terça-feira, 9 de março de 2010

A criança preguiçosa - Como educá-la?

A criança preguiçosa
Como educá-la?


Agir é necessidade biológica da criança. Corpo e mente não se lhe desenvolvem sem movimento. Sua vitalidade é sinônimo de atividade, se é criança normal. Sendo exuberante chega a parecer-nos excessiva sua movimentação.

O trabalho é natural e agradável a todo homem sadio, especialmente à criança sadia. A ociosidade lhe é insuportável. Para a criança não há maior castigo que a imobilidade.

O trabalho é necessário em todos os domínios – físico, intelectual ou moral – sem falarmos da luta pela subsistência. A própria é vida é incessante atividade: no corpo, a respiração, a circulação do sangue e a digestão, sem as quais morreremos; na mente, sentir, comparar e julgar.

O que torna os homens infelizes é a fadiga excessiva, a ausência de êxito, a falta de correspondência entre o esforço e o indispensável à vida, a obrigação de realizar tarefas por que não sentimos gosto, a impossibilidade de realizar o que nos agrada, a associação da obra a idéias odiosas. Só por isto o vulgo execra o trabalho e faz do ócio um ideal... Mas o trabalho em si é fonte de alegria, pois realiza o homem, que, como diz Jó, “foi feito para trabalhar como a ave para voar” (5,7).

Haverá criança preguiçosa?

A criança “parada” dá logo idéia de doente. Ociosidade e infância normalmente se excluem. Tamanha é a necessidade de ação da criança que médicos e pedagogos perguntam se as haverá preguiçosas – ou se não serão doentes (físicas, mentais ou psicológicas) as assim chamadas.

É precipitação acusar de preguiça a que não foi devidamente examinada pelo médico e pelo psicólogo. Aliás, julgamos as crianças mais pelo que desejávamos que elas fossem do que pelo que realmente são. Assim, chamamos preguiçoso o menino que não quer fazer o que lhe impomos, medindo-o pelos nossos gostos, e não pelos seus. Se ele não trabalha:

- não faz o que lhe mandamos;
- “não cumpre os seus deveres”;
- “só quer brincar e comer” (sic);
- fica com o livro na mão, mas com o pensamento longe;
- só faz alguma coisa em nossa presença mas folga quando damos as costas;
- fica remanchando;
- irrita-se tão logo se lhe fala em trabalhar;
- é de tal moleza que dorme em pé;
- brinca o dia todo e, mal pega no trabalho, se queixa de cansado ou de dor de cabeça;
- só trabalha quando lhe “dá na veneta”...

É ou não preguiçoso? Pode ser que seja, mas também pode ser que não seja... Mais facilmente o chamarei doente, pois são de doença todos os seus sintomas. Nada, contudo, direi com certeza antes que o médico e o pedagogo tenham procurado as causas de suas atitudes. Essa criança procederá por defeitos de saúde física, distúrbios psicopáticos, desajustamento social, muito mais freqüentemente do que por preguiça.

É o que iremos ver.

Saúde física

Sendo a preguiça antinatural, se a criança recusa trabalhar há de ser por causa muito séria.

- Aquela criança mole, que dorme em pé, é talvez hipotiroidiana. Esta insuficiência glandular explica também as dores de cabeça e o cansaço de que ela se queixa.

- Ainda mais sérios se tornam esses sintomas, quando provocados por mau funcionamento da supra-renal: as fadigas são mais profundas, e a criança, perdendo a vivacidade, se torna astênica.

- Pergunte ao médico que transtornos podem causar as vegetações adenóides, as amígdalas inflamadas, o desvio do septo, as deformações torácicas... Ouça o homem da ciência, e então zombará menos das dores de cabeça e do cansaço de que se queixa o “preguiçoso”.

- Toda mãe de família sabe de que é capaz o mau funcionamento do aparelho digestivo. Sendo habitual, causará enormes transtornos na sua vítima.

- Se, em lugar de médico e remédio, cuidados e carinhos, dermos a essas crianças castigos e xingações, só lhes faremos aumentar os males, agravando com desgosto e humilhações as suas deficiências.

- Pais que se negam a reconhecer as fáceis fadigas dos filhos são muitas vezes responsáveis por elas. Deixam-nos a brincar até 9 e 10 horas da noite, ou – muito pior – nos excitantes programas de rádio e TV até mais tarde ainda. As crianças não repousam suficientemente, entram em déficit nervoso, tornando-se forçosamente “preguiçosas”, isto é, incapazes para o trabalho, agitadas, irritadas, instáveis, sem ânimo para levar a termo as tarefas escolares. Em vez de descontentar-se com o filho, devem esses pais desgostar-se de si mesmos e procurar emendar-se.

Saúde mental

Numerosas perturbações psíquicas e psicológicas determinam também atitudes errôneamente denominadas de preguiça. Mais grave em si e por suas conseqüências, são essas perturbações mais perigosas que as somáticas, pois não ficam tão facilmente à vista e se ocultam à maioria dos pais.

Apontemos algumas delas.

Protesto

1) Sentindo-se maltratadas pelos pais (com razão? Tanto pior; sem razão? Antes assim, mas a causa existe subjetivamente), as crianças reagem de maneiras muito diversas.

Contra exigências demasiadas, abusos de autoridade, métodos errados de educação, imposições indébitas, repreensões injustas na essência ou na forma, elas manifestam o seu protesto, às vezes, sob a forma de “preguiça”.

- Umas, extrovertidas, gritam as suas razões.
- Outras cruzam os braços silenciosamente e gozam os efeitos de sua greve.
- Às vezes, umas e outras agem inconscientemente, e, tanto não é preguiça que, com outras pessoas e noutro ambiente, trabalham bem.

Mas, na verdade, não fazem o que lhes mandamos; ou escolhem os trabalhos que lhe agradam e deixam os outros; ou não fazem como queremos. Acontece baixarem repetidamente o rendimento, que era antes satisfatório.

Essa inércia ou resistência passiva é tão natural que os simples animais a manifestam. Cansado ou maltratado, o cavalo estaca e ninguém o demove. Alguns insetos, sentindo-se bloqueados, fingem de mortos!

Incapaz de resistir de outra maneira, a criança, inconsciente ou voluntariamente, procede assim. É a defesa dos mais fracos. A sua atitude, conforme a força dos motivos, pode ser de mera defesa, de claro protesto ou de aberta vingança. Irritados ou desconhecedores desse sutil mecanismo interior, taxam-na muitos de preguiça. A criança sabe que é defesa, protesto ou vingança. Os psicólogos, conciliatórios, dizem: “preguiçade defesa, ou de protesto, ou de vingança.

2) Em qualquer de seus graus e manifestações, o primeiro cuidado é discernir as causas.

- Não são os educadores daquelas crianças, os mais indicados para isto. O mais das vezes, é inconsciente o seu procedimento, para com o educando. Por temperamento, formação ou sistema, são duros, e não percebem seus excessos. A própria família pode apontar-lhes o que devem corrigir.

- Nem sempre será tão fácil o tratamento: não se atinou com as causas. Ou não se descobriu se o protesto é ou não inconsciente. Como proceder? Só o exame do caso pelo psicólogo o poderá dizer.

- Descobertas as causas do conflito interior da criança, resta removê-las, modificando o adulto culpado o seu procedimento, - o que basta para modificar a criança – ou retirando da mente desta a causa subjetiva, para que se restabeleça a harmonia e funcionem calmamente os instintos sociais.

Retardamento afetivo

1 – A psicologia profunda faz pasmar quem a desconhece, e chega a irritar os mais primários. Foi o que aconteceu a certo amigo meu, bom advogado, mas retrógrado em pedagogia. O filho, escolar relapso aos onze anos, guloso como um bebê de dois, amigo do sono, comodista a valer, com horror a tudo que o tire de seus hábitos, que vive a criticar o trabalho alheio, e nada, no entanto procura fazer, é, para ele, habituado a citar Lombroso nas tiradas oratórias do foro, o tipo do preguiçoso-nato...

Riu, sincero e descrente, quando eu lhe disse que considerava o menor um retardado afetivo. Expliquei-lhe que essa demasiada afeição à mesa era infantilismo, como também o eram o gosto ao sono, o medo a novidades (a insegurança pueril prefere o que é habitual) a tendência a criticar sem propor soluções (por incapacidade) e a ausência de ação retificadora – porque o infantilizado tem horror a dar de si (esgotismo) e tudo quer receber dos outros.

Achou a explicação “muito engenhosa” e lhe admirou ver como era possível eu “passar a mão pela cabeça de um preguiçosão daquela marca”, e quantos outros desacertos!

- Já outros pequenos fingem de doentes para fugir ao trabalho. E sabem ser maneirosos e amáveis para despertar penas, receber carinhos e ser tratados como bebês.

2 – Verificada a diferença entre estes casos e o retardamento glandular ou mental, o educador procurará:

- levantar o nível afetivo de seu pupilo;
- remover o que lhe detém o desenvolvimento normal;
- encorajá-lo por tarefas gradativamente ascendentes;
- despertar-lhe o gosto do esforço, a satisfação do êxito do seu trabalho;
- estugar-lhe o passo para que vença o atraso e se ponha em tudo na linha da sua idade.

Desinteresse

1 – Sendo o trabalho atividade tão natural, impressionam desagradavelmente as pessoas que “não gostam de trabalhar”. Tão estranhas realmente, antes deveriam merecer-nos penas, como doentes, do que desprezo, como preguiçosos. De fato, essa inércia psíquica que não encontra prazer no trabalho, nem quando este alcança o seu fim, só pode ser mórbida, pois não é natural.

- Outro é o caso da chamada “preguiça” eletiva, que escolhe as atividades que lhe agradam, e das outras foge.

- Em ambos os casos, o adulto reagirá por amor de Deus, por cumprimento do dever, por brio ou necessidade; mas quem está ainda em formação, compreende-se que fuja do que lhe não lhe apraz.

2 – Ao educador, contudo, cabe curar o inerte e corrigir o outro. Não comece, porém, apelando para os altos motivos acima indicados, porque para os pequenos um motivo é tanto menos eficiente quanto mais elevado. Ele compreende melhor os mais imediatos, e se deixa mais facilmente atrair por eles.

- Não o podemos deixar só com o que lhe agrada, mas não devemos privá-lo de suas ocupações favoritas. A estas misturaremos gradativamente as outras, ao mesmo passo em que, por meios adequados, lhe infundiremos o gosto do trabalho e o amor ao dever. Obrigá-lo por força esgota a vigilância do educador (em cuja ausência o trabalho cessa), e não move a vontade nem a atenção. Impor-lhe o que lhe desagrada é fixar a idiosincrasia, antes agravando que corrigindo o mal.
 
Lentidão

1 – Se há crianças (e adultos...) que remancham propositadamente, há também as que são naturalmente lentas. Às vezes, em tudo; outras, só nas atividades físicas, pois são vivazes e rápidas nas mentais.

- Pais e mestres (mal aparelhados) se irritam com elas e lhe dificultam a vida com exigências, prazos marcados para o término das tarefas, comparações odiosas com irmãos ou colegas rápidos, complexando as que assim procedem sem culpa.

- Quando, além disto, os pais são vaidosos, ai dos filhos lentos! Enquanto uns medíocres de inteligência, mas vivazes, são elogiados como “brilhantes” e “de futuro”, outros, na verdade mais inteligentes, refletidos, e realmente de futuro (como os fatos mostrarão) são postergados ou mesmo injuriados. O menos que lhes chamam é de lesmas...

2 – Se a lentidão é propositada, enquadrar-se-á nas causas já expostas, e receberá o tratamento indicado. Se é natural, pouco conseguirão os pais que desejarem quantidade, mas conseguirão os pais que desejarem qualidade. Dou a dois datilógrafos o mesmo trabalho: o primeiro o faz em 40 minutos, cheio de imperfeições que obrigam a reescrevê-lo; o outro gasta uma hora, e o serviço é irrepreensível. Qual é o lento? Qual o preferível? Claro que o ideal será o rápido e perfeito; mas é também muito mais raro...



Mau exemplo



Muitas coisas, portanto, parecem, mas não são preguiça. Mas há crianças preguiçosas... por causa dos pais! A intenção não era esta, mas foi este o resultado.

É “por amor” para com o “filhinho do papai” que:

- lhe dão tudo à mão;
- mandam a empregada arrumar tudo quanto ele desarruma;
- criam-no sem o menor hábito de trabalho;
- deixam-no até os oito e dez anos sem saber atar os sapatos, ou pentear os cabelos, etc., etc., etc.
- e se admiram de que a “belezinha da mamãe” seja um dos “dez mais” preguiçosos do bairro ou da cidade.

Escusam-se certas mães que assim procedem, alegando que “felizmente estão em condições de pagar empregadas para o filho” – como vezes sem conta, com profundo desgosto, tenho ouvido. Quem assim “educa” não se deve espantar de que ao filho, crescido na ociosidade, repugne qualquer espécie de trabalho. Também ao novilho indômito repugna o jugo e a charrua, e ninguém o chamará de preguiçoso.

Se a atitude dos adultos que cercam a criança não é de dedicação, mas de fuga ao trabalho, se as suas máximas são de elogio ao “dolce farniente”, se o ideal é enriquecer para não trabalhar; se invejam os que nada fazem – por que estranham se os filhos pensam e... agem assim? “Filho de fato é gatinho”: filho de preguiçoso... É a hereditariedade...pelo exemplo!

E não se castiga?

Relembro a distinção entre castigo e correção. Ao educador (como ao educando) não é o castigo que interessa, é a correção. O que importa é conseguir que o menor alcance disposição para o trabalho. Não é por castigos que o conseguiremos.

Quem já não sente atrativo para o trabalho ainda menos o sentirá se associar sua idéia à de castigo. Quanto mais me impuserem tarefas desagradáveis, mais repugnâncias lhes votarei.

Há, no entanto, "castigos" que podem e devem ser impostos, em vista de seu caráter natural. Passeio, festa, certas gulosiemas (refrigerantes, balas, etc.) são regalos que se negarão a quem não fez por merecê-los.

É tão arraigada na maioria dos pais a tendência a punir que repito: só os preguiçosos, e em último recurso, receberão esses castigos; os doentes precisam de remédios.

Atitudes gerais

O verdadeiro educador verá no trabalho o mais importante meio educativo natural. O educador cristão, que dá alto lugar aos meios sobrenaturais (oração, sacramentos, amor de Deus, estado de graça, cuidados de santificação), sabe que não há santidade sem sólidos fundamentos humanos, como não há construção duradoura sem alicerces seguros.

Do ponto de vista da higiene física e mental, o trabalho condiciona o desevolvimento harmônico das faculdades e energias necessárias à vida, sem falar da situação econômica, à qual também é ele indispensável, trate-se de pobres ou de biliardários.

Que devem fazer os pais?

Nunca é cedo demais para começar. Muitos trabalhos pode a criança fazer desde pequenina:

- guardar os brinquedos e apanhá-los para jogar;
- deixar nos lugares próprios roupas e calçados que tirar;
- cuidar dos seus livros, etc.

A medida em que cresce, irá aprendendo a bastar-se, atendendo no que lhe é possível às próprias necessidades, como limpar os sapatos, etc. As meninas se encarregarão oportunamente de:

- fazer suas camas;
- arrumas suas roupas;
- varrer o quarto de dormir;
- ajudar na copa e cozinha;
- iniciar-se nas costuras domésticas;
- ajudar a cuidar dos irmãos menores, etc.

Os meninos vão a compras, ajudam no jardim, dedicam-se a trabalhos manuais.

Fazer amar o trabalho

Não com preleções, que a criança desadoram. Mas com meios eficientes, que não faltam.

- Os pequeninos podem associar o trabalho ao jogo, de maneira que farão o que devem, sem distinguir os limites entre a brincadeira e o dever. Assim este lhes irá deixando no espírito reflexos agradáveis.

- Proporcionar condições favoráveis: local apropriado à tarefa, duração compatível com as condições do sujeito, trabalhos agradáveis (aos quais se irão juntando pouco a pouco aos menos aceitos) e de acordo com o temperamento, as circunstâncias de saúde ou de educação.

Despertar interesse

Quando a criança não oferece boa disposição para o trabalho, é preciso despertá-la. Oferecer ocasião para vitórias fáceis, com resultados tangíveis: isto encoraja.

- estabelecer discretas emulações, descobrindo o que mais a estimule: há quem se anime por motivos ideais, quem pelo amor-próprio e quem por vantagens extrínsecas - cabendo ao educador descobrir o ponto sensível e aproveitá-lo pedagogicamente.

- Colocar os menos dispostos entre companheiros laboriosos é de bom efeito, desde que não se estabeleça comparaçõa, que tornaria odiosa a companhia. A própria criança perceberá a diferença, e reagirá, por brio...

- Nada mais justo do que a recompensa ao esforço. Dêem-na, quando as crianças a merecerem. Não a prometam, ou só o façam em casos raros. Não transformem em "suborno" tão valiosa medida pedagógica. Que ela venha como espontaneamente: "Muito bem. Você fez um excelente esforço. Quero dar-lhe uma recompensa extraordinária" - e diga o que é, mas sublime bem o "extraordinário", mesmo sem chamar diretamente a atenção para isto.

- Outra maneira de estimular é apresentar o trabalho realizado aos amigos e visitas: um discreto louvor é ótimo reconfortante.

Pedir mais

Como a vida, a educação sobe ou declina. Iremos sempre pedindo mais eforços à criança: a idade aumenta, as possibilidades se desenvolvem, a capacidade se amplia - e é preciso que ela produza mais e melhor.

A suma preocupação do educador é formar o caráter: domínio de si, noção de responsabilidade, amor ao dever, buca da perfeição. O trabalho dos menores visa antes à formação moral que ao rendimento econômico.

- No começo, contentar-nos-emos com a limpeza, a constância, o respeito ao tempo previsto.
- Mas apelaremos para esforços gradualmente mais sérios, que produzam mais em qualidade e sobretudo em qualidade.

Motivar bem

Vários são os motivos pelos quais devemos trabalhar:

- Deus o quer;
- Cristo nos deu o exemplo;
- o que fizeram os Santos e os sábios;
- as exigências sociais, a necessidade, os reclamos da saúde física ou mental, etc.

- ou, pelo avesso, a vergonha da preguiça, a inutilidade do preguiçoso, as tristes conseqüências da ociosidade, e quantas outras misérias.

Anotamos que as crianças aceitam mais os motivos menos perfeitos: eles são mais tangíveis, mais próximos, mais compreensíveis. Os mais elevados servem a mentalidades mais altas. Entre uma preleção sobre o Filho de Deus simples operário em Nazaré, e o risco de perder o passeio - a criança "compreende" melhor o risco de perder o passeio...

Isto não significa que não motivemos elevadamente o trabalho. Devemos fazê-lo, sim, mas sem insistências demasiadas. Não faltarão oportunidades para dizermos de passagem uma palavra sobre o assunto:


- uma estampa de Jesus ou São José na oficina;
- uma obra bem acabada;
- a dedicação de um bombeiro, de um médico ou enfermeiro;
- a descoberta de um sábio em favor da saúde ou do bem-estar dos homens;
- a vitória de um homem que se fez por si;

- ou, também pelo avesso, a decadência de um negligente, a ruína do moço que dilapidou a rica herança, a diferença que entre dois irmãos se estabeleceu pelo amor ou negação do trabalho.

Não esqueçamos que a melhor motivação é o exemplo e o ambiente de trabalho que o próprio lar oferece.

(Excertos do livro: Corrija seu filho - Mons. Álvaro Negromonte)

PS: Negritos meus e itálicos do autor.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Jejum e abstinência

Jejum e abstinência


O mundo moderno detesta a penitência e a mortificação, apregoando a necessidade de gozar-se a vida. Mas Cristo começou sua pregação com um convite à penitência: “Fazei penitência” (Mt. 3,2) e com uma advertência que é uma verdadeira ameaça: “Se não fizerdes penitência, todos perecereis” (Lc. 13,5).

Aliás, o estado em que nos deixou o pecado original exige de nós a mortificação, para conter as paixões e submeter-nos à vontade de Deus.

Obrigando-nos ao jejum e à abstinência, a Igreja não nos cria nenhuma obrigação nova, mas obriga ao cumprimento de um dever que está na doutrina de Cristo e nas nossas próprias necessidades, regulamentando-o apenas.

O jejum

1 – O jejum foi, em todos os tempos, um dos mais praticados meios de penitência.

a) No Antigo Testamento, jejuaram Moisés e Elias 40 dias (Ex. 24,18 e 3Rs. 19,8); havia dias obrigatórios de jejum (Lv. 16,29-31).
b) No Novo Testamento, Jesus começa a vida pública por 40 dias de jejum no deserto (Mt. 4,2); São Paulo fala dos seus muitos jejuns (2 Cor. 11,27); os cristãos jejuavam (At. 13,2).

2 – Sempre se atribuíram ao jejum os mais variados e salutares efeitos.

a) No Antigo Testamento, jejuavam para evitar castigos divinos (Rs. 21, 27-29), para expiar os pecados (Jn. 3,4-10), para alcançar graças (Est. 4,16-17), para ser espiritualmente forte (I Rs. 7,6-11), etc.
b) No Evangelho diz Jesus que pelo jejum se reprimem os demônios (Mt. 17,20).
c) A Igreja ensina que o jejum reprime os vícios, eleva as mentes, concede a virtude (Prefácio da Quaresma). A Liturgia chama-o de remédio ao pecado, purificação, penhor de perseverança, etc. (Ver no Missal numerosas referências ao jejum, principalmente nas Missas da Quaresma).

Como se jejua

1 – A essência do jejum está em se tomar uma única refeição pleno no dia, permitindo-se ligeira refeição pela manhã e à tarde.

2 – Na refeição plena pode-se comer quanto o apetite pedir. No café da manhã pode-se tomar leite ou café com uma regular quantidade de pão com manteiga. Na refeição da tarde, à hora do jantar, pode-se tomar a metade do que se costuma nas refeições comuns.

3 – Líquidos não quebram o jejum, salvo os que se tomam à moda de alimento, e não de simples bebida, como leite, chocolate, caldos de carne, etc.

4 – Nos dias de jejum sem abstinência, pode-se comer carne em uma das refeições apenas.

O preceito do jejum

1 – Estão obrigados ao jejum todos os fiéis, desde os 21 anos feitos aos 60 começados. A razão é que a Igreja não impõe a ninguém ônus superior ou nocivo a suas forças.

2 – O jejum, como a abstinência, é uma lei grave que obriga sob pena de pecado mortal, admitindo parvidade de matéria e casos de dispensa.

3 – São dias de jejum com abstinência:

a) quarta-feira de cinzas;
b) sexta-feira santa; [1]

Abstinência

1 – A abstinência proíbe o uso de carnes. [2]

2 – Estão obrigados à abstinência todos os fiéis que tiverem completado 14 anos [3] e não tiverem justa causa de dispensa.

3 – São dias de abstinência todas as sexta-feiras do ano (exceto as que caem em festas de preceito, inclusive durante a Quaresma). [4]

4 – Estão dispensados da abstinência:

a) os mendigos que só têm para comer o que recebem de esmola;
b) os doentes que não podem alimentar-se de outra coisa;
c) os operários que se ocupam de trabalhos muito pesados;
d) os que recebem alimentação coletiva, quando não lhes fornecerem outro alimento;
e) os que viajam, se não tiverem outro alimento.

Dispensa do jejum

1 – Estão dispensados do jejum:

a) os mendigos;
b) os doentes e convalescentes;
c) as pessoas realmente fracas, que se sentiriam gravemente mal se jejuassem;
d) os que trabalham em trabalhos pesados, como cavar a terra, lavrar pedra, etc.;
e) as senhoras que estão grávidas ou amamentando;
f) os professores que dão 4 a 5 horas de aula por dia.

2 – Os que não tiverem certeza de que estão dispensados peçam dispensa à autoridade competente, que pode ser:

a) o Papa para todos os fiéis;
b) o bispo para seus diocesanos;
c) o vigário para seus paroquianos.

Para viver a doutrina

1 – O espírito do mundo é de gozo da vida. Não se fala no mundo em outra coisa. Vivemos no meio do mundo. Facilmente nos contagiamos. Mesmo sem sentir, ficamos pensando como pagãos, de modo anticristão. Mas o espírito de Cristo é um espírito de penitência, de mortificação, e de renúncias. Se queremos ser discípulos de Cristo, não temos outro caminho: é segui-Lo. “Se alguém quer ser meu discípulo, tome a sua cruz e siga-me”.

2 – Infelizmente, alguns não querem mais crer no valor da penitência. Nem mesmo os preceitos da Igreja querem observar. É lamentável a facilidade com que desobedecem à lei do jejum e da abstinência, apesar de saberem que constitui pecado mortal.

Se não tenho ainda obrigação de jejuar, tenho de me abster de carne nos dias determinados. E hei de fazer isto, custe o que custar. Darei um bom exemplo, além de cumprir o meu grave dever de consciência.

3 – Não acreditemos facilmente nas escusas para a penitência. Principalmente quando se trata de jejum e abstinência de preceito. Pessoas tão fracas para jejuar têm tanta resistência para esportes, para as noites de baile, para os caprichos da moda, etc. Antes, devemos temer que isto seja uma diminuição do espírito religioso, perda de fé, indiferença às coisas espirituais, falta de resistência à gula. Não é tanto a fraqueza do corpo, mas sim a fraqueza espiritual.

4 – Só nos acostumaremos à penitência obrigatória, se nos acostumarmos à voluntária. O hábito da temperança, longe de ser nocivo à saúde, é benéfico. E muito mais benéfico ainda ao espírito. Alimentar-se sempre com moderação, tomar os alimentos de que não gosta, servir-se de tudo o que vem à mesa, são hábitos que nenhum prejuízo trazem, mas trazem grandes benefícios. Nunca permitamos que a nossa alma se escravize ao corpo; antes sujeitemos a carne ao espírito.

5 – A desobediência à lei da abstinência e do jejum está precisando de um corretivo. Em parte é a ignorância religiosa: muitos pensam que só vale jejuar quando se tem vontade. Não se lembram de que são obrigados por obediência. Em parte é a fraqueza da vontade. E a submissão ao espírito do mundo. Não querem fazer penitência, mas gozar a vida. Façamos contra isso o nosso apostolado.

6 – Não esqueçamos os frutos do jejum mesmo para o corpo. Já hoje a medicina está curando certos males pelo jejum. Digam os homens de estudo, se o jejum não é um poderoso auxiliar da inteligência, cuja força se alimenta com a moderação do comer e beber e se enfraquece com os excessos da mesa.

(Excertos do livro: O Caminho da vida – Pe. Álvaro Negromonte - Edição de 1954)

PS: Com base na Constituição Apostólica Panitemini, de Paulo VI, publicada em 17 de fevereiro de 1966 (AAS 54 [1966] 177-185}, essas alterações foram feitas no texto:

[1] Retirei: "c) as vigílias de Natal e da assunção."
[2] Retirei: "Caldos de carne".
[3] Alterei a idade, de 7 para 14 anos.
[4] Acrescentei o que está entre parênteses.

domingo, 7 de março de 2010

"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?"

"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?"
 (Mt 27,46)


As trevas do Calvário, tanto espirituais como físicas, tornam-se cada vez mais profundas ...

A verdadeira felicidade do homem consiste na sua aproximação gradativa da Visão beatífica. Cristo oferece-nos a sua Amizade na qual consiste toda a felicidade humana - como um penhor e um meio de conseguirmos essa final união com Ele no céu, união a que damos esse nome.

Por isto, a alegria que repetidas vezes prorrompeu em palavras durante a Sua vida terrena, ou em gestos de poder e de misericórdia, ou na alegria provinha da Visão Beatífica em que Ele vivia continuamente. "Sustentou o invisível como se a vê-lo estivera" (Heb 11,27).

É agora, no Calvário, que se efetua o ultraje supremo; aquilo que foi o seu arrimo durante os seus trinta e três anos de vida, a força daquele "alimento" do qual Seus discípulos nada sabiam (Jo 4,32), se bem que Lhe não fosse tirada foi contudo obscurecida aos Seus olhos, juntamente com qualquer outra consolação, humana ou divina, que concebivelmente pudesse substituí-la.

O sol escurecido por cima Dele era uma opaca e sombria imagem da Sua própria alma entenebrecida. O sol converte-se em negrume, e a lua em sangue, e as estrelas caem do céu, e a terra treme, quando Ele, por livre vontade e deliberada escolha, entra não somente na sombra da morte, mas na própria Morte das mortes. Era essa a morte que Ele "provava" ...

Nesta hora, Ele alija de Si a única e exclusiva coisa que torna a vida tolerável.

O Seu corpo, dilacerado e esticado na Cruz, não passa de uma pálida encarnação da agonia da Sua alma abandonada ...

"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?"

Esta palavra é aquela que mais do que qualquer outra, é de difícil aplicação a nós mesmos. Por que o estado em que ela foi proferida é simplesmente inconcebível para nós que achamos o nosso consolo em tantas coisas que não são Deus, e para quem o pecado parece tão pouca coisa.

Se nos faltam confortos físicos, achamos refúgio no conforto mental; se este nos falta, arrimamo-nos aos nossos amigos. Ou, mais comumente, quando os mais altos prazeres nos são tirados, quase sem esforço achamos alívio nos mais baixos. Quando a religião nos falta, consolamo-nos as artes; quando o amor ou a ambição nos decepcionam, mergulhamo-nos nos prazeres físicos; quando este, por sua vez, se esfacela sem nada, encaramos o suicídio e o inferno como um ambiente mais suportável.

Parece não haver profundeza a que não desçamos, na nossa determinação apaixonada de nos tornarmos toleráveis a nós mesmos.

A Visão beatífica que foi perdida para o homem por causa da queda, e que Jesus Cristo nunca pode perder, é agora obscurecida aos olhos d'Aquele que vem restaurá-la por meio da Redenção.

Esta Palavra é, pois, sem significação para a maioria de nós; porque, para Jesus Cristo, quando a Visão Beatífica foi empanada pela dor, não houve mais coisa alguma nem no Céu nem na Terra...

"Busquei alguém que se afligisse juntamente comigo, mas não havia ninguém; busquei alguém que me confortasse, e não achei" (Sl 68,21)...

A tragédia prossegue, mesmo nas trevas; ouvimos os gemidos; colhemos vislumbres da Face torturada e incolor por trás da qual a própria Alma está crucificada;... tateamos, conjeturamos, tentamos formar imagens mais baixas da augusta realidade; mas é só.

Todavia, duas grandes lições, traduzidas em termos que talvez em parte possamos compreender, nos vieram daí:

Primeira

Eventualmente sucede elevarmo-nos, na vida espiritual, a esse ponto em que a nossa Amizade  com Cristo constitui a nossa principal alegria, por entre todas as outras e menores consolações que Deus nos dá. O fato de O conhecermos e de podermos falar com Ele é por nós reconhecido como suficientemente doce para tornar a sua supressão aparente a mais acerba de todas as nossas dores...

Pois bem: suponhamos que tal ponto é atingido por nós; e então, de repente, sem temos consciência de qualquer outra coisa a não ser da nossa costumeira falta de fé e letargia, esse prazer espiritual em religião é rápida e completamente subtraído. Qual costuma ser então a nossa resposta?

Como há pouco foi notado, uma prática costumeira é procurarmos imediatamente consolo noutra parte. "Distraímo-nos", dizemos nós; volvemos a atenção para outras coisas. Porém prática ainda mais comum é perdemos ânimo completamente, é suspendermos as práticas que nos molestam, e, enquanto isso, queixarmo-nos amargamente da maneira como o nosso Amigo nos trata.

Certo que um grito de socorro, nesta circunstância, é não somente justificável, mas até meritório; porque o próprio Nosso Senhor assim gritou na Cruz. A falta não está em assim gritarmos, mas em nos agastarmos enquanto gritamos. Na nossa complacência conosco mesmos, parece-nos havermos merecido de Nosso Senhor coisa melhor; parece-nos como que haver da nossa parte uma espécie de direito a fruirmos sempre do sentimento da presença do nosso Amigo.

Entretanto, como o progresso é possível sem tais retiradas?

Como pode o nosso apego ao nosso Amigo ser estreitado se, vez por outra, não parecer que Ele está fugindo ao nosso amplexo?

Como pode a fé verdadeira plantar suas raizes e firmar suas fibras no seio da rocha, se o vento desolador da tribulação não ameaçar desarraigar-nos completamente?

Porque, quanto mais aguda a tribulação e quanto mais amargas as humilhações, tanto mais honroso o trago. Manter nossos lábios colados a essa taça que nosso Salvador esgotou, mesmo quando o seu amargor é diluído pela misericórdia d'Ele, por certo esta honra seria bastante para nos fazer conservar a nossa paz, por uma questão de brio.

Segunda

Uma segunda lição é que o estado em que Deus é o Tudo de uma alma é um estado a que, de qualquer modo, somos obrigados a aspirar. Não basta que a Amizade de Cristo seja apenas o primeiro dos nossos vários interesses. Cristo não é somente "o Primeiro": é o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim.

Não é relativamente mais importante: é o Absoluto e o Tudo. A religião não é um dos departamentos que formam a nossa vida (isto se chama religiosidade), mas é aquilo que entra em cada departamento, é a trama sobre a qual todo desenho, seja de arte, de literatura, de interesses domésticos, de recreação, de negócios, de amor humano, deve ser bordado.

Enquanto não for isto, ela não é religião como deve ser.

Fazê-la assim, entretanto, é a suprema dificuldade da vida espiritual - isto é, fazer da religião não somente um elemento integral na vida toda, mas o elemento dominante em cada departamento desta, - em sentido tal que os seus reclamos sejam imperativos sempre e em toda parte; repito, não no sentido de que a alma se desinteresse de tudo o que não seja culto de Deus, ou teologia, ou ascetismo ou moral - isto, repito, pode ser denomindo religiosidade ... mas no sentido de que a Vontade ou o Poder ou a Beleza de Deus seja em todas as coisas subconscientemente percebida ...

Ora, lembremo-nos de que é isto que realmente deve ser a vida de toda alma humana; e, à proporção que nos aproximamos disto, estamos mais ou menos cumprindo o nosso destino.

Porque só para uma alma que atingiu esse estado é que Deus pode ser Tudo. Ele se torna Tudo porque, já agora, nada Lhe é alheio.

"Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus" (I Cor 10,31).

A vida toda torna-se iluminada pela presença d'Ele; tudo é visto como subsistindo n'Ele; nada tem qualquer valor a não ser na medida em que estiver em relações com Ele ...

É este, pois, o estado pelo qual uma alma cristã é obrigada a pugnar e a aspirar. Isto e só isto, constitui a integridade da Amizade de Cristo; para uma alma nestas condições, e só para essa, pode-se verdadeiramente dizer que Jesus é Tudo.

E ademais, é este o único estado em que o real "abandono" é possível. Perder Jesus se Ele ocupa nove décimos da nossa vida, isto certamente ocasiona uma dor extraordinária; mas ainda restará um décimo no qual a perda não é sentida - uma fração mínima de interesses para a qual a alma pode volver-se em busca de consolo.

Mas, quando Ele ocupa a vida toda, quando não há um só momento do dia, um só movimento dos sentidos, uma só percepção ou ato da mente de que Ele não seja o fundo - ao menos subconcientemente percebido e apreendido, - então, na verdade, quando Ele se retira, o sol se escurece e a lua nega a sua luz; então realmente a vida torna-se sem sabor, e o firmamento sem cor, e a forma perde a beleza, e o som perde a harmonia.

Uma alma assim, e só esta, é que, sem presunção, pode pôr nos seus lábios as palavras do próprio Cristo, e clamar:

"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes? Porque, em Vos perdendo, eu perco tudo!"

(Excertos do livro: A Amizade de Cristo - Mons. Robert Hugh Benson)

PS: Grifos meus

A Renúncia : Moderar a pretensão do espírito

A Renúncia
Moderar a pretensão do espírito


Como os perigos dos sentidos esperam o jovem coração à entrada da vida, assim os do espírito ameaçam perverter a jovem inteligência pronta a dedicar-se ao estudo.

Apenas o espírito começa a ter consciência de sua força, a formar raciocínios, a gozar a doçura das primeiras descobertas no campo da verdade, e já a semente do orgulho deita raízes na alma com risco de romper o equilíbrio entre o espírito e o bom-senso.

Se os talentos dados por Deus excedem um pouco a mediocridade, a ambição intelectual bem depressa não conhece mais limites, o espírito sacia-se de tudo com avidez, enche-se mais de vaidade do que de verdade.

São Paulo disse: Scientia inflat (I Cor 8,1). A ciência incha.

O escolho desta formação intelectual tem sido a parte excessiva dada às luzes humanas em detrimento da luz divina, o predomínio do estudo sobre a oração, o culto da razão humana e o esquecimento do seu absoluto nada e de sua universal fraqueza.

O que é o mais sublime gênio diante da sabedoria de Deus? É com sacrifício que a mais poderosa inteligência consegue, depois de uma vida de esforços e de pesquisas, entrever um ou outro problema científico e quando crê resolvê-lo, vê surgir outras questões mais complicadas e abrir-se diante de si novos horizontes, que não conseguirá nunca abranger.

O verdadeiro sábio é humilde. Ao contato da verdade, sua inteligência inclina-se perante Deus, em vez de elevar-se em si própria. É tolerante para as opiniões de outrem, respeita o que não compreende, não censura nem desdenha o que excede à sua competência.

... Não exagera a importância de sua missão na Igreja. Está incumbido de manter o movimento no mundo das idéias, como o vento está encarregado de manter as correntes no ar, como o fluxo e o refluxo devem renovar o movimento nas águas do mar.

Sem movimento há estagnação e onde há estagnação, há em breve corrupção.

Eis aí por que é necessário movimento no mundo das inteligências, um movimento sempre contínuo, discussões sempre ativas.

Deus colocou em face, no mundo material, as duas forças centrífuga e centrípega, fatalmente inimigas. Mas de sua posição surge, sob a mão diretriz de Deus, a magnífica ordem do universo.

Assim Deus colocou em face, no mundo das idéias, uma força centrípeta: o princípio de autoridade, e uma força centrífuga: o princípio de liberdade.

Os dois princípios estão certos, foram estabelecidas por Deus; mas Deus não incumbiu neste mundo à razão humana de harmonizá-los inteiramente. Daí nasceram e deviam nascer diferentes sistemas sobre questões fundamentais de filosofia e de teologia: o concurso divino, a premoção, a ciência de Deus, a predestinação, a natureza da graça, e, nestes últimos tempos, a essência e o papel da contemplação.

Estas discussões não terminarão nunca. Os sábios devem continuá-las e, por determinação de Deus, produzir o fluxo e o refluxo necessários no mundo das inteligências.

O verdadeiro sábio está, pois, muito longe de dar à ciência o primeiro lugar na sua vida. O principal trabalho, para ele como para o mais ignorante, é progredir na vida espiritual, ser semelhante a Jesus Cristo manso e humilde de coração.

Entrega-se ao estudo como o empregado ao seu trabalho, unicamente para fazer sua tarefa cotidiana designada pelo dever. Enquanto estuda, eleva de vez em quando o coração para Deus, e murmura um ato de amor a Jesus e Maria.

Assim estudavam São Tomás, São Boaventura, São Bernardo, Santo Afonso. Eram verdadeiros e grandes sábios, mas seu principal mérito, diante de Deus e dos cristãos, é o de haverem sido verdadeiramente humildes.

Estes sábios desconfiavam de seu saber e envergonhavam-se de sua reputação de ciência. Lembravam-se da palavra do Mestre: Nec vocemini magistri, quia magister vester unus est, Christus (Mt. 23,10). Não vos intitules mestres, porque vosso Mestre é um só, Cristo.

Este único Mestre pode ensinar uma ciência mais elevada, mais profunda e mais vasta que os doutores humanos e se apraz em comunicá-la às almas humildes, por seus dons de sabedoria, inteligência e ciência.

Não disse Jesus: Confiteor tibi, Pater, quia abscondisti haec a sapientibus et prudentibus, et revelasti ea parvulis? (Mt 11,25). Dou-vos graças, ó Pai, porque ocultastes estas coisas aos sábios e aos prudentes e as revelastes aos humildes.

Estes sábios apóiam-se mais na solidez de seu raciocínio do que na palavra de Deus ou na aspiração divina; estes prudentes procuram mais cultivar sua personalidade humana do que a vida de Jesus Cristo, cujo germe jaz encerrado na sua alma pelo batismo.

Estes sábios e estes prudentes bebem seus conhecimentos das coisas espirituais exclusivamente nos livros, que chamam científicos, e negligenciam ir à escola do Espírito Santo pela oração humilde e pela meditação do Evangelho.

Ó Jesus! Afastai de nós a presunção do espírito. Enquanto nossa inteligência se ocupa por dever em adquirir a ciência, esclarecei-a simultaneamente sobre esta ciência mais necessária do amor divino, da perfeita renúncia e da total doação a Vós.

Que maravilhosos segredos teríeis podido revelar outrora quando vivíes entre os homens e, se Vos tivésseis dignado fazê-lo, de que reconhecimento Vos teriam cercado os sábios de todos os tempos, e como celebrariam nos séculos futuros vosso prodigioso saber!

Conheceis todos os arcanos da natureza. Sabíeis, por exemplo, todas as maravilhas da eletricidade apenas imaginadas pela ciência moderna. Enquanto conversáveis com os judeus de Jerusalém, podíeis, à vontade, ouvir os discursos do foro de Roma ou da Atenas. Era-Vos lícito dar a Vosso ouvido humano a sensibilidade do mais perfeito posto receptor de telefonia sem fio.

Porque Jesus nada revelou de todos estes segredos? Verossimilmente, porque um ato de uma alma humilde tinha mais valor aos seus olhos do que toda a ciência do mundo.

Em vez de revelar os segredos perecíveis do tempo, contentou-se em descobrir os da eternidade. Em vez de fazer admirar sua prodigiosa ciência, disse: Discite a me quia mitis sum et humilis corde, et invenietis réquiem animabus vestris (Mt. 11,29). Aprendei de mim o segredo de ser mansos e humildes de coração, e achareis a paz de vossas almas.

Em vez de fascinar a inteligência dos homens, quis atrair seu coração e aliviar suas misérias: Si qui laboratis et onerati estis, et ego reficiam vos (Mt. 11,28). Vinde a mim vós todos que sofreis e sucumbis sob o fardo, e eu vos aliviarei.

É necessário cultivar a ciência, mas é necessário cultivá-la com moderação: Oportet sapere, sed sapere ad sobrietatem (Rom 12,3).
Se não tendes a obrigação ou a vocação, não examineis curiosamente os livros relativos às questões debatidas entre sábios, mesmo as de espiritualidade. A sede de saber produz rodeios inúteis sobre vós mesmos e sobre vossa maneira de orar.

Possuísseis vós todos os conhecimentos do mundo para distinguir onde começa a mística e onde acaba a ascese, para enumerar os múltiplos matizes e graus da contemplação, este conhecimento não vos faria subir um só degrau na verdadeira oração.

Só Deus deve infundir esta graça, e se apraz em fazê-Lo quando uma alma lho pede com humilde confiança...

(Excertos do livro: Almas Confiantes – Pe. José Schrijvers)
PS: grifos meus

sábado, 6 de março de 2010

Crianças orgulhosas - como educá-las?

A criança orgulhosa
Como educá-la?


Essa criança constantemente preocupada em mostrar as suas qualidades, inclinada a exagerar o seu valor e a fingi-lo quando não existe, a chamar atenções sobre si, sempre disposta a aparecer e ser notada, e que chega a tomar atitudes singulares no andar, na fala, nos gestos, é, sem dúvida alguma, uma criança orgulhosa.

Seu grande cuidado é impor-se à consideração alheia, salientar-se onde se encontre, estadear suas "altas qualidades", da inteligência privilegiada aos cabelos bem penteados, da bonita voz aos vestidos, dos "variados" conhecimentos às habilidades esportivas.

Seu orgulho pode tomar variadas formas, mas ao termo refere tudo a si, e a si o atribui consciente ou inconscientemente, merecida ou imerecidamente. Na sua sede e louvor, louva-se quando ninguém a louva; e até de defeitos se gaba, quando já não há qualidade e virtudes a realçar.

Outras vezes, conforme as circunstâncias, finge qualidades que não têm, jacta-se do que não fez, excede-se nas medidas e nos modos, sem perceber o descrédito a que se lança, e o ridículo que se avizinha.

Ainda bem quando, para engrandecer-se, não desmerece a outrem nem o despreza.

O paranóide

Não é o orgulho simples, a vaidade infantil (mais tangida por adultos), a bobice da menina que exibe os cachos de cabelo ou do menino que mostra a força física. É o ensimesmado, permanentemente voltado para si, supervalorizando-se em tudo, egoísta profundo, centro do mundo, convencido de sua superioridade, que ele procura manter, exagerando seus merecimentos e diminuindo os alheios.

Presunçoso, sabe tudo, nada precisa que lhe ensinem, profere sentenças, reputa ignorantes os que não o aplaudem, quer sempre dar a última palavra nas discussões, porque não admite que contra ele possa alguém ter razão. Discute até com os professores, e, como não os pode calar, gritar-lhes ou ridicularizá-los (como faz aos colegas), explica depois aos companheiros que "o professor se enganou".

E para sempre ter ocasião de exibir-se, cultiva a mania de oposição, atacando o que outros louvam, ou louvando o que atacam, sem qualquer preocupação de coerência.

Para sustentar a falsa posição em que se coloca, amplia insignificantes vantagens reais, deforma os fatos em seu favor, completa-os com a imaginação, ou simplesmente entra na fabulação em que figura como herói, predestinado, necessário.

Inadaptado, hipersensível, não estabelece duradoura harmonia senão com os que se lhe sujeitam e reconhecem sua superioridade. Brigão, desobediente, insubordinado em casa e na escola, faz praça de sua indisciplina, reputando fracos os que odebecem ("porque  não têm força de vontade"). É freqüentemente também terror da vizinhança.

Insatisfeito quando não é o primeiro, taxa de injusta as notas escolares, acusa os mestres de parciais, reputa-se perseguido quando não vence, gosta de dominar nos jogos, sempre pronto a agravar as faltas alheias e desculpar as suas, embora mais graves e mais freqüentes.

O retrato é severo, mas fiel. Mercê de Deus, pouco freqüente com todos os característicos apontados. Mais encontradiços são os tipos atenuados, com alguns desses sinais, notando-se sempre a tendência à dominação, a mania de grandeza, a preocupação de transformar em escravos os que o rodeiam, e a facilidade de explodir à mínima contrariedade.

Trazendo do berço a constituição, manifesta-a desde pequenino, mas é na idade escolar e na adolescência que ela se pronuncia com mais clareza.

Fontes do orgulhoso

- Procede o orgulho do amor-próprio, que, sendo tão necessário e valioso em nossa vida, pode degenerescer nesses excessos.

- Manifesta-se em pessoas medíocres e inteligentes; mas nestas revela falta de reflexão: pensando melhor no valor das coisas, mais se encontrar razões para a humildade que para o orgulho.

- Bem analisado, o orgulhoso denuncia sentimento de inferioridade. De fato, quem tem real valor não precisa trombeteá-lo: depressa ele será reconhecido; e quem tem valor, não há por que fingi-lo; se é grande não precisa exagerar; quem está certo de sua superioridade, até se vexa de alegá-la; e aquele que se gaba, é que não confia em si.

- Revela também o orgulhoso grande ignorância do real valor das coisas, prezando o que pouco ou nada vale e cedo fenece, o que lhe foi gratuitamente dado por Deus, e de que nenhum merecimento tem, ou aquilo que nada representa de valor humano.

Os motivos

Os mais freqüentes motivos do orgulho são:

- dotes físicos, que variam segundo a idade e o sexo;
- a inteligência, com a qual confundem também a memória e mesmo simples habilidades manuais;
- a riqueza, com as facilidades que proporciona à criança  que a separam das menos afortunadas;
- a posição social, que enche de empáfia sobretudo os filhos dos figurões que perguntam aos "plebeus" se "sabem com quem estão falando";
- a família, cujo renome tradicional se cultiva através de sucessivos "varões assinalados";
- finalmente os êxitos pessoais, únicos que na verdade revelam às vezes algum esforço e valor.

O ambiente

A natureza da criança orgulhosa é freqëntemente ajudada pelo meio em que vive. Os pais - a mãe especialmente - não se cansam de louvar-lhe a beleza e a inteligência. Compreende-se e aplaude-se que sejam encantados com os filhos; mas também se exige que sejam discretos, para não prejudicá-los. Quando a criança é realmente encantadora, parece maiores perigos: ninguém resiste ao gosto de provar-lhe e elogiar-lhe as graças.

Que Deus as proteja!

Os pais fomentam

- Há pais que não sabem pôr termo à sua vaidade: vão das gracinhas dos pequeninos ás exibições de inteligência dos escolares.

"Vá buscar o seu boletim para me mostrar".
"Diga as capitais dos estados do Brasil".
"Vamos fazer uma viagem de navio em redor da Terra".
"Quais são os presidentes da República, com as suas datas".

E as visitas se desfazem em louvores, mesmo avaliando a quanto custo foi aquilo estereotipado.

- Outros compram, a peso de elogios, a magra obediência dos filhos.

"Vá, meu bem; uma menina bonita como você não desobedece ao papai." Ou: "um menino inteligente como você"...

Subversão de valores

Parte freqüentemente o orgulhoso de errada noção de valores. A mãe, excessivamente preocupada com vestes, o pai a gabar-se de que foi convidado para jantar com o ministro tal, dão aos filhos eficazes lições de ... vaidades. A pobre senhora que vive em cafés "soçaites", exibindo futilidades, fruindo os sucessos de que jornais e revistas estampam os clichês, só por milagre pode ver a filha em caminhos de modéstia e bom senso.

- Na exurria de concursos de beleza, rainhas de fancaria e desfiles de modas, vão as meninas perdendo a hierarquia dos valores e sendo arrastadas nas exibições em que as mães, insensatas, as precipitam sem perceberem o mal que lhes fazem.

E fazem também a si, porque, mais tarde, serão elas mesmas as vítimas da desobediência, da arrogância, da falta de senso dessas filhas "educadas" assim. Em vão procurarão fazer valer a sua autoridade: ela está enfraquecida, senão anulada; e no espírito dos filhos não há condições para a desejada ressonância.

Orientar o orgulhoso

O intuito do educador não é destruir o orgulho: como todas as paixões, ele é uma força necessária, restando-nos moderá-lo e orientá-lo no sentido do bem. O brio, a estima de si, o cuidado do bom nome, ("Cuida de teu bom nome, pois esse bem te será mais estável que mil tesouros grandes e preciosos" - Ecl. 31,15) o apreço à dignidade pessoal, o sentimento de honra, as tradições de família encontram forte estímulo num comedido orgulho.

Este será para crianças e adolescentes fácil apoio, de que se libertarão aos poucos, na medida em que o espírito amadurecer e se firmar em valores mais altos e definitivos.

- Há mesmo um nobre orgulho a cultivar nas crianças, como o de uma família bem constituída e feliz, da felicidade da fé católica ...

- Bem orientado, o orgulhoso será um líder - e a formação de líderes é premente necessidade da pátria. Pôr a serviço do próximo esses pequenos ambiciosos de glória será expediente valioso. As obras sociais de realização imediata, as organizações religiosas, a ajuda às missões, etc., ser-lhe-ão agradáveis. Os esportes são derivativo.

Hierarquizar os valores

Dar às crianças o justo valor das coisas é cuidado perene na educação: - beleza, força, habilidades são demasiado perecíveis; roupas e dinheiro nem sequer fazem parte de nossa pessoa; posição social e riqueza mais nos dão responsabilidade que honras: mais nos obrigam a ajudar o próximo;boa família aumenta-nos os compromissos, pois temos de mostrar-nos à altura dela.

"Somos fillhos de santos e não devemos viver como pagãos que não conhecem a Deus". (Tob 8,5)

Não formentar o orgulho

- Evitem os pais os elogios aos dotes físicos das crianças; e quando estranhos os fizerem, ponderem que mais valem as qualidades morais, pois as pessoas valem não pela beleza, pela força ou pela inteligência, mas por suas virtudes;

- elogiem o uso das faculdades, o esforço feito, mas o façam com discrição, sem lisonja, emulando para o dever, porque pequenos e discretos elogios são por vezes proveitosos ou mesmo necessários;

- ensinem a prelibar a alegria de consciência que fez o bem, cumprindo o dever, ajudando o próximo, praticando a virtude: não há elogios nem prêmios que valham essa íntima satisfação;

- mostrem-lhes sobretudo que nós valemos o que somos aos olhos de Deus, e não nos modificam os juízos jumanos: "Pouco se me dá de ser julgado por vós ou por tribunal humano. Meu juiz é o Senhor". (I Cor 4,3-4)

Assim, aos poucos, irão corrigindo as crianças orgulhosas.

Falar ao bom-senso

É preciso chamar a atenção do orgulhoso:

- mostrar-lhe a sem-razão da vaidade, o ridículo a que conduz, a humilhação que pode produzir;
- ponderar que mais se preza a pessoa modesta e simples que a emproada e soberba;
- falar-lhes a sós, bondosamente, apontando-lhe os erros que comete, tratando-o com mansidão mas com firmeza, sem humilhá-lo porque então se revolta, mas sem escusá-lo (ele se defende muito bem).

A sanção natural

Quando a criança vaidosa se vir nalgum embaraço por suas gabolices ou exibições, convém deixar que amargue, sem socorrê-la por muito que isto custe: aí está uma punição forte e natural. Depois o educador lhe falará a respeito.

Recursos sobrenaturais

Nós, cristãos, temos os elementos sobrenaturais da educação, e não podemos esquecê-los:

- as numerosas lições de humildade que nos deu Cristo. (ver: Mt. 11,29; Mt. 18,4; Lc. 14,14; Mt. 8,8; Lc. 18,14 e Mt. 8,10)

- os perigos espirituais que nos acarreta o orgulho, porque "Deus resiste aos soberbos, e dá sua graça aos humildes". (Tg. 4,6), e a soberba é uma fonte de numerosos pecados;

- o cuidado de fazer todas as coisas para glória de Deus, e não para nossa glória, porque o Senhor é o princípio e o fim de todas as criaturas (reta intenção);

- o exame de consciência até diário (e não apenas para as Confissões), procurando não somente as faltas mas também suas causas, encerrando-o com a detestação e o propósito de evitá-los;

- a freqüente oração, para pedir a Deus a graça de resistir às tentações e de praticar uma sincera humildade;

- a prática dos Sacramentos da Penitência, que nos purifica, e da Eucaristia, que nos dá forças.

(Excertos do livro: Corrija o seu filho: Mons. Álvaro Negromonte)

PS: Grifos meus e itálicos do autor.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Segunda meditación: San José eficacísimo protetor y abogado para alcanzar una buena muerte

SEGUNDA MEDITACIÓN


SAN JOSÉ EFICACÍSIMO PROTECTOR Y ABOGADO
PARA ALCANZAR UNA BUENA MUERTE

Punto 1. San José venerado en la Iglesia como abogado especial para alcanzar la gracia de bien morir.

Está decretado a los hombres, dice el Apóstol (Hebreos, IX, 27), el morir una sola vez, y después el juicio”. Todos, pues, hemos de morir y dar cuenta hasta de cualquier palabra ociosa ante el Divino Juez, “el cual dará a cada uno el pago según sus obras” (San Mateo, XVI, 27). Y lo que es más, que ignoramos el cómo y el cuándo sucederá esto.

Nada, pues, hay más importante para todos que el velar, y estar siempre preparados para aquella hora suprema, y alcanzar la gracia de bien morir. ¿Y qué medio más a propósito para obtenerla que acudir a San José y tomarle por protector y abogado para aquel terrible trance?

En primer lugar, él es para toda clase de personas el más acabado modelo de una vida santa, como la mejor preparación para bien morir. A esto se añade su privilegio singular de haber expirado dulcemente en brazos de Jesús y María. Todo cuanto se diga, en efecto, de la muerte preciosa de los Santos es apenas comparable a este privilegio de San José.

La Iglesia misma lo celebra con estas palabras: “¡Oh sin par, feliz y bienaventurado José, en cuya hora extrema os asistieron juntos y solícitos Cristo y la Virgen con plácida faz!”. Además lo celebra permitiendo celebrar la fiesta del feliz tránsito de San José, y que se le invoque como protector y abogado especial para alcanzar una buena muerte.

Cuando, pues, así honra la Iglesia a este glorioso Santo, ¿no significa esto que a su juicio goza delante de Dios de un favor especial para alcanzar la gracia de bien morir, y que quiere que también sus hijos le honren como a Patrono de la buena muerte? Así por lo menos lo han entendido y lo entienden los fieles hijos de esta divina Madre, al erigirle altares y establecer congregaciones para acudir a él como al abogado de los agonizantes. Y ¡cuántos favores y consuelos han recibido de él los que así lo han invocado!

Acudamos, pues, siempre a él con filial confianza, y no dejemos pasar día alguno sin pedirle la gracia de bien morir. Pidámosle que sea nuestro protector y abogado en aquella hora tremenda, en la que tan poco han de valernos los honores, los intereses y aún los mejores amigos de la tierra….

Punto 2. San José poderosísimo abogado de los agonizantes como padre adoptivo del Divino Juez.

Desnudo, dice Job, salí del vientre de mi madre, y desnudo volveré a ella” esto es, a la tierra o sepulcro. Y lo mismo nos sucede a todos los míseros mortales. Sí, todos nacimos desnudos, y desnudos iremos a parar en el sepulcro, sin que nos acompañen allá más que buenas obras o malas, para comparecer con ellas delante del Divino Juez.

Cual, pues, sea la angustia de una alma próxima a comparecer en el tribunal de Dios con solas sus obras, tan pocas buenas y tantas malas, y tan mal reparadas, ¿quién lo puede explicar? Si a los menos tuviera a su favor algún abogado celestial, que la defendiera delante del Divino Juez…

Esto, sin embargo, pueden esperar los verdaderos devotos de San José. No, él que tanto se gozó en su muerte con la asistencia de Jesús y de María, no permitirá que sus devotos mueran por lo menos sin su asistencia. Y con ella ¿cómo no esperar una sentencia favorable por más que los pecados se presenten entonces a su vista como ejército de enemigos, el más formidable?

Tal vez los tales pecados ya están perdonados, sólo que el demonio se complace en renovar su memoria para inducir a la desesperación. Y en tal caso, la asistencia de San José es para sus devotos moribundos el arco iris de paz, nuncio de apacible calma después de horrible tempestad.

O tal vez no estén aún perdonados por no haberlos confesado, o por haberlo hecho mal. Y aún en este caso es la asistencia de San José una de las más consoladoras esperanzas por la eficacia de su intercesión delante del Divino Juez. Éste, que mientras hay aliento de vida es todavía nuestro Redentor, bien puede hasta el último suspiro infundirnos tanto arrepentimiento, que baste para borrar en un momento todos nuestros pecados.

Sólo falta un intercesor bastante poderoso para aplacar su justicia, y mover su misericordia a conceder esta gracia. ¿Y quién mejor para esto que el glorioso San José? ¿Acaso hay quien pueda alegar mayores méritos delante del divino Jesús y de su Santísima Madre?

Acudamos, pues, a él y digámosle como en otro tiempo los egipcios a su antiguo Patriarca: ¡Oh glorioso San José! en vuestras manos está nuestra salvación: a Vos, pues, la encomendamos ahora para aquel momento, en que habremos de ser juzgados por el Divino Juez.

Punto 3. San José protector de los moribundos contra los ataques y ardides del demonio.

Como león rugiente, dice el Apóstol San Pedro (I Pedro, V, 8), anda girando nuestro enemigo alrededor de nosotros, en busca de presa que devorar”. Lo cual hace principalmente en la hora de la muerte, ya agravando extraordinariamente los pecados, ya exagerando el rigor de la divina justicia, poniendo así el alma en peligro de desesperación y de perderse para siempre. Bien puede, empero, abalanzarse contra ella el infierno entero como ejército de gigantes; ¿qué podrá, si ella está bajo la protección y amparo de San José?

Escogido ese Santo por Dios para burlar la astucia y humillar la soberbia del dragón infernal en cuantos obstáculos pudiera poner a la redención del mundo; son por demás dignas de admiración la suavidad y eficacia con que llevó a cabo este designio de la Providencia. Así que, mediante su matrimonio con María, fue ya como primero se ocultó al demonio el misterio de la Encarnación, ignorando así la divinidad del Hijo, y la integridad virginal de la Madre.

Asimismo, mediante su obediencia al Ángel del Señor y su huída a Egipto, fue como libró a Jesús de la muerte decretada contra Él por Herodes, figura e instrumento del demonio. Mediante, en fin, su entrada a Egipto fue también como cayeron derribados los ídolos, como enmudecieron los oráculos, y el tirano de las almas fue encadenado, huyendo de allí los espectros infernales.

Cierto que todas estas victorias más pertenecieron al Niño Jesús que a José; también lo es, empero, que éste fue el instrumento escogido de Dios para así confundir al enemigo de las almas, ensalzándolo por lo mismo la Iglesia con el título, de “Vencedor del infierno” (Himno del Oficio).

Si, pues, tanto pudo José contra el demonio aquí en la tierra, ¿qué no podrá ahora contra él en el cielo, ahora que, asociado su nombre al de Jesús y de María, parece como disfrutar de un privilegio para librar de sus asechanzas a los agonizantes puestos bajo su protección?

Pidámosle, pues, con confianza que se digne asistirnos en la hora de la muerte, y ahora y hasta entonces no cesemos de repetir: Jesús, José y María, que expire en paz con vosotros el alma mía. Amén.

(Retirado do blogue: Signum Magnum)

Vossa alma: Seu ideal

Vossa alma: Seu ideal


“Vibra, luta, sofre, ama, morre!”


O ideal é a flama do nosso pensamento, que brilha e ilumina toda a nossa vida; é farol que devemos sempre manter e tornar cada vez mais luminoso, a fim de que a sua simples presença baste para nos conduzir ou nos reconduzir pelo reto caminho.

O ideal é uma força, a grande força; é uma paixão, e por conseguinte uma potência. Já o teremos sentido muitas vezes em seguida a um contato mais intimo com Deus, num retiro, após uma grande emoção. Tem-se ele posto a brilhar vasto e profundo, no céu de nossa alma, condensando todas as idéias numa só, e encarnando-se numa resolução mais enérgica e mais firme.

O ideal é como um sol que ilumina e aquece toda uma vida, que faz ver claro e belo na existência, e que a transforma. Apagai esse sol, todo o vosso ser recairá na sombra, ficareis triste, sentireis frio. Pelo contrário, deixai-vos empolgar, deixai-vos hipnotizar por ele: sua influência ser-vos-á preciosa, pois ele vos fará andar na luz e num vida intensa.

O ideal é a isca de que Deus se serve para atrair a Si! É alguma coisa que os olhos não vêem, que os sentidos não tocam, mas que brilha, alumia e guia. É como que um reflexo escapado ao sol divino. Sem ele, a alma não vive, vegeta; não anda, arrasta-se; não sobe, hesita, escorrega e cai. Mas com ele, e sempre mais bem excitada pela sua claridade, eleva-se, arroja-se e atinge até à beleza suprema.

Precisais de um ideal

Nos nossos dias, muitas vezes falta à juventude o ideal. Muitas almas se obstinam em permanecer banais, e cingem seus esforços a seguir a rotina tranqüila por onde passa a multidão ...

O Pe. Vuillermet, dirigindo-se a moços, lhes diz:

Precisamos de uma estrela polar, para a qual, mesmo nas horas mais sombrias, possamos dirigir os nossos olhares. Nossa vida necessita de um escopo preciso, de um centro único, que sirva de ponto de junção para todos os surtos generosos de nossa alma. Tende sempre diante dos olhos um ideal, contemplai-o, estudai-o, deixai-vos empolgar por ele! Amai-o apaixonadamente, loucamente. Então, estendidas todas as velas ao vento que sopra do largo, ganhai o alto mar! É o único meio de fazer alguma coisa e de ser alguém.

Onde irmos findar, com efeito, se não temos finalidade? Nada acharemos se nada procurarmos. Semelhantes ao navegador imprudente que toma o mar numa noite sombria, sem levar nem mapa, nem bússola, andaremos na vida sem sabermos aonde vamos, impelidos pelo capricho e arrastados pelas influências mais contraditórias. Ter um ideal é ter uma razão de viver, é também um meio de viver uma vida mais plena e mais alta.”

Qualidades desse ideal

a) Seja belo o vosso ideal, seja grande, seja sublime! Deixai o vosso coração apaixonar-se dele, isso vos permitirá ser menos tentada pelas miragens enganadoras das cobiças humanas. Deixai-o dilatar vossa alma e transportá-la para bem alto, lá onde aspirareis o ar puro dos píncaros. Então vereis a vossos pés as mil vaidades da terra; e se um dia vos der o desejo de tornar a descer a ela, dizei-vos que para isso será preciso abaixar-vos!

b) Seja verdadeiro o vosso ideal, segundo a vossa condição, as vossas forças e o vosso temperamento. Seja simples e bem determinado. Tanto quanto possível, fazei-o convergir para em torno da vossa virtude dominante; é a vossa principal força e o vosso poder mais precioso.

c) Enfim, seja claro, brilhante, luminoso o vosso ideal, nada de esbatido nem de vago; concretizai-o, se o puderdes, em algumas palavras, numa fórmula, num lema.

- “Deus o quer”, diziam os cruzados, e essas três palavras levantaram a Europa.
- “Ou sofrer ou morrer”, dizia Santa Teresa, e ela morreu de amor!
- “Meu Deus, meu dever, e avante!” diz o cristão.
- “Passar os mares, salvar uma alma, morrer mártir”, diz o missionário.

Eis aqui o lema que uma moça. Ardente e generosa, adotou ao sair de um retiro:

“Vibra, luta, sofre, ama, morre!”

Vibra, isto é, não sejas um ser sem vida, sem impulsos, sem ideal! Porém, qual harpa eólia, desfira tua alma, sob o arco divino ou mesmo, às vezes, sob a rude carícia do sofrimento, sons ao mesmo tempo possantíssimos e dulcíssimos.

Luta, isto é, não esqueças que, se “a vida do homem é um combate”, como diz a Escritura, a vida de um jovem cristã deve ser cheia de lutas também, e tanto mais numerosas quanto mais profundamente apegadas à sua fé e ao seu dever quiser ela ser. Lutas exteriores, lutas íntimas (as mais duras!). Seu coração será um verdadeiro campo de batalha, mas é isso que faz bem e que forja as almas!

Sofre. A luta acarreta o sofrimento, pois há sempre dentro de nós algo que se recusa ao combate. Além das dores que a vida nos traz, e ante as quais importa saber pronunciar não somente o “Fiat” da resignação, mas o “Obrigado” do amor, há outras que a alma que vibra, que luta e que ama quererá se impor, porque não se pode amar sem sofrer, e o sacrifício é o perfume e a assinatura do amor.

Ama. Sim, ama a Deus, ama teu próximo, ama os pobres, ama os infelizes, ama as almas! Ama, isto é, sai de ti, deixa teu coração prodigalizar em torno de ti seus eflúvios, sê a alegria, o sorriso, o raio de sol daqueles com quem deves viver. Como aquele mártir cuja língua haviam cortado e que com seu sangue escrevia na areia “Credo”, escreve tu em tua vida, por teus atos: “Meu Deus, eu vou amo!”

Morre. Quando se passou a vida a sofrer, a luta, a amar, a morte já não deve mais meter medo. Ela é “o Eco da vida”, o trânsito para um existência melhor, onde Deus nos espera com a coroa reservada para quem combateu bem: a aproximação dela traz, antes, a alegria e como que um antegozo da felicidade celeste.

(Excertos do livro: A Formação da donzela - Pe. José Baeteman)