sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Amor crucificado

Amor crucificado

O caráter divino do Amor de Jesus está em ser um Amor cruciado e cruciante.
(Primeira parte)


"A cruz é o fogo que purifica a alma
 e a embebe fortemente na virtude.
É a espada com que conquistamos a nossa liberdade
em relação às criaturas
e que nos exonera de toda dependência ou escravidão humana.
É o campo de batalha do amor divino,
 o altar do sacrifício, a maior glória de Deus."
 
O Amor de Jesus é cruciado

O Amor de Jesus, querendo mostrar-me toda a Sua grandeza bem como toda a Sua ternura para comigo, levou-O a crucificar-Se... Jesus me dá pessoalmente os Seus sofrimentos em prova desse Amor. "Entrego a minha alma à morte de mim mesmo..."(Jo 10,18), "Ninguém pode amar mais do que dar a sua vida pelos seus amigos" (Jo 15,13).

"Jesus Cristo, disse São Paulo, amou-me e entregou-Se à morte por mim" (Gl 2,20).

Ah, qual belo é o Amor de Jesus que nasce num mísero estábulo e é deitado na palha, numa manjedoura rústica. "Ó meu bem amado, exclama São Bernardo, quanto mais Vos contemplo pobre e miserável, tanto mais Vos amo e estimo!".

Quão terno é o Amor de Jesus, pobre operário, trabalhando com as mãos para ganhar o Seu pão, o de Sua Mãe Santíssima e o de São José.

Quão grande, sublime e arrebatador é o Amor de Jesus, prostrado no Jardim das Oliveiras, triste, desolado, agonizante, para depois triunfar de todas as angústias, de todas as dores e deste modo operar a minha salvação!

Quão belo é o Amor de Jesus por entre os escarros, as bofetadas, as zombarias da soldadesca ímpia de Caifás, de Anás, de Herodes, de Pilatos!

Como, porém, considerar o esplendor desse Rei de Amor, levando a Sua Nobre Cruz, crucificado entre dois celerados, amaldiçoado pelos homens, abandonado por Deus? E tudo isto por amor a mim!

Ó Amor, sim, inclinai Vossa Cabeça, deitai sobre mim os Vossos olhos moribundos e morrei dizendo-me: "Tudo está consumado!"

O amor de Jesus é cruciante

- Crucifica o homem velho, o homem dos sentidos, da cobiça, da concupiscência. Crucifica-o na Cruz de Jesus a fim de, ligando-o pelos laços de amor, fazer dele um homem novo.

Não é o grito primeiro do Amor de Jesus, ao encontrar-Se por entre os homens: "Fazei penitência, que o Reino de Deus está próximo"? (Mt 3,2). Exige de quem o quiser seguir como discípulo "que renuncie a si mesmo e carregue diariamente a cruz ao seu exemplo" (Lc 9,23).

Eis por que São Paulo nos indica como  a marca segura do verdadeiro discípulo do Salvador o "cingir-se de sua mortificação" (2 Cor 4,10). Acrescentando que quem pertence a Jesus Cristo, "crucifica a sua carne com suas paixões" (Gl 5,24).

Assim é que o amor de Jesus deve crucificar em mim o pecado cometido; o foco do pecado é a concupiscência; o instrumento do pecado que são os sentidos.

- Crucifica o homem justo e santo para que se assemelhe cada vez mais ao Mestre querido. Crucifica o mesmo no seu amor, para que mais se aproxime de Jesus crucificado, mais a Ele se una.

Crucifica-o nas suas Graças, pois toda Graça vem do Calvário e lhe reveste o caráter e a vida.

O Amor de Jesus crucifica ainda no próprio Tabor do amor, já que o sofrimento, o sacrifício, numa palavra a cruz, é o laço que prende o cristão a Jesus Cristo, prova única e real do seu amor para com o seu Deus.

O amor do coração fiel, da alma abrasada, sente necessidade de sofrer para que se possa consolar e se animar e assim suprir aquilo que quisera dizer e fazer de grande pelo seu Salvador. E quando o amor sofre, é-lhe alívio exclamar com toda sinceridade: "Meu Deus, eu Vos amo!..."

(Segunda parte)

O amor faz participar do estado da pessoa amada. - Meu amor para com Jesus deve, pois, ser como era o seu Amor para comigo, um amor crucificante e um amor crucificado.

Amor crucificante

- Jesus crucificou-Se. A mim também cabe crucificar-me com o meu Salvador pela expiação dos meus pecados passados - cada qual segundo sua natureza; meu orgulho, pela Sua profunda humildade; minha vaidade, pelo Seu desprezo dos homens sagazes e doutos, grandes e pequenos; meu amor-próprio, pelo abandono em que todos O deixaram; minha suscetibilidade pela grosseria e falta de polidez da parte dos Seus discipulos.

Jesus humilhou-Se até revestir a forma de escravo, de leproso, do amaldiçoado de Deus e dos homens, do verme, pisado e repisado.

- Jesus expiou minha sensualidade pela penitência de Sua Vida. Uma alimentação parca, um leito duro, como a terra, uma mísera casa sem ornato, eis Sua Vida de todo dia.

A pobreza fá-Lo sofrer até que abrace a Cruz em que vai expiar os pecados de cada um dos seus membros culpados. Atam-Lhe os pés para depois pregá-los e assim expiar os meus passos culpados. Atam-Lhe as mãos para depois pregá-las, a fim de expiar minha vaidade, minhas delicadezas, todos os pecados cometidos pelas mãos.

Põem-Lhe na testa sagrada a coroa de espinhos a fim de expiar essas coroas de rosas, de vaidade, de orgulho que a minha testa soube trazer.

Seus olhos, jorrando Sangue, choram os meus maus olhares.
Seus lábios guardam o silêncio do Cordeiro a fim de expiar minhas palavras indignas.
Suas faces são esbofeteadas por mãos sujas e impuras, a fim de purificar as minhas.
Todo o Seu Corpo é flagelado, coberto de chagas. E essas chagas, acrescidas do Sangue que delas corre, formam-Lhe toda a vestimenta na Cruz. Eis como Jesus expia minha sensualidade.

- Jesus expiou os meus pecados de cobiça, de ambição, de previdência que desconfia da Providência de Deus.

Nada possui e nada quer possuir. Vive da caridade dos seus discípulos. É este o sacrifício máximo do amor; não ter apego a mais nada, saber confiar só em Deus e abandonar-se ao mistério da sua Providência.

Amor crucificado

A cruz é alimento bem como a prova do amor divino.
A cruz caminha ao lado da santidade da alma, seguindo-lhe os passos, a natureza, as Graças.

A alma que ama na verdade, ama, portanto a cruz. Se amasse a Jesus pelo gozo, ou para o gozo, do seu amor, da sua paz, da sua felicidade, seu amor seria tão imperfeito quanto o amor-próprio que o soube inspirar.

É marca das grandes almas amar pela cruz e pelas diversas mortes que o amor pede. E, coisa admirável, Deus encontrou o segredo de fazer sofrer a alma até por entre as maiores Graças e na mais perfeita contemplação de sua Bondade.

Alma alguma jamais gozará de Deus como gozou a Alma humana de Jesus e todavia alma alguma jamais sofrerá como ela sofreu: "A Vida de Jesus, diz a Imitação, foi uma cruz, uma martírio perpétuo" (L.2, c.12, v.7).

A cruz é o fogo que purifica a alma e a embebe fortemente na virtude. É a espada com que conquistamos a nossa liberdade em relação às criaturas e que nos exonera de toda dependência ou escravidão humana. É o campo de batalha do amor divino, o altar do sacrifício, a maior glória de Deus.

Ó cruz de amor, adoro-te levando a Jesus Cristo!
Vem! Que eu te beije, te leve, te coroe. Tu serás a minha vida de amor.

(A Divina Eucaristia - Volume III - São Pedro Julião Eymard)
PS: Grifos meus

A Mortificação Cristã

A Mortificação Cristã,
Cardeal Desidério José Mercier

Livre-tradução do Artigo "La mortificación cristiana" do Cardeal Desidério José Mercier publicado em "Cuadernos de La Reja" número 2 do Seminário Internacional Nossa Senhora Corredentora da FSSPX.

Artigo 1 - Objeto da mortificação cristã

A mortificação cristã tem por fim neutralizar as influências malignas que o pecado original ainda exerce nas nossas almas, inclusive depois que o batismo as regenerou. Nossa regeneração em Cristo, ainda que anulou completamente o pecado em nós, nos deixa sem embargo muito longe da retidão e da paz originais.

O Concílio de Trento reconhece que a concupiscência, ou seja, o triple apetite da carne, dos olhos e do orgulho, se deixa sentir em nós, inclusive depois do batismo, afim de excitar-nos às gloriosas lutas da vida cristã (Conc. Trid., Sess. 5, Decretum de pecc. orig.).

A Escritura logo chama esta triple concupiscência de "homem velho", oposto ao "homem novo" que é Jesus que vive em nós e nós mesmos que vivemos em Jesus, como "carne" ou natureza caída, oposta ao "espírito" ou natureza regenerada pela graça sobrenatural.

Este velho homem ou esta carne, ou seja, o homem inteiro com sua dupla vida moral e física, deve ser, não digo aniquilado, porque é coisa impossível enquanto dure a vida presente, mas sim mortificado, ou seja, reduzido praticamente à impotência, à inércia e à esterilidade de um morto; há que impedir-lhe que dê seu fruto, que é o pecado, e anular sua ação em toda a nossa vida moral.
A mortificação cristã deve, portanto, abraçar o homem inteiro, estender-se a todas as esferas de atividade nas quais a natureza é capaz de mover-se. Tal é o objeto da virtude de mortificação. Vamos indicar sua prática, recorrendo sucessivamente as manifestações múltiplas de atividade em que se traduz em nós:

I) A atividade orgânica ou a vida corporal;
II) A atividade sensível, que se exerce seja debaixo da forma do conhecimento sensível pelos sentidos exteriores ou pela imaginação, seja debaixo da forma de apetite sensível ou de paixão;

III) A atividade racional e livre, princípio de nossos pensamentos e de nossos juízos, e das determinações de nossa vontade;

IV) Consideraremos a manifestação exterior da vida de nossa alma, ou nossas ações exteriores;

V) E, finalmente, o intercâmbio de nossas relações com o próximo.

Artigo 2 - Exercício da mortificação cristã

A. Mortificação do corpo

Limite-se, tanto quanto possa, em matéria de alimentos, ao estritamente necessário. Medite estas palavras que Santo Agostinho dirigia a Deus: "Me ensinastes, oh meu Deus, a pegar os alimentos somente como remédios. Ah, Senhor!, aqui quem de entre nós não vai além do limite? Se há um só, declaro que este homem é grande e que deve grandemente glorificar vosso nome" (Confissões, liv. X, cap. 31);

Roga a Deus com freqüência, roga-lhe a cada dia que lhe impeça, com Sua graça, de transpassar os limites da necessidade, ou deixar-se levar pelo atrativo do prazer;

Não pegue nada entre as refeições, ao menos que haja alguma necessidade ou razões de conveniência;

Pratique a abstinência e o jejum, mas pratique-os somente debaixo da obediência e com discrição;

Não lhe está proibido saborear alguma satisfação corporal, mas faça-o com uma intenção pura e bendizendo a Deus;

Regule seu sono, evitando nisto toda relaxação ou molície, sobretudo pela manhã. Se pode, fixe-se uma hora para deitar-se e levantar-se, e obrigue-se a ela energicamente;

Em geral, não descanse senão na medida do necessário; entregue-se generosamente ao trabalho, e não meça esforços e penas. Tenha cuidado para não extenuar seu corpo, mas guarde-se também de agradá-lo: quando sentir que ele está disposto a rebelar-se, por pouco que seja, trate-o como a um escravo;

Se sente alguma ligeira indisposição, evite irritar-se com os demais por seu mal humor; deixe aos seus irmãos o cuidado de queixar-se; pelo que lhe cabe, seja paciente e mudo como o divino Cordeiro que levou verdadeiramente todas as nossas enfermidades;

Guarde-se de pedir uma dispensa ou revogação à sua ordem do dia pelo mínimo mal-estar. "Há que fugir como da peste de toda dispensa em matéria de regras", escrevia São João Berchmans;

10º Receba docilmente, e suporte humilde, paciente e perseverantemente a mortificação penosa que se chama doença.

B. Mortificação dos sentidos, da imaginação e das paixões

Feche seus olhos, diante de tudo e sempre, a todo espetáculo perigoso, e inclusive tenha a valentia de fechá-los a todo espetáculo vão e inútil. Veja sem olhar; não se fixe em ninguém para discernir sua beleza ou feiúra;

Tenha seus ouvidos fechados às palavras bajuladoras, aos louvores, às seduções, aos maus conselhos, às maledicências, às zombarias que ferem, às indiscrições, à crítica malévola, às suspeitas comunicadas, a toda palavra que possa causar o menor esfriamento entre duas almas;

Se o sentido do olfato tem que sofrer algo por conseqüência de certas doenças ou debilidades do próximo, longe de queixar-se disso, suporte-o com uma santa alegria;

No que concerne à qualidade dos alimentos, seja muito respeitoso do conselho de Nosso Senhor: "Comei o que vos for apresentado". "Comer o que é bom sem comprazer-se nisto, o que é mau sem mostrar aversão, e mostrar-se indiferente tanto em um como no outro, esta é a verdadeira mortificação", dizia São Francisco de Sales;

Ofereça a Deus suas comidas, imponha-se na mesa uma pequena privação: por exemplo, negue-se um grão de sal, um copo de vinho, uma guloseima, etc.; os demais não o perceberão, mas Deus o terá em conta;

Se o que lhe apresentam excita vivamente seu atrativo, pense no fel e no vinagre que apresentaram a Nosso Senhor na cruz: isto não lhe impedirá de saborear o manjar, mas servirá de contrapeso ao prazer;

Há que evitar todo contato sensual, toda carícia em que se poria certa paixão, em que se buscaria ou onde se teria um gozo principalmente sensível;

Prescinda de ir aquecer-se ao menos que lhe seja necessário para evitar-lhe uma indisposição;

Suporte tudo o que aflige naturalmente a carne; especialmente o frio do inverno, o calor do verão, a dureza da cama e todas as incomodidades do gênero. Faça boa cara em todos os tempos, sorria a todas as temperaturas. Diga com o profeta: "Frio, calor, chuva, bendizei ao Senhor". Felizes se podemos chegar a dizer com gosto esta frase tão familiar a São Francisco de Sales: "Nunca estou melhor do que quando não estou bem";

10º Mortifique sua imaginação quando lhe seduz com a isca de um posto brilhante, quando se entristece com a perspectiva de um futuro sombrio, quando se irrita com a recordação de uma palavra ou de um ato que o ofendeu;

11º Se sente em você a necessidade de sonhar, mortifique-a sem piedade;

12º Mortifique-se com o maior cuidado sobre o ponto da impaciência, da irritação ou da ira;
13º Examine a fundo seus desejos, e submeta-os ao controle da razão e da fé: você não deseja mais uma vida longa que uma vida santa? prazer e bem-estar sem tristeza nem dores, vitórias sem combates, êxitos sem contrariedades, aplausos sem críticas, uma vida cômoda e tranqüila sem cruzes de nenhum tipo, ou seja, uma vida completamente oposta à de nosso divino Salvador?

14º Tenha cuidado de não contrair certos costumes que, sem ser positivamente maus, podem chegar a ser funestos, tais como o costume de leituras frívolas, dos jogos de azar, etc.;

15º Trate de conhecer seu defeito dominante, e quando o tiver conhecido, persiga-o até suas últimas pregas. Por isso, submeta-se com boa vontade ao que poderia ter de monótono e de entediado na prática do exame particular;

16º Não lhe está proibido ter bom coração e mostrá-lo, mas fique atento para o perigo de exceder o justo meio. Combata energicamente os afetos demasiado naturais, as amizades particulares, e todas as sensibilidades moles do coração.

C. Mortificação do espírito e da vontade

Mortifique seu espírito proibindo-lhe todas as imaginações vãs, todos os pensamentos inúteis ou alheios que fazem perder o tempo, dissipam a alma, e provocam o desgosto do trabalho e das coisas sérias;

Deve distanciar de seu espírito todo pensamento de tristeza e de inquietude. O pensamento do que poderá suceder no futuro não deve preocupá-lo. Quanto aos maus pensamentos que o molestam, deve fazer deles, distanciando-os, matéria para exercer a paciência. Se são involuntários, não serão para você senão uma ocasião de méritos;

Evite a teimosia em suas idéias, e a obstinação em seus sentimentos. Deixe prevalecer de boa vontade o juízo dos demais, salvo quando se trate de matérias em que você tem o dever de pronunciar-se e falar;

Mortifique o órgão natural de seu espírito, ou seja, a língua. Exerça-se de boa vontade no silêncio, seja porque sua Regra o prescreve, seja porque você o impõe espontaneamente;

Prefira escutar os demais do que falar você mesmo; mas, sem embargo, fale quando convenha, evitando tanto o excesso de falar demasiado, que impede os demais expressar seus pensamentos, como o de falar demasiado pouco, que denota indiferença que fere ao que dizem os demais;

Não interrompa nunca quem fala, e não corte com uma resposta precipitada quem lhe pergunta;

Tenha um tom de voz sempre moderado, nunca brusco nem cortante. Evite os "muito", os "extremamente", os "horrivelmente", etc.: não seja exagerado em seu falar;

Ame a simplicidade e a retidão. A simulação, os rodeios, os equívocos calculados que certas pessoas piedosas se permitem sem escrúpulo, desacreditam muito a piedade;

Abstenha-se cuidadosamente de toda palavra grosseira, trivial ou inclusive ociosa, pois Nosso Senhor nos adverte que nos pedira conta delas no dia do Juízo;

10º Acima de tudo, mortifique sua vontade; é o ponto decisivo. Adapte-a constantemente ao que sabe ser do beneplácito divino e da ordem da Providência, sem ter nenhuma conta nem de seus gostos nem de suas aversões. Submeta-se inclusive a seus inferiores nas coisas que não interessam para a glória de Deus e os deveres de seu cargo;

11º Considere a menor desobediência às ordens e inclusive aos desejos de seus Superiores como dirigida a Deus;

12º Lembre-se de que praticará a maior de todas as mortificações quando ame ser humilhado e quando tenha a mais perfeita obediência àqueles a quem Deus quer se se submeta;

13º Ame ser esquecido e ser tido por nada: é o conselho de São João da Cruz, é o conselho da Imitação: não fale apenas de si mesmo nem para bem nem para mal, senão busque pelo silêncio fazer-se esquecer;

14º Diante de uma humilhação ou repreensão, se sente tentado a murmurar. Diga como Davi: "Melhor assim! Me é bom ser humilhado!";

15º Não entretenha desejos frívolos: "Desejo poucas coisas, e o pouco que desejo, o desejo pouco", dizia São Francisco;

16º Aceite com a mais perfeita resignação as mortificações chamadas de Providência, as cruzes e os trabalhos unidos ao estado em que a Providência o pôs. "Quanto menos há de nossa eleição, mais há de beneplácito divino", dizia São Francisco de Sales. Queríamos escolher nossas cruzes, ter outra distinta da nossa, levar uma cruz pesada que tivesse ao menos algum brilho, antes que uma cruz ligeira que cansa por sua continuidade: Ilusão! Devemos levar nossa cruz, e não outra, e seu mérito não se encontra em sua qualidade, senão na perfeição com que a levamos;

17º Não se deixe turbar pelas tentações, pelos escrúpulos, pelas aridezes espirituais: "o que se faz durante a sequidão é mais meritório diante de Deus do que o que se faz durante a consolação", dizia o santo bispo de Genebra;

18º Não devemos entristecer-nos demasiado por nossas misérias, senão mais bem humilhar-nos. Humilhar-se é uma coisa boa, que poucas pessoas compreendem; inquietar-se e impacientar-se é uma coisa que todo o mundo conhece e que é má, porque nesta espécie de inquietude e de despeito o amor próprio tem sempre a maior parte;

19º Desconfiemos igualmente da timidez e do desânimo, que fazem perder as energias, e da presunção, que não é mais do que o orgulho em ação. Trabalhemos como se tudo dependesse de nossos esforços, mas permaneçamos humildes como se nosso trabalho fosse inútil.

D. Mortificações que há que praticar em nossas ações exteriores

Deve ser o mais exato possível em observar todos os pontos de sua regra de vida, obedecer sem demora, lembrando-se de São João Berchmans, que dizia: "Minha maior penitência é seguir a vida comum"; "Fazer o maior caso das menores coisas, tal é o meu lema"; "Antes morrer que violar uma só de minhas regras!";

No exercício de seus deveres de estado, trate de estar muito contente com tudo o que parece feito de propósito para desagradá-lo e molestá-lo, lembrando-se também aqui da frase de São Francisco de Sales: "Nunca estou melhor quando não estou bem";

Não conceda jamais um momento à preguiça; da manhã à noite, esteja ocupado sem descanso;

Se sua vida se passa dedicada, ao menos em partes, ao estudo, aplique os seguintes conselhos de Santo Tomás de Aquino aos seus alunos: "Não se contentem com receber superficialmente o que lêem ou escutam, senão tratem de penetrar e aprofundar seu sentido. - Não fiquem nunca com dúvidas sobre o que podem saber com certeza. - Trabalhem com uma santa avidez em enriquecer seu espírito; classifiquem com ordem em sua memória todos os conhecimentos que possa adquirir. - Sem embargo, não tratem de penetrar os mistérios que estão por acima de sua inteligência";

Ocupe-se unicamente da ação presente, sem voltar ao que precedeu nem adiantar-se pelo pensamento ao que vem a seguir; diga com São Francisco: "Enquanto faço isto, não estou obrigado a fazer outra coisa"; "Apressemo-nos com bondade: será tão logo tanto quanto esteja bom";

Seja modesto em sua compostura. Nenhum porte era tão perfeito como o de São Francisco; tinha sempre a cabeça direita, evitando igualmente a ligeireza que a gira em todos os sentidos, a negligência que a inclina adiante e o humor orgulhoso e altivo que a levanta para trás. Seu rosto estava sempre tranqüilo, livre de toda preocupação, sempre alegre, sereno e aberto, sem ter sem embargo uma jovialidade indiscreta, sem risadas ruidosas, imoderadas ou demasiado freqüentes;

Quando se encontrava só mantinha-se em tão boa compostura como diante de uma grande assembléia. Não cruzava as pernas, não apoiava a cabeça no encosto. Quando rezava, ficava imóvel como uma coluna. Quando a natureza lhe sugeria seus gostos, não a escutava em absoluto;

Considere a limpeza e a ordem como uma virtude, e a sujeira e a desordem como um vício: evite os vestidos sujos, manchados ou rasgados. Por outra parte, considere como um vício ainda maior o luxo e o mundanismo. Faça de modo de ao ver sua vestimenta e adereços, ninguém diga: está desarrumado; nem: está elegante; senão que todo o mundo possa dizer: está decente.

E. Mortificações para praticar em nossas relações com o próximo

Suporte os defeitos do próximo: faltas de educação, de espírito, de caráter. Suporte tudo o que nele lhe desagrada: seu modo de andar, sua atitude, seu tom de voz, seu sotaque, e todo o resto;

Suporte tudo a todos e suporte até o fim e cristãmente. Não se deixe levar jamais por essas impaciências tão orgulhosas que fazem dizer: Que posso fazer de tal o qual? Em que me concerne o que diz? Para que preciso o afeto, a benevolência ou a cortesia de uma criatura qualquer, e desta em particular? Nada é menos segundo Deus que estes desprendimentos altaneiros e estas indiferenças depreciativas; melhor seria, certamente, uma impaciência;

Encontra-se tentado a irar-se? Pelo amor a Jesus, seja manso. De vingar-se? Devolva bem por mal. Diz-se que o segredo de chegar ao coração de Santa Teresa, era fazer-lhe algum mal. De mostrar a alguém uma cara má? Sorria com bondade. De evitar seu encontro? Busque-o por virtude. De falar mal dele? Fale bem. De falar-lhe com dureza? Fale doce e cordialmente;

Ame fazer o elogio de seus irmãos, sobretudo daqueles a quem sua inveja se dirige mais naturalmente;

Não diga acuidades em detrimento da caridade;

Se alguém se permite em sua presença palavras pouco convenientes, ou mantém conversações próprias para danificar a reputação do próximo, poderá às vezes repreender com doçura a quem fala, mas mais freqüentemente será melhor distanciar habilmente a conversação ou manifestar por um gesto de descontentamento ou de desatenção querida que o que se está dizendo o desagrada;

Quando lhe custe fazer um favor, ofereça-se a fazê-lo: terá duplo mérito;

Tenha horror de apresentar-se diante de si mesmo ou dos demais como uma vítima. Longe de exagerar suas cargas, esforce-se em encontrá-las leves. O são em realidade muito mais freqüentemente do que parece, e o seriam sempre se tivesse um pouco mais de virtude.

Conclusão

Em geral, saiba negar à natureza o que pede sem necessidade.

Saiba fazer-lhe dar o que ela nega sem razão. Seus progressos na virtude, disse o autor da Imitação de Cristo, serão proporcionais à violência que saiba fazer-se.

Dizia o santo Bispo de Genebra: "Há que morrer afim de que Deus viva em nós: porque é impossível chegar à união da alma com Deus por outro caminho que pela mortificação. Estas palavras: Há que morrer! são duras, mas serão seguidas de uma grande doçura, porque não se morre a si mesmo senão para unir-se a Deus por esta morte".

Quisera Deus que pudéssemos aplicar-nos com pleno direito as seguintes palavras de São Paulo: "Em todas as coisas sofremos a tribulação... Trazemos sempre em nosso corpo a morte de Jesus, afim de que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos" (2 Cor. 4, 10).

Noivos católicos

Noivos católicos



Resolvestes, após prolongadas reflexões, contrair o matrimônio. Nutris a esperança, que esta mútua união constitua para vós a garantia, não só da felicidade desta, mas ainda da bem-aventurança da vida eterna. Ora, esta vossa esperança realizar-se-á, tão somente, quando vos tornardes cônjuges verdadeiramente cristãos.

Verdade é que corresponde inteiramente aos intuitos do Criador, que a família seja fonte da mais pura e mais profunda felicidade terrena. Esta, porém, achareis apenas no seio de uma família que assim for, com a Sabedoria e a Bondade infinita de Deus queria que ela fosse. É que todos os preceitos do Criador são inspirados, única – e exclusivamente, da maior Sabedoria e do mais profundo Amor para convosco.

Uma vida que estiver em conformidade com a Santíssima Vontade deve constituir para nós, forçosamente, a felicidade e o bem-estar, da mesma forma como uma vida contrária aos seus mandamentos nos deve levar, com conseqüência impreterível, ao infortúnio e à perdição.

(Excertos do livro: As ordens do Criador – Livro para noivos – Pe. Hardy Schilgen)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Terço e Medalha na vida da donzela

Terço e Medalha na vida da donzela


A Filha de Maria tem muitos meios de provar seu amor a sua Mãe; para não alongar, falaremos apenas de dois: o terço e a medalha.

Não se compreende uma Filha de Maria sem o terço. Este faz parte integrante dos seus exercícios de piedade, e o dia em que ela não o recita deverá parecer-lhe triste como um dia sem sol! Ela o trará sempre consigo, rezá-lo-á na igreja, na rua, nos bondes, em toda parte; à noite, o seu último pensamento será para Maria, pois ela adormecerá de terço na mão.

É a sua arma própria; nunca se separará dela, e dela se servirá, sobretudo quando a luta for mais viva. No dia em que uma Filha de Maria abandona o seu terço, isso é mau sinal; outro amor que o da Virgem terá vindo tomar posse do seu coração. Não se pode servir a dois senhores!...

Lembrai-vos de que o terço é também o termômetro da vida espiritual; não se pode rezá-lo bem sem ficar fervoroso, e no dia em que ele é rezado seja como for, como uma penitência, é que o reinado de Maria foi posto em xeque no coração. Enfim, quando o vosso terço dormir numa caixinha ou numa gaveta do vosso quarto, então gaveta em vós coisas de que tereis de corar e que não quereríeis confessar a vossa mãe.
O sacerdote treme pela alma que lhe diz: “Eu não rezo mais o meu terço”. É a primeira oração que se abandona...

E não receeis a monotonia dessa oração.

As palavras que os lábios pronunciam protegem e sustentam as meditações sucessivas sobre os mistérios; o pensamento orante deserta-as ao mesmo tempo que os segue, ultrapassa-as ao mesmo tempo que delas se impregna. Essa oração, que parece verbal, é a mais espiritual de todas; essa oração, que parece escrava, é a mais emancipada de todas; essa oração, que parece rudimentar, é a mais contemplativa e pode tornar-se a mais pessoal de todas."

Para corroborar estas asserções de G. Goyau, eis agora os belos pensamentos do Cônego Coube:

A palavra terço, os cépticos reclamam: ‘Para que essa repetição monótona de Ave-Maria? A alma tem asas, deixem-na voar. Por que a aprisionarem e a condenarem a girar nesse moinho de orações?’ Esta objeção é falha de psicologia. É um fato que, quando o homem acha uma fórmula justa, precisa, adequada para exprimir um dos sentimentos profundos de sua alma, o seu amor ou o seu ódio, o seu entusiasmo ou a sua indignação, descansa nela, compraz-se nela, torna a ela à saciedade e verdadeiramente com razão.

E a razão disto, a razão filosófica, é esta: é que, pronunciando essa fórmula, sejam quais forem o acento que ele ponha nela, a percepção que dela tenha, a emoção que sinta com ela, ele não a penetra e não a aprofunda toda a seu gosto, não a esgota. Destarte, justo é que torne a ela para nela achar novos aspectos da verdade, para fazer saltar dela novas centelhas. Foi por isso que Lacordaire disse muito bem, com tanta elegância quanta profundeza, que o amor tem só uma palavra, e dizendo-a sempre, nunca se repete.

Perguntai aos soldados em marcha por que é que eles cantam dez vezes, cem vezes as mesmas palavras na mesma toada. Não devem eles recear aumentar a monotonia da marcha pelo do canto? Não, senhores, porque sob a simplicidade, e quiçá sob a banalidade, das palavras, pode haver nesse estribilho algo de grande e de nobre, um grito de amor à pátria, uma saudação aos antepassados, um apelo à vitória, um desafio à morte. E dez e cem vezes a alma do soldado se envolta nesse desafio, nesse apelo, nessa saudação, nesse grito de amor.

Porque é que o mendigo se conserva horas a fio sob a chuva e sob a neve, repetindo as mesmas palavras: Uma esmola pelo amor de Deus? É porque a experiência lhe mostrou nessas palavras a fórmula mais capaz de apiedar o bom Samaritano que passa.

Ora, depois do Padre-Nosso, que, aliás, associais à Ave-Maria no terço, não há oração que, melhor do que essa humilde Ave-Maria, traduza os sentimentos mais sagrados de nossos corações. A primeira parte é a aclamação triunfal, é o entusiasmo da multidão que lança à Rainha as suas bênçãos e flores. A segunda parte é um grito plangente, é a grande angústia da humanidade que se sente condenada a morrer: Rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte...”

Sem dúvida, em recitando o vosso Rosário, tereis distrações, mas desfiai-o mesmo assim, repeti, murmurai a Maria o vosso canto de amor. Suponde uma criança que vai ao campo; é domingo, ela quer colher flores para a sua mãe, e à noite traz a esta um grande feixe de margaridas, de papoulas, de madressilvas e de mil outras plantas que terá colhido no decurso do seu passeio.

Acaso a mãe, recebendo essas flores, olhará se elas são belas ou feias, frescas ou murchas? Umas terão a corola murcha, outras mão terão talo, mas o todo formará um ramalhete através do qual a mãe verá alegre, o coração do filho que quis obsequiá-la. Assim também Maria.

Colhei para Ela, ao longo do dia todo, as rosas das vossas Ave-Marias, e, vinda a noite, oferecei-as a vossa Mãe do Céu.Ela não quererá “depenar” o vosso ramalhete, a pretexto de terdes tido algumas distrações, de haverdes rezado com demasiada rapidez, talvez, que sei? Não, Maria também não verá em todas essas flores, em todas essas Ave-Marias, senão o vosso coração de filha que a ama e que procurou obsequiá-la.

Medalha

Algumas pessoas usam trazer sobre si a fotografia daqueles que lhes são caros. Ora, a vossa medalha é como a fotografia da vossa Mãe do Céu; ela vos foi dada pelo sacerdote que vos recebeu como Filha de Maria; que lembrança inesquecível essa medalhinha!

É um preservativo contra o pecado, um socorro nas tentações, e também um meio de reanimar o vosso fervor. Podereis, talvez, trazer sobre vós muitas jóias, mas nenhuma vos deve ser tão preciosa, tão cara como a vossa medalha! É como que um raio de luz caído do Céu, um sorriso de Maria gravado em metal, uma relíquia preciosa.

Beijai-a com amor, sobretudo de manhã ao levantar-vos, e à noite ao deitar-vos; sejam para Maria o vosso primeiro e o vosso último sorriso. E repeti-lhe com confiança, com candura infantil: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós!”. Menina, Ela guiará vossos passos e vos conservará na inocência; donzela, Ela vos protegerá por entre os escolhos da vida; e, até à vossa morte, ficará sobre vós como a mais deliciosa lembrança da melhor das mães.

Em novembro de 1914, numa ambulância bem próxima do “front”, chegava um rapaz de Paris com a perna varada por um estilhaço de obus; a padiola estava cheia de sangue, e ele sorria. Quando o transportaram para a mesa de operação, julgaram-se no dever de lhe tirar as roupas que o sangue lhe colara à pele. Ele sofria terrivelmente, mas vigiava o vaivém em torno de si. Ao cabo de um momento, disse ao padioleiro:

Atenção, eu tenho uma medalha por baixo da camisa, não toquem nela! - Deixo-a com você, meu rapaz, mas fique tranqüilo, não se enerve! - Não estou enervado, disse ele, estou apenas com a perna quebrada, vão-me pôr outra de pau branco, isto não tem importância; mas a minha medalha, se me fizerem dormir daqui a pouco, é preciso ter cuidado com ela. Ela me foi dada, no dia da partida, por minha mulher.

Fazia só oito dias que estávamos casados. Ela me disse: “Veja lá, meu querido; você guardará essa medalha como lembrança minha; e a beijará todas as noites pensando em mim, e fará a sua oraçãozinha”. Pois bem! Como você sabe, eu não valho grande coisa, vivi “à la diable”, mas em lembrança de minha querida mulher, uma Bretã que tem uma fé de anjo, não passo um só dia sem beijar minha medalha, e se não o fizesse ficaria cheio de pena; e teria a impressão de ter cometido um pecado...”

Menina, tende também essa lembrança comovida, esse culto da vossa medalha; não tereis, como esse soldadinho, circunstâncias tão trágicas a atravessar, mas haverá momentos na vida em que sentireis a necessidade de beijar a vossa medalha, para haurir nela a força e a coragem de ficardes fiel a Deus e ao dever.

(Excertos do livro: A formação da donzela – Pe. Baeteman)

PS: Grifos meus
Ver também: Medalha Milagrosa (Dom Antônio de Castro Mayer)
                    Observações sobre o Santo Rosário

Sermão sobre a Quaresma - São Leão Magno

Sermão sobre a Quaresma
São Leão Magno
Evangelho: S. Mateus 4, 1-11


Há muitas batalhas dentro de nós: a carne contra o espírito, o espírito contra a carne. Se, na luta, são os desejos da carne que prevalecem, o espírito será vergonhosamente rebaixado de sua dignidade própria e isto será uma grande infelicidade, de rei que deveria ser, torna-se escravo.

Se, ao contrário, o espírito se submete ao seu Senhor, põe sua alegria naquilo que vem do céu, despreza os atrativos das volúpias terrestres e impede o pecado de reinar sobre o seu corpo mortal, a razão manterá o cetro que lhe é devido de pleno direito, nenhuma ilusão dos maus espíritos poderá derrubar seus muros; porque o homem só tem paz verdadeira e a verdadeira liberdade quando a carne é regida pelo espírito, seu juiz, e o espírito governado por Deus, seu Mestre.

É, sem dúvida, uma preparação que deve ser feita em todos os tempos: impedir, por uma vigilância constante, a aproximação dos espertíssimos inimigos. Mas é preciso aperfeiçoar essa vigilância com ainda mais cuidado, e organizá-la com maior zelo, nesta época do ano, quando nossos pérfidos inimigos redobram também a astúcia de suas manobras.

Eles sabem muito bem que esses são os dias da santa Quaresma e que passamos a Quaresma castigando todas as molezas, apagando todas as negligências do passado; usam então de todo o poder de sua malícia para induzir em alguma impureza aqueles que querem celebrar a santa Páscoa do Senhor; mudar para ocasião de pecado o que deveria ser uma fonte de perdão.

Meus caros irmãos, entramos na Quaresma, isto é, em uma fidelidade maior ao serviço do Senhor. É como se entrássemos em um combate de santidade.

Então preparemos nossas almas para o combate das tentações e saibamos que quanto mais zelosos formos por nossa salvação, mais violentamente seremos atacados por nossos adversários. Mas Aquele que habita em nós é mais forte do que aquele que está contra nós. Nossa força vem d’Aquele em quem pomos nossa confiança.

Pois se o Senhor se deixou tentar pelo tentador foi para que tivéssemos, com a força de seu socorro, o ensinamento de seu exemplo. Acabaste de ouvi-Lo. Ele venceu seu adversário com as palavras da lei, não pelo poder de sua força: a honra devida a sua humanidade será maior, maior também a punição de seu adversário se Ele triunfa sobre o inimigo do gênero humano não como Deus, mas como homem.

Assim, Ele combateu para que combatêssemos como Ele; Ele venceu para que também nós vencêssemos da mesma forma. Pois, meus caríssimos irmãos, não há atos de virtude sem a experiência das tentações, a fé sem a provação, o combate sem um inimigo, a vitória sem uma batalha.

A vida se passa no meio das emboscadas, no meio dos combates. Se não quisermos ser surpreendidos, é preciso vigiar; se quisermos vencer, é preciso lutar. Eis porque Salomão, que era sábio, diz: Meu filho, quando entras para o serviço do Senhor, prepara a tua alma para a tentação (Eclo. 2,1).

Cheio da sabedoria de Deus, sabia que não há fervor sem combate laborioso; prevendo o perigo desses combates, anunciou-os de antemão para que, advertidos dos ataques do tentador, estivéssemos preparados para aparar seus golpes.

PS: Grifos meus

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A viuvez cristã - Papa Pio XII

A viuvez cristã


E, sentado frente ao Tesouro do Templo,
 observava como a multidão lançava pequenas moedas no Tesouro,
e muitos ricos lançavam muitas moedas. 
Vindo uma pobre viúva, lançou duas moedinhas, isto é, um quadrante.
E chamando a si os discípulos, disse-lhes:
 “Em verdade eu vos digo que esta viúva que é pobre
lançou mais do que todos os que ofereceram moedas ao Tesouro. 
Pois todos os outros deram do que lhes sobrava.
Ela, porém, na sua penúria,
ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver.”
(Mc., 12, 41-44)

Nota-se muitas vezes, que o próprio termo “viúva”, evoca nos que o ouvem uma impressão de tristeza, e mesmo uma espécie de afastamento; por isto, algumas recusam-se a usá-lo e esforçam-se por todos os meios para fazer esquecer a sua condição, a pretexto de que ela humilha, excita à comiseração, coloca-as num estado de inferioridade do qual querem evadir-se e apagar até a lembrança.

Reação normal aos olhos de muitos, porém, dizemo-lo bem claramente, reação pouco cristã; sem dúvida ela comporta um movimento de apreensão mais ou menos instintivo diante do sofrimento, mas também trai uma ignorância das realidades profundas.

Quando a morte fere um chefe de família na força da idade e o tira ao seu lar, planta ao mesmo tempo no coração da esposa uma cruz pesadíssima, uma dor indelével, a dor do ente a quem se arranca a melhor parte de si mesmo, a pessoa amada que foi o centro do seu afeto, o ideal da sua vida, capaz de lhe compreender todas as penas e de aplaca-las.

De repente, eis da sua dor e das responsabilidades que tem de afrontar: como assegurar a própria subsistência e a dos filhos? Como resolver este cruel dilema: ocupar-se dos seus, ou deixar a sua casa para ir ganhar o seu pão de cada dia? Como terá de fazer à ajuda de parentes próximos ou de outras famílias?

Basta evocar estas questões para compreender até que ponto a alma da viúva experimenta uma sensação de esmagamento, e, às vezes, de revolta, ante a imensidade da amargura que a abebera, da angústia que a estreita como muralha intransponível.

Por isto algumas abandonam-se a uma espécie de resignação passiva, perdem o gosto de viver, recusam sair do seu sofrimento, enquanto as dispensem de enfrentar leal e corajosamente as suas verdadeiras responsabilidades.

Prolongamento das graças do matrimônio e a preparação da eflorescência delas na luz de Deus

Nos primeiros séculos da Igreja, a organização das comunidades cristãs designava às viúvas um papel particular. Durante a sua vida mortal, Cristo testemulhava-lhes uma benevolência especial, e, depois Dele, os Apóstolos as recomendavam ao afeto dos cristãos e traçam-lhes regras de vida e de perfeição. São Paulo descreve a viúva como “aquela que pôs a sua esperança em Deus, e que persevera noite e dia nas súplicas e nas preces” (I Tim 5,5).

Conquanto a Igreja não condene as segundas núpcias, todavia assinala a sua predileção pelas almas que querem ficar fiéis ao seu esposo e ao simbolismo perfeito do sacramento do Matrimônio. Rejubila-se de ver cultivar as riquezas espirituais próprias desse estado.

A primeira de todas, parece-nos é a convicção, vivida, de que, longe de destruir os laços de amor humano e sobrenatural contraídos pelo Matrimônio, a morte pode aperfeiçoá-los e reforçá-los. Sem dúvida, no plano puramente jurídico e no das realidades sensíveis, a instituição matrimonial não mais existe; porém aquilo que lhe constituía a alma, aquilo que lhe dava vigor e beleza, o amor conjugar com todo o seu esplendor e com os seus anseios de eternidade, subsiste, como subsistem os entes espirituais e livres que se voltaram um ao outro.

Quando um dos cônjuges, liberto dos apegos carnais, entra na intimidade divina, Deus o livra de toda fraqueza e de todas as escórias do egoísmo; convida também aquele que ficou na terra estabelecer-se numa disposição de alma mais pura e mais espiritual.

Já que um dos esposos consumou o seu sacrifício, não deve o outro aceitar desapegar-se mais da terra e renunciar as alegrias intensas, porém fugazes, do afeto sensível e carnal que ligava o esposo ao lar e lhe açambarcava o coração e as energias?

Pela aceitação da cruz, da separação, da renúncia à presença cara, trata-se agora de conquistar uma outra presença, mais íntima, mais profunda, mais forte. Uma presença que também será purificante, pois aquele que vê a Deus face a face não tolera, naqueles a quem mais amou durante a sua existência terrena, a preocupação de si mesmo, o desalento, os apegos inconsistentes.

Se já o sacramento do Matrimônio, símbolo do amor redentor de Cristo à sua Igreja, aplica ao esposo e à esposa a realidade desse amor, transfigura-os, torna-os semelhantes, um ao Cristo que se entrega para salvar a humanidade, e o outro à Igreja redimida que aceita participar do sacrifício de Cristo, então a viúvez torna-se , de alguma sorte, o desfecho dessa consagração mútua; figura a vida presente da Igreja militante privada da visão de seu Esposo celeste, com quem no entanto fica indefectivamente unida, marchando para Ele na fé e na esperança, vivendo desse amor que a sustenta em todas as suas provações, e aguardando impacientemente o cumprimento definitivo das promessas iniciais.

Tal é a grandeza da viuvez quando vivida como o prolongamento das graças do Matrimônio e como a preparação da eflorescência delas na luz de Deus. Que pobre consolo humano poderia jamais igualar estas maravilhosas perspectivas? Mas também é preciso merecer penetrar-lhes o sentido e o alcance, e pedir essa compreensão por uma prece humilde, atenta, e pela aceitação corajosa das vontades do Senhor.

A necessidade de cultivar a própria vida espiritual

... Não deixe passar nenhum dia sem se conceder um tempo de recolhimento, alguns momentos privilegiados em que se sinta mais perto do Senhor e mais perto daquele que continua a velar por ela e pelo lar. Reserve-se também cada ano alguns dias consagrados mais exclusivamente à reflexão e à oração longe do barulho, das preocupações cotidianas, tão esmagadores. Achará ela aí uma segurança inexprimível que lhe iluminará todas as decisões e lhe permitirá assumir com firmeza as suas responsabilidades de chefe de família.

Escusa dizer que essa prece deverá ser acompanhada da prática sacramental, da participação na Liturgia, e da prática dos outros meios de santificação que a ajudarão a se defender das tentações insidiosas, particularmente das do coração e dos sentidos.

A lembrança no ausente deve inspirar coragem à viúva na sua tarefa educadora

No seu lar, continuará a viúva a praticar o dom de si mesma que prometeu no dia do seu casamento. Seus filhos esperam dela, visto ocupar ela também o lugar do pai. Por seu lado, a viúva faz recair sobre os filhos o afeto sensível que dava ao marido; apega-se ternamente a eles, e, no entanto, também nisso deve ficar fiel à sua missão, fazer calar os apelos por demais prementes de um coração sensibilizado ao extremo, para assegurar aos filhos uma formação viril, sólida, aberta a sociedade, para lhes deixar a liberdade a que eles têm direito, e, em particular, na escolha de um estado de vida.

Seria funesto consumir-se em vãos pesares, comprazer-se em recordações amolentadoras, ou, inversamente, deixar-se espantar por sombrias perspectivas de futuro. A viúva consagrar-se-á à sua tarefa de educadora com a delicadeza e o tato de uma mãe, sem dúvida, mas ficará unida em espírito a seu marido, que lhe sugerirá em Deus as atitudes a adotar, dar-lhe-á autoridade e clarividência.

Cumpre que a lembrança do ausente, em vez de impedir ou de diminuir o arrojo generoso e a aplicação às tarefas necessárias, inspire a coragem de as cumprir integralmente.

O testemunho de uma felicidade mais profunda, mais estável e mais luminosa

Nas relações sociais, não pode a viúva renunciar ao lugar que lhe compete. Sem dúvida, aparece ela exteriormente cercada de uma reserva mais assinalada, pois participa mais do mistério da cruz, e a gravidade do seu comportamento acusa a influência de Deus na sua vida.

Mas, justamente por esta razão, possui ela uma mensagem, a entregar aos homens, que a cercam: ela é aquela que vive mais da fé, aquela que pela sua dor, conquistou o acesso a um mundo mais sereno, sobrenatural. Não toma apoio na abundância dos bens temporais de que, muitas vezes, é desprovida, mas sim na sua confiança em Deus.

Aos lares muito fechados e curvados sobre si mesmos, e que ainda não descobriram o sentido pleno do amor conjugal, dirá ela as purificações e os desprendimentos necessários, a fidelidade sem arrependimento que ele exige. Junto às outras viúvas em particular, sentir-se-á especialmente incumbida de ajudá-las a rematar o seu sacrifício, a lhe apreender a significação, elevando-se acima das simples vistas humanas para lhe enxergar os prolongamentos eternos.

Para todos, será ela aquela cuja caridade silenciosa e delicada se apressa a prestar serviço, com uma palavra, com um gesto, onde quer que se revele uma necessidade mais urgente, uma pena mais viva. Nas suas relações familiares, profissionais ou de amizade, trará ela a nota distintiva que caracteriza o seu apostolado: o testemunho da sua fidelidade a uma memória cara, e o de haver achado, nessa fidelidade e nas renúncias que ela impõe, uma felicidade mais profunda, mais estável, mais luminosa do que aquela que teve de renunciar.

A riqueza dos pequenos serviços partidos de um coração engrandecido pela provação

Nas horas mais austeras, e nas tentações de desânimo, evocará ela a casta heroína Judite, que não hesitou em correr os mais graves perigos para salvar da ruína o seu povo, e que pôs em Deus toda a sua confiança. Pensará, sobretudo na Virgem Maria, também viúva, que depois da partida de seu Filho, ficou sendo na Igreja primitiva Aquela cuja prece, cuja vida interior, cuja dedicação oculta atraíam incessantemente as bênçãos divinas sobre a comunidade.


Quando mais sentir o declínio de suas forças físicas, a sua pobreza, a sua impotência para trabalhar muito, para ainda tomar parte nas atividades de caridade ou de apostolado, lembre-se ela da palavra de Jesus olhando os ricos depositarem suas ofertas no tesouro e, depois deles, uma pobre viúva que ali punha duas simples moedinhas: “Em verdade, vos digo, essa pobre viúva pôs mais do que todos eles”. (Lc 21, 2-3).

O que o Senhor dizia daquele modesto óbolo aplica-se também aos menores serviços que uma viúva pode prestar, contanto que eles partam de um coração mais pertencente a Deus, de um coração engrandecido pela provação, mais próximos também daqueles a quem ama, e capaz de difundir em torno de si os reflexos mais puros do amor que o possui.

(Excertos do discurso do Papa Pio XII - 16 de setembro de 1957)
PS: Grifos meus

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Os bailes - São Francisco de Sales

OS BAILES E OUTROS DIVERTIMENTOS PERMITIDOS,
MAS PERIGOSOS - CAPÍTULO XXXIII

São Francisco de Sales (1567-1622), do livro Filotéia.


As danças e os bailes são coisas de si inofensivas; mas os costumes de nossos dias tão afeitos estão ao mal, por diversas circunstâncias, que a alma corre grandes perigos nestes divertimentos. Dança-se à noite e nas trevas, que as melhores iluminações não conseguem dissipar de todo, e quão fácil que debaixo do manto da escuridão se façam tantas coisas perigosas num divertimento como este, que é tão propício ao mal. Fica-se aí alta hora da noite, perdendo-se a manha seguinte e conseguintemente o serviço de Deus.

Numa palavra, é uma loucura fazer da noite dia e do dia noite, e trocar os exercícios de piedade por vãos prazeres. Todo baile está cheio de vaidade e emulação e a vaidade é uma disposição muito favorável às paixões desregradas e aos amores perigosos e desonestos, que são as conseqüências ordinárias dessas reuniões. Referindo-me aos bailes, Filotéia, digo-te o mesmo que os médicos dizem dos cogumelos, afirmando que os melhores não prestam para nada.

Se tens que comer cogumelos, vejas que estejam bem preparados e não comas muito, por que, por melhor preparados que estejam, tornam-se, todavia, um verdadeiro veneno, se são ingeridos em grande quantidade. Se em alguma ocasião, não podendo te escusar, fores coagida a ir ao baile, presta ao menos atenção que a dança seja honesta e regrada em todas as circunstâncias pela boa intenção, pela modéstia, pela dignidade e decência, e dança o menos possível, para que teu coração não se apegue a essas coisas.

Os cogumelos, segundo Plínio, como são porosos e esponjosos, se impregnam facilmente de tudo quanto lhes está ao redor, até mesmo do veneno de uma serpente que por perto deles se arraste. Do mesmo modo, essas reuniões à noite arrastam para seu meio ordinariamente todos os vícios e pecados que vão alastrando pela cidade, os ciúmes, as pedanterias, as brigas, os amores loucos; e, como o aparato, a influência e a liberdade, que reinam nestas festas, agitam a imaginação, excitam os sentidos e abrem o coração a toda sorte de prazeres, caso a serpente murmure aos ouvidos uma palavra indecente ou aduladora, caso se seja surpreendido por algum olhar dum basilisco, os corações estarão inteiramente abertos e predispostos a receber o veneno. Ó Filotéia, esses divertimentos ridículos são de ordinário perigosos.

Dissipam o espírito de devoção, enfraquecem as forças da vontade, esfriam os ardores da caridade e suscitam na alma milhares de más disposições. Por estas razões nunca se deve freqüentá-los, e, no caso de necessidade, só com grandes precauções. Diz-se que, depois de comer cogumelos, é preciso beber um gole do melhor vinho existente; e eu digo que, depois de assistir a estas reuniões, convém muito refletir sobre certas verdades santas e compenetrantes para precaver e dissipar as tentadoras impressões que o vão prazer possa ter deixado no espírito. Eis aqui algumas que muito te aconselho:

1. Naquelas mesmas horas que passaste no baile, muitas almas se queimavam no inferno por pecados cometidos na dança ou por suas más conseqüências.

2. Muitos religiosos e pessoas piedosas, nessa mesma hora estavam diante de Deus, cantando seus louvores e contemplando a sua bondade; na verdade, o seu tempo foi muito mais empregado que o teu !...

3. Enquanto dançavas, muitas pessoas se debatiam em cruel agonia, milhares de homens e mulheres sofriam dores atrocíssimas em suas casas ou nos hospitais. Ah ! eles não tiveram um instante de repouso e tu não tiveste a menor compaixão deles; não pensas tu agora que um dia hás de gemer como eles, enquanto outros dançarão?!...

4. Nosso Senhor, a SS. Virgem, os santos e os anjos te estavam vendo no baile. Ah! Quanto os desgostaste nessas horas, estando o teu coração todo ocupado com um divertimento fútil e tão ridículo!

5. Ah! Enquanto lá estavas, o tempo se foi passando e a morte se foi aproximando de ti; considera que ela te chame para a terrível passagem do tempo para a eternidade e para uma eternidade de gozos ou de sofrimentos.

Eis aí as considerações que te queria sugerir; Deus te inspirará outras mais fortes e salutares, se tiveres santo temor a Ele.

(Retirado do blogue: Adversus Haereses)

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Bailes - Maldição da alma

Bailes - Maldição da alma



“Antes quero uma febre,
que tenha presos meus membros em uma cama,
do que entrar em um sarau ou qualquer baile.”
(Imperador Frederico)

É certo que, à custa de qualquer trabalho ou detrimento do corpo, se deve remir e evitar o da alma, que são os pecados: sed sic est, que os bailes e danças, do modo que ordinariamente se fazem, quase sempre se acompanham de pecados, uns que supõem, outros que induzem; logo, bem escolhia Frederico estar antes preso com uma febre do que solto em uma dança.

... Santo Ambrósio diz que a nossa alegria deve ser a que nasce da boa consciência, e não a que se acende com o muito comer e folgar, porque aí é suspeito o deleite e corre perigo a honestidade onde se acompanha com estes exteriores movimentos, pois, enfim, todo o que dança parece haver perdido o juízo ou estar destemperado. (D.Amb., lib. 3 “De Virginib.”)

São Basílio diz: “Ris-te e alegras-te com alegria sã e estulta quando era necessário por causa dos pecados que cometeste, derramar muitas lágrimas? Cantas modos profanos, esquecendo-te dos hinos e salmos? Saltas e danças loucamente, quando importava dobrar os joelhos diante de nosso Senhor Jesus Cristo?”.

Santo Efrem diz que onde se cantam salmos com espírito devoto aí está Deus, e seus anjos; mas onde se cantam modos diabólicos, aí está a ira e desagrado do mesmo Deus, e os gemidos que se seguem em recompensa das risadas descompostas. E onde se lêem livros sagrados, aí está a alegria dos justos e o aproveitamento dos que os ouvem; porém onde há citaras e flautas, e bailes de homens e mulheres, aí, por conseguinte, há muitas obras do príncipe das trevas, assim em um como em outro sexo, e se celebra a sua festa rija.

Quero ajuntar a estas autoridades a de Francisco Petrarca, porque, suposto não é santo, nem Padre da Igreja, foi varão timorato e mui discreto, como se verá das suas palavras, em que descreve bem que coisas são bailes e os frutos que deles se colhem:

"Construo para que logrem todos: Ali andam livres as mãos, livres os olhos, livres voam as palavras. Soa muito estrondo dos pés, muito cantar desentoado, muito alarido dos concorrentes, muito ímpeto dos que giram e emparelham, levantando grande poeira, até que chegue (como ordinariamente sucede) aquela inimiga da honestidade e sócia das maldades, que é a noite.

Eis aqui como desterra o temor e o pejo e com que se estimula a luxúria e se concedem licenças amplas à relaxação. E tudo isto (falando como quem não é fácil de se enganar) é o que vós intitulais com o apelido de um desenfado singelo e inocente, disfarçando o pecado com a máscara de jogo e entretenimento.

E, suposto que só entre homens ou só entre mulheres não tenha tanto perigo, todavia ali aprendem separados o que depois hão de exercitar juntos, a modo de discípulos, que em ausência do mestre, decoram o que hão de repetir quando venha."
***

Mas se tão grave e nervosamente castigam os Santos Padres e varões judiciosos os bailes, falando deles absolutamente, que sentiremos em particular dos bailes feitos nas igrejas e átrios delas, por honra dos santos e dias de festas?

Fazer ofensa a Deus e em cima vender-lha por obséquio!
Honrar os dias e lugares santos com obras profaníssimas!

Comer e beber e rir e folgar e bailar e chacotear, dizendo ao mesmo tempo mil estultícias e liberdades, e querer encampar tudo isto a Deus nosso Senhor por religiosa observância de votos e culto de seus santos!

Verdadeiramente, este é um dos efeitos do muito comer e beber, porque, como ensina Santo Tomás, uma das filhas da gula é a tolice ou insipiência. E que maior insipiência que supormos (senão no conceito, ao menos no efeito) que os santos são como deuses do paganismo, Baco, Flora e outros da mesma farinha, que eram venerados como semelhantes festas.

Por isso, com razão disse o grande Padre Santo Agostinho que estes desventurados e miseráveis, que nem medo nem pejo têm de ocupar-se nestes festins, ainda que venham para a Igreja cristãos, vão da Igreja pagãos, porque este costume de bailar ficou da superstição da gentilidade. (Serm. 215 “de Tempore”)

Tenhamos, pois, entendido que Deus Nosso Senhor não recebe com agrado semelhantes festas, como também não é Ele o que as inspira e move. Move-as e delas se agrada o diabo.

... Bem pregava este desengano às suas ovelhas Santo Estevão, bispo Diense, para desterrar de entre elas semelhante abuso de seus festins, celebrados ao domingo; porém não pôde até lho mostrar patente a seus mesmos olhos. Orou a Deus que lhos abrisse, para verem com quem dançavam e quem os incitava; e mandou aos demônios que se descobrissem em visível forma, sem fazer mal a alguém.

Caso prodigioso!

Viram muitos demônios, de corpulência mais que agigantada, negríssimos e feíssimos, com pontas nas cabeças e lançando de si horrível fogo e cheiro intolerável. Como viram, então creram e se emendaram.

... Suposto e sobredito, bem certificados podemos ficar de que os bailes, danças e saraus costumam trazer consigo muitos pecados. A não ser assim, nem os demônios insistiriam tanto em os persuadir, nem os santos em os detestar, nem Deus em os castigar; logo, sem dúvida alguma, melhor é padecer qualquer dano no corpo (como dizia aquele imperador) do que conceder-lhe este gosto, que redunda em detrimento da alma.

Emende-se, pois, o abuso de fazermos ou permitir que se façam vigílias e serões à cruz ou aos altares, que se armam nas ruas, com aquelas profanidades que só podem ser aceitas a Baco e Vênus, e não ao verdadeiro Deus e a seus santos.

Emende-se o celebrante as noites de Natal nas igrejas (como eu vi celebrar em uma) com pandeiros, adufes, castanhetas, foguetes, tiros de pistola e risadas descompostas. E advirta-se que nenhuma dá glória a Deus nas alturas nem paz aos homens na terra.

Emende-se o introduzir nos coros sagrados as chulas, sarabandas e outros tonilhos do teatro profano, e advirta-se que para a cada de Deus só é decente o que é santo: Domum tuam decet sanctitudo (Salmo, XXIX,5).

Emende-se levar nas procissões diante do Santíssimo Sacramento danças de ciganas e de mulheres de ruim fama, e advirta-se que a Arca do Testamento não era mais que uma figura deste Augustíssimo Mistério, e David era rei santo e, mais, tinha-se por indigno de ir dançando em Sua presença.

Emende-se o querermos honrar os santos com touros, jogo que os sumos pontífices não aprovam, e, de si, está mostrando ser de bárbaros; comédias, entretenimento que raro ou nenhum autor admite ser lícito, senão com aquelas condições que se não usam; como romarias daquele gênero, aonde não costuma haver mais que comezainas, brigas, descomposturas e perigosa comunicação dos sexos e anos, em que os demônios armam as suas feiras e donde tiram seus lucros, e advirta-se que pode isto ser de algum modo concorrer para o escândalo e mofa dos hereges.

Emende-se o consentirem os senhores que seus escravos e escravas, aos dias santos pondo diante um painel de Nossa Senhora, festejem publicamente a Virgem das Virgens com bailes, gestos e meneios, arriscados até para a imaginação, quanto mais para a vista. E advirta-se quem tem a seu cargo o bem da república e salvação das almas que uma alma vale mais que a cabeça de São João Batista; e, se com razão estranhamos tanto que o Batista fosse degolado por amor do baile de uma mulher, quanto devemos estranhar que pelo baile destes escravos se consinta a ruína de suas almas e das outras que o vêem?

Estes e outros semelhantes abusos mostram bem assim nos que os cometem como nos que os permitem, podendo impedi-los, o pouco conceito que têm formado da presença real de Cristo, Senhor Nosso, nos templos e sacrários, do culto verdadeiro da religião católica e a pouca comunicação que têm com o Espírito de Deus, que é modesto, estável, santo e amigo da pureza e decoro.

Os bailes e saltos que nas ocasiões das sagradas festividades devem dar aos fiéis hão de ser aqueles que levantam da terra, não o corpo, mas o espírito, como disse um Padre (Richard., in Salm. CXIII): Hão de ser aqueles a que nos provoca decantando a música do Evangelho, que é levantar o coração para receber a graça de Deus, como disse Santo Ambrósio (Amb., lib. 2 “de Paenit” – cap. VI):

Hão de ser semelhantes àqueles que o beato Henrique Suso viu em certa ocasião dar os anjos: os quais, levantando a inteligência, ora mais acima, ora mais abaixo, conforme a luz divina os ensinava, voavam a conhecer e amar as perfeições divinas e seus mistérios. Destes saltos da vida espiritual se passa depois aos da vida eterna.

(Excertos do livro: Nova Floresta – Pe. Manuel Bernardes – Volume II)
PS: Grifos meus

Como educar o filho (a) egoísta!

Como educar o filho (a) egoísta!


Esse homem metido em si mesmo, voltado para suas preocupações e seus interesses, sem ressonâncias para as necessidades ou alegrias do próximo, incapaz de enxugar a lágrima de quem sofre, insensível à fome dos miseráveis, às angústias do aflito e ao frio dos esfarrapados, esse homem que só pensa nos outros na medida em que eles lhe podem ajudar à riqueza ou à fama, e que os larga quando já não tem mais o que lhe dar (como quem joga fora o bagaço da laranja que chupou), esse que só pensa em si, só tem para si – é o egoísta.

Também ele é infantilizado: não ultrapassou o nível da criança. Não se integrou na convivência humana. Seus horizontes fecham-se sobre si mesmo, estreitos e sufocantes. Seus olhos só vêem o chão em que pisa, numa infeliz miopia que não enxerga caminhos alheios.

Sua capacidade de sentir o que não é seu atinge a selvagens endurecimentos que negam a própria natureza – como a jovem que chega da cidade, senta-se, queixa-se do calor e pede um copo de água à velha mãe que labuta na casa e na cozinha desde as 6 da manhã!

Furtado pela natureza e vítima de má educação, ele diminui a própria capacidade de viver e extingue uma copiosa fonte de felicidade, desconhecendo a vida de seus irmãos e não os ajudando a ser felizes. Em torno de si espalha o desprezo e a aversão.

Criança e jovem

A criancinha precisa de cuidar de si, de apegar-se ao que lhe é necessário, defender-se dos elementos estranhos, a fim de poder desenvolver-se. Ela obedece ao instinto que o Criador lhe deu para orientar-se até que a natureza humana sobrepuje essas manifestações inferiores. É nessa idade que ela desconhece quaisquer direitos alheios, inclusive o de propriedade, como depois veremos.

Na medida em que vai deixando de ser criança, vai também perdendo o egotismo. Vai descobrindo os outros. Estendendo o olhar para fora e ampliando o horizonte. Interessando-se pelos irmãos e colegas. Aos poucos, e se a educação a ajuda.

Na adolescência, as preocupações sociais brotam com vigor realmente humano. O adolescente, se não é mal servido de constituição nem infantilizado pela má educação, volta-se para os outros. Sai dos limitados círculos da família, dos companheiros de jogos e dos colegas da escola, e abre-se para a sociedade.

Mas não se desliga de um golpe da fase anterior. E apresenta contradições, oscilando entre rasgos de generosidade e manifestações de egoísmo. Mais se interessa pelos problemas de fora e de longe mais que pelos da família ou da vizinhança. Não será muito capaz de iniciativas pessoais, mas se integrará com gosto nos grupos de ação. Nesta idade, mais do que na infância, reclama compreensão.

Influência dos pais

Pode, porém, acontecer que não evoluam normalmente, os sentimentos da criança, e ela passe do egotismo ao egoísmo. É uma tendência má, como qualquer outra, e pode ser corrigida ou agravada pela educação.

A influência do lar é de suma importância, aqui como nos mais setores da formação. Os filhos imitam insensivelmente os sentimentos dos pais. Aprendem o que se faz e se diz em casa, ao longo dos dias, despreocupadamente, sem a intenção formal dos conselhos (contra os quais se põem em guarda).

Se os pais se manifestam egoístas na presença das crianças, nas conversas, nos comentários aos fatos quotidianos, na maneira de encarar os negócios, no cultivo das amizades, nas atitudes políticas, no modo de tratar os empregados – os filhos absorvem suas lições adesivas e marcantes.

Podem até, sem esta intenção, ensinar indiretamente o egoísmo, quando satisfazem ao filho desejos que contrariam ou sobrecarregam a irmãos e empregados. Sim, porque ninguém pode satisfazer-se à custa de direitos alheios.

Se, pelo contrário, são os pais caridosos, é na própria vida que dão às crianças a mais eficiente educação social, tornando-as, por sua vez, abertas sobre as necessidades do próximo e generosas em acudi-las. Resistem, ainda assim, certos germes de egoísmo. Mas esta é a melhor maneira de combatê-los.

Educação social

Escusemo-nos de justificar a necessidade da educação para o amor e a ajuda do próximo: a natureza mesma a reclama, as carências de nossos irmãos gritam-nos por ela, e a tendência dos tempos lhe dá relevo. Graças a Deus! A lição de Cristo clama por perene cumprimento: “Fazei aos homens o que quereis que eles vos façam” (Mt. 7,12), o que é maneira de cumprir o “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt. 19,19).

Indiquemos o modo de proceder na prática

Com os pequeninos

- Não atender com sofreguidão à criancinha;
- Habituá-la a ficar no berço;
- Não ceder quando, mais tarde, apareceram sinais de ciúmes,
- Não lhe provocar o egoísmo, quando lhe der alguma coisa:
Isto é para você”; ou,
para conseguir obediência: “Coma, senão Fulano vem e come”.

Ensinar gentileza


Exercitemos a criança segundo sua capacidade:
- Fazê-la distribuir as balas e os doces com os irmãos, ficando ela por último;
- Ceder a passagem nas portas, etc;
- Ajudar os irmãos em seus trabalhos;
- Oferecer lugar no ônibus às pessoas de idade, doentes, etc;
- Atender sempre com bons modos e expressões delicadas, seja a quem for;
- Ser delicada e boa com os animais e até com as plantas.

Orientar para o próximo

Não se contente em ensinar que não temos o direito de exigir que os outros nos sirvam, e que devemos interessar-nos pelas necessidades alheias, mas encaminhe a criança para obras de caridade fraterna. Para isto:
- Mover-lhe a sensibilidade, que é o mais fácil: saber “sentir” a fome, o frio, as carências dos pobres, dos doentes, das crianças;
- Habituá-la a dar esmolas do que é seu: balas (guardar umas para a coleguinha mais pobre, o filho da lavadeira, etc), brinquedos (não quando já estiverem inutilizados), roupinhas, sapatos, etc;
- Guardar revistas, livros de histórias, etc., para levar aos hospitais e educandários pobres: isto é mais do que dar presentes, é dar-se ao próximo;
- Dividir a merenda com o colega pobre que não a pode levar à escola;
- Ajudar os que encontre precisados de auxílio a seu alcance: o cego que quer atravessar a rua, a velhinha que tem dificuldade em subir ao ônibus ... a criança que está chorando na rua, etc.;
- Fazer sentir a felicidade de fazer o bem ao próximo: “a felicidade de afazer os outros felizes”.

Ver a necessidade alheia

Não há descrição que valha a verificação pessoal do sofrimento ou das carências dos nossos irmãos mais pobres. É preciso que as crianças tomem contato direto com o sofrimento e a miséria dos homens, segundo a sua capacidade. Levá-las a:

- Visitar internatos e hospitais infantis, ou mesmo hospitais adultos (selecionando as enfermarias);
- Ver os bairros pobres, de perto, sentindo-lhes o odor diferente, as dificuldades de toda ordem, avaliando ao vivo como é possível sofrer permanentemente aquela miséria;
- Levar pessoalmente, algumas vezes, uma palavra de conforto e amizade aos colegas e amigos enfermos, sejam da mesma condição ou de inferior condição social e econômica.

Firmar a doutrina

A formação feita assim por obras, firma a doutrinação dada na Catequese e na escola. Notemos, porém, que, por sua vez, a doutrinação há de ser viva e orientada para o próximo. Não creio em catequese decorada ou meramente teórica; por isso mesmo insisto com os catequistas que dêem sentido apostólico à doutrinação, levando o ouvinte a pensar no próximo e a desejar ajudá-lo tanto espiritual como materialmente. Os homens caíram na horrível situação atual de egoísmo por falta de espírito cristão.

Há muita necessidade espiritual que deve preocupar o educador cristão:

- Rezar pelos parentes e amigos, os doentes e sofredores, as almas do purgatório, a conversão dos pecadores,etc;
- Ajudar as obras religiosas – paroquiais, regionais ou universais, desde as imediatas para as quais nos conclamam nossos pastores, até as universais, como a conversão dos pagãos;
- Sentir as necessidades espirituais do próximo: os que não cumprem os deveres religiosos, os que não respeitam sequer os preceitos do Decálogo, os que não pensam em preparar-se para a eternidade que se lhes aproxima.

Para nós cristãos, toda ajuda fraterna deve ser caridade, isto é, amor do próximo por amor de Deus, feita com vistas sobrenaturais.

(Corrija o seu filho – Mons. Álvaro Negromonte)