terça-feira, 30 de março de 2010

A criança colérica - Como educá-la?

Nota: A parte final desse texto já havia sido publicada no blogue com o título: O domínio de si. Apresentaremos no post a seguir o texto inteiro.

A criança colérica
Como educá-la?


Cada temperamento tem seus aspectos positivos e negativos. Ser pronto nas reações, sobretudo quando a segurança, a independência, os gostos profundos são feridos, é positivo, desde que o homem tenha sido habituado a servir-se de seus dons com moderação.

A cólera é um elemento de defesa, que Ribot liga ao instinto de conservação: toma a ofensiva contra ameaças. Ai dos homens, quando não sabem mais indignar-se! Ai dos que perderam a capcidade de encolerizar-se em face das injustiças, das violências, das tiranias! Ai dos que se desfibram, se acomodam, se submetem ao injusto, ao criminosos!

Desgraçada educação, a que pretendesse tirar às crianças a reação ante o mal, a capacidade de encolerizar-se ante a violação do direito e da moral.

A cólera é, às vezes, a única forma de defesa. Em face de um "perigo", a criança que não sabe ainda falar se manifesta pela cólera: grita, chora, estrebucha para não ir com pessoa estranha, para rejeitar o que não lhe apetece, ou para se livrar do que lhe mete medo.

O seu mal são os excessos: na forma, na freqüência, na duração.

Infantilismo

Os que, não sendo crianças ainda se encolerizam com facilidade, chorando, gritando, esperneando, batendo-se, mordendo-se, quebrando objetos, fazendo "cenas", horrorizando a família e perturbando os vizinhos, podem ter outras causas de sua cólera, mas a primeira impressão que deixam é de infantilismo: apesar da idade, do tamanho e do resto, conservam reações infantis. Têm atitudes de crianças.

Dão com isto palpável demonstração de fraqueza moral. Intelectualmente, quando lhes faltam argumentos ns discussões, exasperam-se e gritam, procurando no excesso de voz o que lhes falta em razões. Se algo desejam e não alcançam, rebentam em explosões, para o conseguirem.

Há outras causas

Supõe-se sempre a predisposição para a cólera, a fim de que as causas que apontaremos  produzam os seus acessos.

Saúde

As hepatites, as colites, mau funcionamento do sistema digestivo e eliminatório, como também a fadiga e, ainda mais, o esgotamento inclinam os coléricos a suas crises. Juntemo-lhes as nevropatias, histerias e as predisposições epileptóides, cada qual mais séria.

Essas descargas furiosas - Sêneca as comparou com uma loucura passageira - obedecem às vezes a uma freqüência cíclica, aparecendo ou intensificando-se em épocas certas.

A pessoa se apresenta então mais agitada, loquaz, instável, passando rapidamente de alegria à zanga, inspirando cautelas porque a família sabe que está "nos seus azeites".

Emotividade

Há crianças (e adultos) demasiado sensíveis a impressões em si completamente inofensivas. Não compreendem (não podem ou não querem compreender?) que sejam castigadas sozinhas: por que elas e as outras não? E não aceitam que só elas cometeram a falta. Ou "estouram" porque a mãe as manda deixar os brinquedos, porque é hora de estudar, almoçar, ou dormir.

Outras se mostram hipersensíveis ao que lhes pareça humilhação: zombarias, brincadeiras impertinentes, etc., sobretudo partidas de pessoas que lhes são antipáticas. Contrariadas (ninguém percebe por quê), explodem!

Nem sempre essa emotividade é propriamente mórbida, mas acionada pelos freqüentes acessos de cólera, e, cultivada pelo sujeito, assume aspecto de morbidez.

Angústias

Os que vão recalcando decepções, desgostos, frustrações podem chegar a um estado de saturação, no qual terão maior facilidade de rebentar em cóleras.

Vítimas de injustiças repetidas e ostensivas, fraudadas em tantas promessas  que lhes fizeram e não cumpriram, entram algumas crianças em angústias terríveis -  as demonstram em acessos de cólera, que nem sempre atingem diretamente aqueles que elas desejariam atingir.

Caráter

A cólera pode ser usada (como todas as armas) corajosa ou covardemente, em combate franco ou astucioso.

A criança (ou não-criança...) deseja dizer ou fazer certas coisas, e não tem a devida coragem, em estado normal; mas no "acesso" diz e faz, realizando-se, satisfazendo-se. É simples manifestação de fraqueza. Como quem bebe para ter coragem... Outras vezes, é astúcia: por meio de suas cenas de cólera consegue o que de outro modo não conseguiria.

Erro de educação

Nem queremos extirpar a cólera (para não formar desfibrados), nem permitiremos que ela própria forme infantilizados. É isto, porém, que muitos pais não percebem, embora a criança perceba...

Com suas cenas de cólera, ela alcança o que deseja da mãe, dos irmãos, das empregadas. Basta-lhe, às vezes, uma simples demora em ser atendida. Foi assim desde pequenina. Habituou-se. Gostou. É a sua arma definitiva, o seu "abre-te, Sésamo".

Nunca lhe resistiram, nem procuraram corrigi-la. Garantida pelo erro dos educadores, foi-se firmando. Tornou-se hábito. A emotividade supersensível e cultivada, agrava-se em repetidas crises, confinando com a histeria. E hoje, escolar ou adolescente, eis aí o colérico!

Como curá-lo?

Fazemos indicações genéricas, mas lembramos que cada caso exige terapia especial.

No terreno somático

Se o caso é de saúde, cuidemos dela:

- alimentação conveniente, exercício físico, ar livre, boa aeração em casa;
- trabalho moderado, para evitar fadiga e esgotamento; repouso suficiente, sono regular com hora certa para deitar e levantar;
- ambiente calmo, evitando-se tudo o que possa excitar (ver o capítulo sobre o agitado);
- e, quando necessário, o médico e os remédios.

Manter a calma

O grande remédio é a calma do educador. Pequenina que seja, a criança "entende" a nossa serenidade, e não se autoriza com a nossa irritação. Mantendo a serenidade, pode o educador observar bem a criança e refletir nas medidas a tomar, conforme o caso.

Irritando-se, ensina o que deve corrigir, impossibilita o entendimento, perde a autoridade e, às vezes, também a medida.

E a energia

Seja essa calma plena de energia.

- Deixe a criança fazer a sua cena, até cansar-se e...repousar por si.

- Mostre-se desinteressada - realmente desinteressada, não fingidamente. A indiferença é indicadíssima. Quando a criança vê que nem a olham, nem procuram saber se já se acalmou, entrega-se com facilidade.

- Não ceda. Cedendo, a criança percebe que este é o caminho para vencer. Não cedendo, ela compreende que não vale a pena... Seja paciente, mas inflexível: não ceda! É preciso que a criança compreenda que não é este o caminho a alcançar o que deseja. Mesmo que seu desejo seja razoável, se o modo é a explosão de cólera, - mais uma vez - não ceda!

Esperar a crise passar

Não adiantam conselhos, carinhos, promessas, argumentos, durante a crise. No estado em que se encontra, a criança perde a capacidade de compreender. As maneiras comuns de denominar esses momentos são muito expressivas: "Louco de raiva", "Feito louco", etc. Se lhe formos falar com carinhos, pensa que a tememos; se com conselhos, acendem-se ainda mais; se com promessas, crêem próximas a vitória; se com rigor, pomos lenha à fogueira.

Depois, bem depois, tudo calmo e... esquecido, então fale: argumente, aconselhe, mostre que assim, longe de conseguir, dificulta os desejos.

Não temer o colérico

É preciso mostrar que não teme as crises de cólera. Não as provoque o educador, mas não as tema.

Não as provoque:
- não negue sem causa o que a criança deseja: é errado negar agora, e ceder depois, porque ela insistiu ou ameaçou "cena";
- não exija o que não é necessário: a autoridade deve poupar-se, e poupar a submissão infantil.

Não as tema:
- além da indiferença quando o acesso for manso;
- use energia, quando a criança se põe a destruir seja o que for;
- prive-a do que ela destruiu (se isso não lhe faz falta essencial), ou a faça pagar de sua mesada;
- castigue-a, quando ela bater em alguém, nas crises.

Quando estas forem "estudadas", enfrente-as:
- se são armadas pela fraqueza, logo cedem;
- se são preparadas pela astúcia, batem em retirada.

Evitar as crises

Procure evitar as crises. Observe as circunstâncias em que elas costumam aparecer. E procure, então, com maior cuidado, afastar o que as deflagra: brincadeiras, zombarias, desagrados...

O domínio de si

Toda a educação é encaminhada para dar ao educando o domínio de si: ou não é educação. Desde pequenina, seja a criança orientada para o governo de suas forças inferiores, para o domínio da vontade sobre os impulsos, para o exercício da paciência, para a aceitação das demoras, recusas e privações, para o controle de reações muito vivas, para saber dizer "não" aos estímulos anti-sociais, para a compreensão de medidas desagradáveis.

Nós que cremos em Deus, que temos as lições da Sagrada Escritura, e sobretudo nós cristãos não temamos apelar para o espírito de mortificação, ensinado por Cristo como necessário a seus discípulos: "Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me".(Mt. 16,24), praticado e inculcado por São Paulo - "Castigo o meu corpo e o reduzo à servidão, para que não venha a ser condenado eu que preguei aos outros". (I Cor 9,27) - encarecido em mil passos dos Livros Santos.

Será proveitoso lembrar que o espírito de sacrifício (clicar) se ensina às crianças, mas não se lhes impõe. Impô-lo é vê-lo rejeitado e abominado. Mas sugeri-lo e formá-lo é indispensável ao educador cristão.

A educação não pretende eliminar os impulsos, apagar os instintos, extinguir as energias naturais. Ela não quer fazer insensíveis e abúlicos. Pelo contrário: quer formar homens, homens de verdade, que vivem no esplendor de suas energias, mas sabem hierarquizá-las, submetendo-as à vontade esclarecida e enérgica.

O homem verdadeiro sente os seus impulsos, mas sabe dominá-los.
Isto se ensina às crianças, de modo prático e vital; não se lhes impõe.

Enganam-se os que pensam ser possível, por golpes de força, "quebrar a castanha" das crianças "emproadas". É mais fácil quebrar toda a personalidade, fazendo um desafibrado. Ou fazer canalizar noutra direção as energias barradas, levando o educando a caminhos indesejados.

Na verdade, o educando é que se deve dominar. E o trabalho dos educadores é ajudá-lo nesta tarefa essencial da formação.

No caso em questão, importa conter as explosões de coléra, e não as reações em face do que é injusto, imoral, agressivo. A capacidade de encolerizar-se fica, sendo, porém, moderada, civilizada, canalizada por modos e para fins construtivos. Todos sabem que os temperamentos ditos coléricos são ricos de energia, solidez, tenacidade, e que, bem educados, dão execelentes empreendedores e líderes.

(Excertos do livro: Corrija o seu filho - Mons. Álvaro Negromonte)

PS: Grifos meus.

A dor aperfeiçoa as almas, como um escultor tornando-as mais belas

 A dor aperfeiçoa as almas,
como um escultor tornando-as mais belas


Ah! Mãe de todas a mais aflita!
Ó Maria, a Vós é imposto assistir Jesus moribundo,
mas não vos é facultado procurar-Lhe alívio algum.

Maria ouve o Filho dizer que tem sede,
sem que Lhe seja permitido dar-Lhe um pouco de água para dessedentá-Lo.
Pode dizer-lhe apenas, conforme as palavras de São Vicente Ferrer:
"Meu Filho, tenho tão somente a água de minhas lágrimas."
(Santo Afonso Maria de Ligório)


Detenhamo-nos um momento neste vértice: ele é luminoso. A dor não fere, pois, somente aqueles que se esquecem de Deus neste pobre mundo, nem os que aqui se corrompem. Os justos também sofrem; os bons também têm mágoas. Eles sofrem para se tornarem mais justos; têm provações que os tornam melhores. Discutamos sem pressa esta questão. Iluminados pela triste, porém, penetrante luz da dor, vamos começar a compreender a vida.

Quando se saberá que o homem é o seu próprio escultor; que Deus o colocou na terra no estado de gérmen, precisamente para que ele se criasse; para que desse mármore frio e informe, sem individualidade, personalidade nem beleza, o homem tirasse uma estátua viva? Mas, principalmente, quando se saberá que, neste trabalho, Deus lhe deu a dor como auxiliar?

Ó homem, não eras belo, grande nem santo; e o és agora. Porque? Porque sofreste.

Vede como nascem os homens. Todos no estado de gérmen. Alguns disformes; os melhores apresentam um fundo estéril e seco, uma seiva áspera. A criança é impiedosa, disse um grande observador. O jovem revela pouca sentimentalidade; a sua vivacidade natural, o seu entusiasmo não vem do coração; e nas suas palavras imperiosas, nos gestos de desdém, ele manifesta a ausência de bondade.

O seu coração não nasceu ainda, diz-se então. Tem graça, espírito, imaginação, ciência; no entanto, não fala bem. Que lhe falta? A dor, que ele não conheceu ainda.

O tempo, as provações, os sofrimentos submissamente suportados são elementos indispensáveis para que o coração adquira doçura e a alma a sua elevação, a sua beleza moral.

Certas cordas, e são precisamente as mais belas, só vibram no homem quando as lágrimas as umedecem. E é por isso que a dor é tão abundante. A onda que vem, não espera que a vaga precedente tenha passado. Dores do espírito, dores do coração, moléstias e sofrimentos de todas a espécie, a inextinguível amargura corre indefinitidamente e envolve a vida inteira.

Porque? pergunta o homem, atônito.
Porque se esvai continuamente a felicidade?
Porque a dor jamais finda?

Porque? Para que nos aperfeiçoemos para que nos cinzele o lento e delicado trabalho do buril.

A uns são aplicados esses grandes golpes da dor, semelhantes às possantes marteladas com que Michelangelo tirou do bloco de mármore a estátua de Moisés. Outros só têm esse contato contínuo, minucioso, penetrante e delicado do torno que dá a um diamante a sua beleza, o seu brilho, o seu fogo. Mas tanto em um quanto nos outros, em todas as almas, a mesma operação inteligente da dor as auxilia nas aspirações da beleza perfeita.

A dor cabe, portanto, uma pesada e incessante tarefa; não vos surpreenda, pois, a sua freqüência. Ela se aplica com insistência nos vossos pontos frágeis. Sois fraco; cumpre que ela vos torne forte; sois forte; convêm que ela vos torne fraco.

Eis uma pessoa cujo coração é afetuoso; a dor vem feri-la, para proporcionar-lhe no sacrifício e no esquecimento de si mesma um amor que não seja muito humano, porém nobre, elevado, ativo e perseverante. Eis outra cujo caráter é firme e generoso, mas cuja personalidade se expande exageradamente; a dor acode em seu auxílio.

Cumpre, certamente, que as lágrimas venham vivificar essa sensibilidade que se extingue ou esse amor que se dissipa. Almas tão altivas, tão pessoais, que vos deleitais na contemplação do vosso "eu", espere a dor; ela vos forçará a amar. E vós, corações amorosos, esperai-a também, receiosamente. Ela só permitirá que a vossa sensibilidade se torne generosidade e virtude.

Nós nos compreendemos, seguramente bastante o trabalho inteligente da dor; adoraríamos a mão invisível e terna que dirige o buril, se tivéssemos essa nítida percepção.

Quando não nos lisonjeamos e contemplamos calmamente a nossa alma, causa-nos surpresa a maneira justa e precisa pela qual a dor nos feriu.

E não somente ela desperta a alma com inteligência, revelando-lhe as lacunas, as sombras, os vícios, dando-lhes qualidades que lhe faltam; como também, muitas vezes, o seu cinzel se aplica nos pontos em que mais virentemente florescem as virtudes. Porque?

A fim de as fortalecer e aumentá-las, a fim de as desembaraçar de todo e qualquer obstáculo ao seu desenvolvimento. Sois paciente e bom; sereis assaltado por toda a sorte de enfados; sois generoso, vivereis entre egoístas. A vossa mais alta virtude será justamente a menos conhecida; a vossa mais bela qualidade procurará debalde a sua aplicação.

Apraz-vos a vida íntima da família, é possível que toda a vossa existência se passe sem a companheira desejada, ou talvez a percas pouco depois do vosso casamento. A vossa alma acariciava todos os sonhos da paternidade; nunca tereis filhos. Se tendes na alma um ponto sensível, é exatamente ali que a dor aplicará o seu buril; e embora a ninguém o tenhas revelado, a dor achará esse lugar. E si, por acaso, vós mesmo não conhecieis esse ponto, a dor vo-lo mostrará.

Compreendeis, portanto, que a dor é apenas um instrumento manejado por Alguém que conhece a vossa alma.

Quero indicar-vos outras provas disso.
Já notastes com que arte a dor se proporciona ás almas?

Sobe e desce, eleva-se ou abaixa-se com elas; faz-se delicada ou grosseira, conforme for necessário. Não sois sensiveis ás dores delicadas da alma; Deus vos enviará as duras fadigas do corpo. Não sentis as nobres preocupações da honra; Deus vos dará as penas vulgares da fortuna. Não vos magoam os santos sofrimentos do coração; Deus vos sugerirá as inquietações do espírito: não erra nunca o seu alvo, porquanto, se não puder atingir-vos a alma, ferirá o vosso corpo.

Vede, no entanto, como a dor se espiritualiza á medida que as almas se desprendem da terra.

Quem descreverá jamais sofrimentos sutis, incompreendidos pela multidão, reservados ao homem de gênio, ao poeta, aos espíritos superiores?

Como seria narrado ao martírio invisível e sublime que Deus opera no coração das mães, no enlevado coração das virgens e sos santos?

A vida é um crisol em que as almas se formam para o Céu; e nesse crisol elas são sempre afagadas pela chama que convêm á sua natureza. Vós que compreendeis o mistério da dor e aspirais á elevação e á santidade, deixai que o sofrimento vos torture.

Quem dirige o buril que vos fere, sabe melhor do que vós onde e como é necessário aplicá-lo.

Isto me conduz a outro ponto de vista ainda mais digno da nossa atenção, e do nosso interesse, tantos são os aspectos multiplos que se nos apresentam.

A dor supre o amor.
(Excertos do livro: A Dor - Monsenhor Bougaud)

PS: Grifos meus.

A coqueteira

Nota: Apresentamos um texto completo do Pe. José Baeteman (sobre a vaidade no vestuário), texto que em outra publicação, havíamos transcrito apenas algumas partes. 

A coqueteira


Outro perigo do mundo consiste em levar aquelas que lhe querem agradar a se ataviarem com um luxo de vestuário extravagante, e a caírem na coqueteria, ou garridice, que é um desejo extremado de agradar pelo abuso dos enfeites. As jovens das classes mais modestas não estão isentas desta miséria!

O grande Fénelon temia muito este perigo para as jovens; por isso, no seu livro sobre a Educação, escreve:

"Nada temais tanto como a vaidade nas meninas: elas nascem com um desejo violento de agradar... aspiram à beleza e a todas as graças exteriores, são apaixonadas pelos adornos. Um chapéu, uma ponta de fita, um cacho de cabelo mais alto ou mais baixo, a escolha de uma cor, são para elas outros tantos negócios importantes."

E esse defeito não se acha só numa certa sociedade, encontra-se mesmo entre as que fazem profissão de vida séria. Toda mulher é naturalmente coquete, ou faceira, andaria errada negando-o.

"A maioria das mulheres, diz Luís Veuillot, ficam na terra entre a graça e o pecado, que as disputam e que elas talvez sonhem conciliar. Na missa pela manhã, no baile à noite; querendo agradar e temendo agradar demais, sentindo este receio pela manhã mais do que à noite; mas dispostas, à noite, a arriscar-se a agradar demasiado do que a resolver-se, pela manha, a não agradar absolutamente; mui fácil e mui sinceramente tocadas de arrependimento, quando percebem que agradaram demais, porém de um arrependimento que não é sem doçura e sem um pouco de vontade de recomeçar."

Aí está, pois, uma verdade que poderá desagradar, talvez, mas que é preciso ter a coragem de afirmar. Santo Ambrósio já dizia às mulheres do seu tempo: "Vede essas matronas que pintam o rosto porque receiam não agradar. Querem corrigir a natureza, e por isso mesmo se julgam e se condenam. Porquanto, ó mulher, que juiz mais sincero da tua fealdade teremos nós do que tu mesma que receias mostrar-te tal qual és? Se és bela, porque te disfarças? Se és feia, porque mentires aos olhos, no desejo de pareceres o que não é?"

Não se pode deixar de experimentar um profundo sentimento de tristeza pensando em que as moças passam uma porção considerável da sua existência em futilidades coquetes. Pode-se-ia crer que a cor de um vestido, a forma de um chapéu, um laço de fita se tornem negócio capital para uma cristã?

E no entanto ... Sem dúvida, deve ela pensar num cuidado razoável do seu vestuário, numa certa elegância mesmo. S.Francisco de Sales quer que a sua Filotéia seja "a mais bem vestida, cntanto que seja a menos pomposa e a menos afetada". Mas, quando uma moça é verdadeiramente coquete, esse terrível defeito estraga-lhe as mais belas qualidades e tira-lhe a sensatez, a modéstia e toda a seriedade que deveria ter a sua existência.

Vejamos as tristes conseqüências da coqueteira:

a) Prejudica a seriedade da vida.

Desde que o coração está cheio dessas bagatelas, dessas futilidades, toma-lhes emprestado qualquer coisa que o torna também fútil e vazio. Aos poucos a alma assume a feição das coisas que fazem objeto dos seus pensamentos habituais.

Que será da seriedade, do espírito cristão, que é um espirito de sacrificio, numa jovem constantemente ocupada com a sua "toilette"? Esses espírito extingue-se numa inevitável moleza, conseqüência do enfraquecimento do senso moral.

b) Faz perder um tempo considerável.

"Tempo é dinheiro", dizem. É mais do que isso, pois é a moeda com que se compra o céu. Quanto tempo perdido no penteado, no vestuário, no enfeite de um corpo tornado um ídolo! Desperdiçar-se-ão nisso horas inteiras, e, quando Deus vier solicitar alguns minutos para a oração, a jovem coquete exclamará: Como? rezar? ir à Missa? ora! não tenho tempo!

c) Leva a despesas loucas.

Que luxo na nossa sociedade atual! Passa por ela como que um sopro que dá vertigem! Quanto dinheiro disperdiçado no vestuário, nos enfeites! Para ter uma jóia, um vestido, uma dessas mil frivolidades com que a vaidade lhe exorna a orgulhosa pessoa, a moça não recuará ante nenhuma despesa!

Por isso, quando a esses corações roídos pelo desejo de agradar e de se fazer notar, alguém vier estender a mão em favor das obras de caridade, colherá uma resposta azeda, egoísta e cruel; a coquete não recusará nada ao seu corpo, mas aos pobres, às almas que se perdem... ora!... os tempos estão tão bicudos! Pior do que isso! Muitas vezes, para satisfazer o seu pendor, uma coquete não hesitará em arruinar a família. Em casa, será o flagelo do marido, e, porque não dizer? também dos filhos; ela nunca se julgará com meios para educar filhos, tem um trapo de pano em lugar do coração.

d) É uma tolice e uma aberração.

No fundo a coqueteira tem por fim único procurar agradar. Por mais que a pessoa não o confesse a si, isto é verdade mesmo assim. Ora, como agradar aos outros senão por meio de qualidades amáveis? E essas qualidades a pessoa as tem ou não as tem. Se as tem, não há necessidade dos socorros da arte para que elas produzam seu efeito. Se não as tem, procurará então fingi-las. Neste caso a coqueteira não passa de uma mentira vulgar.

Há mais. A arte não pode dar as qualidades morais, que, em última análise, são as únicas duradouras, as únicas amáveis, as únicas que impressionam. Saberá imitar a natureza; mas então que outra coisa fará senão vos emprestar uma máscara?

Não há nada que valha o natural e a simplicidade. Suponde uma bela flor... cercai-a de fitas, derramai-lhe na corota perfumes capitosos; ficará ela mais atraente? Não! e nada mais tereis feito do que estragar uma belíssima obra de Deus!

e) Ela faz rir de si.

Sim, na frente far-vos-á a esmola de um sorriso, de um cumprimento lisonjeiro e mendaz; mas por detrás as pessoas sensatas vos apontarão com o dedo, rir-se-ão de vós, desferir-vos-ão epitetos que feriam de morte a vossa vaidade de pudésseis ouvi-los.

f) Leva com frequência ao desregramento.

Ela é que, com a preguiça, é a provedora habitual dessa podridão social a que se chama "demi-monde". Rola naturalmente para essa ignomínia quando a paixão da "toilette" chega (e chega depressa) a dominar o cuidado da virtude e da honra.

g) Sede franca e, de boa fé, ide ao fundo das coisas.

Porque quererdes fazer "toilette" senão para atrair os olhares? Porque quererdes atrair os olhares senão para agradar, para vos fazerdes admirar, digamos o termo ... para seduzir? Coqueteria, astúcia e sedução, eis aí, confessado ou não, o fim de todo vestuário muito rebuscado.

Se ainda só se tratasse de agradar o noivo desejado, talvez se vos pudesse desculpar. Mas quem deveras ama, quase não usa de tais meios, e muitas vezes a coqueteira, se tende a inflamar outrem, não se preocupa lá muito com as conseqüências. A pessoa é coquete não para outrem, mas para si; quer ser notada, lisonjeada, adulada, e aqui se trata apenas das mais honestas! Essa coqueteira que força o sentimento depois de realizar o enfeite, é a mais culpada de todas.

Mas então a gente terá de mal amanhar-se como um macaco, e de se fazer carrancuda, amuada, insuportável?... Não, não se vos diz isto, e, depois, mesmo assim acharíeis meios de ser coquetes! Não se trata absolutamente de mau gosto.

Não notais que as excentricidades da moda, o requinte nos vestuários, afeiam muito mais do que embelezam as que a elas se submetem? Ficai sendo, pois, aquilo que sois, e vesti-vos com simplicidade. O vestido, que deveria lembrar-vos a queda original, não deve tornar-se uma armadilha, a mais sapiente das astúcias, a mais pérfida das coqueterias a mais vulgar das seduções.

(Excertos do livro: Formação da donzela - Pe. Baeteman)

PS: grifos meus

segunda-feira, 29 de março de 2010

Maternidade

Maternidade

Dois aspectos da maternidade

A Maternidade humana tem dois aspectos: trazer ao mundo uma nova vida, o que pressupõe a cooperação de um pai; e trazer ao mundo uma nova personalidade ou seja um novo "eu", o que implica a cooperação de Deus...

A mãe, em ambos os desempenhos, como geradora de vida física, e como cooperadora de Deus, está trabalhando pela sua própria salvação. A maternidade, mesmo em seu aspecto puramente físico, tem uma propriedade salvadora, pois a Escritura afirma que a mulher encontrará sua salvação na geração da prole (Timóteo 2,15).

A mãe é também glorificada em seus filhos, que espelham pelas suas vidas afora a graça de Deus que através dela lhes foi concedida. São os filhos que tornam as mães famosas; ao deparar com um filho digno, havará sempre quem exclame, como fez, entre a multidão, a mulher que gritou para Cristo: "Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos a que foste amamentado" (Lucas 11,37(.

A mãe é duplamente benfeitora da humanidade: preserva-lhe a vida física e defende-lhe a vida moral.

Por meio da vida, e das altas qualidades dos filhos que gerou, ela é um desafio constante que o universo apresenta à morte...é depositária das realidades eternas. É bem possível, hoje em dia, que as mulheres que têm tanto horror a ter filhos vejam apenas a maternidade no seu primeiro aspecto de mera procriação, e não no seu segundo aspecto de cooperação com Deus, para maior difusão do Seu Reino e maior glória do Seu Corpo Místico.

A maternidade perde metade de sua beleza, quando considera o nascimento como um mero processo biológico e desconhece o ponto de vista teológico. Se o amor for apenas um entendimento entre marido e mulher, e não uma cooperação entre homem, mulher e Deus, - então ele perde grande parte de seu encanto.

Diz Santo Tomás: "É muito melhor e mais belo unir-se àquilo que é superior, do que preencher as falhas do que é inferior".

A mulher não é uma restauradora de ruínas; ela é, antes de mais nada, uma cooperadora de Deus. Anexando à sua cooperação com o homem, a sua cooperação com Deus, ela reafirma mais uma vez o segredo do casamento: são necessários três elementos ao amor: homem e mulher, como princípios geradores, e Deus, para insuflar a alma imortal.

Limitação da prole

A limitação da prole é uma decisão deliberada e consentida por parte dos esposos, a fim de negarem a Deus a possibilidade de criar um novo ser à sua imagem e semelhança. É a vontade humana opondo-se livremente à vontade divina, da mesma forma que certos sistemas agrícolas controlam propositadamente a produção da terra, a bem de um maior aproveitamento econômico. O non serviam de Lúcifer teve seu efeito catastrófico sobre a Criação, e principalmente sobre aqueles que dizem:

"Recuso-me a aceitar de Deus a Sua Santa Vontade, que é a multiplicação, pois Nosso Senhor, referindo-se aos dons inaproveitáveis, disse: Tire-se dele o talento".

A opinião médica mais corrente hoje em dia é atribuir as psicoses e neuroses femininas a essa fuga da maternidade. Uma mulher que tivesse uma árvore plantada em seu jardim, não iria todas as noites cortar com a tesoura cada pequenino galho que pudesse crescer sobre o telhado. Essa mulher sabe que o normal é que a árvore espalhe seus galhos ela também sabe que uma determinada limitação de galhos, ou seja, permitir que a árvore de um novo galho apenas cada cinco anos, seria prejudicial tanto às árvores como aos galhos.

Essa limitação acabaria por matar a árvore. Estatisticamente falando, é aliás o que acontece. De cada seis casos de divórcio, cinco são de casais que não tiveram filhos.

Maternidade: Heroísmo contínuo

... Em nossas vidas cristãs individuais, muito de nós cuidamos separadamente da alma e do corpo. Muitos dias são dedicados à melhoria de nosso físico: muito poucos minutos são reservados para os cuidados espirituais.

A maternidade é um lembrete de que as melhores vidas são aquelas em que o desenvolvimento físico e espiritual caminham simultaneamente, como acontece com uma mãe educando seu filho: ambos crescem juntos. Justamente por causa da alma, há um desenvolvimento físico a cada instante.

A mãe cristã é como Simeão, que tomou em seus braços, o Infante Divino, com seus quarenta dias de idade. Mas o verdadeiro aspecto da questão, não é que ele tenha sustentado a Criança, mas sim que a Criança o tenha sustentado.

Da mesma maneira a mãe verá que não só fisicamente ela carrega a criança, como também a criança, composta de corpo e alma inseparáveis, serve-lhe de sustentáculo. O novo ser que ela abriga em seu ventre, vem de Deus, da mesma forma que a graça vem à alma através de Deus. Essa verdade espiritual é inseparável do desenvolvimento físico da vida dentro do seio materno.

... Quando finalmente dá à luz, a mãe verdadeiramente cristã esforça-se para que o desenvolvimento físico e moral de seu filho caminhem simultaneamente, a fim de que a criança, sadia de corpo, seja continuamente vivificada por uma vida espiritual intensa, o que provará ao mundo que a santificação do corpo da alma é simultânea.

Os pensamentos elevados e dignos que tiver uma mãe grávida, afetarão beneficamente o filho de suas entranhas, da mesma maneira que os sustos e os choques lhe serão prejudiciais.

São tremendos os efeitos psicológicos que o amor produz sobre o próximo. A mãe que gera o filho por amor, consciente de estar obedecendo ao preceito divino e desincumbindo-o de uma missão sagrada, verificará em sua vida a veracidade das palavras de Nosso Senhor:

"Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e nós viremos a Ele, e faremos Nele morada" (João 14,23). E a seguir, a criança lhe servirá de suporte, o que é a última prova do amor de Deus pela mãe...

A mãe é como a terra na qual se desenvolvem as sementes da adolescência.
O Evangelho nos fala de quatro tipos de mães:

"E quando semeava, uma parte da semente caiu ao longo do caminho, e vieram as aves do céu e comeram-na. Outra parte, porém, caiu em lugar pedregoso, onde não havia muita terra; e logo nasceu, porque não tinha profundidade de terra. Mas, saindo o sol, queimou-se; e porque não tinha raiz, secou. Outra parte caiu entre os espinhos; e cresceram os espinhos e a sufocaram. Outra parte enfim, caiu em boa terra, e frutificou: uns grãos renderam cento por um outros sessenta, outros trinta. Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça" (Mt. 13,4-9)

Como depositária das sementes, a mãe se entrega completamente a Deus, dizendo como Maria: Ecce ancilla Domini. "Eis aqui a Serva do Senhor".

A terra apresenta uma submissão passiva às sementes, muito embora tenha que submeter-se ao sacrifício da escavação e do plantio. Ao passo que a submissão da mulher é inteiramente feita à base de sacrifício. Uma mulher tem muito maior capacidade de sacrifício do que o homem. O homem é capaz de heroísmo, em uma explosão momentânea e apaixonada de coragem.

Mas a mulher é heróica através dos anos, dos meses e às vezes até dos segundos da vida cotidiana, embora o caráter de repetição monótona de seus esforços possa dar-lhe a falsa aparência de banalidade. Não apenas seus dias, também suas noites, não apenas seu espírito, também seu corpo, participam do Calvário da Maternidade. Por conseguinte, a mulher tem melhor compreensão da redenção do que o homem, pois ela se acerca mais da morte, ao gerar a vida.

Na mãe estão reunidas as duas grandes leis espirituais, que em outras pessoas, são extrínsecas e separadas: o amor do próximo e o amor do sacrifício.

Todos os seres humanos, a não ser as mães, amam o próximo quando amam algo fora deles próprios. Mas o próximo para uma mulher grávida, está dentro dela própria e por ela deve ser amado. Geralmente se entende por sacrifício aquilo que se realiza fora da carne, mas o sacrifício da mãe é parte integrante de sua própria carne.

Não sendo um sacerdote, levando Deus aos homens e os homens a Deus. Leva Deus aos homens formando o corpo em cuja alma o Poder Divino já está presente. Conduz os homens a Deus pelo renascimento batismal, no qual ela oferece seu filho a Cristo. Reflexo terreno da maternidade de Maria, também a mãe pode ser glorificada com um Ave-Maria terreno!

Ave, Maria.
Ave, Mãe.

Cheia de graça!
Cheia de vida; um corpo, produto do amor do marido pela  mulher; uma alma, produto do amor de Deus.

O Senhor é convosco!
Deus está com as mães. "Aquilo que fizerdes a quem quer que seja, o estais fazendo a Mim".

Bendita sois entre as mulheres.
Toda mulher sofre um apelo à maternidade, seja física ou espiritual. Uma mulher será tanto mais feminina, quanto mais cristã ela for. Uma mulher será tanto mais esposa, quanto mais ela for mãe.

E bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.
E bendito é o fruto do teu ventre - João, Pedro, Maria, Ana. "Bendito seja aquele que vem em nome de Deus".

(Excertos do livro: O mistério do Amor - Arcebispo Fulton J.Sheen)

PS: Grifos meus.

Cultivai o santo recolhimento

Cultivai o santo recolhimento

Daí ao próximo as chamas de vosso coração delicado, mas deixai a este no Coração de Jesus, e nada tereis a recear, nada a temer.

Cultivai o santo recolhimento, isto é, vivei em sociedade de vida, de união e de amor com Deus, com Nosso Senhor. O santo recolhimento é a raiz da árvore, a vida das virtudes e até do amor divino: é a força da alma concentrada em Deus para daí irromper e expandir-se.

Que Nosso Senhor vos conceda essa Graça das graças.

Permanecei sempre no interior, vivei em vosso interior, possui-vos, virai-vos de fora para dentro, deixai este mundo; retirai-vos com Jesus em vosso coração, onde Ele vos move a alma, falai-Lhe a linguagem interior que só o amor entende e compreende.

Entretei uma doce e habitual conversação em vosso interior e não o percais de vista, se quiserdes conformar-vos àquele que dizia: "Jesus é minha alegria e felicidade!" Lembrai-vos deste princípio de vida, de que só encontrareis felicidade no serviço de Deus na vida interior de oração e de Amor.

... Amai, por conseguinte, a solidão da alma. É o santuário de Deus, onde enuncia os seus oráculos de amor. Aí aprendereis em pouco tempo, e sem dificuldade, a conhecer a Deus em pouco tempo, e sem dificuldade, a conhecer a Deus em Sua Luz, e degustá-Lo na essência de Sua Bondade, a imitá-Lo em seu espírito de Amor. Em tal escola estamos sempre a recomeçar, porque estamos sempre a meditar numa verdade nova; penetramos mais adiante nas profundezas da Ciência e da Virtude de Deus.

Ah! Acreditai-me quando vos recomendo a oração de silêncio, de contemplação, de união a Nosso Senhor; é o único verdadeiro centro de vida.

... Numa palavra, colocai-vos em Deus e estareis em Vosso centro divino. Tudo o mais é lida penosa e difícil para a alma, que então trabalha demasiado; mas aqui é Deus que trabalha nela, é o orvalho celeste que a penetra com suavidade. É mister correr a Deus pelo caminho mais curto e estar sempre a redobrar as forças.

(Excertos do livro: A Divina Eucaristia - São Pedro Julião Eymard)

PS: Grifos meus

domingo, 28 de março de 2010

Asseio e arte - (Lar cristão)

Asseio e arte
(Lar cristão)


Agradável pelo asseio e pela arte;
quente e acolhedor pelo teu devotamento;
confortável pela ordem e trabalho -
farás de teu lar uma -
atração e uma saudade.

Não se discute que a falta de asseio desacredita uma dona de casa. Que se refira esse desasseio à casa ou à pessoa de sua dona, é a mesma coisa.

A beleza e asseio de uma casa influem sobre a moral do homem por causa de certa força secreta. Numa casa bem asseada, ordenada, inundada de luz, exercita-se a vigilância, a linguagem e os pensamentos são mais cultos, o caráter é mais alegre.

O contrário se dá em caso de desasseio. É funesta a influência que sobre a família exercem a sujeira e a desordem de uma casa. As idéias, os sentimentos, os costumes ficam num nível baixo.

Por isso, leitora, teu princípio rezará: asseio, custe o que custar. Não temas a luta com o marido e com os filhos para obrigá-los a amar e praticar o asseio. Roupas, sapatos, móveis, utensílios de cozinha, escadas, varandas, hall, jardim, quartos, salas - tudo terá o brilho da limpeza.

O cansaço imposto para manteres o asseio, em tudo e em todos, é um cansaço por Deus. É um mérito que adquires como educadora. Além disso, esse trabalho te prenderá à casa, livrando-te do ciganismo das ruas e lojas.

Não basta o asseio que prende o marido na família, principalmente se ele é operário e passa o dia em lugares cheios de desordem e desasseio. Realizarás ainda aquilo que o verso canta:

Dentro, rendas, cristais, flores...
Em cada canto, a mão da mulher amada e bela
punha um riso de graça...!

Arte e bom gosto não reclamam luxo e despesas. Dependem apenas de um gosto formado e do cuidado em aproveitar os recursos que estão ao alcance mais ou menos de todos. Há palácios onde sobejam decorações e cortinas, mas de onde a arte ugiu. E há moradas, singelamente enfeitadas, que são um sorriso acolhedor.

Em todo homem, mesmo na criança ... existe certo amor ao belo. É um amor utilíssimo, porque inspira o progresso e a perfeição. É igualmente nobre, porque engrandece o homem, espiritualiza-lhe os pensamentos e sentimentos...

O talento artístico é poderoso recurso para encantar o marido. Um lar sem arte, sem culto ao belo, é ensombrado demais, com ares de prisão. Imagine-se a leitora uma sala cujas paredes e janelas nada representassem, quebrando a monotonia das linhas! Nem um quadro, nem uma cortina! Sobre a mesa, sobre a escrivaninha, nada! Nem um vaso dentro do qual fanasse uma flor!

Digamos logo que semelhante nudez interior não é conseqüência forçada de pobreza material. Pois até os pobres podem ter lá um ou outro quadro, herdado dos antepassados. Tudo isso é antes uma pobreza moral.

Mostra espíritos muito materializados, ou é o castigo do vício que corrompe as inteligências e embota os corações. Tira à primeira as intuições e ao segundo as emoções artísticas.

Portanto, leitora, ama e cultiva a arte de enfeitar, de colocar um quadro, uma cortina, uma flor. Se podes, ama a música e o canto. Há um rádio em tua casa? Não o ligues para as modinhas e sambas, cuja trivialidade musical só é vencida pelo duvidoso ou escandaloso sentido de seus textos.

Ama a arte e saber fazer-lhe uma critica amável - eis aí teu dever! Crítica amável: porque não deves reprovar sem mais nem menos as preferências do marido, a estátua e o quadro, o compositor e o poeta que ele escolhe.

Triste coisa é ver-se numa família católica alguma pintura imoral. Sobre o piano a estatueta nua e berrante provocação de pensamentos impuros. Isso nunca admitirás, leitora! Mesmo que seja preciso armar uma briguinha com o marido! Tanto as visitas como os filhos se escandalizarão no caso.

Neste ponto muitas donas de casa são bem pouco escrupulosas. Faço votos que estas linhas lhes queimem a alma com vivo remorso.

O verdadeiro belo coincide sempre com o verdadeiro bom. O que não pode ser bom para a pureza da alma, não é, por conseguinte, verdadeiramente belo.

Enorme, inegavelmente, é a influência do belo na formação das crianças. Sob as irradiações do bom gosto artístico gravam-se na alma infantil recordações que não morrem. Isso para o futuro. E agora, no presente, vivem as crianças gostando da casa, para ela voltando alegremente.

Gravuras e decorações apreciadas na infância dificilmente se apagam na memória do adulto. Boas ou más, ficaram e ficam registradas. Lembro-me ainda da profunda impressão causada em minha alma de menino por uma quadro religioso, no qual se mostrava o contraste entre a morte do justo e a do pecador. Estou vendo ainda as quatro pinturas, da sala de visita, olhando-me com um quê de elegância e fineza. Sei que, ao vê-las, parava de falar e pisava mansinho.

Não é, por conseguinte, pequena a responsabilidade de uma dona de casa, na escolha das suas "preferências artísticas". Preferível lhe seja deixar sem nada uma parede, do que "estragá-la" com algum quadro de mau gosto artístico. Antes faltar alguma coisa sobre a mesa, do que faltar a pureza na alma dos filhos, por causa de estátuas imorais.

Agradável pelo asseio e pela arte; quente e acolhedor pelo teu devotamento; confortável pela ordem e trabalho - farás de teu lar uma - atração e uma saudade.

Será ele amável moldura para tua fisionomia, recordada com amor pelo marido e pelos filhos. Se o deixares pela morte, todos sentirão que és insubstituível.

(Excertos do livro: As três chamas do lar - Pe. Geraldo Pires de Souza)

PS: Grifos meus

São Paulo da Cruz - Nosso novo padroeiro

São Paulo da Cruz
Nosso novo padroeiro


A Paixão de Jesus o transforma

Supera de muito as nossas débeis forças o que nos resta dizer a respeito de São Paulo da Cruz. Para cantar as maravilhas que iremos referir neste capitulo, fora necessário a lira do Anjo e o coração do Serafim. Balbuciaremos apenas algumas palavras.

Ó Jesus Crucificado, que de portentos não operais com vossos santos! Paulo foi sempre serafim de amor. Com o transcorrer dos anos essas labaredas cresceram tanto, a ponto de transformar-se em verdadeiro incêndio. Ao meditar os padecimentos do Redentor, abismava-se o santo naquele oceano sem praias nem fundo.

Flexas de amor transpassavam-lhe o coração e ele chorava copiosamente. Os colóquios com Jesus Crucificado comoveriam corações de pedra. Ouçamo-lo:

Ó meu amado Redentor, que se passava no vosso Coração divino durante a flagelação?!
- Ou: “Oh! que aflição, que agonia vos causavam os nossos pecados, as minhas ingratidões!... Por que não morro também por vós? ” .

Chamava-o de “ Meu Soberano Bem, O Celeste Esposo de minha alma..."”

Em suma, a dor e o amor encontravam expressões que, para traduzi-las, fora mister dar às palavras asas de fogo. E das expressões nasciam os desejos: sofrer e morrer pelo Amor Crucificado. Essas aspirações levavam-no aos delíquios da embriaguez espiritual e do êxtase.

Ao refletir:

Um Deus açoitado!... um Deus crucificado!... um Deus morto por meu amor!... ” , quedavam-se-lhe todas as potências da alma; o espírito já não formulava nenhum pensamento; somente o coração se absorvia no silêncio interior, suprema expressão da caridade.

Jesus, então, o atraía, comunicava-lhe de maneira inefável as próprias dores, fazia-o desfalecer de altíssima suavidade, submergindo-o no âmago do seu divino Coração. Duravam pouco essas operações da graça: os frutos, porém, como sejam, amor mais ardente a Jesus Crucificado e fome insaciável de padecer, perduravam por largo tempo.

Nas desolações espirituais, não pedia lenitivo: ao contrário, temia privar-se desses ricos tesouros. O frio, o calor, a fome, a sede, todos os incômodos físico. Eram-lhe doces refrigérios. Suportava-os com imensa alegria, chamando-os

Penhores do amor divino, pedras preciosas para o seu coração ” .

... Certo dia, com Jesus Eucarístico no coração, foi arrebatado em sublime êxtase. Abismado no Soberano Bem, prelibou por instantes os inefáveis encantos do amor e, associado à Humanidade do Verbo, teve sensível conhecimento da Divindade...

Compreendeu, além do mais, ser Jesus Crucificado a porta soberana do amor, a transformação da alma em Deus e o aniquilamento no Infinito.

Por esta porta é que devemos entrar, - diz santa Teresa - se quisermos que a divina Majestade nos revele grandes segredos ” (Autobiografia da santa, cap. XXVII). Intuíu outrossim como a alma, do puro amor de Deus, desce novamente, se assim nos podemos exprimir, a Jesus Crucificado. Penetrou tanto este segredo, chegando a enunciá-lo com linguagem divina:

A alma abismada toda no puro amor, sem imagens, em fé pura e simples, permitindo-o Deus, vê-se de repente submersa no das dores do Salvador e, num só relance da fé, contempla-os todos sem operação do entendimento, por ser a Paixão de Jesus Cristo obra exclusiva do amor. A alma perdida por completo em Deus, que é caridade, que é amor, transforma-se num inefável amálgama de amor e de dor. O espirito penetra-se de ambos esses sentimentos, vendo-se submerso no amor doloroso e na dor amorosa... ”

As chamas de amor reverberavam-se-lhe no rosto, no corpo tudo, chamuscando-lhe a túnica na parte que tocava o coração. Se tais eram as chamas desse amor, qual lhe não seria a impetuosidade?

Sentia contínuas e dolorosas palpitações de coração, sobretudo às sextas-feiras: indizível martírio que o fazia prorromper em furtivas lágrimas e gemidos, sempre solícito em ocultar os dons celestesO coração, pelas violentas palpitações, não se conteve nos estreitos limites do peito, dilatando duas costelas; fenômeno que não se pode explicar naturalmente, na opinião do sábio médico Del Bene, que o observara no retiro de Vetralla, quando tratou o nosso santo.

Aliás, outras testemunhas do fato prodigioso atestaram-no com juramento no processo de Canonização. Paulo sempre passou a noite de quinta para sexta-feira santa de joelhos, imóvel, ante o ss. Sacramento exposto, a meditar os padecimentos e a morte ignominiosa do Salvador. Numa dessas noites, enquanto desabafava o amor em torrente de lágrimas, Jesus gravou-lhe no coração o EMBLEMA sagrado, semelhante ao que trazia sobre o peito, com os instrumentos da Paixão e as dores de Maria. A partir desse momento, intumesceu-se-lhe o peito, dilatando extraordinariamente a cavidade que encerra o coração.

Afirma o dr. Giuliani com juramento que não só viu, mas tocou as três costelas prodigiosamente arcadas, não tenda a menor dúvida da sobrenaturalidade do fato.

(Excertos do livro - A vida de São Paulo da Cruz - Pe. Luis Teresa de Jesus Agonizante)

PS: Grifos nossos

Domingo de Ramos - Glória, laus.

Domingo de Ramos

Israël es tu Rex,
Davídis et ínclyta proles:
Nómine qui in Dómini, Rex benedícte, venis.
Glória, laus.


Vós sois o Rei de Israel,
ilustre descendente de David,
Rei bendito, que vindes em nome do Senhor.
Glória, louvor.

Quando a multidão, ao chegar ao cume do monte descobriu as brancas muralhas da cidade santa com os seus palácios magníficos e o seu vasto templo rodeado de muros de defesa, lançou aos ecos todos do vale os seus gritos de fé e amor: "Hosana! Hosana no mais alto dos Céus! Glória ao Filho de David! Bendito seja o que vem em nome do Senhor, para levantar o reino de David nosso pai!"

Não se podia reconhecer mais formalmente o Messias prometido a Abraão e cantado pelos profetas. E por isso os fariseus invejosos, que se tinham infiltrado no cortejo, exprobravam a Jesus os gritos, a seu ver sediciosos, dos seus partidários. Aquela ovação, feita ao seu inimigo, taxavam-na eles de provocação à revolta contra César. "Mestre, nós vos intimamos, diziam eles, com um despeito que não podiam dissimular, mandai já calar os vossos discípulos! - É inútil, respondeu o Salvador; porque, neste momento, se eles calassem, as próprias pedras clamariam."

Naquela hora, por Deus escolhida para glorificar o Seu Filho em nome da nação judaica, ninguém podia obstar aquela pública manifestação de Sua realeza.

Ai dos que, naquele dia soleme, recusaram abrir os olhos à luz, e blasfemaram contra o Salvador, em vez de cantar com o povo um hino á Sua glória! Do cimo do monte das Oliveiras, pousou Jesus, por um momento a vista sobre aquela Jesuralém que desde há tanto tempo vinha desprezando obstinadamente a graça da salvação, e chorou.

"Ó Jerusalém, exclamou Ele, se quisesses abrir os olhos e reconhecer Aquele, que só, e mais ninguém, te pode dar a paz! Porém não: estás ferida duma cegueira que te há de causar a ruína. Eis vem o dia, em que teus inimigos te rodearão de trincheiras e te encerrarão e apertarão por todas as partes. Eles te destruirão, e esmagarão contra o solo os filhos que encontrarem em teu seio; e de Jerusalém não ficará pedra sobre pedra, porque não conhecestes o tempo em que o Senhor te visitou."

Alguns momentos depois, entrava Jesus na cidade seguido da imensa multidão dos seus discípulos. E toda a população Lhe saiu ao encontro numa agitação profunda. Os estrangeiros perguntavam aos que encontravam: "Que homem é este, e porque tantas aclamações? - É o profeta de Nazaré, respondia-lhes a gente; este foi quem ressuscitou a Lázaro." É o "hosana ao Filho de David" ia ecoando de grupo em grupo, através de toda a cidade.

Quanto os fariseus, mais que nunca exasperados, diziam uns para os outros: "Já vedes que não aproveitamos nada: nós condenamo-lo e eis que toda a gente corre em seu seguimento."

Os discípulos acompanharam Jesus até ao templo; mas Ele só lá se demorou um momento; contudo foi o suficiente para ver que a casa de Deus voltara a ser uma feira pública, tal como de antes. Aproximama-se a noite; e Ele saiu com a deliberação de no dia seguinte por cobro àquelas profanações; depois, tendo despedido as turbas, voltou para o monte das Oliveiras, onde pernoitou, orando a Seu Pai.

(Excertos do livro: Jesus Cristo, Sua vida, Sua paixão, Seu triunfo - R. Pe. Berthe)

PS: Grifos meus

sábado, 27 de março de 2010

A IRA - Um dos sete gatos-pingados do caráter

A IRA
Um dos sete gatos-pingados do caráter


A ira é o violento desejo de castigar os outros. Não falamos aqui da justa ira, que foi, por exemplo, a de Nosso Senhor, quando do Templo expulsou compradores e vendilhões, mas da ira que se manifesta pela exaltação, pelo ódio, pelos acessos de furor, pela vingança, pelos gestos de ameaça.

Aos olhos do egotista, a ira mais não é do que o desejo de pagar a outrem na mesma moeda.

Na imprensa e na tribuna, a ira é chamada "justa indignação". Com esse qualificativo, nem por isso deixa de ser o defeito mercê do qual os espíritos perdem o sentimento da justa medida, o gosto da calúnia, e de atiçar discórdias.

A ira é habitual nas más consciências. Acusado de roubo, oculpado indigna-se com muita mais violência do que o inocente; a esposa infiel enfurece-se no caso de a sua falta ser descoberta; as donas de casa ciumentas e rancorosas "aliviam-se", "descarregando" sobre os criados.

Os egotistas dessa espécie repelem com truculência todos aqueles que lhes desagradam, e maldosamente caluniam aqueles cuja virtude os condena.

A ira comporta vários graus. No primeiro desses graus, manifesta-se através de uma irritabilidade e impaciência exageradas, em presença da mais pequena contrariedade. Se o café não está quente ao pequeno almoço, se o jornal chegou atrasado, logo o ego faz barulho e resmunga.

No segundo grau, a ira ganha aspectos de tempestuosa: a pessoa gesticula, ferve-lhe o sangue nas veias, ruboriza-se, os objetos voam à sua frente, - o que tudo prova que o ego não admite qualquer contrariedade na satisfação dos seus desejos.

A ira atinge o seu terceiro grau quando passa a vias de fato, quando o ódio procura "desforrar-se", quer causando prejuízo a outrem, quer, mesmo, desejando-lhe a ... morte! Muitas são as pessoas que, antes do despertar súbito do ego, ignoram as diabólicas reservas de cólera que nelas existem, latentes.

A ira prejudica o desenvolvimento da personalidade e susta todo o progresso espiritual, não só por perturbar o equilíbrio mental e falsear a capacidade de julgar, mas também por se colocar ante os direitos doutrem, e ainda por destruir o espírito de recolhimento, indispensável para podermos seguir as inspirações da graça.

A ira relaciona-se invariavelmente com alguma decepção do ego. É mal muito difícil de curar, por ter suas raízes no amor-próprio, sua verdadeira causa, ainda que poucas pessoas queiram convir nesta explicação. Um desastre corporal ser-nos-ia, em muitos casos, menos penoso do que a humilhação resultante de termos que confessar que o nosso amor-próprio é a causa dos nossos acessos e... excessos de ira.

(Excertos do livro: Elevai os vossos corações - Arcebispo Fulton F.Sheen)

PS: Grifos meus
Ver também:

Família numerosa

Conferência XIV - Dom Tihamér Tóth
Família numerosa


"Tantos botões em vossas roseiras, tantas pérolas para vossas coroas!"

... A Igreja de Cristo, com grande coragem, levantou a voz em favor do filho; hoje ainda, ela exige a inviolabilidade dos direitos do filho que ainda não nasceu; mas não se esquece dos sacrifícios imensos que custam aos pais a existência e a educação de vários filhos.

É justamente porque a nossa santa Religião sabe bem o que significa, em nossos dias, educar uma família de cinco ou seis filhos, que ela rodeia de grande respeito os pais heróicos que fazem a Deus este sacrifício, mas ela nunca pode permitir que se tenha o direito de agir de modo contrário ás leis divinas, e que se tenha o direito de impedir a vinda do filho por meio de intervenções criminosas.

Agora examinemos mais de perto as dificuldades invocadas por certos esposos para afastar o filho. Elas não são insolúveis para as almas generosas e realmente cristãs, de modo que o homem não contrarie as leis de Deus.

*Antes porém de examinar sucessivamente às objeções formuladas contra a presença do filho, quereria fazer uma advertência preliminar.

Quando a religião faz um juízo muito severo contra os esposos que tornam estéril sua vida conjugal por meio culpáveis, ela não repreende, em momento algum, os esposos que não cometeram falta alguma neste ponto e que aceitariam, com bastante alegria, os filhos, mas aos quais Deus privou desta alegria. Ela estaria longe de repreendê-los por um estado de coisas do qual não são responsáveis.

Pois há bastante tristeza em sua alma; eles sentem bem que lhes falta alguma coisa de essencial para a sua felicidade.

Não os repreendo, quero antes inspirar-lhes alguns pensamentos consoladores, e indicar-lhes até um meio de aproveitarem esta situação.

- O traço essencial da alma cristã é a convicção de que tudo o que Deus faz ou tudo o que Ele permite, Ele o faz ou permite segundo um plano. Se Ele não dá filhos a estes esposos, apesar de suas fervorosas orações, é que há nisto uma intenção particular.

Qual a intenção? Talvez a de lhe fazer consagrar mais suas forças a alguma grande causa religiosa, ou ao bem comum, ou ao serviço desinteressado do próximo. Ou talvez Deus o permita a fim de que haja pessoas sem filhos que cuidem de pequeninos órfãos ou de crianças pobres e infelizes. Quantas crianças na miséria sobre a terra! Assim houvesse muita gente para ajudá-los...

Tudo isto, porém, não é senão uma digressão; deste assunto não falaremos mais nesta palestra.*

Por que não querem filhos?

Qual é esta palavra de ordem? Quais os pretextos invocados, muitas vezes, por esposos receosos de filhos? Olhemo-los frente a frente.

Razões financeiras

A objeção mais freqüente é a situação econômica difícil.

"Amamos os filhos, mas não temos com que sustentá-los. Um filho é o suficiente, não podemos ter mais". Quantas vezes não se ouvem estas frases, embora sob formas diversas.

Mas se observarmos mais de perto os que assim se lamentam, e como vivem os que não podem ter filhos, chegaremos certamente a uma constatação muito curiosa. É que na maior parte dos casos a causa do receio de ter filhos não é a miséria, mas, pelo contrário, é o bem-estar. Por incrível que pareça, no entanto, é assim.

Examinemos a história desta doença: Donde vem essa epidemia que arruína a vida da família. Foi entre as famílias dos operários ou camponeses que começou esta moda de não ter senão um filho, ou mesmo nenhum? Começou ela entre as famílias que, pela sua pobreza, tinham o direito de temer não possuir bastante pão para tantas bocas esfomeadas?

Certamente, não. Inegável que esta doença mortal para os povos apareceu em primeiro lugar entre as famílias abastadas, onde haveria pão suficiente a até bolo para os cinco ou seis filhos, entre as famílias onde a sede de prazeres e a licença dos esposos preferiram as comodidades e tranquilidade de uma existência sem filhos. Isto é infelizmente um fato inegável.

Não olhamos, contudo, só o passado; mas também o presente. Que vemos atualmente? Em geral esta objeção não é formulada por aqueles que ganhando pouco têm uma casa com um quarto e uma cozinha e vários filhos; mas, ao contrário, pretextam dificuldades econômicas os que, em um apartamento coberto de tapetes e ornado de quadros célebres, não têm senão um filho, mas possuem além disso uma empregada para tudo, uma cozinheira, uma governanta inglesa, dois ou três pequeninos cães bem ensinados e revestidos de belos casacos.

"Nossos meios não nos permitem mais filhos", dizem esses pais. São eles suficientes para os concertos e bailes, para as viagens e vesperais, para as temporadas na praia e modas, para os jantares e partidas de cartas, para os autos e cães. Mas não para os filhos.

Sinto que digo neste momento coisas amargas, mas olhai ao redor de vós. A maior parte das famílias não têm mais filhos, precisamente porque fazem mais despesas e vivem mais luxuosamente do que lhes permite a situação. O receio de ter filhos é mais forte, não aí onde se vive melhor mas sim onde os pais, indiferentes quanto à religião, não vêem no grande número de filhos, senão um encargo que reduziria sua liberdade e tornaria impossível o seu luxo.

Os esposos religiosos não deveriam pensar assim. Para os pais religiosos é sempre uma alegria, quando um filho nasce na família: uma alegria porque se recordam da maravilhosa promessa feita outrora por Nosso Senhor Jesus Cristo, e cuja melodia ressoa incessantemente a seus ouvidos, a cada hora difícil, a cada noite de insônia, a cada minuto de sacrifício: "Aquele que receber em meu nome um desses pequeninos, é a mim que recebe" (Mt. 18,5).

Existem para os pais promessas mais consoladoras e mais confortantes que a vinda de Nosso Senhor, cada vez que um novo filho nasce na família?

Não temais, pois, se tiverdes mais filhos. Não temais ficar por isso mais apertados. Porque o coração dos pais é como lareira ardente: quanto mais combustível aí se põe, mais ele arde. O coração daqueles que não tem filhos é frio. O primeiro filho acende a primeira chama e amor dos pais; cada novo filho aumenta-a, e mais anima.

Falando, porém, assim, parece-me ver entre este ou aquele dentre os que me ouvem (lêem) dizer:
"Vou escrever ao pregador, É fácil dizer do latar, da cátedra, porque ele não conhece a vida".

Não me escrevais, não. Eu a conheço. Sei mesmo que há realmente, por causa das miseráveis condições materiais de hoje, famílias que receiam com razão a vinda de um novo filho, porque não poderiam sustentá-lo.

Que lhes diremos nós? Que lhe diremos, quando em sua amargura, eles não sabem mais quase o que dizem?

O ponto de vista católico é duro e severo, dizem eles. Já não há tanta miséria na terra? Já não falta o pão aqueles que vicem? E eis o Cristianismo a proclamar que é um pecado defender-se contra os filhos. A Igreja não tem coração e nem indulgência!

Apresentai esta acusação em toda a severidade, para que vejais que a Igreja sabe de tudo isto. Como não teria ela compaixão de todos aqueles que, em o merecerem, estão na miséria? Como não haveria ela de saber que, infelizmente, famílias realmente religiosas, por causa dessas dificuldades, ficam em uma terrível alternativa?

Para evitar mal entendidos, declaremos claramente que a Igreja nunca teve a idéia de que os pais pudessem pôr no mundo sempre mais filhos, irresponsavelmente. Nada disto. Há famílias que podem educar, convenientemente, os dez filhos, há outras que não podem educar mais que um ou dois. A Igreja o vê bem, ela só não o permite que a limitação de números de filhos se realiza por intervenções culpáveis, manchando o santuário da família.

Quando por sérias razões a família não pode mais aceitar filhos, é preciso para que ela não os aceite mais, recorrer à castidade conjugal, e não a meios criminosos.

O homem moderno gosta de ouvir falar de tudo, menos de uma coisa: Não quer ouvir falar do domínio de si. O homem que aprendeu dominar as suas forças mais selvagens do mundo material, esqueceu de aprender a dominar a si mesmo, esqueceu e, se for preciso, negará que todas as grandes obras do passado, no terreno da civilização material ou da intelectual, são o fruto de renúncia.

Mas, enquanto que a santa Igreja exige sem reserva a pureza moral da vida do casado, ela não cessa de exigir também para as famílias condições que tornem possível a observação da castidade conjugal, pois se conhecemos que para muitas famílias na realidade é difícil observar as leis divinas por causa da situação econômica atual, não se segue que tenham agora o direito de mudar a lei de Deus; pelo contrário, é preciso transformar a situação econômica.

A lei divina é eterna e os homens não tem o direito de tocá-la. Mas as leis econômicas não são eternas. Elas dependem das transformações a que estão sujeitas as instituições da vida atual. Se o sol e o meu relógio não se combinam, eu não posso tocar no sol, mas somente no relógio.

Quem não vê a grandeza da tarefa que incumbe neste ponto à legislação? Com efeito, há hoje ainda homens que não têm família para sustentar, mas dissipam em uma só noite somas que bastariam para alimentar, durante a semana, várias famílias numerosas.

Enquanto a Igreja corajosamente levanta a voz em favor dos filhos, e assim defende com eficácia o interesse da nação, a legislação civil não tem o direito de olhar, com indiferença, a luta difícil em que ela se empenha em favor da criança, mas deve, por inúmeras medidas legais, por intervenções do domínio educativo, impostos fiscais, por abonos e outros meios materiais, favorecer as famílias numerosas.

Razões de saúde

Ao lado das preocupações materiais tem-se o costume de invocar razões de saúde para recusar ter novos filhos, "os filhos fazem envelhecer... tiram a força das mães... podem até custar-lhes a vida...!" Tais são os temores de alguns.

Cada vez, porém, que ouço falar dessas apreensões, cada vez que ouço falar de jovens que receiam ter filhos, "porque elas envelhecem", e "põem em perigo a saúde", recordo-me da resposta de um célebre médico francês. Uma senhora lamentava-se de diversos sintomas de doença. O médico contentou-se em perguntar-lhe:

- Senhora, quantos filhos tem?
- Três, respondeu a senhora.
- Pois bem, replicou o médico. Quando tiver cinco, desaparecerão por si mesmas todas estas enfermidades.

Pois é verdadeiramente maravilhosa, a força que há nos braços de um pequenino filho. Como ele une cada vez mais, dia a dia, o coração dos seus pais. Como os adultos se tornam novamente crianças sorridentes, quando cuidam de um filho! Com que palavra de ternura a mãe sabe falar a seu filhinho! Com que precaução, e orgulho, o pai leva nos braços robustos o seu filho.

E como o semblante desses dois adultos desaparece toda a preocupação! Como seus olhares se tornam doces! Como o sorriso há tanto tempo talvez desaparecido, reaparece em seu rosto, quando olham o filho!

Tal é a força rejuvenescedora do filho, protegendo o enfraquecimento precoce, a aspereza, o tédio da existência! Nos lares, porém, onde não brilha o sorriso da criança, a velhice cedo aparece, a alma dos esposos sem filhos é mais vítima da arterioesclerose que seu corpo.

Mas objetará talvez alguma jovem, eu não quero diversos filhos porque me envelhecem prematuramente.
Pois bem, que responderemos nós?

Vistes já, com certeza, nestas belas tarde de maio uma árvore toda florida banhada pelo brilho radiante do sol que se põe? É a imagem da noiva de pé ante o antar no dia de seu casamento.

Sim, é bela a jovem árvore florida.

Mas é ainda mais bela quando desaparecido o sinal de sua beleza exterior, quando caídas as suas flores, aparecem em seu lugar os pequeninos botões. E a árvore se alteia apesar dos ventos e das tempestades, arrasta o calor e o frio, bebe incansavelmente as águas da chuva e os raios do sol, para que um dia, chegado o seu outono, o tronco possa apresentar seus ramos cobertos de frutos.

Se todas as jovens, que se inquietam pela sua beleza, refletissem: é bela a árvore ornada de flores na primavera, mas esta beleza não tem finalidade, e nem significação se não houver frutos...

Vamos terminar esta instrução. Queria reforçar os princípios e os enunciados apresentados uma outra idéia inteiramente nova, que até aqui eu deixei de lado, mas quero lembrá-la terminando...

Monstruoso câncer das idéias mundanas e frívolas. É uma expressão forte?

Pode-se, porém, empregar uma outra expressão, quando se lê em uma carta de pessoas casadas:

"Desde o início concordamos em não ter filhos. Sem filhos é se mais livre. Somos jovens e queremos aproveitar a vida. Mais tarde pode-se pensar em um filho".

Estará morta toda a consciência destes jovens?
Se eles ignoram a responsabilidade que tem diante de Deus não sentem ao menos a falta que cometem contra a Pátria? Pois a nação não é só a planície e a montanha, a fábrica, os caminhões de ferro; a nação é um grande número de homens fortes e moralizados.

"Mais tarde pode-se pensar em um filho!"
É horroroso imaginar o tesouro que este terrível modo de pensar arrebata à nossa nação!...

Escutai agora as advertências de nossa Igreja.

... Que quer a Igreja de Cristo? Nada quer senão que cada um fale com santo respeito da mãe de família que espera o nascimento de um filho, e sobre cuja fronte brilha um raio de coroa da Bem-aventurada Virgem de Belém.

Que quer a Igreja de Cristo? Que cada um levante a voz contra estes esposos que gostam de educar gatos e cães do que filhos. Que quer a Igreja de Cristo? que cada esposo e cada esposa ouça estas palavras de Nosso Senhor: "Aquele que receber em meu nome um desses pequeninos, é a mim que recebe" (Mt. 18,5).

Que quer enfim a Igreja de Cristo? Quer que realize, sempre mais para mãe, a promessa de São Paulo, assegurando-lhes que cada vez que dão ao mundo um novo filho adquiriram muito para a vida eterna. Ou então, como se exprime um provérbio húngaro:

"Tantos botões, em tua roseira, outras tantas pérolas para tua coroa".
Compreendestes? Ouvistes, mães de família?

Eis a conclusão de hoje:
Tantos botões em vossas roseiras, tantas pérolas para vossas coroas! Amém.

(Excertos do livro: Casamento e família - Dom Tihamér Tóth)

* Houve um acréscimo no texto, onde o autor faz uma pequena divagação sobre os esposos não agraciados com filhos. (27/03/2010 - 20:43)
PS: grifos meus