segunda-feira, 5 de abril de 2010

A criança desobediente - Como educá-la? (Segunda parte)

A criança desobediente
Como educá-la?
(Segunda parte)


Qualidades da obediência

Consideremos agora as qualidades da obediência ideal. Ela será:

a) racional: não cega, mecânica, servil, mas entendida nas suas ordens e nos seus motivos, a fim de que sua execução seja um ato humano, e não atitude de animal amestrado;

b) digna: compreendida, espontaneamente aceita, deliberada pela vontade que quer ser livre; ela não me desfaz, e sim me afirma a personalidade; não me avilta, mas me engrandece; não me torna carneiro de rebanho, mas homem que dispõe de si mesmo; é mostra de liberdade, não de servilismo;

c) confiante: anota Göttler ("Pedagogia sistemática") que a obediência supõe "um respeito íntimo... às ordens das pessoas revestidas de autoridade, uma veneração aos superiores de qualquer categoria, enquanto eles representam as autoridades que regem a vida das sociedades"; esse respeito, essa veneração estabelecem a confiança que inclina à aceitação fácil das ordens recebidas, mesmo quando não se lhes conheça a razão ou não se lhes percebe o alcance;

d) alegre: racional, digna, confiante, a obediência será alegre, sem constrangimento maiores, sem murmurações e revoltas, sem medos nem desgostos, mas fácil e até espontaneamente pronta;

e) sobrenatural: nós, que cremos em Deus e para Ele encaminhamos a vida e a educação, tudo devemos fazer em vista da eternidade, ainda que sejam as ações mais quotidianas atividades (Ver I Cor. 10,31); nós, que sabemos que "todo poder vem de Deus" e que "resistir à autoridade é resistir a Deus" (Rm 13,1-2), devemos obedecer com essa visão sobrenatural: ela ultrapassa os homens e nos prende a Deus, garantindo-nos que teremos sempre a recompensa de nossa submissão, desde que as ordens recebidas não contrariem diretamente aos Mandamentos divinos ou aos ditames de nossa consciência.

Preparar a obediência

Embora estejam os filhos obrigados à obediência, não o podemos exigir do mesmo modo a todos. Impõe-se a discriminação, devida à idade e às circunstâncias individuais. A idade é que primeiro se apresenta.

- Na primeira fase será apenas o adestramento. Incapaz de compreender, a criancinha aprende a fazer o que a mamãe manda, e a não fazer o que ela proíbe. Vai-se habituando a atender à mamãe, que lhe falará sempre com carinho, às vezes com firmeza, até estabelecer os hábitos.

Com 18 a 20 meses, já "compreende" algumas razões, que lhe são dadas: "está molhado", "é sujo", "é do irmãozinho", etc. Antes dos 2 anos, se ela foi encaminhada assim, basta-lhe um olhar ou um gesto para retirar a mãozinha.

Esta é, irremediavelmente, a fase da obediência cega, em que o único verdadeiro motivo é a vontade do educador. Embora à maioria dos pais pareça sem importância, reputam-na os modernos psicólogos a idade decisiva na vida do homem - como o alicerce para a casa. E cometem falta, às vezes irreparável, os que a desperdiçam, deixando para mais tarde o que então deve ser feito. Depois será preciso desfazer maus  hábitos, para iniciar os bons - o que representa multiplicado trabalho e precários resultados.

- Na segunda fase começamos a dar as razões de modo mais explícito, porque cresceu a capacidade de compreensão. E o educador que se preza quer estabelecer a obediência consciente. "Falem mais baixo, porque a mamãe está repousando". "Vão brincar lá fora, porque a vovó está doente". "Desliguem o rádio que está perturbando o estudo do papai."

Não podemos dizer ao certo quando começará esta segunda fase. A criancinha passará logo para a idade do não, que repelirá sistematicamente o que lhe mandarmos ou pedirmos. Mas, em seguida, apelaremos  para a compreensão da criança: "Você não compreende que não pode brincar na chuva?"

O fato de compreender não significa que se renda. Compreende, mas quer ir assim mesmo. Ou tem dificuldades especiais para compreender: "Como é que Pedrinho está brincando?" Ou: "Como é que os homens trabalham na chuva, e não adoecem?"

Esta frase exige bastante paciência ao educador, para que ele:

- não descambe para o autoritarismo ("É; mas você não vai porque eu não quero"),
- não caia na discussão de igual para igual,
- ou seja derrotado, "por pontos" ("Pois, então, vá; e me deixe em paz").

- Na terceira fase, se os passos anteriores foram seguros, o pré-adolescente e o adolescente atenderão às indicações dos pais, e o trabalho de persuasão, próprio da etapa anterior se reduzirá aos casos específicos da idade. É verdade que os surtos de independência são mais fortes, mas os pais compreensivos proporcionarão as ordens e restrições ao desenvolvimento do comportamento moral e social dos jovens.

- Henri Pradel, no excelente estudo sobre a obediência ("Comment former des hommes"), que me forneve vários elementos deste capítulo, caracteriza essas frases por três fórmulas: "Eu quero", - "É preciso", - "Tu deves." Podemos também caracterizá-la por três verbos: Mandar, persuadir, indicar.

A criança que tiver sido bem trabalhada na primeira fase estará excelentemente preparada para obedecer nas demais.

Facilitar a obediência

Os pais gostam de ser obedecidos, mas os filhos não gostam muito de obedecer. Para deles conseguirem mais fácil virtude, cuidem os pais de melhorar os métodos de comando. O exercício da autoridade é uma ciência e uma arte; tem seus princípios e sua técnica. Os que as conhecem facilitarão as próprias tarefas e as dos súditos. Quem sabe mandar é mais facilmente obedecido.

Vejamos, então, algumas normas de comando pedagógico.

1ª norma: Mantenha a autoridade

Para isto:

a) acredite-se junto às crianças:
- fale com a superioridade de pais sobre filhos, na convicção de que não está apenas exercendo um direito, porém cumprindo um dever;

b) dê ordens:
- Não peça favores, pois a sua autoridade se impõe pela natureza;
- os próprios súditos gostam de ser comandados com autoridade: os judeus admiravam em Jesus que Ele falava "como quem tem autoridade, e não como os seus escribas e fariseus" (Mt 7,29);
- não discuta com os filhos: isto aniquila a capacidade de mando;

c) fale com firmeza:
- a timidez de quem manda sugere a possibilidade da desobediência;
- vendo-se temida, a criança se reputa superior, e não atende;
- uma autoridade fraca não recebe acolhida nem confiança dos súditos;
- não recue facilmente da ordem dada (a menos que tenha visto seu erro), nem ceda a pedidos, carinhos ou lágrimas (aliás, quando as crianças sabem que é inútil insistir, não insistem);

d) assegure a autoridade alheia:
- nada é mais prejudicial à autoridade do que a falta de união entre os pais - um proíbe, outro permite; um ordena, outro dispensa; um corrige, outro relaxa; ou se desentendem sobre o regime de educação, à vista das crianças; ou entram em contradição com os mestres e o colégio.

2ª norma: Seja prudente em mandar

Do contrário, a autoridade se compromete, os recuos se impõem, e as crianças encontrarão pretextos para desobedecer. Tome, pois, cuidado:

a) pense as suas ordens:
- nada de precipitação, que obrigue depois a recuar ou (pior ainda) a fazer vista grossa;
- não ordene o impossível ou sumamente difícil;
- não proíba o que as crianças nem sonhavam fazer (Pode ser isso uma sugestão à obediência. Ex: Tendo ganhado um instrumentinho de carpinteiro, o menino - 7 a 8 anos- fizera uma devastação em casa. Indo sair, a mãe, imprudentemente, lhe recomenda que, em sua ausência, poupe ao menos a mobília da sala.)

b) seja oportuna:
- escolha o momento mais propício à obediência;
- respeite a idade, o temperamento, a curiosidade, o interesse momentâneo da criança.

c) não ponha tudo no mesmo plano:
- nas recomendações às crianças, há ordens que a autoridade impõe, há conselhos que a experiência dá, e há pedidos que a amizade ou a boa vizinhança fazem: não podem ser postos no mesmo nível, pois a ordem é para ser cumprida, enquanto o pedido e o conselho ficam à generosa receptividade da criança...

- não ponha também no mesmo plano o que é contra a moral, o que é contra as boas maneiras, e o que não lhe agrada. (há pais que deixam passar princípios e atos contra a moral, que toleram a até autorizam graves pecados contra a religião e a justiça mas não suportam pequenas faltas que lhes desagradam...)

3ª norma: Fale pouco

a) Mande pouco:
- mande apenas o necessário, e não mais, para não estafar as crianças, não desanimá-las, não irritá-las nem ensinar-lhes a insubmissão;
- não faça muitas proibições, mas se restrinja ao indispensável, para não limitar demais a criança, que antes precisa aprender o que deve fazer e não o que lhe é proibido. Ex: É comum ouvir-se a mãe "educando" o filho: "Anda direiro menino". - "Levanta essa cabeça". - "Conserta a camisa". - "Olha pra frente". - "Puxa essa calça pra cima". - "Não arraste a cadeira assim". E dez mil outras recomendações diárias.

b) seja breve e claro:
- uma ordem longa ou confusa será, na certa, esquecida, confundida ou deixada; Ex: A mãe pergunta: "Quem de vocês quer deixar o jogo um instante, levantar-se da cadeira e ir fechar aquela porta da saleta, que está batendo com essa ventania?" A turma continuou firme no jogo. A ordem devia ter sido dada assim: - Pedro, vá fechar a porta da saleta.

- palavras rápidas e seguras, suficientes para dizermos o que é necessário, sem mais nem menos;
- fale de modo preciso e concreto, pois as recomendações vagas são quase sempre perdidas
- quando for necessário, porque a criança está um pouco longe, ou porque animado o grupo em que figura, chame-a pelo nome, e só lhe dê a ordem quando se tiver assegurado da sua atenção.

c) fale pelo gesto e pelo olhar:
- certos deveres de rotina demandam apenas um lembrete - um pequeno gesto, um olhar, um movimento de cabeça, um mexer de supercílios - e as crianças compreendem que é hora de ir para o estudo ou para o leito, que devem moderar a voz, mudar de posição, etc.

4ª norma: Mande com bons modos

a) Fale sempre delicadamente:
- mais se obedece ao modo e à pessoa do que às ordens;
- a delicadeza vai muito bem com a firmeza e com a prudência;
- o sentimento do brasileiro repele a grosseria, que fica mal em todos e especialmente num educador, e não tem cabimento entre pais e filhos;

- não pense que a delicadeza lhe diminuirá a força moral; antes a aumentará: as crianças não a confundem com fraqueza, e o agrado que ela desperta inclina à obediência e acredita a autoridade;
- quando o educador costuma fazer-se obedecido, a fórmula pode ser de súplica, e as crianças a entenderão devidamente: "Querem fazer o favor de falar mais baixo?" ; "Querem ter a bondade de recolher-se?"...

b) Evite humilhações:
- elas irritam as crianças, e ante predispõem à revolta que à obediência;
- não faça comparações deprimentes ("Não faça essas caretas: fica parecendo um macaco");
- não diminua a criança  na presença de adultos;
- elas irritam as crianças, e antes predispõem à irmãos (ficarão zombando dela), nem em face de si mesma (pode levá-la à revolta ou à inferioridade);
- não tripudie sobre a rendição do desobediente ("Conheceu, bichinho?" - "Eu sabia que você tinha de se render!"...);

c) procure captar a confiança:
- a confiança recíproca facilita os caminhos da obediência;
- abra sempre um crédito de confiança à criança, qualquer que seja a situação;
- mesmo que a prudência aconselhe uma vigilância mais estreita, retire-lhe sempre o aspecto de espionagem;
- não insinue a mínima possibilidade de desobediência, mesmo em se tratando de reincidente que certamente cairá de novo.

d) ajude a obedecer:
- estimule a criança ao cumprimento da ordem recebida;
- quando o trabalho for mais difícil ou inspirar especial repugnância à criança, comece-o com ela;
- não compre obediência com promessa (a não ser em casos raríssimos, para salvar situações extremas, em que o filho só a isso se mostrasse sensível): esse comércio ilícito mais parece suborno;

- não faça ameaças: são perigosas à educação; feitas em geral apaixonadamente, podem deixar-nos no desagradável dilema de cumpri-las (fazendo injustiça à criança, por seu demasiado rigor) ou não cumpri-las (e desmoralizar-nos), e levam também a educação para um terreno que não é desejável;
- recompense a obediência, quando ela demostrou maior esforço ou maior perfeição: os estímulos dão alavancas que removem os obstáculos mais pesados.

(Excertos do livro: Corrija o seu filho - Mons. Álvaro Negromonte - continua...)

PS: Grifos meus

domingo, 4 de abril de 2010

A criança desobediente - Como educá-la?

Nota: Esse capítulo será dividido em três partes.

A criança desobediente
Como educá-la?
(Primeira parte)


A mais freqüente queixa dos pais sobre os filhos é, sem dúvida, quanto à desobediência:

- "Não obedecem";
- "Dá-se uma ordem, eles nem ligam";
- "Hora de dormir, ninguém os tira da televisão";
- "Marca-se horário para os estudos: não respeitam";
- "Já se falou mil vezes que não cheguem atrasados para as refeições: não há jeito";
- "Estamos cansados de dizer que não deixem os objetos fora dos lugares: eles nem escutam"; etc. etc.

Um enorme rosário de lamúrias, que terminam sempre por uma espécie de indulgência plenária aplicável aos pais: "Essas crianças de hoje são muito diferentes das do meu tempo."

E explicam:

- "Lá em casa duvido que um filho levantasse a voz para o papai!"
- "Ordem dada era ordem cumprida, gostássemos ou não."
- "Quem era louco para chegar atrasado para a refeição?"
- "Bastava um olhar do velho, ia todo mundo para a cama."
- "Nós sabíamos obedecer!"

E encerram como num estribilho: "Mas essas crianças de hoje"...

De quem é a culpa

Lançando aos filhos a pecha de desobedientes, estão os pais, astuciosamente, desculpando-se. Na verdade, não há diferença tão grande entre as crianças de hoje e as de antigamente.

As crianças são as mesmas, com as eternas características da infância, os mesmos interesses profundos, a mesma receptividade educacional, as mesmas exigências de afeto, de segurança, de formação. As diferenças dos tempos, superficiais, não lhes atingem a estrutura. Nalguns pontos dificultam a obra dos educadores; mas noutros a facilitam.

Alguns pais é que mudaram. Abandonaram os cuidados da educação, abriram mão dos deveres, afrouxaram a vigilância, fugiram à formação dos filhos, demitiram-se dos mais sagrados encargos, capitularam ante as crianças, e se queixam de que estas são culpadas.

Tinham em mãos a autoridade: perderam-na. Receberam a criança ao nascer - e não crescida e deformada. Se não lhe deram a orientação devida, a criança é vítima, e não culpada!

Se os antigos se faziam obedecidos a simples olhar, é que não se contentavam em ser autoridade, mas sabiam ter autoridade: isto é, manter a superioridade, que a própria natureza impõe ao filho de forma tão impressionante. Prova disto é que, ainda hoje, os que têm autoridade conseguem os mesmos resultados de outrora, embora por meios consentâneos com os tempos.

Mas os tempos mudaram

Não é possível proceder hoje do mesmo modo que antigamente, agir com rigores, exigir aqueles extremos. Mas também não é possível largar os filhos a si mesmos, sob pretexto de que a educação moderna exige liberdade, ou de que a mãe precisa de trabalhar fora, para... dar melhor educação (?) às crianças, ou de que os pais que trabalham precisam de repouso quando chegam à casa (e podem aborrecer-se (?) com problemas de crianças), ou simplesmente por comodismo, "vida social intensa" e outras alegações congêneres.

Há os que desejam acertar. Sabem que não se pode hoje educar como foram educados, mas sentem dificuldade em adaptar-se aos novos moldes, pois não foram preparados para isto. (Infelizmente continua o tremendo erro de não se cuidar da preparação dos futuros pais. Mesmos os colégios católicos ensinam mil coisas às jovens, mas não lhes ensinam a ser mães, embora o desejo de casar lhes seja o mesmo de sempre.)

É com estes que desejamos conversar, para lhes oferecermos a ajuda que merecem, pelas intenções que os animam.

Porque desobedecem

Os que desejam realmente corrigir os filhos procurem descobrir as causas das desobediências. Conhecida a causa, importa removê-la: tirada a causa, cessa o efeito. Apontaremos algumas causas da desobediência infantil.

A. Da parte dos pais:

- Não têm autoridade;
- Não sabem mandar;
- São muitas ordens, algumas impossíveis;
- Não velam pela execução das ordens;
- Querem impor-se mais pela força que pelo amor;
- Não mantêm coerência, proibindo hoje o que permitiram ontem;
- Desentendem-se, um proibindo e o outro permitindo;
- Cedem, quando a criança se exaspera ou insiste;
- Mandam o contrário para conseguir o que desejam;
- São implicantes, cansando e irritando as crianças;
- Exigem uma obediência imediata;
- Querem levar a obediência em excessos, humilhando a criança;
- Não preparam os filhos para a obediência;

B. Da parte dos filhos

- Falta de compreensão, própria da idade;
- Fraqueza da vontade, que cede a interesses imediatos ou de ordem sensível;
- Hábito de fazerem o que lhes é proíbido;
- Repugnância ao que lhes é ordenado;
- Aproveitamento das fraquezas do educador que:

a) cede com facilidade,
b) não pede contas do que manda,
c) ameaça, e deixa correr,
d) se desentende com os outros educadores; etc.

- Afirmação crescente de personalidade: passando da obediência passiva de criança à obediência ativa (consciente) de adolescente, querem saber o porquê das ordens, repelem as proibições injustas ou humilhantes;
- falta de preparação para a obediência.

Para poder mandar

Não basta ser autoridade, mas importa ter autoridade, para ser obedecido. Ai das autoridades de quem é preciso dizer-se o que disse Cristo dos escribas e fariseus: "Fazei o que eles dizem, não façais o que eles fazem" (Mt 23,3). Acima de tudo, é preciso pôr-se em condições de mandar.

Dominar-se

O educador há de possuir o completo domínio de si. Quem se deixa dominar de qualquer sentimento ou paixão, perde a capacidade de comando: - isto vai de simples domínio do temor físico, passando pela timidez ou mera indecisão, até chegar ao seguro controle das mais profundas e violentas paixões.

Saber usar da autoridade

É ponto de suma importância. A improvisação é má conselheira.

Vejam-se os estágios do militar para chegar ao comando do exército... preciosa é neste aspecto, a família numerosa, na qual os irmãos mais velhos, delegados pelos pais, exercem autoridade sobre os pequeninos.

Saber obedecer

É caminho e escola do bom exercício da autoridade. Só sabe mandar quem sabe obedecer. Este preceito dos pedagogos é reconhecido pelos próprios educandos. Citando John Ruskin, o grande Foerster ("Instrucion ética de la juventud") conta que ele, discutindo com adolescentes de 14 e 15 anos sobre a obediência voluntária, propôs como tema: "Quem não aprendeu a obedecer, não sabe mandar." Os jovens frisaram não estar em condições de dar bem uma ordem que não experimenta em si as reações que ela provoca.

Conhecer o que manda

É preciso ter experiência do trabalho pedido, do sacrifício ordenado. E lembrar-se do que lhe custou aquilo na idade que têm agora os filhos. Hoje nos é fácil (ou não é...) passar uma hora calados, ficar sentados sem mudar de posição (o próprio reumatismo ajuda...). Hoje fazemos tranqüilamente serviços que nos despertavam repugnância aos 12 anos ou 15 anos.

Um educador não pode esquecer que já teve a idade que têm agora seus educandos. E se esquecer, perdeu a capacidade de educar.

Conhecer os filhos

Só quem os conhece pode lidar com eles. Há as características gerais da infância e da juventude, com suas diferenças de idade e de sexo. Mas há também a psicologia desta criança

Não existe a criança teórica, ideal, de livro; existe a real, viva, com a qual vivemos, que ouve as nossas ordens, que tem essas e aquelas reações, com tal temperamento, e que o educador deve conhecer muito bem, para se lhe poder adaptar.

Saber mandar

Para que suas ordens sejam bem acolhidas, devem ser dadas com bons modos. Do contrário, ficarão em casa como a rainha da Inglaterra, que reina, mas não governa.

Finalidade da obediência

Com muita freqüência encontramos deplorável equívoco sobre o sentido da obediência. Geralmente pais e até professores (formados em pedagogia!) querem é serem obedecidos. Por amor próprio, por autoritarismo, para ficar em paz, - pouco importa! - querem é ser obedecidos. Prontamente, sem explicações e sem delongas.

- A verdadeira obediência é aprendizagem do domínio de si - fim da educação. É enriquecimento moral, aproveitamento da experiência dos educadores para facilitar aos educandos os caminhos do futuro, sabedoria de quem aproveita um guia para evitar as erradas, cuidado do comandante que entrega o navio ao prático dos mares perigosos. Por isso diz a Bíblia que serão vitoriosos os que sabem obedecer: "O homem obediente cantará vitória" (Pv. 21,28).

- É liberação: o homem se liberta das amarras do amor próprio e do orgulho, para reconhecer e acatar a autoridade. Não cede por medo ou interesse, mas age conscientemente, superando-se, dono de sua vontade até para abrir mão dela quando necessário.

- É mestra da vida. Se a vontade é fraca, ampara-se na obediência consciente e se fortalece. Se estreita, desenvolve-se. Se impetuosa, amansa e se canaliza para o bem.

- Ela não é  virtude de criança, mas de homens feitos. Às crianças importa ensiná-la, orientando-a cuidadosamente para seu fim.

Algumas normas

Alguns marcos, para guia dos educadores de boa vontade, - graças a Deus, numerosos.

Obediência é meio e não fim

Não exijo obediência, para que a criança seja obediente, mas para que se eduque. Adiante mostrarei que o fato de ser apenas obediente constitui grave perigo para o educando.

A obediência se orienta para a educação: ensina a criança a usar bem da liberdade. Vai afrouxando, na medida em que o educando cai aprendendo a orientar-se sozinho. Será eliminada, quando ele se tornar "governador de si mesmo", na feliz expressão de Guimarães Rosa.

O papel do educador é orientar, ensinar os caminhos, ajudar a marchar, retificar em caso de errada, estimular para o autodomínio, "como a águia que provoca seus filhos a voar, esvoaçando sobre eles" (Dt 32,11). E tanto mais feliz se sente quanto mais percebe que se vai tornando dispensável.

Levar a criança a submeter-se, e não submetê-la

Quando me submeto, pratico ato livre, consciente; quando sou submetido, não: fui subjugado. No primeiro caso, obedeci; no segundo, fui domado.

Obedecer é querer o que outrem quer, e não fazer o que outrem manda. A obediência é ato da vontade que sabe vencer as dificuldades para querer. Por isso, a verdadeira obediência é filha da liberdade. Mas começa sendo mãe da mesma liberdade; isto é, preparando a criança para saber ser livre, para dispor de sua vontade, para dominar-se e inclinar-se no sentido em que a razão a chama (e não no sentido em que as paixões a empurram).

Como se vê,  obediência implica o autodomínio. Está muito longe de ser o domínio que o educador exerce sobre os educandos. Mas este conceito, policial e totalitário, ainda é muito corrente, e continua fazendo a infelicidade dos educandos.

Nunca devemos perder de vista que o exercício da autoridade visa aos súditos não aos superiores, porque busca o bem moral daqueles, e não a satisfação destes.

O educador não deve impor a sua vontade, mas sim formar a do educando.

São pessoas distintas, com vontades distintas, com gostos diversos ou até contrários. Não devo proibir-lhe algo "porque não gosto disso", mas porque isso não deve ser feito. Não posso substituir sua vontade pela minha; mas devo formá-la para que ela saiba querer o bem e levá-lo à prática.

Pensássemos melhor nesta verdade (aliás tão solar), e seríamos mais positivos que negativos em educação, ensinaríamos mais o que se há de fazer que o que se há de evitar, daríamos antes normas de vida que proibições.

A criança exige mais desenvolvimento que restrições

É ser em crescimento: deve realizar-se. Montessori disse muito bem: "A educação é ajuda positiva à expansão normal da vida". Não é proibindo a criança de agir que a desenvolveremos; mas ensinando-lhe a fazer o bem.

Nosso papel é canalizar-lhe as energias, e não reprimi-las. É apontar-lhe os caminhos, e não impedir-lhe a passagem. É ensinar-lhe a querer, e não a não querer. É dar-lhe meios para realizar-se física, sentimental, cultural, moral e religiosamente - pondo-a no caminho do homem integral.

Não é dizer-lhe: "Fica quieta", mas dizer-lhe "Realiza-te"...não é cortar-lhe as asas, mas ensinar-lhe a voar.

(Excertos do livro: Corrija o seu filho - Mons. Álvaro Negromonte - continua...)

PS: As palavras entre ( ) e os itálicos são do autor do texto, os negritos são meus.

As mãos de mamãe

As mãos de mamãe


A professora dera como tema para suas alunas o título acima. E explicou como fazê-lo, lembrando as mãos maternas que lavam, costuram, varrem. Era o fio da meada. As crianças debruçam-se sobre os cadernos e escrevem. Tudo pronto. As composições são recolhidas, corigidas.

- Fulana, diz a professora, já somou quantas mãos tem sua mãezinha? Duas para cá, duas para lá, duas aqui e duas ali. Some uma vez!

E a pequena soma em voz alta: "Mamãe tem duas mãos para papai, duas para cada uma de nós que somos oito, duas para a horta, duas para a cozinha, duas para os pobres e... duas para Deus. Tudo vinte e seis mãos!" - Não sabia a professora se o riso ou a comoção deveria tomar conta de seu semblante.

Daqui acho que mãe com vinte e seis mãos tem de ser necessariamente uma benção para os filhos. Mãos que se multiplicam de suas para vinte e seis! Nem faltaram duas para os pobres e duas, indispensáveis, para Deus.

Seria o caso de perguntar às mães que me ouvem às quantas andam a multiplicação de suas mãos. No elogio dado pelo Espírito Santo à mulher ideal, vem mencionado este: "Não comeu seu pão da ociosidade, duas mãos souberam manejar o fuso, acender as luzes, vender e comprar". Vivo repetindo que muito importam duas maternidades na família, que levam o nome de física e espiritual. E as mãos devem servir para uma e outra. Por isso devem desdobrar-se.

Infelizmente hoje há muito desequilíbrio no caso. Mães operárias quase só trabalham com as mãos nas máquinas. Outras, na fartura, deixam-nas ociosas ou lidando apenas com futilidades. Mãos multiplicadas em muitos trabalhos de fábricas, escritórios, empregos. Receio os maus efeitos de mãos que não se multiplicam para os pobres, não se juntam para Deus.

Uma criança, como essa que descreveu as "vinte e seis mãos" de sua mãe, saberá multiplicar também suas mãos futuramente. O exemplo diário ficou-lhe na alma. A originalidade de sua composição provou que as mãos maternas haviam causado impressão a seus olhos de criança.

Sobretudo ao ver que pobres e Deus eram considerados, como expressão do mandamento de amar a Deus e ao próximo. Hoje fala-se em tantos meios de educação moderna, escolas experimentais, etc. A primeira escola, sempre antiga e sempre moderna, é o lar e as lições que nele são dadas. Nada lhes supre a falta. Seu diploma de formatura é o mais indispensável e o mais promissor na vida.

(Excertos do livro: Mundo entre berços - Pe. Geraldo Pires de Souza)

PS: Grifos meus.

CRISTO RESSUSCITOU VERDADEIRAMENTE, ALELUIA!

CRISTO RESSUSCITOU
 VERDADEIRAMENTE,
ALELUIA!


A morte e a vida travaram entre si singular combate;
e o Autor da vida, havendo morrido,
reina agora vivo.
Rei vitorioso, tende misericórdia de nós.
Amém.

Nosso modesto blogue deseja a todos os leitores, uma Santa Páscoa!
Que Nossa Senhora nos dê a força para perseverarmos até o final.

Marchemos e rezemos!

A grande guerra

sexta-feira, 2 de abril de 2010

LA SOLEDAD DE MARÍA SANTÍSIMA

LA SOLEDAD DE MARÍA SANTÍSIMA


(Fonte: Blogue Radio Cristiandad)

Do Crucifixo

Do Crucifixo


Oh! invenção admirável do amor divino!

Para São Paulo à ciência do crucifixo reduzia-se toda a religião. Geralmente o Crucifixo é o compêndio de tudo quanto o cristão deve crer e praticar. O Crucifixo faz-nos conhecer toda a malícia do pecado, o excesso da nossa miséria e o excesso ainda maior da misericórdia divina.

O Crucifixo é a maior prova que Deus, embora sendo Deus, podia dar-nos do Seu amor e o meio eficaz que podia empregar para ganhar o nosso coração. Todas as virtudes acham-se contidas no Crucifixo: ele é a consumação dos caminhos interiores.

Direi uma palavra sobre cada um destes conceitos. A graça dirá muito mais ás almas dedicadas ou desejosas de se voltarem ao amor.

O Crucifixo é o compêndio de tudo quanto o cristãos deve crer. A pessoa Daquele que sofre, Filho único de Deus e concebido no seio de Maria por obra do Espírito Santo, nos propõe os dois grandes mistérios da Santíssima Trindade e da Incarnação. O objeto dos Seus sofrimentos nos instrui sobre o mistérios da Redenção e do pecado original.

O mistério da predestinação, o da graça, a vontade de Deus de salvar todos os homens encerram-se também na Cruz. Esta é a fonte de todos os Sacramentos, como me seria fácil mostrar minuciosamente; e todo o culto com que a Igreja honra a Deus reporta-se ao sacrifício da Cruz.

O Crucifixo é o compêndio de tudo quanto o cristão deve praticar. Toda a moral evangélica reduz-se a carregar cada um a sua cruz, renunciar a si mesmo, crucificar a carne e a cobiça, imolar-se á vontade de Deus. Jesus Cristo não prescreveu lei alguma nem deu conselho cujo cumprimento e perfeito modelo não se encontrem na Cruz. Ela é a mais viva e notável expressão de toda a doutrina evangélica.

O Crucifixo nos faz conhecer toda a malícia do pecado. Na verdade, não pode haver maior mal do que aquele que causou a morte de um Deus-Homem!

Antes de Jesus Cristo podia-se fazer alguma idéia da ofensa a Deus, porém, essa idéia era bem fraca e imperfeita. O suplício eterno do inferno, embora exceda a toda inteligência criada, não corresponde á malícia do pecado, porque pode castigar este, mas não basta para expiá-lo. Nada menos do que uma pessoa divina era necessária para reparar dignamente, por seus sofrimentos e humilhações, a injuria feita a Deus pelo pecado. Ao pé da Cruz é que aprendemos a julgar do pecado e a conhecer todo o horror que merece.

O Crucifixo ainda nos faz conhecer o excesso da nossa miséria, excesso tal, que não nos é possível remediá-lo por nossas próprias forças. Todo o gênero humano estava perdido irremediavelmente, perdido para a eternidade, para sempre privado da posse do soberano bem, se Jesus Cristo, sofrendo e morrendo na Cruz, não o houvesse resgatado, reconciliado com Deus, e restabelecido nos Seus direitos. Para isso bastava o pecado original, mas a esse pecado quantos pecados atuais mais graves não acrescentamos nós! Em que abismo de miséria não nos lançamos voluntariamente?

O Crucifixo faz-nos conhecer o abismo ainda maior da misericórdia divina. Um abismo atraiu outro abismo; o abismo dos nossos males foi absorvido e mergulhado no abismo infinito da misericórdia.

Oh! quanta razão tinha David em dizer que as misericórdias de Deus estão acima de todas as suas obras! Tudo quanto Deus fez na ordem da natureza nada é em comparação do que fez na ordem da graça. A bondade do Todo-Poderoso excedeu a si mesma, resgatando-nos. Nunca, nem mesmo no Céu, o nosso entendimento há de atingir a grandeza incompreendível desse benefício que a fé nos mostra no Crucifixo.

Deus, embora seja Deus, não nos poderia dar maior prova do Seu amor.

Qualquer prova por Ele dada devia ser consentânea aos direitos da sua justiça, aos quais não podia renunciar. Era mister fosse essa justiça aplacada. Mas por quem? Quem a poderia satisfazer, vingar e ao mesmo tempo poupar os culpados?

Oh! invenção admirável do amor divino! Deus transfere para o Seu próprio Filho todas as nossas iniquidades; n'Ele as castiga, vinga-se n'Ele e esse Filho adorável consente de todo o coração em ser por nossa causa a vítima da cólera divina! Que amor ao Pai! que amor no Filho! Quem pode pensar em tal arrebatamento de admiração e profunda gratidão?

Se Deus nos tivesse facultado propôr-lhe algum remédio para os nossos males, teríamos imaginado e escolhido por Ele? Se acaso este nos acudisse á mente, teríamos ousado propô-Lo? Semelhante meio de salvação só poderia ser concebido no coração de um Deus que nos ama infinitamente.

Se o nosso coração pode resistir a tanto amor, que dureza, que malícia, que ingratidão!

Deus imola o Seu próprio Filho, para retirar-nos do inferno e abrir-nos o paraíso; descarrega sobre Ele a Sua cólera e nos perdoa; nesse Filho nos adota por Seus filhos; confere-nos direito á Sua herança e nos prodigaliza todos os socorros sobrenaturais para a conseguirmos. E que nos pede Ele? Que O amemos, sirvamos e Lhe obedeçamos.

E nós não O amamos!
E consideramos o Seu serviço como jugo insuportável!
E violamos os Seus mandamentos!

Todos os crimes, todos os escândalos reinam hoje no cristianismo, com tanta e maior licença que entre os pagãos! A irreligião chegou a tal ponto que Jesus Cristo e a Sua Cruz tornam-se objeto de desprezo, zombaria e horror. A incompreensibilidade desse mistério de amor é exatamente a razão pela qual é rejeitado.

Poder-se-á conceber tal excesso de impiedade? Compreender-se-á até que ponto o amor desprezado, insultado e ultrajado deve estar irritado contra tantos cristãos apóstatas, secretos ou declarados!

Ah! que motivo para as almas boas amarem a Deus de todo o coração e O desagravarem, com sua dedicação, de tantos ultrajes! De que virtudes o Crucifixo não nos oferece modelo?

Amor de Deus, confiança em Deus, abandono ás suas vontades mais rigorosas, paciência inalterável, caridade para com o próximo, perdão das injúrias, amor dos inimigos, humildade, pobreza, abnegação inteira de Si mesmo; virtudes levadas ao cúmulo da perfeição, exercidas nas circunstâncias mais difíceis, praticadas com generosidade e coragem dignas de um Homem-Deus.

Depois disto, queixa-nos de que a virtude nos custa; disputamos a Deus bagatelas, censuramo-Lo por nos exigir demais. Um olhar para o Crucifixo fará nos envergonharmos das nossas queixas e da nossa covardia.

Temos sofrido e sofreremos em prol da nossa salvação algo que se aproxime, sequer de longe, dos sofrimentos e humilhações de Jesus Cristo? Ele era Deus - dirá alguém - e eu sou apenas uma fraca criatura. Ele era Deus, é verdade, por isso sofreu tudo quanto poderia sofrer a natureza humana unida á divina.

Se a união hipostática comunicava á Humanidade santa uma força infinita, proporcionados a esta foram os sofrimentos e, sem a poupar, a justiça de Deus carregou-a com todo o peso que ela podia suportar. É princípio de fé que Deus jamais permite sermos provados além das nossas forças.

Por mais fracos que sejamos, poderemos sempre suportar as provas que Ele nos envia, pois a medida do socorro iguala e mesmo excede sempre a dos males. Sem razão alegamos a nossa fraqueza e pensamos que para nós não sirva o exemplo do Salvador.

Finalmente, o Crucifixo é a consumação dos caminhos interiores. Mostra-nos Jesus Cristo sacerdote e vítima. Jesus imolando-Se Ele próprio á glória do Pai, imolando-Se voluntariamente e dedicando-Se á Sua justiça.

Poucas almas amadas por Deus são chamadas a esse estado de vítima e de semelhança expressa com Jesus crucificado. Mas as que têm motivo para se julgarem destinadas a essa honra devem compartilhar os sofrimentos e humilhações do Salvador; devem plantar no coração a Sua Cruz, ou antes, devem deixar que Ele mesmo a plante e enterre. Jesus submisso e obediente até á morte, deve ser o seu modelo, a sua consolação e força.

Se ás vezes as suas penas lhes parecem excessivas, se lhes faltar coragem; se forem tentadas a cusar Deus de injusto rigor, detenham os olhares no Crucifixo. Jesus na Cruz responderá a tudo e sairão de perto d'Ele com o desejo de sofrerem ainda mais.

Seja o Crucifixo o nosso grande livro, seja o livro não somente dos nossos olhos, mas do nosso coração.

Peçamos a Jesus que nos ensine a ler nesse livro e que nos descubra todos os Seus segredos, não para que apenas na oração os contemplemos, senão para os praticarmos durante toda a nossa vida. Entremos no caminho interior por uma dedicação absoluta, sem reserva, á vontade de Deus; entreguemo-nos inteiramente ao Seu espírito e á Sua graça. Façamos de todo o coração, no momento dado, todos os sacrifícios por Ele exigidos de nós; peçamos-Lhe que tome e arranque á força o que não teríamos coragem de dar-Lhe.

Em uma palavra, deixemo-nos reduzir ao estado de Jesus Cristo expirando na Cruz, nas dores, nos opróbrios, no aparente abandono do Pai, reunindo na Sua alma e no Seu corpo todos os males de uma vítima da justiça divina e do furor das paixões humanas.

(Excertos do livro: Manual das almas interiores - Pe. Grou - Companhia de Jesus)

PS: Grifos meus.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A Santa Eucaristia e a Morte do Salvador

A Santa Eucaristia e a Morte do Salvador


"Todas as vezes que consagrardes o Mistério Eucarístico,
 anunciareis a Morte do Salvador"
(I Cor 11,26)

Seja qual for o aspecto sob o qual encaremos a Eucaristia, lembra-nos ela de modo frisante a Morte de Nosso Senhor. Institui-a na véspera de morrer, na noite em que Se entregou: "Pridie quam pateretur in nocte qua tradebatur". O nome que lhe é dado é o testamento fundado no Seu Sangue: "Hoc testamentum est in sanguine meo".

O estado de Jesus é um estado de Morte. Nas aparições de Bruxelas em 1290 e de Paris em 1369, mostrou Suas chagas, qual nossa Vítima Divina. Sem movimento, sem vontade, assemelha-se ao cadáver que é carregado. Em redor, reina silêncio mortal; Seu altar é um túmulo que encerra ossos de mártires. Encima-O uma cruz, alumia-O a lâmpada, como alumia os túmulos. Envolve a Hóstia santa, o Corporal, novo sudário - novum sudarium.

O Sacerdote, ao celebrar o Sacrifício, traz sobre si as insígnias da Morte; os paramentos santos são todos ornados da cruz, que ainda traz pela  frente e pelas costas. É sempre a Morte, sempre a cruz. Tal o estado da Eucaristia considerada em si mesma.

Considerada enquanto Sacrifício e Comunhão, é a Morte de modo mais sensível ainda. O sacerdote pronuncia, em separando, sobre as matérias do pão e do vinho, as palavras sacramentais, de forma que, pela virtude intrínseca destas palavras, o corpo deveria estar separado do sangue - e isto equivale a morrer.

Se a morte não se apresenta em verdade, é que o estado glorioso e ressuscitado de Jesus Cristo a tal se opõe, mas, ao menos, subtrai Ele da Morte tudo quanto pode; reveste-Lhe a forma e vemo-Lo qual Cordeiro imolado por nós. E assim Jesus Cristo continua na Sua Morte mística o Sacrifício da Cruz, renovado deste modo milhares de vezes pelos pecados do mundo.

Na Comunhão consome-se a Morte do Salvador. O coração do comungante torna-se-Lhe o túmulo, pois cessa o estado sacramental ao dissolver-se, sob a ação do calor natural, as Santas Espécies: Jesus-Hóstia não mais se encontra em nós sacramentalmente. É a Morte do Sacramento, a consumação do holocausto.

Túmulo glorioso no coração do justo, túmulo ignominioso no coração do pecador. Na alma purificada, Nosso Senhor depõe, ao perder a entidade sacramental, sua Divindade, seu Espírito Santo, e em virtude disto, em gérmen de ressurreição; mas na alma culpada, Jesus não sobrevive, a Eucaristia frustrou seu fim. A Comunhão torna-se uma profanação. É a Morte violenta e injusta de Nosso Senhor crucificado por novos carrascos.

Porque quis Nosso Senhor estabelecer uma relação tão íntima entre o Sacramento da Eucaristia e a Sua morte?

Primeiro, para lembrar-nos o preço que Lhe custou seu Sacramento. A Eucaristia com efeito, é o fruto da Morte de Jesus. A Eucaristia é um testamento, um legado, que só tem efeito pela Morte do testador, Jesus precisou morrer para validar Seu testamento. Digamos, portanto, cada vez que estivermos em presença da Eucaristia:

"Este precioso testamento custou a Jesus Cristo a Vida - prova de Seu imenso Amor, pois Ele mesmo disse que não há amor maior do que dar a vida pelo amigo". Em Jesus, morrendo para deixar-nos a Eucaristia, para no-la conquistar, temos a suprema prova de Seu Amor.

Quantos pensam nesse valor da Eucaristia?

E todavia, aí está Jesus a no-lo dizer. Mas, quais filhos desnaturados, só queremos utilizar-nos e gozar das riquezas sem pensar Naquele que no-las mereceu em troca de Sua própria Vida.

Segundo para nos redizer incessantemente quais devem ser os efeitos da Eucaristia em nós. Em primeiro lugar deve fazer-nos morrer ao pecado e ás inclinações viciosas; em segundo, morrer ao mundo, crucificando-nos com Jesus Cristo e exclamando com São Paulo: "Mihi mundus crucifixus este et ego mundo". Em terceiro, morrer a nós mesmos, aos nossos gostos, desejos, sentidos para nos revestir de Jesus Cristo de tal forma que Ele viva em nós e que nós sejamos apenas Seus membros, dóceis a Suas vontades.

E, finalmente, para nos fazer participar da Sua Ressurreição gloriosa, Jesus Cristo Se semeia em nós. Ao Espírito Santo cabe reanimar esse gérmen e por ele dar-nos novamente a Vida, Vida gloriosa que jamais terá fim.

Tais algumas das razões que levaram Jesus Cristo a envolver nas insígnias da Morte esse Sacramento de Vida, Sacramento onde reina glorioso e triunfa Seu Amor. Ele quer pôr-nos incessantemente sob os olhos o quanto Lhe custamos e quanto devemos fazer para corresponder ao Seu Amor.

"Ah! Senhor, dir-Lhe-emos com a Santa Igreja, Vós que, nesse admirável sacramento, nos deixastes uma lembrança tão viva da Vossa Paixão, concedei-nos tratar o Sagrado Mistério de Vosso Corpo e Sangue com respeito tal, que mereçamos sentir em nós a todo momento os frutos de Vossa Redenção."

(Excertos do livro: A Divina Eucaristia - Volume I - São Pedro Julião Eymard)

PS: Grifos meus.

O Sacerdócio

O Sacerdócio


"Devo abraçar a Cruz de Jesus Cristo,
nela me crucificar e querer ser crucificado
por Deus e pelos homens,
até morrer por amor a Ele."
(São Pedro Julião Eymard)

O Sacerdócio é a dignidade maior que há sobre a terra. Supera a dos reis. Seu império se exerce sobre as almas. Suas armas são espirituais. Seus dons são divinos. Sua glória, seu poder, os do próprio Jesus Cristo.

O Sacerdócio gera as almas à Graça e à Vida Eterna. Possui as chaves do Céu e do Inferno. Tem todo poder até sobre Jesus Cristo, a quem faz descer cada dia sobre o Altar, e de quem recebe todo o Poder gracioso. Pode perdoar qualquer pecado, pois Deus se comprometeu a ratificar no Céu a sentença dada na Terra.

Poder formidável! Poder divino que ordena ao próprio Deus!

O Anjo é servo do Sacerdote. O demônio treme em sua presença. A Terra considera-o como seu salvador enquanto o Céu nele vê o príncipe que lhe conquista Eleitos. Jesus Cristo tornou-o num outro Cristo. É um Deus por participação. É Jesus Cristo operando.

O Sacerdócio é o estado mais santo. E a vida deve estar em relação com a dignidade.

Quão pura deve ser a vida do padre! Mais pura, afirma São João Crisóstomo, que os raios do sol, uma vez que deve ser um mesmo sol. "Vos estis lux mundi" (Mt 5,14).

Mais incorruptível que o sal, que serve para preservar outras substâncias da corrupção. "Vos estis sal terrae" (Mt 5,13). Mais casto que as virgens. Anjo num corpo mortal, morto já a toda concupiscência.

Quão humilde! Sua humildade deve igualar a sua dignidade. Tudo quanto o eleva vem do próprio Deus, mas tudo quanto o rebaixa vem dele mesmo. Por si só é pecado, miséria, nada.

Quão caridosa! Sua caridade deve ser tão grande quanto o próprio Deus, que não o fez senão o Seu ministro de caridade e de misericórdia na terra.

Quão doce! Sua doçura deve ser a do seu bom Mestre, a quem os povos chamavam de a suavidade, a quem as crianças amavam como a mesma Bondade.

O  sacerdote deve ser a imagem viva de Jesus Cristo, até poder dizer a todos, com São Paulo: "Imitatores mei estote, sicut et ego Christi" (I Cor 11,1).

O Sacerdócio é o ministério mais glorioso para Deus

- O sacerdote completa a criação divina, elevando o homem a Deus e refazendo-o à sua imagem e semelhança, maculada e desnaturadas pelo pecado. "Creati in Christo Jesu" (Ef 2,10). Pelo seu ministério somos recriados em Jesus Cristo.

Ergue as ruínas desse edifício magnifíco e fá-lo numa obra-prima de Graça, num objeto em que Deus se há de comprazer. O homem batizado torna-se novamente filho de Deus, enquanto o homem santificado se torna um membro honoroso de Jesus Cristo, rei espiritual do mundo.

- O sacerdote prolonga a missão do Salvador na Terra.

No Altar continua e remata o Sacrifício do Calvário, aplicando às almas os frutos divinos da salvação.
No confessionário, purifica-as no Sangue de Jesus aplicando às almas os frutos divinos da salvação.
No púlpito, publica a Sua Verdade, o Seu Evangelho de amor. Reflete nas almas os raios desse Sol divino que ilumina o homem de boa vontade, fecundando-o.

Aos pés do Tabernáculo, adora o seu Deus oculto, por amor, como os Anjos O adoram em sua Glória. Aí ora pelo seu povo. É o mediador poderoso entre Deus e o mísero pecador.

No mundo, o sacerdote é o amigo do pobre, consolador nato do aflito; é o homem de Deus. Quão bela é a sua missão, mas quão santo deverá ser para poder servir dignamente a Deus e não se perder, como o anjo, pelo orgulho de sua dignidade!

E como adquirir essa santidade?
Por Jesus Cristo, que o ama e lhe prodigaliza as Suas Graças, os Seus favores.

A águia voa com mais força e mais facilidade que o passarinho, pois sua força está nas suas asas. A do sacerdote está no amor régio de Jesus Cristo, seu Mestre.

O Espírito de Jesus no Sacerdote

O sacerdote deve viver do Espírito de Jesus. "Qui adhaeret Domino, unus spiritus est" (I Cor 6,17). "Si quis spiritum Christi non habet, hic non est ejus" (Rom 8,9). Ora, o espírito de Jesus é um espírito de verdade e de amor.

Espírito de verdade

Jesus Cristo veio, qual luz poderosa e divina, dissipar as trevas do erro. A todos pregou a Verdade de que foi testemunha fiel, até derramar o Seu próprio Sangue. É a Verdade. "Ad hoc veni in mundum, ut testimonium perhibeam veritate" (Jo 18,37).

Eis a regra, a missão, a coroa do Sacerdote - a minha por conseguinte. Devo viver da Verdade de Jesus Cristo - regra invariável de minha vida. "Vos estis lux mundi" (Mt 5,14). A verdade é toda a minha vida. Dela devo me alimentar cada dia pela meditação, pelo estudo sagrado.

Jesus Cristo fez-me apóstolo, defensor, testemunho desta mesma Verdade, e oxalá, talvez mártir! Jamais hei de me envergonhar da Verdade de Cristo. Devo, pelo contrário, intrepidamente, anunciá-la, pura e forte, aos grandes e pequenos, na paz e na guerra. "Eritis mihi testes" (At 1,8).

A Verdade é minha espada de dois gumes. É o centro de realeza do meu Sacerdócio. Para lhe ser sempre fiel, é mister que a ame, dela viva, disposto se preciso for a morrer por ela.

Espírito de amor

Jesus é o Amor divino humanizado, tornado visível e sensível.

- O Amor de Jesus é cheio de doçura e misercórdia. "Ecde Rex tuus venit tibi mansuetus" (Mt 21,5). "Discite a me, quia mitis sum, et humilis corde" (Mt 11,29).

Ó quão doce, quão paciente foi esse amor Amor de Jesus para comigo, enquanto eu O ofendia, enquanto não O amava! Quão caridoso, quão compassivo para comigo, que me desgraçara pela minha própria culpa afastando-me dele. Quão paternal, quão honroso, posso dizer, foi o meu perdão!

Assim também devo proceder em relação ao próximo e nada mais farei do que aquilo que Jesus já fez para mim, aquilo que me pede em troca de gratidão.

- O Amor de Jesus é generoso. Dá-me tudo quanto tem - Verdade, Graça, Glória, Vida e Morte, nada se reservando para Si. Dá-me o Santíssimo Sacramento tudo quanto É.

Que Amor!
Quem me ama assim?
Que Lhe posso eu dar?

Dar-Lhe-ei tudo quanto tenho. Dar-Lhe-ei a mim mesmo. "Dilectus meus mihi, et ego illi!" (Ct 2,16).

- A Amor de Jesus é forte como a morte: "Fortis est ut mors dilectio" (Ct8,6). Em prova disto, quis sofrer fome, sede, pobreza, desprezo, humilhação por mim. Quis passar pelo sofrimento, dar-me todo o seu Sangue, morrer na Cruz por entre o abandono, as humilhações, os desprezos de todo o Seu povo.

Eu era o fim do Seu Amor! "Dilexit me, et tradidit semetipsum pro me" (Gl 2,20). Devo, por conseguinte, também sofrer pelo amor de Jesus, se Lhe quiser provar que o meu é desinteressado, e verdadeiro. Devo abraçar a Cruz de Jesus Cristo, nela me crucificar e querer ser crucificado por Deus e pelos homens, até morrer por amor a Ele.

"Quis nos separabit a caritate Christi?... Sed in his omnibus superamus propter eum, qui dilexit nos!" (Rm 8,35.37).

(Excertos do livro: A Divina Eucaristia -  Volume III - São Pedro Julião Eymard)

PS: Grifos meus

Quinta-feira Santa - Lava-pés e Instituição da Santa Eucaristia

Quinta-feira Santa
Lava-pés e Instituição da Santa Eucaristia


"Sabendo que o Pai depositara em suas mãos todas as coisas,
começou a lavar os pés dos discípulos."
( Jo 13,3-5)

Ora, discorramos por todas as ações de Cristo neste mesmo dia, sem sair dele, e veremos como todas confirmam este parecer. Quando o amoroso Senhor deu princípio à primeira, que foi lavar os pés aos discípulos, nota e pondera o Evangelista que se deliberou o Divino Mestre a uma ação tão prodigiosa, considerando e advertindo que seu Padre lhe tinha posto tudo nas mãos: Sciens quia omnia dedit ei Pater in manus, coepit lavare pedes discipulorum (Sabendo que o Pai depositara em suas mãos todas as coisas, começou a lavar os pés dos discípulos - Jo 13,3-5).

Muitas outras vezes se faz menção no texto sagrado deste tudo dado a Cristo por seu Eterno Padre: Omnia mihi tradita sunt a Patre meo. Omnia quaecumque habet Pater, mea sunt. Omnia quae dedisti mihi, abs te sunt (Todas as coisas me foram entregues por meu Pai - Mt. 11,27 ; Todas quantas coisas tem o Pai são minhas - Jo 16,15; Todas as coisas que tu me deste vêm de ti - Jo 17,7)

E em outros muitos lugares. Pois se tantas vezes se repete que o Padre deu tudo a seu Filho, por que razão só neste lugar se diz que esse tudo lho pôs nas mãos: Sciens quia omnia dedit ei Pater in manus? Sem dúvida pela correspondência e oposição que têm as mãos com os pés. O intento do evangelista era encarecer o amor de Cristo neste dia para com os homens, e haver o Filho de Deus de lavar os pés aos homens, com aquelas mesmas mãos em que o Eterno Padre tinha posto tudo, parece que levantava tanto a baixeza da mesma ação, que chegava a tocar no Padre.

Por isso disse Pater, com grande advertência. Bem pudera o evangelista dizer Deus, como logo continuou: Sciens quia a Deo exivit, et ad Deus vadit (Sabendo que Ele saíra de Deus, e ia para Deus - Jo 13,3) - mas disse nomeadamente Padre: Sciens quia omnia dedit ei Pater in manus - para, assim como contrapôs as mãos aos pés, contrapor também o Padre aos homens.

E verdadeiramente nesta oposição de mãos e pés, e de Padre a homens, parece que foram mais amados os homens, que o mesmo Padre.

O amor todo é estimação. E quem haverá que, vendo ao Filho de Deus lavar os pés aos homens com aquelas mesmas mãos em que o Padre tinha posto tudo, não lhe pareça que a olhos vistos fez mais estimação o Filho dos pés dos homens que das dádivas do Padre?

O Padre estimou tanto ao Filho que tudo quanto tinha pôs nas mãos do Filho: Ominia dedit ei Pater in manus (O Pai depositara em suas mãos todas as coisas - Jo 13,3) - e o Filho estimou tanto aos homens que, com tudo quanto o Padre lhe tinha posto nas mãos, pôs as mesmas mãos aos pés dos homens: Coepit lavare pedes discipulorum (Começou a lavar os pés dos discípulos - Jo 13,5).

- Notai este modo de lavar, que foi muito diverso do que costuma ser. Não lavou os pés aos homens com as mãos vazias, senão com as mãos cheias. Assim lavou, e assim havia de lavar, porque assim lava Deus. Deus quando lava, não só alimpa, mas enriquece: alimpa, porque nos tira as manchas da culpa, e enriquece, porque juntamente nos enche dos tesouros da graça.

Assim que, sendo Deus o que lavava os pés aos discípulos, claro está que não havia de ser com as mãos vazias, senão cheias. Mas, se estavam cheias de tudo o que nelas pôs o Padre, e essas mesmas mãos põe Cristo debaixo dos pés dos homens, como se não há de entender que estima mais os mesmos pés, que tudo quanto o Padre Lhe pôs nas mãos?

Dos cristãos da primitiva Igreja diz São Lucas que tudo quanto tinham vendiam, e punham o preço aos pés dos apóstolos: Afferebant pretia eorum quae vendebant, et ponebant ante pedes apostolorum (Act 4,34s). E por que lho punham aos pés, e não lho entregavam nas mãos, se era o preço de tudo?

Para mostrar, diz São Crisóstomo, que estimavam  mais os pés dos apóstolos que tudo quanto davam e quanto tinham. Entregar-lho nas mãos seria fazer estimação do que davam; pôs-lho aos pés era protestar veneração das pessoas, e, como estimavam mais as pessoas que as dádivas, por isso lhas punham aos pés, e não lhas davam nas mãos: ponebant ante pedes apostolorum.

Ó dádiva do Padre! Ó pés dos homens!
Ó amor e estimação de Cristo!

O Padre deu tudo quanto tinha ao Filho, e não lho pôs aos pés, senão nas mãos, porque estimou o que lhe dava quanto a mesma dádiva merecia, pois era tudo quanto tinha Deus. E que este tudo do Padre, de que estavam cheias as mesmas mãos do Filho, o pusesse o Filho, e mais as mesmas mãos aos pés dos homens!

O que podia daqui inferir o discurso, se não tivesse mão nele a fé, é que prezou Cristo mais os pés dos homens que as dádivas do Padre. Mas o certo, e a verdade, é que não foi nem podia ser assim. Amou e estimou o Filho sumamente as dádivas de seu Padre, tanto pelo que eram em si, como pelas mãos de quem vinham. Porém, esta mesma estimação não desfaz, ante reforça mais o mesmo discurso, porque dele se infere estima com sobre estimação, e amor sobre amor.

Quando a Madalena pôs aos pés de Cristo os alabastros, os ungüentos, os cabelos, os olhos, as lágrimas, as mãos, a boca, e a si mesma, não foi porque não estimasse tudo isto, senão porque tudo isto era o que mais estimava. E que conseqüência tirou dali, não outrem, senão o mesmo Cristo? Quoniam dilexit multum (Porque amou muito - Lc 7,47).

- Se pôr tudo o que mais estimava, e a si mesma, a Seus pés, inferiu o Senhor o grande excesso com que amava. E assim era, porque quando o que se preza muito em um amor se põe aos pés do outro, então se prova que este segundo é maior.

Logo, se assim o inferiu Cristo, porque não inferiremos nós o mesmo? Se tudo quanto o Padre pôs nas mãos do Filho, e as mesmas mãos e a Si mesmo, prostrado em terra, põe o Filho aos pés dos homens, como não há de parecer que os homens são os que mais estima, e os homens os que mais ama?

Para declarar o amor do Padre, foi-nos necessário fingir parábolas; para inferir o do Filho não é necessário fingi-las, basta aplicar uma e Sua.

Quando o filho Pródigo, em serviço de outro amor, empregou quanto tinha recebido de seu pai, e sua própria pessoa, até se abaixar às maiores vilezas de servo, não é certo que amou mais a quem se tinha rendido que a seu pai? Pois este pródigo foi Cristo, diz Guerrico Abade, e depois dele Guilherlmo, ainda com maior energia: Quis unicus prodigus invenitur sicut ille unigenitus Patris? (Guerr. Serm. un Pent. Guil. apud Euseb. in Theopol. p. 1, lib 1, c. 4)

O único pródigo que houve no mundo foi o Filho do Eterno Padre. - E por que Pródigo e único?

Pródigo, porque se pareceu com o Pródigo, e único, porque o excedeu. Pareceu-se com o Pródigo, porque assim como o Pródigo tudo quanto tinha recebido do pai, e a si mesmo, empregou em serviço e amor de quem o não merecia, assim Cristo, com tudo quanto Lhe tinha dado Seu Padre, e com Sua própria pessoa, serviu e amou aos homens e - para que a parábola ficasse inteira - a homens pecadores.

E excedeu muito o mesmo Pródigo, porque o Pródigo, obrigado da fome, foi buscar o pão à casa do pai, e Cristo não o foi buscar a outra parte, mas desentranhou-Se a Si mesmo, e fêz-Se pão: O Pródigo arrependeu-se do seu amor, e pediu perdão do que tinha amado, e Cristo não se arrependeu jamais, mas perseverou constante no mesmo amor até o fim: In finem dilexit eos.

Do ministério humilde do lavatório, passou o Senhor ao mistério altíssimo do Sacramento, e aqui se declarou Seu amor muito mais por parte dos homens. E porque? Porque para o Padre instituiu o Sacramento como sacrifício: para os homens instituiu o sacrifício como sacramento, e, posto que o mistério seja o mesmo, maior amor se argui dele enquanto Sacramento que enquanto sacrifício.

Como sacrifício consome-se: como Sacramento conserva-se; como sacrifício é ação transeunte: como Sacramento permanente; como sacrifício tem horas do dia certas: como Sacramento é de todo o tempo, de dia e de noite; como sacrifício não se aparta do altar, e de sobre a ara: como Sacramento sai às ruas, e entra em nossas casas; como sacrifício, enfim, tem por fim o culto e adoração do Padre: como Sacramento, a presença, a assistência e a união com os homens.

Vêde a diferença do amor na mesma instituição e na mesma mesa, que foi a mesa e o altar: Tibi - ao Padre - gratias agens. Discipulis - aos homens - accipite, et comedite: Ao Padre deu as graças, aos homens fez o banquete: ao Padre ofereceu-Se, com os homens uniu-Se.

E como Se uniu? É tal a união que os homens contraem com Cristo no Sacramento que, comparada com a mesma união que o Filho tem com o Padre, se a não excede enquanto união, excede-a muito enquanto amorosa.

Revelando Cristo a união altíssima que tem com Seu Padre, diz: Ego in Patre, et Pater in me est (Jo 14,10): Eu estou no Padre, e o Padre está em mim. - E declarando a união que tem com o homem no Sacramento, diz pelos mesmos termos: In me manet, et ego in illo (Jo 6,57): Ele está em mim, e eu nele. - E qual destas duas uniões tão parecidas é maior?

A que o Filho tem com o Padre é maior em gênero de união, porque é unidade; porém, a que Cristo tem com o homem no Sacramento é maior em gênero de amorosa, porque a fez o amor. Pois, a união que tem o Filho com o Padre não a fez o amor? Não, porque a união entre o Padre e o Filho funda-se na geração eterna antecedente a todo ato da vontade.

A nossa é obra da vontade do Filho: a do Filho é obra do entendimento do Padre. O Filho está no Padre, e o Padre no Filho, porque o Padre Se conheceu; e nós estamos em Cristo, e Cristo em nós, porque o Filhou nos amou. Logo, ainda em comparação da união que o Filho tem com o Padre, vence, sem controvérsia nem batalha, o amor dos homens.

Isto no sacramento enquanto sacramento. E passando ao sacrifício enquanto sacrifício, digo que também o mesmo sacrifício se ordenou a maior união de Cristo com os homens, que do mesmo Cristo com o Padre. Santo Agostinho, distinguindo esta união, e admirando o amor de Cristo nela, depois de advertir que todo o sacrifício se compõe de quatro partes:

Quid offeratur, a quo offeratur, cui offeratur, pro quibus offeratur (August. lib. 4, Trind. cap. 14): quem oferece, o que oferece, a quem oferece, e porquem oferece - diz que o fim que Cristo teve no admirável invento do Seu sacrifício, foi fazer que todos estes quatro, por meio Dele, fossem uma só coisa: Ut idem ipse unus, verusque mediator per sacrificium pacis reconcilians nos Deo, unum cum illo maneret, cui offerebat; unum in se faceret, pro quibus offerabat: unus ipse esset, qui oferebat, et quod offerebat.

Só a agudeza de Agostinho pudera penetrar os íntimos secretos de tão intrincado e bem tecido labirinto de amor.


No sacrifício do altar, quem oferece é Cristo, o que oferece é Seu corpo, a quem oferece é o Padre, por quem oferce são os homens. E como pode ser que todos estes quatros em um só sacrifício se unam de tal sorte que sejam uma e a mesma coisa?

Deste modo. Para que Cristo, que é sacerdote que oferece, fosse a mesma coisa com o sacrifício, fez que o sacrifício fosse de Seu corpo; para que os homens, por quem se oferece, fossem a mesma coisa com o sacrifício e com o sacerdote, fez que os homens O comêssemos; e para que o Padre, a quem se oferece, fosse a mesma coisa com os homens e com Cristo, fez que por meio do mesmo sacrifício Se reconciliasse o Padre com os homens.

Só o amor onipotente podia inventar um bocado, em que, sendo um só o que o come, fossem quatro, e tais quatro os que ficassem unidos.

Agora pergunto eu: e nesta união tão maravilhosa como verdadeira, à qual Cristo ordenou o mesmo sacrifício que oferecesse ao Padre, quem são os que ficam mais unidos a Cristo, o Padre, ou os homens? Não há dúvida que os homens. Porque a nossa união com Cristo é imediata e direta: a união do Padre com o mesmo Cristo é mediata e reflexa.

A nós uniu-nos Cristo imediatamente a Si: ao Padre uniu-Se o mesmo Cristo por meio de nós. Porque o Padre Se uniu a nós, por isso Cristo Se uniu ao Padre.

Se sorte que a união do Padre conosco foi o motivo.

Tornai a ouvir as palavras de Agostinho, e ouvi-as com atenção: Ut ipse unus per sacrificium pacis reconcilians nos Deo, unum cum illo maneret, cui offrebat: Ofereceu-Se Cristo ao Padre em sacrifício, para que, por meio do mesmo sacrifício, reconciliando-Se o Padre com os homens, Se unisse Cristo ao mesmo Padre.

Pois, para Cristo se unir ao Padre, é necessário que o Padre primeiro se una aos homens e se reconcilie com eles? Sim, que debaixo destas condições ama Deus quando parece que antepõe o amor dos homens ao Seu amor.

Si offers munus tuum ad altare, et ibi recordatus fueris quia frater tuum habet aliquid adversum te: vade prius reconciliari fratri tuo, et tunc offeres munus tuum (Mt 5,23s): Se tiveres posta a tua oferta ao pé do meu altar- diz Deus - e não estiveres reconciliado com teu próximo, vai primeiro reconciliar-te com ele, e então aceitarei a tua oferta.

Ao mesmo modo, e debaixo da mesma condição, se une Cristo ao Padre no sacrifício de Seu corpo. Assim como Deus não aceita a oferta do homem antes de o homem estar reconciliado com o próximo, assim Cristo não se une ao Padre antes de o Padre Se reconciliar com os homens: Ut reconcilians nos Deo, unum cum illo maneret.

Oh! assombro!
Oh! prodígio do amor de Cristo para com os homens, ainda em respeito do Padre!

O maior intérprete dos evangelistas, comentando este texto, infere dele que Deus em certo modo antepõe o amor do próximo ao Seu próprio amor: Dilectioni quodammodo sui proximi dilectionem anteponit (Maldonat. ibi).

E se esta força tem a condição de estar primeiro reconciliado o homem com o próximo, para Deus aceitar a sua oferta, por que não terá a mesma conseqüência o estar primeiro reconciliado o Padre com os homens, para Cristo se unir ao Padre?

E para que se veja quanta certeza tem isto que se chama em certo modo, ouçamos ao mesmo Cristo neste mesmo dia, e na mesma mesa em que instituiu o mesmo mistério: Ipse Pater amat vos, quia vos me amastis (Jo 16,27): O Padre ama-vos a vós, porque vós me amastes. - A força deste porquê é igual em um e outro caso.

Assim como o Padre ama aos homens porque os homens amam ao Filho, assim o Filho se une ao Padre porque o Padre se une aos homens. Logo, se amar o Padre aos homens, porque os homens amam ao Filho, é sinal de amar o Padre mais ao Filho que aos homens, também o unir-Se o Filho ao Padre, porque o Padre Se une aos homens será sinal de amar o Filho mais aos homens que ao Padre?

A fé não pode afirmar que seja assim, mas o entendimento não pode negar que o parece.

(Sermão Segundo do Mandato - VI - Volume VII - Padre Antônio Vieira - Editora das Américas)

PS: Grifos meus