especial em conduzir pelo caminho do trabalho as crianças que sabem ser herdeiros duma grande fortuna?
Sim, e com muita freqüência. Mas também, que necessidade há de lhes fazer conhecer a situação de seus pais? Pai e mães: se s sois ricos, que vossos filhos o não saibam senão o mais tarde possível.

Quais são as razões que os filhos dos pais ricos estão em perigo de abraçar?
- Eles dizem a si mesmos que, com a situação de seus pais, estão seguros de poder viver sem trabalhar.

- Alguns mesmo dizem isto em voz alta: "Soube, desde a idade de doze anos, que me estava destinada uma fortuna imensa e a mais bela posição do reino, sem ser obrigado a preocupar-me com ser um bom homem", dizia o duque de Lauzun, uma das tristes figuras da nobreza francesa, por fins de antigo regime.

Não haverá um estudante de liceu ou de colégio que não tenha conhecido alguns destes desgraçados, que a situação paterna e a fortuna materna dispensam de qualquer trabalho sério.

- Não chegam, contudo, ao ponto de considerar a ignorância como um privilégio. Mas os diplomas e, por conseguinte, a aplicação, o trabalho sério, as boas colocações, etc., os jovens de fortuna deixam tudo isso, com uma espécie de desdém, aos outros, àqueles que têm necessidade, os filhos dos diretores, engenheiros e mesmo contramestres da fábrica de seu pai...

Devemos contentar-nos com os bons conselhos, quando se trata de inspirar às crianças o amor pelo trabalho?
É preciso animá-las, excitá-las, mostrar-lhes como se trabalha, dar com elas alguns passos no caminho que elas hão de percorrer.

(Excertos do livro: Catecismo da Educação, do Abade René de Bethléem, continua com o post: O amor ao dever)

PS: Grifos meus.

Ver também:

terça-feira, 15 de junho de 2010

68ª Contemplação - Jesus e Sua Mãe em Betânia

68ª Contemplação


Jesus e Sua Mãe em Betânia

Prelúdios

Representamo-nos bem ao vivo Jesus sentado ao lado de Sua extremecida Mãe... É noite em Betânia... o silêncio é completo. Sós em uma sala velam Jesus e Maria: Jesus tomou nas Suas mãos de Sua Mãe, e com doce e penetrante voz conta-Lhe o que acontecerá nos dias seguintes.

Ó Jesus com Vossa Mãe, venho confundir minhas lágrimas com o sangue que diviso já correndo sobre Vossa fronte... e oferecer-me para acompanhar-Vos na estrada do Calvário.

Cala-se o Evangelho sobre este augusto colóquio, mas sem nada inventar é fácil reconstruir a tocante cena entre o Filho e a Mãe. São Boaventura faz dizer a Jesus: Minha Mãe, é chegado o tempo de resgastar o mundo pelo sacrifício de Minha vida... Ver-me-eis, em breve, entregue a Meus inimigos, que exercerão sobre mim toda a sua malícia... Responde a Virgem: Ah! meu Filho, se me fosse permitido oferecer Minha vida para salvar a Vossa, ou ao menos poder morrer conVosco... (S.Bonavent.: Med. Vitae Christi, C.72)

Apraz-me, ó bom Jesus, de contemplar-Vos no retiro de Betânia, entretendo-Vos com Vossa Mãe querida. Tendo sido sempre submisso e respeitoso para com Ela, não queríeis faltar a estas atenções que são o característico de um filho amoroso, pelo que, vendo próxima a Vossa morte, não quisestes apartar-Vos d'Ela, sem instruí-lA de Vossos desígnios - Et venit Nazareth, et erat subditus illis (Lc 2,51), tanto mais que já Lhe havíeis revelado outros mistérios.

É para isto que quereis voltar todas as tardes a Betânia - Exiit in Bethaniam cum duodecim (Mc 11,11). O dia, consagraste-lo ao ensino, a noite pertence a Vossa Mãe. Após a ceia, diz São Boaventura, Ele retira-se à parte com Maria, a mais sensível, a melhor de todas as mães. - Coena facta, vadit Dominus Jesus ad matrem, et sedet cum ea seorsum (S. Boav. loc. cit.).

Vosso coração, ó Jesus, está acabrunhado de dor, pensando na dor que causareis à Vossa santa Mãe, com a narração de Vossos sofrimentos; e Maria, pressentindo o que Vos deve acontecer, sente toda a amargura, todo o rigor de Vossas penas. - Com efeito, Vós sois homem, ao mesmo tempo que Deus, e não podemos duvidar que tendo querido submeter-Vos às fraquezas do homem, não tenhais sido sujeito a estes despedaçamentos de coração, que se produzem em semelhantes circunstâncias, e que devem ter sido tanto mais dolorosos, quanto Vós éreis mais inclinado à ternura.

Se, no Jardim das Oliveiras, Vossa alma experimentou uma tristeza tão excessiva, que esteve a ponto de separar-se de Vosso corpo, seria crível que pudésseis deixar Vossa santa Mãe, que amáveis tão ternamente, sem sofrerdes com esta separação? (S. Brigida: Lib. I Revel. C.10)

Ó Jesus, permiti-me contemplar-Vos demoradamente, assim como a Vossa Mãe Santíssima durante estes comoventes colóquios noturnos.

Ora fitais a Virgem, ora elevais ao céu o Vosso olhar, límpido e doce... mas também velado de lágrimas à lembrança da ingratidão dos homens. E Maria, a cabeça inclinada, o olhar puro como o azul do firmamento, beija Vossa mão divina e em seguida, fixando-Vos docemente com este olhar de ternura que cercara um dia Vosso berço... e que em breve Vos verá... ou antes, desde agora, Vos vê em espírito, suspenso num infame patíbulo... Vós, Seu Deus e Seu Filho! - Cum Filius meus aspexit oculos meos lacrimantes, tristabatur quasi ad mortem (S.Brigit. I. I Revel. C.10).

Meu Filho, Meu Jesus, geme Ela... sei que é preciso... tal é a vontade de Vosso Pai... é demais para a Minha frágil natureza... é preciso que o Pai sustente Minha fraqueza, afim de que eu possa sofrer conVosco!... - Ecce acilla Domini, fiat mihi secundum verbum tuum (Lc 1,38) Tudo aceito... Uno-me a Vós, ó Meu Filho, e peço-Vos que todas as Vossas dores se reproduzam em Minha alma... como outrora Vossas alegrias e Vossas graças se reproduziam no Meu coração - Praescia futurae passionis, filii, longum in cogitationibus martyrium pertulit (Rupert. Abb. in Cant. IV).

Ó Jesus o mais amoroso dos filhos! Ó Maria, a mais amorosa das mães!... reconheço toda a fragilidade da minha natureza. A Vossos pés prostrado, rogo-Vos, ó Maria, me concedais um pouco deste amor que tendes para Jesus... e Vós, ó Jesus, um pouco deste amor que tendes para Maria!... É a veemência irresistível do Vosso amor a causa de todo o Vosso martírio; e é este mesmo amor que eu desejo para condoer-me de Vossas penas...

Mãe de Jesus, que não desdenhais ser também minha Mãe, e que me amais com um amor muito superior ao de todas as mães, tende piedade de mim... Sois cheia de misericórdia, e por ser eu o mais miserável de Vossos filhos, espero ser atendido, e que me obtereis de Vosso Filho o dom precioso deste santo amor que Vos peço. - O Domina mea, quae plus sine comparatione nos diligit, quam mater carnalis, aspice in me, et miserere mei, quia unicus et pauper sum ego valde. Tu misericordiae plena: quis ergo quod petierit, non obtinebit (S. Boav.; Stim. div. am. C. IV).

Doce Mãe, dai-me o ódio de minhas faltas passadas e de minhas fraquezas presentes, que são a causa de Vosso martírio... e sobre as ruínas de minhas misérias ateiai o fogo de Vosso divino amor... Quero amar-Vos... e, como prova, quero desde hoje fazer bem tudo o que tenho a fazer.... e com a única intenção de agradar-Vos!...

(Contemplações evangélicas doutrinais e morais sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Revmo. Pe. Júlio Maria)