quinta-feira, 22 de abril de 2010

V- O VÉU DOS OLHOS E DA CABEÇA

V- O VÉU DOS OLHOS E DA CABEÇA


Entretanto, duas coisas exasperam aqueles energúmenos: o olhar por vezes fixo, cheio de lágrimas, sempre tão doce de Jesus, e o silêncio dEste.

Esse olhar inquieta-os e perturba-os. Quereriam uma queixa, ao menos um grito de dor, para mostrar que bateram certo.

Então um deles, sem dúvida mais inventivo, propõe vendar os olhos perturbadores e fazer-Lhe uma troça do talento de profecia.

Recruta-se toda a gente, a atração vele a pena.

Portanto, entre duas cusparadas – pois está escrito: Não cessaram de me cuspir à Face –, entre duas bofetadas, dois lances de dados, dois púcaros de vinho, vão brincar de profeta:

Vamos ver, Cristo, Messias, Filho de Deus, grande Profeta... quem te bate agora?” E uma bofetada estrepitosa abate-se-Lhe sobre o rosto. “Advinha! E aquele lá, quem é?” E por detrás outra bofetada envolve aquela Face, que queda imóvel como um rochedo (Is 50, 7). “Vamos, quem é? Como se chama? Que idade tem? De que lugar é? Fala homem!”

Se o véu cobria todo o rosto, soerguem-no às vezes para poder cuspir mais à vontade, depois abaixam-no novamente para não sujarem as mãos esbofeteando-O.

Como os olhos estão escondidos e a cabeça permanece imóvel, redobram-se à porfia pancadas, cusparadas e blasfêmias, até ao cansaço e ao enjôo.

Existem dois quadros dessa cena trágica naquela noite dolorosa.

Um, em que toda a Majestade Divina é representada no meio daquela atmosfera de pancadas e daquela tempestade de escarros e ultrajes. Outro, em que toda a malícia humana se ostenta na sua hedionda crueza.

O primeiro é um afresco do Beato Fra Angélico, no convento de São Marcos, em Florença.

O Cristo está sentado como um príncipe no seu trono, as dobras da veste pendem-Lhe igualmente de cada lado; a postura é tranqüila: toda a serenidade dos seres superiores. Com uma das mãos segura um cetro de cana, com a outra o globo do mundo: Ele é sempre o Rei do mundo; e em torno dEle há uma cabeça grosseira que saúda ironicamente, uma boca desaforada que cospe, mãos que se agitam para esbofetear, um punho cerrado que se adianta, outro que empunha uma vara para bater. (figura acima)

Calmo, imóvel, Jesus recebe um após outro todos esses ultrajes. Tem os olhos vendados: através do pano percebe-se-Lhe a pálpebra resignada e caída. A boca é triste: tal reflexo de majestade emana porém dAquele ser desprezado, que a gente cai de joelhos e O adora.

Fitemos um instante essa cabeça tão meiga, de olhos vendados. Há nesta venda a intenção dos homens e a de Deus.

A intenção dos homens era um medo e um ludíbrio. Receavam, como dizíamos, escarrando naquele rosto encontrar um dos olhares da Vítima, de tal sorte o olhar do Mestre permanece o olhar de Deus.

E um ludíbrio! Jesus já está amarrado, não tem mais a liberdade das mãos, porém tinha a dos olhares; é preciso suprimir-lha; não se tem mais que uma coisa que se atira de um lado para o outro, que se recambia, com que se brinca, Ele não vê!

A intenção de Deus é mais alta. Jesus cerra os olhos e parece fechar-se no sono e no silêncio de dentro, para mostrar sem dúvida que uma alma atada pelo amor da Santíssima Vontade de Deus deve relegar-se para o interior, viver nesse interior, sem fazer grande conta do que se passa fora.

Mas também para nos lembrar que, se Ele parece dormir, é só por um tempo; sabemos que Ele aguarda nesse silêncio profundo a hora do Seu despertar: “Eu terei o meu dia, terei a minha hora, para mim e para todos os meus eleitos, opressos em aparência por esse silêncio do alto”.

Dizia Ele havia alguns instantes: “Vereis o Filho do Homem, hoje esbofeteado pelos criados e cuspido pelos juízes, vê-lo-eis, vós que O espancais, vê-lo-eis resplandecente de majestade à direita de Deus, Deus Ele próprio! Dies irae, dies illa, calamitatis et miseriae (Sof 1, 15)”.

Nesse dia em que Eu agir”, acrescenta pelo Seu profeta – logo atualmente parece não agir; “Nesse dia em que Eu concluir as minhas obras” – logo, não estão acabadas; “nesse dia em que Eu desfraldar a minha misericórdia e a minha justiça” – logo, elas estão em suspense ou apenas entremostradas; “nesse dia os bons serão a minha posse” – estar nas mãos de Deus, onde melhor refúgio?...

E os perseguidores, os algozes, os ímpios... Onde aparecerão? Devorá-los-ei como o fogo a palha seca e leve.

Então vos volvereis, pecadores: vereis de longe a minha felicidade e a de todos os meus – que cruel e longínquo olhar! E tarde demais compreendereis que diferença há entre o justo e o ímpio, inter servientem Deo et non servientem (Mlq 3, 17).

Eu aguardo, meu Deus, e creio que hei de ver um dia o esplendor dos Vossos bens, na terra onde já não se morre.

Credo videre bona Domini in terra viventium (Sl 26, 18).

O segundo quadro, onde se ostenta toda a crueldade dos homens, realismo pungente, é uma cena de Poussin.

Numa sala baixa, alumiada por tochas ou candeias, os soldados bebem, riem, jogam ou cantam. O ódio e a impureza tem o mesmo rito: traço violento, bestial, que desfigura o homem, destruindo num instante o que a Face Divina nele deixara de Seu cunho.

A um canto, Jesus está sentado, de mãos atadas por trás das costas: postado de perfil, vê-se-Lhe o corpo que se inclina penosamente para a frente. A cabeça inteira está coberta de um pano, um molambo sujo, qual se pode encontrar no meio daquela soldadesca. Alguns soldados e criados se divertem à custa da Vítima. Outros, cansados, puseram-se ao jogo.

Acabam sem dúvida de espancar o Mestre de uma maneira bem interessante, ou a palavra que Lhe lançaram deve ter sido mais pesada, porque os risos são mais grosseiros.

Por sob o véu de dobras pendentes e na atitude do Mestre, adivinha-se a dor, a resignação, o constrangimento íntimo e profundo do coração. As lágrimas devem rolar-Lhe dos olhos.

Ó cabeça vendada de Jesus! Ó zombarias, ó irreverências, ó covardes irrisões, vós consolais os justos oprimidos!

Por trás desse véu, Jesus conhece tudo, vê tudo e julga tudo.

Oculi Domini super justos (Sl 33, 31), os olhos do Senhor seguem os eleitos, e os ouvidos se lhes inclinam abertos ao menor suspiro.

Senhor, por trás do véu lembrai-vos de mim, para minha felicidade. Assim seja.

Memento mei, Deus meus, in bonum. Amen (Esdr 13, 31).

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(“A subida do Calvário”, do Pe. Louis Perroy, SJ)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.

IV- OS ESCARROS E AS PANCADAS

IV- OS ESCARROS E AS PANCADAS


Não há expressão mais viva do asco do que o escarro à face de um homem.

Vai isto ainda mais longe do que a bofetada, parece que se apanha tudo quanto se tem no fundo de si de cólera, de reprovação, de sumo desprezo, para lançá-lo com a própria saliva ao rosto do inimigo.
Mal foi Jesus em casa de Caifás reconhecido réu de blasfêmia, que toda barreira se rompeu em torno dEle.

O Sumo Sacerdote, deixando bruscamente o estrado, rasgou violentamente a veste. Todos os outros juízes sentados em semi-círculo à volta dEle, pularam dos seus assentos. Os dois secretários, ocupados nas duas extremidades em recolher os depoimentos pró e contra o acusado, jogaram fora as suas tabuinhas.

Uma palavra estrondeou como um clamor, pôde-se ouvi-la do átrio: “blasfemou, é digno de morte”.

É um sinal. Alguns dos que estão na sala, juízes sem dúvida, aproximam-se-Lhe logo e Lhe cospem no rosto.

Vendo isto, os criados, os oficiais subalternos já se não contêm: cada qual quer fazer melhor.

De ordinário havia na própria sala do julgamento criados e soldados armados de látegos e de cordas para baterem o acusado ao primeiro sinal. É esta turba que se desenfreia. Breve já não bastam os escarros: esbofeteiam-nO; a bofetada é ainda nobre demais, dão-Lhe socos.

Podiam ser três ou quatro horas da madrugada: empurram Jesus, sempre atado, para algum canto; é Ele recebido por aquela criadagem, passa como um objeto desprezível e desprezado, batido pela frente, batido por detrás, batido ao passar.

Entrementes, os sinedritas se retiraram, com os cumprimentos de praxe; tornar-se-ão a encontrar nos alvores do dia para um novo conselho.

Jesus nesse ínterim é entregue sozinho aos soldados. Sabe-se o que seja uma soldadesca grosseira, de palavreado e gestos asquerosos, a divertir-se brutalmente, bebendo em excesso e tendo duas horas a passar em face de um condenado de marca, decaído juridicamente de grandeza.

Só a meditação do coração, os olhos do amor podem penetrar esses horrores.

 
Sabemos nós, com efeito, até onde tenham podido ir ultrajes contra o meigo Salvador?

Há uma emulação de ódios contra Ele.

Examinemos, interroguemos, experimentemo-lo pelos tratos e pelos ultrajes; disse-se Filho de Deus: vamos a ver se as suas palavras são verdadeiras” (Sb 2, 17-18).

Ademais, Ele está sozinho, abandonado, entregue.
Os juízes, com a aparência sempre temível da legalidade, já não estão lá.

Passa Ele por um sacrílego e por um blasfemador; é um condenado pela mais alta autoridade moral: os Sacerdotes.

Se eram judeus os soldados, bastava isto a explicar-lhes e a cobrir-lhes todos os ultrajes.

Se se lhes mesclavam os romanos, obsequiosamente prestados para a conjuntura, bastava ser Ele judeu e vencido: Roma não costumava sensibilizar-se inoportunamente.

E depois, é noite, e os guardas, quaisquer, estão cansados da sua tarefa, provavelmente enervados daquela faxina suplementar que lhes foi imposta. Portanto, agitam-se, gritam, riem, batem a torto e a direito, e babam nEle.

E bateram só na cabeça? Ou até onde levaram a insolência?...

Batiam-no e diziam muitas coisas contra Ele blasfemando”, nota São Lucas. Sem dúvida escarnecem principalmente o Seu título de profeta, a Sua magia, o Seu poder! É este ponto que se comprazem em repisar, porque vêem esse poder abatido!

Parece porém que o olho dos Profetas tenha sido ainda mais dolorosamente impressionado que o do Evangelista.

Jó exclama: “Arremessaram-se sobre mim como por uma brecha aberta... prostraram-me com as ondas da sua violência... Para eles tornei-me como lama, pó cinza!” (Jó 30, 14.19).

Como melhor pintar a opressão e o aniquilamento?

Abandonei meu corpo aos que me batiam, dizia Isaías, não desviei o rosto... quando escarravam em mim... arrancavam-me a barba, e eu deixava!” (Is 50, 6; 13, 5).

“Busquei em redor alguém para me socorrer; não havia ninguém!”

Ó esta solidão no meio dos inimigos!

Sou como o pelicano no meio do deserto... como a coruja numa casa desolada. Vê-lo, estou sozinho” (Sl 110, 7), insiste Ele.

Finalmente, foi dito: “Será saturado de opróbrios”. Cumpre pois que os tenha todos. Aliás, não é a gente alcoolizada que Ele está entregue? “Os que bebiam escarneciam de mim e me ridicularizavam, compondo cantigas contra mim”.

E alhures: “Tornei-me o objeto das suas trovas... e das suas fábulas” (Jó 30, 9). Advinha-se facilmente o que pudessem ser essas trovas improvisadas...

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(“A subida do Calvário”, do Pe. Louis Perroy, SJ.)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.

III - A MÃO DO CRIADO – A BOFETADA

III - A MÃO DO CRIADO – A BOFETADA

 

Por que será que a bofetada é um ultraje tão sensível à honra de um homem?

Atinge ela o rosto, a parte mais nobre, a que manda, de onde se exala a vida, o amor, e que pode erguer olhos que fitam o céu. Um rosto esbofeteado, mais do que a dor assinala a vergonha e a cólera; é uma diminuição aos próprios olhos e aos olhos dos outros que se sinta um homem esbofeteado.

E esbofeteado por um criado, um réles soldado mercenário!...
A afronta é dobrada.

Jesus está de pé, atado, diante do [ex] Sumo Sacerdote, Anás; afligem-no com perguntas, querem apanha-lo nas Suas próprias palavras. Cercam-no os soldados , os criados do Sumo Sacerdote, turba baixa, bajuladora do amo, que vê seu ganho no fim de tudo. Aliás, têm eles um rancor pessoal contra Jesus, uma vingança privada, pois não foram violenta e ridiculamente atirados por terra, de pernas para o ar, por aquele Jesus no horto? Precisam desforrar-se: fá-lo-ão na primeira oportunidade.

Um dos criados rompe o fogo. Afeta zelo: é uma máscara para lhe encobrir o rancor. Não tem nada a temer e tudo tem a ganhar: Jesus está acorrentado, não poderá aparar o golpe, e o Sumo Sacerdote ser-lhe-á grato por defender assim a sua palavra.

No fundo, nada importa ao Conselho instalado de ver Jesus diminuído por aquela bofetada.

Na fatal progressão do infortúnio, certas etapas não nos permitem mais, uma vez transpostas, tornar à antiga ventura. Só há daí por diante um movimento: aquele que nos arrasta e nos impele para um mais vivo e mais humilhante sofrimento.

Quando o rei Luis XVI, invadido pela escória do seu povo, se viu acuado àquele vão de janela do palácio das Tulherias (20 de junho de 1792) e obrigado, para ceder ao capricho grotesco daquela populaça, a subir a uma mesa como a um tablado, a pôr na cabeça o gorro vermelho e beber um copo de vinho, podia dizer-se que fora um dia a realeza e o seu prestígio protetor e secular. Não se torna de semelhante decadência.

Assim, aos olhos da multidão o prestígio do Cristo está golpeado depois daquela bofetada. Os soldados viram que depois daquele ultraje não houve nenhuma magia, nenhum retruque.

O criado pôde blasonar junto aos outros. Riem-se do caso, aprovam-no, correm a dizê-lo aos soldados que se aquecem no átrio: “Ele acaba de levar uma bofetada valente. Cada qual a seu tempo, havemos de lhe fazer provar muitas outras!”

Entretanto, Jesus sentiu a afronta, e o rubor assomou-Lhe ao rosto. Essa bofetada abre-Lhe a Paixão; após este primeiro ultraje permitirá Ele todos os demais.

Esbofeteia-se a Jesus Cristo – ainda e sempre – quando se toma partido anti e contra Ele, pelos poderes públicos. Por que os Vossos dogmas estreitos? Dizem-Lhe. Por que a Vossa Igreja intolerante? Por que limitar os direitos de César?...

É ainda esbofetear a Jesus o interdizer-Lhe a entrada na sociedade.

Esbofeteamo-lO numa ordem mais íntima quando Lhe exprobramos o opor-nos incessantemente tal ou qual dos Seus mandamentos, e então muitas vezes uma ação torpe esbofeteia a Deus diante dos Seus Anjos e dos Seus Santos: “Deixa-me fazer, eu quero a minha liberdade e o meu gozo”...

Enfim, há cruéis preferências que são bofetadas. Aqui o Sumo Sacerdote é preferido ao Cristo; dentro de horas será Barrabás: outra bofetada. Tudo quanto diminui, rebaixa, avilta, é uma bofetada.

Ó Jesus, eu aceito, em memória daquela estrepitosa bofetada, tudo o que me humilhar em público ou em segredo, e tanto mais quanto de mais baixo e de mais vil do que eu me vier essa bofetada...

No meio das ruínas daquilo que foi a casa de Anás, num pátio onde encontra ainda uma velha oliveira nodosa e gretada, a cujo tronco Jesus teria sido amarrado por alguns instantes, uma lâmpada arde sem cessar no lugar onde um criado do Sumo Sacerdote deu uma bofetada em Jesus.

(“A subida do Calvário”, do Pe. Louis Perroy, SJ)

PS: Recebido por e-mail, mantenho os grifos.

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quarta-feira, 21 de abril de 2010

Sensibilidade da inocência

Sensibilidade da inocência


A Sociedade só pode viver segundo as normas do bem ou do mal. Estas normas podem, no entanto, perder-se. Noutros tempos, os homens sabiam a razão por que qualquer coisa era boa ou má. Podiam apresentar as causas pelas quais os indivíduos que procediam de certa maneira eram afastados da sociedade.

É, no entanto, curioso que a nossa era esqueceu as razões. Bem e mal são largamente tratados como casos de sentimento, e até quando se diz que alguma coisa é "má em si", como o homicídio, parece que poucos serão capazes de dizer a razão por que assim é, de fato. A moralidade fica assim reduzida a qualquer coisa de tão pessoal como o paladar; o espírito, à semelhança do estômago, prefere o bem ao mal, como se estivesse a preferir pepinos de conserva, em vez de pepinos frescos.

"Tudo depende do nosso ponto de vista".

Tucídides, o antigo historiador grego, ao falar da luta de classes em que a sua sociedade degenerara, observou:

"O significado das palavras já não é o mesmo em relação às coisas, pois alteraram-no, conforme muito bem lhes pareceu. Ao atrevido e ousado, atribui-se coragem leal; a demora prudente é desculpa para a covardia; a moderação, o disfarce da fraqueza do homem efeminado; a energia frenética, a verdadeira qualidade do homem. O conspirador que precisa de se pôr a salvo, é um traidor disfarçado; o amante da violência é sempre digno de confiança, e o seu antagonista é suspeito".

Os falsos princípios que se ocultam por detrás desta teoria do sentimento do bem e do mal são deveras evidentes: em primeiro lugar, sustenta-se que toda e qualquer experiência reverte em benefício do indivíduo, quer se trate de experiência sexual, política, social ou economica. A experiência não contribui para a salvação de quem quer que seja, porque ela não é mais do que o próprio "eu".

Em segundo lugar, se tentarmos ser os juízes da nossa própria experiência, esse julgamento será feito numa base - é se ela é, ou não, realmente agradável ao nosso "eu", "se nos proporciona bem-estar, é porque está bem".

Finalmente, desde que o prazer, ou emoção, ou utilidade são os únicos padrões do julgamento, segue-se que, quanto mais intensa for a emoção, ou maior for a utilidade de qualquer coisa, tanto melhor ela será para o nosso "eu".

Em contraste com este aspecto, comparemo-lo com aquilo que pode chamar-se a sensiblidade da inocência. Esta sensibilidade não representa ignorância, nem tão-pouco "não se ter vivido". É então um conhecimento do que é bom e verdadeiro porque se evitou o que era falso e mau.

O gramático que conhece o bom estilo, é deveras sensível aos erros de ortografia ou de linguagem; o médico é sensível à doença e a qualquer desvio das normas da saúde; o filósofo pode descobrir rapidamente um processo de falso raciocínio; o regente de uma orquestra, embora tenha diante de si um grande número de músicos, ouve a nota errada desferida pelo instrumento mais pequeno e mais insignificante.

E porque assim é também na ordem moral, quando a Divina Inocência se sentou à mesa com um traidor, disse: "Um de vós está prestes a atraiçoar-me". A Santidade descobre rapidamente as manobras ocultas.

A reação instintiva das crianças boas para o mal não provém do raciocínio prematuro, mas sim da maturidade da sua inocência. Os julgamentos da inocência e da pureza são absolutamente diferentes da suspeita.

Esta pode ser muitas vezes um reflexo das próprias faltas. "Não julgues e não serás julgado". Os pecados que muitas vezes condenamos no próximo são aqueles que secretamente mais no dominam ou constituem a nossa maior fraqueza. A pureza nunca é desconfiada, mas procura terreno onde possa depositar a sua confiança.

Ela tem um poder de apreensão, penetração, uma vista interior e uma capacidade de compreensão psicológica que não é dada àqueles que se encontram já contaminados pelo mal.

Quantas vezes uma criança julga mais corretamente um visitante do que os próprios familiares, embora estes sejam adultos. A inocência permite-lhes descobrir um defeito que aos menos inocentes passa despercebidos.

Os adultos que renunciaram à prática da virtude têm muitas vezes receio da inocência, não pelo temor de a contagiar, mas sim porque se sentem inconscientemente condenados pelos inocentes.

Quando o Salvador disse, na Última Ceia "um de vós está prestes a atraiçoar-me", todos perguntaram: "Sou eu?" Perante a inocência, ninguém está seguro da sua virtude.

Uma sociedade que necessita de cura e regeneração, a maior parte das vezes recebê-las-á das mãos da inocência. O puro pode olhar o impuro sem desprezo. Foi a Inocência Divina que perguntou a uma pecadora: "Onde estão aqueles que te acusam?" Não havia, pois, condenação nas palavras de Aquele que era a Retidão personificada; assim, também as asas do inocente abrigam compaixão, remédio e perdão.

(Excertos do livro: Paz de Espírito, do Arcebispo Fulton J. Sheen)

PS: Grifos meus

Donzela cristã e a economia

Donzela cristã e a economia


O ouro e os bens temporais, principalmente, têm sem dúvida a sua grande importância para cada indivíduo, para a família e para a vida social. Se o cristão, antes de mais nada, deve dirigir seus cuidados para a consecução dos bens celestes, não pode, todavia, mostrar-se indiferente aos bens terrenos e temporais.

Há de esforçar-se por adquiri-los pelo emprego de meios lícitos e de maneira justa, deve sobretudo usar deles conscienciosamente, e de acordo com a vontade de Deus. Não pode, portanto, dissipá-los; cumpre que os empregue com economia.

Sobre a economia desejo agora dar-te uma breve instrução.

1º - A religião cristã exige de ti a economia.

A economia pertence ao número das virtudes que são mais desprezadas e criticadas. Quem não sabe distinguir devidamente a sua renda e as suas despesas e por isso nunca "chega a um ramo verde" (como dizem os alemães), é precisamente o que murmura da economia daqueles que a aconselham e os difama como sovinas.

Eis porque não raro acontece que a gente se envergonha da economia e procura escondê-la quanto possível aos olhos do mundo. No entanto, ela merece, como as outras virtudes, todo apreço e cumpriria que a praticassem fiel e retamente todos os cristãos. Sim, mesmo os ricos, até os milionários, devem ser econômicos, naturalmente de maneira diversa da dos burgueses comuns.

O Cristianismo exige de todos nós uma sensata economia. Diz-nos que Deus é o altíssimo Senhor e Proprietário dos nossos bens terrenos, dos quais só nos confiou o uso e administração.

Nesta administração e neste uso devemos acomodar-nos à sua vontade infinitamente santa e sábia, que sem dúvida reprova uma dissipação leviana e insensata dos nesmos bens, e que será denunciada, perante o Seu divino tribunal.

Eis porque prescreve a Sagrada Escritura: "Tudo quanto entregares conta e pesa: e tudo anota do que deres e receberes". (Ecli. 12,7). E assim nos exorta outro passo: "No tempo da abundância, lembra-te da pobreza, e das necessidades da indigência no dia das riquezas". (Ecli. 18,25).

Mas, ainda mesmo, no tempo em que possuímos grandes riquezas e abundâncias, não devemos ser arrogantes e perdulários, cumprindo-nos antes pensar nos pobres e necessitados.

O próprio Divino Salvador, certa vez numa ocasião solene, publicamente recomendou a economia. Acabara de saciar milagrosamente, no deserto, uma multidão de 5.000 pessoas, mais ou menos; disse depois aos Seus discípulos: "Recolhei os pedaços que sobejaram, para que não se percam" (Jo. 6,12).

A que vinha esta ordem do Senhor, esta solicitude por aqueles fragmentos? Teria podido abandoná-los àquela gente, para que fizessem de tais restos o que bem quisessem. No entanto Ele mesmo justifica a Sua ordem com estas palavras: "para que não se percam".

Cuidado e carinho com o que é pequeno, atenção para o que é pouco, prudente economia, é o que Ele queria incutir, daquele modo, no coração de todos nós.

2º - A economia cristã é uma virtude útil e cheia de bênçãos para a vida doméstica.

Preserva, primeiro, a família de muitos embaraços. Nem sempre o sol brilha claro e alegre. Para muitos lares chegam também os dias graves e tristes, ocasiões em que os negócios não prosperam como de costume e as fontes de renda se vão secando cada vez mais, horas em que a doença ou acidentes imprevistos exigem maiores gastos. Que bom não será então se, pela economia e previdência, se houver guardado alguma coisa!

Ao contrário, que grande não será o aperto e até mesmo a desgraça, se nos dias de prosperidade não se houver pensado na economia, mas somente em viver à larga!

A economia conduz também à riqueza.

Uma gota une-se a outra gota, e assim se forma o regato; um grão de areia junta-se a outro, e deste modo se levanta a colina. Um centavo acrescenta-se a outro centavo para perfazerem uma bela soma.

Com um cajado, que representa todo o seu cabedal, transportou-se o Patriarca Jacó por sobre as águas do Jordão para um país estranho, e volvidos alguns anos, enriquecido, com dois grandes e preciosos rebanhos, tornava à sua pátria. Por onde se vê que, se alguém começou a economizar tostão a tostão, chegará finalmente, a uma considerável abastança.

"Os bens que se colhem pouco a pouco, multiplicar-se-ão" (Prov. 13,11).

A economia cautelosa tem um alto valor moral. Não reúne apenas bens materiais, mas ainda proporciona vantagens morais. Conserva a família na honestidade e na ordem; preserva-a de leviandade, fazendo-a evitar gastos desnecessários; garante-lhe certa alegria e confiante disposição, pelo aumento cabedal; faculta-lhe aquele espírito de indepêndencia, que é o sinal de uma livre e forte burguesia.

Econômicos e frugais não se resguardarão os filhos adultos de todos os perigos, em que, desgraçadamente naufragam tantos? Refiro-me sobretudo aos gozos e prazeres desordenados, ao luxo excessivo e paixões que consomem tanto dinheiro e desbaratam ainda mais as forças morais.

A família, onde reina uma prudente economia, não está em melhor condição de praticar as obras cristãs de misericórdia? Quantos auxílios não poderiam dispensar aos indigentes, às igrejas pobres, às missões, ou a outros fins nobres os que quisessem evitar gastos de todo supérfluos?

De maneira que não é somente para a administração, mas, ainda para a vida moral, religiosa e social qu tem a economia sua alta importância, tão mal conhecida infelizmente.

3º - Como adquirir o hábito da economia?

A economia deve, antes de tudo, ser razoável. Cumpre, pois, examinar onde e quando se há de eonomizar ou não. Os gastos para tudo o que requer uma vida social são razoáveis, como também para o que proporciona descanso e recreio moderados, são plenamente autorizados e permitidos, contanto que se tenha em vista a posição social e as possibilidades do capital.

São, pelo contrário, proibidos todos os gastos feitos apenas para desafogo de uma inclinação pecaminosa, de um luxo exagerado, para satisfação de prazeres excessivos, e sobretudo, de paixões baixas. Não esbanjes no luxo exagerado e no prazer ilícito as tuas riquezas.

Enquanto permaneceres em casa de teus pais, deves também ajudá-los a economizar. Portanto, nada exijas que lhes seja difícil fazer ou conceder, ou que exceda as suas posses. Não os atormentes com pedir-lhes vestidos, adornos e diversões que não podem satisfazer, por lho vedar o dever de uma sensata economia.

Do que te dão, usa também com cuidado, para que em pouco tempo se não deteriore e seja preciso reformá-lo. Quantos pais não lamentam as pretensões das filhas, que estão sempre a transpor os limites, com suas ambições descomedidas!

Há razões sobejas para se censurar estudantes que vivem à larga nas academias, enquanto os pais carecem do necessário em casa. Não merecem igualmente grave censura as filhas que, com suas exageradas pretensões em matéria de apresentação externa, obrigam os pais a verdadeiras privações?

A tua economia há de ser, em segundo lugar, sobrenatural. Deves praticá-la, não por afeição desordenada ao dinheiro e aos bens terrenos, mas por um princípio superior, isto é, para cumprires fiel e conscienciosamente a vontade de Deus, que um dia te pedirá conta da administração e do uso dos bens terrenos.

Ainda que rica e opulenta, não penses nem diga jamais: por que fazer economia? não preciso de economia; tudo tenho em abundância.

Convence-te de que também tu, que és rica, darás conta a Deus do reto uso dos teus bens.

Finalmente seja a tua economia amorosa e benéfica. Certo que, em fazendo economia, deves pensar no futuro e empenhar-te em cuidar dele. Deves querer também, por meio de economia, aumentar os teus haveres, de maneira justa e reta; ser-te-á, porém, meritório, se empregares para fins de beneficência, parte das tuas economias.

Se fores econômica, bem depressa estarás em condição de auxiliar os outros e tornar-te benfeitora ainda que menos rica.

As obras de caridade cristã: igrejas, hospitais, abrigos para os pobres, estabelecimentos de instrução, etc., são fundados e mantidos ordinariamente com os donativos da economia. Para poderes, portanto fazer o bem, sê econômica.

No governo da tua vida, pensa numa sólida parcimônia e moderada simplicidade; nada deixes sem a devida atenção e evita os gastos supérfluos, até mesmo nas coisas pequenas coisas, pois na consideração destas pequenas coisas está o segredo da economia.

(Excertos do livro: Donzela cristã, do Pe. Matias de Bremscheid)

PS: Grifos meus

terça-feira, 20 de abril de 2010

Como se venera Santa Filomena

Santa Filomena


Como se venera Santa Filomena

O seu cordão

Desde os inícios da devoção a Santa Filomena, o uso do seu cordão foi um dos vários meios pelos quais ela foi venerada e a sua proteção assegurada.

Sabemos, por exemplo, que o próprio santo Cura de Ars, o benzia e distribuía. A Confraria do Cordão de Santa Filomena está agora aprovada pelo Congregação dos Ritos e enriquecida com muitas indulgências.

O cordão é branco e vermelho e pode ser feito com fios de linho, de lã ou de algodão, mas entretecidos de modo que seja quase igual a percentagem das duas cores, - uma simbolizando a virgindade e outra o martírio.

O uso do cordão tornou-se muito popular porque foi o meio pelo qual se produziram inúmeros milagres e se alcançaram milhares de curas. É usado pelos doentes, pelos atribulados ou pelos que se encontram em luta com alguma tentação perigosa, e opera os mais admiráveis resultados.

É uma proteção contra os males e acidentes de toda a espécie. A fórmula de benzer o cordão é a que se encontra no Ritual Romano...

Atestados como os seguintes são inúmeros.

A Superiora de um convento muito conhecido afirma:

"Santa Filomena é verdadeiramente milagrosa. Durante os últimos quatro anos tenho dado o seu cordão a um grande número de doentes, incluindo alguns membros da nossa própria comunidade. Todos se curaram, exceptuando apenas dois ou o máximo três; e nestes últimos casos parecia bem evidente que a melhor coisa para eles era irem para Deus".

A Madre Superiora do Convento da Reparação em C... declara:

"Há uns poucos de anos que eu recorro a Santa Filomena em todas as minhas aflições. Estive ameaçava de sofrer uma operação de muita gravidade, mas cingi o seu cordão, e graças a Deus, não precisei já de ser operada. Agora imploro-a por tudo".

Uma senhora diz:

"A minha confiança em Santa Filomena é enorme. Não deixo nunca de recomendar a sua devoção. Estive gravemente enferma e coloquei o seu cordão que me restituiu a saúde".

Um sacerdote declara igualmente:

"Estive muito doente e tinha sérios motivos para recear as mais graves conseqüências do meu mal. Coloquei o cordão de Santa Filomena e fiz a promessa de promover a sua devoção. Foi o bastante; logo nesse mesmo dia me senti capaz de me levantar".

Ouçamos agora uma religiosa:

"Uma das nossas educandas caiu perigosamente doente e ameaçavam-na as mais graves complicações. Colocamos o cordão de Santa Filomena à pequenina padecente que experimentou imediatamente alívios; e dentro de poucas horas, todo o perigo tinha desaparecido".

Crianças que têm sido cingidas com o bento cordão da Virgem Mártir foram maravilhosamente preservadas dos inúmeros males e acidentes a que está exposta a infância. Bem fariam as mães em adotar para os seus filhinhos o uso deste abençoado cordão.

O Azeite de Santa Filomena

O azeite que serviu nas lâmpadas acesas diante da Imagem de Santa Filomena, é muito vulgarmente utilizado pelos doentes como vimos no caso de S.Gervásio em Paris. Há quem unte com ele os olhos e recupere a vista. Outros ungem com ele os membros que readquirem perdidas forças ou os ouvidos que voltam a ouvir. O azeite retirado de alguma lâmpada que arda diante de Santa Filomena pode, portanto, ser assim usado.

A Coroa de Santa Filomena

A coroa de Santa Filomena é formada por contas brancas, imagens da virgindade e contas vermelhas, simbolizando o martírio. Tem três contas brancas em honra da Santíssima Trindade, para glória da qual a Virgem Mártir renunciou à vida. As contas vermelhas são em número de 13 e significam os treze anos que Santa Filomena viveu no mundo.

Este rosariozinho é uma das mais simples formas de rezar à Santa. Ao recitá-lo, com toda a propriedade podemos pedir, em primeiro lugar, a graça da pureza, em honra da virgindade da Santa que sacrificou as honrarias e a vida na defesa desta angélica virtude.

Em segundo lugar, bom é que peçamos força e coragem para fazermos o nosso dever, virtude em que ela se distinguiu eminentemente e que ela com tanta solicitude alcança para todos os seus devotos fervorosos.

Só esta grande e preciosa graça ajuda um cristão a atingir a mais alta santidade pelo caminho mais prático e mais curto.

Novenas (clicar "aqui" para obter a novena de Santa Filomena)

As novenas a Santa Filomena podem ser feitas recitando a bonita Ladaínha da Santa com o acompanhamento das orações que estão impressas em forma de pagela. Quando a intenção é muito importante, convém assistir à Missa e comungar durante os nove dias. Também se alcançam resultados maravilhosos mandando rezar uma novela de Missas de súplicas.

Medalhas

Muitos devotos depositam grande confiança no uso das suas medalhas bentas. Alcançam-se facilmente e são muito lindas. À semelhança de todos os outros objetos usados em comunhão com a Santa, são da maior eficácia. Têm a especial vantagem de se usarem facilmente e podem trazer-se na algibeira ou suspensas das contas.

Os Quadros de Santa Filomena

Nota: A figura desse post se impressa em uma boa impressora e emoldurada, torna-se um simples quadro.

Graças preciosas têm sido alcançadas com a veneração de quadros que contêm a imagem da Santa. Muitos benefícios têm sido concedidos àqueles que conservem uma lâmpada acesa diante do quadro, ainda mesmo que só a acendam durante um dia cada semana.

É bom colocar estes quadros perto dos doentes e sugerir-lhes as extraordinárias vantagens de rezar com profunda confiança a esta grande Santa cujo poder se tem manifestado muito especialmente a favor dos enfermos e dos inválidos. Curas sem conta se produzem dia a dia, concedidas em resposta a simples, mas confiantes preces dos seus fervorosos devotos.

Não podemos lembrar ato algum que, sem dúvida, mais agrade à Santa e mais nos assegure a sua proteção do que oferecer esse quadro ou essa estátua, a sua imagem a alguma Igreja ou a algum convento, onde se possa estabelecer um centro da sua devoção.

Muitos dos seus grandes santuários tiveram este simples início.

(Excertos do livro: Santa Filomena a Grande Milagrosa, por E.D.M)

PS: Grifos meus.

O Caminho da Cruz (Santa Teresa de Jesus)

O Caminho da Cruz


O consolo e a vida estão,
Só na Cruz;
E ao Céu é a única senda
Que conduz.

Está na Cruz o Senhor
De céus e terra,
E o gozar de muita paz
Em plena guerra.
Todos os males desterra
Do mundo, a Cruz.
E ao Céu é a única senda
Que conduz.

Da cruz é que diz a Esposa
A seu Querido,
Que é a palmeira preciosa
Aonde há subido;
Cujo fruto lhe há sabido
Ao seu Jesus.
E ao Céu é a única senda
Que conduz.

A santa Cruz é oliveira
Mui preciosa,
Seu óleo nos unge e inunda
De luz radiosa;
Ó minh'alma, pressurosa,
Abraça a cruz:
E ao Céu é a única senda
Que conduz.

É o madeiro verdejante
E desejado
Da Esposa, que à sua sombra
Se há sentado,
A gozar de seu Amado,
O Rei Jesus.
E ao Céu é a única senda
Que conduz.

A alma que a Deus totalmente
Está rendida,
Bem deveras deste mundo
Já desprendida,
Árvore de gozo e vida
É a santa Cruz,
E ao Céu é a única senda
Que conduz.

Desde que na Cruz foi posto
O Salvador,
Só na cruz se encontra glória,
Honra  louvor;
Vida e consolo na dor
Dá-nos a cruz,
E ao Céu é a única senda
Que conduz.

(Santa Teresa de Jesus)

As ocasiões perigosas - Teatro (Parte final)

Perigos do Mundo
As ocasiões perigosas - Teatro
(Parte final)


Teatro

Geralmente é imoral

Mesmo quando ele não fosse (e o é com freqüência) o acionamento de uma tese contrário aos princípios de uma santa moralidade, ainda quando não se achasse nele senão a pintura viva de costumes condenáveis, o jogo dramático das paixões humanas mais arrastadoras, nem por isso o teatro deixaria de ser um divertimento dos mais perigosos para uma jovem cuidosa de não criar de propósito, para a honestidade de sua vida, perigos e inextricáveis dificuldades.

As máximas mais falsas são nele correntemente aplaudidas, as paixões mais baixas são exaltadas, todas as desordens são pintadas e todas as fraquezas desculpadas. Nele ridiculariza-se por vezes a virtude ou procura-se torná-la odiosa; em compensação, o vício muitas vezes é coberto de flores. As instituições mais santas, os deveres mais sagrados da família e da sociedade são nele tratados com uma leviandade voluntária e um escandaloso desprezo. Como não haveriam tais espetáculos de ser condenados pela moral?

É uma ocasião de pecado

Tudo o que nele se vê e tudo o que nele se ouve é de natureza a leval ao mal. Os assuntos que nele se tratam são, muitas vezes, arriscados, os costumes que nele se vêem, a sociedade que nele se acotovela, aqueles cenários, aquelas luzes, aquela música, aqueles relatos apaixonados, aqueles enredos amorosos, tudo isso produz na imaginação de um jovem, no seu organismo sensível e nervoso, uma superexitação que cedo triunfará da sua consciência.

Não se pode ir ao teatro sem voltar dele com a mente perturbada, a vontade enervada, e os sentidos cheios de impressões molestas. Como poderia uma virtude, mesmo sólida, resistir a isso longo tempo?

"Não é verdade que o teatro fala a todos os sentidos ao mesmo tempo, fazendo-os solidários uns dos outros, afagando-os, exaltando-os, embriagando-os por todos os artifícios, arrancando-os a todo controle de pensamento refletido, exasperdo a nossa impressionabilidade pela luz, pelo ruído, pela atmosfera superaquecida e pelo contágio da multidão?"
(Eymieu)

E isso não é um perigo, um grande perigo? Esses sentidos que deveis acalmar, dominar, subjulgar, coisa às vezes difícil, iríeis, de pleno gosto e sem necessidade conduzi-los a semelhante embriaguez?

O que dele pensaram os próprios autores

Alexandre Dumas, autor de tantas peças de teatro, declara: "O teatro só imoral pode ser, nele se vêem e se dizem coisas que as jovens não devem nem olhar nem ouvir. Uma mãe prudente nunca deve ir a ele, e ainda menos a ele levar uma filha."

Jean-Jacques Rousseau, esse pensador tristemente célebre, escreveu: "A gente se arrepia à simples idéia dos horrores com que se enfeita a cena francesa. Sustento-o, e tomo por testemunha o espanto dos leitores; as matanças dos gladiadores eram menos bárbaras. Nelas fazia-se correr o sangue, é verdade, mas não se manchava a imaginação com crimes que fazem fremir."

Corneille inquietava-se muito com a responsabilidade que faziam pesar sobre ele as suas obras dramáticas, e no entanto soube dar nas suas tragédias admiráveis lições de grandeza de alma.

Racine teve os mesmos remorsos.
Quinault fez penitência severíssimas para redimir o mal que podia ter produzido pelas suas óperas.
Loulli morria sobre a cinza, gemendo à lembrança das suas composições musicais.

E no entanto todos esses autores não tinham tido uma musa desavergonhada! Essas inquietações e esses pesares dos mestres da cena dizem-nos muito sobre os perigos que nesta se encontram.

Por que o teatro é tão perigoso

Aqui deixemos falar o grande Bossuet:

"O amor, esse amor profano, culpado, é o fundo de todas as ficções teatrais! Torcei-o a vosso talante, dourai-o à vossa fantasia, é sempre a concupiscência da carne! o espetáculo empolga os olhos: os discursos, os cantos apaixonados penetram o coração pelos ouvidos. Às vezes a corrupção vem em grandes ondas; às vezes insinua-se como que gota a gota, e, no fim nem por isso se fica menos submerso, tem-se o mal no sangue antes que ele se declare pela febre. Debilitando-nos pouco a pouco, colocamo-nos num perigo evidente de cair, e essa grande debilitação já é um começo de queda. Tudo nele é perigoso. Acham-se nele insinuações imperceptíveis, sentimentos fracos e viciosos; nele se dá uma secreta isca a essa íntima disposição que amolenta a alma e abre o coração a todo o sensível; não se sabe bem o que se quer, mas afinal quer-se viver da vida dos sentidos."
(Máximas e Reflexões sobre a Comédia)

Todos os dias dizeis na vossa oração:

"E não nos deixeis cair em tentação", e de gosto vos iríeis lançar nela por vós mesmas? Tanto valeria dizer a Deus: Meu Deus, vou-me atirar ao fogo, fazei que ele não me queime! Ora, não se zomba assim de Deus.

Digam o que disserem, o teatro não é um lugar de reunião favorável para a donzela. Com efeito, faz perder o gosto da vida séria e faz sentir desgosto pelo recesso familiar, simples demais. No dia seguinte ao em que uma donzela tiver ido ao teatro, podeis estar mais ou menos certo de que ela bocejará à mesa, e de que não será só de fadiga. A peça e os personagens da peça dançar-lhe-ão diante dos olhos.

Aquele herói, aquele príncipe encantador que já lhe aprazia tanto no romance, quando a sua imaginação o vestia como melhor podia, eis que ela o viu sob a luz dos lustres, na seda e no cetim, com cabelos cacheados como nunca e com uma tez tão viva que ao pé dele as rosas empalideceriam. E ele falou, e sorriu, e, se é verdade que ela talvez não tenha vontade de tornar a encontrar o próprio ator, assaz verossímil é amar de bom grado alguém que se pareça com ele.

É preciso, também, dizer uma palavra do Cinema, visto como, nos nossos dias, é este o maior agente de vulgarização, de instrução pela imagem, de distração, e de desmoralização também!

De todos os divertimentos oferecidos ao povo, o Cinema é certamente um dos que mais fascinam! É a distração popular por excelência; as pessoas nele se precipitam todos os dias com uma espécie de frenesi!

A sucessão de suas cenas animadas, as imagens que passam sob os olhos dos espectadores permitem-lhes facilmente dar o impulso à imaginação. Esta chega, às vezes, até à sugestão, que (como vimos) pode induzir até à imitação.

A crônica dos tribunais aí está para no-lo dizer. Não nos devemos, pois, admirar-se, mesmo com filmes em si mesmos irrepreensíveis, o cinema muitas vezes realiza uma verdadeira obra de desmoralização. Servindo de ilustração viva a uma quantidade de romances nem sempre bons, o Cinema não pode deixar de influir de maneira nefasta na formação moral da juventude.

A ele se pode atribuir a baixa evidente do nível moral que se traduz pelos progressos crescentes de uma lamentável indiferença por tudo o que diz respeito ao dever, á consciência e à religião.

O Cinema poderia ser uma escola de moral. Há filmes que revolvem o que na alma há de mais nobre e de mais belo, e tem havido filmes realmente bons, moralizadors, alguns até de orientação católica.

Mas o resto?... o Cinema de todos os dias!...
Menina, tomai cuidado com o filme envenenador!

(Excertos do livro: Formação da donzela, do Pe. J. Baeteman)

PS: Grifos meus

segunda-feira, 19 de abril de 2010

ESPECIAL: Sol Eucarístico e Trevas protestantes

Nota: Transcreveremos no decorrer desse ano, o excelente livro do Pe. Julio Maria - Missionário de Nossa Sra. do SS. Sacramento.
PS: Esse livro foi digitalizado ver AQUI (atualizado dia 16/08/2011)

Sol Eucarístico e Trevas protestantes


Réplica a um panfleto:
"Abuso de um dogma"
Contra os Congressos Eucarísticos
pelo
Padre Julio Maria
(Missionário de Nossa Sra. do SS. Sacramento)
Typ. do "O Lutador" 1937
_______________________________

Índice

Capítulo I - A presença real.
Capítulo II - Absurdos na interpretação da Bíblia.
Capítulo III - Ignorância e verdade.
Capítulo IV - Absurdos da ignorância.
Capítulo V - Protestantização dos Doutores Católicos.
Capítulo VI - O Sacerdócio católico.
Capítulo VII - O dogma Eucarístico.
Capítulo VIII - Congressos Eucarísticos.
__________________________________

Introdução

A grande, entusiasta e sublime manifestação da fé, que os católicos brasileiros realizaram em Belo Horizonte, por ocasião do Congresso Eucarístico, fez ferver a bílis protestante.

A grei de Lutero ficou desesperada. Espalhou boletins, convocou reuniões, e até nas ruas daquela cidade houve berraria de hinos, discursos de ignorantes, ataques, revoltas contra a horrenda idolatria romana. A imprensa protestante gemia sob o peso dos panfletos e pasquins; os pastores, possessos, gritavam, pregavam, atordoados pelo triunfo de Jesus-Eucaristia.

Durante este tempo, calmos e recolhidos, desprezando a zoada de Satanás, os católicos, em toda as cidades e sobretudo na Capital mineira, exaltavam a Hóstia divina, proclamavam o triunfo da Eucaristia... enquanto milhares e milhares de homens de todas as classes da sociedade, o Governador do estado, senadores e deputados na frente, aproximavam-se da Mesa Sagrada, para ali receber o "pão dos anjos", o Cristo vivo na Hóstia Sagrada.

Um jato de raiva, de ódio, saiu do inferno; Satanás furioso acendeu chamas e faíscas nos corações de seus emissários; e eis a onda fumacenta do ódio protestante, em vargas furiosas a querer inundar o Brasil com jornalecos incendiários!

É bom sinal!

Quando o demônio está furioso, é porque as coisas não andam bem de seu lado. Quando os protestantes trabalham, lutam, escrevem, é porque a sua tristíssima seita de ódio está periclitando, está em debandada, em perigo de ser submergida pela Verdade evangélica, que ela tão miseravelmente falsifica, materializa e blasfema.

Pobre protestantismo!... está tão apodrecido!...

As suas bases estão tão carcomidas, que ameaçam ruínas de todos os lados. Como disse muito bem o Salvador, é uma casa construída sobre a areia movediça das paixões, sem alicerce, e em conseqüência sem firmeza (Mat. VII. 24). A casa edificada por Lutero está prestes a cair, e a sua ruína será grande.

Não se admire pois os católicos dos gritos dos pastores protestantes; são gritos de desespero numa causa perdida. Dêm-lhes o desprezo que merecem, e lancem ao fogo os imundos ataques e calúnias que espalham por toda parte! Deste desespero saiu uma brochura... brochura desesperada e suja, naturalmente, pois do lamaçal só póde sair lama.

Um pobre pastor presbiteriano quis mostrar a sua sabença e pretendeu refutar o dogma católico da Eucaristia.

É muita audácia!
É sobretudo sinal de muita ignorância!

***

O ilustre e zeloso Vigário Capitular de Caratinga, Monsenhor Aristides Rocha, acaba de enviar-me tal brochura protestante. É intitulada: "Absurdos de um Dogma, ou, resposta aos Congressos Eucarísticos", por A. F. Nobre.

Conhecia já tal brochura; a casa editora teve a gentileza de enviar-me o trabalho; percorri-o com calma e o achei tão miserável, tão calunioso, tão mesquinho, tão ignorante, que nem sequer a idéia me veio de refutá-lo. Baba não se refuta: basta a vassoura, creolina e água.

O pasquim do sr. Nobre, que é pastor presbiteriano no Rio de Janeiro, não passa de baba e nos revela apenas duas coisas:

1. A ignorância e a má fé do escritor.
2. A nulidade dos estudos de exegese e teologia, que se faz em tal seminário presbiteriano do Rio, onde o sr. Nobre recebeu o anel de bacharel em teologia!...

Pobre de anel!...
Pobre de anelado!...

Só mesmo sendo da família dos anelidios, ou anélidos, como as minhocas e as sanguesugas.

É preciso coragem de soldado e paciência de anjo, para ler uma tão monstruosa peça de ignorância e de má fé. Refutar tudo isso é perder tempo, pois precisava começar pela base e dar ao escritor umas noções de exegese e de filosofia, que parece ignorar completamente.

O que é mais interessante e demonstra ainda mais a ignorância do doutor protestante é que pretende interpretar a doutrina católica sobre o dogma da Eucaristia, ignorando por completo o ensino da Igreja a este respeito.

O homem cita trechos católicos e com estes trechos interpretados a seu sabor, fabrica uma fábula que combina com outras fábulas, falsifica e dá a sua falsificação como a pura doutrina católica. Depois começa a discutir com argumentos filosóficos, científicos, teológicos, sem quase saber o que é filosofia, ciência e teologia, sobretudo sem saber formar um silogismo.

E tudo isto chama-se: "Os abusos de um Dogma!".

Não, meu caro protestante: tudo isto é apenas o absurdo da ignorância protestante, ou o absurdo da mania de contradizer o ensino católico. Tudo o que o valente presbiteriano foi plagiando, reproduzindo e imitando dos outros autores protestantes e adulterando do pensamento de autores católicos, póde ser reduzido a uma frase: obsessão em contradizer a Igreja Católica.

Não vou responder-lhe: o seu livreco não merece uma resposta, mas vou refutar todas as suas asneiras e ignorâncias, reproduzindo aqui uns artigos escritos no "O Lutador" e uns dois capítulos já publicados sobre o mesmo assunto.

O amigo protestante julgou ter inventado a pólvora: não inventou nem sequer o carvão.

Todos os argumentos aduzidos já foram apresentados por outros, e mil vezes pulverizados pelos católicos. Eu mesmo, em diversos livros, refutei todas estas tolices provenientes da ignorância, ou então da má fé, triste herança de seu pai Lutero.

Leiam os católicos esta brochura, que é pequena, simples, mas creio: clara, documentada e baseada sobre o texto óbvio da Sagrada Escritura. E se o sr. Nobre ler também estas linhas, com um coração reto e um espírito desprevenido, estou certo que mudará de idéia, e, em vez de blasfemas a instituição divina da Eucaristia, se prostrará de joelhos, para adorá-la... e talvez para recebê-la um dia, conforme a prescrição divina: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. (João VI. 54)

P. Julio Maria  D.N. SS.

Perigos do Mundo - A dança

Perigos do Mundo
As ocasiões perigosas - A dança
(Segunda parte)

A dança

O que ela é do ponto de vista filosófico

Um prelado assim se exprime:

"O Espírito Santo falou justo quando chamou à dança "uma vertigem, uma loucura". Para apreciar bem essas pessoas que têm a paixão de rodopiarem e de fazerem momices compassadas, há só que as olhar tampando os ouvidos. Lord Byron compara os valsantes a "dois besouros enfiados no mesmo alfinete, em torno do qual giram, giram, giram". Nunca, a não ser por motivos pouco definíveis, poderá a razão explicar-se que vantagem acha uma mulher sensata em fazer o exercício de uma enceradora de assoalhos, nos braços de um valsante que não é seu marido nem seu irmão."

O que ela é do ponto de vista moral

Continua ele:

"Sabereis, jovens, como proceder quando vós mesmas tiverdes filhas grandes a vigiar. Enquanto isso, deixai-me lembrar-vos a palavra de Job: "Os filhos dos homens gostam de saltar para se alegrarem ao som dos tamborins. E, enquanto se entregam aos transportes da sua alegria, descem ao inferno." O texto original não diz precisamente "descer", mas "escorregam e caem de repente". De fato, embora não se cometa necessariamente um pecado mortal por dançar, o diabo que marca o compasso bem sabe aonde quer conduzir os dançarinos. Esses assoalhos encerados sobre os quais desliza facilmente são a imagem fiel do terreno perigoso em que a pessoa se acha."

Num baixo relevo da igreja de Tinay, representa-se a degolação de São João Batista. Vê-se nele, de um lado, Salomé que dança, e do outro Satanás que toca violino. Nossos avós tinham razão. Quantas pobres moças, pelo atrativo do baile, viraram Salomés!...

O que ela é aos olhos dos que vêem claro

Mesmo entre "as pessoas do mundo", algumas se acham que ficam impressionadas com os perigos da dança e não hesitam em desvendá-los. Uma mulher do mundo dizia: "Uma dança me bastou para compreender o perigo dos bailes."

... Um célebre cortesão de Luis XIV:

"Sempre achei os bailes perigosos; e o que me levou a crê-lo não foi só a minha razão, foi também a minha própria experiência. Os temperamentos, mais frios nela se esquentam; e toda essa juventude que já tem tanta dificuldade em resistir às tentações interiores, não pode afrontar impunemente essas tentações exteriores. Sustento, pois, que não se deve ir ao baile quando se é cristão."
(Bussy-Rabutim).

Dois heróis: Abd-el-Kader, na França, e Chamyl, na Rússia, baixaram os olhos a primeira vez que os levaram ao baile.

O que ela é aos olhos da fé

Aqui, a doutrina dos santos é mais forte ainda, pois eles vêem em todo cristão um membro de Jesus crucificado.

São Francisco de Sales:

"Falo-vos dos bailes, como os médicos falam dos cogumelos; os melhores não valem nada. E, digo-vos, eu, que os melhores bailes não são nada bons." Se se alegava uma conveniência ou uma necessidade, ele dizia: "Ide: mas no dançar, pensai que, naquele momento mesmo, muitos sofrem no inferno por terem dançado. Pensai que um dia, talvez, gemerei como eles, enquanto outros dançarão como o fazeis hoje. Pensai que Nosso Senhor, Nossa Senhora, os Anjos, os Santos vos viram no baile!  Ah! como lhes causaste dó, por verem o vosso coração divertido em tamanha parvoíce e atento a essa frioleira! Pensai que, enquanto lá estais, o tempo passa, a morte se aproxima; vede, ela vem, zomba de vós, chama-vos à sua dança, na qual os gemidos dos vosso pecados servirão de violinos e em que fareis uma simples passagem da vida para a morte."

Santo Ambrósio:

"A dança é a companheira inseparável das delícias que enervam e da volúpia que enodoa."

E uma autor moderno:

"Em todo cristão a Fé vê um membro de Jesus Cristo, alimentado com a Sua Carne, enobrecido com o Seu Sangue. Com que olhos pode ela olhar esse cristão, essa cristã requebrar-se e rodopiar em plenas pompas do diabo?

A Fé vê em todo cristão um pecador arrependido, um penitente; muito mais, um coração que está de luto por Jesus inocente, crucificado pelos seus pecados. Que pode pensar a Fé em vendo essas cristãs divertir-se como umas loucas e prestar-se, ao mesmo tempo, ao divertimento de toda sorte de pervertidos?

Em resumo: o paraíso não foi feito para os loucos. A santidade nada tem a ver com o carnaval."

Perigo da dança

Se quiserdes precisões, entremos nas minúcias e vejamos os perigos que precedem, que acompanham e que seguem a dança.

1) Antes da dança: Vaidade, despesas excessivas, preocupações de "toilettes", esquecimento da alma. vontade de aparecer e de eclipsar as outras, desejo de ser notada, dissipação, etc...

2) Durante a dança: Vaidade ainda, inveja, ciúme, olhares e contatos perturbadores, palavras levianas, pensamentos sensuais, costumes indecentes, afagos de dançarinos pouco virtuosos, excitação nervosa fatal ao domínio de si, etc.

"Essa atmosfera aquecida e saturada de perfumes, essa música apaixonada que enleva e dá não sei que vertigem langorosa, esses vestidos que despem mais do que vestem, e em que o pudor é mais ferido do que protegido por essas vãs coberturas que não velam nada, essas conversações mundanas e não raro mui levianas, não são nada de molde a alimentar o espírito cristão. Verdadeiramente, não é possível que a modéstia resista longo tempo a semelhantes assaltos. O desejo de aparecer e de agradar, a garridice, secretos ciúmes, mil preocupações mundanas, arrefecem o fervor, diminuem a vida interior ou a sufocam. A saúde da alma corre aí mortais perigos." (Ansault)

3) Depois da dança: Recordações lancinantes, lassidão da alma, desgostos, aborrecimento, vaidade satisfeita ou ciúme exasperado, devaneios maus, desejos malsãos talvez...

Eis aó o conjunto ds faltas que um só ato pode gerar.
Tirai  conclusão.

Talvez objeteis que não cometeis nenhum pecado indo dançar! - É bem verdade! Satanás cega-vos tão bem, que vos assemelhais a um homem que, imerso na água, dissesse: Não está chovendo! Se as danças sempre foram proibidas por causa dos perigos que nelas pode correr a virtude e da dissipação que elas geram fatalmente, que se deve pensar dessas danças modernas, tangos, foxes, etc., visivelmente inventadas por Satanás para a perda das almas?

E ver-se-á pretensas cristãs suplicarem ao seu confessor permissão para irem a esses divertimentos funestos! Que fé a delas! Para vos convercer de que a paixão aí tem sempre a sua grande parte, tentai separar dançarinos e dançarinas, fazer dançar homens com homens e mulheres com mulheres... a dança acabará imediatamente.

Um grande pregador do século derradeiro, que entretanto não conhecia as danças descabeladas que se ostentam nos nossos dias, escrevia estas fortes linhas:

"A dança entre dois sexos é imoral, facilmente impudica. Todas essas danças que prendem, que enlaçam, que colam o dançarino com a dançarina são indecentes, incendiárias. O tempo, os lugares, as "toilettes", a pintura, a mentira, a impudência, os olhares, as nudezes selvagens, a música, tudo o que se adita às reuniões dançantes, aos bailes particulares e públicos, a esses turbilhões do inferno, tornam a dança devastadora e infernal!"

E não vos pareça isto exagerado!
Há nisso um mal horrível, um flagelo devorador!
Só em Paris contam-se mais de 1.400 salões de danças... 

Ó cristã, sem dúvida a dança pode, algumas vezes, ser permitida; uma dança honesta, em si não é um pecado, mas... não se vai para o Céu dançando!

(Excertos do livro: Donzela cristã, do Pe. J. Baeteman)

PS: Grifos meus

Perigos do Mundo: As ocasiões perigosas (Primeira parte)

Nota: Dividirei esse capítulo em três partes.

Perigos do Mundo
As ocasiões perigosas
(Primeira parte)


O que é a ocasião?

É uma pessoa, uma coisa, um lugar que podem levar-nos ao mal. O mundo é cheio delas, andais nele por entre as ciladas.

Tal pessoa é para vós uma tentação; para ela vos sentis atraída de maneira violenta e apaixonada. Alto lá!
Em tal casa sabeis que vossa virtude pode ser posta à prova; lá não vades! Alto lá!
Em tal reunião ouvistes várias vezes certos avisos da vossa consciência que vos dizia: Toma cuidado! Alto lá!

Tal leitura frívola ou profana vos perturba e sugere-vos mil pensamentos loucos, levianos, e vos lança em devaneios que não ousaríeis contar a vossa mãe: ao fogo com esse livro!
Imagens, quadros, estátuas podem ser para vós uma tentação: passai e não olheis!

Quem ama o perigo nele perecerá

Prestai atenção, borboletinha, não vades esvoaçar em torno desses fogos que brilham... e que queimam! Outros mais santos do que vós, mais fortes do que vós aí acharam a morte da alma. A ocasião perigosa é o fogo; vós sois a palha. Como quererdes aproximar a palha do fogo e pretender que ela não arda? Deus pode fazer esse milagre uma vez, de passagem; mas não o fará sempre.

Por que foi que David caiu em dois horrendos crimes? Porque procurou a ocasião. E quando vemos Sansão prisioneiro, podemos esquecer Dalila? Se São Pedro se houvesse abstido de aquecer-se e de conversar com os soldados e as criadas do sumo pontífice, teria renegado o Mestre?

Entre vós e o abismo do pecado, só a graça de Deus será capaz de vos deter. Ora, dar-vos-á Ele essa graça se vos vir afrontar por puro gosto a ocasião do pecado? Não se deve tentar a Deus. O pecado chama o pecado, como a vaga traz outra vaga. Se cairdes, o primeiro ato culpado produzirá outros, e vossa pobre alma se parecerá com o mar sempre agitado, onde a vaga se levanta, se quebra, torna a formar-se e se levanta ainda para se quebrar e se tornar a formar incessantemente.

Os divertimentos

a) Há uns muito bons. - Na vossa idade, nem todo divertimento pode ser proibido. Há uns muito bons, há prazeres lícitos, alegrias que Deus abençoa. Após os vossos longos dias de trabalho, precisais recrear-vos, refazer-vos. Por entre os divertimentos da juventude, há uns belos, restauradores, vivificantes, edificantes mesmo. Estes vos são necessários, e largamente. Entretêm em vós a alegria, e alegria é uma potência.

b) Os do mundo são perigosos. - Mas os prazeres e os divertimentos profanos devem ser completamente excluídos. Festas mundanas, saraus dançantes... todos esses meios onde os nervos são superexcitados, a imaginação superaquecida, os sentidos amimados e o coração tentado, todos eles são demasiado malsãos para uma alma que quer permanecer bela e pura.

Escondem um veneno lento que penetra gota a gota, que perverte o espírito, seca o coração e anemiza a vontade. Um dia, fica-se surpreso de ver as forças espirituais falharem, e o primeiro turbilhão que vem carrega a alma e lança-a ao léu.

Nesses divertimentos profanos perde-se o espírito cristão; em lugar deste, adota-se o espírito do mundo. Neles também se perde a paz da alma e a alegria de uma boa consciência. Eles são a isca por meio da qual o mundo atrai a si as almas de que quer fazer seus joguetes de hoje e suas vítimas de amanhã. Murmura-lhes com sua voz de sereia:

"Vem, menina, vem! Teu coração tem necessidade de amar, teus sentidos reclamam o prazer, tudo em ti quer distrair-se...Vem! Coroar-te-ei de rosas, farei sob teus pés florescer a jovialidade, a felicidade, a alegria, a riqueza. Vem! Ouço palpitar o teu coração de vinte anos, vem conosco! Vem!"

... Renunciai, pois, de todo coração, a essas cenas que trazem enrubescer e que ofuscam uma alma piedosa, a essas palavras que magoam a virtude, a esses cantos que amolentam o coração, a esses desvaneios que desgostam do dever presente, a todos esses divertimentos pagãos que, por todas as fissuras feitas no amor dos bens superiores, fazem penetrar na alma pensamentos egoístas, covardes, sensuais.

São Francisco de Sales dizia:

"Todas as vezes que os cordeirinhos deixam o aprisco e passam ao é das moitas, deixam nelas um pouco da sua lã."

Pobres cordeirinhos de Deus, realmente sois obrigadas a deixar o aprisco da família, visto que as mais das vezes a obrigação vos chama ao mundo. Há, porém, "moitas" junto às quais não deveis passar. Deixareis nelas mais do que um pouco da vossa lã, deixareis a vossa candura, a vossa simplicidade, a vossa piedade, a vossa virtude, quiçá a vossa alma e o vosso Deus.

(Excertos do livro: Formação da donzela, do Pe. J.Baeteman)

PS: Grifos meus.