sexta-feira, 11 de junho de 2010

O Coração de Jesus

14ª Contemplação
O Coração de Jesus


(Revmo. Pe. Júlio Maria, missionário de Nª. Sª. do SS. Sacramento)

Prelúdios

Reepresentemo-nos a aparição de nosso Senhor a santa Maria Margarida Maria. Uma capela silenciosa: a humilde religiosa ajoelhada. O Santíssimo Sacramento exposto: de repente Jesus mostra-Se belo, majestoso, mas triste...

Ó Jesus, possa o meu coração compreender o que vêem os meus olhos, pois só o coração compreende o amor... e Vós vinde manifestar Vosso amor.

***

Escutemos a expressão de Jesus nesta aparição:

"Eis aqui este coração que tanto amou os homens, que nada poupou até esgotar-se e consumir-se, para lhes testemunhar seu amor, e Eu não recebo da maior parte senão ingratidões, por suas irreverências e seus sacrilégios, pela frieza e desprezo que eles têm para comigo neste Sacramento de amor. Mas o que mais me penaliza é que são corações que me são consagrados que me tratam assim."

(Revelações do sagrado Coração de Jesus a santa Margarida Maria)

Ó meu Jesus, eu não Vos conheceria senão parcialmente se não conhecesse o Vosso coração... Vosso coração!... oh! é todo Vós mesmo... Quando se chega a conhecer o Vosso Coração, tem-se a chave da Vossa bela e admirável fisionomia... Vosso Coração!...

É o amor! e o amor é a Vossa essência. Deus é amor! e quem permanece no amor, permanece em Deus, e Deus nele - Deus caritas est: et qui manet in caritate, in Deo manet et Deus in eo. (I Jo. 4,16)

Aqueles que não Vos amam é porque não Vos conhecem, pois Vós sois o amor - Qui non diligit, non novit Deum: quoniam Deus caritas est (ibid. 8)

E este amor é um fogo devorador - Etenim Deus noster ignis consumens est (Hb. 12,29), do qual não é possível aproximar-se sem experimentar o calor e sentir-se atraído - Et in caritate perpetua dilexi te: ideo attraxi te, miserans (Jr. 31,3).

Oh! permiti, então, que eu Vos contemple, pois este coração que manifestais a Santa Margarida é o mesmo coração que já tínheis sobre a terra. A glória nada lhe mudou.... sua natureza é a mesma, apenas seu estado é diferente.

Se agora, na beatitude, que Vos retira toda a faculdade de sofrer, Vos apresentais com um semblante tão triste, com o coração ferido, falando com a voz onde tremulam lágrimas, não fazeis mais do que mostrar o que éreis sobre a terra. As aparições representativas do passado reproduzem no espírito a imagem do que foi.

Os sofrimentos que aturastes são sempre Vossos, e se não são sofrimentos atuais, não são menos sofrimentos reais que Vós aproximais do fato que os causou. Assim, todas as Vossas palavras guardam Sua verdade... todas as Vossas aflições têm direito ao nosso pesar e à nossa compaixão... Se nós vo-la recusamos nesta hora, para Vós será como se nunca as tivésseis recebido de nós, por quem e para quem sofrestes.

A grande lição que Vosso Coração me dá é amor e a reparação.

E o que pedis é o amor e a reparação: e amor do sacrifício! As ternuras de meu coração e as lágrimas de meus olhos!

Ó Jesus, eu me prostro diante desta revelação de amor, de sensibilidade humana, que me diz tudo. Vós, então, sentis como nós... Vós amais do mesmo modo que nós!

Não me venham fazer a enumeração raciocinada e glacial das qualidades de Vosso coração: É inútil e é demasiado! Eu as conheço melhor e as amo mais, quando Vos vejo chorar junto ao túmulo de Lázaro. Vós, um Deus, em quem tudo é sincero.

Et lacrymatus est Jesus. Dixerunt ergo Judaei: Ecce quomodo amabat eum (Jo. 11,36)

Vejo estas lágrimas entumescerem as Vossas pálpebras e afogarem Vossos olhos... sigo-as ao longo de Vossa face e julgo vê-las correrem ainda... até às minhas pobres misérias!... Não tendes Vós o mesmo coração? E minhas misérias são elas menores?... Eu também não sinto necessidade de ser amado?

E depois, tenho visto outras lágrimas, lágrimas cruéis, capazes de desarmar o céu e de enternecer a terra. Jerusalém estava diante de Vós e além, todas as faltas dos homens... as minhas em particular... Vistes tudo isso e contemplastes demoradamente cada uma de minhas negligências!

Videns Civitatem flevit super illam (Lc. 19,41)

Chorais, ó Jesus!... Poderíeis indignar-Vos, vingar-Vos!... mas não, preferís chorar! Deveis vencer, mas vencereis por Vossas lágrimas! ... e esta vitória é mais gloriosa do que vencer abatendo pobres seres como nós!....

Vossas ameaças, ó Jesus, teriam feito de nós seres amedrontados... Vosso castigos, seres infelizes... Vossas lágrimas transformaram-nos em seres que amam! Eu quereria contemplá-las, estas lágrimas vertidas sobre minhas faltas, que Vós sentis tão vivamente... Este grito de angústia que Vos escapa é uma verdadeira revelação para nós, almas religiosas:

"O que mais me penaliza é que são corações que me são consagrados que me tratam assim!"

Ó Jesus, mostrai-me estas faltas, estas tibiezas, estas indiferenças que Vos entristecem e Vos fazem chorar!... Eu quero evitá-las, custe o que custar!

Não sou eu um destes corações que Vos são consagrados e que Vos fazem chorar?... Choráveis sobre Lázaro ressuscitado por Vossas  lágrimas e Vossa oração?... Choráveis sobre Jerusalém, por causa de sua ingratidão, de sua infidelidade; de sua indiferença... mas estas lágrimas estenderam-se muito além da cidade deicida... e vieram cair sobre minha alma, para despertá-la, excitá-la e estimulá-la na santidade!...

E eu não soube corresponder a tanto amor: Eis por que vieste reavivar estas emoções de Vossa vida terrestre, na aparição a santa Margarida Maria.

Ó Jesus agradeço-Vos me terdes mostrado o Vosso coração amante, sensível e triste!... Esta cena mostra-vos todo inteiro... possa eu tê-la sempre diante dos olhos, pois o que não pode o raciocínio, as lágrimas o fazem num instante.

Ó Virgem amante, Vós que tão perfeitamente compreendestes o Coração de Jesus, fazei-me compreendê-lo também. Abri-mo afim de que ele seja meu refúgio e meu asilo em todas as dificuldades!...

(Contemplações evangélicas doutrinais e morais sobre a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Revmo. Pe. Júlio Maria)

PS: Mantenho os grifos do autor.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Quem ama a Jesus Cristo não se envaidece de suas qualidades

Quem ama a Jesus Cristo
não se envaidece de suas qualidades


(Santo Afonso Maria de Ligório)

"A Caridade não se envaidece". O orgulhoso é como um balão de vento que se sente grande diante de si mesmo. Na verdade, toda a sua grandeza se reduz a um pouco de ar que se esvai rapidamente, quando o balão se rompe. Quem ama a Deus é verdadeiramente humilde. Não se orgulha vendo em si algumas boas qualidades.

Sabe que tudo quanto possui é dom de Deus; de seu, só tem o nada e o pecado. Por isso, conhecendo os dons concedidos por Deus, mais se humilha, sentindo-se indigno e tão favorecido por Deus.

Santa Teresa, falando das graças especiais concedidas a ela por Deus, diz: "Deus faz comigo como se faz com uma casa prestes a cair, sustenta-a com escoras" (Sta. Teresa, Moradas sextas, c. 10. Obras, IV, p. 171; Libro de la Vida, c. 18, Obras, I, p. 131).

Quando alguém recebe uma visita de Deus, sentindo em si a força extraordinária do amor divino que o leva até a emoção e a uma grande ternura de coração, não se julgue favorecido ou recompensado pelo Senhor por ter feito alguma obra boa.

Humilha-se ainda mais, entendendo que Deus acaricia, para que não O abandone. Mas se tais graças lhes inspiram alguma vaidade, sentindo-se mais favorecido porque é mais fiel a Deus do que os outros, tal defeito fará com que Deus o prive de Suas graças. Para conservar uma casa, duas são as coisas mais necessárias: o alicerce e o telhado. Na casa da nossa santificação, o alicerce é a humildade, reconhecendo que nada somos e nada podemos. O telhado é a proteção de Deus na qual unicamente devemos confiar.

Quando nos vemos mais favorecidos por Deus, mais devemos ser humildes. Quando Santa Teresa recebia uma graça especial, procurava por diante de seus olhos todas as suas faltas e assim o Senhor mais se unia a Ela. (Livro de la Vida, c. 18,22), Quanto mais uma pessoa se acha indigna de graças, mais Deus a enriquece delas.

Santa Taís era uma pecadora e depois se tornou uma santa. Humilhava-se tanto na presença de Deus, julgando-se até indigna de dizer Seu nome, não ousava dizer "meu Deus" mas repetia sempre "Meu Criador, tende piedade de mim". São Jerônimo diz ter visto um lugar especial no céu para ela por tal humildade. (Vitae Patrum, 1.1: Vita Sanctae Thaisis, meretricis, c.2 e 3. Ml 73-662)

Um caso semelhante se lê na vida de Santa Margarida de Cortona. Sentindo com ternura o amor de Deus, dizia: "Senhor, já esquecestes do que eu fui? Como me pagais com favores a tantas ofensas que Vos fiz?" Deus então a fez sentir que, quando uma pessoa O ama e se arrepende de coração por tê-lO ofendido, Ele se esquece das faltas recebidas. "Se no entanto, o homem mau renuncia a todos os seus erros... não lhe será tomada em conta qualquer das faltas cometidas" (Ez. 18,21-22). Como prova disso, mostrou-lhe no céu um lugar glorioso que lhe estava preparado entre os anjos. (Marchese, Vita, 1.1,c. 18, nº 9;1.2, c.11, nº 8,9)

Oh, se pudéssemos compreender o valor da humildade! Vale mais um ato de humildade do que a conquista de todas as riquezas do mundo.

***

O medo de ser humilhado

Para ser humilde não basta  ter um baixo conceito de si e da própria fraqueza. Diz Tomás de Kempis que o verdadeiro humilde é aquele que reconhece seu nada e se alegra nas humilhações (Imitação de Cristo, 1.3, c. 7, nº 23-24). Isso é o que o Cristo nos recomendou fazer, segundo seu exemplo: "Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração" (Mt. 11,29)

Quem diz ser o maior pecador do mundo e fica irritado quando o desprezam ,mostra que é humilde da boca pra fora, mas não de coração. Diz Santo Tomás que quando alguém, vendo-se desprezado, fica ressentido, mesmo se longe da perfeição.(Sto. Tomás de Aquino, em B. Henrique Suso, Sermo 4, Opera)

"A humildade consiste em alegrarmos-mos com tudo o que nos leva a reconhecer nosso nada". Notemos bem "alegrarmo-nos". Se nossos sentimentos se ressentem com os desprezos recebidos, ao menos em nosso espírito devemos nos alegrar.

Como poderá uma pessoa que ama a Jesus Cristo deixar de aceitar os desprezos, vendo seu Deus suportar escarros e tapas como sofreu na Sua Paixão? "E  cuspiram-Lhe no rosto, bateram-Lhe com murros e deram-Lhe tapas" (Mt. 26,67)

Nosso  divino Redentor quis ser representado e exposto sobre os altares, não sob o aspecto glorioso, mas crucificado, para termos sempre diante de nós Seus desprezos. Vendo-o assim, os santos também se alegravam quando desprezados na terra. Esta foi a oração de São João da Cruz às costas: "Senhor, quero padecer e ser desprezado por amor de Vós" (Marco da S. Francesco, O. C., Vita, 1.3, c.1, nº 10. Opera del santo, tom.3)

Senhor, vendo-Vos desprezado por meu amor, outra coisa não Vos peço, senão  me fazer sofrer e ser desprezado por amor a Vós.

O alicerce da humildade

Diz São Francisco de Sales: "Suportar os desprezos é pedra de toque da humildade e da verdadeira virtude" (Lettre 2069, à la Mère de Chantal. Oeuvres, XXI, 151 - São Francisco de Sales). Uma pessoa que se apresenta como religiosa, reza, comunga frequentemente, jejua, pratica a mortificação, mas que depois não pode suportar uma injúria, uma palavra picante, mostra ser o que?

Mostra que não passa de um pau oco, sem humildade e sem virtude. E que sabe fazer uma pessoa que ama a Jesus Cristo, se não é capaz de sofrer um desprezo por amor d'Ele, que tanto sofreu por seu amor?

Escreve Tomás de Kempis: "Já que te aborreces tanto em ser humilhado, é sinal de que não estás morto para o mundo, não tens humildade, não tens Deus como tudo na sua vida. Quem não tem Deus como tudo, perturba-se com toda a palavra de crítica que escuta" (Imitação de Cristo, 1.3, c. 46, nº 8-11). Não podemos suportar bofetadas e ferimentos por Deus? Ao menos, suportaremos algumas palavra mais dura!

Causa admiração e escândalo uma pessoa que comunga com frequência e depois se ressente com qualquer palavra de desprezo. Ao contrário, como é edificante uma pessoa que responde com uma palavra mansa para acalmar quem a ofendeu. Ou então, sem nada responder nem se queixar aos outros, conserva o rosto sereno sem mostrar irritação!

Diz, São João Crisóstomo que o homem manso é útil não só para si mesmo mas também para os outros, pelo bom exemplo que dá de sua mansidão, quando é desprezado (In Acta Apostolorum, hom. 6, nº 4. MG 60-62). Falando sobre esse assunto, Tomás de Kempis apresenta muitas ocasiões em que devemos ser humildes:

"Darão ouvidos ao que dizem os outros, e será desprezado o que dizes. Pedirão os outros e receberão; pedirás tu e ser-te-á negado. Serão grandes os outros na boca dos homens; de ti não se falará. Aos outros será dado este ou aquele trabalho, tu não serás julgado bom para nada. Com estas provações costuma o servo fiel ser experimentado pelo Senhor, para ver se sabe renunciar-se a si mesmo e repousar n'Ele. Por isso a natureza ficará magoada, muitas vezes; fará, porém, grandes coisas se, em silêncio, tudo sofreres."(Imitação de Cristo, 1.3, c. 49, nº 20-25)

Felizes os humildes

Dizia Santa Joana de Chantal: "Quem é verdadeiramente humilde, vendo-se humilhado, mais se humilha" (Entretiens faits à la récreation e aux assembléss de la Communalté, XIX. Vie et Oeuvres, II, 284,285). Sim, porque a pessoa humilde nunca se julga tão humilhada quanto merece. Os que fazem assim são chamados por Cristo de "felizes".

Os que são estimados, honrados e louvados por sua nobreza, ciência e poder não são chamados "felizes" por Cristo. Mas uma grande recompensa será dada no céu aos que são amaldiçoados pelo mundo, perseguidos e caluniados pelos homens, se sofrerem tudo isso com paciência: "Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, porque será grande a vossa recompensa nos céus" (Mt. 5, 11-12)

Devemos praticar a humildade principalmente quando somos repreendidos por alguma falta pelos nossos superiores ou por outra pessoa qualquer.

Alguns fazem como ouriços: quando não são atacados, parece, calmos e cheios de mansidão. Mas quando um superior ou amigo as toca lembrando-lhes alguma coisa mal feita, arrepiam logo os espinhos. Respondem com azedume dizendo que não é verdade, ou que tiveram motivos para o fazer, ou que não tinha cabimento aquela admoestação. Em resumo, quem os repreende torna-se seu inimigo. Fazem como aqueles que se zangam com o médico porque os faz sofrer dores quando realiza os curativos de suas feridas. (S.Bernardo, In Cantica, sermo 42, nº 3, ML 341-344)

Diz São João Crisóstomo: "A pessoa santa é humilde, quando é repreendida arrepende-se da falta que fez. Ao contrário, quem é orgulhoso fica magoado quando é corrigido. Fica magoado por ver descoberto o seu defeito e por isso responde e indigna-se com quem o adverte" (In Mathaeum, hom. 68 - al.69 -, nº 1-2, MG 58 de 341 a 344).

São Felipe Néri dá esta regra a quem é acusado sem motivo: "Quem quer ficar verdadeiramente santo nunca deve se desculpar, nem que seja falso o que lhe atribuem" (Bacci, Vita, 1.2, c. 17, nº 22). A única exceção acontece quando é necessário defender-se para evitar escândalo. Quanto merecimento perante Deus tem uma pessoa que é repreendida, até mesmo sem razão, e se cala e não se desculpa! Dizia Santa Teresa: "Uma pessoa caminha mais para Deus quando deixa de desculpar-se do que ouvindo dez sermões. Não se desculpando, começa a adquirir a liberdade interior e a não se preocupar se dizem dele bem ou mal" (Sta.Teresa, Caminho de perfección, c.15)

Oração

Verbo Encarnado, peço-Vos, pelos merecimentos de Vossa santa humildade que Vos fez abraçar tantos desprezos e injúrias por nosso amor, livrai-me do orgulho e dai-me parte da vossa santa humildade. Como posso me lamentar de alguma ofensa, sobretudo depois de ter merecido tantas vezes o inferno?

Meu Jesus, pelos méritos de tantos desprezos que sofrestes na Vossa Paixão, dai-me a graça de viver e morrer humilhado nesta terra, como Vos dignastes viver e morrer humilhado por amor de mim. Por Vosso amor desejaria ser desprezado e abandonado por todos: mas sem Vós nada posso fazer.

Amo-Vos, meu Deus, amo-Vos como o tudo de minha vida. Estou resolvido e espero, com a Vossa graça, sofrer tudo por Vós: ofensas, traições, perseguições, dores, solidão, abandono. Basta que não me abandoneis, Vós, o único bem de minha vida. Não deixeis que me afaste de Vós.

Dai-me o desejo de Vos agradar, o entusiasmo no Vosso Amor, calma nos sofrimentos, paciência em todas as contrariedades. Tende piedade de mim. Nada mereço, mas espero tudo de Vós, pois me remistes com Vosso sangue.

Tudo espero de Vós, Maria, minha Mãe e Rainha, porque sois o refúgio dos pecadores

(A prática do amor a Jesus Cristo, de Santo Afonso Maria de Ligório)

PS: Grifos meus.

Súplica a Santa Filomena

Súplica a Santa Filomena


Prostrado aos vosso pés, ó grande e gloriosa Santa, venho apresentar-vos a minha fervorosa prece; acolhei-a benignamente e obtende-me as graças que me são necessárias.

Santa Filomena, rogai por mim.
Glória ao Pai...

Tenho o coração atribulado. Sinto fortes os golpes da dor. A desventura oprime-me. Careço, pois, do vosso auxílio. Ajudai-me e ouvi a minha oração.

Santa Filomena, rogai por mim.
Glória ao Pai...

Fatigado e sem conforto, privado de esperança, só e oprimido, pelas tribulações, espero ser de vós atendido.

Santa Filomena, rogai por mim.
Glória ao Pai...

Reconheço que foram os meus graves pecados a causa de tantas desventuras. Obtende-me de Deus o perdão e abrasai-me no Seu santo amor.

Santa Filomena, rogai por mim.
Glória ao Pai...

Volvei, ó Santa Filomena, um olhar sobre a minha casa e sobre a minha família, lançai um doce sorriso para os vossos fiéis devotos, enxugai as lágrimas de todos, infundi no meu coração um raio de esperança, dai a todos a paz, a salvação, e sede a nossa providência.

Santa Filomena, rogai por mim.
Glória ao Pai...

Vede quantas graças me são necessárias e não me abandoneis. Vós que sois poderosa junto de Deus, afastai de mim a tristeza e a desolação. Dai a paz à minha alma, protegei-me nos perigos e livrai-me dos castigos do Senhor; abençoai a minha casa, a minha família, os vossos fiéis devotos e alcançai-me a graça de que necessito. (Mencionar a graça).

Gloriosa Santa Filomena, não me abandoneis e rogai por mim.
Glória ao Pai...

Pelos vosso sofrimentos, alcançai-nos de Deus misericórdia (3 vezes)

(100 dias de indulgência, oração composta por Fr. Miguel R.Camerlengo, Bispo de Nola)

DOCE CORAÇÃO DE MARIA

"DOCE CORAÇÃO DE MARIA..."


SEDE MINHA SALVAÇÃO

Sempre me encheu de suave emoção e terna piedade esta popularíssima invocação, que tão repetidamente ouvimos ressoar tanto nas catedrais, como nas modestas capelinhas das estradas: "Doce Coração de Maria, sede a nossa Salvação!"

Nesta vida tão fugaz, tão cheia de ilusões e desenganos, de amarguras e revezes, de flores de alegrias e venturas que, passando, deixam apenas duros espinhos; nesta vida tão triste, no exílio deste mundo - o coração de nossa Mãe do Céu é, ao mesmo tempo, nosso refúgio, nossa consolação e nossa alegria.

"Doce Coração de Maria, sede a nossa Salvação!"

Maria nos salvará. "O servo de Maria - disse São Bernardo - não pode perecer".

Invoquemos sempre a nossa Mãe do Céu. Não deixemos passar um dia de nossa vida sem um obséquio, uma prática de piedade, ainda que uma simples "Ave-Maria", em louvor à nossa Mãe do Céu. Tudo será, um dia, recompensado.

Um piedoso exemplo:

Uma tarde, Mgr. Dupanloup, o ilustre e santo bispo de Orléans, foi chamado para ministrar os últimos sacramentos a uma pobre tuberculosa. Ao vê-la martirizada de dores, num leito de miséria, confrangeu-se-lhe o coração, do qual brotaram estas confortadoras palavras: "Tenha coração, minha filha, coragem e confiança em Nossa Senhora! Ela não a abandonará!..."

Em resposta, disse-lhe, sorrindo, a moribunda, com uma expressão de doçura, calma e suave resignação: "Ah! meu prelado, estou conformada. Não tenho medo da morte. Há vinte e dois anos que recito o meu terço repetindo tantas vezes está súplica: SANTA MARIA, MÃE DE DEUS, ROGAI POR NÓS PECADORES, AGORA E NA HORA DE NOSSA MORTE! Como posso, pois, duvidar de que me não ajude agora a Santíssima Virgem? Hei de morrer com Maria e Ela me há de levar ao Céu."

Ó doce esperança! Seja-nos permitida a felicidade de assim nos acharmos em nossa hora extrema!
Doce Coração de Maria, sede a nossa salvação!

(O breviário da Confiança, por Mons. Ascânio Brandão)

terça-feira, 8 de junho de 2010

XIV - OS CRAVOS

XIV - OS CRAVOS


 

Avizinhamo-nos do desfecho. Sustentado e quase carregado pelos soldados, Jesus galgou a montanha; antes de chegar ao cimo, um pouco à esquerda, fazem-no parar.

Enquanto os algozes vão fazer os últimos preparos, estender a Cruz, preparar as cunhas para fixá-la no buraco cavado no próprio rochedo, aguçar os cravos e dispor tudo o mais, cumpre assegurar-se da Pessoa de Jesus. Descem-nO a uma espécie de fossa, no fundo da qual há uma grande pedra, que se mostra ainda hoje, munida de dois orifícios por onde se passam as pernas do condenado. Amarram-nas por debaixo, a fim de tornar impossível toda fuga.

No estado em que se acha a Vítima, a precaução é inútil, mas persiste cruel. Do fundo dessa prisão improvisada, pode Jesus ouvir em cima, por sobre Sua cabeça, os preparativos, os gritos dos soldados, as blasfêmias dos dois salteadores que devem ser crucificados com Ele, e todo aquele vai-e-vem de gente que quer ver terminado aquilo o mais depressa possível. Em baixo é o redemoinho tumultuoso da multidão. Como o cimo do Calvário é pouco largo, o povo ficou no sopé.

Todo o vale regurgita, pois, de gente. O Calvário está rodeado daquela plebe que espera, que acha que espera demais, que chacoteia e se diverte. Circulam por entre ela os sacerdotes, fazendo de atarefados e de importantes. Vários dos principais vão até ao cimo, como que para inspecionar de mais perto o trabalho dos criados: outros espiam Jesus no fundo da fossa, e, se levanta a cabeça pesada, pode o Mestre ver por cima dEle aquelas caras escarninhas e rancorosas.

A meio caminho pouco mais ou menos do Calvário e do túmulo novo de José de Arimatéia, num recanto mais solitário do valado e frente para o Gólgota, há um grupo doloroso de mulheres de véu e que choram. No meio há uma mais nobre, mais aflita, que parece cercada das afeições e das simpatias respeitosas de todas: é Maria, a Mãe do Condenado. Stabant autem omnes noti ejus a longe. Erant autem ibi mulieres multae a longe (Lc 23, 40; Mat 23, 49).

Essas mulheres não podem aproximar-se ainda nem de Jesus nem do alto do Calvário; a multidão é demasiado compacta. Uma parte dessa multidão, a mais ávida e mais rancorosa, queda imóvel como num espetáculo vivamente esperado. Et stabat populus spectans (Lc 23, 35). A outra parte é móvel: praetereuntes, transeuntes, curiosos, passeantes; como o Calvário fica perto da cidade, aflui-se de todos os lados: dá-se volta ao outeiro, quer-se ver principalmente o momento em que será crucificado o Condenado, para Lhe ouvir os gemidos, para surpreender-Lhe a dor; e, quando Ele surgir sangrento e lívido, volvendo as costas a Jerusalém, com os dois braços estendidos no cimo do Calvário, será uma exclamação, um grito de alegria satisfeita e de paixão saciada.

Esse momento veio. De baixo a multidão viu os soldados se dirigirem para a fossa onde está acorrentado Jesus.

Aparece Ele, cambaleante: a silhueta branca, pois Ele tem ainda a Sua veste comprida, desenha-se-Lhe trêmula no cimo do Calvário: faz-se subitâneo silêncio em toda a multidão. Tiram-Lhe a veste branca, arrancam-Lhe a túnica vermelha: e então o corpo tiritante, estriado de Sangue, cavado de golpes, aparece nu aos olhos de todos.

Ó Jesus, nenhuma humilhação Vos foi poupada: operuit confusio faciem meam (Sl 48, 8), o rubor da vergonha cobriu-me o Rosto, dizeis antecipadamente pelo Vosso Profeta, e é o único véu que se permite irrisoriamente à Vossa Santa Humanidade.

Está tudo pronto: a Cruz jaz estendida à direita da cova; empurram para ela a Jesus, deitam-nO nela brutalmente, em cima do Calvário há unicamente os algozes; de baixo seguem-se portanto com cruel atenção todos os movimentos dos soldados e dos criados. Porque já não se vê Jesus, mas advinha-se facilmente, naquele grupo de verdugos agachados, que a cruel empreitada vai começar. De feito, um braço se eleva e a primeira martelada reboa no silêncio.

O primeiro cravo se enterra numa das mãos do Salvador; as marteladas vão se sucedendo bruscas e aceleradas. O ruído surdo ouvir-se-ia das fortificações, tal o silêncio que faz a multidão para as escutar e contar. Aproximemo-nos, vejamos também nós, contemos.

Tudo se faz sem consideração, brutalmente, e o próprio martelo parece tomado de ódio e de furor, tanto bate a golpes redobrados; um soldado segura a extremidade das mãos estiradas, para que o cravo se lhes enterre melhor, sem ser estorvado pelos dedos forçosamente contraídos. O que bate os cravos quase se senta no ombro do paciente; os outros firmam o corpo que a dor faz estremecer.

E a Face Divina perdida nos cabelos, banhada toda em suor e em Sangue, pende para trás espantosa, de uma lividez marmórea. Quando a primeira mão é assim cravada, passa-se à segunda. Depois vem a vez dos pés. Aqui a operação é mais longa e mais cruel.

Os cravos pontiagudos, quadrangulares, rasgam a Chaga com as quatro arestas. Quando já penetraram totalmente, há que recurvar-lhes a ponta por detrás, e isto não se faz sem novos abalos e cruéis pressões.

O Corpo é assim fixado, esticado em excesso; porque se houve de prever o alargamento das feridas; os ombros se desconjuntaram, os ossos apartados podem-se contar todos: dinumeraverunt omnia ossa mea (Sl 21, 18); o peito está cruelmente saliente, tudo o que fica abaixo está tão retirado para trás que parece colado ao madeiro da Cruz; o Sangue escorre em rios e um frêmito doloroso faz palpitar da cabeça aos pés aquela Carne lívida.

A Cruz é então arrastada até à cova do rochedo. Erguem-na por detrás amparando-a com escadas, depois ela cai pesadamente no fundo, em meio aos gritos da multidão, aos gemidos angustiados da Vítima e debaixo de uma chuva de Sangue que essa última e brutal sacudida faz cair abundante em toda a volta. Jesus, assim violentamente esticado, está doravante imóvel no horrível sofrimento.

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(“A subida do Calvário”, do Pe. Louis Perroy, SJ)

PS: Recebido por e-mail.

A importância da formação do coração

Formação do coração


A importância da formação do coração

Qual a importância da formação do coração?
É imensa.

Pode dizer-se que o coração bem formado é a condição de toda a grandeza, enquanto que o coração corrompido é a fonte de todas as baixezas.

O coração, com efeito, simboliza "essa potência misteriosa que nos eleva até às mais altas sumidades, até Deus, e nos precipita nos abismos mais profundos; capaz de todas as grandezas e de todas as ruínas, das mais sublimes dedicações, e das traições mais abjetas; impetuosa e terrível como o oceano."
(L. Lenfant, O coração, p. 7-8).

Como é que o coração bem formado é a condição de toda a grandeza?
É que a grandeza da alma não se afirma sem profundas impressões bem dirigidas e sabiamente aproveitadas.

Por que é o coração corrompido é a fonte de todas as baixezas?
Porque o coração corrompido, sem nada perder da sua energia, liga-se ao mal. Quantos mais recursos naturais possui, mais depressa desce a ladeira do vício e mais baixo se revolve na lama e na desonra.

"Sob a ação de influências nefastas, em lugar de se erguer florescente, a sensibilidade contrai-se, envia a sua seiva mais rica aos ladrões parasitas, emquanto definham os ramos superiores."
(P. Gaultier, A verdadeira Educação, p.30)

"Como existe o infinito entre Deus e a criatura, podeis avançar sempre, conhecer sempre novos progressos na felicidade de amar e de ser amados."
(Abade Perreyve)

Quais são as qualidades que deve ter um coração bem formado?
Deve ser:

- sensível;
- forte;
- regrado;
- desinteressado;
- entusiasta.

Capítulo I - O coração deve ser sensível

"De todos os sacrifícios que se fazem pela educação, nenhum é comparável ao de educar crianças que não têm sensibilidade."
(Da educação das filhas, cap. V)

Que se deve entender da eclosão desta sensibilidade?
É a família.

É ela "o único terreno em que a nova planta pode nutrir-se duma seiva rica e pura".

"Pela vigilância, pela afeição de que é o objeto, pelo ar de ternura, enfim, que reina no seio da família, a sensibilidade da criança expande-se naturalmente ao abrigo das indiferenças, dos contágios e das invejas."
(P. Gaultier, ob. cit., p. 32e 37.)

Que escolho se deve evitar para que a sensibilidade seja sempre uma qualidade?
É preciso evitar:

- a mimalhice;
- a pieguice;
- a sensualidade.

Em que consiste a mimalhice?
Consiste em criar a criança agarrada às saias da mãe; cobri-la de carícias; satisfazer todos os seus caprichos; em querer, custe o que custar, poupá-la ao menor sofrimento.

Locke dizia "que se devem expor muito cedo as crianças à dor" (J. Locke, Da educação das crianças, p. 14; trad. COSTE, citado por P.Gaultier, ob. cit., p. 48.)

Não vamos tão longe.

Mas "leitos moles, tisanas, cache-nez, pastilhas, mostras de ansiedade, recomendações que revelem inquietação ou angústia, tudo isso se deve terminantemente evitar. Uma educação materialmente um pouco mais dura preserva da efeminação, o que é um defeito, mesmo nas mulheres."
(P.Gaultier, ob. cit., p. 42 e 44).

O que é pieguice?
A pieguice é uma exageração e um desvio da sensibilidade...

Como se pode evitar este desvio ou esta exageração?
- Habituando as crianças a dominar e a dirigir a sua sensibilidade. Nunca se lhes deve permitir, por exemplo, sob o pretexto de que se deve ser bom para com os animais, aplicar injustamente, em proveito dos irracionais, as reservas de bondade concedidas por Deus.

- Não de deve tolerar que as crianças chorem a perda dum pássaro, dum cãozinho, dum gatinho, ainda que fossem muito bonitos.

- É preciso ensiná-las a reprimir as lágrimas ao verem uma boneca estragada, um brinquedo partido.

Capítulo II - O Coração deve ser forte

Poderemos contentar-nos com desenvolver a sensibilidade da criança?
É preciso também temperá-la: o coração sensível deve ser um coração forte.

"Um camponês discorria sobre a seca: Nas terras soltas, dizia ele, os trigos estão perdidos... Os das terras fortes ainda se podem salvar."
(Mme. Thérêse Alphonse Karr)

Como se pode dar à criança um coração forte?
Exercitando-a, desde a mais tenra idade, a conservar a liberdade, a fidelidade e a serenidade do coração. (O que dizemos da liberdade e da serenidade do coração é inspirado, por L.Lenfant, O coração, p. 145 a 199.)

Em que consiste a liberdade de coração?
Reside completamente no domínio de si mesmo, e na subordinação dos afetos aos princípios da razão e da fé.

Quantos se têm perdido por terem faltado à prática destes princípios, ou foram condenados a essas grandes e íntimas torturas incessantemente renovadas, que, muitas vezes, esgotam as melhores vontades.

Mas é sempre fácil?
Não o julgamos assim:

Há paixões, que nada pode satisfazer.
Há o demônio: Os demônios, negros milhafres, caem sobre os corações puros e despedaçam-nos.

E as voluptuosidades mundanas.

É, ao menos, possível?
Sim.

As paixões são forças, sob o ponto de vista filosófico; podem aplicar-se ao bem. O demônio não nos tenta além do que podemos suportar vitoriosamente, com graça de Deus. As voluptuosidades do mundo são incapazes de preencher o vácuo do coração...

Em que consiste a fidelidade do coração?
Consiste em manter com constância as afeições legítimas e ordenadas que uma vez se aceitaram.

Em que consiste a serenidade do coração?
Consiste em conservar essa alegria calma e forte que se chama a paz, apesar da solidão e da vida afadigada do lar; apesar das angústias da miséria, das ruínas e das privações; apesar das doenças e enfermidades; apesar das faltas e tentações; apesar da perda de seres queridos; apesar da aproximação da morte.

Quais são os sustentáculos desta sereidade?
São de ordem sobrenatural: chamam-se a fé e o amor de Deus.

- Na solidão da vida e no vácuo aberto de repente num lar, ouvir-se-ão a voz de Deus. Diz-se geralmente que, quando numa alma se forma um vácuo, Deus se precipita nesse vácuo.

2 º - Nas angústias da miséria, nas ruínas e nas privações, a alma volta-se para as riquezas eternas, que aumentam a cada provação suportada com coragem.

- Nas desgraças e enfermidades, dir-se-á como Job:

"Sei que o meu vingador vive, e que por fim, se erguerá sobre o pó. Então, com este esqueleto revestido com a pele e com a minha carne, verei a Deus. Eu mesmo O verei: os meus olhos O verão e não a outrem; as minhas entranhas se consomem dentro de mim."
(Job, XIX, 25-28)

- Nos momentos áridos da vida e nas tentações, devemos lembrar-nos de que Deus, semelhante a uma mãe que um instante se esconde para gozar a alegria de seu filho quando lhe aparece, se oculta aos nossos olhares durante a provação dum momento, para se nos mostrar face a face na eternidade.

- Na desaparição de seres queridos, pensar-se-á na grande reunião do Céu, como M. Dupont, junto do leito de sua filha:

- Consola-te, minha filha, dizia ele; aqui no mundo, duas muralhas nos separam: o teu corpo e o meu; a tua vai cair... a minha desaparecerá em breve..., e então encontrar-nos-emos de novo, para nunca mais nos separarmos.

- Nas perspectivas da morte, volvam-se os olhos para a luz:

- O Céu! o Céu! exclamava uma alma santa, depois de haver sofrido horrivelmente; e foi este o seu último grito.

- Vi a Santíssima Virgem, repetia outra alma; era como esta que está aqui - e apontava para Nossa Senhora de Lourdes: - e ajuntava:

- A minha boa mãe sorria-me e mostrava-me o céu!

(Excertos do livro: Catecismo da educação, do Abade René Betléem, continua com o post: O coração deve ser regrado)

PS: Grifos meus.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

62ª - Contemplação - A inconstância humana

62ª - Contemplação
Revmo. Pe. Júlio Maria 
Missionário de Nª. Sª. do SS. Sacramento


A inconstância humana

Prelúdios:
Contemplemos ainda Jesus, chorando, não somente sobre Jerusalém ingrata, mas sobre a nossa tibieza e nossas faltas. Ó bom Jesus, caiam sobre mim as Vossas lágrimas, como expressão de Vosso amor e de Vosso perdão de minhas ingratidões passadas.

***

Meu Jesus, ao contemplar-Vos vertendo lágrimas sobre Jerusalém, que tão culpada se vai tomar, não posso impedir-me de fazer uma dolorosa comparação... Jerusalém é a imagem da alma...
Tem também a alma um templo onde Deus habita, muralhas que a defendem e promessas dum futuro magnífico... "Nescitis quia templum Dei estis, et Spiritus Dei habitat in vobis?" (I Cor. 3,16).

Neste momento, chorais sobre esta cidade, porque, por Vossa presciência, a vedes transformada num deserto em que reina a desolação. Acolhe-Vos hoje como seu rei e jura-Vos obediência eterna, e eis que poucos dias após, sob o império de surdas ameaças, ouvi-la-emos soltar gritos de ódio e pedir obstinadamente a Vossa morte. Apenas alguns tímidos amigos protestarão, e os indiferentes deixarão fazer.

"Pompose civitatem intravit, in qua tradendus et crucifigendus erat." (S. Pedro, Dam. Serm. II. Palm.)

Oh! Como a humanidade é fraca e inconstante!... Ora, a minha alma pertence a esta humanidade, ela tem uma natureza frágil. O que será dela amanhã?...

Contendum laetitiae meae flendae cum sanctis maeroribus; et ex quo parte stem, nescio. Hei mihi Domine, miserere mei.” (S. Aug. : Confess.: C. 28)

Ama-Vos hoje, meu Deus, Seus anelos são todos para Vós, e ela exclama: Vinde, vinde, minha morada está aberta para Vós! Pela comunhão entrais nela mais intimamente do que no templo de Jesuralém, cujas pedras não Vos conheciam. Eu juro-Vos uma fidelidade que julgo eterna!...

O que será feito de todos estes sentimentos, de todas estas promessas, deste amor que julgo imortal!... daqui a uns dez anos, um ano ou talvez alguns dias?... A alma tem também as suas tempestades súbitas e destruidoras!

Quantos imprevistos estão ocultos na minha estrada!... Onde outros cederam, poderei eu resistir?

Septies enim cadet justus et resurget.” (PV. 24,16)

Vendo-Vos chorar e soluçar. Ó meu Salvador, eu tenho medo, porque me pergunto: sobre quem caem estas lágrimas?

Vossa inteligência humana, desde então, possuía o magnífico dom de perceber num só olhar, distintamente, cada um dos homens de todos os tempos, como de todos os lugares... Segui-me, portanto, este olhar em todos os instantes da minha vida e da Vossa, distinguistes-me nitidamente no meio dos inumeráveis seres presentes ao Vosso espírito, melhor do que uma mãe que vê seu filho no meio da turba; e isto me faz dizer: Jesus chora, soluça... Uniria Ele meu pensamento ao desta cidade culpada?

Suas lágrimas seriam também por mim?... Se não pelo meu passado, seriam talvez pelo meu futuro?...

Ó Jesus adorado, eu tremo à pergunta que acabo de fazer... não choraríeis sobre o meu futuro?... Bem sei que não podeis responder-me e dizer-me: um dia teu coração terá mudado. Devo, portanto, conservar este receio e ver uma advertência em Vossas lágrimas. Esta dor íntima tornar-me-á mais vigilante em prever os perigos, mais generoso em evitar todo o relaxamento, mais fervoroso na oração.

Pravum est cor omnuium, et inscrutabile: quis cognoscet illud?” (Jr. 17,9)

Mas, infelizmente, nem mesmo as minhas melhores disposições podem tranquilizar-me: a alma humana é de uma fraqueza fundamental. Ó Jesus, eu conto acima de tudo com a assistência contínua que me asseguram Vossas promessas e Vosso amor.

Auxilium meum a Domine, qui fecit coelum et terram."(Sl. 120,2)

Se chorais sobre Jerusalém, é porque ainda lhe tendes amor... Se a amais, sabendo-a antecipadamente homicida, neste momento amais-me também, qualquer que seja a minha infelicidade futura! Este futuro depende de mim, sem dúvida, mas depende ainda mais de Vós...

Deus est enim, qui operatur in vobis et velle et perficere.” (Fp. 2,13).

Já Vos disse e cem vezes repetirei: Abandono-me em Vossas mãos, castigai-me se preciso for, tornai amargo ao meu coração tudo quanto poderia seduzi-lo, quebrai sem piedade os laços que poderiam retê-lo longe de Vós, guardai-me por todos os modos: eu quero ser sempre Vosso.

Qui manet in me, et ego in eo, hic fert fructum multum.” (Jo. 15,5)

Ó Jesus, mostrai-Vos para comigo doce e humilde de coração, maternalmente inclinado para a minha miséria, indulgente para as minhas faltas, paciente para a minha frieza, desejoso de Vos sentir amado por este pobre ser que sou eu!... porque eu quero sinceramente conservar-me fiel e subir conVosco ao Calvário!

Não o quereis assim, ó Vós que me amais mais do que eu Vos amo? Ó Vós que choraríeis o meu abandono; ó Vós que tanto necessitais de achar, no meio dum mundo indiferente e covarde, uma alma que Vos procure para acolher-Vos e consolar-Vos? A grande ameaça que me aterra é a de perder-Vos.

Oh! Não o permitais, querida Mãe... a quem me consagrei para sempre... guardai Jesus comigo; guardai-me para Jesus, para o tempo e para a eternidade.

(Contemplações evangélicas doutrinais e morais sobre a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Revmo. Pe. Júlio Maria)

PS: Mantenho os grifos do autor.

domingo, 6 de junho de 2010

As virtudes correlativas do Educador e do Educando - Parte V

As virtudes correlativas do Educador e do Educando
Parte V


O objeto do respeito


Quem pode e deve beneficiar deste respeito?
- Os educadores, isto é, os pais e os professores, têm direito ao respeito;
- Devem fazer-se respeitar;
- Devem inspirar o respeito por tudo aquilo que o merece.

Artigo I - Os educadores têm direito ao respeito

Por que é que os pais têm um direito especial ao respeito de seus filhos?
Porque são, mais que qualquer outra pessoa, os representantes de Deus na obra da formação de seus filhos.

Este direito é sancionado por Deus?
Sim, e da maneira mais formal.

"Aquele que ofende seu pai ou sua mãe deve ser condenado à morte." (Ex. XXI, 15)
"Aquele que maldiz seu pai e sua mãe será punido de morte." (Ex. XXI, 17)
"Que o olho que ofende seu pai... seja arrancado pelos corvos das torrentes." (Prov. XXX, 17)

Por que merecem os padres um respeito particular?
Porque o papel que desempenham na educação é sempre necessariamente ungido do caráter sagrado com o qual prouve Deus marcá-lo no dia da sua ordenação.

"Honrareis a Deus de toda a vossa alma, e reverenciareis os padres." (Ecl. VII, 81)

"Este mesmo homem que vai agora subir à cátedra da sua sala de trabalho ou da sua aula, subiu esta manhã como sacrificador ao altar do vosso Deus, e aqueles lábios, que vos ensinam os rudimentos das letras, pronunciaram palavras às quais o mesmo Deus obedeceu, dignando-se descer entre as suas mãos."
(Mgr. Baunard, Deus na escola, t. I, p. 86-87)

Os professores têm direito ao respeito?
Sim.

"O preceptor tem direito a um grande respeito. Eu seria um ingrato, se não o incluísse no número daqueles que mais amo e respeito." (Sêneca)

"O duque de Borgonha, num dos seus arrebatamentos terríveis, dos quais S. Simão nos conta que faziam tremer tudo em volta de si, disse um dia a Fénelon:
- Não, não, Senhor, sei quem sou e quem vós sois!

Sabe-se como Fénelon lhe fez ver que não conhecia um nem outro, mandando-o depois para o seu lugar e não lhe perdoando senão a pedido de Luís XIV, do filho deste e de M.me de Maintenon."
(Mgr. Dupanloup, Da educação, t. II, p. 528)

Artigo II - Os educadores devem fazer-se respeitar

"O educador deve levar a sua abnegação até se desinteressar do reconhecimento... Mas no respeito é que não pode renunciar."
(Mgr. Dupanloup, Da educação, t. II, p. 527)

Em que sentido se deve tomar esta obrigação: os educadores devem fazer-se respeitar?
Os educadores devem fazer-se respeitar:

- Pessoalmente;
- mutuamente.

Como conseguirão os educadores fazer-se respeitar?
- Far-se-ão respeitar pessoalmente, tendo uma vida irrepreensível, estimável e venerável, especialmente nas suas relações com as crianças.

- Far-se-ão respeitar pessoal e mutuamente, evitando, reprimindo e corrigindo os defeitos que atinjam mais ou menos o respeito a quem têm direito.

Quais são os defeitos mais particularmente nocivos ao respeito?
São:

- A presunção.
- A familiaridade.
- A crítica.

A presunção e a familiaridade atingem especialmente os pais; a crítica tem, muitas vezes, por objeto, os padres e os professores.

Quais são os processos ordinários dos presumidos?
- É o de "causar assombro" aos pais.

"Durante a conversa e sem dar mostras disso, um deles faz uma pergunta de álgebra, que deixa os autores dos seus dias maravilhados e pensativos.

Em todos os liceus, em todas as instituições, há, com efeito, dessas tradições: um certo número de enigmas e de qui pro quos de erudição, de curiosidades requintadas, de problemas extravagantes, que giram nas classes e que os estudantes recolhem com cuidado.

Naturalmente, o pai e a mãe ficam admirados, e o nosso jovem ri-se da sua estupefação. Formem um juízo do seu triunfo! É ele que lhes apresenta questões. Como ele ri, prazenteiro ou trocista, quando se prestam a este exame mortificante."
(Nicolay - As crianças mal educadas, p.26)

- É o de fazer alarde de ciência

"Segunda-feira estive às voltas, durante toda a manhã, com um demônio dum co-seno e com um maldito dum logarítimo, mas consegui resolver a minha equação. " (Nicolay, ob. cit. p.27)

E, fingindo recordar uma lei algébrica, dirá com convicção e volubilidade:

"O coeficiente do segundo termo é a soma dos segundos termos dos fatores binómios, ou a soma das raízes com sinais contrários." (Corneille, O Mentiroso, 1,16)...

Que fazem muitas vezes os pais?
Muitas mães, penetradas de admiração ou lisonjeadas no seu orgulho, não deixam de desculpar o pequeno vaidoso:

Vem uma visita. A mãe exclama:

- Realmente! perguntam-se agora aos colegiais coisas terríveis! Para mim é chinês! Não compreendo nem uma palavra! Mas o rapaz gosta... É verdade que ele é esperto... Ah! se não houvesse meninos bonitos nas aulas... Mas ele não é desses estudantes que adulam os professores, pelo contrário!... Mas não gosta de injustiças e, creio bem, é capaz de dizer uma insolência num momento de exaltação... Mas, daí a pouco, esqueceu tudo.
Conclusão: é um cábula e um pretensioso,

O pai, orgulhoso com tanta precocidade, diz diante do filho, batendo nas coisas dum velho amigo:

- Decididamente, meu caro, nós já não somos do nosso século! Nessa época, a gente reconhece a sua inferioridade, deve-se confessar: julgo que somos bem ignorantes!
E abaixando um pouco a voz:

- Aqui para nós, ao lado destes mafarricos, parecemos velhos caturras.
(Nicolay, ob. cit. p. 27-28.)

Ser-lhe-á fácil meter tudo na ordem e salvaguardar o respeito, mesmo nos espíritos destes pedantes.

- Poderiam primeiramente fazer-lhes notar que as crianças vindas mais tarde, num mundo mais aperfeiçoado, aproveitam necessariamente descobertas e invenções que seus pais não conheceram..., e que será assim, enquanto os pais nascerem antes dos filhos.

- Poderiam, em seguida, mandar fazer ao pequeno vaidoso, que se faz admirar pelo seu palavreado e ares de ciência, uma página dum ditado simples... Seria o bastante, pensamos nós, esta picada de alfinete numa bexiga de vento.

- E, admitindo-se que seja real a superioridade intelectual da criança, poderiam fazer-lhe compreender que o bom sendo, o juízo, a idade, a experiência são muitas vezes preferíveis para a organização e maneira de proceder na vida a esse verniz literário e científico, que não deveria razoavelmente servir senão para formar a alma e prepará-la para o futuro.

Como é que a familiaridade prejudica o respeito?
A familiaridade manifesta-se pela sem-cerimonia com os superiores. Esta sem-cerimônia não será a princípio mais que uma travessura, mas degenerá muito depressa em insolência, arrastando consigo, no seu curso de morte, a obediência e o respeito.

Exemplo:

"Aos vintes anos, o filho de um general que nós conhecemos, tratava sua mãe por 'bichinha' e, no seu meio, parecia isso muito encantador!" (Nicolay, ob. cit., p. 108-109. passim.)

Que é preciso fazer para evitar esta familiaridade?
É preciso:

- Não tolerar palavras que traduzam uma diminuição do respeito;
- Não permitir partidas;
- Não suportar jamais que a criança tome ares de brincar quando se trata de coisas sérias, e quando possa haver desprestígio da autoridade.

Se, por exemplo, os pais querem punir algum pequeno delinquente, não devem ceder, por mais diligências que ele faça para escapar ao castigo, tentando mesmo levar o caso para rir; é o expediente a que ele recorre para desarmar a severidade daqueles de quem depende, e os pais serão pouco atilados se se deixarem cair nos laços em que a criança procura prendê-los.

Qual é a origem ordinária da falta de respeito em relação aos padres e aos professores?
É a crítica.

Um missionário deu um dia a entender, numa conferência, que talvez nem todas as pessoas piedosas soubessem corretamente o De profundis. Uma menina de treze a quatorze anos acha a insinuação descortês e comunica esta sua impressão à preceptora.
E eis a resposta que obteve:

- Semelhante a certos médicos, que fingem encontrar gravidade em todas as doenças, para se darem ares duma competência profissional extraordinária, certos pregadores têm o prazer de rebaixar os seus ouvintes, para fazerem crer que produzem um bem imenso; que esses mesmos ouvintes têm necessidade deles; e que muitos teriam a lamentar, se por ali não houvessem passado. (autêntico)

A menina fizera uma observação de mau gosto.
A preceptora faltara a todos os seus deveres, corroborando a opinião de sua discípula, em vez de reprimir energicamente a falta em que esta incorrera. Ambas faltaram ao respeito.

Por quem devem os educadores fazer-se respeitar?
Porque só o respeito produz, numa medida conveniente e sob forma útil, a atenção, a docilidade e o reconhecimento, sem os quais não há educação completa.

Qual é a importância da atenção?
Para ser susceptível de formação, a criança deve identificar-se com os que estão encarregados de lhe dar, o que se não pode fazer sem que ela seja, primeiro que tudo, atenta.

Esta atenção põe-se geralmente em prática?
Há certas crianças que não se dignam escutar os pais; que não prestam a mínima atenção ou mostram não prestar atenção alguma às recomendações paternais ou maternais.

E, se o superior desconsiderado insiste, recebe respostas, como esta:

- Ah! Eu não tinha compreendido!

Se isto for verdade, o respeito calcou-se aos pés. Se não for verdade, o desprezo duplica-se com uma mentira hipócrita.

A docilidade é também tão importante como a atenção?
É a sua consequência lógica e natural complemento.

E, como ela não é mais que a predisposição do espírito, do coração e da vontade para se deixar instruir, animar e conduzir, é a base necessária e a condição indispensável de toda a educação.

Que meios se devem empregar para obter a docilidade?
É preciso infundir, com abundância, no espírito das crianças, a humildade e a desconfiança pessoal. É preciso acostumá-las a dizerem consigo: "Os outros não são da minha opinião, posso enganar-me e proceder mal". E quando se trata dos pais: "A minha mãe falou, acabou-se a questão".

E, quando se trata do padre, especialmente no exercício do seu ministério: "O senhor abade está no lugar de Jesus Cristo; longe de mim o pensamento de o censurar, ou de dissimular".

É frequente esta docilidade?
Existe, excepcionalmente. Muitas vezes os conselhos, as recomendações e até as ordens dadas pelos pais ou por outros superiores são discutidas, julgadas e criticadas por cabecinhas de dez, doze ou quinze anos.

Se esses conselhos, recomendações ou ordens estão em harmonia com as opiniões, gostos ou desejos destes pequenos príncipes, estes aceitam-nas, "delas fazem escabelo" como se dizia no castelo de Versalhes. Mas se não agradam, são rejeitadas com desdém.

Qual é o grande inimigo da docilidade?
É o mau espírito.

Não tendes, ás vezes, notado, nos lábios e nos olhos de certas crianças, esse ar de piedade desdenhosa que traduz, ao mesmo tempo, a surpresa de espírito, o desprendimento do coração e a resistência da vontade?

Temo-lo notado a miúdo, muito a miúdo, por exemplo, nas crianças do patronato.

Somos forçados a dizer que crianças desse jaez só aí se demoravam o tempo bastante para se darem a conhecer; porque nunca suportamos, nas nossas obras, o mau espírito, tal era a convicção que tínhamos de que isso representava a ruína.

E nunca esquecemos o ar de surpresa duma mãe de família que nos perguntava, um dia, que é que tínhamos a reprovar em sua filha, para a afastarmos dum agrupamento de que ela fazia parte. Era, efetivamente, uma menina de dezesseis anos, inteligente, agradável à primeira vista, uma companhia amável, e mesmo piedosa; mas era também um espírito revoltado, um mau espírito em toda a acepção da palavra, capaz de lançar no grupo o péssimo fermento de todas as desordens. (Autêntico).

Quais são as fórmulas ordinárias do mau espírito?
São múltiplas: algumas vezes chora; também responde; chega a discutir; resmunga com frequência; critica, principalmente; atribui a mesquinhas razões as palavras e atos, a direção dos superiores; nunca se submete completamente; numa palavra, não faz senão a sua vontade.

Adquire assim o hábito de julgar, de resmonear e de dispensar o auxílio dos outros; caminha em falso; adquire costumes funestos; perde-se.

E, já crescido, continua a fazer o que sempre fizera: não aceita instruções, nem jugo, nem direção. Os desgraçados (não se julgue que a palavra é forte demais) que caem neste defeito personificam o que se chama "a vaidade dos tolos".

Lembremo-nos do que diz o Evangelho:

"Se um cego pretender conduzir um outro cego, ambos cairão na cova." (Mat. XV, 14)

Como se pode tentar a cura do mau espírito?
- Convencendo da malignidade desse defeito a criança que dele é vítima: o mau espírito arruína a docilidade, sem a qual não  há formação possível, seja no que for; o mau espírito é inconciliável com a serenidade intelectual, mãe dos bons estudos; o mau espírito faz cometer um grande número de pecados, cuja gravidade é sempre muito difícil de negar.

- Atacando o mau espírito na sua causa especialmente eficiente: ora é o orgulhoso, ora a arrogância, o rancor, o mau caráter, ora a fraqueza, que se deixa levar, ora um e outro, ou são uns e outros destes fatores reunidos.

E, embora a correção destes defeitos seja particularmente árdua, armando-se de espírito de lei, elevando-se as vistas da criança, pode-se e deve-se esperar, com a graça de Deus, um resultado pelo menos satisfatório.

O educador tem direito ao reconhecimento?
Sim, o educador tem direito ao reconhecimento, tanto como ao respeito, de que é a flor do perfume.

"Educar crianças, trabalhar para as tornar boas, sensatas, instruídas, sábias e felizes; estar ao serviço das necessidades, das fraquezas , das misérias espirituais da humanidade, eis o que merece, mais que tudo no mundo, o reconhecimento e respeito; eis o que demanda um zelo, um desinteresse, uma abnegação sem medida. e faz branquear os cabelos antes do tempo; eis o que faz cair da fronte do homem o suor mais fecundo e mais dignificador; eis o que absorve a dedicação e as forças mais elevadas."
(Mons. Dupanloup, ob. cit., t.II, p. 499-460)

O educador pode contar com o reconhecimento dos seus alunos?
A educação é uma missão ingrata!

- Tudo o que se faz pelas crianças lhes parece uma obrigação, e muitas raras vezes sentem a necessidade do reconhecimento.
- De mais, a obrigação, que se tem de castigar as crianças, quando se lhes quer formar o caráter, ofende-as, fere-as, torna-as reservadas.

O educador deve subordinar os seus esforços ao reconhecimento que excita no coração das crianças?
Não.

Deve elevar-se mais alto.
Deve cumprir o seu dever com desinteresse.

Deve recordar-se desta verdade muito esquecida: "Que no mundo nunca se é grande por si mesmo, mas sempre pelos outros". Deve imitar a natureza, que nos dá sem condições os seus incomparáveis tesouros.

Artigo III - Os educadores devem inspirar o respeito por tudo aquilo que o merece

"Na educação, sobretudo, as faltas de respeito são as mais deploráveis que se podem encontrar"
(Mons. Dupanloup, ob. cit. t. II, p. 529)

Quais são as coisas e as pessoas que a criança bem educada deve habituar-se a respeitar?
São:

- Os seres inferiores da criação;
- Os bens de outrem;
- Os velhos;
- Os pobres;
- A mulher;
- As coisas religiosas. (F. Kieffer, A autoridade, p. 340 e seg.)

Em que consiste o respeito pelos seres inferiores da criação?
Consiste em não destruir uma planta ou uma flor pelo único prazer de destruir; em não matar sem razão um inseto ou uma ave; em não maltratar ou fazer sofrer inutilmente os animais que nos servem; uma palavra, em ser o rei da criação sem se converter em tirano.

Como se pode habituar a criança a respeitar os velhos?
1º - Reprimindo nela a tendência natural que a leva a não ver senão as fraquezas da velhice e a troçar delas.

"Lestes, na vossa história sagrada, a desgraça daquelas quarenta e duas crianças que, saindo de Betel - vinham talvez da escola - insultaram o profeta Eliseu: "Sobe, careca; sobe, careca!. Foram amaldiçoadas pelo homem de Deus e, depois, devoradas por ursos saídos do bosque vizinho."
(Mgr. Baunard, Deus na escola, t. I, p.88)

- Ajudando-a considerar no velho aquilo que há de grande, de nobre e de belo.

"É preciso que se ajude a criança a adivinhar no velho débil a grandeza e a majestade dum passado desaparecido; é preciso que se lhe ensine a adivinhar, no descaimento do corpo, as longas fadigas suportadas; nos  passos lentos, nos gestos comedidos e na palavra calma, a grande experiência acumulada em longos anos. Um pouco mais tarde, ao ver o velho inclinado para a tumba, é preciso que o jovem adivinhe o mistério e a profunda melancolia do destino humano, e, por pouco que o espírito cristão se concentre, o velho que está prestes a desaparecer será, para todos, um traço de união entre as novas gerações e as gerações desaparecidas, a viva e concreta expressão das palavras dos Livros santos: Não temos no mundo uma morada estável."
(Kieffer, ob. cit. p. 345)

Como se pode formar na criança o respeito pela mulher?
- Preservando-a de tudo o que, nas reuniões, leituras, conversas ou distrações, a leve a não ver na mulher senão o instrumento dum prazer de ordem inferior.

- Repetindo-lhe que a mulher é sua mãe, é a sua irmã, é a sua futura companheira da vida.

(Excertos do livro Catecismo da Educação, do Abade René de Bethléem, continua com o post: Formação do coração)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Coração formado

Coração formado


- Este menino tem um coração de ouro. Dorme no mesmo quarto que a mãe. Sempre que acorda de noite, levanta-se, e vai beijar a mãe.
- Esta menina tem um coração muito meigo. Não pode ver gato ou cachorro que tenha fome.

Apresentações e recomendações como estas eu poderia citar uma centena. Nem sempre a observação materna foi certa, ao classificar de meigo e bom este ou aquele coração. Aqui exponho à leitora uns princípios de importância neste assunto.

É o coração em nós uma potência misteriosa. Pode elevar-nos até Deus e pode precipitar-nos na mais abjeta traição. É formável e também deformável, conforme os cuidados com que o cercamos. É ele que engrandece a vida e abre o céu.

O coração de teu filho, leitora, tem de ser sensível, forte, regrado, desinteressado e entusiasta.

Sensível - Isto é, acessível aos nobres sentimentos, capaz de se esquecer a si próprio para dedicar-se aos outros. Mas deves evitar que ele se torne mimado, sensual e piegas. Tal se dá quando a mãe vive cobrindo de carinhos os filhos, vive toda alarmada com o menor mal-estar da criança. Leitos moles, bombons, mostras de ansiedade, recomendações que revelam angústia, tudo isso se deve terminantemente evitar, diz Gualtier.

Não se admita que a criança, sob o pretexto de que se deve ser bom para com os animais, aplique injustamente em proveito dos irracionais as reservas de bondade concedidas por Deus, observa o P. Bethléem. Não se deve tolerar que chore a perda de um pássaro, de um cãozinho, etc.

Forte - É o coração quando sujeita suas afeições às normas da fé e da razão. Somente assim o coração será livre. Inimigo neste ponto são as paixões, os prazeres mundanos. Coração forte sabe também ser fiel, mantendo com constância as afeições legítimas e ordenadas que foram aceitas.

Regrado - Será o coração daquele que amar o belo e ligar-se ao bem. Há uns quantos amores que hão de ser cultivados no coração da criança. O amor à família (pai e mãe, irmãos e irmãs, avós, tios e tias, padrinhos e madrinhas e criados), o amor aos pobres, ao trabalho, ao dever , à pátria. Realmente, é vasta a tarefa para uma mãe de boa vontade!

Desinteressado - Isto é, livre de egoísmo. Deus, ao criar o coração, pôs nele a bondade. Mas o demônio nele insuflou o egoísmo. A criança sabe ser terrivelmente egoísta, nos passeios, nos brinquedos, à mesa, quando recolhe para si o melhor, deixando o resto para os outros.

Urge acostumar teu pequeno a repartir com os outros seus bombons, seus brinquedos,etc. Deves levá-lo a ver os doentes, aos quais ele fará um presentinho. A palavra "obrigado" será habitual na sua boca, quando receber serviços dos outros, mesmos dos criados.

Entusiasta - É o coração que tem chamas dentro de si. É por isso necessário que a criança comece a apaixonar-se por um fim mais elevado o que as necessidades de cada dia.

Neste ponto a religião, sobretudo a Eucaristia, é poderoso auxílio para as mães. À pureza do coração realizada pelos sacramentos, unem-se os convites do grande fascinador dos corações: Jesus Cristo. Outros são então os horizontes descortinados pelos olhos infantis. Outras igualmente lhes são as intuições e elevações da alma.

(As três chamas do lar, do Pe. Geraldo Pires de Souza)

PS: Grifos meus.