sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

"... tape os ouvidos aos assobios do inferno..."

A Carta a Ermentrudes de Bruges
 (Escrita por Santa Clara de Assis)

Clara de Assis, humilde serva de Jesus Cristo, deseja saúde e paz a sua querida irmã Ermentrudes.

Soube, irmã querida, que você teve a felicidade de fugir da lama do mundo, pela graça de Deus. Alegro-me por isso e me congratulo com você, como me alegro porque você e suas filhas seguem com valor os caminhos da virtude.

Querida, seja fiel até a morte Aquele com quem você se comprometeu, pois é Ele que vai coroá-la com o louro da vida.

Nossa fadiga aqui é breve, eterno é o prêmio. Não a iludam os rumores do mundo que passa como sombra.

Não perca a cabeça com as imagens vazias do mundo enganador; tape os ouvidos aos assobios do inferno e, forte, quebre seus assaltos. Suporte por bem as adversidades e não se deixe exaltar pela prosperidade, porque esta pede fé, mas aquelas a exigem. Entregue fielmente a Deus o que prometeu, e Ele retribuirá.

Querida, olhe para o céu que nos convida, tome a cruz e siga o Cristo que vai à nossa frente. Na realidade, depois de muitas e variadas tribulações, vamos entrar por meio Dele na sua glória.

Ame com todo coração a Deus e a Seu Filho Jesus, crucificado por nós pecadores, sem permitir que Ele saia de sua recordação. Trate de meditar sempre nos mistérios da cruz e nas dores de sua Mãe que estava ao pé da Cruz.

Ore e vigie sempre. Complete apaixonadamente a obra que você começou bem e dê conta do serviço que você assumiu na santa pobreza e na humildade sincera.

Não se assuste, filha. Deus, Fiel em todas as Suas palavras e Santo em todas as Suas obras, vai derramar sua bênção sobre você e suas filhas. Vai ser o seu auxílio e o seu melhor Consolador, porque Ele é o nosso Redentor e a nossa recompensa eterna.

Oremos mutuamente a Deus, pois assim uma carregará o peso da outra e vamos cumprir com facilidade a lei de Cristo. Amém.

PS: Grifos meus

Pe. Leonel Franca X J.J.Rousseau

Pe. Leonel Franca X J.J.Rousseau



"A teoria de Rousseau é uma antítese do dogma cristão"

Encontramos aqui, pela frente, um dos erros modernos mais funestos à pedagogia; é o erro da bondade ingênita, natural do homem. Vós lhe conheceis o autor, um desequilibrado genial e malfazejo que muito foi influenciado pela atmosfera social que respirou - o século XVIII - e mais funestamente ainda influiu na sociedade que se lhe seguiu - o século XIX; um homem que escreveu um tratado célebre da educação, ele, filho que desamparou o próprio pai, ele, pai que atirou os próprios filhos numa casa de expostos, sem nunca lhes haver murmurado ao ouvido o nome de sua mãe; vós já lhe pronunciastes o nome: J.J.Rousseau.

Segundo as suas teorias expostas no Émile, o homem nasce naturalmente bom; na criança encontram-se, sem mescla de tendências más, os germes de todas as virtudes; instintivamente a sua alma procura o bem, como a planta o sol.

Deixai que se desenvolvam espontâneamente estes germes felizes, deixa que cresçam, como as plantas selvagens, sem o benefício da poda, em toda a força expansiva e indomada de sua exuberância nativa, e tereis o homem naturalmente e por si mesmo forte, bom e virtuoso.

A teoria de Rousseau é uma antítese do dogma cristão.

Todo o cristianismo - Redenção, isto é, regeneração e reabilitação do homem por Cristo - descansa sobre a verdade histórica de uma decadência original da nossa raça ( Deus não criara o homem tal qual nasce hoje sob os nossos olhos, isto é, sujeiro ao erro, ao vício, à miséria e à morte) e do pecado do primeiro homem a introduzir a desarmonia no plano divino.

Criatura, isto é, por essência depedente, o homem devia, pela submissão livre de sua vontade, gravitar em torno de Deus, como os planetas ao redor do sol. O pecado foi a revolta contra esta ordem essencial e, portanto, necessária e imutável.

A esta desordem introduzida pela culpa nas relações com Deus, corresponde como a pena outra desordem introduzida no interior do homem. rompeu-se o equilíbrio harmônico da sua integridade primitiva: revoltaram-se contra a razão as paixões, e entre o homem superior e o homem inferior, entre a parte espiritual do nosso ser e a parte animal e material inaugurou-se esta luta épica, mãe de tantas lágrimas, que enche a história da humanidade, também ocasião dolorosa da ignomínia de todas as misérias e teatro da grandeza dos nossos heroísmos.

A grandeza moral do homem, antes fruto espontâneo da nossa natureza, passou a ser a conquista gloriosa e penosa de uma vida de esforços e lutas. Eis a verdadeira história da humanidade, consignada na primeira página dos nossos livros Sagrados.

... Ora estes estigmas de uma decadência não os adquirimos na idade madura, trazemo-los desde o berço e já na infância se lhe observam as primeiras manifestações.

Quantas vezes não surpreendemos as mãozinhas ainda inofensivas da criança crisparem-se nervosas num gesto mal esboçado de egoísmo impotente! Quantas vezes nos olhinhos cândidos, suavemente iluminados pelos reflexos da inocência, não relampejam chispas que profetizam cóleras futuras!

Desta triste verdade sobre a natureza humana, não menos evidentemente afirmada pela fé do que atestada pela experiência, derivam para a educação conseqüências de uma gravidade extrema. Não se obtém a unidade e a paz interior da nossa perfeição humana deixando que se desenvolvam desordenamente todos os instintos e tendências que dormem no fundo da natureza.

Há uma hierarquia essencial nas nossas faculdades que importa respeitar, mas respeitar livremente. A harmonia, o equilíbrio sadio que condiciona a nossa felicidade não é fruto espontâneo, é uma conquista laboriosa.

Desde o alvorecer da consciência, a criança já se deve habituar a vencer a si mesma, a assegurar o domínio da vontade sobre as paixões, da razão sobre os instintos, da reflexão sobre a impetuosidadedos primeiros impulsos; numa palavra, deve aprender a governar-se, subordinando o que é inferior ao que é superior, introduzindo a ordem na anarquia das suas tendências, hierquizando, sob o cetro firme de uma vontade iluminada pela razão, a multiplicidade dispersiva e inerente a todos os princípios internos da atividade.

(A formação da personalidade - Pe. Leonel Franca - págs.23-24)
PS: Grifos meus

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Ó desgraçados mundanos, amadores do tempo!

Ó desgraçados mundanos, amadores do tempo!


"Naquele dia, tirará o Senhor o enfeite dos anéis dos tornozelos,
e as toucas, e os ornamentos em forma de meia-lua;
os pendentes, e os braceletes, e os véus esvoaçantes;
os turbantes, as cadeiazinhas para os passos,
as cintas, as caixinhas de perfumes e os amuletos;
 os sinetes e as jóias pendentes do nariz;
os vestidos de festa, os mantos, os xales e as bolsas;
 os espelhos, as camisas finíssimas, os atavios de cabeça e os véus grandes.

Será que em lugar de perfume haverá podridão,
e por cinta, corda; em lugar de encrespadura de cabelos, calvície;
e em lugar de veste suntuosa, cilício;
e marca de fogo, em lugar de formosura.
Os teus homens cairão à espada, e os teus valentes, na guerra.
As suas portas chorarão e estarão de luto;
 Sião, desolada, se assentará em terra."

Isaías 3:18-26

Ó mundanos, amadores do tempo e das coisas que com ele passam e totalmente esquecidos do eterno, lembrai-vos que há de vir um dia, cláusula de todos os dias e princípio de duas eternidades, uma de suma felicidade outra de miséria suma, uma nas alturas louvando a Deus, outra blasfemando de Deus nas profundezas.

Vós outros que consumis os dias e os anos em vosso deleite e armais dilações à penitência de hoje para amanhã, de amanhã para outro dia e outro ano e muitos anos, ó que mau é o vosso engano agora e  que pior será então o vosso desengano?

Há de chegar (é certo) aquele estado, onde não há amanhã, nem tarde, hoje, nem ontem, nem séculos, nem anos, nem dias, nem horas, nem diferença alguma de tempo, senão uma duração fixa e interminável, ou sempre gozando de Deus ou sempre ardendo em fogo. Temamos estes sinais à vista de tão horrendo significado, e empreguemos os breves espaços da vida temporal como quem há de vir a parar nos da eterna.

(Exercícios espirituais - II - 113 - Pe. Manuel Bernardes)

Ó insensatos e duros de coração,
tão profundamente apegados à terra,
que de nada gostam senão das coisas canais.
Mas, infelizes deles,
virá tempo em que verão como era vil
e sem valor tudo o que amavam!

11 de Fevereiro - Aparição de Nossa Senhora, em Lourdes

11 de Fevereiro
Aparição de Nossa Senhora, em Lourdes



Mostra-me o teu rosto
e que a tua voz ressoe aos meus ouvidos.
Porque a tua voz é suave
e a tua face é formosa.
Aleluia.

Desde o dia 11 de Fevereiro a 16 de Julho de 1858 a Virgem SS. apareceu 18 vezes a Bernardette Soubirous, pequena pastora de 14 anos de idade, na gruta de Massabielle, em Lourdes. No dia 25 de Março, a Senhora disse à vidente: "Eu sou a Imaculada Conceição". A festa de hoje recorda-nos pois o triunfo de Maria sobre a serpente (Tracto), triunfo que está no primeiro plano da liturgia Septuagesimal.

Semelhante à mulher que São João viu revestida de sol, com a lua aos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça, a Senhora de Lourdes trazia um véu e um manto mais branco que a neve cingindo por um cinto azul, e uma rosa de ouro nos pés.

Exortou à penitência os pobres homens extraviados que não foram, como Ela, preservados do pecado. Foi no dia da Anunciação que declarou o seu nome para significar com isto que em vista à Incarnação lhe concedeu o Senhor o privilégio de ser ilibada do pecado original (Tracto).

Tendo presente que é Maria "a arca da nova aliança" (Ep.) recorramos confiadamente Àquela que, "cheia de graça" (Of.), veio visitar e cumulá-la de graças (Com.).

(Informações retiradas do Missal Quotidiano e Vesperal - Dom Gaspar Lefebvre - 1952)

O Calvário e a Missa - 6ª Parte - Ite, Missa est

Ite, Missa est
“Tudo está consumado” (São João 19,30)


Deus Nosso Senhor chega agora ao Ite, missa est da Sua Missa, no momento em que solta o grito de triunfo: “Tudo está consumado!”.

A obra de salvação está concluída; mas quando ela foi iniciada?

Essa obra começou, de fato, no tempo infinito da eternidade, quando Deus quis fazer-Se homem. Antes do princípio do próprio mundo, já a Divina Impaciência existia, para restituir o homem aos braços de Deus.

O Verbo existia no céu, impaciente por ser o “Cordeiro sacrificado, desde o princípio do mundo”. Ele manifestou a Sua impaciência sob a aparência de símbolos e imagens proféticas, como se a Sua face moribunda se refletisse em milhares de espelhos, ao longo de toda a história do Velho Testamento. Ele estava impaciente por ser o verdadeiro Isaac, que transportava por suas próprias mãos a lenha para o sacrifício, em obediência ás ordens de Seu Pai celestial Abraão.

Ele estava impaciente por realizar o místico símbolo do Cordeiro da Páscoa Judaica, que foi imolado, sem que um único osso do Seu Corpo fosse quebrado. Ele estava impaciente por ser o novo Abel, morto pelos seus invejosos irmãos da raça de Caim, para que o Seu sangue pudesse erguer aos céus o grito do perdão.

Ele estava impaciente no seio de Sua Mãe, quando saudou João, o Seu precursor.
Ele estava impaciente na Circuncisão, quando antecipou o derramamento do Seu Sangue e recebeu o nome de Salvador.

Ele estava impaciente, quando, na idade de doze anos, recordou a Sua Mãe que devia ocupar-se das coisas de Seu Pai. Ele estava impaciente na Sua vida pública, quando dizia que tinha ainda um batismo a receber, e estava ansioso por que ele se cumprisse.

Ele estava impaciente no Jardim das Oliveiras, voltando as costas às doze legiões de anjos consoladores. Ele estava impaciente na Última Ceia, quando antecipou a separação do Seu Corpo e do Seu Sangue, sob as aparências de pão e de vinho.

Finalmente, a impaciência atingiu o seu termo, quando a hora da escuridão se aproximou, no final da Última Ceia. Ele, então, cantou, pela primeira e única vez, precisamente no momento em que caminhava para a morte.

Não teria importância para o mundo o fato de que as estrelas brilhassem com mais intensidade, ou que as montanhas se erguessem, como símbolos de perplexidade, ou que as colinas prestassem o seu tributo aos vales que lhes deram o ser. O que importava apenas era que cada uma das simples palavras que Ele dissera se cumprira exatamente. O céu e a terra não passariam antes que as Suas palavras fossem cumpridas.

Restava apenas o cumprimento de uma palavra de David sobre a realização de cada profecia. Agora, porém, que tudo o mais se cumprira. Ele, o verdadeiro David, pronunciava, por último, as palavras do profeta: “Tudo está consumado”.

O que é que estava consumado? Era a redenção do homem, porque o Amor completara a sua missão, o Amor fizera tudo o que pudera.

Há duas coisas que o amor pode fazer. Por sua própria natureza, o Amor pende para a Encarnação, e toda Encarnação pende para a Crucifixão. Pois não é verdade que, na ordem do amor humano, do afeto do marido pela esposa, e da encarnação, da confluência do amor mútuo, nascem novos seres, que são os filhos?

E quem poderá jamais esquecer os filhos das suas entranhas, cujo amor vai até ao ponto de fazer por eles os maiores sacrifícios, inclusivamente o da própria vida?

E é assim, porque todo o amor, quando verdadeiro, pende para a crucificação. Isto é, porém, uma pálida comparação com a ordem divina, segundo a qual o amor de Deus pela Sua criatura é tão profundo e intenso que terminou numa Encarnação.

O Amor divino, todavia, não se limitou a revestir a forma humana, pois Nosso Senhor veio ao mundo para o remir. A morte era, pois, o alvo supremo, que Ele procurava.

A morte, que interrompe e corta as carreiras dos grandes homens, não interrompe, porém, a Sua, pois Ele foi coroado de glória, e este era o único objetivo que Ele procurava. Assim, a Sua Encarnação pendia para a Crucificação, para o maior amor que jamais alguém sentiu, e que sacrificou a própria vida por aqueles a quem amava.

Consumada a obra da Redenção, o Divino Amor podia dizer: “Dei tudo quanto podia dar, em benefício da minha vinha”. O amor não pode, realmente, dar mais do que a vida por aqueles a quem ama: “Ite, Missa est”. – “Ide, a missa está dita”.

A Sua obra estava, pois, consumada. E a nossa?

Quando o Salvador disse “Tudo está consumado”, Ele não quis dizer que as oportunidades da sua Vida se tinham esgotado, mas sim que a Sua obra estava tão perfeitamente terminada que nada havia a acrescentar-lhe, por muito perfeito que fosse.

Quanto a nós, no entanto, quão longe isto está da verdade! Quantos de nós acabam as suas vidas, sem as terem realmente cumprido! Uma vida de pecado pode chegar ao seu fim, mas nunca poderá dizer-se que foi uma existência concluída, perfeita.

Se a nossa vida se limitou a “acabar”, os nossos amigos perguntarão: “quanto tempo viveu?” Se, porém, a nossa vida foi uma existência que atingiu a sua finalidade, que cumpriu, enfim, a pergunta será esta: “quantos merecimentos de boas obras leva ele consigo?”

Uma vida realmente preenchida não se conta pelo número de anos, mas sim pelas suas obras. Não conta o tempo que se gastou na vinha, mas sim o trabalho que ali ficou feito.

Num curto espaço de tempo pode realizar-se tarefa equivalente a muitos anos, pois os próprios que chegam na décima primeira hora podem viver uma vida completa. Os outros, e até aqueles que vieram até Deus, como o bom ladrão, apenas na hora do seu último suspiro, podem acabar a sua existência no Reinado de Deus. A nenhum deles se aplica a triste exclamação de pesar: “Demasiado tarde Te amei, ó Beleza Eterna”!

Nosso Senhor consumou a Sua obra, mas nós não consumamos a nossa. Ele aponta-nos o caminho que devemos seguir. No final, Ele depôs a Sua Cruz, e nós devemos tomá-la sobre os nossos ombros. Ele consumou a Redenção no Seu Corpo físico, mas cabe-nos a nós consumá-la no Seu Corpo Místico. Ele consumou a Salvação, mas nós ainda a não aplicamos ás nossas amas.

Ele terminou a construção do Templo, mas nós devemos habitá-lo. Ele realizou o modelo ao qual devemos adaptar as nossas cruzes. Ele lançou a semente, mas cabe-nos a nós ceifar a seara. Ele encheu o cálice, mas nós ainda não esgotamos o seu conteúdo que refrigera. Ele semeou o campo de trigo, mas nós devemos recolher o grão no nosso celeiro.

Ele consumou o Sacrifício do Calvário; cabe-nos, porém, consumá-lo também, na Santa Missa.

A crucificação, não representa um drama inspirador, mas sim um ato, um modelo ao qual devemos adaptar as nossas vidas. Não devemos limitar-nos a permanecer na contemplação da cruz, considerando-a como uma obra consumada e terminada, como a vida de Sócrates. Não! O que se passou no Calvário aproveita-nos apenas na medida em que o repetirmos nas nossas próprias vidas.

A Missa permite essa relação, pois, por intermédio da renovação do Calvário nos nossos altares, não seremos apenas espectadores, mas sim participantes da Redenção, e é aí que reside a consumação, o cumprimento da nossa tarefa.

Jesus disse-nos: “E se Eu me elevar acima da terra, arrastarei comigo todas as coisas”.

Jesus consumou a Sua obra quando foi erguido sobre uma cruz; nós consumaremos a nossa quando Lhe permitirmos que nos atraia, nos arrebate para Si, no Sacrifício da Missa.

A Missa é o ato que torna a Cruz visível aos nossos olhos; é ela que se patenteia, que se ergue em todas as encruzilhadas da civilização, e nos aproxima tanto do Calvário que até os pés fatigados podem fazer a jornada que conduz ao seu doce abraço.

Todas as mãos podem, assim, tocar o Sagrado Fardo, e todos os ouvidos podem ouvir o suave apelo, pois a Missa e a Cruz são uma e a mesma coisa. Em ambos existe a renúncia perfeita da vontade ao Filho bem-amado, o mesmo corpo dilacerado, o mesmo derramamento do precioso sangue, o mesmo perdão divino.

Tudo quanto foi dito e feito durante a Santa Missa, deve acompanhar-nos, para vivermos o sagrado ato, para a praticarmos e o aplicarmos em todas as circunstâncias da nossa vida diária.

O Sacrifício de Jesus transforma-se no nosso próprio sacrifício, por meio da oblação de nós próprios, em união com Ele; a Sua vida, oferecida por nós, transforma-se na própria vida que Lhe oferecemos.

Que, ao voltar da Santa Missa, tenhamos feito a nossa escolha, voltando costas ao mundo, para fazermos parte da geração daqueles que vivem à semelhança de Cristo, e são assim testemunhas vivas do Amor d’Aquele que morreu por nós, para que pudéssemos viver com amor.

O mundo dos nossos dias está repleto de catedrais incompletas, de vidas incompletas, de almas meio crucificadas. Algumas levam a cruz até ao Calvário e, depois, abandonam-na; outros, deixaram-se pregar, mas despregaram-se, antes que a sua cruz, fosse erguida ao alto; outros estão crucificados: mas, se o mundo os desafia, dizendo “Desce da cruz”, eles descem, decorrida uma hora... duas horas... ou duas horas e cinqüenta e cinco minutos...

Verdadeiros cristãos são aqueles que perseveram até ao fim. Nosso Senhor também ficou, até que a Sua obra estivesse consumada.

Da mesma maneira, o sacerdote não abandona o altar, sem que a Missa esteja terminada. Também nós devemos permanecer na cruz, até que as nossas vidas se tenham cumprido. Cristo crucificado é o perdão, o modelo de uma vida preenchida.

A nossa natureza humana é o material bruto, a nossa vontade é o cinzel; a graça de Deus é a energia e a inspiração.

Sob a ação do cinzel, desbastam-se os blocos grosseiros da nossa natureza imperfeita. Os primeiros pedaços que caem representam o nosso egoísmo. Depois, por meio de uma cinzelagem mais delicada, mais leve, desbastamos excrescências que representam o orgulhoso exagero da personalidade, o egocentrismo.

Finalmente, com uma escovadela da própria mão, faremos surgir à luz do dia a obra-prima completa – o ser perfeito, à imagem e semelhança do modelo patenteado na Cruz. Nós estamos no altar sob as aparências de pão e de vinho; nós oferecemo-nos a Nosso Senhor, e Ele consagrou-nos.

Não devemos, portanto, bater em retirada, mas sim permanecer até o final, orando sem cessar, para que um dia, ao olharmos para o passado, possamos dizer que vivemos na intimidade d'Aquele que morreu por nós, na Cruz, e tal como Ele, possamos pronunciar a Sexta Palavra: “Tudo está consumado”.

Assim, as suaves palavras do “Ite, Missa est” ressoarão ao longo dos corredores do Tempo, transpondo os umbrais da Eternidade. E os coros dos anjos e o exército branco da Igreja Triunfante responderão: “Deo Gratias

(O Calvário e a Missa – Arcebispo Fulton J.Sheen)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

10 de fevereiro - Santa Escolástica, Virgem.

10 de fevereiro
Santa Escolástica, Virgem


Já apareceram as flores na nossa terra;
 as podas chegaram e a voz da rola já se ouve pelos campos.
Levanta-te, ó minha amiga,
minha pomba que andas nas fendas dos rochedos
e nas cavernas escarpadas.

Santa Escolástica, irmã de São Bento, nasceu em Núrsia, na Itália, à volta de 480. É fato único na Igreja o irmão e a irmã fundarem os dois ramos duma Ordem ainda plena de vitalidade depois de 14 séculos de existência.

Formada na escola de São Bento, viu no irmão o representante de Jesus e, seguindo os ensinamentos do Grande Patriarca, passou a vida toda, "procurando a Deus", de modo que bem se pode dizer dela que "amou o bem e odiou a iniquidade" (Intr.). São Gregório refere dois milagres que mostram bem a grande pureza da sua alma e a sua profunda união com Deus.

Como Bento, fiel observador da disciplina monástica, se recusasse prolongar o entretendimento espiritual que todos os anos lhe concedia numa dependência da Abadia, Escolástica, apoiando nas mãos a cabeça, pôs-se a chorar, e foi tão grande a tempestade que se seguiu às lágrimas da Santa, que o irmão não pôde sair donde estava. Compreendeu então Bento que Deus abençoava o amor fraterno que sempre os uniu e passou aquela noite, a falar com ela das coisas do Céu.

Três dias depois, estando Bento em oração, viu a alma da irmã subir ao Céu em forma de pomba. O corpo de Santa Escolástica foi colocado no sepulcro que São Bento prepara para si mesmo, e ao qual desceu também algumas semanas depois. "Desta maneira, dis São Gregório, o mesmo túmulo reuniu os corpos daqueles cujas almas neste mundo sempre andaram unidas". Morreu em 547.

(Informações retiradas do Missal Quotidiano e Vesperal - Dom Gsspar Lefebvre)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Ser e parecer unidos

Ser e parecer unidos



Um dos problemas mais graves da educação é o do bom entendimento entre os educadores. A criança começa por desconcertar-se quando se choca com a desinteligência entre os que têm por missão guiá-la. Depois, tendo percebido a falha em que seu capricho possa infiltrar-se, disso se aproveita ao máximo com enormes riscos para a sua formação.

Eis algumas regras que os jovens esposos jamais deveriam inflingir:

1 - Nunca discutiremos diante dos nossos filhos. Se, como em todos os lares (é preciso ser realistas), há momentos - que esperamos sejam os mais raros e mais breves possíveis - em que nos entendemos menos bem, buscaremos nos explicar a sós, nunca diante de testemunhas.
2 - Jamais trocaremos censuras diante das crianças.
3 - Jamais nos contradiremos diante das crianças, sobretudo a respeito delas.
4 - Jamais um autorizará às escondidas o que o outro proíbe.
5 - Jamais tomaremos um dos nossos filhos por confidente de nossos desgostos mútuos.
6 - jamais faremos alusão aos defeitos, e com mais razão ainda, ás faltas, um do outro.
7 - Jamais um dirá alguma coisa que venha a ser prejudicial ao respeito e ao afeto das crianças relativamente a um ou a outro.
8 - Jamais diremos a uma criança: "Sobretudo não contes a mamãe!" ou "Não digas nada ao papai!"
9 - Teremos positivamente o cuidado de reforçar a nossa autoridade mútua em todas as circunstâncias.

Guardai-vos de deixar transpirar o menor sinal de desunião entre vós, a menor divergência no modo de tratar vossos filhos; cedo, eles se aperceberão que podem servir-se da autoridade da mãe contra a do pai, e vice-versa; resistirão dificilmente à tentação de se aproveitarem dessa disparidade para a satisfação de todas as suas fantasias;

Contradizer-se diante de uma criança a seu respeito, é nela falsear a noção do bem e do mal, pois, que para ela - por isso mesmo criança - o que é bem pe o que os pais permitem, e o que é mal é o que proíbem. Não há nada como isso para desorientar uma consciência infantil.

Nada mais ridículo e mais pernicioso do que procurar tornar-se popular às custas de um ou de outro - um mimando, enquanto o outro dá ordens ou castiga.

Quando a crianças respira no lar uma atmosfera de indiferença e de frieza, sua alma resseca e se torna incapaz dos movimentos generosos do coração. Fazendo nascer nela a nostalgia de um meio em que o seu coração pudesse desabrochar na alegria, fixa-se numa disposição habitual de hostilidade relativamente ao meio familiar.

Quando à indiferença se junta a hostilidade mútua dos pais, a revolta e a crueldade encontrarão na criança um terreno já preparado. Porque seus pais disputam constantemente em sua presença e a seu respeito, ela mostrar-se-á por seu turno hostil e briguenta nas suas relações com o próximo.

... Decerto, pode às vezes ser penoso para o pai, que volta à casa após um dia de trabalho, ou para a mãe que teve de cuidar da casa e dos garotos, esquecerem a própria fadiga visando assegurar a "frente única" da educação, em vez de se concentrarem em si mesmos ou de apenas trocar queixas pessoais. Mas esse esquecimento de si mesmo é portador de sua própria recompensa.

"Nada mais apropriado para entreter o mútuo amor dos esposos do que pôr em comum suas orações, suas preocupações, suas observações, sua afeição paterna e materna. Assim, continuam a obra inaugurada pela fundação do lar e pelo aceno à vida; colaboram na atividade criadora e redentora de Deus, e ao mesmo tempo, se educam mutualmente. Trabalhando para formar homens e cristãos, os pais encontram incessantemente na ajuda mútua que lhes é imposta, caso consintam aceitar com um só coração a tarefa comum, ocasião de se unirem mais estreitamente, com um amor mais desinteressado, mais elevado e mais rico porque mais fecundo e mais cristão, mais intimamente penetrado de caridade divina." (Mons. Brunhes, Lettre Pastorale sur l'Éducation - 26 de fevereiro de 1944)

De passagem, um pequeno conselho: Mães, que os vossos deveres maternais não vos façam jamais esquecer vossos deveres de esposa. Pais, compreendei os cuidados de vossa mulher, o seu trabalho para que tudo corra bem, as dificuldades que encontra; dai-lhe vosso apoio e vosso estímulo.

(Excertos do livro: A arte de educar as crianças de hoje - Pe. G. Courtois)
PS: grifos meus

A perfeição cristã

A perfeição cristã


É próprio de toda vida procurar a perfeição. Com a vida natural acontece que, chegando ao cume, começa a declinar. Mesmo, porém, no plano natural, a vida intelectual, por exemplo, não deixa nunca de crescer, porque nunca atinge a saturação: - o homem nunca possuirá a totalidade dos conhecimentos.

A vida cristã, como verdadeira vida que é, deve também desenvolver-se, crescer, progredir, até chegar à perfeição. Mas esta perfeição é inatingível neste mundo: só na glória do Pai descansaremos nela – e isto mesmo de modo relativo.

Importa-nos muito saber em que consiste a perfeição, se estamos obrigados a procurá-la, que meios empregar para isto, e como devemos agir.

Sede perfeitos

1 – Todos os batizados são chamados à santidade (I Cor. 1,1). Jesus se dirigiu a todos, quando disse: “Sede perfeitos como o meu Pai Celestial é perfeito” (Mt. 5,48). São Paulo prega repetidamente aos fiéis a obrigação da santidade: “Até que cheguemos todos... ao estado de homem perfeito”. (Ef. 4,13).

2 – A vida cristã, por sua natureza, exige a perfeição. Só existe vida cristã enquanto houver o estado de graça. Para conservar o estado de graça é preciso cumprir todos os preceitos graves. Ora, há certos preceitos graves que o homem só cumprirá procurando a perfeição. Portanto, para conservar a vida cristã é necessário procurar a perfeição.

Pensemos, por exemplo, como pode guardar a castidade quem não mortifica o gosto, os olhares, ou não se dá à oração, ou não evita leituras levianas, etc. Ou como terá caridade com o próximo quem nada quer suportar, mas pretende impor sua vontade, fazer seus gostos, não ser incomodado.

Em que consiste

1 – A perfeição consiste em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por amor de Deus.
A perfeição não consiste em muitas orações, nem graças extraordinárias (visões, êxtases, milagres), nem grandes penitências (fervor, doçura), etc.

2 – Não sendo possível o amor de Deus sem o cumprimento dos preceitos, a perfeição assenta sobre a observância dos Mandamentos. Mas como isto não realiza a perfeição, ela só se completa pelos conselhos evangélicos.

a) Os Mandamentos bastam para a salvação. Mas não para a perfeição. Para esta requerem-se os conselhos: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens dá aos pobres” (Mt. 19,21).
b) A perfeição pode ser moralmente obrigatória. É quando, sem os seus cuidados, não conseguiremos cumprir os Mandamentos. Assim como o moço rico. Não quis atender ao conselho de Jesus, e pôs em risco a própria salvação: “Dificilmente um rico entrará no reino dos céus” Mt. 19,16-26).

3 – Quando se diz que a perfeição consiste na caridade, não se exclui nenhuma outra virtude, mas até se incluem todas elas. A caridade no seu verdadeiro sentido de amor a Deus e ao próximo por amor de Deus supõe todas as demais virtudes.

Como realizar

1 – O fundamento da perfeição é a graça santificante. E como os sacramentos são o meio mais poderoso para se alcançar a graça, a freqüência dos sacramentos é o grande meio de santificação.
Quanto maior for em nós a graça santificante, tanto mais perfeitos somos. Ora, os sacramentos nos conferem eficazmente a graça; logo, são o meio mais eficiente de perfeição.

2 – O homem deve cooperar com a graça de Deus para levar a termo a própria perfeição. A cooperação é elemento indispensável da perfeição.

A luta contra a concupiscência e os inimigos da alma, o aumento das disposições na recepção dos sacramentos, todos os esforços da vontade para imitar a Jesus, são meios para alcançar o fim.

3 – Sendo Cristo o modelo, a perfeição está em imita-lO. Somos tanto mais perfeitos quanto mais a nossa vida se aproximar da de Cristo. E a perfeição se consumará, quando pudermos dizer, como São Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”. (Gl. 2,20).

a) Cristo é um modelo universal: para todos os tempos e todos os homens, sem distinção alguma. Distancia-se infinitamente dos santos: o mesmo santo não pode, ás vezes, servir de modelo a dois homens. É que cada qual imita a Jesus Cristo dentro do seu próprio feitio: feitios diferentes imitam a Cristo diferentemente. Por isto todos são obrigados a imitar a Cristo, ninguém é obrigado a imitar determinado santo. Para facilitar a imitação dos santos, procuremos para nossa devoção um santo cujo temperamento e gênero de vida se pareçam com os nossos. De Nossa Senhora, porém, se pode dizer o mesmo que de Jesus Cristo.

b) A perfeição está em fazer de modo extraordinário as coisas comuns – e não em realizar ações extraordinárias... Cada qual se santifica vivendo com perfeição a própria vida, cumprindo bem todos os deveres, por pequenos que sejam, aceitando com resignação ou alegria a vontade de Deus, e fazendo-a .

4 – A perfeição não se alcança de uma vez. Tem graus.

Para viver a doutrina

1 – Condição essencial da vida cristã, o estado de graça há de ser minha primordial preocupação. Viver na graça divina é ter Deus em mim, é realizar a união com Deus, é atingir neste mundo o fim para que fui criado. No céu, será apenas a consumação desta união.

2 – Os meios da perfeição terão para mim a importância relativa à sua eficácia. Quanto mais eficazes, mais valiosos. Então, os sacramentos terão o primeiro lugar: A Comunhão, a Confissão freqüente; a valorização da graça permanente do Batismo e da Crisma.

3 – As práticas subjetivas são de grande importância, embora inferiores aos sacramentos. São necessários. A mortificação tanto espiritual como corporal, os atos de devoção (leituras, meditações, exames de consciência, irmandades, práticas devotas), obras de apostolado, etc., prestam grande auxílio à perfeição. Não devemos, porém, confundir a perfeição com elas, nem afligi-nos quando não as pudermos fazer.

4 – Santifico-me, fazendo a vontade de Deus, que é o meu dever. Qualquer que ele seja, bem feito! Aceitando tudo o que Deus me enviar, certo de que é bom, pois Deus não me pode mandar senão o bem. Mesmo que eu não o compreenda.

5 – Devemos acompanhar o Ano Litúrgico, aproveitando as lições das festas de Cristo e Nossa Senhora, os exemplos dos Santos às exortações da Igreja.

6 – A leitura da vida dos santos é de muita utilidade para a perfeição.
Não devemos, porém, confundir a santidade com graças extraordinárias que Deus concede, às vezes, mas que não constituem a santidade. Lembremo-nos de que os Santos também tinham defeitos, pois absolutamente perfeito só Deus. Devemos procurar na vida dos santos não a sensação dos fatos extraordinários, mas a edificação.

7 – Leitura por excelência proveitosa há de ser a da Bíblia, sobretudo do Novo Testamento. Os Evangelhos dão-nos a vida de Cristo – e seria vergonha desconhecê-los. O bom cristão nunca se cansará de relê-los, meditando-os, penetrando-se de seu espírito. Eles contêm o modelo acabado da perfeição.

8 – Por perfeito que julgasse ser, estaria errado o cristão que descurasse do próximo. Aliás, é a caridade com o próximo da essência mesma da perfeição. E não há maior prova de verdadeiro amor do que procurar ao próximo o sumo bem desta vida, que é o estado de graça e a perfeição cristã.

(O caminho da vida – Pe. Álvaro Negromonte)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

8ª Conferência - "Analisou um campo e comprou-o; e plantou a vinha com o fruto do seu trabalho"

8ª Conferência dada para as senhoras da associação de caridade pelo Monsenhor Landriot - Arcebispo de Reims (1877)




Consideravit agrum, et emit eum:
 de fructu manuum suarum plantavit vineam.
Analisou um campo e comprou-o;
 e plantou a vinha com o fruto do seu trabalho.
(Prov. XXXI, 16)

A mulher forte madruga, e distribui o alimento e o trabalho aos seus domésticos”.

A vigilância dos criados é uma das suas principais ocupações, e para que tal vigilância seja séria a ativa, entrega-se a ela logo pela manhã; é a primeira, ou, pelo menos, uma das primeiras a levantar-se em casa, porque o seu exemplo é a melhor das predicas e o mais eficaz conselheiro.

Semelhante ao sol, ela anuncia o recomeço do trabalho no interior da sua casa, ilumina tudo com a sua presença, aquece os caracteres mais indiferentes, excita as naturezas mais apáticas, e nada pode subtrair-se a sua salutar influência: Nec est qui se abscondat a calore ejus. (Ps., XVIII,7)

Esta vigilância aos criados deve ser cheia de razão, de sabedoria e verdadeira afeição, pois a mulher forte deve lembrar-se que os seus domésticos pertencem a natureza humana, que são nossos irmãos em Jesus Cristo, e que têm direito a ser tratados com o respeito que reclama a sua qualidade de homens e de cristãos.

Ela faz de toda a sua casa uma verdadeira família, cujos membros estão situados em diversos graus da escala, mas onde todos participam da vida comum. Cada um tem o seu lugar, e é esta variedade na hierarquia, que produz a ordem e a beleza.

Mas do mesmo modo que em um jardim todas as plantas, respirando o mesmo sol e o mesmo ar, tem, todavia uma parte diferente nos benefícios da natureza, assim no jardim da família, cada um tem o seu quinhão, maior ou menor, de orvalho e de calor: primeiramente as árvores vetustas, depois os arbustos, e em seguida as florinhas que crescem a seus pés.

Dando depois um outro sentido as palavras do nosso texto, dissemos, seguindo um pensamento familiar dos Santos Padres, que a alma, com a inteligência, o coração, a imaginação, os sentidos e os nervos, representavam o completo interior de uma casa, aonde cada faculdade exercia o papel de pai, de mãe, de filhos, de domésticos e porteiros, e que não era pequena a dificuldade de saber conservar em paz todos estes numerosos membros da mesma família, que se chama o eu humano.

Expliquemos hoje este versículo: Analisou um campo e comprou-o, e plantou a vinha com o fruto do seu trabalho.

A Bíblia mostrou-se primeiramente a mulher forte exercendo a sua atividade no interior do lar. Ela faz a alegria e a consolação de seu marido; para ele, o coração dela é uma fonte de perenes bens e um tesouro de paz e confiança. Prepara a lã e o linho; fiscaliza os serviços que se executam em casa; madruga, porque, ainda a natureza dorme e ela já distribuiu o trabalho e o alimentou aos seus domésticos.
O Espírito Santo vai, contudo, descrever a atividade da mulher forte nas suas relações com o exterior: - Analisou um campo e comprou-o; e plantou a vinha com o fruto do seu trabalho.

O trigo e o vinho são os dois grandes recursos da vida humana: entre os produtos da terra, nenhuma, cujo uso seja tão universal e tão indispensável, e a Sagrada Escritura os emprega de preferência para designar todas as riquezas agrícolas. Aqui a mulher deve subordinar as suas vontades ás de seu marido: pode atuar por insinuações, conselhos e súplicas, mas as últimas decisões devem partir do chefe da casa. Assim suporemos sempre, no que temos a dizer, que ela vai de harmonia com seu marido, e que tudo se decidiu em comum acordo.

Ela analisou um campo. – Com efeito, deve ter os olhos abertos sobre tudo quanto respeita á prosperidade de sua casa. Analisou, consideravit.

Realmente nada deve fazer de leve, mas analisar tudo com seriedade, pois há propriedades cuja aquisição é onerosa, e outras que são um atrativo e uma riqueza. Nada deve comprar, não tendo com que pagar; pois não é um dos grandes cancros da nossa época o gastar mais do que se há em rendimentos? Mal aparece um canto de terra á venda lança-se-lhe logo um olhar cobiçoso; a bolsa está vazia, não importa; compra-se, o futuro pagará.

Esta ambição que se encontra em pequenas e grandes doses, segundo as posições, é, na atualidade, uma das principais causas de sofrimento. Nos negócios, no comércio, na agricultura, fazem-se, muitas vezes, despesas e especulações completamente incalculáveis, e por isso mesmo a riqueza de muitos é artificial, e uma como que brilhante frontaria a esconder ruínas; e para uma grande parte de proprietários e negociantes, a vida é passada no meio de torturas análogas ás de um desgraçado, que fosse condenado a encerrar todos os membros num vestido estreitíssimo.

Este vestido é a imagem destas fortunas relativamente medíocres, onde, todavia, se agitam, em todo o sentido, desejos imoderados. Tudo é falso em situações destas; tudo assenta no vácuo e na mentira; tudo prepara uma ruína desastrosa.

Que a mulher forte ponha, pois, os seus olhos neste perigo; que desconfie de tudo quanto brilha muito e muito promete; que ela compre campos e plante vinhas, mas depois de bem ter analisado todas as coisas, depois de ter considerado o estado das propriedades, e, sobretudo, o estado da sua bolsa: Consideravit agrum et emit eum.

Quanto não é melhor para a felicidade e para a paz das famílias, o ter uma fortuna medíocre com o contentamento do coração, e a segurança do futuro! A felicidade não está nas coisas exteriores; é antes a maneira por que sabemos gozá-la, o que nos torna mais ou menos felizes. Tal indivíduo tem mais ventura com o seu pão de cada dia do que o rico, cuja vida é uma ansiedade contínua, e uma febre que o não deixa, nem mesmo durante o seu sono agitado.

O texto da Escritura que acabamos de comentar mostra-nos que os pais e a mães de família podem e devem ocupar-se de um sábio melhoramento na sua fortuna, e cuidarem do futuro de seus filhos; é uma séria obrigação que lhes impõem a religião, o bom senso e o amor paternal.

Devem por meios honestos e lícitos, por uma sábia providência trabalhar todos os dias em fazer economias, em aumentar o seu patrimônio, em preparar uma posição conveniente para a sua família. Obrar de outro modo seria esquecer leis sacratíssimas, e imitar o procedimento dos pais desnaturados, que só têm como regra o egoísmo e a prodigalidade: tudo lhes vai bem, com tanto que gozem em plena liberdade, e que nada lhes cause uma pequenina preocupação.

A religião não se contenta com sancionar os preceitos da ordem natural: dá, sobretudo, regras para se observarem com sabedoria e conveniência. Ela ordena ao pai e a mãe a vigilância sobre o melhoramento da sua fortuna, com a condição, todavia, de que os pobres não serão esquecidos; e o que se arranca a uma sórdida economia para se derramar no seio dos pobres, produz, muitas vezes, em felicidade e em bênçãos, mesmo temporais, o que nunca produzirão cálculos habilíssimos.

A religião permite o aumento do capital e das rendas, mas sob a condição de que jamais se faltará as leis da honra e da probidade, de que não se imaginarão fraudes perfeitamente coloridas, sutilezas humanas que merecem um nome que não ouso pronunciar aqui, precauções engenhosamente pérfidas, que se tornam para o pobre próximo, como laços ocultos entre o mato, para o inocente animal do prado. Não; a religião reprovará sempre as fortunas adquiridas deste mundo.

São marcadas com o selo da injustiça e da iniqüidade; têm nos flancos o cunho indelével de uma espécie de pecado original, e demasiadas vezes a desgraça de certas famílias, as suas rivalidades, as disputas, não têm outra causa na ordem providencial. Houve uma semente má no princípio, que produziu um joio oculto, que envenenará sempre o campo da família.

Eu gosto muito dos provérbios, porque são ordinariamente os resultados de uma longa e profunda experiência, e uma como moeda da sabedoria das nações; e neste momento lembra-me um que tem aplicação ao meu assunto: - “O bem mal adquirido nunca aproveita”.

Nunca aproveita apesar de tudo indicar exteriormente o contrário; nunca aproveita, porque, muitas vezes, os acontecimentos da vida, que são os mensageiros de Deus, aniquilam fortunas mal ganhas, do mesmo modo que o transeunte pode aniquilar um edifício de vidro; nunca aproveita, porque supondo mesmo uma prosperidade contínua e sempre crescente, a justiça de Deus encontra o meio de tornar desgraçados esses proprietários, entre todas as causas de gozos exteriores, e porque, por um poder de metamorfose desconhecida, tudo quanto devia ser-lhes motivo de alegria, lhes derrama ao contrário o gosto de absinto.

Há doenças em que o melhor vinho parece mais amargo que o vinagre, e, do mesmo modo há também doenças morais, desgostos inexplicáveis cuja causa é desconhecida. É a justiça de Deus que os inflige em certas posições, e então a qualidade dos objetos e a sua ação sobre a alma parecem mudar de natureza, transformando-se as rosas em espinhos e os melhores licores em bebidas cheias de amargura.

... A mulher forte plantou uma vinha com o fruto do seu trabalho. Eu não quero, ligar-vos a cauda de uma charrua nem fazer-vos cavar vinhas; mas se tendes alguma propriedade no campo, ou a possui algumas das vossas amigas, aconselho-vos a ir lá, ao menos, de quando em quando, respirar o ar fresco e puro, o qual dá saúde e sabedoria...

Sim, minhas senhoras, ide ao campo algumas vezes; se gozais a paz e a confiança da alma justa, a vista da natureza aumentará esse bem estar moral, porque a criação é um espelho que reflete uma parte das grandezas e belezas da essência divina, ao mesmo tempo que, pelo seu silêncio, é uma imagem da eterna paz de Deus.

Se não plantais a vinha, ide vê-la plantar. Examinareis como se cava o solo, como se mergulha a estaca, como se lhe deita depois a terra. Vereis como a cepa rebenta, vereis confirmado o mal que pode causar-lhe a geada ...

Sim, senhoras, ide ao campo algumas vezes; gozais a paz e a confiança da alma justa, a vista da natureza aumentará esse bem estar moral, porque a criação é um espelho que reflete uma parte das grandezas e belezas da essência divina, ao mesmo tempo que, pelo silêncio, é uma imagem da eterna paz de Deus.

Se não plantais a vinha, ide vê-la plantar. Examinareis como se cava o solo, como se mergulha a estaca, como se lhe deita depois a terra. Vereis como a cepa rebenta, vereis confirmado o mal que pode causar-lhe a geada, e a rica abundância que preparam as forças combinadas da chuva, da luz e do calor. Fareis em seguida um giro sobre vós mesmas e dir-vos-eis:

- Minha alma é a terra do Pai celeste, e eu devo também plantar nela todos os dias uma vinha de excelente natureza, mergulhando-a sob o solo, isto é, nas regiões mais profundas do coração, cobrindo-a com as precauções da sabedoria cristã, preservando-a do frio, e tendo-a sempre exposta aos raios do sol ou á benéfica ação do orvalho do céu.

Ide também visitar os vossos campos, e quando os virdes alourar, perguntai-vos:

- Quando é que os frutos da minha alma estarão maduros para a colheita? Ó meu Deus, fazei com que eu me converta em um puro fermento, a fim de me transformar em vós: Frumentum Christi. (Igna. Anthioc., ad Romano, c.4)

Estou a ouvir-vos dizer-me que não tendes campo, nem as vossas amigas. Tendes talvez um jardim, ou, pelo menos, um canteirinho; pois eu tenho absoluta necessidade de encontrar, na vossa vida, alguma aplicação das palavras da Escritura, que comento nesta ocasião...

Uma flor tem alguma coisa de vivo, de fresco e gracioso, que faz companhia, e nos fala uma linguagem divina. Uma flor! Uma flor é a imagem de um pensamento de Deus, como um verso é a imagem de uma idéia do poeta. Uma flor parece olhar-nos e o seu olhar é o desabrochamento da sua corola. Uma flor tem vida, e uma vida graciosamente expressa, uma vida que é símbolo da candura, da inocência e da modéstia.

Quando uma flor se agita aos primeiros raios do sol, é uma suave lição, que podemos aproveitar; ela indica-nos um outro sol, cuja luz nos aquece o coração; quando se apraz crescer entre as urzes, ensina-nos a humildade e a vida oculta; quando nos olha e parece suplicar-nos que a reguemos a fim de reparar a vida quase extinta, ensina-nos a solicitar também o verdadeiro orvalho das almas.

Enfim quando pende e morre, faz-nos sinal, e recorda-nos que a nossa vida será em breve descolorida; mostra-nos que a existência da flor e a do homem, que pareciam tão diferentes na duração, se confundem perante a eternidade, em que mil anos são como um dia.

Sim, senhoras, empenho-me para que cultives flores: a vida destas encantadoras criaturinhas acalma, adoça, harmoniza e pacifica; refresca a vista e fortifica o coração, porque tudo quanto é verdejante, fresco e cheio de vida, exerce sobre nós uma influência feliz, que faz desabrochar todas as faculdades da alma.

A mulher forte analisou o campo, e comprou-o, e plantou a vinha com o fruto do seu trabalho.

Poderia dizer-se ainda que, sob o nome de pão e vinho, a Bíblia quis designar todas as boas coisas da ordem temporal. A mulher forte deve vigiar tudo; tudo quanto pode ser útil a seu marido, aos seus filhos, aos seus criados, ela deve procurá-lo, seguindo as regras da probidade, da sabedoria, da honra e da moderação, de que temos falado.

A mulher tem, muitas mais vezes que o homem, a inteligência das pequenas coisas, tem o olfato mais exercitado por uma multidão de coisas que nos escapam: a ela, pois, pertence prever, pressentir, calcular, submeter a seu marido, e executar de harmonia com ele. Por sem dúvida que não é intenção minha excitar no coração da mãe de família uma ambição desregrada; tendo explicar-vos os vossos deveres, ou, pelo menos, o que vos é muito legitimamente permitido, e assim respondo antecipadamente aos que censuram ao cristianismo o fazer da mulher casada uma espécie de religiosa – não se ocupando senão de irmandades e de devoções.

A mulher verdadeiramente piedosa, ficando completamente fiel aos deveres de uma piedade esclarecida, nada deve desprezar do que pode interessar á prosperidade, material mesmo, de sua casa; e se ela quisesse imitar a vida da religiosa e a forma da sua piedade, “esta devoção – diz São Francisco de Sales – seria ridícula, desregrada e insuportável” (Vida devota, 4ª Parte).

Por outro lado evitemos os excessos de uma ambição desmedida, porque a ambição é uma paixão, que sai dos rails da razão e da sabedoria cristã. Eu desejava o vapor regulado, que marcha com ordem, medida e segurança: se a ausência de vapor é a inércia e a morte, o vapor que faz descarrilar é um outro inconveniente não menos grave.

Nem um nem outro devem agradar-vos, e o que eu desejo no interior das vossas famílias, é o vapor conduzido sabiamente, isto é, a ação de uma mulher previdente, sem desmedida inquietação, ocupando-se seriamente dos interesses da sua casa, com toda a honra e com toda a probidade; é uma inteligência ativa sem sair da serenidade, economia sem parcimônia, regulada sem afetação, e fazendo com conveniência as honras domésticas, sem esquecer os interesses de seus filhos e os deveres de mãe de família.

... A mulher forte deve, pois, formar no seu coração uma contínua provisão de excelentes coisas, a fim de poder, na ocasião, distribuí-las á sua família. É necessário ela saiba, nas sociedades que freqüenta, recolher as boas palavras e os preciosos ensinos, mas deve considerar tudo muito bem: Consideravit agrum. Nem tudo é bom nos jardins do mundo: há muitas vezes mais plantas venenosas do que flores perfumadas e salutares. O dever da mãe da família é fazer delas uma escolha religiosa, inteligente, pondo de parte tudo quanto possa ferir a fé e alterar a pureza da alma de seus filhos: Consideravit agrum.

Antes de apresentar a sua jovem família no mundo, considera ela se o tempo é propício, se a alma não é ainda muito tenra, muito acessível a más influências; examina se as sociedades aonde quer levar seus filhos...

Há vinho que se pode beber aos quarenta anos sem nenhum perigo, mas que faria partir a cabeça aos dezoito. Explico-me assim, porque muitas vezes não se presta atenção a esta diferença de idade, de caráter, de impressionabilidade, que muda continuamente o que é relativamente bom, ou, pelo menos, indiferente, podendo torna-lo relativamente mau.

Neste caso, procurar para os filhos algum uso do mundo, e de um mundo muito precoce, é roubar-lhes o que há de mais precioso para eles, a inocência e o amor da simplicidade; é desenvolver-lhes todos os germes da má natureza, e, sobretudo, a desmedida inveja de agradarem, que podem mais tarde causar-lhes amargos pesares.

Esforço-me, senhoras, por não exagerar, nem condenar absolutamente, o que é incontestavelmente mau; quero, sim, reprovar somente os excessos, e o que a própria razão esclarecida pela fé condena. Ponhamos as nossas idéia em toda a sua luz por um exemplo que toda a gente compreenderá: nada há mais agradável, e, muitas vezes, mais útil, do que ir após os calores do estio, aspirar o ar fresco e embalsamado de uma bela noite e, todavia, a razão proíbe a um febricitante, deixar o quarto, sobretudo, á noite.

Que direis, pois de um homem, cujo temperamento fosse enfraquecido pela febre, o qual quisesse sair convosco, sob o pretexto de que o passeio não lhe seria mais nocivo do que a vós próprios? E vós não vedes que sois mais imprudentes que este enfermo: sob o pretexto de quererdes formar a alma e o exterior de vossos filhos por coisas que saberão sempre muito cedo, expondes seriamente a graves perigos um temperamento moral, que não é suficientemente formado, produzis-lhe a febre de todas as espécies de coisas mais ou menos más, e que podem mais tarde, no ato do desenvolvimento, envenenar-lhe o futuro.

Sabedoria, pois, senhoras, sabedoria na escolha de tudo quanto comunicardes á vossa casa, e, sobretudo, a vossa família. Consideravit agrum. Sabeis examinar, pesar e medir tudo.

Evitai também as conversações do lar doméstico, em que o pai e a mãe se permitem explicações mais que transparentes, ora sob o império de uma indesculpável distração, ora sob o pretexto de que os filhos não compreenderam, nem prestam nenhuma atenção ao que se diz.

Consultai as pessoas que têm educado a mocidade e elas vos dirão que crianças de quatro anos ou cinco, têm a inteligência extraordinariamente desenvolvida, sobretudo, quando se trata de compreenderem o mal; a experiência mostra, todos os dias, coisas deploráveis nesta matéria. Se contar diante de criança crônicas mais ou menos escandalosas; envolvendo a narração com véus, com metáforas e embalando-vos na doce e triste ilusão de que vossos filhos não compreenderam nada.

Mais tarde espantar-vos-eis ao saberdes tudo quanto tiver crescido em seu coração, e o primeiro gérmen desta árvore de maldição, terá sido a conservação a meia voz, permitida diante deles; o entretenimento a que assistiram na vossa presença, e na casa aonde os tendes conduzindo imprudentemente.

A palavra, a conversação, o segredo, o sorriso, abrir-lhes-ão os maus germens que se acham no coração de todos os filhos de Adão, e, sem que o penseis, tereis assim preparado um triste futuro a vossos filhos...

Dir-vos-ei ainda que vigieis os jornais, os folhetins, os romances! Não deixeis entrar em vossa casa coisa que possa conter veneno; vossos filhos estariam expostos a toma-lo no momento em que volvêsseis as costas. Arrancai os maus livros da vossa biblioteca; e se possuis alguma obra que a vossa idade ou condições especiais vos autorize a conservar, então fechai-os.

Eu conheci crianças de excelentes famílias, perdidas assim, pelos livros deixados imprudentemente nas mesas de uma livraria sempre aberta. As crianças, senhoras, têm o instinto do mal, em maior grau ainda do que a idéia do bem, e têm o olfato de certas coisas, sobretudo, quando o seu espírito foi despertado sobre tal ponto, porque então querem ir até ao fim, e Deus sabe através de que silvas e de que espinhos!

Não podereis tomar muitas precauções: nada de minúcias e de espionagem, mas uma séria atenção; e se me acusais de vãos escrúpulos, e de preocupações excessivas, serei obrigado a concluir que, não conheceis bem o coração da mocidade.

Se puserdes em prática os conselhos que acabo de dar-vos, nenhum dos interesses da vossa família será desprezado: provereis a tudo, e a vossa casa tornar-se-vos-á, e a vossos filhos, uma fonte de todos os bens. Ora, bem o sabeis quando se faz á fonte um largo canal, ela engrandece e jorra com profusão; a água brota debaixo com uma abundancia sempre nova, sobe, estende-se e converte-se em um grande rio.

Do mesmo modo se tornará a vossa casa, e eu desejo vivamente que de cada uma das vossas famílias, e de todos os seus interesses materiais e espirituais se possa dizer com os nossos Livros Santos: - A pequena fonte transformou-se em grande rio, e derramou por toda a parte as suas largas e fecundas águas: Fons parvus crevit in fluvium maximum, et in aquas plurimas redundavit (Éster, XI,10)

(Excertos da 8ª Conferência de Mons. Landriot - retirada do livro: A mulher forte)

PS: Grifos meus
PS2: Ver as demais conferências nos marcadores do blogue.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Exemplo de arrependimento - Santa Madalena

Arrependimento de Santa Madalena


Santa Maria Madalena foi a amiga previlegiada de Jesus, cuja Santa Humildade honrou magnificamente.

Ela servia-O com seus bens, acompanhava-O por toda a parte, gostava de rezar aos seus pés, no silêncio da contemplação. Merece ser, por tantos títulos, a padroeira e o modelo de Vida de Adoração e do serviço de Jesus no Sacramento do seu Amor.

Santa Madalena, antes de sua conversão, era uma grande pecadora. Tinha os dotes de corpo e de espírito e os bens da fortuna que levam aos maiores excessos... Esta mulher chegou a tal ponto de degradação que, para Simão, o Fariseu, é uma desonra entrar ela em sua casa. E porque Jesus a tolera aos seus pés, chega ele a duvidar de sua luz profética.

Mas esta pobre pecadora vai elevar-se, pelo perdão no molde do maiores Santos. Examinemos este trabalho interior.

O respeito humano é o fator principal que, tolhendo os movimentos dos grandes pecadores, impede-lhes a conversão. "Não hei de perseverar no bem; portanto não ouso empreender uma coisa que não levarei a termo". E param. Desanimam.

Santa Madalena vem a saber que Jesus está na casa de Simão. Então não hesita. Ousa penetrar numa casa, donde a teriam vergonhosamente expulsado se a tivessem reconhecido à entrada. Mas, aos pés de Jesus, se as palavras não lhe vêm, seu amor fala eloqüentemente. Os pintores representam-na com os cabelos e as vestes em desordem. Tal modo de se apresentar não teria sido digno nem do seu arrependimento, nem de Jesus.

Dirige-se logo ao Mestre, sem receio de se enganar. E como O reconhece ela? Ah! o coração dolorido bem sabe descobrir a quem o irá consolar e sarar!

Santa Madalena não ousa fitar os olhos em Jesus, nem sequer abrir a boca - sinais característicos da verdadeira contrição. Reparai no filho pródigo e no publicano.

Fitar o Deus a quem se ofendeu, é insultá-Lo. Mas Madalena chora e enxuga com seus cabelos os pés de Jesus, molhados com suas lágrimas. O lugar que lhe compete não é outro que aos pés de Jesus. Os pés calcam a terra e ela nada é senão poeira de cadáver. Como de um vil trapo, serve-se de seus cabelos - vaidade que o mundo adora - e conserva-se prostrada à espera da sentença.

Ouve os colóquios dos invejosos, tanto dos Apóstolos como dos Judeus, que só sabiam honrar a virtude já coroada e triunfante. Não gostam de Madalena, que lhes dá a todos uma bela lição, pois todos tinham pecado e nenhum tinha a coragem necessária para pedir publicamente perdão.

O próprio Simão, todo cheio de hipocrisia e de orgulho, indigna-se! Mas Jesus, vingando a Madalena, exclama - belas palavras de reabilitação!

"Muito lhe foi perdoado, porque muito amou!" E acrescenta:
"Vai em paz, tua fé te salvou".

Ah! quão perfeita é sua contrição! Uni-vos a ela ao confessar-vos e que vosso arrependimento, semelhante ao dela, resulte antes do amor que do receio.

(Excetos do livro:  A Divina Eucaristia - Volume I - São Pedro Julião Edymard)

O que é um padre?

O que é um padre?



Sem dúvida é um homem como nós, porém um homem obrigado, pela vocação, a viver num plano superior, a tender à perfeição, mesmo à santidade; um homem condenado a viver só, sem família, a fim de ter o coração livre e sempre pronto à todas as dedicações; um homem que segundo a palavra do P. Chevrier, é "feito para ser comido"; um homem que não se pertence, mas que pertence a todos.

Como Cristo ele está na terra "para servir" . E que servidão a sua! Dia e noite ele está à disposição dos que necessitam do seu ministério; passará horas a fio nisso... quantos padres têm perdido a saúde em conseqüência de estágios prolongados no confessionário!

Em particular nas vésperas das festas, ás vezes eles entrarão ali ás seis horas da manhã para saírem já noite fechada! Em certos momentos, o seu pobre corpo não pode mais, a cabeça estala; mas eles têm de permanecer no seu posto. Estão ali "para servir". Ali ouvem confissões pertubadoras, ficam ligados a elas por um segredo terrível, a ponto de deverem morrer antes que revelarem o que ouviram.

E, se uma epidemia estender suas devastações sobre o país, eles serão sempre os primeiros, e por dever, a ir à cabeceira dos doentes, ainda quando tivessem com isso de contrair o contágio e a morte. Devem "servir"!

No campo, é uma solidão esmagadora e, às vezes, a pobreza extrema... Nas cidades, o padre é "moído", da manhã à noite, pelos ofícios, pelos catecismos, pelos doentes, pelas visitas obrigatórias, pelos patronatos, etc... E quantos que, á noite, ainda são obrigados a ocupar-se de círculos de estudos, de sessões a preparar, e o mais; expostos ainda a levantar-se se, durante a noite, os chamarem à cabeceira de um moribundo!

Na realidade, quando olhada sem "parti-pris", a vida do padre é simplesmente heróica.

O que os inimigos exprobram sobretudo, não é o bem que ele faz, é vê-lo teimar em viver na cruz, como seu Mestre, condenando-lhes assim os costumes dissolutos! A ele, como a Cristo, eles bradam:

"Desce da tua cruz!"

Então talvez eles lhe perdoassem, se o vissem tornar-se como um deles. Mas o eleito de Deus obstinar-se-á na sua vida rude, crucificado, solitário; jamais descerá da sua cruz, jamais renunciará ao seu papel de Cristo. Por isto, será sempre perseguido pelas injúrias, pelos sarcarmos, pelos escárnios e pelo ódio.

Os jornais de 1937 noticiaram que, na Espanha, 50% dos padres haviam sido fuzilados, torturados, trucidados; em certas regiões a proporção foi até 90%.

... Um missionário da China, voltando à França depois de haver por milagre escapado a horríveis perigos, ao descer do navio, em Marselha, arrastava o seu pobre corpo gasto, amortecido. Uns operários passam por junto dele, e um deles, apontando-o aos outros, exclama:

"Quando será que se jogará na água esse lepra?"

Por que esse grito de ódio?
Era um padre!

... A nossa batina designar-nos-á sempre aos punhais dos sicários e às balas dos desordeiros!

(Excertos do livro: Mais perto de Ti, meu Cristo - Pe. Baeteman)

Consoladores de Cristo!

Ó cristão que lerdes estas linhas, dizei, oh dizei! porque não haveriéis de ser também como uma Verônica? Como ela, segui Jesus, não somente até a Ceia, mas pela estrada sangrenta do dever e da renúncia cotidiana.

Segui-o com fé, com ânimo! Vede Verônica! não tem medo de nada! não se ocupa com aqueles que a cercam, com os conselhos demasiado humanos que a prudência lhe podia sugerir; passa através da multidão, dos criados, dos soldados, dos algozes; vai a Jesus através de tudo...

O mundo talvez pare e vos olhe, suspenso. Mas vós, segui o vosso caminho, confiante, corajoso, invencível, levando sobre o vosso coração, como aquela santa mulher, a imagem do vosso Deus crucificado.

Nosso Senhor repete-vos ainda esta melancólica palavra da Escritura: " Busquei consolador e não achei!" Vós, olhai Jesus bem em face, e, com o coração cheio de alegria e de um ardor vibrante, dizei-Lhe mui simplesmente: "Mestre, buscai alguém que Vos console e que Vos ame?...Aqui estou eu!"

(Formação da donzela - Pe. Baeteman)