segunda-feira, 29 de março de 2010

Maternidade

Maternidade

Dois aspectos da maternidade

A Maternidade humana tem dois aspectos: trazer ao mundo uma nova vida, o que pressupõe a cooperação de um pai; e trazer ao mundo uma nova personalidade ou seja um novo "eu", o que implica a cooperação de Deus...

A mãe, em ambos os desempenhos, como geradora de vida física, e como cooperadora de Deus, está trabalhando pela sua própria salvação. A maternidade, mesmo em seu aspecto puramente físico, tem uma propriedade salvadora, pois a Escritura afirma que a mulher encontrará sua salvação na geração da prole (Timóteo 2,15).

A mãe é também glorificada em seus filhos, que espelham pelas suas vidas afora a graça de Deus que através dela lhes foi concedida. São os filhos que tornam as mães famosas; ao deparar com um filho digno, havará sempre quem exclame, como fez, entre a multidão, a mulher que gritou para Cristo: "Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos a que foste amamentado" (Lucas 11,37(.

A mãe é duplamente benfeitora da humanidade: preserva-lhe a vida física e defende-lhe a vida moral.

Por meio da vida, e das altas qualidades dos filhos que gerou, ela é um desafio constante que o universo apresenta à morte...é depositária das realidades eternas. É bem possível, hoje em dia, que as mulheres que têm tanto horror a ter filhos vejam apenas a maternidade no seu primeiro aspecto de mera procriação, e não no seu segundo aspecto de cooperação com Deus, para maior difusão do Seu Reino e maior glória do Seu Corpo Místico.

A maternidade perde metade de sua beleza, quando considera o nascimento como um mero processo biológico e desconhece o ponto de vista teológico. Se o amor for apenas um entendimento entre marido e mulher, e não uma cooperação entre homem, mulher e Deus, - então ele perde grande parte de seu encanto.

Diz Santo Tomás: "É muito melhor e mais belo unir-se àquilo que é superior, do que preencher as falhas do que é inferior".

A mulher não é uma restauradora de ruínas; ela é, antes de mais nada, uma cooperadora de Deus. Anexando à sua cooperação com o homem, a sua cooperação com Deus, ela reafirma mais uma vez o segredo do casamento: são necessários três elementos ao amor: homem e mulher, como princípios geradores, e Deus, para insuflar a alma imortal.

Limitação da prole

A limitação da prole é uma decisão deliberada e consentida por parte dos esposos, a fim de negarem a Deus a possibilidade de criar um novo ser à sua imagem e semelhança. É a vontade humana opondo-se livremente à vontade divina, da mesma forma que certos sistemas agrícolas controlam propositadamente a produção da terra, a bem de um maior aproveitamento econômico. O non serviam de Lúcifer teve seu efeito catastrófico sobre a Criação, e principalmente sobre aqueles que dizem:

"Recuso-me a aceitar de Deus a Sua Santa Vontade, que é a multiplicação, pois Nosso Senhor, referindo-se aos dons inaproveitáveis, disse: Tire-se dele o talento".

A opinião médica mais corrente hoje em dia é atribuir as psicoses e neuroses femininas a essa fuga da maternidade. Uma mulher que tivesse uma árvore plantada em seu jardim, não iria todas as noites cortar com a tesoura cada pequenino galho que pudesse crescer sobre o telhado. Essa mulher sabe que o normal é que a árvore espalhe seus galhos ela também sabe que uma determinada limitação de galhos, ou seja, permitir que a árvore de um novo galho apenas cada cinco anos, seria prejudicial tanto às árvores como aos galhos.

Essa limitação acabaria por matar a árvore. Estatisticamente falando, é aliás o que acontece. De cada seis casos de divórcio, cinco são de casais que não tiveram filhos.

Maternidade: Heroísmo contínuo

... Em nossas vidas cristãs individuais, muito de nós cuidamos separadamente da alma e do corpo. Muitos dias são dedicados à melhoria de nosso físico: muito poucos minutos são reservados para os cuidados espirituais.

A maternidade é um lembrete de que as melhores vidas são aquelas em que o desenvolvimento físico e espiritual caminham simultaneamente, como acontece com uma mãe educando seu filho: ambos crescem juntos. Justamente por causa da alma, há um desenvolvimento físico a cada instante.

A mãe cristã é como Simeão, que tomou em seus braços, o Infante Divino, com seus quarenta dias de idade. Mas o verdadeiro aspecto da questão, não é que ele tenha sustentado a Criança, mas sim que a Criança o tenha sustentado.

Da mesma maneira a mãe verá que não só fisicamente ela carrega a criança, como também a criança, composta de corpo e alma inseparáveis, serve-lhe de sustentáculo. O novo ser que ela abriga em seu ventre, vem de Deus, da mesma forma que a graça vem à alma através de Deus. Essa verdade espiritual é inseparável do desenvolvimento físico da vida dentro do seio materno.

... Quando finalmente dá à luz, a mãe verdadeiramente cristã esforça-se para que o desenvolvimento físico e moral de seu filho caminhem simultaneamente, a fim de que a criança, sadia de corpo, seja continuamente vivificada por uma vida espiritual intensa, o que provará ao mundo que a santificação do corpo da alma é simultânea.

Os pensamentos elevados e dignos que tiver uma mãe grávida, afetarão beneficamente o filho de suas entranhas, da mesma maneira que os sustos e os choques lhe serão prejudiciais.

São tremendos os efeitos psicológicos que o amor produz sobre o próximo. A mãe que gera o filho por amor, consciente de estar obedecendo ao preceito divino e desincumbindo-o de uma missão sagrada, verificará em sua vida a veracidade das palavras de Nosso Senhor:

"Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e nós viremos a Ele, e faremos Nele morada" (João 14,23). E a seguir, a criança lhe servirá de suporte, o que é a última prova do amor de Deus pela mãe...

A mãe é como a terra na qual se desenvolvem as sementes da adolescência.
O Evangelho nos fala de quatro tipos de mães:

"E quando semeava, uma parte da semente caiu ao longo do caminho, e vieram as aves do céu e comeram-na. Outra parte, porém, caiu em lugar pedregoso, onde não havia muita terra; e logo nasceu, porque não tinha profundidade de terra. Mas, saindo o sol, queimou-se; e porque não tinha raiz, secou. Outra parte caiu entre os espinhos; e cresceram os espinhos e a sufocaram. Outra parte enfim, caiu em boa terra, e frutificou: uns grãos renderam cento por um outros sessenta, outros trinta. Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça" (Mt. 13,4-9)

Como depositária das sementes, a mãe se entrega completamente a Deus, dizendo como Maria: Ecce ancilla Domini. "Eis aqui a Serva do Senhor".

A terra apresenta uma submissão passiva às sementes, muito embora tenha que submeter-se ao sacrifício da escavação e do plantio. Ao passo que a submissão da mulher é inteiramente feita à base de sacrifício. Uma mulher tem muito maior capacidade de sacrifício do que o homem. O homem é capaz de heroísmo, em uma explosão momentânea e apaixonada de coragem.

Mas a mulher é heróica através dos anos, dos meses e às vezes até dos segundos da vida cotidiana, embora o caráter de repetição monótona de seus esforços possa dar-lhe a falsa aparência de banalidade. Não apenas seus dias, também suas noites, não apenas seu espírito, também seu corpo, participam do Calvário da Maternidade. Por conseguinte, a mulher tem melhor compreensão da redenção do que o homem, pois ela se acerca mais da morte, ao gerar a vida.

Na mãe estão reunidas as duas grandes leis espirituais, que em outras pessoas, são extrínsecas e separadas: o amor do próximo e o amor do sacrifício.

Todos os seres humanos, a não ser as mães, amam o próximo quando amam algo fora deles próprios. Mas o próximo para uma mulher grávida, está dentro dela própria e por ela deve ser amado. Geralmente se entende por sacrifício aquilo que se realiza fora da carne, mas o sacrifício da mãe é parte integrante de sua própria carne.

Não sendo um sacerdote, levando Deus aos homens e os homens a Deus. Leva Deus aos homens formando o corpo em cuja alma o Poder Divino já está presente. Conduz os homens a Deus pelo renascimento batismal, no qual ela oferece seu filho a Cristo. Reflexo terreno da maternidade de Maria, também a mãe pode ser glorificada com um Ave-Maria terreno!

Ave, Maria.
Ave, Mãe.

Cheia de graça!
Cheia de vida; um corpo, produto do amor do marido pela  mulher; uma alma, produto do amor de Deus.

O Senhor é convosco!
Deus está com as mães. "Aquilo que fizerdes a quem quer que seja, o estais fazendo a Mim".

Bendita sois entre as mulheres.
Toda mulher sofre um apelo à maternidade, seja física ou espiritual. Uma mulher será tanto mais feminina, quanto mais cristã ela for. Uma mulher será tanto mais esposa, quanto mais ela for mãe.

E bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.
E bendito é o fruto do teu ventre - João, Pedro, Maria, Ana. "Bendito seja aquele que vem em nome de Deus".

(Excertos do livro: O mistério do Amor - Arcebispo Fulton J.Sheen)

PS: Grifos meus.

Cultivai o santo recolhimento

Cultivai o santo recolhimento

Daí ao próximo as chamas de vosso coração delicado, mas deixai a este no Coração de Jesus, e nada tereis a recear, nada a temer.

Cultivai o santo recolhimento, isto é, vivei em sociedade de vida, de união e de amor com Deus, com Nosso Senhor. O santo recolhimento é a raiz da árvore, a vida das virtudes e até do amor divino: é a força da alma concentrada em Deus para daí irromper e expandir-se.

Que Nosso Senhor vos conceda essa Graça das graças.

Permanecei sempre no interior, vivei em vosso interior, possui-vos, virai-vos de fora para dentro, deixai este mundo; retirai-vos com Jesus em vosso coração, onde Ele vos move a alma, falai-Lhe a linguagem interior que só o amor entende e compreende.

Entretei uma doce e habitual conversação em vosso interior e não o percais de vista, se quiserdes conformar-vos àquele que dizia: "Jesus é minha alegria e felicidade!" Lembrai-vos deste princípio de vida, de que só encontrareis felicidade no serviço de Deus na vida interior de oração e de Amor.

... Amai, por conseguinte, a solidão da alma. É o santuário de Deus, onde enuncia os seus oráculos de amor. Aí aprendereis em pouco tempo, e sem dificuldade, a conhecer a Deus em pouco tempo, e sem dificuldade, a conhecer a Deus em Sua Luz, e degustá-Lo na essência de Sua Bondade, a imitá-Lo em seu espírito de Amor. Em tal escola estamos sempre a recomeçar, porque estamos sempre a meditar numa verdade nova; penetramos mais adiante nas profundezas da Ciência e da Virtude de Deus.

Ah! Acreditai-me quando vos recomendo a oração de silêncio, de contemplação, de união a Nosso Senhor; é o único verdadeiro centro de vida.

... Numa palavra, colocai-vos em Deus e estareis em Vosso centro divino. Tudo o mais é lida penosa e difícil para a alma, que então trabalha demasiado; mas aqui é Deus que trabalha nela, é o orvalho celeste que a penetra com suavidade. É mister correr a Deus pelo caminho mais curto e estar sempre a redobrar as forças.

(Excertos do livro: A Divina Eucaristia - São Pedro Julião Eymard)

PS: Grifos meus

domingo, 28 de março de 2010

Asseio e arte - (Lar cristão)

Asseio e arte
(Lar cristão)


Agradável pelo asseio e pela arte;
quente e acolhedor pelo teu devotamento;
confortável pela ordem e trabalho -
farás de teu lar uma -
atração e uma saudade.

Não se discute que a falta de asseio desacredita uma dona de casa. Que se refira esse desasseio à casa ou à pessoa de sua dona, é a mesma coisa.

A beleza e asseio de uma casa influem sobre a moral do homem por causa de certa força secreta. Numa casa bem asseada, ordenada, inundada de luz, exercita-se a vigilância, a linguagem e os pensamentos são mais cultos, o caráter é mais alegre.

O contrário se dá em caso de desasseio. É funesta a influência que sobre a família exercem a sujeira e a desordem de uma casa. As idéias, os sentimentos, os costumes ficam num nível baixo.

Por isso, leitora, teu princípio rezará: asseio, custe o que custar. Não temas a luta com o marido e com os filhos para obrigá-los a amar e praticar o asseio. Roupas, sapatos, móveis, utensílios de cozinha, escadas, varandas, hall, jardim, quartos, salas - tudo terá o brilho da limpeza.

O cansaço imposto para manteres o asseio, em tudo e em todos, é um cansaço por Deus. É um mérito que adquires como educadora. Além disso, esse trabalho te prenderá à casa, livrando-te do ciganismo das ruas e lojas.

Não basta o asseio que prende o marido na família, principalmente se ele é operário e passa o dia em lugares cheios de desordem e desasseio. Realizarás ainda aquilo que o verso canta:

Dentro, rendas, cristais, flores...
Em cada canto, a mão da mulher amada e bela
punha um riso de graça...!

Arte e bom gosto não reclamam luxo e despesas. Dependem apenas de um gosto formado e do cuidado em aproveitar os recursos que estão ao alcance mais ou menos de todos. Há palácios onde sobejam decorações e cortinas, mas de onde a arte ugiu. E há moradas, singelamente enfeitadas, que são um sorriso acolhedor.

Em todo homem, mesmo na criança ... existe certo amor ao belo. É um amor utilíssimo, porque inspira o progresso e a perfeição. É igualmente nobre, porque engrandece o homem, espiritualiza-lhe os pensamentos e sentimentos...

O talento artístico é poderoso recurso para encantar o marido. Um lar sem arte, sem culto ao belo, é ensombrado demais, com ares de prisão. Imagine-se a leitora uma sala cujas paredes e janelas nada representassem, quebrando a monotonia das linhas! Nem um quadro, nem uma cortina! Sobre a mesa, sobre a escrivaninha, nada! Nem um vaso dentro do qual fanasse uma flor!

Digamos logo que semelhante nudez interior não é conseqüência forçada de pobreza material. Pois até os pobres podem ter lá um ou outro quadro, herdado dos antepassados. Tudo isso é antes uma pobreza moral.

Mostra espíritos muito materializados, ou é o castigo do vício que corrompe as inteligências e embota os corações. Tira à primeira as intuições e ao segundo as emoções artísticas.

Portanto, leitora, ama e cultiva a arte de enfeitar, de colocar um quadro, uma cortina, uma flor. Se podes, ama a música e o canto. Há um rádio em tua casa? Não o ligues para as modinhas e sambas, cuja trivialidade musical só é vencida pelo duvidoso ou escandaloso sentido de seus textos.

Ama a arte e saber fazer-lhe uma critica amável - eis aí teu dever! Crítica amável: porque não deves reprovar sem mais nem menos as preferências do marido, a estátua e o quadro, o compositor e o poeta que ele escolhe.

Triste coisa é ver-se numa família católica alguma pintura imoral. Sobre o piano a estatueta nua e berrante provocação de pensamentos impuros. Isso nunca admitirás, leitora! Mesmo que seja preciso armar uma briguinha com o marido! Tanto as visitas como os filhos se escandalizarão no caso.

Neste ponto muitas donas de casa são bem pouco escrupulosas. Faço votos que estas linhas lhes queimem a alma com vivo remorso.

O verdadeiro belo coincide sempre com o verdadeiro bom. O que não pode ser bom para a pureza da alma, não é, por conseguinte, verdadeiramente belo.

Enorme, inegavelmente, é a influência do belo na formação das crianças. Sob as irradiações do bom gosto artístico gravam-se na alma infantil recordações que não morrem. Isso para o futuro. E agora, no presente, vivem as crianças gostando da casa, para ela voltando alegremente.

Gravuras e decorações apreciadas na infância dificilmente se apagam na memória do adulto. Boas ou más, ficaram e ficam registradas. Lembro-me ainda da profunda impressão causada em minha alma de menino por uma quadro religioso, no qual se mostrava o contraste entre a morte do justo e a do pecador. Estou vendo ainda as quatro pinturas, da sala de visita, olhando-me com um quê de elegância e fineza. Sei que, ao vê-las, parava de falar e pisava mansinho.

Não é, por conseguinte, pequena a responsabilidade de uma dona de casa, na escolha das suas "preferências artísticas". Preferível lhe seja deixar sem nada uma parede, do que "estragá-la" com algum quadro de mau gosto artístico. Antes faltar alguma coisa sobre a mesa, do que faltar a pureza na alma dos filhos, por causa de estátuas imorais.

Agradável pelo asseio e pela arte; quente e acolhedor pelo teu devotamento; confortável pela ordem e trabalho - farás de teu lar uma - atração e uma saudade.

Será ele amável moldura para tua fisionomia, recordada com amor pelo marido e pelos filhos. Se o deixares pela morte, todos sentirão que és insubstituível.

(Excertos do livro: As três chamas do lar - Pe. Geraldo Pires de Souza)

PS: Grifos meus

São Paulo da Cruz - Nosso novo padroeiro

São Paulo da Cruz
Nosso novo padroeiro


A Paixão de Jesus o transforma

Supera de muito as nossas débeis forças o que nos resta dizer a respeito de São Paulo da Cruz. Para cantar as maravilhas que iremos referir neste capitulo, fora necessário a lira do Anjo e o coração do Serafim. Balbuciaremos apenas algumas palavras.

Ó Jesus Crucificado, que de portentos não operais com vossos santos! Paulo foi sempre serafim de amor. Com o transcorrer dos anos essas labaredas cresceram tanto, a ponto de transformar-se em verdadeiro incêndio. Ao meditar os padecimentos do Redentor, abismava-se o santo naquele oceano sem praias nem fundo.

Flexas de amor transpassavam-lhe o coração e ele chorava copiosamente. Os colóquios com Jesus Crucificado comoveriam corações de pedra. Ouçamo-lo:

Ó meu amado Redentor, que se passava no vosso Coração divino durante a flagelação?!
- Ou: “Oh! que aflição, que agonia vos causavam os nossos pecados, as minhas ingratidões!... Por que não morro também por vós? ” .

Chamava-o de “ Meu Soberano Bem, O Celeste Esposo de minha alma..."”

Em suma, a dor e o amor encontravam expressões que, para traduzi-las, fora mister dar às palavras asas de fogo. E das expressões nasciam os desejos: sofrer e morrer pelo Amor Crucificado. Essas aspirações levavam-no aos delíquios da embriaguez espiritual e do êxtase.

Ao refletir:

Um Deus açoitado!... um Deus crucificado!... um Deus morto por meu amor!... ” , quedavam-se-lhe todas as potências da alma; o espírito já não formulava nenhum pensamento; somente o coração se absorvia no silêncio interior, suprema expressão da caridade.

Jesus, então, o atraía, comunicava-lhe de maneira inefável as próprias dores, fazia-o desfalecer de altíssima suavidade, submergindo-o no âmago do seu divino Coração. Duravam pouco essas operações da graça: os frutos, porém, como sejam, amor mais ardente a Jesus Crucificado e fome insaciável de padecer, perduravam por largo tempo.

Nas desolações espirituais, não pedia lenitivo: ao contrário, temia privar-se desses ricos tesouros. O frio, o calor, a fome, a sede, todos os incômodos físico. Eram-lhe doces refrigérios. Suportava-os com imensa alegria, chamando-os

Penhores do amor divino, pedras preciosas para o seu coração ” .

... Certo dia, com Jesus Eucarístico no coração, foi arrebatado em sublime êxtase. Abismado no Soberano Bem, prelibou por instantes os inefáveis encantos do amor e, associado à Humanidade do Verbo, teve sensível conhecimento da Divindade...

Compreendeu, além do mais, ser Jesus Crucificado a porta soberana do amor, a transformação da alma em Deus e o aniquilamento no Infinito.

Por esta porta é que devemos entrar, - diz santa Teresa - se quisermos que a divina Majestade nos revele grandes segredos ” (Autobiografia da santa, cap. XXVII). Intuíu outrossim como a alma, do puro amor de Deus, desce novamente, se assim nos podemos exprimir, a Jesus Crucificado. Penetrou tanto este segredo, chegando a enunciá-lo com linguagem divina:

A alma abismada toda no puro amor, sem imagens, em fé pura e simples, permitindo-o Deus, vê-se de repente submersa no das dores do Salvador e, num só relance da fé, contempla-os todos sem operação do entendimento, por ser a Paixão de Jesus Cristo obra exclusiva do amor. A alma perdida por completo em Deus, que é caridade, que é amor, transforma-se num inefável amálgama de amor e de dor. O espirito penetra-se de ambos esses sentimentos, vendo-se submerso no amor doloroso e na dor amorosa... ”

As chamas de amor reverberavam-se-lhe no rosto, no corpo tudo, chamuscando-lhe a túnica na parte que tocava o coração. Se tais eram as chamas desse amor, qual lhe não seria a impetuosidade?

Sentia contínuas e dolorosas palpitações de coração, sobretudo às sextas-feiras: indizível martírio que o fazia prorromper em furtivas lágrimas e gemidos, sempre solícito em ocultar os dons celestesO coração, pelas violentas palpitações, não se conteve nos estreitos limites do peito, dilatando duas costelas; fenômeno que não se pode explicar naturalmente, na opinião do sábio médico Del Bene, que o observara no retiro de Vetralla, quando tratou o nosso santo.

Aliás, outras testemunhas do fato prodigioso atestaram-no com juramento no processo de Canonização. Paulo sempre passou a noite de quinta para sexta-feira santa de joelhos, imóvel, ante o ss. Sacramento exposto, a meditar os padecimentos e a morte ignominiosa do Salvador. Numa dessas noites, enquanto desabafava o amor em torrente de lágrimas, Jesus gravou-lhe no coração o EMBLEMA sagrado, semelhante ao que trazia sobre o peito, com os instrumentos da Paixão e as dores de Maria. A partir desse momento, intumesceu-se-lhe o peito, dilatando extraordinariamente a cavidade que encerra o coração.

Afirma o dr. Giuliani com juramento que não só viu, mas tocou as três costelas prodigiosamente arcadas, não tenda a menor dúvida da sobrenaturalidade do fato.

(Excertos do livro - A vida de São Paulo da Cruz - Pe. Luis Teresa de Jesus Agonizante)

PS: Grifos nossos

Domingo de Ramos - Glória, laus.

Domingo de Ramos

Israël es tu Rex,
Davídis et ínclyta proles:
Nómine qui in Dómini, Rex benedícte, venis.
Glória, laus.


Vós sois o Rei de Israel,
ilustre descendente de David,
Rei bendito, que vindes em nome do Senhor.
Glória, louvor.

Quando a multidão, ao chegar ao cume do monte descobriu as brancas muralhas da cidade santa com os seus palácios magníficos e o seu vasto templo rodeado de muros de defesa, lançou aos ecos todos do vale os seus gritos de fé e amor: "Hosana! Hosana no mais alto dos Céus! Glória ao Filho de David! Bendito seja o que vem em nome do Senhor, para levantar o reino de David nosso pai!"

Não se podia reconhecer mais formalmente o Messias prometido a Abraão e cantado pelos profetas. E por isso os fariseus invejosos, que se tinham infiltrado no cortejo, exprobravam a Jesus os gritos, a seu ver sediciosos, dos seus partidários. Aquela ovação, feita ao seu inimigo, taxavam-na eles de provocação à revolta contra César. "Mestre, nós vos intimamos, diziam eles, com um despeito que não podiam dissimular, mandai já calar os vossos discípulos! - É inútil, respondeu o Salvador; porque, neste momento, se eles calassem, as próprias pedras clamariam."

Naquela hora, por Deus escolhida para glorificar o Seu Filho em nome da nação judaica, ninguém podia obstar aquela pública manifestação de Sua realeza.

Ai dos que, naquele dia soleme, recusaram abrir os olhos à luz, e blasfemaram contra o Salvador, em vez de cantar com o povo um hino á Sua glória! Do cimo do monte das Oliveiras, pousou Jesus, por um momento a vista sobre aquela Jesuralém que desde há tanto tempo vinha desprezando obstinadamente a graça da salvação, e chorou.

"Ó Jerusalém, exclamou Ele, se quisesses abrir os olhos e reconhecer Aquele, que só, e mais ninguém, te pode dar a paz! Porém não: estás ferida duma cegueira que te há de causar a ruína. Eis vem o dia, em que teus inimigos te rodearão de trincheiras e te encerrarão e apertarão por todas as partes. Eles te destruirão, e esmagarão contra o solo os filhos que encontrarem em teu seio; e de Jerusalém não ficará pedra sobre pedra, porque não conhecestes o tempo em que o Senhor te visitou."

Alguns momentos depois, entrava Jesus na cidade seguido da imensa multidão dos seus discípulos. E toda a população Lhe saiu ao encontro numa agitação profunda. Os estrangeiros perguntavam aos que encontravam: "Que homem é este, e porque tantas aclamações? - É o profeta de Nazaré, respondia-lhes a gente; este foi quem ressuscitou a Lázaro." É o "hosana ao Filho de David" ia ecoando de grupo em grupo, através de toda a cidade.

Quanto os fariseus, mais que nunca exasperados, diziam uns para os outros: "Já vedes que não aproveitamos nada: nós condenamo-lo e eis que toda a gente corre em seu seguimento."

Os discípulos acompanharam Jesus até ao templo; mas Ele só lá se demorou um momento; contudo foi o suficiente para ver que a casa de Deus voltara a ser uma feira pública, tal como de antes. Aproximama-se a noite; e Ele saiu com a deliberação de no dia seguinte por cobro àquelas profanações; depois, tendo despedido as turbas, voltou para o monte das Oliveiras, onde pernoitou, orando a Seu Pai.

(Excertos do livro: Jesus Cristo, Sua vida, Sua paixão, Seu triunfo - R. Pe. Berthe)

PS: Grifos meus

sábado, 27 de março de 2010

A IRA - Um dos sete gatos-pingados do caráter

A IRA
Um dos sete gatos-pingados do caráter


A ira é o violento desejo de castigar os outros. Não falamos aqui da justa ira, que foi, por exemplo, a de Nosso Senhor, quando do Templo expulsou compradores e vendilhões, mas da ira que se manifesta pela exaltação, pelo ódio, pelos acessos de furor, pela vingança, pelos gestos de ameaça.

Aos olhos do egotista, a ira mais não é do que o desejo de pagar a outrem na mesma moeda.

Na imprensa e na tribuna, a ira é chamada "justa indignação". Com esse qualificativo, nem por isso deixa de ser o defeito mercê do qual os espíritos perdem o sentimento da justa medida, o gosto da calúnia, e de atiçar discórdias.

A ira é habitual nas más consciências. Acusado de roubo, oculpado indigna-se com muita mais violência do que o inocente; a esposa infiel enfurece-se no caso de a sua falta ser descoberta; as donas de casa ciumentas e rancorosas "aliviam-se", "descarregando" sobre os criados.

Os egotistas dessa espécie repelem com truculência todos aqueles que lhes desagradam, e maldosamente caluniam aqueles cuja virtude os condena.

A ira comporta vários graus. No primeiro desses graus, manifesta-se através de uma irritabilidade e impaciência exageradas, em presença da mais pequena contrariedade. Se o café não está quente ao pequeno almoço, se o jornal chegou atrasado, logo o ego faz barulho e resmunga.

No segundo grau, a ira ganha aspectos de tempestuosa: a pessoa gesticula, ferve-lhe o sangue nas veias, ruboriza-se, os objetos voam à sua frente, - o que tudo prova que o ego não admite qualquer contrariedade na satisfação dos seus desejos.

A ira atinge o seu terceiro grau quando passa a vias de fato, quando o ódio procura "desforrar-se", quer causando prejuízo a outrem, quer, mesmo, desejando-lhe a ... morte! Muitas são as pessoas que, antes do despertar súbito do ego, ignoram as diabólicas reservas de cólera que nelas existem, latentes.

A ira prejudica o desenvolvimento da personalidade e susta todo o progresso espiritual, não só por perturbar o equilíbrio mental e falsear a capacidade de julgar, mas também por se colocar ante os direitos doutrem, e ainda por destruir o espírito de recolhimento, indispensável para podermos seguir as inspirações da graça.

A ira relaciona-se invariavelmente com alguma decepção do ego. É mal muito difícil de curar, por ter suas raízes no amor-próprio, sua verdadeira causa, ainda que poucas pessoas queiram convir nesta explicação. Um desastre corporal ser-nos-ia, em muitos casos, menos penoso do que a humilhação resultante de termos que confessar que o nosso amor-próprio é a causa dos nossos acessos e... excessos de ira.

(Excertos do livro: Elevai os vossos corações - Arcebispo Fulton F.Sheen)

PS: Grifos meus
Ver também:

Família numerosa

Conferência XIV - Dom Tihamér Tóth
Família numerosa


"Tantos botões em vossas roseiras, tantas pérolas para vossas coroas!"

... A Igreja de Cristo, com grande coragem, levantou a voz em favor do filho; hoje ainda, ela exige a inviolabilidade dos direitos do filho que ainda não nasceu; mas não se esquece dos sacrifícios imensos que custam aos pais a existência e a educação de vários filhos.

É justamente porque a nossa santa Religião sabe bem o que significa, em nossos dias, educar uma família de cinco ou seis filhos, que ela rodeia de grande respeito os pais heróicos que fazem a Deus este sacrifício, mas ela nunca pode permitir que se tenha o direito de agir de modo contrário ás leis divinas, e que se tenha o direito de impedir a vinda do filho por meio de intervenções criminosas.

Agora examinemos mais de perto as dificuldades invocadas por certos esposos para afastar o filho. Elas não são insolúveis para as almas generosas e realmente cristãs, de modo que o homem não contrarie as leis de Deus.

*Antes porém de examinar sucessivamente às objeções formuladas contra a presença do filho, quereria fazer uma advertência preliminar.

Quando a religião faz um juízo muito severo contra os esposos que tornam estéril sua vida conjugal por meio culpáveis, ela não repreende, em momento algum, os esposos que não cometeram falta alguma neste ponto e que aceitariam, com bastante alegria, os filhos, mas aos quais Deus privou desta alegria. Ela estaria longe de repreendê-los por um estado de coisas do qual não são responsáveis.

Pois há bastante tristeza em sua alma; eles sentem bem que lhes falta alguma coisa de essencial para a sua felicidade.

Não os repreendo, quero antes inspirar-lhes alguns pensamentos consoladores, e indicar-lhes até um meio de aproveitarem esta situação.

- O traço essencial da alma cristã é a convicção de que tudo o que Deus faz ou tudo o que Ele permite, Ele o faz ou permite segundo um plano. Se Ele não dá filhos a estes esposos, apesar de suas fervorosas orações, é que há nisto uma intenção particular.

Qual a intenção? Talvez a de lhe fazer consagrar mais suas forças a alguma grande causa religiosa, ou ao bem comum, ou ao serviço desinteressado do próximo. Ou talvez Deus o permita a fim de que haja pessoas sem filhos que cuidem de pequeninos órfãos ou de crianças pobres e infelizes. Quantas crianças na miséria sobre a terra! Assim houvesse muita gente para ajudá-los...

Tudo isto, porém, não é senão uma digressão; deste assunto não falaremos mais nesta palestra.*

Por que não querem filhos?

Qual é esta palavra de ordem? Quais os pretextos invocados, muitas vezes, por esposos receosos de filhos? Olhemo-los frente a frente.

Razões financeiras

A objeção mais freqüente é a situação econômica difícil.

"Amamos os filhos, mas não temos com que sustentá-los. Um filho é o suficiente, não podemos ter mais". Quantas vezes não se ouvem estas frases, embora sob formas diversas.

Mas se observarmos mais de perto os que assim se lamentam, e como vivem os que não podem ter filhos, chegaremos certamente a uma constatação muito curiosa. É que na maior parte dos casos a causa do receio de ter filhos não é a miséria, mas, pelo contrário, é o bem-estar. Por incrível que pareça, no entanto, é assim.

Examinemos a história desta doença: Donde vem essa epidemia que arruína a vida da família. Foi entre as famílias dos operários ou camponeses que começou esta moda de não ter senão um filho, ou mesmo nenhum? Começou ela entre as famílias que, pela sua pobreza, tinham o direito de temer não possuir bastante pão para tantas bocas esfomeadas?

Certamente, não. Inegável que esta doença mortal para os povos apareceu em primeiro lugar entre as famílias abastadas, onde haveria pão suficiente a até bolo para os cinco ou seis filhos, entre as famílias onde a sede de prazeres e a licença dos esposos preferiram as comodidades e tranquilidade de uma existência sem filhos. Isto é infelizmente um fato inegável.

Não olhamos, contudo, só o passado; mas também o presente. Que vemos atualmente? Em geral esta objeção não é formulada por aqueles que ganhando pouco têm uma casa com um quarto e uma cozinha e vários filhos; mas, ao contrário, pretextam dificuldades econômicas os que, em um apartamento coberto de tapetes e ornado de quadros célebres, não têm senão um filho, mas possuem além disso uma empregada para tudo, uma cozinheira, uma governanta inglesa, dois ou três pequeninos cães bem ensinados e revestidos de belos casacos.

"Nossos meios não nos permitem mais filhos", dizem esses pais. São eles suficientes para os concertos e bailes, para as viagens e vesperais, para as temporadas na praia e modas, para os jantares e partidas de cartas, para os autos e cães. Mas não para os filhos.

Sinto que digo neste momento coisas amargas, mas olhai ao redor de vós. A maior parte das famílias não têm mais filhos, precisamente porque fazem mais despesas e vivem mais luxuosamente do que lhes permite a situação. O receio de ter filhos é mais forte, não aí onde se vive melhor mas sim onde os pais, indiferentes quanto à religião, não vêem no grande número de filhos, senão um encargo que reduziria sua liberdade e tornaria impossível o seu luxo.

Os esposos religiosos não deveriam pensar assim. Para os pais religiosos é sempre uma alegria, quando um filho nasce na família: uma alegria porque se recordam da maravilhosa promessa feita outrora por Nosso Senhor Jesus Cristo, e cuja melodia ressoa incessantemente a seus ouvidos, a cada hora difícil, a cada noite de insônia, a cada minuto de sacrifício: "Aquele que receber em meu nome um desses pequeninos, é a mim que recebe" (Mt. 18,5).

Existem para os pais promessas mais consoladoras e mais confortantes que a vinda de Nosso Senhor, cada vez que um novo filho nasce na família?

Não temais, pois, se tiverdes mais filhos. Não temais ficar por isso mais apertados. Porque o coração dos pais é como lareira ardente: quanto mais combustível aí se põe, mais ele arde. O coração daqueles que não tem filhos é frio. O primeiro filho acende a primeira chama e amor dos pais; cada novo filho aumenta-a, e mais anima.

Falando, porém, assim, parece-me ver entre este ou aquele dentre os que me ouvem (lêem) dizer:
"Vou escrever ao pregador, É fácil dizer do latar, da cátedra, porque ele não conhece a vida".

Não me escrevais, não. Eu a conheço. Sei mesmo que há realmente, por causa das miseráveis condições materiais de hoje, famílias que receiam com razão a vinda de um novo filho, porque não poderiam sustentá-lo.

Que lhes diremos nós? Que lhe diremos, quando em sua amargura, eles não sabem mais quase o que dizem?

O ponto de vista católico é duro e severo, dizem eles. Já não há tanta miséria na terra? Já não falta o pão aqueles que vicem? E eis o Cristianismo a proclamar que é um pecado defender-se contra os filhos. A Igreja não tem coração e nem indulgência!

Apresentai esta acusação em toda a severidade, para que vejais que a Igreja sabe de tudo isto. Como não teria ela compaixão de todos aqueles que, em o merecerem, estão na miséria? Como não haveria ela de saber que, infelizmente, famílias realmente religiosas, por causa dessas dificuldades, ficam em uma terrível alternativa?

Para evitar mal entendidos, declaremos claramente que a Igreja nunca teve a idéia de que os pais pudessem pôr no mundo sempre mais filhos, irresponsavelmente. Nada disto. Há famílias que podem educar, convenientemente, os dez filhos, há outras que não podem educar mais que um ou dois. A Igreja o vê bem, ela só não o permite que a limitação de números de filhos se realiza por intervenções culpáveis, manchando o santuário da família.

Quando por sérias razões a família não pode mais aceitar filhos, é preciso para que ela não os aceite mais, recorrer à castidade conjugal, e não a meios criminosos.

O homem moderno gosta de ouvir falar de tudo, menos de uma coisa: Não quer ouvir falar do domínio de si. O homem que aprendeu dominar as suas forças mais selvagens do mundo material, esqueceu de aprender a dominar a si mesmo, esqueceu e, se for preciso, negará que todas as grandes obras do passado, no terreno da civilização material ou da intelectual, são o fruto de renúncia.

Mas, enquanto que a santa Igreja exige sem reserva a pureza moral da vida do casado, ela não cessa de exigir também para as famílias condições que tornem possível a observação da castidade conjugal, pois se conhecemos que para muitas famílias na realidade é difícil observar as leis divinas por causa da situação econômica atual, não se segue que tenham agora o direito de mudar a lei de Deus; pelo contrário, é preciso transformar a situação econômica.

A lei divina é eterna e os homens não tem o direito de tocá-la. Mas as leis econômicas não são eternas. Elas dependem das transformações a que estão sujeitas as instituições da vida atual. Se o sol e o meu relógio não se combinam, eu não posso tocar no sol, mas somente no relógio.

Quem não vê a grandeza da tarefa que incumbe neste ponto à legislação? Com efeito, há hoje ainda homens que não têm família para sustentar, mas dissipam em uma só noite somas que bastariam para alimentar, durante a semana, várias famílias numerosas.

Enquanto a Igreja corajosamente levanta a voz em favor dos filhos, e assim defende com eficácia o interesse da nação, a legislação civil não tem o direito de olhar, com indiferença, a luta difícil em que ela se empenha em favor da criança, mas deve, por inúmeras medidas legais, por intervenções do domínio educativo, impostos fiscais, por abonos e outros meios materiais, favorecer as famílias numerosas.

Razões de saúde

Ao lado das preocupações materiais tem-se o costume de invocar razões de saúde para recusar ter novos filhos, "os filhos fazem envelhecer... tiram a força das mães... podem até custar-lhes a vida...!" Tais são os temores de alguns.

Cada vez, porém, que ouço falar dessas apreensões, cada vez que ouço falar de jovens que receiam ter filhos, "porque elas envelhecem", e "põem em perigo a saúde", recordo-me da resposta de um célebre médico francês. Uma senhora lamentava-se de diversos sintomas de doença. O médico contentou-se em perguntar-lhe:

- Senhora, quantos filhos tem?
- Três, respondeu a senhora.
- Pois bem, replicou o médico. Quando tiver cinco, desaparecerão por si mesmas todas estas enfermidades.

Pois é verdadeiramente maravilhosa, a força que há nos braços de um pequenino filho. Como ele une cada vez mais, dia a dia, o coração dos seus pais. Como os adultos se tornam novamente crianças sorridentes, quando cuidam de um filho! Com que palavra de ternura a mãe sabe falar a seu filhinho! Com que precaução, e orgulho, o pai leva nos braços robustos o seu filho.

E como o semblante desses dois adultos desaparece toda a preocupação! Como seus olhares se tornam doces! Como o sorriso há tanto tempo talvez desaparecido, reaparece em seu rosto, quando olham o filho!

Tal é a força rejuvenescedora do filho, protegendo o enfraquecimento precoce, a aspereza, o tédio da existência! Nos lares, porém, onde não brilha o sorriso da criança, a velhice cedo aparece, a alma dos esposos sem filhos é mais vítima da arterioesclerose que seu corpo.

Mas objetará talvez alguma jovem, eu não quero diversos filhos porque me envelhecem prematuramente.
Pois bem, que responderemos nós?

Vistes já, com certeza, nestas belas tarde de maio uma árvore toda florida banhada pelo brilho radiante do sol que se põe? É a imagem da noiva de pé ante o antar no dia de seu casamento.

Sim, é bela a jovem árvore florida.

Mas é ainda mais bela quando desaparecido o sinal de sua beleza exterior, quando caídas as suas flores, aparecem em seu lugar os pequeninos botões. E a árvore se alteia apesar dos ventos e das tempestades, arrasta o calor e o frio, bebe incansavelmente as águas da chuva e os raios do sol, para que um dia, chegado o seu outono, o tronco possa apresentar seus ramos cobertos de frutos.

Se todas as jovens, que se inquietam pela sua beleza, refletissem: é bela a árvore ornada de flores na primavera, mas esta beleza não tem finalidade, e nem significação se não houver frutos...

Vamos terminar esta instrução. Queria reforçar os princípios e os enunciados apresentados uma outra idéia inteiramente nova, que até aqui eu deixei de lado, mas quero lembrá-la terminando...

Monstruoso câncer das idéias mundanas e frívolas. É uma expressão forte?

Pode-se, porém, empregar uma outra expressão, quando se lê em uma carta de pessoas casadas:

"Desde o início concordamos em não ter filhos. Sem filhos é se mais livre. Somos jovens e queremos aproveitar a vida. Mais tarde pode-se pensar em um filho".

Estará morta toda a consciência destes jovens?
Se eles ignoram a responsabilidade que tem diante de Deus não sentem ao menos a falta que cometem contra a Pátria? Pois a nação não é só a planície e a montanha, a fábrica, os caminhões de ferro; a nação é um grande número de homens fortes e moralizados.

"Mais tarde pode-se pensar em um filho!"
É horroroso imaginar o tesouro que este terrível modo de pensar arrebata à nossa nação!...

Escutai agora as advertências de nossa Igreja.

... Que quer a Igreja de Cristo? Nada quer senão que cada um fale com santo respeito da mãe de família que espera o nascimento de um filho, e sobre cuja fronte brilha um raio de coroa da Bem-aventurada Virgem de Belém.

Que quer a Igreja de Cristo? Que cada um levante a voz contra estes esposos que gostam de educar gatos e cães do que filhos. Que quer a Igreja de Cristo? que cada esposo e cada esposa ouça estas palavras de Nosso Senhor: "Aquele que receber em meu nome um desses pequeninos, é a mim que recebe" (Mt. 18,5).

Que quer enfim a Igreja de Cristo? Quer que realize, sempre mais para mãe, a promessa de São Paulo, assegurando-lhes que cada vez que dão ao mundo um novo filho adquiriram muito para a vida eterna. Ou então, como se exprime um provérbio húngaro:

"Tantos botões, em tua roseira, outras tantas pérolas para tua coroa".
Compreendestes? Ouvistes, mães de família?

Eis a conclusão de hoje:
Tantos botões em vossas roseiras, tantas pérolas para vossas coroas! Amém.

(Excertos do livro: Casamento e família - Dom Tihamér Tóth)

* Houve um acréscimo no texto, onde o autor faz uma pequena divagação sobre os esposos não agraciados com filhos. (27/03/2010 - 20:43)
PS: grifos meus

ESPECIAL: Discursos do Papa Pio XII

Papa Pio XII


Como nos primeiros séculos do Cristianismo, assim nos tempos modernos, nos países do mundo, onde a perseguição religiosa aqui e ali se enfurece, abertas e sutis, mas não menos duras, os mais humildes fiéis podem de um momento para outro encontrar-se diante da dramática necessidade de escolher entre a própria fé, que tem o dever de conservar intacta, e a liberdade, os meios para sustentar a vida, a própria vida.

Mas também nas épocas normais, nas vicissitudes e nas condições ordinárias da família cristã, sucede de vez em quando que as almas se encontrem bruscamente colocadas na alternativa de violar um imprescindível dever ou de expor-se a sacrifícios e riscos dolorosos e duros, na saúde nos bens, na posição familiar e social, colocadas portanto na necessidade de ser e demonstrar-se heróicas, se querem permanecer fiéis às suas obrigações e permanecer na graça de Deus.

Quando os nossos predecessores de veneranda memória e particularmente o Sumo Pontífice Pio XI na Carta Encíclica "Casti connubii", chamaram a atenção e recordaram as santas e inamovíveis leis da vida matrimonial, ponderavam e tinham perfeitamente consciência de que em não poucos casos, aos esposos cristãos pede-se um verdadeiro heroísmo para observar inviolavelmente as suas leis.

Trata-se de respeitar os fins do matrimônio desejados por Deus; ou de resistir aos incentivos ardentes e lisonjeiros das paixões e de solicitações, que a um coração inquieto insinuam que vá procurar fora o que, na legítima união não encontram ou crêem não ter encontrado tão plenamente como haviam esperado; ou que, para não quebrar ou diminuir o vínculo das almas, e do mútuo amor, sobrevenha a hora de saber perdoar, de esquecer um litígio, uma ofensa, um aborrecimento, talvez grave; atrás do véu da vida cotidiana!

Quantos heróicos sacrifícios escondidos!
Quantas angústias do espírito para conviver e manter-se cristãmente constante no próprio dever e no próprio cargo!

E esta mesma vida cotidiana, qual força de alma não pede muitas vezes: quando toda manhã se deve voltar aos mesmos trabalhos em sua monotonia; quando é melhor suportar com sorriso nos lábios, amavelmente, alegremente os defeitos recíprocos, os jamais vencidos contrastes, as pequenas divergências de gosto, de hábitos, de idéias, que a vida em comum traz, quando, em meio de mínimas dificuldades e incidentes, muitas vezes inevitáveis, não deve perturbar-se e diminuir a calma e o bom-humor; quando, em um encontro frio, é urgente saber calar, parar a tempo o lamento, mudar e adoçar a palavra que, lançada fora, daria desafogo aos nervos irritados, mas difundiria uma nuvem opaca na atmosfera das paredes domésticas!

Mil particulares ínfimos, mil fugazes momentos da vida cotidiana, cada qual deles é bem pouca coisa, é quase um nada, mas que a continuidade e o adicionar-se terminam tornando tão pesados, e pelos quais, entretanto, por uma tão considerável parte é entrelaçada e concatenada, no mútuo sofrimento, a paz e a alegria de um lar.

Não procureis em outros lugares a fonte de tais heroísmos.

Nas dificuldades da vida familiar, como em todas as circunstâncias da vida humana, o heroísmo tem sua raiz essencial no sentimento profundo e dominador do dever, daquele dever, com o qual não é possível transigir ou pactuar, que deve prevalecer em tudo e sobre todos; sentimento do dever, que para o cristão é consciência e reconhecimento do domínio soberano de Deus sobre nós, de Sua soberana autoridade, de Sua soberana bondade; sentimento que além de tudo nos faz compreender que a vontade divina é a voz de um infinito amor para conosco; sentimento, em uma palavra, não de um dever abstrato ou de uma lei prepotente e inexorável, hostil e esmagadora da liberdade humana, do dever e do agir, mas que corresponde e se inclina ás exigências de um amor, de uma amizade infinitamente generosa, transcendente e que rege as multiformes vicissitudes do nosso viver aqui embaixo.

(Discurso aos esposos - 2 de agosto de 1941 - Papa Pio XII)

PS: Grifos meus.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Correção das crianças - Parte final

Correção das crianças
Parte final


Saber corrigir

Além de conhecerem os filhos, devem os pais saber como agir, a fim de alcançarem os desejados efeitos. Não bastam boas intenções. A correção tem normas e técnicas. Sem isto, poderá ser contraproducente. Vejamos qual deve ser a boa correção.

1.º) Rara

O educador deve ver tudo, dissimular muito, corrigir quando necessário.

- Ver tudo, para conhecer bem a crianças, não se deixar surpreender, nem passar por tolo aos olhos das próprias crianças.

- Dissimular muito, porque muitas faltas não têm realmente importância, umas são próprias da idade e passam com ela, outras as próprias crianças notam e, quando estão sendo educadas, tratam de emendar por si.

- Corrigir quando necessário, porque a correção demasiada é prejudicial à educação. Quando muito freqüente, ela:

* perde o salutar efeito de inspirar desgosto à falta cometida, com o conseqüente desejo de emenda;
* enfraquece a autoridade do educador, ao invés de reforçá-la, como o faz, desde que seja rara;
* insensibiliza a criança, que já não acode às advertências, pela própria impossibilidade de fazê-lo;
* pode mesmo ser contraproducente, tornando-se irritante - e nas poucas recomendações que fez São Paulo sobre a educação dos filhos pediu que não os irritassem (Ef. 5,4).

Premidas por uma disciplina muito estreita, censuradas a cada instante, derivam as crianças para a falta de brio ou para uma situação emocional angustiante, que terminará levando-as ao consultório médico. É pena que muitos pais, precisamente entre os mais zelosos e bem intencionados, insistam, mesmo quando reconhecem que não adiantam suas intervenções, e que até pioram a situação.

Dir-se-ia que o fazem mais em satisfação à própria consciência (mal orientada) que para o bem do filho. Alguns até se aborrecem, quando lhes pdimos para não intervirem.

2.º) Justa

Há de corresponder a uma falta. O senso de justiça é geralmente muito vivo nas crianças, e elas repelem, magoadas, as correções injustas e as suportam, revoltadas, ainda que se trate de simples advertência. Se as repelem, mesmo que seja apenas interiormente, já elas não produzirão os procurados efeitos.

Quando, por si mesma, a criança percebe que errou e decide retificar-se, a interverção dos pais será apenas para apoiá-la e estimulá-la no seu propósito.

3.º) Amorosa

Como toda a educação, a correção é obra do amor. Quando reveste aspectos muito asperos, há de ser (e parecer) tão dolorosa a quem a aplica quanto a quem a recebe - como certos tratamentos médicos que somos obrigados a fazer das crianças, sabe Deus com que dores no coração. Em qualquer caso, ela revelará sempre o cumprimento de um dever, a preocupação de fazer bem, manifestação do amor. Para isto, ela será:

* calma: o educador, no perfeito domínio de si, moderado nas palavras, nos gestos e no olhar, para que não lhe saia obra de cólera o que só deve ser obra de amor, lembrando de que "só a razão tem o direito de corrigir", como disse Fenelon, e que quem se deixa levar pelas paixões está mais precisado de impor a correção a si do que aos outros;

* bondosa: não a imporemos jamais porque fomos nós desobedecidos, mas porque a criança a requer; não lhe daremos o aspecto de vingança ou desforra, mas de expiação da ordem violada; nunca por motivos nossos, mas pelos interesses da criança e pela manutenção da moral. Por isso, evitaremos as zombarias e humilhações, que mais servem para irritar e endurecer que para mover as crianças e sobretudo a mudarem de vida.

4.º) Profunda

Só é eficaz a correção que vai à raiz das faltas. Não basta ver que a criança furtou: é preciso ver por que furtou. Como não basta obrigá-la a restituir o objeto furtado: é preciso remover o móvel do furto. Diga-se o mesmo dos outros defeitos.

Há faltas isoladas, fruto de meras ocasiões, acidentais portanto: para essas bastam as correções superficiais. Mas há também as que correspondem tendências profundas: se não lhes formos à raiz, ficaremos a limpar permanentemente o terreno, na certeza de que novos frutos cairão na primeira oportunidade.

É possível que, à força de insistências, de extrema vigilância e até de castigos haja uma aparência de melhora: - a criança submeteu-se, mas não se corrigiu, porque a tendência não foi atingida e espera apenas o momento de manifestar-se de novo. Ou também acontece que, reprimida assim numa falta, ela se compensa noutra, às vezes pior do que a primeira...

5.º) Proporcionada

Tenhamos o máximo cuidado de fazer que a maneira de corrigir uma falta seja a que melhor permita ao educando ver as funestas conseqüências morais, naturais ou sociais do seu ato. Só assim lhe facilitaremos compreender o próprio erro e querer emendá-lo, formando-lhe o senso moral e a vontade de ser bom.

Para isto a correção deve ser proporcionada à idade, à pessoa, à falta.

* À idade - Nos pequeninos, na medida em que a vida dos sentidos prevalecer, haverá mais um adestramento, com afirmações simples e categóricas, que visam à formação de hábitos e à impregnação do subconsciente. É preciso atingir-lhes a sensibilidade, uma vez que não se lhes pode apelar ainda para a compreensão. Não lhes satisfazer os caprichos, não ceder a suas insistências e lágrimas, não lhe alimentar as más tendências que se manifestam (gula, teimosia, egoísmo, cólera). E procurar encaminhá-los, de modo positivo, por atos que facilitem hábitos bons.

Com o desenvolvimento da inteligência e da vontade, as preocupações vão passando paulatinamente por este terreno. Apela-se para a compreensão, a começar dos motivos mais simples, com tarefas que lhes vão dando o domínio consciente de si, que lhes toquem os gostos ou a liberdade, com ocupações úteis referentes ao que deviam ter feito ou que realizaram mal.

Se a educação tiver normal desenvolvimento, o adolescente já poderá ser chamado totalmente à razão, cabendo-nos apenas ajudá-lo no autogoverno, pois as paixões o seduzem com especial energia.

* À pessoa - Erro comum entre os pais é tratarem os filhos do mesmo modo. Em casos de fracasso, ouvimos com freqüência a queixa: "Eduquei todos do mesmo modo, e são tão diferentes..." Cada qual deve ser educado de acordo com suas características.

- Se duas filhas têm tipos físicos diversos - uma gorduchinha e baixa, outra magra e pernalta - não ocorrerá certamente à mãe vesti-las com o mesmo manequim, só por serem irmãs. Maiores são as diferenças de espírito e caráter, igualmente visíveis a olho nu. Tratá-las nos mesmos moldes não é tão ridículo, porém é muito prejudicial.

- Imaginem o médico que desse a todas as crianças de sua clínica a mesma receita, alegando que estão na mesma enfermaria, e ele deve tratar a todas do mesmo modo...

É pena que os erros pedagógicos não gritem com a mesma força. Uma errada noção de justiça leva certos educadores a tratarem do mesmo modo todos os educandos. Temem talvez a perda da parcialidade. Fogem às explicações que a diferença de tratamento exige. E prejudicam assim a formação das crianças, pois cada uma delas há de ser conduzidas ao mesmo fim mas por caminhos diferentes.

* À falta - As faltas são mais ou menos graves, conforme o preceito que violam e as circunstâncias em que foram cometidas. Quem mente por vaidade ou em defesa, e quem mente calculadamente para caluniar; quem tira a bola do colega, arrastado pelo desejo de ter uma bola, e quem quebra a boneca da irmã por inveja; quem deixa cair o relógio por decuido, e quem o joga no chão por desaforo... Têm todos uma falta a corrigir mas em graus muito diferentes.

Tanto mais grave a falta, tanto mais cuidadosa a correção. Não percamos de vista o sentido de expiação que ela tem, nem a preocupação de ir às causas, que há de animar o educador e o educando.

Ainda há pais que revelam as desonestidades dos filhos, mas os punem severamente porque quebraram um prato. É porque, infelizmente, muitos pensam mais em castigar que em corrigir. Outros não se importariam com a falta em si, mas se horrorizam com a mera possibilidade de chegar ao conhecimento dos vizinhos...

6.º) Contrária à falta

Cuide o preguiçoso de cumprir bem os deveres realizados sem protelação o seu trabalho de cada dia.

- A menina desarrumada será encarregada de arrumar a casa, tomando consciência do dever a cumprir e do cuidado de fazê-lo bem feito, para a íntima satisfação (e, nos cristãos, para a glória de Deus).
- O egoísta será orientado para a ajuda fraterna em todos os terrenos, principalmente naquele em que mais carecido se revela.
- O mentiroso, que impuser a si mesmo a humilhação de retificar-se, logo perderá o apetite mítico.
- Cura-se mais facilmente o agitado que treinar imobilidades e silêncios voluntários ou compreendidos.
- pede-se aos negligentes o trabalho bem feito, a caligrafia caprichada, etc.

Não julguemos, porém, sejam essas umas fórmulas mágicas que resolvam tudo, rapidamente e que, quando não resolverem, o caso é irremediável. Não há fórmulas mágicas em educação. As soluções rápidas são pedidas em geral pelos que "não têm tempo a perder com os filhos", e por isso perdem os filhos.

Finalmente, se a falta é apenas um sintoma, não é combatendo o sintoma que se cura um mal, mas indo-lhe à raiz - como há ficou acentuado. E se a raiz não for atingida, desesperam os educadores superficiais... e não se corrige a criança...

Joseph Durr ("L'Art des arts") tem a propósito uma página sem grande vôo, mas útil, por isso mesmo, ao educador comum. Ele aconselha que à criança gulosa ou preguiçosa se imponham exercícios físicos, trabalho regular e bem feito; à agitada de dê um regime firme, que lhe exija ordem e pontualidade: à trabalhadora e ambiciosa, inclinada a dominar, oferem-se ocasiões de moderação, doçura e paciência; à tímida ministrem-se como antídoto, exercícios físicos, trabalhos de jardinagem e mercearia, etc., cultivando-se-lhe a iniciativa e a confiança em si.

Como vemos, freqüentemente a criança nem sabe que está sendo corrigida... O remédio é levado insensivelmente à causa do mal. Em certos casos é mesmo necessário que as nossas intenções não apareçam.

7.º) Oportuna

"Há tempo de calar, e tempo de falar", lembra-nos a Bíblia (Ecle 3,7). Como a semente, que parte de nossa mão e se realiza no seio da terra, assim a correção é, o mais das vezes, de iniciativa nossa, mas se completa no educando, por obra sua. E como a semente não pode ser plantada em qualquer época, porque "há tempo de plantar, e tempo de colher" (ibd. v.2.), também a correção há de aguardar o momento oportuno. Só a propomos (ou impomos), na esperança de êxito. E este depende do acolhimento que só pode ser favorável, se as circunstâncias também o forem.

Na hora da zanga - a tendência é mais para repelir que para aceitar qualquer sugestão de emenda. Em presença de pessoas estranhas, de colegas e mesmo de irmãos, quando implica humilhação, também não será nem aceita. Espera-se que a tormenta passe, aborda-se o educando a sós, e, na calma de lado a lado, propõe-se a desejada medida.

As mães cristãs têm excelente oportunidade quando, depois da oração da noite, vão ver se os filhos estão bem acomodados no leito. Falando em voz mansa e amorosa, sentada à beira da cama, é muito difícil não ser a mãe bem acolhida.

Aguarde-se, pois, o momento oportuno.

Tratando-se de crianças pequenas, não convém protelar muito a correção. Elas esquecem facilmente que cometeram a falta, não estabelecem a necessária ligação entre o erro e a emenda, podem achar injustas as medidas impostas, e então o efeito será contrário.

Em fase desses perigos, podemos recorrer às práticas corretivas sem aludir aos fatos "esquecidos", alcançando os mesmos resultados, sem as contra-indicações.

Já o dissemos acima, mas uma repetição deste feitio faz sempre bem: exige-se o momento oportuno também para o educador, que só deve agir quando pode revelar, pelo domínio de si, que fala nele a razão, e não a paixão, que procura o bem da criança e não o desabafo da própria cólera.

8.º) Perseverante

Da parte da criança, vontade frágil porque ainda em formação, compreende-se que haja desfalecimentos, no constante recomeçar após as faltas. Da parte dos pais, não! Eles hão de querer sempre a correção dos filhos. Sempre - sincera e decididamente. Paciente, mas obstinadamente. Santa obstinação! Não desanimarão com as recaídas, não se abaterão com os insucessos, não se cansarão com as recomendações das mesmas práticas.

Não contarão com resultados fáceis, nem se acovardarão com as dificuldades. Sobretudo, não se resignarão aos defeitos dos filhos; mas lutarão para corrigi-los.

E não será uma luta episódica, descontínua, mas sistemática, branda e permanente. Não é temporal do verão, mas a chuvinha mipuda e teimosa, que o povo chama "chiadeira", porque umedece o solo em profundidade.

Aquele amor de mãe que não conhece canseiras nem vê sacrifícios, quando se trata da saúde dos filhos, não se há de mostrar menos dedicado e admirável nas restaurações morais.

O amor ensinará aos pais a serem bondosos até a ternura, mas decididos e persistentes, porque "quem perseverar até o fim é que será salvo" (Mt 10,22).

9.º) Firme

É por amor, o bem entendido amor, aquele que quer o bem, que a correção há de ser firme- não frágil nem indulgente, mas segura, decidida e forte.

Observa o grande pedagogo suíço Foerster ("Instrucion ética de la juventud") que a tendência para a condescendência, característica de nossos tempos, é própria de homens fracos, incapazes de suportar as conseqüências de seus atos, e que se justificam procurando evitá-las também nos outros. De fato, a fraqueza dos responsáveis por crianças e adolescentes gerou e multiplica a "juventude transviada" e a complacência dos responsáveis pela segurança social impulsiona a maré montante de imoralidades e crimes, que a falta de formação religiosa desencadeou.

Condenando os processos da força, sou, no entanto, pela educação forte. A tolerância com os defeitos da crianças leva-as muitas vezes ao crime. E a tolerância com os crimes multiplica os criminosos e agrava os delitos.

A indulgência, ao contrário do que pensam os superficiais, é prejudicial ao educando. Os que a defendem para a primeira falta, guardam a energia para as outras, tão certos estão de que elas virão. Quando mais lógico é ser firme logo que o mal aparece, para evitar que prossiga. "A cobra se mata na cabeça", diz a sabedoria popular. Um tratamento adequado na primeira falta evitará provavelmente a segunda. Isto está na lógica da correção e na psicologia do faltoso.

- Na lógica da correção, porque, ao menos quando se trata de lei moral violada, a expiação é exigência indeclinável. Em materia de Moral, ninguém pode ser tolerante, pois todos lhe estamos igualmente sujeitos.

- Na psicologia do educando, porque se ele associar à primeira falta uma reação desagradável, ficará inclinado a evitá-la; ao passo que, se nenhuma corrigenda lhe foi exigida, é provável que se sinta estimulado a prosseguir no erro.

- Podemos também confundir a criança: ela pensava ter feito realmente um ato mau, esperava reação dos pais, e estes nem ligaram... Então, o ato não é tão mau, pois ninguém ignora que as atitudes dos pais são para os filhos pequenos o critério do bem e do mal. E está aberto o caminho às reincidências...

Porque queremos a correção de todos - menores e adultos - é que reclamamos antes firmeza que indulgência. Esta é geralmente tomada como fraqueza, e nada impressiona tão negativamente as crianças e jovens como a autoridade fraca.

Lembremos finalmente que firmeza não significa rudeza, mas requer a compreensão da criança e a bondade de modos, também necessárias, como já ficou acentuado.

10.º) Curta

As correções muito longas são antes castigos. Na verdade, cansam as crianças, dão-lhes a impressão de injustiças, sendo repelidas - e não produzem efeito, ou o produzem contrário. Certas medidas são mais punitivas que educativas: - um mês sem sair de casa, uma semana tomando as refeições a sós, etc.

Pecam, sobretudo, por tirarem o estímulo à melhora. Se provocarmos desânimo em vez de coragem, não estaremos impulsionando a criança para a perfeição.

Para ajudar na formação de bons hábitos, mais valem medidas mais freqüentes, embora de curta duração. Não, porém, tão rápidas que não dêem para sentir o erro, e nem tão longas que façam esquecer a ligação com a falta, gerando irritação, que é contraproducente.

Cumprindo com facilidade o que lhe sugerimos, sem se cansar, mas até sentindo que era capaz de fazer mais, a criança aceitará com amor o trabalho de corrigir-se, estimulada a novas tarefas, quando necessário. Isto é vital para a correção.

11.º) Esquecida

Tanto mais a criança recai, tanto maior necessidade tem de ajuda. recai porque a tendência lhe é muito forte, ou a vontade ainda muito fraca. Não consegue andar sozinha: precisa de nossa mão. Se, estendendo-lhe a mão, a empurrarmos, ela cairá mais depressa; se a magoarmos, ela receará nossa ajuda; se a irritar-mos, ela nos fugirá. Tanto mais freqüentes as recaídas, tanto mais ela deve ser estimulada.

Ora, nada é tão desestimulante como lembrarmos as faltas cometidas, o número de vezes que propusemos emenda, e o pouco fruto colhido.

Cuidaremos de cada falta como se fosse a primeira. Se a criança multiplica as faltas ou retarda a emenda mais do que seria de esperar, tomaremos as necessárias medidas, sem contudo "amontoar brasas sobre a sua cabeça" (Prov 25,22).

Humilhada com as nossas alegações, ela virá talvez a concluir que não se corrige mesmo, que é inútil lutar, caindo no desânimo que dificultará, se não impossibilitar, o almejado fim.

Devendo acompanhar a vida moral da criança, o educador não lhe pode esquecer as faltas nem os esforços para corrigir-se, mas não lhe dará a entender que guarda essas lembranças, não lhe  falará do passado, dando a impressão de que o que passou está esquecido.

E agirá em função desse "esquecimento", a menos que o passado se ligue diretamente com o problema do momento.

Muito se aborrecem os educandos com a recapitulação de suas faltas, feita cada vez que vão ser corrigidos. É natural: sentem-se envergonhadas. Os que julgam contribuir assim para emendá-los esquecem a força pedagógica do otimismo. E não pesam quando diminui com isso a confiança das crianças. E quando a confiança dimunui, aumentam as dificuldades da educação. Bem haja o educador que sabe manter a confiança das crianças tanto nele quanto em si mesmas.



12.º) Cristã

É uma só, mas é infinita a diferença entre o pagão e o cristão: - este é batizado. Assim é também a educação. A cristã faz tudo o que faz a leiga, e contam além disso, com a graça de Deus. A leiga se vale de todos os meios naturais e leva a criança até onde lhe permite a força humana; a cristã continua a subida, amparada nos meios que Cristo ensinou e instituiu para elevar o homem acima de si mesmo e conduzi-lo à perfeição. A educação cristã não contradita a leiga, mas a ultrapassa.

A correção cristã contém elementos que a leiga ignora... quando queremos ensinar a virtude - a mortificação, a paciência, a justiça, a prudência, a fortaleza, a ajuda fraterna, o respeito à lei e às autoridades, a pureza, a dedicação filial - lá está  o Cristo, vivo, integral, perfeito.

E não é para nós apenas um exemplo: é a força que nos ajuda, é  o estímulo da recompensa que não faltará, é o Senhor onipotente que nos pode alimentar no deserto (Mt 14,15-20), salvar do naufrágio (Mt 8,24-26), libertar do demônio (Mt 12,22).

- Temos o recurso à oração, que os naturalistas ignoram.
- Temos a total confiança em Cristo, que só os que a experimentam sabem quanto é boa e poderosa.
- Temos o exercício da presença de Deus, que está em toda parte, "que sonda os rins e o coração" (Sl 7,10), que nos detém em face do pecado, como a José (Cf. Gên 17,1), que nos convida permanentemente à perfeição (Cf. Gên 17,1), e cujo temor é o começo da virtude (Cf. Sl 110,10).

- Temos o exame de consciência, poderoso elemento do conhecimento de si próprio, sonda que penetra até o fundo das intenções, luz que ilumina o nosso íntimo e nos mostra as causas e raízes de nossos atos e os nossos móveis mais secretos, e que nenhum educador deve dispensar, para si e nos educandos.

- Nós católicos temos o contato vital com a Santa Madre Igreja, com o culto vitalizante da Santa Missa, com a força eficaz dos Sacramentos.

Tudo isso eleva e doura a correção que propomos. Tudo serena e se facilita, quando falamos em amor de Deus, para alegrar a Cristo, para não "crucificar de novo o Filho de Deus" (Heb 6,6).

O sobrenatural não tem lugar à parte em nossa pedagogia: como o sangue, ele se difunde em todo o organismo; como a alma no corpo, ele está todo na educação cristã e todo em qualquer parte dela. Só nos que o utilizamos sabemos quanto vale. Entre nós, melhor o sabem aqueles que não o conheciam, mas se converteram e o empregam, penalizados do tempo em que o não usaram, jubilosos das maravilhas que produz.

Feliz o que baseia a vida e a educação dos filhos no sobrenatural. Por grandes que sejam as dificuldades, são sempre menores que as dos outros, e maiores os frutos. "Receberá o cêntuplo e terá a vida eterna" (Mt. 19,29).


Estabelecer princípios

Talvez tenha ficado longa a exposição, e isto dê a impressão de que é difícil a correção dos filhos. Na verdade, tudo isto é conseguido harmonicamente. Fizemos trabalho de análise. É como o andar: fôssemos explicar o mecanismo da nossa marcha, dificilmente daríamos um passo - contraia tais músculos, distenda outros, firme um dos pés quando levanta o outro, assegure melhor o equilíbrio adiantando o braço direito quando adianta o pé esquerdo... Por felicidade não se faz assim: anda-se simplesmente, e se faz tudo aquilo, sem o perceber... Assim é com a boa educação.

Mas, para facilitar um trabalho de unidade, reduzimos tudo a poucos princípios, que não demandem sequer explicações:

1) Saber o que quer: fazer amar e procurar o ideal.
2) Querer com firmeza e continuidade.
3) Ver tudo, dissimular muito, corrigir o necessário. (o termo dissimular na frase, entenda-se como : fazer vista grossa sobre, deixar passar)
4) Ir  às raízes das faltas.
5) Manter a visão do conjunto.
6) Assegurar a confiança das crianças.

Modos de corrigir

Nossa preocupação é levar a criança a praticar a virtude, a fazer bem o que fez mal, evitar a falta cometida, tudo na proporção de suas possibilidades pessoais. Para isto aproveitamos as próprias conseqüências naturais da falta, quando estas se prestam ao aproveitamento pedagógico ou empregamos outros meios proporcionados.

No primeiro caso, as aplicações são variadas.

- Algumas, inócuas: a criança adoece quando come chocolate; mas continua a comê-lo sempre que se lhe oferece ocasião. Não tem força de vontade para resistir.

- Outras irritantes, humilhantes, prejudicias, vergonhosas até para os pais... a menina remanchona, que não está pronta à hora da saída para o passeio, não vai passear; o mentiroso não será mais acreditado; e noutras: quem rasgou, por estouvamento, o vestido novo, usá-lo-á remendado; quem estragou o caderno à toa, fica sem caderno.

- Outras, realmente proveitosas: a criança que se queimou, mexendo no aquecedor; a que se feriu com os modos estouvados de brincar; a que foi expulsa do jogo pelos colegas, porque perturbava, etc.

No segundo caso, são muito conhecidos os modos de correção, Vejamos.

1) Advertências

Muito úteis, porque previnem a queda: sempre melhor que remediá-las, sobretudo na infância. Justas, oportunas, rápidas, dão bons resultados. (Ver: Jo. 13,8 ; Mt. 26,41)

2) Censuras

São necessárias, para formação do critério moral das crianças ... Não sendo censuradas pelo mal que fizeram, podem reputá-lo indiferente ou bom. Também elas serão, como as advertências, justas, breves, oportunas, e feitas com seriedade, a qual lhes é necessária, mesmo quando forem enérgicas. (Ver: Mt. 26,40 ; Mt. 8,26 ; Mt. 14,31 e Lc. 24,26).

3) Elogios

Superiores à censura, preferíveis portanto. Esta por melhor a façamos, é sempre restritiva e deprimente, ao passo que o homem precisa de estímulos para a virtude, pois, em geral, são poucos os nossos impulsos para ela. Enganam-se os que temem formentar a vaidade, com elogios. Desde que justas e moderadas, que visem ao esforço (e não a qualidades naturais, dons gratuitos de Deus), e que despertam entusiasmo para o bem, confiança em si e amor ao ideal, antes importa usá-los que temê-los.

Também Cristo os empregou em sua pedagogia, (Ver: Mt. 8,10 ; Mt. 25,23)

Sempre que o educando se esforça (mesmo que não alcance o êxito desejado), é digno de encômio. Principalmente quando está interessado em emendar-se: elogiemo-lo, mesmo quando ele consegue  apenas diminuir faltas, pois já é progresso.

4) Recompensas

Como tudo que estimula e desperta energias para o bem, são as recompensas elemento valioso na educação. O seu fim é realçar o valor do ato praticado e favorecer a sua repetição. Não somente podem, mas até devem ser outorgadas, dede que:

- contribuam para dar ao educando consciência da obra que praticou, inclinando-o assim a repeti-la;
- levem ao gosto íntimo do dever;
- ajudem a vencer os obstáculos.

Para isto, procuremos evitar:

- recompensas que favoreçam as más tendências: mão dar gulodices aos gulosos, enfeites ás vaidosoas, dinheiro aos esbanjadores, etc.;
- prometê-las com freqüências - porque assim perderão a finalidade, e até a subverterão, levando a criança a trabalhar antes pelo prêmio prometido que pelo cumprimento do dever;
- dá-las com muita freqüência, não só porque isto a banalisa como também porque a criança perde de vista o amor ao dever, passa a trabalhar pela recompensa, e pode até desanimar quando não a receber.

Como gostamos de elogios e presentes, muito se alegram com eles os educandos. E qualquer coisa os contenta, desde que não estejam viciados. De acordo porém, com a finalidade pedagógica, procuremos os que melhor se adaptam ás tendências de cada um - afetuosos, honoríficos, instrutivos, artísticos, lucrativos.

Às vezes, o que alegra a um, deixa indiferente ou decepcionado a outro. É necessário que a recompensa contente, porque despertando otimismo, ajuda e favorece no caminho do dever...

Para que a criança queira corrigir-se é preciso que:

- saiba que tem defeitos - o que ela facilmente concede, porque todos neste mundo os têm;
- saiba que tem tal defeito - o que é um pouco mais difícil, porque supõe o conhecimento de si e a humildade (que raro procuramos infundir nos educandos);
- reconheça que cometeu a falta - pois nada há mais revoltante para a criança e sobretudo para o adolescente do que ver-lhe imputada uma falta que não cometeu ou não reconhece como falta;
- esteja intimamente naquelas disposições de penitência, a que acabamos de referir-nos;
- aceite a nossa ajuda.

Tudo isto supõe o trabalho educativo lento, indireto às vezes, paciente, dirigido à inteligência e à vontade do educando. Nem sempre é fácil convencê-lo de que errou: ele se coloca numa posição emocional, e não consegue enxergar o que lhe apontamos de nosso ângulo lógico. Então, é preciso que o compreendamos, para que ele nos compreenda.

Quando alguns pais acusam o filho de "não querer nada", se este não é um anormal, a culpa é deles:

- não o preparam desde cedo;
- contentaram-se com castigos (em vez da correção);
- não o levaram a conhecer-se;
- nunca lhe pediram uma atitude interior;
- nunca o mandaram examinar a consciência em face de Deus;
- não lhe disseram as conseqüências de seu defeito;
- nem lhe deram os motivos profundos para emendar-se.

Não é com gritos, humilhações e castigos que levamos alguém a querer o que queremos...

Evitar a correção

Por positivo que seja o trabalho da correção, no fundo ele é negativo: houve uma falta a emendar... Inteiramente positivo seria evitar a necessidade da correção. Se isto é ilusório, porque "os sentimentos e os pensamentos do coração humano são inclinados para o mal desde a infância" (Gên 8,21), é possível, contudo reduzi-la ao mínimo. É o que consegue a sólida formação da vontade, ajudada pela disciplina preventiva.

Isto é toda a educação, e não cabe neste fim de capítulo. Aqui desejamos apenas deixar aos pais cuidadosos a esperança, e dar-lhes alguns marcos que os possam orientar nessa jornada.

Cultivar virtudes

Na terra virgem da alma infantil as vitudes medrarão mais facilmente. Trabalho agradável e produtivo, ele poupará as dificuldades da correção. À medida que a boa semente germinar, o joio que o inimigo lançar brotará sem seiva, mais pronto a mirrar-se que a afogar o trigo. Para estimular virtudes, os pais encorajarão os esforços, habituando a criança à fortaleza e à generosidade espiritual, preparando-a para as vitórias contra as paixões, o ambiente e o demônio.

Começar cedo

Como as más tendências despontam muito cedo, é preciso madrugar com a educação para a virtude. Diga a palavra que alarma os leigos: educação para a santidade. Antes mesmo que a criança revele tendências particulares, já devem ter sido canalizadas no sentido da virtude aquelas que constituem a natureza e a herança de toda a humanidade.

Cuidem os pais:

- não fechem os olhos às manifestações da alma infantil, a pretexto de que é muito criança ainda;
- não temam ser exigentes e enérgicos;
- não se contentem com corretivos superficiais;
- não capitulem ante a pressão de avós e tios que brincam com a criança como a criança brinca com a boneca;
- não pensem em recuperar depois o tempo perdido: o melhor é não perder tempo!;
- tenham pressa e firmeza em "ocupar todo o terreno" (F.Gay), a fim de que, quando os vícios quiserem instalar-se, não encontrem lugar.

Educar para a liberdade

Amanhã, essa criança inevitavelmente se libertará do nosso jugo, e será dona de si mesma. O essencial é prepará-la para fazer o bem por si, quando não tiver mais nossa tutela. Para isto deve saber usar bem da sua liberdade.

Quem conseguir essa aprendizagem, educou, deu o gosto do bem, fez procurar a correção... cuidem os pais de dar aos filhos esse gosto íntimo da liberdade e essa capacidade de usá-la para o bem. Na medida em que o conseguirem, evitarão a necessidade de corrigi-los.

Organizar a vida da criança

Enquadrada em atos regulares e dirigida por uns poucos princípios fundamentais, terá a criança enome facilidade para evitar faltas.

A organização dos atos pertence mais à mãe: faz parte do bom governo da casa. Ela:

- adestra a criança desde cedo;
- exige-lhe esforços na idade escolar;
- ensina o adolescente a dominar-se;
- orienta: a criança já sabe o que fazer, como fazer;
- cria hábitos;
- não deixa ninguém ao léu, desperdiçando tempo e energia, cedendo à ociosidade e à anarquia;
- mas dá a todos possibilidade de usar a própria inteligência e exercitar as forças musculares, expandindo-se normalmente, sem as repressões que a correção acarreta, por melhor que seja.

Os princípios serão poucos, mas fundamentais: marcos para a vida. Normas simples e claras, mil vezes repetidas no lar, mais em conversas do que intencionalmente, que nortearão as ações agora ou no alto mar da vida. A forma positiva é sempre preferível: é melhor sabermos o que devemos fazer - e o que não devemos  fazer vem como conseqüência.

(Excertos do livro: Corrija o seu filho - Mons. Álvaro Negromonte)

PS: Grifos meus.

Ver também:
Primeira parte
Segunda parte