quinta-feira, 8 de abril de 2010

A mulher moderna, Papa Pio XII

Nota: Apresentamos dois discursos do Papa Pio XII (A mulher moderna), discursos que em outra publicação, havíamos transcrito apenas algumas partes.


A mulher moderna,
Papa Pio XII


O caráter da vida da mulher e a iniciação da cultura feminina eram inspirados, conforme a mais antiga tradição, pelo seu instinto natural que Deus atribuia como reino próprio de atividade a família, a não ser no caso de por amor de Cristo preferir a virgindade. Retirada da vida pública e à margem das profissões públicas, a jovem, como flor que cresce guardada e reservada, estava destinada por sua vocação a ser esposa e mãe.

Junto da mãe aprendia os labores femininos, os cuidados e negócio da casa e tomava parte na vigilância dos irmãos e irmãs menores, desenvolvendo assim as forças, o engenho, e instruindo-se na arte e no governo do lar. Manzoni apresenta na figura de Lúcia a mais alta e viva expressão literária desta concepção.

As formas simples e naturais em que a vida do povo se desenvolvia, a íntima e prática educação religiosa, que durante o século XIX tudo animara, o uso de contrair muito cedo o matrimônio, ainda possível naquelas condições sociais e econômicas, a preeminência que a família tinha no movimento do povo, tudo isto e outras circunstâncias mais, que entretanto mudaram radicalmente, constituíam o primeiro alimento e sustentáculo para aquele caráter e forma de cultura da mulher.

Hoje, pelo contrário a antiga figura feminina está em rápida transformação. Podeis ver que a mulher, e sobretudo a jovem, saem de seu retiro e entram em quase todas as profissões, até aqui exclusivo campo de ação e vida do homem.

Desde há bastante tempo vinham-se já manifestando sinais a princípio tímidos e depois cada vez mais vigorosos desta transformação, causados principalmente pelo desenvolvimento da indústria no progresso moderno. Mas desde alguns anos a falange feminina, qual torrente que, rompidos os diques, vence toda a resistência, parece ter penetrado em todo campo da vida do povo.

E se tal torrente contudo não se difundiu igualmente em todos os sentidos, não é difícil encontrar-se o curso até na mais remota aldeia sertaneja; enquanto no labirinto das grandes cidades, como nas oficinas e nas indústrias, o antigo costume e orientação houve que ceder o passo incondicionalmente ao desenvolvimento moderno.

***

Digamos imediatamente que para nós o problema feminino, tanto em seu complexo, como em cada um de seus múltiplos aspectos particulares, consiste todo na conservação e no incremento da dignidade que a mulher recebeu de Deus. Para nós portanto não é um problema de ordem meramente jurídica ou econômica, pedagógica, ou biológica, política ou demográfica; mas que, embora em sua complexidade, gravita todo em torno da questão: como manter e reforçar aquela dignidade da mulher, maximamente hoje, nas conjeturas em que a Providência nos colocou?

Ver de outro modo o problema, considerá-lo unilateralmente sob qualquer dos aspectos mencionados, seria o mesmo que iludi-lo, sem proveito algum para quem quer que seja, menos ainda para a própria mulher. Separá-lo de Deus, da sábia ordem do Criador, de sua santíssima vontade, é obliterar o ponto essencial da questão, quer dizer a verdadeira dignidade da mulher, dignidade que ela tem somente de Deus e em Deus.

Disto procede que não estão em grau de retamente considerar a questão feminina os sistemas que excluem da vida social Deus e sua lei, e aos preceitos da religião concedem, ao máximo, um humilde lugar na vida privada do homem.

Em que consiste portanto esta dignidade que a mulher tem de Deus?
Interrogai a natureza humana, qual o Senhor a formou, elevou, redimiu no sangue de Cristo.

Em sua dignidade de filhos de Deus, o homem e a mulher são absolutamente iguais, como também a respeito do fim último da vida humana, que é a eterna união com Deus na felicidade do céu. É glória imortal da Igreja ter colocado em luz e em honra esta verdade e haver livrado a mulher de uma degradante servidão contrária à natureza.

Mas o homem e a mulher não podem manter e aperfeiçoar esta sua igual dignidade, senão respeitando e colocando em ato as qualidades particulares, que a natureza lhes concedeu a um e a outra, qualidades físicas e espirituais indestrutíveis, das quais não é possível mudar a ordem, sem que a própria natureza sempre, novamente, a restabeleça.

Estes caracteres peculiares, que distinguem os dois sexos, mostram-se com tanta clareza aos olhos de todos, que somente uma obstinada cegueira ou um doutrinarismo, não menos funesto que utópico, poderia nas ordens sociais desconhecer ou quase ignorar-lhes o valor.

Ainda mais. Os dois sexos, por sua própria qualidade particular, são ordenados, um para o outro de tal modo que esta mútua coordenação exercita seu influxo em todas as múltiplas manifestações da vida humana social. Nós nos limitaremos aqui a recordar dois, por suas especiais importâncias: o estado matrimonial e o celibato voluntário, segundo o conselho evangélico.

O fruto de uma verdadeira comunidade conjugal compreende não somente os filhos, quando Deus os concede aos esposos, mas também os benefícios materiais e espirituais que a vida de família oferece ao gênero humano. Toda a civilização em cada um de seus ramos, os povos e a sociedade dos povos, e a própria Igreja, em uma palavra, todos os verdadeiros bens da humanidade ressentem os felizes eleitos, onde esta vida conjugal floresce na ordem, onde a juventude se habitua a contemplá-la, a honrá-la e a amá-la como um santo ideal.

Onde, entretanto, ambos os sexos não são, reciprocamente, senão objeto de egoísmo e de cupidez; onde não cooperam de mútuo acordo para o serviço da humanidade segundo os desígnios de Deus e da natureza: onde a juventude, descurando suas responsabilidades, superficial e frívola em seu espírito e em sua conduta, torna-se moral e fisicamente inapta para a vida santa do matrimônio; aí os bens comuns da sociedade humana, na ordem espiritual e temporal, se encontram gravemente comprometidos, e a própria Igreja de Deus treme, não por sua existência - ela tem a promessa divina! - mas pelo maior fruto de sua missão entre os homens.

Mas eis que, desde vinte séculos, em cada geração, milhares e milhares de homens e mulheres, entre os melhores, renunciam livremente, para seguir o conselho de Cristo, a uma própria família, os santos deveres e sagrados direitos da vida matrimonial. O bem comum dos povos e da Igreja, fica talvez correndo perigo?

Pelo contrário! estes espíritos generosos reconhecem a associação dos dois sexos no matrimônio como um elevado bem. Mas se se afastam da vida ordinária, da estrada batida, estes, longe de desertarem, consagram-se ao serviço da humanidade, com completo desapego de si mesmos e de seus próprios interesses, em uma ação incomparavelmente mais ampla, total, universal.

Olhai aqueles homens e aquelas mulheres: contemplá-los-eis na oração e na penitência: dedicados na instrução e educação da juventude e dos ignorantes: inclinados na cabeceira dos doentes e dos agonizantes; de coração aberto a todas as misérias e a todas as debilidades, para reabilitar, para confortar, para aliviar, para a todos santificar.

Quando pensamos nas jovens e nas mulheres que renunciam voluntariamente ao matrimônio, para consagrarem-se a uma vida mais elevada de contemplação, de sacrifícios e de caridade, logo sobe aos lábios uma luminosa palavra: a vocação! É a única palavra que exprime tão elevado sentimento.

Esta vocação, esta chamada de amor, faz-se ouvir de modos mais diversos, como infinitamente várias são as modulações da voz divina: convites irresistíveis, inspirações afetuosamente solicitantes, suaves impulsos. Mas também a jovem cristã, tendo permanecido a contragosto sem núpcias, que, porém, firmementre crê na Providência de um Pai Celeste, reconhece nas vicissitudes da vida a voz do Mestre: "Magister adest et vocat te": O Mestre está aqui e te chama! Ela responde; ela renuncia ao caro sonho de sua adolescência e de sua juventude: ter um companheiro fiel na vida, constituir uma família e na impossibilidade do matrimônio discerne sua vocação, então, com o coração partido, mas submisso, ela também se dá totalmente às mais nobres e multiformes obras boas.

Em um como em outro estado o dever da mulher aparece nitidamente traçado pelos lineamentos, pelas atitudes, pelas faculdades peculiares ao seu sexo. Colabora com o homem, mas no modo que lhe é próprio, segundo sua natural tendência. Ora o ofício da mulher, sua maneira, sua inclinação inata, é a maternidade. Toda mulher é destinada para ser mãe; mãe no sentido físico da palavra, ou em um significado mais espiritual e elevado, mas não menos real.

A este fim o Criador ordenou todo o ser próprio da mulher, seu organismo, mas também seu espírito e sobremodo sua especial sensibilidade. De  modo que a mulher, verdadeiramente tal, não pode de outro modo ver nem compreender a fundo todos os problemas da vida humana, senão com relação à família. Por isto o sentido agudo de sua dignidade a coloca em apreensão cada vez que a ordem social ou política ameaça prejudicar sua missão materna, em favor da família.

Tais são hoje, infelizmente, as condições sociais e políticas; elas poderiam se tornar ainda mais incertas para a santidade do lar doméstico e portanto para a dignidade da mulher. A vossa honra soou, mulheres e jovens católicas: a vida pública tem necessidade de vós: a cada uma de vós, pode-se dizer: "Tua res agitur".

Que desde muito tempo os acontecimentos públicos tenham-se desenvolvido de modo não favorável ao bem real da família e da mulher, é uma fato inegável. E para a mulher, voltam-se vários movimentos políticos, para ganhá-la à sua causa. Alguns sistemas totalitários colocam diante de seus olhos magníficas promessas; igualdade de direitos com os homens, proteção das gestantes e das pasturientes, cozinha e outros serviços comuns que a libertarão do peso das obrigações domésticas, jardins públicos para a infância e outros institutos, mantidos e administrados pelo Estado e pelos próprios filhos, escolas gratuítas, assistência em caso de doenças.

Não queremos negar as vantagens que podem ser tiradas de uma e de outra destas providências sociais, se aplicadas nos devidos modos. Nós mesmos, em outras ocasiões, observamos que à mulher é devida, pelo mesmo trabalho e à paridade de rendimento, a mesma remuneração que ao homem é dada.

Permanece, porém o ponto essencial da questão, a que já acenamos: a condição da mulher, com isto se tornou melhor? A igualdade de direitos com o homem, trazendo o abandono da casa onde ela era Rainha, sujeita a mulher ao mesmo peso e tempo de trabalho. Desprestigiou-se a sua verdadeira dignidade e o sólido fundamento de todos seus direitos, quer dizer, o caráter próprio de seu ser feminil e a íntima coordenação dos dois sexos; perdeu-se a vista o fim desejado pelo Criador para o bem da sociedade humana e sobretudo pela família.

Nas concessões feitas à mulher, é fácil de perceber, mais que o respeito de sua dignidade e de sua missão, a mira de promover a potência econômica e militar do Estado totalitário, do qual tudo deve inexoralmente ser subordinado.

De outra parte, pode talvez a mulher esperar o seu bem-estar verdadeiro de um regime de predominante capitalismo?

Nós não temos necessidade de descrever-vos agora as conseqüências econômicas e social que deste derivam. Vós conheceis os sinais característicos e trazeis vós mesmas o peso; excessivo aglomerar-se das populações nas cidades, progressivo e invasor aumento das grandes empresas, difíceis e precárias condições das demais indústrias, especialmente do artesanato e também ainda mais da agricultura, extensão inquietante da desocupação.

Recolocar o mais possível em honra a missão da mulher e da mãe, no lar: tal é a palavra que de tantas partes de levanta, como um grito de alarma, como se o mundo se despertasse quase aterrado pelos frutos de um progresso material e técnico, do qual se mostrava antes tão orgulhoso.

Observemos a realidade das coisas.

Eis a mulher que, para aumentar o salário do marido, vai ela também trabalhar na fábrica, deixando durante sua ausência a casa no abandono, e esta, talvez já suja e pequena, torna-se também mais miserável pela falta de cuidado; os membros da família trabalham cada um separadamente, nos quatro ângulos da cidade e em horas diversas: quase nunca se encontram juntos, nem para o jantar, nem para o repouso depois das fadigas do dia, ainda menos para as orações em comum. Que permanece da vida da família? e quais os atrativos que podem ser oferecidos aos filhos?

A estas penosas conseqüências da falta da mulher e da mãe no lar, ajunta-se outra ainda mais deplorável: ela diz respeito à educação, sobretudo da jovem e sua preparação para a vida real. Habituada a ver a mãe sempre fora de casa e a própria casa tão triste no seu abandono, ela será incapaz de encontrar aí qualquer fascínio, não provará o mínimo gosto pelas austeras ocupações domésticas, não saberá compreender a nobreza e a beleza das mesmas, nem desejará um dia dedicar-se a isso, como esposa e mãe.

("Dai-me mães verdadeiramente cristãs e eu salvarei o mundo decadente" - São Pio X)



Isto é real em todos os graus sociais, em todas as condições de vida. A filha da mulher mundana, que vê todo o governo da casa deixado nas mãos de pessoas estranhas e a mãe ocupada em ocupações frívolas, em fúteis divertimentos, seguirá seu exemplo, quererá emancipar-se o quanto antes, e segundo uma bem triste expressão "viver a sua vida". Como poderia ela conceber o desejo de ser tornar um dia uma verdadeira "domina", isto é, uma senhora da casa em uma família feliz, próspera e digna?

Quanto às classes trabalhadoras, obrigadas a ganhar o pão cotidiano, a mulher, se bem refletisse, compreenderia talvez como não poucas vezes o suplemento de ganho, que ela obtém trabalhando fora de casa, é facilmente devorado pelas despesas ou também pelos desperdícios ruinosos para a economia familiar.

A filha, que vai também ela a trabalhar em uma fábrica, em uma empresa ou em um escritório, perturbada pelo modo agitado em meio ao qual vive, cegada pelo ouropel do falso luxo, desejosa de tristes prazeres, que distraem mas não saciam nem repousam, naquelas salas de "revistas" ou de danças, que pululam em todo lugar, muitas vezes com intentos de propaganda de parte e corrompem a juventude, tornando-se "mulher de classe", desprezadora das velhas normas "oitocentescas" de vida, como poderia ela não encontrar a modesta moradia doméstica inóspida a mais tetra daquilo que na realidade é?

Para torná-la agradável, para desejar estabelecer um dia a dela própria, deveria saber compensar a impressão natural com a seriedade da vida intelectual e moral, com o vigor da educação religiosa e do ideal sobrenatural. Mas qual formação religiosa recebeu ela em tais condições?

E não é tudo. Quando o transcorrer dos anos, sua mãe, envelhecida pelo tempo, enfraquecida e desgastada pelas fadigas superiores às suas forças, pelas lágrimas, pelas angústias, a verá voltar à casa à tarde, em horas talvez bem avançadas, longe de ter nela um auxílio, um sustentáculo, deverá ela mesma cumprir junto da filha incapaz e não habituada às obras femininas e domésticas, todas as obrigações de uma serva.

Nem mais feliz será a sorte do pai, quando a idade avançada, as doenças, os achaques, as desocupações obrigarão a depender para o seu mesquinho sustento da boa ou má vontade dos filhos. A augusta, a santa autoridade do pai e da mãe, ei-las descoroadas de sua majestade.

Diante das teorias e dos métodos que, por diferentes caminhos, arrancam a mulher de sua missão, e com a lisonja de uma emancipação desenfreada, ou na realidade de uma miséria sem esperança, despojos de sua dignidade pessoal, de sua dignidade de mulher, nós ouvimos o grito da apreensão que invoca, o mais possível, sua presença ativa no lar.

A mulher é realmente retida fora de casa, não somente por sua proclamada emancipação, mas muitas vezes também pelas necessidades da vida, do contínuo peso do pão cotidiano. Em vão portanto pregar-se-á o seu retorno ao lar, até que durem as condições que não raramente a constringem a permanecer dele distante. E assim se manifesta o primeiro aspecto da nossa missão na vida social e política, que se abre diante de vós.

A vossa entrada nessa vida pública aconteceu repentinamente, por efeito dos acontecimentos sociais nos quais, sem o esperar talvez, pouco importa, sois chamadas a tomar parte; deixareis a outras talvez, aquelas que se fazem promotoras ou cúmplices da ruína do lar, o monopólio da organização social, da qual a família é o elemento precípuo em sua unidade econômica, jurídica, espiritual e moral?

A sorte da família, a sorte da convivência humana, estão em jogo; estão em vossas mãos, "tua res agitur!" Toda mulher portanto, sem exceção, tem o dever, o estrito dever de consciência, de não permanecer ausente, de entrar em ação (nas formas e nos modos condizentes ás condições de cada qual), para conter a corrente que ameaça o lar, para combater as doutrinas que lhe corroem os fundamentos, para preparar, organizar e cumprir sua restauração.

Por este motivo impelente para a mulher católica de entrar na vida, que hoje se abre à sua operosidade, ajunta-se outro; sua dignidade de mulher. Ela tem de concorrer com o homem para o bem da civilização, na qual está em dignidade igual a ele. Cada um dos dois sexos tem o dever de tomar a parte que lhe cabe segundo sua natureza, seus caracteres, suas atitudes físicas, intelectuais e morais.

Ambos os sexos têm o dever e o direito de cooperar para o bem total da sociedade, da pátria, mas está claro que, se o homem é por temperamento mais levado a tratar dos negócios externos, os negócios públicos, a mulher tem, geralmente falando, maior perspicácia, tato mais fino para conhecer e resolver os problemas delicados da vida doméstica e familiar, base de toda a vida social, o que não tolhe que algumas saibam realmente dar demonstração de grande perícia também no campo da atividade pública.

Tudo isto é questão não tanto de atribuições distintas, quanto de modo de julgar e de descer a aplicações concretas e práticas. Tomemos o caso dos direitos civis: eles, no presente, são para ambos os sexos. Mas com quanto maior discernimento e eficácia serão utilizados, se o homem e a mulher integrarem-se mutuamente!

A sensibilidade e a fineza próprias da mulher, que poderiam arrastá-la no sentido de suas impressões e arriscaria assim trazer prejuízo à clareza e à amplidão de vistas, são pelo contrário, preciosos auxílios para colocar em luz as exigências, as aspirações, os perigos de ordem doméstica, assistencial e religiosa.

A atividade feminina  desenvolve-se em grande parte nos trabalhos e nas ocupações da vida doméstica, que contribuem, mais e melhor daquilo que geralmente se poderia pensar, para os verdadeiros interesses da comunidade social; mas estes interesses requerem ainda um esquadrão de mulheres, que disponham de maior tempo para nisto se dedicarem mais direta e totalmente.

Quais poderão portanto ser estas mulheres, senão especialmente (não pretendemos dizer: exclusivamente) aquelas a que aludimos pouco faz, aquelas que imperiosas circunstâncias ditaram a misteriosa "vocação", aquelas que os acontecimentos destinaram a uma solidão que não estava em seus pensamentos e em suas aspirações, e parecia condená-las a uma vida egoísticamente inútil e sem escopo?

E eis  pelo contrário que hoje sua missão se manifesta múltipla, militante, empenhando todas suas energias e de modo tal que poucas outras, entretidas pelos cuidados da família e da educação dos filhos, ou sujeitas ao santo jugo da regra, estariam igualmente em grau de cumprir.

Até agora algumas daquelas mulheres dedicavam-se com zelo, muitas vezes admirável, às obras da paróquia; outras, de sempre maior visão, consagravam-se a uma operosidade moral e social de grande alcance. Seu número, por efeito da guerra, e das calamidades que se seguiram, aumentou consideravelmente; muitos homens calorosos caíram na horrível guerra, outros voltaram enfermos; tantas jovens esperaram em vão a vinda de um esposo, o desabrochar de novas vidas, em sua habitação sozinhas: mas ao mesmo tempo as novas necessidades criadas pela estrada da mulher na vida civil e política surgiram pedindo o concurso delas. Nada é senão uma estranha coincidência, ou é preciso ver nisto uma disposição da Divina Proviência?

Assim, vasto é o campo de ação que se oferece hoje à mulher, e pode ser, segundo a atitude e o caráter de cada uma, ou intelectual ou mais praticamente ativo. Estudar e expor o posto e o cargo da mulher na sociedade, seus direitos e seus deveres, tornar-se educadora e guia das próprias irmãs, endireitar as idéias, dissipar os preconceitos, esclarecer as confusões, explicar e difundir a doutrina da Igreja para destruir mais seguramente o erro, a ilusão e a mentira, para desmascarar mais eficazmente a tática do adversário do dogma e da moral católica: trabalho imenso e de urgente necessidade, sem o qual todo o zelo de apostolado não obteria senão resultados precários. Mas também a ação direta e indispensável, se não se quer que a são doutrina e as sólidas convicções permaneçam, se não absolutamente platônicas, ao menos pobres de efeitos práticos.

Esta parte direta, esta colaboração efetiva na atividade social e política, não altera em nada o caráter próprio da ação normal da mulher. Associada á obra do homem no campo da instituição civil, ela se aplica principalmente nas matérias que exigem tato, delicadeza, instinto materno, mais do que na rigidez administrativa. Quem melhor do que ela pode compreender o que requerem a dignidade da mulher, a integridade e a honra da jovem, a proteção e a educação da criança?

E em todos estes argumentos quantos problemas reclama a atenção e a ação dos governantes e dos legisladores! Somente a mulher saberá, por exemplo, temperar com a bondade, sem detrimento da eficácia, a repreensão da libertinagem; ela só poderá encontrar o caminho para salvar da humilhação e educar na honestidade e na virtude religiosa e civil a infância moralmente abandonada; ela somente poderá tornar frutuosa a obra do Oratório Festivo e da reabilitação dos livros do cárcere ou das jovens decaídas; ela somente fará surgir de seu coração o eco do grito ds mães, às quais um Estado totalitário, de qualquer nome se adorne, quereria roubar a educação dos próprios filhos.

Permanece assim traçado o programa dos deveres da mulher, cujo objeto prático é dúplice: sua preparação e formação para a vida social e política, o desenvolvimento e atuação desta vida social e política no campo privado e público.

Está claro que a obrigação da mulher, assim compreendida, não se improvisa. O instinto materno nela é um instinto humano, não determinado pela natureza até nos particulares de suas aplicações. Ele é dirigido por uma vontade livre, e esta por sua vez é guiada pelo intelecto. Daqui seu valor moral e sua dignidade, mas também sua imperfeição, que tem necessidade de ser compensada e resgatada com a educação.

A educação feminina da jovem, e não raramente da mulher adulta, é portanto uma condição necessária de sua preparação e de sua formação para uma vida digna dela. O ideal seria evidentemente que esta educação pudesse ir remontar até à infância, na intimidade de um lar cristão, sob o influxo da mãe. Não é infelizmente sempre o caso, nem sempre possível.

Todavia, pode-se, pelo menos em parte, suprir a esta falta, procurando a jovem, que por necessidade deve trabalhar fora de casa, uma daquelas ocupações que são de algum modo tirocínio e adestramento para a vida à qual é destinada
. A tal escopo tendem também as escolas de economia doméstica, que miram fazer da criança e da jovem de hoje a mulher e a mãe de amanhã.

Quanto dignas de elogios e de encorajamento são tais instituições! São uma das formas nas quais podem largamente exercitar-se e difundir os vossos sentimentos e o vosso zelo materno, e uma das mais louváveis, porque o bem que aí se cumpre e se propaga ao infinito colocando as vossas alunas em grau de fazer a outras, seja em família, seja fora, o bem que vós fizestes a elas mesmas. Que dizer ainda de tantas outras obras com as quais vós vindes em auxílio das mães de família, tanto por sua formação intelectual e religiosa, como nas circunstâncias dolorosas ou difíceis de suas vidas?

Mas a ação social e política muito depende da legislação do Estado e da administração dos comuns. Por isto a ficha eleitoral está nas mãos da mulher católica com um meio importante para cumprir o seu rigoroso dever de consciência, máxime no tempo presente. O Estado e a política têm realmente e mais propriamente o encargo de assegurar à família de cada classe social as condições necessárias a fim de que possam existir e desenvolver-se como unidade econômica, jurídica e moral.

Então a família será verdadeiramente a célula vital de homens, que procuram honestamnete seu bem terreno e terno. Tudo isto bem compreende a mulher verdadeiramente tal. Aquilo que ela, pelo contrário, não compreende, nem pode compreender é que na política se entenda a dominação de uma classe sobre outra, a mira ambiciosa de sempre maior extensão de império econômico nacional, por qualquer motivo venha ele pretendido.

Pois que ela sabe que tal política abre caminho à oculta e clara guerra civil, ao peso sempre crescente das armas e ao constante perigo de guerra; ela conhece por experiência que por todos os modos aquela política danifica a família, que deve pagá-la a caro preço com seus bens e com o seu sangue.

Por isto nenhuma mulher sábia é favorável a uma política de luta de classes ou de guerra. Seu caminho para as urnas eleitorais, é um caminho de paz. Portanto no interesse e para o bem da família, a mulher percorrerá aquele caminho e oporá sempre o seu voto e toda tendência, de qualquer parte venha, de subordinar a egoísticos desejos de domínio a paz interna e externa dos povos.

(Discurso à Juventude Feminina de Ação Católica, 24 de abril, 1943 e discurso à Mulheres de Ação Católica, 21 de outubro, 1945 - Retirados do livro: Pio XII e os problemas do Mundo Moderno, tradução do Pe. José Marins)

PS: Grifos meus

A Joana d'Arc (Poesia de Santa Teresa do Menino Jesus)

(Teresa, no papel de Joana d'Arc)

A Joana d'Arc

Quando o Deus das Nações te concedeu vitória,
E, expulsando o invasor, sagraste o rei, ó Joana,
teu nome se tornou famoso em toda a história,
diante de ti os heróis perderam brilho e fama.

Mas aquela era ainda a glória passageira;
ao teu nome faltava a auréola dos santos.
O Bem-Amado deu-te, amarga, a taça inteira,
e te tornaste a rejeitada dos humanos.

Numa escura masmorra, entre grilhões e horrores,
o cruel invasor cobriu-te de amarguras.
Nenhum amigo teu partilhou tuas dores,
nenhum se apresentou para enxugar teu pranto.

Vejo-te, neste horror, mais reluzente e bela,
do que no dia-luz do rei em sagração.
Donde te veio a luz, este fulgor de estrela,
que hoje te faz brilhar? De uma ignóbil traição!

Se um dia o Rei do amor, neste vale de prantos,
não tivesse buscado a traição e a morte,
para todos nós a dor já não teria encantos...
Mas hoje a amamos como um tesouro e uma sorte.

(Santa Teresa do Menino Jesus)

A criança desobediente - Como educá-la? (Parte final)

A criança desobediente
Como educá-la?
Parte final


5º norma: Vele pela execução de suas ordens.

a) Mantenha a continuidade:
- Nada mais proveitoso à educação do que um rumo certo e a firme determinação de segui-lo: a coerência dá unidade ao trabalho educativo, emprestando-lhe maior vigor e eficiência;
- baseie a educação em princípios, repita-se com freqüência na presença dos filhos (melhor do que a eles diretamente);
- evite dar ordens e contra-ordens nascidas do capricho ou do humor (da "lua", da veneta, ou dos "azeites", como dizem as crianças, que nos conhecem melhor do que imaginamos);
- não recue das ordens dadas, a menos que tenha verificado sua improcedência ou nímia dificuldade, ou que de fato novo a tenha tornado dispensável ou contra-indicada.

b) Não desanime:
- educação é trabalho de paciência, não se realiza a jato, mas a passo e passo, com avanços e contra-marchas;
- o educando não pode desanimar, muito menos ainda o educador;
- reanime a criança que cair, e não deixe de aquecê-la à chama das próprias vitórias, por pequeninas que sejam;
- não há crianças normais incorrigíveis, e as anormais têm direito a todos os nossos esforços e cuidados;
- quanto mais difícil a criança ou o caso, mais necessárias a paciência e a tenacidade.

c) Peça contas das ordens dadas:
- esquecê-las é votá-las ao fracasso, pois as crianças sabem que não serão argüídas a respeito;
- entre a espionagem e o descaso está a vigilância, de que quase todos os homens precisam, e as crianças de modo especial, porque são caracteres em formação;
- o cumprimento das ordens pode ser verificado diretamente pelo educador, pois é direito e até dever seu, mas convém pedir contas ao próprio educando, a fim de despertar-lhe o espirito e mantê-lo em brios.

d) Exija até o fim:
- não transija com a desobediência, uma só vez que seja, para não insinuar fraqueza, de que se aproveitarão as crianças;
- não aceite meia tarefa, quando a pediu inteira, pois já esta meia desobediência é caminho para a desobediência total;
- se o trabalho era condicionado a algum ato, não houve válida causa excusante, considere desobediência o descumprimento do prazo;
- se o trabalho era condicionado a algum ato, este não se realizará sem aquele: "Faça este serviço antes do almoço" - e a criança só almoçará quando o tiver feito!

6ª norma: Seja compreensivo

a) Pense na criança:
- ela é instável, de imensa mobilidade;
- o pequeno desenvolvimento da inteligência não lhe permite maior capacidade de reflexão - e não pesa o que faz;
- a vontade em formação é ainda fraca, e ela é tangida pelos instintos e pelo impulso dos interesses imediatos;
- seus horizontes limitados não lhe permitem ver longe, e ela mais se preocupa com o  presente que com o futuro, mais com o pessoal que com o geral, mais com os prazeres que com a moral;
- as grandes forças que movem os espíritos verdadeiramente adultos deixem-na fria e imóvel, porque ela ainda não sente a beleza do dever, da consciência, da dedicação ou do sacrifício;

b) Saiba ceder:
- erros de criança não podem ser julgados com rigor;
- suas responsabilidades são limitadas à sua capacidade: ela é uma criança;
- se ela errou, pese as causas de seus erros antes de pensar em puni-los;
- lembre-se que um motivo que para nós é fútil ou inexistente, para ela é irresistível.

Ex: Pequeno de 9 anos chega-me apavorado. Saíra de casa para a Missa das 11, a última que então havia na cidade. Juntou-se aos meninos que acompanhavam um camelô de circo, e, quando caiu em si, estava no outro extremo da cidade. Correu para a igreja, mas a Missa terminara. Seria castigado em casa, se contasse singelamente a verdade. E o pior de tudo: o pecado mortal de ter faltado à Missa! Nunca lhe esquecerei a expressão de alívio quando lhe disse que não pecara (perdeu a Missa sem querer) e lhe propus telefonarmos à mamãe que ele almoçaria comigo. Aquela senhora, que mal lançaria um curioso olhar para o homem de pernas de pau, dificilmente compreenderia que ele arrastasse invencivelmente o seu filho por duas horas de caminhada a pé. Não é uma pena essa incompreensão em pessoas tão bem intencionadas?

- pense nas limitações da criança, nas tolices da idade;
- tratando-se mesmo de adolescentes, lembre-se de sua imaturidade, da facilidade porque se deixam levar por companheiros, da incapacidade para julgar idéias e pessoas, da tendência em ceder à vaidade e aos brilharecos;
- faça o possível para não esquecer do tempo em que foi também criança e adolescente: quando o esquecemos, não podemos mais ser educadores;
- tenha a humildade de recuar, se percebe que errou, mesmo que o erro tenha sido apontado pelas crianças; reconhecer o erro é grande atitude moral;
- e quando  ceder, ceda clara e generosamente, confessando que se enganou, não viu o aspecto que as crianças apontaram, que não quer impor um erro aos filhos - faça como o general vencido: tire a espada e a entregue ao vencedor, e crescerá no conceito dos educandos.

7º norma: Apóie-se em Deus

Aqui está uma norma preciosa, que, infelizmente, muitos educadores esquecem. Nenhum daqueles que crêem realmente em Deus ... podem menosprezar tão poderosa alavanca de toda a educação, e particularmente da difícil virtude da obediência. É precisamente num cântico que fala da prosperidade da família que o salmista diz: "Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem" (Sl 126,1).

Apoiar a obediência em Deus é encaminhar a criança para:

a) Obedecer a Deus:
- aqueles que exercem autoridade fazem-no em nome do Senhor, de quem procede todo poder de homem sobre homem: a cada um deles aplicaremos com verdade a palavra de Cristo a Pilatos: "Não terias poder sobre Mim, se não te fosse dado do alto" (Jo 19,11);
- "autoridade" vem de "autor": se os pais são os autores de seus filhos, Deus é o Autor de todos os homens e de todas a coisas - foi Ele que deu aos pais o poder de gerar e o dever de educar os filhos;
- os que mandam, não só o fazem em nome de Deus, mas devem também fazê-lo para glória de Deus;
- e os que obedecem, mais obedecem a Deus de que aos homens, e mais devem submeter-se por motivos sobrenaturais que por motivos humanos;
- os que se habituam a ver nos homens o poder de Deus (o que não é fácil), obedecerão humildemente, mesmo quando os superiores são antipáticos ou indignos do cargo: não queremos dizer que estejam os pais lembrando aos filhos essas verdades cada vez que os mandam fechar a porta ou desligar o rádio, mas sim que os impregnem desse espírito sobrenatural que facilita e dura toda a vida moral.

b) Recorrer a Deus:
- disse Louis Venillat que anda mal o mundo porque os homens ficam mais em pé do que ajoelhados;
- consultado o grande Windhorts por uma senhora cuja vida doméstica andava periclitante, perguntou-lhe se não tinha em casa um genuflexório, e ela lhe respondeu que sim, mas estava velho e sem uso: "Pois é isto que falta a seu lar: voltem a usá-lo, e tudo serenará";
- os pais deviam mais falar dos filhos a Deus do que de Deus aos filhos;
- quando os filhos se perdem, procurem-nos no genuflexório que os encontrarão, como Santa Mônica encontrou Santo Agostinho;
- quando os filhos tiverem dificuldades, orientem-nos para a oração, lembrando-lhes as promessas de Cristo a quem orar;
- quanto mais difícil acharem a obediência tanto mais devem rezar a Deus: "Pedi e recebereis" (Jo 16,24);
- encaminhá-los para o amor de Deus como supremo móvel de seus atos;
- pôr-lhes na mente a vida de Cristo, como modelo a seguir;
- habituá-los também a esperar de Deus as recompensas: as que se esperam dos homens falham a cada instante, mas as divinas são infalíveis.

c) Examinar-se diante de Deus:
- se os homens nos interrogam, podemos (ás vezes até devemos) negacear, quando são indiscretos ou injustos;
- quando nos acusam, nosso primeiro movimento é de defesa;
- mas se somos nós próprios que nos interrogamos, e o fazemos em face do Senhor "que vê o que é oculto" (Mt 6,6), então é natural que apareça a verdade; sumo valor pedagógico, que os bons educadores nunca deviam dispensar;
- habitue seu filho a examinar, à noite, o dia que viveu, pedindo a luz divina para conhecer-se, relembrando o que fez de bom (para agradecer a Deus) e de mal (para pedir perdão e propor emenda), procurando as causas e as intenções de seus atos bons ou maus;
- dificilmente continuará desobediente, mau filho, mau estudante aquele que for fiel ao exame de consciência;
- os católicos acusem na Confissão as desobediências, pois a confissão inclina à correção, e a absolvição outorga a graça que muito ajudará na emenda.

Os desobedientes

Empregados todos os meios indicados, haverá ainda os desobedientes. São naturalistas e utópicos o que, como Robin ("L'enfant sans defauts"), afirmam que a desobediência infantil não tem expressão em si, e deve ser atribuída à doença da criança ou aos errados processos educacionais da família.

Reconhecendo a grande freqüência destes fatores não pensemos, contudo, que sejam as crianças uns anjos caídos do céu... São filhos de Adão, com os percalços da pobre humanidade, e descendentes de suas famílias com a carga hereditária de gerações e gerações. Ingênuo, pois, quem as quiser reputar angélicas ou atribuir-lhes a sabedoria, de que o próprio Salomão nos deixou mais teoria que exemplos. Falta-lhes o senso para acatarem ordens, ainda as mais ricas de bom senso. Mingua-lhes a visão, mesmo quando se trata de seus melhores interesses presentes e sobretudo futuros.

Claro que os pais cuidadosos e avisados reduzirão muito as desobediências dos filhos, mas só por exceção as eliminarão nalgum deles.

Outras indicações

Já dissemos muito a respeito das causas de desobediência. Façamos, juntos, novas considerações.

A correção é lenta

Faz-se aos poucos através de muitas recaídas, mesmo na vida dos santos. Empenhados em corrigir-nos de um defeito, quantas vezes tornamos a cometê-lo? A Imitação de Cristo nos adverte: "Se cada ano corrigíssimos um só vício, dentro de pouco tempo estaríamos perfeitos". No entanto somos adultos e decididos à correção.

Que diremos então dos que estão em formação, fracos de convicções morais, fraquíssimos de vontade? Ainda os melhores recairão muitas vezes. É comum desculparem-se: "Foi sem querer". Os que não os acreditam vejam-se a se afligirem das próprias faltas: "Ih! E eu tinha prometido a Deus não fazer mais isto!"

Crianças precisam de nossa paciência e ajuda. A compreensão que nos pedem é esta. Não sejamos mais exigentes com as crianças do que conosco! Lembremo-nos de que a verdadeira obediência não é fácil: deixar de querer o que queremos para querermos o que o outro quer! Fazer o que o outro quer é mais fácil: mas esta não é a finalidade do educador, nem isto pode contentá-lo.  Os que se impacientam caem no erro de preferir a submissão à obediência.

Seja constante a ajuda

Não se impaciente com a criança, mesmo que a falta seja propositada. Mantenha a calma, e exija de novo o cumprimento da ordem dada. Obrigada mil vezes a repetir a mesma ordem ou a lembrar o cumprimento de uma determinação, façamo-lo sem nos perturbarmos, como se estivéssemos falando pela primeira vez. Sei que isto nos custa, mas se não sabemos conter-nos, como queremos corrigir os outros?

Não desanimemos: cada vez que a criança precisa realmente de correção, corrijamo-la, ajudemo-la a emendar-se, sem recriminações (que podem desanimá-la), sem alegação das faltas anteriores.

Dos maiores inimigos da correção, é a falta de continuidade: permite hoje o que proibia ontem. Guarde fidelidade aos princípios, e coerência nos atos. Creio não ser preciso repetir o que disse a 5ª norma sobre a necessidade de velar pela execução das ordens, e exigir o seu cabal cumprimento, tranqüila mas inflexivelmente.

A perseverança do educador termina conseguindo a do educando: a gota cava a pedra, não pela força mas pela repetição da queda.

Estude cada criança

Cada criança é um mundo diferente. É importantíssimo saber por que desobedeceu... Cada criança é um caso para encaminhamento diferente. A mesma solução não pode servir para todos. Infelizmente, na maioria dos colégios, a solução será uma só - e não será solução. Todos irão de castigo, agravando as causas da desobediências, punidos, mas não corrigidos.

Este não há de ser o caminho do verdadeiro educador, principalmente dos pais. Ele examinará cada caso e lhe aplicará a conveniente terapêutica, levando a criança a mudar as disposições interiores e dispor-se a agir corretamente na próxima oportunidade. Sem isto, a correção não tem sentido: a criança será subjugada, mas a causa da desobediência permanece e até se agrava.

Não haverá castigos?

A idéia é tão arraigada que me escusarão a insistência. Se a preocupação é educar, a correção basta. Ela pode tomar, no entanto, várias feições, conforme o caso.

- A ordem não foi cumprida; pois o será agora.
- O trabalho foi mal executado: será feito de novo, com o cuidado devido. E será repetido até que corresponda às possibilidades da criança (que o educador conhece).
- O mesmo acontecerá, quando a criança propositadamente modificou a ordem, para beneficiar-se.
- Houve transtorno em virtude da desobediência: a criança o reparará, na medida de suas possibilidades.
- Os casos de obstinação serão raríssimos nas crianças bem educadas. Mas se aparecerem, os pais os enfrentarão com calma e energia:

a) informando-se primeiramente do obstinado sobre as razões do seu procedimento e procurando desfazê-las;
b) fazendo-o recolher-se sozinho algum tempo, para pensar melhor;
c) recorrendo ao auxílio de pessoa da confiança da criança;
d) impondo outras sanções educativas que a situação do educando comporte.

Vantagens da desobediência

Aos que tanto se desgotam e se irritam com as desobediências do filho dou-lhes uma palavra de conforto. É bom sinal! Sinal de personalidade forte, que deve ser bem orientada para dar frutos dos melhores.

- Se não quer obedecer porque não vê a razão da ordem, parabéns: ele demonstra consciência de si, e promete ser um homem digno.
- Se recusa obedecer porque se sente cerceado na sua personalidade, parabéns: ele não será "o caniço agitado pelo vento" que o Evangelho reprova (Mt 11,7).
- Se nega obediência porque o modo de mandar lhe ofende os brios, parabéns: ele sabe preservar sua dignidade.
- Se ele não aprecia as ordens supérfluas, parabéns: será na certa um homem do dever e de iniciativa.
- Se repele a ordem porque é contrária à moral, parabéns: este menino começa onde muitos infelizmente não chegaram.

Ele pode ter erros de forma, devidos à idade; mas a substância é excelente, e só peço a Deus que não lhe cortem a perspectiva, mas o ajudem a crescer: o futuro dirá quanto ele vale.

Perigos da obediência (indiscriminada)

Folgam imensamente os pais dos filhos muito obedientes. "É tão bem mandado! - Basta dizer uma vez, logo imediatamente obedece! Não me dá trabalho! Quem dera que todos fossem assim".

Uma obediência baseada no respeito e no afeto aos pais, no sentimento de inferioridade que em face deles experimenta o filho, e na confiança inteira que neles deposita, é digna de louvor. Mas é rara, porque essa piedade filial em tão alto grau é muito adulta e perfeita para se encontrar em crianças.

Nem me parece muito normal a obediência imediata. Em geral se deixa um compasso de espera, como satisfação ao amor-próprio... Essa obediência, só a encontramos numa visão plenamente sobrenatural ou no fanatismo... Costumo dizer aos pais que não exijam dos filhos a obediência da lâmpada elétrica, que se apaga ao viramos o interruptor, mas se contentem com a do ventilador, que ainda dá umas voltinhas antes de parar...

Exceto em casos privilegiados, tem a demasiada obediência não pequenos perigos. Anula-se a vontade da criança, e depois? Essa obediência excessiva pode ser de má procedência e péssimos efeitos.

a) Pode ser preguiça mental: para não ter o trabalho de pensar, entrega-se, fazendo o que lhe mandam, sem repetir, sem medir conseqüências, pronta e automaticamente, como animal amestrado ou como máquina.

b) Por sentimento de inferioridade, não em face dos pais, mestres e outros adultos em que tenha razões de confiar, mas em face de qualquer outro, pode ainda a criança entregar-se à obediência absoluta.

c) Há também o perigo de aviltamento de caráter, se se obedece sem respeito à própria personalidade, contra suas convicções, contra os ditames da lei e até da moral, e, mais tarde, com medo ao chefe poderoso, à perda da colocação, do prestígio social e político.

Apontados assim, são claros por demais os perigos de uma obediência indiscriminada, todos de evidente gravidade... Ela mataria os germes da dignidade, da altanaria e da honra. Não é disciplina, mas servilismo e emasculação moral, que formará não homens, mas poltrões que se deixarão tanger pelos tiranos, subornar pelos corruptos, comprimir pelos prepotentes, sem ânimo para protestos, sem vigor para resistência, sem coragem para a revolta, sem fibra para salvar sequer a honra.

É dessa "educação para a morte" que saem as massas das eleições unânimes dos países tiranizados, os rebanhos submissos que os totalitários tangem a vara, os funcionários acovardados que cometem as ilegalidades ordenadas pelos chefes, os que cumprem sem pestenejar as ordens criminosas matando companheiros ou estrangulando jovens indefesas...

Nem os censurem: aprenderam apenas a obedecer, e obedecem! É o que fazem os que infamam a serviço de terceiros, os que executam os crimes forjados pelos chefes de "gang", os menores que servem aos interesses de contraventores profissionais, as míseras moçoilas que funcionam como chamarisco para roubos e latrocínios,  os "homens de confiança" que transbordam bens e valores públicos para as propriedades e contas de suas próceres, e muitos outros que em semelhantes empresas figuram com deplorável freqüência nas seções policias das gazetas.

Não é esta, evidentemente, a obediência que preconizamos.
Precisamos de homens - e estes só a obediência consciente é capaz de formar.

(Excertos do livro: Corrija o seu filho, do Mons. Álvaro Negromonte)

PS: Grifos meus
Ver também:
Primeira parte
Segunda parte

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Os dois rochedos

Os dois rochedos


Existem dois rochedos, que podem ser danosos para a juventude hodierna, e contra os quais infelizmente se despedaçam não poucas moças. São eles as amizades levianas e os maus livros.

Não tenhas amizade com pessoas de sentimentos levianos

É coisa muito importante saber escolher as amizades. Com os bons serás boa, com os maus tornar-te-ás má. Se a gota da chuva cair sobre a flor, converte-se-á em gota de orvalho e brilhará à luz do sol, qual pérola preciosa; mas se cair sobre a poeira da rua, tornar-se-á lama, lodo.

A mocidade, facilmente, cria simpatia e amizades, o caráter vivo, entusiasta e aberto dos jovens inclina-os a procurar comunicação e correspondência.

A consciência de sua inexperiência, estimulada pelo isolamento e solidão, desperta no jovem o desejo de se unir a outrem e encontrar um coração que pulse em uníssomo com o seu, numa sintonia de afetos e ideais.

Esta inclinação afetiva pode ser uma cilada à pureza da jovem, principalmente por causa de sua suscetibilidade à impressões várias, devido ao caráter terno e maleável, e pelo espírito elástico e irrequieto, que se deixa facilmente empolgar.

Como poderão as palavras carinhosas de um amigo não produzir-lhe uma impressão que dificilmente se apagará?! Como certos princípios não atuarão sobre ela de maneira perniciosa? Como os seus atos não a estimularão a imitá-la? Não é este um fato constatado quando existe certa semelhança de caráter, igualdade de gênio; ou quando as pessoas amigas se distinguem por talentos magníficos, por sua amabilidade natural e proceder atraente, por agradáveis dotes de conversação, por certa ousadia à qual dificilmente se resiste?

Quão pernicioso não será para ti a convivência com tais pessoas, se forem acostumadas com conversas levianas contra a religião e os bons costumes! Como não te hás de tornar, em pouco tempo, vacilante na tua santa fé e na virtude!

Embora tais conversações, no começo, te repugnem sobremodo, ainda que tenhas recebido aprimorada formação e gozes de natural tendência para o bem, o mau influxo de tal amizade não desaparecerá, principalmente se houver assídua convivência e trato recíproco. Dia a dia as gotas do veneno imoral irão penetrando na tua alma até que enfim perderás de todo o bom espirito e te perverterás.

Tudo isto se verifica se as pessoas, com quem manténs amizade e convivência, são jovens que não possuem nenhum fundamento sólido de formação religiosa e moral; mas isto dez vezes mais se verifica se essas pessoas pertencerem ao sexo masculino.

Como se explica que muitas moças se desviam cegamente e caem em perdição? A razão principal é esta: que elas inadvertidamente e sem aquiescência dos pais alimentam amizades com algum rapaz.

Ainda que estes fossem anjos, mesmo assim os passeios clandestinos, em horas impróprias e lugares incovenientes seriam verdadeiras ciladas para as incautas. Se alimentares tais amizades podes estar certa de que caíras no laço do inimigo; esforça-te, o mais possível, por te libertares dele quanto antes, e não te impeça a tua natural afeição ao reconhecer o perigo. Exerce vigilância sobre o teu coração e sê cautelosa!

Não te deixes seduzir por maneiras amáveis, olhares fascinantes e palavras melífluas; mostra-te, sempre, com ânimo forte, e governa-te pelas máximas e preceitos da santa Fé e da reta consciência.

Só com o conhecimento e aquiescência de teus pais e vigiada por eles..., podes travar relações de amizade com algum bom rapaz com o qual tenciones casar, e deverás, naturalmente, conservar-te sempre dentro dos rigorosos limites da decência cristã.

Além disso, relações de amizade só as terás com poucas moças, que tomam a sério os seus deveres, quer religiosos, quer outros, o que poderá fortalecer-te em tudo que é bom e agradável a Deus. Semelhante amiga é um dom inestimável do Senhor e uma grande felicidade para ti, sobremodo se te achares em lugar estranho e longe da casa paterna.

O convívio com ela dar-te-á segurança e proteção contra muitos perigos, e te comunicará alegria e ânimo para o bem. Se a tiveres encontrado, permanece-lhe fiel, que daí só te provirão abundantes bênçãos. Aviso-te, porém, seriamente: evita, o mais que puderes, toda convivência com moças vaidosas e frívolas.

Abstém-te outrossim de livros dúbios, que discorrem leviamente sobre coisas religiosas, que despertam pensamentos e desejos impuros e sensuais. São tais livros, por assim dizer, amigos sem vida, os quais, não obstante, podem exercer um influxo deletério e seduzir-te ao mal.

Na verdade, o livro pode-se ter sempre à mão, quer de dia quer de noite, no aposento silencioso, no vagão solitário, à sombra do verde bosque.

Abstém-te dos livros que descrevem, sem nenhum recato, nem qualquer atenção à decência cristã, as coisas mais obcenas, aliciando as mais vis paixões. O mau livro apresenta em capítulos longos, quadros vivos, cenas e debuxos, episódios que estimulam, a imaginação, cativam agradavelmente o coração, alvoroçam as paixões e enchem todo o interior de imagens que, mais tarde, nas horas ociosas da solidão, e até mesmo, no sono, durante a noite, assomam de novo à alma e a precipitam cada vez mais na imundície corruptora.

Eis porque a leitura de maus livros é tão perniciosa; ela atua como veneno mortal. Sorve-o a moça, dia a dia, quase inconscientemente, e mais cedo ou mais tarde, porém, com toda a certeza, se manifestará no coração o seu efeito destruidor. A virtude e a fé se tornarão cada vez mais débeis.

Talvez penses assim: eu preciso esclarecer-me e cuidar de minha formação; devo, portanto, instruir-me e ler também esses livros. Mas que esclarecimento é este, que faz naufragar a fé? Que formação esta, que faz perder a inocência? Não é porventura a fé o maior bem do cristão e a inocência o mais belo ornamento da juventude?

Nas obras de autores ímpios ou imorais, aventa-se mentirosamente a dúvida sobre a fé, como franca pesquisa científica, louva-se a descrença como esclarecimento do espírito, pinta-se o vício com cores brilhantes, e assim te arrebatam o precioso tesouro que é a religião e a virtude.

Não leias pois nenhum livro desses, embora escrito magnificamente - veneno é sempre veneno, mesmo quando apresentado no frasco mais fino.

Se depois do cumprimento consciencioso e fiel dos deveres, tiveres ainda tempo para alguma leitura, lê então bons livros, que te sejam úteis ou que te instruam, de maneira conveniente. Não hás de ler tudo quanto te oferecem, com apresentação magnífica, ou tudo que vês nas vitrines. O forte prurido pela leitura, que te conduz ao abandono dos trabalhos e deveres, não deves permitir que medre em ti.

É mister que anteponhas a execução dos teus trabalhos moderados às demais coisas.

Aconselho-te, outrossim, a adquirires certo domínio sobre a tua curiosidade, interrompendo às vezes a leitura, quando ela se vai tornando muito interessante. Com este processo se fortificará a tua vontade, de modo que poderás oferecer resistência a tudo quanto seja prejudicial à verdadeira felicidade.

Não leias, porém, senão os livros que te edifiquem. Ser-te-á de grande utilidade o leres, cada dia, atenta e vagarosamente, duas páginas do livrinho de ouro "Imitação de Cristo", aplicando a ti mesma o que diz o autor.

Poderei, outrossim, recomendar-te com grande empenho a "Filotéia", de São Francico de Sales, ou o "Combate Espiritual", de Scupoli. Deus também te recompensará, se aqui e ali, em ocasião oportuna, aconselhares, de maneira prudente, um bom livro ou uma boa revista.

(Excertos do livro: Donzela cristã, do Pe. Matias de Bremscheid)

PS: Grifos meus

terça-feira, 6 de abril de 2010

A dor supre o amor

A dor supre o amor


"Mas quando o amor é tão forte quanto a dor,
 o progresso da alma é extraordinário.
Ela se torna celeste;
Deus se inclina para contemplá-la,
 e o anjo das santas esperanças
desce dos céus para a vir colher."

Eis o fato que muitas vezes tenho observado. No princípio me surpreendeu; depois me extasiou.

Toda a existência começa pela felicidade e acaba pela tristeza. A ventura se nos apresenta com a aurora da vida e com ela se dissipa; vem depois a tristeza que não mais acaba. Porque? Parece que a realidade devia ser precisamente o contrário.

No começo da vida, quando ainda nada fiz nem mereci, porque tenho eu todos os dons e todos os júbilos? No fim, depois de ter conhecido o trabalho, a oração e o amor, porque todos os abandonos?

Pourquoi Dieu met-il doncede meilleur de la vie tout au commencement?
Dize, Senhor, porque pôs o melhor da vida, tudo, enfim, no começo?

Ó meu Deus, dizei-mo, a fim de que não me invada a tristeza nos meus derradeiros dias, e que o meu coração não se dilacere em uma lúgubre velhice, sem consolação e sem esperança, porque seria sem luz.

Como vimos, somos destinados a nos criar, trabalhando para a beleza da nossa alma. Ora, essa beleza nunca é terminada neste mundo. É preciso que ela sempre aumente. "Sede perfeitos como meu pai celeste é perfeito". Cumpre que caminhemos de luz em luz, de virtude em virtude; não nos devemos deter. Na felicidade, entretanto, o homem forçosamente interrompe a sua marcha: ele se deleita na ventura e nela quer permanecer.

Eis porque começamos pela felicidade; eis porque ela é passageira. Deus nos expele dali. Egredere, egredere. Caminhai, avançai, evitai o que vos detêm; não descanseis em meio da viagem. Devemos sempre prosseguir; e isto de tal modo nos foi ordenado por Deus, diz Bossuet, que Ele não nos permitiu sequer que parássemos no infinito.

E por isso, quando queremos repousar na felicidade, Deus faz um aceno, e a chama da dor arde sob os nossos pés e nos obriga a partir.

Eis a história da humanidade e a de cada uma das almas.

Vede o mundo. Começou pelo paraíso terrestre. Mas quanto durou? O homem não pôde muito tempo gozar dessa ventura; e foi necessário que Deus dali o expelisse, para que ele de novo achasse nas lágrimas a beleza perdida e o amor que se devanecera.

Vede o Cristianismo. Também ele começou por uma espécie de Éden. Mas que disse logo o Fundador? "Convêm para vós que eu parta. Expedit vobis ut ego vadam." E Ele acrescenta estas palavras profundas: "Se eu não partir, o Espírito não virá. Si enim non abiero, Spiritus non veniet."

Em outros termos, se a felicidade ficar, a felicidade dessa doce presença do Mestre e dos discípulos, o Espírito não virá, a chama sagrada do zelo, o belo fogo do sacrifício e da dedicação. Spiritus non veniet.

O mesmo se dá com qualquer existência. A criança nasce como num paraíso terrestre: é acariciada, amimada ternamente; mas isso não dura, nem pode durar. Cumpre que ela prove o fel da amargura, e beba a água da torrente. De outro modo, a virilidade do caráter se não revelaria. Spiritus non veniet.

Vem a época do casamento. É uma nova vida que surge e tem a sua hora de encanto. Mas se essa hora fosse prolongada, que se tornaria a alma? Os pais, os amigos, as obras de caridade, a visita aos pobres, as virtudes, tudo seria esquecido. O homem pararia em meio do caminho, em vez de prosseguir. Egredere, egredere.

É preciso partir, abandonando não o amor, mas os seus gozos; é necessário conhecer-lhe os limites e os desfalecimentos. O coração deve ser aperfeiçoado pelas mágoas. Se enim non abiero, Spiritus non veniet. O espírito, a chama, a virtude desinteressada, o sacrifício e a dedicação: eis o que o coração deve conhecer, pois que as virtudes do amor são mais belas e melhores do que as suas alegrias.

Na vida religiosa a situação moral é idêntica. Ela se inicia pelas doçuras do noviciado. Ó sagrados esposais da alma com Deus, quem descreverá o vosso encanto? É também uma lua de mel. Dentro em pouco os abandonos e as obscuridades se sucedem; a luz e a consolação, uma após a outra, se retiram. A alma se vê isolada, em um deserto, e a sua vida só se deriva da fé e do amor. E sob os seus pés se ateia, cada dia mais ardente, a flama da dor...

Eis a história de todas as almas e de todas as vidas. Ao despontar da existência, brilha uma hora de êxtase e de passageiro enlevo, como uma gota de mel à beira do cálice de amargura. Depois, a cada passo, vai diminuindo a fonte de júbilo, enquanto se avoluma a torrente das dores.

Cada dia o corpo se torna mais pesado, mais torturado, o coração, mais penoso o fardo que carregamos. Não nos podendo deter na felicidade, procuramos, ao menos, não caminhar na estrada das dores. É impossível. Depois de um sonho que se esvai, eis outro que subitamente se dissipa; e junto a um túmulo ainda mal fechado, um novo se abre... Em vão dizemos como o poeta:

"A dor acha sempre onde nos possa ferir. Depois de ter martirizado o corpo, amargura o espírito; e quando torturou o espírito, aflige o coração; e depois de o encher de angústias, novamente o salteia."

A esponja, no fundo do mar, quando saturada d'agua não mais se pode embeber. Mas no coração a capacidade de sofrimento é infinita. E assim chegamos no termo da vida. Todos os nossos sonhos se evolaram; tudo o que fizemos, desapareceu no esquecimento; tudo o que amamos, foi devorado pela morte.

Que nos resta?

Uns se desalentam e, desesperados, choram sobre essas ruínas.
Ó homem cego, não sabes o que resta? O teu coração, a tua fé.

O fogo da dor, se tudo destruiu, não aniquilou a tua alma. Quando se extinguiu a pira em que morreu Joana d'Arc, tudo havia desaparecido da nobre vítima, tudo fora consumido, exceto o seu coração.

A vida é também um fogo. No fim, só resta o coração purificado, engrandecido, transfigurado e embelecido pela dor, digno do céu para o qual ele nasceu e aonde pode remontar agora.

Eis o que a dor queria conseguir. E vós vedes assim que, no fundo, ela supre o amor. O que ela fez, a ele competia fazer. O amor ilumina, o amor purifica, embeleza, santifica e sublima; e se a dor hoje exerce essa gloriosa tarefa, é porque o amor já não é bastante poderoso para o exercer sem o seu auxílio.

Como é, porém, poderoso com ela! E como a dor é, por seu turno, um fraco operário, quando o amor não a acompanha! O verdadeiro impulsor da obra grandiosa é o amor; conhece as forças de que a dor dispõe, e só ele as sabe empregar.

Um amor pequeno e uma grande dor constituem uma aliança pujante, e os seus resultados já são maravilhosos. Mas quando o amor é tão forte quanto a dor, o progresso da alma é extraordinário. Ela se torna celeste; Deus se inclina para contemplá-la, e o anjo das santas esperanças desce dos céus para a vir colher.

(Excertos do livro: A dor, de Monsenhor Bougaud)

PS: Grifos meus.

ESPECIAL: Textos do livro: Corrija o seu filho, do Mons. Álvaro Negromonte

Nota: Reuniremos em um único post todos os capítulos do livro: Corrija o seu filho, do Mons. Álvaro Negromonte. Existem capítulos que foram transcritos apenas excertos e outros a transcrever.


Esse post receberá atualizações.
 
ESPECIAL
Textos do livro: Corrija o seu filho, do
Mons. Álvaro Negromonte
 
 
- Correção das crianças
  - O agitado
- O desobediente
- O que mexe no alheio
Primeira parte
Segunda parte (final)
- O que falta à verdade
Primeira parte
Segunda parte (final)

ESPECIAL: Textos do livro: Donzela Cristã, do Pe. Matias de Bremscheid

Nota: Reuniremos em um único post todos os capítulos do livro: Donzela cristã, do Pe. Matias de Bremscheid.

ESPECIAL
Textos do livro: Donzela Cristã, do
 Pe. Matias de Bremscheid


O dever - Nada simpático

O dever
Nada simpático



Inegavelmente, à primeira vista não é nada simpático o dever. Apresenta-se com ares de poucos amigos. Não traz "o melhor dos seus sorrisos" nos lábios com que dita uma obrigação. Vários motivos lhe dão essa fisionomia.

É obrigatório..., e por isso não pede, nem convida. Manda: senhorita, faça isto e deixe aquilo! Por assim dizer, leitora, pega-te pelo braço e coloca-te no teu posto sem olhar o tempo que há no céu. Despede-se novamente com uma ordem: Teu lugar é aqui, ouviste?

É multiplo..., e por isso se faz contradiço em toda parte. Não há vereda ou atalho da vida e do dia em que ele não esteja à espera de tua graça. Nas várias relações sociais, nos diversos compromissos religiosos, ei-lo escondido, sempre pronto a ditar uma ordem. Varia, como os lugares e as pessoas com que convives, lidas, te divertes, trabalhas.

É incessante... quase importuno. Pois pega de uma criatura no berço e só a deixa na sepultura. Está dentro de cada hora da vida, de cada palavra da boca, de cada desejo do coração, de cada ato da vontade livre. Quando falas com Deus, ei-lo a teu lado. Se pensas no passado ou indagas do futuro, logo o dever exclama: Presente!

É prosaico..., nada possuindo de poético, de emotivo para a fantasia da jovem leitora. Pois todo o mundo tem um dever a cumprir, vive às voltas com ele. Por ser tão "de cada dia", figura entre as coisas fora de menção. Raras vezes se erguem arcos de triunfo para celebrar o cumprimento do dever. Mais raro ainda lhe é acenderem uma chama votiva.

Mas assim mesmo, leitora, o dever é sagrado por ser a expressão da vontade de Deus. É abençoado porque melhora e dignifica o homem que o cumpre. O que faz a água fria com o ferro em brasa, faz o dever com a vontade do homem fiel: tempera-a, enrija-a, dá-lhe resistência.

O dever é como uma fornalha. Devora por isso a ferrugem da vontade que se entrega às suas chamas, tornando-a incandescente na presença do ideal.

Pobre moça, que foge dos seus deveres, que os sonega, que os ilude, que os regateia e deles se esquece! Pois a vida não tem bens suficientes para indenizar do esquecimento de um só dever...

(Excertos do livro: Audi Filia! Páginas para moças - Pe. Geraldo Pires de Souza)

PS: Grifos meus e itálicos do autor)

"A subida do Calvário"

"A subida do Calvário"
Padre Louis Perroy


PREFÁCIO
(Padre Leonel Franca, S.J.)

Para a humanidade remida a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo não tem apenas o interesse de um fato histórico para sempre desaparecido no passado irrevogável; é uma realidade sublime que continua a palpitar na vida espiritual das almas.

O Sacrifício do Gólgota é o grande ato religioso que, em nome da humanidade prevaricadora, ofereceu o Salvador à majestade infinita de Deus. Só pela Cruz podem elevar-se, aceitas, até o Seu trono as homenagens do nosso amor e da nossa gratidão, os nossos arrependimentos e as nossas súplicas; só pela Cruz descem até nós, com o perdão da Sua misericórdia, todos os benefícios da Sua bondade.

Nesta permuta entre a plenitude divina e a indigência criada resume-se toda a nossa vida religiosa, de que o Calvário é o centro necessário. As nossas almas hoje vivem tanto daquele Sangue divino que ainda continua a oferecer-se nos nossos altares, quanto as de João ou Madalena que, com os seus olhos, O viram correr das Chagas benditas do Redentor.

É por isso que sobre a simples meditação do sofrimento de Cristo se projeta algo da eficácia intrínseca do Seu Sangue redentor. À claridade da Cruz ilumina-se o grande problema da dor, trama necessária de que se entretece toda a existência humana. O sofrer tem um significado e as lágrimas um valor inestimável. Bem-aventurados os que choram, porque a dor eleva, purifica, expia, associa-nos numa comunhão inefável à missão redentora de Jesus. E quando a inteligência, iluminada pela graça, penetra estas razões superiores do sofrimento, o coração sofre com mais dignidade, com mais resignação, com mais amor.

A convicção da fecundidade divina das nossas lágrimas é o bálsamo mais eficaz para uma alma ferida. A dor que nos pode aproximar do Infinito Bem será sempre, na feliz expressão de um grande convertido moderno, uma dor bendita, “la bonne souffrance” (François Coppée).

Entre os autores recentes que escreveram sobre este assunto inesgotável, poucos o fizeram com tanta felicidade como o Padre Louis Perroy. Conhecimento visual dos lugares santos em que se desenrolaram as grandes cenas da Paixão, familiaridade com as fontes e documentos que permitem uma reconstrução histórica exata, experiência profunda do coração humano concorrem harmoniosamente para dar ao seu livro um interesse raro. Nestas páginas em que a simplicidade do Evangelho, a fineza da psicologia, a unção da piedade tão espontaneamente se completam, inúmeras almas, nas suas agonias interiores, encontraram luz, força e consolo.

Com o intuito de ampliar, entre os nossos leitores, o raio desta influência benfazeja, teve o sr. Luiz Leal Ferreira a idéia inspirada de nos oferecer uma cuidadosa tradução do livro do Pe. Perroy. Foi uma ação boa, destas que têm por alma a caridade cristã. Em recompensa, todos a quem beneficiar a sua leitura lhe ficarão devendo gratidão e amizade. Amigo e benfeitor nosso é quem nos estende a mão para ajudar-nos a bem sofrer. Numa terra devastada pelo pecado todo homem deverá subir o seu Calvário. Subi-lo com o Cristo e à imitação do Cristo é a única via de redenção eficaz.

INTRODUÇÃO
Mors mea, vita tua” – “A minha morte restitui-te a vida”.
(Inscrição gravada sob o grande Crucifixo da Catedral de Ancona)

Fora da cidade de Jerusalém, ao noroeste, pertinho das muralhas, erguiam-se defronte um do outro dois cabeços rochosos, dois montículos de quatro a cinco metros de altura, separados por estreito valado de vinte e cinco metros de largura aproximadamente, coberto de oliveiras, de figueiras e de jardins. O montículo mais próximo do baluarte rematava num cume em forma de crânio arredondado, nu, bravio; era aí que se executavam os condenados à morte. Chamava-se a esse cume desolado o Calvário; pertencia à cidade.

Em frente mesmo desse Calvário, o montículo que emergia dos jardins e das árvores, do outro lado do valado, havia, talhado numa rocha viva dos flancos, um túmulo composto, consoante o uso, dum átrio no fundo do qual se abria um vão muito baixo que dava para uma pequena câmara sepulcral, ocupada na metade da largura por um banco rochoso onde se depunha o corpo amortalhado e aromatizado; pertencia este túmulo, bem como os jardins contíguos, a um certo José de Arimatéia.

Foi nesse espaço estreito, no meio desses jardins, perto daquelas muralhas de Jerusalém onde se abria a Porta Judiciária, foi naquele cimo nu, arredondado como um crânio, foi nesse sepulcro, que em três dias se verificaram os dois maiores acontecimentos que jamais se poderão desenrolar na humanidade: a Morte e a Ressurreição do Cristo.

Na vida do Filho do Homem tudo deve confinar com esses dois cimos sagrados. Muito havia que Deus, cuja Providência se estende da minúcia ao conjunto, preparara esse cenário de um drama sangrento e glorioso. Aqueles dois bruscos lances de rochas no meio da planície, de há muito os olhava Deus como o lugar terrível e bendito onde haveria de esquecer, ante o Sangue que devia inundar o primeiro e a glória que devia resplandecer do segundo, todo o Seu furor, as longas iniqüidades dos homens e as funestas conseqüências da desobediência de Adão.

Nos seus passeios ao redor da cidade, nas caminhadas por aquela planície, Jesus, rodeado dos discípulos, devia ter muitas vezes passado perto daquela rocha selvagem do Gólgota. Com que olhar devia fixá-la? “Eu vo-lo digo: tudo quanto os profetas anunciaram vai cumprir-se. O Filho do Homem será traído, entregue aos gentios, cuspido, flagelado e crucificado”. E os olhos se lhe pousavam sobre o cimo do Calvário; mas “ressuscitará ao terceiro dia”, e através das árvores que o circundavam com o seu pálido emaranhado de folhagens de oliveiras, divisava o túmulo, a pedra vitoriosamente abatida e Ele a surgir na luz esplendida das auroras.

Per Crucem ad Lucem: era pela Cruz que Ele devia chegar à glória.

O Calvário permanecerá, pois, para Ele, durante a vida mortal, como o ponto culminante de toda a Sua existência. Nascera para subi-lo, e subi-lo como Vítima. Porque Jesus é antes tudo Vítima Expiatória: Ele o sabe, Ele o sente, Ele o quis, e Seu Pai O encara primeiramente como tal.
É o primeiro papel do Cristo, a Sua primeira razão de ser: satisfazer a Justiça de Deus, reparar o ultraje feito a Deus, salvar a honra de Deus; quase se poderia dizer que a salvação dos homens vem depois; além do que, o Pai bem entende primeiramente de satisfazer a Sua Justiça tremenda, e Jesus terá de “pagar inteirinha a dívida sem remissão e sem misericórdia” (Bossuet, Segundo Sermão sobre a Paixão).

Durante mais de 4000 anos preparar-se-á esta suprema expiação. Como nessas tempestades que se formam lentamente, em que há primeiro nuvens sombrias, clarões aterradores e regougos longínquos, as cóleras divinas se amontoam de século em século através da humanidade culpada.

Por vezes o braço de Deus sai como um relâmpago e traça a grandes traços, bruscos e rápidos, um esboço do Seu furor. Conta Ele acabar mais tarde: a príncipio são simples bosquejos trágicos ou sangrentos até nos animais. Assim a vaca avermelhada que imolavam pelo povo no Monte das Oliveiras, em frente ao Templo; assim aquele bode impuro de testa carregada de borlas e fitas vermelhas – o vermelho era a cor do pecado – que enxotavam para o deserto através do Vale do Cedron, porque estava coberto das iniquidades de todos. Assim ainda aquele cordeiro que degolam todas as tardes no Templo pelas três horas.

Depois, o desígnio firma-se sobre homens; assim Isaac, o filho único, querido, em quem repousam as longas esperanças de seu pai; levam-no à montanha, e esta montanha é tão perto do Calvário!... É a rocha de Moriah, onde devia edificar-se o Templo. Ele próprio carrega a lenha do sacrifício, e é o pai quem o vai imolar: que lúgubre quadro!

É ainda Jó, caindo do pleno poderio à miséria de um monturo, à porta da sua cidade ou de sua casa!
Jonas, que atiram ao mar, de quem os homens se desvencilham como de um peso que atiça a cólera divina...
E no meio dessas figuras trágicas são exclamações que parece indicarem uma cólera opressiva.
Maledictus a Deo est qui pendet in lingno (Deut 21, 23): maldito o que pende da cruz!
Ó Deus! Que querem dizer estes enigmas?

Vimo-lo, vimo-lo, exclama súbito e mais abertamente Isaías, é um leproso, um desamparado, um abandonado, não se lhe pode olhar, é um verme da terra, um fustigado de Deus (Isaías 53, 4).

E este clamor gela de espanto quantos o ouvem.
Afinal, cumpriram-se os tempos: eis a Vítima real e esperada. O Cristo nasceu!
Que cioso cuidado põe Deus em conservá-lo antes que suba ao Calvário! Há a preparação remota: é como um envolvimento progressivo da Justiça irritada.

Nasce Ele: uma manjedoura de animais Lhe serve de berço; uma gruta fria, durante a noite, é-Lhe o primeiro teto; depois o exílio, a perseguição, o olvido; depois o trabalho necessário para comer o pão quotidiano. O suor da oficina, o penoso labor do carpinteiro. E depois são os outros e esfalfantes labores do apostolado.
Tudo é já instrumento de vingança nas mãos de Deus: a poeira das estradas, as tempestades do lago, a fome, a sede no deserto de Jericó durante quarenta dias, a fadiga no poço de Jacó. Há, sim, milagres que esplendem: são as flores com que Deus coroa a Vítima.
Eis aqui com efeito o derradeiro triunfo: passeiam regiamente essa Vítima de Bethfagé a Jerusalém, onde Ela entra pela Porta Dourada: Hosannah Filio David!

Então está tudo pronto para a rude ascensão do Calvário.

Instrumentos do suplício: desde os de primeira escolha, como Judas, Herodes, Caifás e Pilatos, até os de baixo estofo, como a mão de um criado, o escarro de um soldado.

Torturas do Coração: pulverização da honra, esmagamento do ser humano, nada é esquecido; todas as criaturas são convocadas para aí trabalharem, cada uma à sua hora.

Por fim, é a última, a áspera subida do Gólgota.

E por sobre aquele cume, o meigo, o sangrento semblante do Senhor, a erguer olhos súplices para o alto e podendo dizer com a certeza de ser atendido:

Pater, dimitte illis.

Meu Deus, perdoai-lhes. Eis todo o drama da Paixão.

Eu vou seguir, ó Jesus, passo a passo a Vossa esteira sangrenta até esse alto cimo. Quero tocar cada um dos instrumentos de suplício que Vós a ele encaminharam.

Quero pesar cada uma das torturas que Vos trituraram o Coração; e, quando, chegado ao termo dessa estrada real e dolorosa, eu vir inclinar-se sobre mim o semblante do Senhor, levarei estampada essa doce e essa sangrenta imagem.

Marcada deste cunho divino, a minha vida se transmudará, eu não olharei mais a terra, subirei mais alto que o Calvário... lá onde os Vossos olhos moribundos procuravam e achavam a glória satisfeita do Pai.
Deus, respice in faciem Christi tui (Sl 43, 10). Respice in me et miserere mei (Sl 24, 16).

Meu Deus, olhai primeiro o semblante do Senhor, Vosso Cristo... e depois, olhai mais abaixo e dignai-Vos compadecer-Vos de mim. Assim seja.

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(Belissimo texto recebido por e-mail - mantive os grifos)