sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Santa Águeda, Virgem e Mártir

Santa Águeda, Virgem e Mártir
5 de Fevereiro


Os que semeiam com lágrimas, colhem na alegria.
Quando partiram, iam a chorar,
lançando a semente à terra.
No regresso, porém, vinham a cantar,
carregando as suas paveias

Santa Águeda, padroeira da Sicília é o protótipo da virgem cristã que se deixa matar por não violar a promessa que fizera ao Senhor.

O autor do século VI que escreveu as Atas do seu martírio, apresenta-no-la trinfante da bruteza do carrasco que lhe escoria o peito, depois de ter já vencido as solicitações perversas do governador da cidade. "De pé, no meio do cárcere, a bem-aventurada Águeda, levantando as mãos, invoca o Senhor: Senhor Jesus Cristo, Mestre amantíssimo, dou-Vos graças por me haverdes feito triunfar das sevícias do algoz e peço-Vos que ordeneis que eu tenha a felicidade de alcançar a glória eterna" (Ant. de Magnificat).

A Santa Igreja, que se regozija com tamanho triunfo (foi para Santa Águeda que se compôs o Intróito Gandeámus) reporta a glória dela a Deus (que escolhe o que é fraco diante do mundo para confundir os fortes) e incita-nos a pedir a graça de colhermos todo o proveiro de tão raro exemplo de virtude.

Martirizada em Catana à volta de 250, foi considerada desde então padroeira da cidade e de toda Sicília. Por mais duma vez o véu da Mártir reteve a torrente de lava que descia do Etna e ameaçava subverter a cidade. Queria Deus honrar por este modo a resistência que a alma da santa opôs à lava das paixões.

(Retirado do Missal Vesperal e Quotidiano - Dom Gaspar Lefebvre - 1952)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Das bem-aventuranças evangélicas

DAS BEM-AVENTURANÇAS EVANGÉLICAS


Que são as bem-aventuranças evangélicas?
As bem-aventuranças evangélicas são atos sobrenaturais de determinadas virtudes, pelos quais Jesus Cristo promete, ainda nesta vida, a bem-aventurança, fundada na alegria que nasce da esperança certa de obter o prêmio eterno.

Quantas são as bem-aventuranças evangélicas?
As bem-aventuranças evangélicas são oito:

- Bem-aventurado os pobres de espírito, porque deles é o reino do céu;
- Bem-aventurado os mansos, porque eles possuirão a terra;
- Bem-aventurado os que choram, porque eles serão consolados;
- Bem-aventurado os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;
- Bem-aventurado os que usam de misericórdia, porque eles alcançarão misericórdia;
- Bem-aventurado os limpos de coração, porque eles verão a Deus Nosso Senhor;
- Bem-aventurado os pacíficos, porque eles serão chamados filhos de Deus;
8º -  Bem-aventurado os que padecem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino do Céu.

Por que nos propôs Jesus Cristo essas bem-aventuranças?
Jesus Cristo nos propôs essas bem-aventuranças:

1º -  Para nos fazer detestar as máximas do mundo;
 - Para convidar-nos a amar e praticar as máximas do Evangelho.

Quais são os que o munda chama bem-aventurados?
O mundo chama bem-aventurados os que possuem riquezas e honras, que vivem alegremente e que não têm ocasião de sofrer.

Quais são os pobres de espírito que Jesus Cristo chama bem-aventurados?
Os pobres de espírito, segundo o Evangelho, são os que têm o coração desapegado de riquezas; os que fazem dela um bom uso, quando as possuem, e se resignam inteiramente, quando são privadas delas.

Quais são os mansos que possuirão a terra?
Os mansos, que possuirão a terra, são os que tratam com brandura o próximo, sofrem com paciência os seus defeitos e suportam, sem queixas nem ressentimentos de vingança, as injúrias que deles recebem.

Quais são os que choram e contudo se chamam bem-aventurados?
Os que choram e contudo se chamam bem-aventurados são os que se afligem pelos pecados cometidos, pelos grave males e escândalos que vêem no mundo e pleo perigo em que se acham de perder o céu.

Quais são os que têm fome e sede de justiça?
São os que desejam adiantar-se sempre mais no exercício das boas obras e das virtudes e na posse da graça de Deus.

Quais são os que usam de misericórdia?
São os que, amando em Deus e por Deus o próximo, se compadecem de suas misérias espirituais e corporais, e procuram aliviá-Lo quanto lhes é possível.

Quais são os limpos de coração?
São os que nenhum afeto têm ao pecado, procuram com diligência evitá-lo e principalmente evitam toda espécie de impureza.

Quais são os pacíficos?
Os pacíficos são os que vivem em paz com o próximo e consigo mesmos, e procuram levá-la aos que vivem em discórdia.

Quais são os que padecem por amor à justiça?
São os que suportam com paciência os motejos, os insultos e perseguições por amor da fé ou de qualquer outra virtude cristã.

Que significam as diversas recompensas que Jesus Cristo promete a quem pratica essas virtudes?
As diversas recompensas prometidas por Jesus Cristo sob diversos nomes significam a glória eterna no paraíso.

A prática dessas virtudes nos fará conseguir somente a bem-aventurança eterna?
Não; a prática dessas virtudes nos fará felizes também na vida presente.

Então os que praticam essas virtudes recebem já nesta vida algumas recompensas?
Sim; recebem algumas recompensas, porque gozam da paz e consolação interior, o que é um princípio, bem que imperfeito, da bem-aventurança eterna.

E os que seguem as máximas do mundo, se poderão dizer felizes?
Não; os que seguem as máximas do mundo não são felizes, porque não possuem a verdadeira paz nem a consolação interior e se acham em caminho da condenação eterna.

(2º catecismo da Doutrina Cristã - 69ª Edição, Editora Vozes)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Hora Santa de Fevereiro

Hora Santa de Fevereiro – Padre Mateo Crawley-Boevey


Ditosa solidão do Sacrário...! Como descansa a alma assim, entre as sombras do santuário, aos pés de Jesus Cristo, que é a Luz!

Deixemos, sequer por um momento, o mundo de vaidades e falsidades, e aproximemo-nos ao Paraíso do Coração Sagrado de Jesus... Ele está aqui e nos chama... Roguemos-Lhe confiantemente que feche os olhos a todas as nossas culpas e que nos abra, nesta Hora Santa, a chaga de seu peito, na qual salva os pecadores, donde santifica os bons e na que adoça as amarguras da vida e os horrores da morte...

(Pausa)

(Pedi-Lhe que aceite esta Hora Santa como a prece de todos os nossos lares).

(Lento)

O céu interrompeu seu cântico de glória, os anjos se estremeceram de emoção ao ver chorar Jesus Cristo por amor do homem!... Nesta Hóstia, guardou Maria este lamento, para nós, os amigos, os fiéis que agora Lhe adoramos... Oh! Se cada lágrima de Jesus houvesse sido vencedora de uma alma... Se cada gemido Seu houvesse conquistado para sempre uma família! Todavia, é tempo para dar-Lhe a posse desta terra ingrata, que Ele veio redimir... A Hora Santa apressará Seu triunfo.

(Façamos, pois, violência ao Coração abandonado do Mestre, para que apresse seu reinado no vencimento decisivo de seu amor... Falemos-Lhe sem mais demora com toda a alma).

Jesus amado, atraídos a Vós por Vossos clamores, compadecidos por Vossa solidão e sedentos da vinda do Vosso Reino, ei-nos aqui, oh!, Divino agonizante do Getsemani!, tristes com Vossa mortal tristeza, esquecidos deste mundo que Vos esquece, aqui nos tem, pobres de fé, enfermos de espírito, irrequietos da vida, decepcionados da terra, doentes e caídos... aqui nos tem reclamando nossa parte de agonia e de dor na dor e na agonia de Vosso doce Coração!...

Abre-nos nesta Hora Santa Vossa ferida preciosíssima, a fim de Vos dar-Vos nela uma esperança e um consolo que Vos aliviem... Ah! E amanhã, com Vossa graça, Vos daremos uma glória imensa, no triunfo social de Vosso Sagrado Coração... Apressai-Vos, Senhor, e reinai, em lembrança de Vossa agonia crudelíssima do Horto!...”.

(Meditemos a solidão e as angústias do Getsemaní e do Sacrário).

Almas piedosas, penetremos em espírito naquele jardim tão cheio de pérfidas sombras para Jesus Cristo. Ah!, que firmeza de fé tão consoladora nos alenta e nos alumia. Aquele que está na Hóstia, mudo, silencioso, mas sempre agonizante e redentor, é o mesmo Nazareno que desfaleceu entre as oliveiras, ao peso de angústias infinitas... Surpreendamo-Lo, quereis?, surpreendamo-Lo em Sua agonia eucarística, pois temos mais direito que os anjos.

Vede-O, está moribundo e, oh dor!, está sempre sozinho...

Seus inimigos fazem um complô... Os indiferentes têm preocupações da terra e não têm nem amor nem tempo para o pobre Jesus Cristo... Os amigos, os apóstolos de predileção, com exceção raríssima, estão fadigados do combate e muitos dormem, enquanto o Mestre aguarda desamparado e triste, a morte e a traição. Não vós, crentes, que estais nesta hora compartilhando a amargura de sua solidão... Adoce-a com um cântico, cuja suavidade Lhe faça esquecer a ingratidão do homem.

(Façamos uma solene ação de graças e, todos de joelhos, bendigamos ao Senhor pela inesgotável grandeza de Seu amor.).

(Lento e cortado)

As almas.

Por haver-nos prevenido com o dom gratuito e preciosissímo da fé.

(Todos em voz alta)

Graças infinitas ao vosso amável Coração.

Pelo tesouro da graça e pela virtude da esperança naquele céu que é o término das dores desta vida.
Graças infinitas ao vosso amável Coração.

Pela arca salvadora de vossa Igreja, perseguida e sempre vencedora.
Graças infinitas ao vosso amável Coração.

Pela piedade incompreensível com que perdoais toda culpa, nos sacramentos do Batismo e da santa Confissão.
Graças infinitas ao vosso amável Coração.

Pelas ternuras que esbanjais às almas doloridas que, sofrendo, vos bendizem em suas penas e na Cruz.
Graças infinitas ao vosso amável Coração.

Pelos prodígios santos de vossa caridade, na conversão maravilhosa dos mais empedernidos pecadores...
Graças infinitas ao vosso amável Coração.

Pelos bens da paz ou da prova, da enfermidade ou da saúde, da fortuna ou da pobreza, com que sabeis resgatar a tantas almas...
Graças infinitas ao vosso amável Coração.

Pelos singulares benefícios a tantos ingratos, infelizes, que abusam de situação, de dinheiro e de talentos, que somente a vós, Jesus, vos devem...
Graças infinitas ao vosso amável Coração.

Pelo obséquio que nos fizeste ao nos confiar à honra e à custódia de vossa Mãe, o Coração de Maria Imaculada...
Graças infinitas ao vosso amável Coração.

Por vossa Eucaristia sacrossanta, por este cativeiro e por vossa companhia deliciosa, prometida até a consumação dos tempos...
Graças infinitas ao vosso amável Coração.

E enfim, por aquele inesperado Paraíso, que quisestes nos revelar na pessoa de vossa serva Margarida... pelo dom maravilhoso, incompreensível, de vosso Sagrado Coração...
Graças infinitas ao vosso amável Coração.

(Meditemos na prisão de Jesus Cristo na Quinta-Feira Santa, continuada na Santa Eucaristia).

Havíeis pensado alguma vez nesta frase, insondável no mistério de caridade que até assusta: “Jesus cativo, Jesus encarcerado por amor no Sacrário”? Olhai-O através dessa grade; atrás daqueles muros do tabernáculo, está Jesus Cristo prisioneiro, conquistado por Seu próprio Coração... Assim, há vinte séculos, na Quinta-Feira Santa, pela noite, se deixou conduzir de mãos atadas, do Horto da agonia à prisão em que Lhe ousou colocar o iníquo juiz... E essa noite vergonhosa, horrenda na solidão e desamparo do Mestre, e longe de todos os que Ele amava, se prolonga em todos os Sacrários da Terra...

A blasfêmia, a negação, a indiferença, a impureza, a soberba, o sacrilégio... todo esse clamor deicida, toda essa torrente de lama e de ignomínia, tem o triste privilégio de subir até seu rosto e profaná-lo com o beijo do traidor... E Jesus Cristo não se vai!... É o Cativo do amor! Está aí, envolto no ultraje humano...; está aí, sentado no banco dos réus... tem um grande delito: ter amado, com paixão de Deus, ao homem!... Vede-O, assim este Lhe paga... com esquecimento e solidão!...

As almas.

Oh, amabilíssimo Cativo!, encarcerai também estas almas, que querem compartilhar a solidão de Vossa prisão... Vos pedem que seu cativeiro, como o Vosso, seja eterno... e Vos suplicam para isso que lhes dê por cárcere, na vida e na morte, o abismo insondável de Vosso peito ferido. Sim, lançai-nos nele a todos, como reféns pelos grandes pecadores, por aqueles que renegam Vosso altar e blasfemam contra Vossa Cruz!... Queremos que se salvem para Vós, e pela glória de Vosso nome... Redimi-os, Jesus Sacramentado, cabalmente a estes, os carrascos deste Gólgota, em que viveis perdoando suas ofensas!...

Divino Salvador das almas, coberto de perturbação, me prostro em vossa presença, e dirigindo minha vista ao solitário tabernáculo, sinto oprimido o coração, ao ver o esquecimento em que tanto vos têm relegado os redimidos...

Porém, já que com tanta condescendência, permitis que, nesta Hora Santa, una minhas lágrimas às que verteu Vosso humilde Coração, vos rogo, Jesus, por aqueles que não rogam, Vos bendigo por aqueles que Vos maldizem e com todo o ardor de minha alma, vVs louvo e adoro, com esta grande súplica, em todos os Sacrários da terra.

Aceitai, Senhor, o grito de expiação que um sincero pesar arranca de nossas almas afligida: elas Vos pedem piedade.

Por meus pecados, pelo dos meus pais, irmãos e amigos.

(Todos em voz alta)

Piedade, oh, Divino Coração!

Pelas infidelidades e os sacrilégios.
Piedade, oh, Divino Coração!

Pelas blasfêmias e profanações dos dias santos...
Piedade, oh, Divino Coração!

Pela libertinagem e os escândalos públicos.
Piedade, oh, Divino Coração!

Pelos corruptores da infância e da juventude.
Piedade, oh, Divino Coração!

Pela desobediência sistemática à Santa Igreja.
Piedade, oh, Divino Coração!

Pelos crimes nas famílias, pelas faltas de pais e filhos.
Piedade, oh, Divino Coração!

Pelos atentados cometidos contra o Romano Pontífice.
Piedade, oh, Divino Coração!

Pelos transtornadores da ordem pública, social, cristã.
Piedade, oh, Divino Coração!

Pelo abuso dos Sacramentos e o ultraje a vosso Santo Tabernáculo.
Piedade, oh, Divino Coração!

Pela covardia dos ataques da imprensa, pelas maquinações de seitas tenebrosas.
Piedade, oh, Divino Coração!

E por fim, Jesus, pelos bons que vacilam, pelos pecadores que resistem à graça...
Piedade, oh, Divino Coração!

(Pausa)

(Meditemos na condenação de Jesus, e em Sua ignomínia ao ser tratado como louco: mistérios de caridade e de dor que se perpetuam no Sacramento do Altar).

Calemos um breve instante, e se faz silêncio no fundo desse pobre tabernáculo... ai! o mundo, entretanto, segue e seguirá condenando em seu clamor de culpa ao Prisioneiro do Altar..., e se consente e libertá-Lo, é somente para exibi-Lo como louco, para levá-Lo depois ao deserto do esquecimento humano... e daí a morte injuriosa de uma Cruz... Porém, ouvi ao mesmo Jesus, exposto aí onde o veis, como quando Lhe apresentou Pilatos ao povo enfurecido: o Homem-Deus quer queixar-se docemente a vós, seus amigos. Escutai-O, crentes fervorosos, como Lhe ouviu São João, no pulsar angustioso de seu Coração despedaçado.

“Falai-nos Vós, Mestre!”.

(Lento e cortado)

Jesus.

Alma tão querida, olhai minha frente, marcada com a sentença de morte, fulminada por uma de minhas próprias criaturas... Meu amor é infinito..., o vosso tem sido pobre..., a sentença me deste também vós.

Olhai minhas mãos atadas por aqueles que pedem vergonhosa liberdade... Não tendes vós, às vezes, vossas horas de licença e pecado? Minhas cadeias, as forjastes também vós...

Olhai-Me, coberto com manto branco de insensato; tenho amado tanto, que o mundo me condena como louco... o fui de amor no meu Calvário; o sou na Hóstia do altar... não vos envergastes nunca da loucura redentora de Jesus? Não me tem ferido com respeito humano também vós?

Olhai-me desprezado, porque quis dar a paz ao mundo... Olhai-me desamparado... Sou vergonha dos sábios, sou refugo dos grandes, sou risada dos povos... sou o réu dos governantes..., porém, para todos, quando choram seu pecado, para todos sou Jesus!...

Dizei-Me: e vós não tendes sido infiel, ou não me tendes ferido nunca?... Não me tendes abandonado em minha Paixão?... Respondei-me; eu quero dar-vos, nesta Hora Santa, o ósculo da paz, e de perdão... Respondei-me!

(Breve pausa)

As almas.

Que tenho eu, oh, Divino prisioneiro!, que Vós não me haveis dado?
Que sou eu, se não estou a Vosso lado?
Que mereço eu, se a Vós não estou unido?

Perdoai-me os erros que contra Vós tenho cometido!
Pois me criastes sem que o merecesse;
E me redimistes sem que Vos pedisse;

Muito me fizestes em me criar;
Muito em me redimir;
E não serieis menos poderoso em me perdoar...

Pois o muito sangue que derramastes,
E a morte atroz que padecestes,
Não foi pelos anjos que vos louvam,
Senão por mim e demais pecadores que Vos ofendem...

Se Vos tenho negado, deixai-me reconhecer-Vos;
Se Vos tenho injuriado, deixai-me louvar-Vos;
Se Vos tenho ofendido, deixai-me servir-Vos;
Porque é mais morte que vida,
A que não está empregada em Vosso santo serviço...

(Pausa)

(Consideremos a solidão da Sexta-Feira Santa, prolongada em todos os Sacrários).

Que sombrio devia ser no Calvário, e também no Sepulcro, o anoitecer da Sexta-Feira Santa! Lá, na montanha, no Gólgota, as manchas de um sangue divino pisoteado com furor... Mais abaixo, na cova da tumba, a inércia, o silêncio e o frio da dureza e da morte... Aí tendes nesse altar o Gólgota; aí tendes a tumba no Sacrário! Contemplai e dizei se não é verdade que Jesus Cristo segue sendo a vítima do homem.

Lá fora, ruge a tempestade da negação e a blasfêmia. Estamos agora reparando esse ultraje, num momento de oração...; mas dentro de um instante, terminada a Hora Santa, fechadas as portas deste templo, ficará Jesus sozinho com Seus anjos, naquele sepulcro e esperando que a alvorada Lhe traga o eco dum clamor humano...

Ah, e se soubéssemos a vida de recordação, de súplica permanente por nós, a vida de perpétua imolação do Coração de Jesus Cristo nessa Hóstia!... Que Ele mesmo nos diga:

(Cortado)

Jesus.

Meus filhos: estou angustiado... estou ferido, venho chorando uma imensa desventura... de longe chego com o Coração atravessado, aqui me tendes lançado ao leito da agonia como um desgraçado moribundo!... Tem me rechaçado porque diz que é justo e que não necessita de mim... diz que morre tranqüilo, sem deixar que Eu lhe abrace e lhe perdoe...; tem expirado sem olhar minha Cruz, sem bendizer minhas chagas...; já morreu sem aceitar-me... E lhe havia amado tanto!... Havia lhe redimido com meu sangue, e não teve para mim, nem o último suspiro, nem sua última olhada!

Vós, que me amais, consolai-me dessa ferida... adoçai-a, orando com fervor pelos pobres moribundos!...

(Pedi pelos agonizantes)

Aproximai-vos... Deixai-me sentir o calor do afeto de vossas almas fidelíssimas... Tenho aguardado, em vão, que um lar me dê a hospedagem que se dá ao último e ao mais pobre peregrino... Tenho chamado... ofereci-lhes minha paz... necessitavam-na tanto!... E aqui me tendes...; Chego com a amargura do rechaço..., entretanto, quanto sofre essa família desgraçada!... não há felicidade nela.... não há consolo, nem resignação... nem amor.

(Breve pausa)

Dai-me vosso amor, prestai-me o fervor de vossas orações, oferecei-me o holocausto de vossos sacrifícios, para vencer a tantos obstinados, que lutam contra a ternura de meu Coração, que os persegue sem descanso.

Contai os espinhos de minha coroa: eles poderão enunciar os consolos e as flores de carinho, rechaçados pelas almas queridas de vosso próprio lar..., por tantos seres mui amados de vossos corações e do Meu.

Oremos juntos para que vença neles a paciência e a misericórdia de meu Coração, que os espera aqui, na Santa Eucaristia! Tenho sede de ver-me rodeado nessa Hóstia pelos pródigos vencidos, pelas ovelhas recuperadas, pelos filhos convertidos pela doçura da censura, por minhas lágrimas, pelas graças especiais concedidas nas primeiras Sextas-Feiras e aqui, na Hora Santa.

Que aguardais? Pedi, oh sim, pedi com fé! Pois este vosso Deus quer vingar seu cativeiro, fazendo a felicidade do mundo... Clamai à ferida de meu peito, e se abrirá de par em par meu Coração... Pedi, pois, Quero ser Jesus!... cumprindo convosco minhas promessas!

(Pausa)

As almas.

Oh, bom Jesus, escondido em Vossas dores..., confundido por Vossa solidão e Vossas tristezas, tenho esquecido meus pedidos e as necessidades de minha alma pobrezinha!... Adivinhai Vós as fraquezas de Vosso servo, e curai suas feridas mais secretas... Meu lar também espera nesta Hora Santa a bênção de Vosso Coração agonizante; não suprimi nele, se assim é Vossa vontade, não esgotais o manancial de lágrimas de minha família atribulada: mas aproximai-Vos aos meus e ensinai-lhes a padecer amando, tendo os olhos em Vossos olhos celestiais, e protegidas suas almas combatidas em Vossa alma divinamente angustiada!

Que minha casa seja Nazaré e Betânia de Vosso Coração, Senhor Jesus!

E olhai, amabilíssimo Mestre; abençoai também desde a Hóstia as pessoas de nosso lar que nos foram roubadas pela morte; lembrai-Vos de nossos mortos, e dai-lhes já o descanso eterno do vosso céu... Temos padecido com essas ausências dilaceradoras, mas, ao ver-Vos agonizar também a Vós por nosso amor, dizemos, conformados: “Faça-se Vossa vontade!”.

Não Vos esqueça deles, oh!, e lembrai-Vos também, ó bom Nazareno, daqueles que no mundo vivem eternamente órfãos... dos esquecidos pelos homens no banquete da vida..., de tantos que a terra menospreza em sua soberba, e que padecem fome de amor e de justiça. Vós sabeis como fere aquele desdém dos irmãos... Rogo-Vos, pois, que vos apiedais deles, em Vossa grande misericórdia!

(Pausa)

Teria que pedir-Vos muito mais em minha indigência, mas tudo isso o remediarás Vós, que velas pelas flores e as avezinhas do Santuário... Quero que os últimos momentos desta Hora Santa expirem no esquecimento de mim mesmo, e Vos leveis somente minhas ânsias incontáveis, minha aspiração apaixonada por Vosso triunfo no Reinado de Vosso amante Coração.

Sim, para todos estes aqui que Vos amam, Vossos interesses são os nossos..., queremos, todos, Vosso Reinado. Pedimos, pois, Senhor, que cumprais conosco as promessas que fizestes a Vossa confidente Margarida Maria, em benefício das almas que vos adoram na formosura indizível, na ternura inefável, no amor incompreensível de vosso Sagrado Coração!... Por isso vos gememos com vossa Santa Igreja, Vos suplicamos pela Virgem Mãe, Vos exigimos pela honra inviolável de Vosso nome, que estabeleçais já, que apresse o Reinado de Vosso amante Coração!

(Todos)

Venha a nós o reinado de vosso amante Coração...

. Prontamente, Jesus, sim, reinai agora, antes que Satanás e o mundo Vos roubem as almas e profanem em Vossa ausência todos os estados de vida.

Venha a nós o reinado de vosso amante Coração...

2ª. Apressai-Vos, Jesus, e triunfai no lares, reinai neles pela paz inalterável, prometida às famílias que Vos têm recebido com hosanas.

Venha a nós o reinado de vosso amante Coração...

3ª. Não demoreis, Mestre mui amado, porque muitos destes padecem aflições e amarguras, que somente Vós prometestes remediar.

Venha a nós o reinado de vosso amante Coração...

. Vinde, porque sois forte, Vós, o Deus das batalhas da vida, vinde nos mostrando Vosso peito ferido, como esperança celestial na agonia da morte.

Venha a nós o reinado de vosso amante Coração...

5ª. Sede Vós o êxito prometido em nossos trabalhos, somente Vós a inspiração e recompensa em todas as obras...

Venha a nós o reinado de vosso amante Coração...

6ª. E Vossos prediletos, isto é, os pecadores, não esqueçais que para eles, sobretudo, revelastes a ternura incansável de Vosso amor...

Venha a nós o reinado de vosso amante Coração...

7ª. Ah, são tantos os tíbios, Mestre, tantos os indiferentes a quem deveis inflamar com esta admirável devoção!

Venha a nós o reinado de vosso amante Coração...

8ª. Aqui está a vida, nos dissestes, nos mostrando Vosso peito atravessado... Permiti, pois, que aí bebamos o fervor, a santidade a que aspiramos.

Venha a nós o reinado de vosso amante Coração...

. Vossa imagem, a pedido Vosso, tem sido entronizada em muitas casas; em nome delas Vos pedimos que seguísseis sendo, em todas, o Soberano e o Amigo mui amado.

Venha a nós o reinado de vosso amante Coração...

10ª. Ponde palavras de fogo, persuasão irresistível, vencedora, naqueles sacerdotes que Vos amam e que Vos pregam como São João, Vosso apóstolo amado.

Venha a nós o reinado de vosso amante Coração...

11ª. E aos que ensinam esta devoção sublime, a quantos publiquem suas inefáveis maravilhas, reservai-lhes, Jesus, uma fibra de Vosso Coração semelhante àquela em quem tende gravado o nome de Vossa Mãe.

Venha a nós o reinado de vosso amante Coração...

12ª. E, por fim, Senhor Jesus, dai-nos o céu de Vosso Coração a nós que temos compartilhado Vossa agonia na Hora Santa, por essa hora de consolo e pela Comunhão das primeiras Sextas-Feiras, cumpri conosco Vossa promessa infalível... Vo-lo pedimos na agonia decisiva da morte.

Venha a nós o reinado de vosso amante Coração...

(Pausa)

Devemos nos separar, Jesus, pois vai terminar a hora mil vezes doce e santa em vossa inefável companhia... Oh, vinde oculto em minha alma, ao ninho do lar, onde sereis Esposo, Pai, Irmão, Amigo, o Rei da família... vinde! E ao nos despedir, deixo aqui ante Vosso Coração Sacramentado, o meu ser inteiro, no clamor de uma última prece; a escutai, Jesus benigno!

(Cortado)

Quando os anjos de Vosso Santuário vos bendizer na Hóstia sacrossanta... e eu me encontre na agonia... Seus louvores são os meus, lembrai-Vos do pobre servo de Vosso Divino Coração.

Quando as almas justas da terra Vos aclamem incendiadas no amor... e eu me encontre na agonia... Suas dores e Suas lágrimas são as minhas... Lembrai-Vos do pródigo vencido por Vosso Divino Coração.

Quando os sacerdotes, as virgens do templo e os Vossos apóstolos, Vos aclamem soberano, Vos preguem às almas e Vos entronizem nos povos..., e eu me encontre na agonia... seus céus e seus ardores são os meus. Lembrai-Vos do apóstolo de Vosso Divino Coração.

Quando vossa Igreja ore e geme ante o altar, para resgatar conVosco o mundo, e eu me encontre na agonia... seu sacrifício e sua prece são as minhas...., Lembrai-Vos do fiel amigo de Vosso Divino Coração.

Quando na Hora Santa, Vossas almas presenteadas, amando, sofrendo e reparando, Vos façam esquecer perfídias e traições... e eu me encontre na agonia..., seus colóquios contigo e seus consolos são os meus. Lembrai-Vos deste altar e desta vítima de Vosso Divino Coração.

Quando Vossa divina Mãe Vos adorar na Sagrada Eucaristia e reparar ali os crimes sem conta da terra... e eu me encontre na agonia..., suas adorações são as minhas..., Lembrai-Vos do filho de vosso Divino Coração.

Mas, não, Senhor!, me esqueçais se quiser; tal que, na minha morte, me deixeis esquecido para sempre, na chaga venturosa de Vosso amável Coração.

(Pausa)

Que tenho eu, Senhor Jesus, que Vós não me tenhais dado?... Despojai-me de tudo, de Vossos próprios dons, mas abrasai-me na fogueira de Vosso ardente Coração!

Que sei eu, que Vós não me tenhais ensinado?... Esqueça eu a ciência da terra e da vida, mas Vos conheça melhor a Vós, oh Divino Coração! Que valho eu, se não estou a vosso lado? Que mereço eu, se a Vós não estou unido?... Uni-me, pois, a Vós com vínculo que seja eterno... renuncio a todas as delícias de Vosso amor, a fim de possuir perfeitamente este outro Paraíso, o de Vosso terno Coração!

E nele sepultai, oh, sim!, os erros que contra Vós tenho cometido... e castigai e vingais-Vos de todos eles, ferindo com dardo de incendiada caridade, a mim que tanto Vos tenho ofendido.

E se Vos tenho negado, deixai-me reconhecer-Vos na Eucaristia em que Vós viveis...

Se vos tenho ofendido, deixai-me servir-vos em eterna escravidão do amor eterno... porque é mais morte que vida a que não se consome no amar e fazer amar o Vosso esquecido, Vosso amante, Vosso Divino Coração.

Venha a nós o Vosso Reino!

Pai-Nosso e Ave-Maria pelas intenções particulares dos presentes.
Pai-Nosso e Ave-Maria pelos agonizantes e pecadores.
Pai-Nosso e Ave-Maria pedindo o reinado do Sagrado Coração mediante a Comunhão freqüente e diária, a Hora Santa e a Cruzada da Entronização do Rei Divino em lares, sociedades e nações.

(Cinco vezes)

Coração Divino de Jesus, venha a nós o Vosso Reino!

Ato final de consagração

Dulcíssimo Jesus, Redentor do gênero humano, olhai-nos prostrados humildemente diante de Vosso altar; Vossos somos e Vossos queremos ser, e a fim de estar mais firmemente unidos a Vós, eis aqui o dia em que cada um de nós se consagra espontaneamente a Vosso Sagrado Coração.

Muitos, Senhor, nunca Vos conheceram; muitos Vos desprezaram, ao desobedecer Vossos mandamentos; compadecei-Vos, Jesus, de uns e outros e atraí-os todos a Vosso Santo Coração. Sejais Rei, oh Senhor, não só dos fiéis que jamais se separaram de Vós, mas também dos filhos pródigos que Vos abandonaram; fazei com que voltem logo para a casa paterna, para que não pereçam de miséria e de fome.

Sejais Rei para aqueles a quem enganaram com opiniões errôneas, e desuniu a discórdia, trazei-os ao porto da verdade e à unidade da Fé, para que logo não reste mais que um só rebanho e um só Pastor.

Sejais Rei dos que ainda seguem envoltos às trevas da idolatria e do islamismo. A todos dignai-Vos atrair à luz de Vosso Reino.

Olhai, finalmente, com olhos de misericórdia, aos filhos daquele povo, que em outro tempo foi o Vosso predileto (judeus); que também desça sobre eles, como batismo de redenção e vida, o sangue que reclamou um dia contra si. Concedei, Senhor, à Vossa Igreja segurança e liberdade; outorgai a todos os povos a tranqüilidade da ordem. Fazei que de um a outro pólo da Terra ressoe somente esta aclamação: Venha a nós o Vosso Reino!

Fórmula de consagração individual ao Sagrado Coração de Jesus, composta por Santa Margarida Maria

Eu N. Vos dou e consagro, ó Sagrado Coração de Jesus Cristo, minha pessoa e minha vida, minhas ações, penas e sofrimentos, para não querer mais servir-me de nenhuma parte de meu ser senão para Vos honrar, amar e glorificar. É esta minha vontade irrevogável: ser todo Vosso e tudo fazer por Vosso amor, renunciando de todo o meu coração a tudo quanto Vos possa desagradar.

Tomo-Vos, pois, ó Sagrado Coração, por único objeto de meu amor, protetor de minha vida, segurança de minha salvação, remédio de minha fragilidade e de minha inconstância, reparador de todas as imperfeições de minha vida e meu asilo seguro na hora da morte. Sede, ó coração de bondade, minha justificação diante de Deus, vosso Pai, para que desvie de mim sua justa cólera.

Ó coração de amor! Deposito toda a minha confiança em Vós, pois tudo temo de minha malícia e de minha fraqueza, mas tudo espero de Vossa bondade! Extingui em mim tudo o que possa desagradar-Vos, ou se oponha à Vossa vontade. Seja o Vosso puro amor tão profundamente impresso em meu coração, que jamais possa eu esquecer-Vos, nem separar-me de Vós. Suplico, por Vosso infinito amor, que meu nome seja escrito em vosso coração, pois quero fazer consistir toda a minha felicidade e toda a minha glória em viver e morrer como Vosso escravo. Amém.

Sagrada Família - Seja esta Santa Família, modelo para a sua!

Sagrada Família - Seja esta Santa Família, modelo para a sua!


Ó Senhor Jesus Cristo, que obedecendo a Maria e José,
consagraste com inefáveis virtudes a vida doméstica,
 fazei com que nós, com a ajuda de um e outro,
sejamos instruidos pelos exemplos da Vossa Santa Família
 e consigamos alcançar a Sua eterna Companhia.
Vós que viveis e reinais.
(Missa da Festa da Sagrada Família - Oração)

O que a Igreja Católica oferece aos noivos católicos não é apenas o conceito claro e verdadeiro do matrimônio e do amor e, de envolta com os seus meios de graça, a força e o auxílio de poder viver de acordo com a Vontade de Deus, é, outrossim, o exemplo mais fascinante a imitar na futura família: o exemplo sublime da SAGRADA FAMÍLIA.

Não fosse, embora, compatível com a dignidade suprema do Filho de Deus que, além de seu Pai Celestial, tivesse um pai entre os homens, quis Ele, todavia, nascer à sombra do Matrimônio para, à luz de seus benefícios, se educar. Seu augusto exemplo devia restaurar a família que tanto se havia degradado.

Com efeito. O que o poderoso Imperador Augusto não conseguiu, Cristo conseguiu-o por sua doutrina, por sua graça e, mormente, por seu excelso exemplo. Restaurou, da forma mais ideal, a família depravada, dando-lhe o protótipo de todas as famílias, a família em que Ele próprio nasceu e cresceu, a família do pobre marceneiro de Nazaré.

Impossível é descrever quanta benção, quanta luz, quanta consolação tem irradiado aquela singela família, no decorrer dos séculos, para o mundo inteiro. Foi ela que reformou e renovou o mundo, foi seu exemplo que criou a família cristã em toda riqueza de suas virtudes, em toda beleza de sua paz e de sua alegria.

A vida da Sagrada Família representa, antes de tudo, a prova mais eloqüente, de que as alegrias do lar são, de verdade, alegrias tão profundas que podem absorver e satisfazer inteiramente, as aspirações terrenas de uma família. Pois, quem poderia imaginar infeliz e descontente, melancólica ou taciturna algumas das pessoas que constituem a Sagrada Família?

E, nada obstante, viviam elas naquele rincão perdido nos montes da Galiléia, longe do reboliço do mundo, longe de todos estes prazeres que tanta gente julga indispensáveis à vida.

Ah! Não careciam estas pessoas santíssimas de nenhuma alegria do mundo. Mui viva e vivaz levavam elas na riqueza de sua alma, aquela de alegria espiritual que lhes inundava de luz a existência, que lhes absorvia todos os pensamentos e a fantasia toda. Para que, pois, procurariam fora de si o que dentro d’alma se lhes deparava?

... A verdadeira felicidade da família constitui uma das mais puras e profundas alegrias desta Terra. O desvelo amoroso pelos seus, torna fáceis quaisquer trabalhos ao pai. É o amor que lhe suaviza todo e qualquer sacrifício. Seu afeto sentir-se-ia mesmo insatisfeito se o não pudesse documentar e comprovar.

A mãe, então, rejubila em todos os seus afazeres que se destinam ao bem do esposo e dos filhos queridos. Seu amor intenso lhes faz esquecer, a si própria, quando a família exige sua dedicação.

A alma de todo lar, porém, é a criança. E com franqueza. Que coisa mais linda, mais arrebatadora pode haver do que este ser maravilhoso em todo o encanto de sua inocência, de sua simplicidade e de sua ingenuidade. É o anjo da casa, é o raio de sol a espalhar luz e alegria.

Não há negar. Os cuidados múltiplos que os filhos exigem, podem absorver, completamente, a vida dos pais. Mas que ocupações mais gratas há que estes afazeres da vida da família?

É próprio à natureza do amor de se ocupar, constantemente, com o objeto amado, de lhe devotar todo o interesse e toda a dedicação. Quantos artifícios não excogita o amor para documentar a pessoa amada a sua grandeza e intensidade. Quer viver espalhando o bem e não conhece satisfação maior que o ver feliz a quem ama. Que muito, pois, vejam os pais, realizadas todas as suas aspirações quando se lhes deparam coroadas de êxito os seus esforços?

Quer dizer, então, do grato mister de cultivar o espírito dos filhos que vão crescendo? Do plasmar-lhes a cera d’alma, de enriquecer-lhes o patrimônio da inteligência, de formar-lhes a robustez do caráter, de educar-lhes a harmonia dos sentimentos?

Ah! Amigos noivos, observai uma criança a beber dos lábios da mãe o enredo de uma “história”, fixai o pai que, de filhinho ao colo, lhe explica um dos muitos “porquês” que aquele anjinho, ávido de saber, não cessa de lhes dirigir. Vereis dons instantâneos que parecem recortados de uma nesga do paraíso.

Não que tal felicidade íntima se dê a conhecer por risadas e gargalhadas a bandeiras respregadas. Não. É a alegria plácida que enche o coração a transbordar, que resplandece nos olhos cândidos e se estampa na testa lisa e no rosto sorridente dos pais. E que há de mais precioso que tal felicidade!

Não queirais, pois, amigos noivos, procurar a felicidade fora do teto que vos há de unir, não a procureis nas festanças e festins do mundo. Não. Procurai-a no próprio lar e não permitais que ela de lá se afaste.

Muito contribuirá, para isto, se com todas as veras do coração vos empenhardes em fazer da vossa casa um lar verdadeiro. Há tantos meios, tão pequeninos e tão importantes, que tornam a casa agradável e atraente. Quanto não faz o asseio em toda a parte e um vaso de flores, uma ramalhete de boninas colocados aqui e acolá!

Quantas alegrias não espalham, além disso, proveitosas leituras de família... Ou então, as atenções por ocasiões de algum aniversário!

Em tudo isto não queirais, nem por isto, deixar de ser moderados e sóbrios em vossos desejos. É novamente a Sagrada Família que disto nos legou a lição e o exemplo insuperável. Mui pouca era o que aquelas pessoas chamaram de seu. E, todavia não eram descontentes por tão pouco. Não é o possuir muito que garante o bem-estar. É o desejar pouco, que muito, que tudo dá.

Não quer isto dizer que não possais, que não deveis procurar mesmo a bem da vossa família, de melhorar e de garantir a vossa situação econômica. A pobreza que está nas raias da miséria e da indigência não pode garantir, nos tempos que corre, nenhum bem do matrimônio. Importa, entretanto, não se revoltar contra males irreparáveis de ordem social, importa não encarar como o maior dos males quando outros vão de limusine e vós nem tendes sapatos modernos para calçar. Olhai à estrebaria de Belém, vede a manjedoura, o presépio do Menino Jesus e bebei-lhes longamente as lições que vos dão.

O exemplo augusto da Sagrada Família oferece-vos, além disso, o ideal mais elevado de uma vida verdadeiramente santa no seio da família. Todas as virtudes que dignificam a vida no estado matrimonial vedes aí exemplificadas.

Contemplai a Vigem Mãe em toda sua pureza imaculada, em toda a dignidade e beleza austera de sua virtude ilibada. Quanto não deve Deus estimar a virgindade, se não hesitou em entender o véu do milagre sobre a Virgem Maria para torna-la mãe sem que deixasse de ser virgem.

Exemplo tão excelso constitui lição perene para toda a donzela, mormente para toda a noiva.

Ah! Não jogueis a pérola de vossa virtude às fauces do instinto animal! Não maculeis, com satisfações inconfessáveis, a túnica branca da vossa virgindade, que deve ser vossa túnica nupcial! Não deis, senão o troco da dignidade da mãe cristã, o que de mais belo possuis, a flor imaculada de vossa pureza batismal.

Também para o noivo de caráter deve a imagem da Virgem Maria representar o que de mais digno, de mais elevado se lhe possa dizer sobre a dignidade da virgem e da esposa. Sem pestanejar, sem corar de vergonha e de contrição deve o moço poder fixar a Virgem Imaculada a ver nela censura ou louvor de sua atitude.

A exemplo de São José, castíssimo esposo da Mãe de Deus, protetor intemerato da virgindade e da honra de Maria, deve-o defender e proteger a dignidade de sua futura esposa contra qualquer concupiscência, egoísmo e desrespeito.

Vosso olhar incide, finalmente, sobre o menino Jesus. Parece Ele menino como qualquer outro e, contudo, é, como sabemos, o Deus Eterno e Imenso, feito homem. Reverentes e respeitosos o fixam Jesus e Maria.

Hora virá, noivos amigos, em que também vós fixareis, extasiados e jubilosos, o mistério do vosso filho. Não olvides jamais, que é mistério de verdade, mistério da Onipotência e Bondade do Criador o haver Ele confiado à vossa colaboração a criação deste ser que acariciais com o doce nome de “meu filho”.

Ah! Que profundo não deve ser o vosso respeito ante o mistério da paternidade e da maternidade!

Tornai-vos dignos dele, noivos católicos, dignos como Maria Santíssima e São José, para educardes os filhos de Deus que o CÉU vos há de confiar.

... Não descuideis, jamais, de observar, antes e acima de tudo, as normas que Deus vos prescreve. Que digam os ateus e incrédulos o que bem entenderem, que o mundo vos chame de tolos e beatos, não vos desvieis dos preceitos de Deus e dos ensinamentos da Igreja. Meditai no que vos digo, meditai no que vos deixo escrito em todas estas páginas e nunca vos arrependereis se o houverdes observado...vos escrevi, haurido, unicamente, na palavra de Deus e na doutrina da Igreja.

... Procurai, pois noivos fiéis, que as graças do Sacramento do Matrimônio não fiquem estéreis para vós. Não as desperdiceis, mas fazei que em toda sua exuberância se derramem sobre o vosso lar. A oração e a recepção dos santos sacramentos constituía para vós norma que não pode faltar no programa de vossa vida. Faltar-vos-ia tudo. Mais do que de qualquer outra agremiação, vale para o matrimônio a promessa do Senhor: “Onde dois se reunirem em meu nome, aí estarei no meio deles”. (Mat. 18,20).

Fundou-se com o beneplácito e vivo desejo de Leão XIII a Pia União das Famílias Cristãs. Tem esta união como uma de suas regras que as famílias cristãs tenham em seu lar uma imagem da Sagrada Família e ante ela se reúnam, pelo menos uma vez por dia, para ligeira oração e meditação. Que exercício espiritual magnífico!

Também a consagração da família ao Sagrado Coração de Jesus (clicar sobre a escrita de vermelho) é exercício que a Igreja muito recomenda às famílias. A experiência de três séculos documenta quão verdadeiras são as palavras que Jesus disse a sua discípula Margareth Maria Alacoque: “Abençoarei as casas, onde se venerar a imagem do meu Coração”.

(Excertos do livro: Às ordens do Criador – Livros para noivos – Pe. Hardy Schilgen)
PS: Grifos meus

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

2 de Fevereiro - Apresentação de Jesus no Templo e Purificação de Nossa Senhora


2 de Fevereiro
Apresentação de Jesus no Templo e Purificação de Nossa Senhora

O ancião levava o Menino, mas o Menino guiava o ancião. Uma Virgem O deu à luz sem injúria da sua virgindade. Deu-O à luz e adorou o fruto do seu ventre.

A festa de hoje celebra ao mesmo tempo a apresentação de Jesus no Templo e a Purificação de Nossa Senhora, quarenta dias depois de nascer o Salvador.

Prende-se pois pelo duplo objetivo que encerra aos mistérios da Epifania e do Natal, de que ainda se sente a alegria envolvente. É uma festa de luz e por duplo motivo: primeiro pela profecia do velho Simeão, que ao receber no Templo o Salvador o "saudou como a luz que vinha iluminar os povos", e em segundo porque é a festa das candeias.

A procissão das velas, suprimidas noutras festas da Virgem, conservou-se nesta para evocar a manifestação de Cristo, luz do mundo. Os cânticos da procissão e da Missa celebram a apresentação do Senhor no Templo. É o tema que domina a festa sem excluir no entanto o pensamento da Senhora, que surge e se mistura por toda a parte. Esta festa é das mais antigas se não for realmente a mais antiga das festas Marianas.

(Informações retiradas do Missal Quotidiano e Vesperal - Dom Gaspar Lefebvre - 1952)

Ver também: Primeira Ferida de Nossa Senhora

O véu Eucarístico


O véu Eucarístico
“Cur faciem tuam abscondit?.. .”
“Por que me ocultais Vossa Face?” – Jo, 13,24

I) Por que motivo vela-se Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento sob as Espécies Santas? Sendo difícil habituar-nos ao estado oculto de Nosso Senhor, precisamos continuamente tornar a esta verdade, pois devemos crer firme, de forma prática, que Nosso Senhor Jesus Cristo, embora velado, se encontra real, verdadeira e substancialmente presente na Santa Eucaristia.

E se assim é, por que presença tão silenciosa, véu tão impenetrável que nos levam a exclamar: “Mostrai-nos, Senhor, vossa Face!”. E, apesar de não ver, de não Lhe ouvir as palavras doces e boas, Nosso Senhor faz-nos sentir Sua força, atrai-nos, conserva-nos respeitosos em Sua presença. Se Ele se mostrasse, e só se mostraria à pessoa amada, que consolação para nós, que certeza de gozar sua amizade!

II) Pois bem, Nosso Senhor oculto é mais amável do que se se mostrasse; silencioso, mais eloqüente do que se falasse, e o que julgamos ser um castigo, é tão somente um efeito do seu Amor e de sua Bondade.

Ah! Vê-lo seria nossa desgraça. O contraste de suas virtudes e de sua glória, humilhando-nos, nos faria exclamar: “Que bom Pai e que miseráveis filhos!”. Não ousaríamos sequer aproximar-nos Dele, a Ele nos mostrar, enquanto agora, conhecendo apenas sua Bondade, chegamos a Ele sem receio.

E assim todos podem vir. Presumindo que Nosso Senhor só aos bons se patenteasse – pois Ressuscitado não se pode deixar ver pelos pecadores – quem se julgaria bom? Quem não recearia vir à Igreja, temendo que Jesus cristo, por não o achar bastante bom, a ele se ocultasse? E então surgiriam as invejas. E só os orgulhosos, cheios de confiança de si, se chegariam a Nosso Senhor. Agora, no entanto, todos gozam dos mesmos direitos, todos podem considerar-se amigos.

III) Não nos havia de converter a vista da glória? A glória amedronta e ensoberbece, mas não converte. Os judeus não ousaram aproximar-se de Moisés iluminado pelo raio divino e, aos pés do Monte Sinai em fogo, tornaram-se idólatras. Os próprios Apóstolos, no Tabor, desarrazoaram.

Ah! Jesus, permanecei velado, melhor é assim. Poderei então aproximar-me de Vós e, já que não me repelis, poderei contar com o Vosso amor. Mas sua Palavra, por ser tão poderosa, não nos havia de converter? Os judeus que, durante três anos, ouviram a Nosso Senhor, por acaso se converteram? Alguns poucos. Não é a palavra humana de Nosso Senhor, a que nos é dado ouvir, que converte, mas sim a palavra da Graça. Ora, Nosso Senhor, no Santíssimo Sacramento, fala-nos ao coração. Não nos deve isto bastar, por ser uma palavra verdadeira?

IV) Pudesse eu ao menos sentir palpitar o Coração de Nosso Senhor, sentir o calor de suas chamas ardentes que, modificando meu coração, aumentando-lhe o amor, acabaria por abrasá-lo!

Quando, confundindo o amor com o sentimento, pedimos a Nosso Senhor para amá-Lo, queremos que Ele nos faça sentir que, de fato O amamos. Quão triste se assim fosse! Não, o amor é sacrifício, é o dom da vontade, é a submissão ao bel-prazer divino.

Ora, a virtude característica da contemplação da Eucaristia e da Comunhão – união perfeita a Jesus – é a força. A doçura, sendo passageira, só aquela permanece. E do que carecemos para lutar contra nós mesmos e contra o mundo, senão de força? A força é paz.

Não vos sentis tranqüilos em presença de Nosso Senhor? Prova cabal de que O amais. Que mais quereis? Se dois amigos se reúnem e ficam a se olharem um ao outro, dizendo e redizendo seu amor, perdem seu tempo, pois isso de modo algum lhes aviva a amizade. Mas, uma vez separados, se pensarem um no outro, imprimir-se-á reciprocamente na lembrança a imagem do amigo despertando saudades.

Assim também com Nosso Senhor. Em três anos de convivência diária com Ele, que fizeram os Apóstolos? Jesus oculta-se para que ruminemos sua Bondade e suas Virtudes e que o nosso amor, tornando-se sério, livre dos sentidos, se contente com a força e a paz de Deus.

(Excertos do livro: A Divina Eucaristia - São Pedro Julião Eymard)
PS: Grifos meus

Oração: Quinze minutos em companhia de Jesus Sacramentado


Quinze minutos em companhia de Jesus Sacramentado

Jesus lhe fala:

Não é preciso, meu filho, saber muito para agradar-me muito; basta que me ames com fervor.
Falai-me, pois, com simplicidade, como falarias com o mais íntimo dos teus amigos ou como falarias com a tua mãe ou com o vosso irmão.

I) Necessitas fazer me em favor de alguém uma súplica qualquer?

Dizei seu nome, bem seja o de teus pai, bem o de teus irmãos e amigos; diga em seguida o que quereria que Eu fizesse em favor deles hoje. Pede muito, muito, não deixes de pedir; agradam-me os corações generosos que chegam a esquecerem em certo modo de si mesmos, para atender as necessidades alheias. Falai-me assim, com sinceridade, com clareza, dos pobres a queres consolar, dos enfermos a quem vês padecer, dos extraviados que desejas que voltem ao bom caminho, dos amigos ausentes que queres ver outra vez ao vosso lado.

Dizei por todos uma palavra de amigo, entranhável e fervorosa.

Recordai-me que prometi ouvir toda súplica que sair do coração; e não terá saído do coração o rogo que me dirijas por aqueles que vosso coração especialmente ama?

II) E para ti, não necessitas alguma graça ?

Fazei-me, se queres, uma lista de tuas necessidades, e vem, lê-la em minha presença.

Dizei francamente que sentes - soberba, amor à sensualidade e ao dinheiro; que sois talvez egoísta, inconstante, negligente.. . ; e pedi-me logo que venha em ajuda dos esforços, poucos o muitos, que fazes para tirar de vós tais misérias.

Não te envergonhes, pobre alma!

Há no céu tantos justos, tantos Santos de primeira ordem, que tiveram esses mesmos defeitos! mas rogaram com humildade... ; e pouco a pouco viram-se livres deles.

E também não duvides em pedir-me bens espirituais e corporais: saúde, memória, êxito feliz em teus trabalhos, negócios ou estudos; tudo isso posso dar-te, e o dou, e desejo que me peças desde que não se oponha, antes favoreça e ajude a vossa santificação. O que necessitas? o que posso fazer por vosso bem?

Se soubesses como desejo favorecer-te !
Trazes agora mesmo entre as mãos algum projeto? Contai-me tudo minuciosamente.

O que te preocupas? O que pensas? O que desejas? O que queres que faça por vosso irmão, por vosso amigo, por vosso superior? O que desejarias fazer por eles?

E por mim? Não sentes desejos de minha glória ? Não quires poder fazer algum bem a teus próximos, a teus amigos, a quem amas muito, e que vivem talvés esquecidos de mim?

Dizei que coisa chama hoje particularmente vossa atenção, o que desejas mais vivamente, e com que meios contas para consegui-lo. Dizei se saiu mal vossa empresa, e eu te direi as causas do mal êxito. Não queres que me interesse em vossa favor? Filho meu , sou dono dos corações, e conduzo-os docemente, sem ferir sua liberdade, para onde me apraz.

III) Sentes acaso tristeza ou mal humor?

Contai-me, contai-me, alma desconsolada, tuas tristezas com todos seus pormenores. Quem te feriu? Quem magoou vosso amor próprio ? quem te tem deprezado? Aproxima-te do meu Coração, que tem bálsamo eficaz para curar todas essas feridas do teu. Daí-me conta de tudo, e acabarás em breve por dizer-me que, a semelhança de mim tudo o perdoas, tudo esqueces, e em troca receberás a minha consoladora benção.

Temes por ventura? Sentes em vossa alma aquelas vagas melancolias, que mesmo por serem infundadas não deixam de serem desoladoras? Lança-te nos braços de minha Providência. Contigo estou; aqui, ao vossa lado me tens; tudo o vejo, tudo o ouço, nem um momento te desamparo.

Sentes desvio da parte de pessoas que antes te quiseram bem, e agora esquecidas se afastam de Vós, sem que lhes tenhas dado o menor motivo? Rogai por elas, e eu as devolverei a vossa lado, se não tem de ser obstáculo a vossa santificação.

IV) E não tens talvez alegria alguma que comunicar-me?

Por que não me fazes participante dela como a um bom amigo ?

Contai-me o que fizestes, desde a última visita que me fizestes, o que tem consolado e feito como sorrir vosso coração. Talvez tenha tido agradáveis surpresas, tenhas visto dissipados negros receios, tenhas recebido boas notícias, alguma carta com mostra de carinho; tens vencido alguma dificuldade, ou saído de algum lance apurado. Obra minha é tudo isto, e eu o tenho proporcionado: por que não tens de manifestar-me por isso vossa gratidão, e dizer-me sinceramente, como um filho a seu pai: " Graças, Pai meu, graças!"? o agradecimento traz consigo novos benefícios, porque o benfeitor gosta de ver-se correspondido.

Tampouco tens promessa alguma para fazer-me? Leio, já o sabes, no fundo de vosso coração. Aos homens se lhes engana facilmente; a Deus, não. Falai-me, pois, com toda sinceridade. Tens firme resolução de não expor-te mais aquela ocasião de pecado? De privar-te daquele objeto que te prejudicou? de não ler mais aquele livro que exaltou vossa imaginação? de não destratar mais aquela pessoa que tirou a paz de vossa alma ?

Voltarás a ser doce, amável e condescendente com aquela outra a quem, por haver-te faltado, tens olhado até hoje como inimiga só porque uma vez não te serviu?

Agora bem, filho meu; volte a tuas ocupações habituais, ao escritório, à família, ao estudo... ; mas não esqueças os quinze minutos de grata conversação que temos tido aqui os dois, na solidão do santuário. Guarda, em quanto possas, silencio, modéstia, recolhimento, resignação, caridade com o próximo. Ama a minha Mãe, que o é também tua, a Virgem Santíssima, e volte outra vez amanhã com o coração mais amoroso, mais entregue a meu serviço. Em meu Coração encontrarás cada dia novo amor, novos benefícios, novos consolos.

(Oração retirada do livreto: Seleta de orações - Editora Véritas)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Honra e reputação


Honra e reputação
Ó Deus da verdade! fazei-me um só conVosco em caridade perpétua!

O Decálogo providenciou as relações do homem em sociedade, porque Deus fez do homem um ser social. Ora, poucas coisas contribuem tanto para a vida social como a palavra. Não foi sem razão que Deus a concedeu exclusivamente ao homem. Mas, para realizar a sua finalidade, é necessário que a palavra corresponda à verdade. É isto o que estabelece o 8º Mandamento.

Falar a verdade

1 – Deus mesmo é a verdade – “a verdade eterna e infalível”. Seu Filho disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo. 14,6). E Ele exige que falemos a verdade: “Seja o vosso falar: sim, sim: não, não; porque todo o que passa daí procede do mal” (Mt. 5,37).

2 – Só isto é, realmente, conforme à natureza. A inteligência foi feita para conhecer a verdade. A palavra nos foi dada para dizermos a verdade. As relações sociais exigem que se fale a verdade, ou, do contrário, a vida se tornará insuportável, como é fácil de ver dos frutos que produz a sinceridade ou a falsidade entre os homens.

Mentira

- Mentir é falar contra o que se pensa, com intenção de enganar.
- A mentira pode ser:
a) danosa - se prejudica ao próximo. Assim a mentira da mulher de Putifar contra José (Gn. 39,14-17), a de Aman contra Mardoqueu (Est. 3).

b) oficiosa – quando dita em utilidade própria ou alheia.

Assim mentiu Sara, com medo de ser castigada (Gn. 18, 10-15); mentiu São Pedro, com medo, negando a Jesus (Mt. 26,70).

c) jocosa – dita por brincadeira.

- A mentira danosa é grave, se o prejuízo causado é grave.
- A mentira jocosa, embora em si seja pecado, pode-se dizer que praticamente não o seja, por ter apenas a intenção de divertir.
- A Bíblia está cheia dos castigos aos mentirosos, mostrando como o Senhor os detesta. (Prov. 6,19). A mentira de Ananias e Safira foi punida com a morte (At. 5,1-10). A razão é que a mentira vem do demônio, a quem Jesus chama “o pai da mentira” (Jo. 8,44).
- A mentira mais grave se torna quando dita em juízo, concorrendo para a condenação de um inocente. Neste caso, viola ao mesmo tempo a verdade, a justiça ao indivíduo e à sociedade e a religião, se houve juramento. Falsas testemunhas acusam a Jesus (Mt. 26,59-62; Lc. 23,1-1) e Santo Estevão (At. 6,11-15).

Ocultar a verdade

1 – Há certas circunstâncias em que somos obrigados a calar a verdade: para guardar um segredo, evitar a detração, não causar danos, por discrição, etc.

2 – Nestas circunstâncias é que se permite a chamada restrição mental, em que as palavras significam mais o que temos em mente, do que o sentido natural. São frases de duplo sentido, ditas para que o ouvinte se engane.

3 – Para ser lícita a restrição mental, é necessário que o verdadeiro sentido seja perceptível, que a pessoa que interroga não tenha direito de perguntar (não se pode usar a restrição mental com os pais, superiores, juízes), e que se tenha um motivo sério para não responder claramente (evitar aborrecimentos, não facilitar indiscrições, cercear um mexeriqueiro).

Ai de vós...

1 – A hipocrisia é uma espécie de mentira, em que o sujeito disfarça os seus defeitos e intenções, querendo parecer o que não é.
Herodes finge querer adorar o Menino Jesus, quando queria matá-Lo (Mt. 2,8-12); Judas beija a Jesus para entregá-Lo (Mt. 26,47-50); os fariseus dizem que não querem outro rei senão César (Jo. 10,15). Ver o capítulo 23 de São Mateus.

2 – A bajulação é uma espécie de mentira em que se engana o próximo, elogiando-o, umas vezes lisonjeando qualidades reais, outras atribuindo-lhes qualidades que não tem, outras ainda chamando de qualidades aos vícios. Pelas conseqüências desastrosas a que conduz, pode ser até pecado grave, e mesmo mais grave que a mera hipocrisia.

Direito à honra

1 – Todos os homens devem prezar a sua própria dignidade, e respeitar a do próximo.

2 – Desonrado, sem a estima e a confiança de seus semelhantes, o homem se veria em graves dificuldades na vida. Por isto diz o Espírito Santo que “é melhor um bom nome do que muitas riquezas” (Prov. 22,1).

3 – É preciso que o nosso bom nome corresponda à realidade. Não basta parecer, mas deve o homem ser realmente honesto, cumpridor do dever, fiel aos compromissos, zelando assim pela sua reputação.

Pecados contra a honra

1 – Podemos violar a reputação do próximo:

- Perante nós mesmos – pelo juízo temerário e pela suspeita;
- Perante os outros – pela detração, pela calúnia e pela injúria.

2 – O juízo temerário consiste em fazer mau juízo do próximo, sem razão suficiente. É mais grave do que a suspeita que apenas inclina a pensar mal do próximo, também sem razão suficiente.
Não constitui juízo temerário acautelar-se contra desconhecidos, vigiar e fiscalizar súditos, julgar baseado, em motivos sólidos embora errados. Neste último caso, houve um juízo errôneo, mas não temerário.

3 – A detração consiste em comunicar a outrem faltas reais do próximo, sem razão suficiente. Causando grave dano moral ou material, é pecado mortal. A detração é mais grave do que o furto.

A detração pode ser:
a) direta – quando se manifesta uma falta oculta, ou se dá interpretação perversa a uma boa obra.
b) indireta – quando se negam ou diminuem as boas qualidades do próximo; se deixa de louvar a um, louvando a outros; ou não se louva devidamente.

4Calúnia é quando se atribui a alguém um mal que ele não fez. É pecado mais grave do que a simples maledicência, porque, além de violar a justiça, viola também a verdade.

5 – Chama-se, contumélia ou injúria a ofensa feita ao próximo, na sua presença e com seu conhecimento.
Ao contrário do que se pensa (que a presença diminui a gravidade), é mais grave do que a detração: “Quem disser a seu irmão: raca, é réu, do conselho; quem porém disser: fátuo, é réu da geena”. (Mt. 5,22)

6 – Por cooperação pecam também os que induzem à detração, gostam de ouvi-la, ou não a impedem, quando podem ou devem impedi-la.

7 – Havendo razão suficiente, a revelação de um crime oculto pode se tornar mesmo obrigatória, ainda com prejuízo do bom nome do próximo.
São causas justas que permitem ou impõem a revelação de uma falta alheia:

a) utilidade do delinqüente: José comunica a Jacó a má conduta dos irmãos (Gn. 37,2), inspirado pela caridade fraterna;
b) utilidade do próprio revelante; pedir um conselho, salvaguardar seu bem espiritual ou temporal, como Éster denunciando Aman (Est. 7,6);
c) utilidade pública, quando pela revelação do crime se podem impedir males ao Estado, à Religião e à sociedade;
d) notável utilidade mesmo privada: para livrar a alguém dos males que lhe aconteceriam, se não o avisássemos.

Restituição da fama

1 – Aquele que difama o próximo está obrigado a restituir-lhe o bom nome e a compensar os danos provenientes da difamação.

2 – O caluniador está obrigado a retratar-se mesmo com prejuízo da sua própria fama, porque a condição do inocente deve ser preferida ao bom nome do criminoso.

3 – Quem detratou revelando crime verdadeiro não pode retratar-se, porque isto seria mentir: mas usará de outros meios dizendo que errou, que falou levianamente, etc., ou mesmo, data a oportunidade, louvando e desculpando a pessoa difamada, -- o que, às vezes, é mais eficaz.

4 – O difamador está obrigada à reparação, sob grave ou leve obrigação, conforme o dano. Se o dano é grave, ele só pode receber a absolvição se fez a reparação.
Segredo

1 – Segredo é uma coisa oculta que não deve ser dada a conhecer. Subjetivamente é a obrigação de não manifestar uma coisa oculta que se conhece.

2 – O segredo pode ser:
a) natural, quando por sua natureza não se pode revelar sem prejuízo para o próximo: obriga gravemente, em matéria grave.
b) prometido quando se promete guardar sigilo de alguma coisa, depois de tê-la sabido ou visto: obriga por fidelidade.
c) confiado, se só foi comunicado mediante a promessa de guardá-lo: obriga sob grave, por justiça, por causa da obrigação aceita de guardá-lo.
O segredo profissional é um segredo confiado ainda mais rigoroso, e só pode ser revelado por gravíssimo motivo.

3 – Causas da revelação de um segredo;
a) o consentimento da pessoa interessada na guarda do sigilo;
b) a divulgação feita por outrem;
c) o dano que a guarda do segredo causará ao próximo;
d) o interrogatório feito pelo juiz.

Para viver a doutrina

1 – Uma das mais lindas qualidades de um homem é o seu amor à verdade. O homem que fala sempre a verdade merece fé. Todos o respeitam. Nem para prejudicar a outrem, nem para nos colocar bem ou para defender o próximo devemos mentir. Cultivemos o amor à verdade.

2 – Ao contrário, poucas coisas tão desprezíveis como o mentiroso. Os romanos, que eram pagãos, marcavam-no com ferro em brasa. Mas não precisa; ele mesmo se marca, e todos o conhecem. E ridicularizam. Facilmente apanhado, cai no descrédito geral. A mentira, por pequena que seja, desacredita quem a profere. Tomemos a sério o amor à verdade, e não mintamos nunca, seja por que for.

3 – Algumas pessoas, principalmente jovens, são dadas a exagerar. Por vários motivos: por vaidade, para se mostrar, para não ficar aquém, para dar mais importância ao que dizem, por excesso de imaginação, por mania de grandeza, etc. O que se chama exagero, em linguagem clara é mentira, naquilo que ultrapassa a realidade. Dominar-se, pois. Aliás, com esses exageros só se consegue o contrário do que se pretende.

4 – Falar a verdade não é dizer tudo que se sabe. A discrição é uma grande virtude. “Não pode falar com acerto quem, de boa mente, não sabe calar”. (Imitação. Ver todo o cap. XX do livro I). Quem muito fala, muito erra – diz o provérbio.

5 – Vício detestável é a bajulação. O justo louvor é, muitas vezes, um estímulo para o bem. Mas o louvor excessivo é sempre prejudicial. Nem se deve louvar muitas vezes, nem além das medidas.

Os aduladores são os piores inimigos, porque ferem louvando. Devemos fugir, por igual, de bajular – porque é uma indignidade – e de ser bajulados – o que nos pode levar à perdição.

6 – Respeitemos sempre a honra e o bom nome do próximo. Há pessoas de uma incrível facilidade a este respeito. Tenhamos cuidado. O melhor é nunca dizer mal de ninguém. Mesmo quando as faltas forem evidentes. Não somos juizes de nossos irmãos. Nem adiantamos nada, dizendo mal; antes agravamos as situações.

7 – Isto não basta. Procuremos julgar e dizer sempre bem do próximo. Toda a gente tem sempre o que elogiar. Quando olharmos para outrem, seja antes procurando o bem que o mal. Quando maledicentes frisarem o mal, apresentemos o bem. Com isto, escaparemos ao pecado e contribuiremos para a correção alheia.

(Pe. Álvaro Negromonte – O caminho da vida)