quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Quanto importa, na infância, tratar com pessoas virtuosas!



CAPÍTULO 2.
Trata de como foi perdendo essas virtudes e de quanto importa, na infância, tratar com pessoas virtuosas.
(Santa Teresa de Jesus - Livro da Vida)

1. Parece-me que começou a fazer-me muito dano o que agora direi. Considero algumas vezes o mal que fazem os pais em não procurar que seus filhos vejam sempre - e de todas as maneiras - coisas de virtude. Porque, com ter tanta a minha mãe, como disse, de bom não tomei muito, nem quase nada - chegando ao uso da razão - e o mal causou-me muito dano. Era ela afeiçoada a livros de cavalaria. Não tomou, no entanto, esse passatempo tão mal com eu, pois com isso não deixava o trabalho; somente nos facilitava a sua leitura.

E talvez o fizesse para não pensar nos grandes trabalhos que tinha e ocupar seus filhos para que não andassem perdidos em outras coisas. Isto pesava tanto a meu pai, que era preciso andar com cuidado para que não o visse. Comecei a ficar com o costume de os ler; e aquela pequena falta que nela via fez resfriar os desejos em mim e faltar no demais. Não me parecia mal o gastar muitas horas do dia e da noite em tão vão exercício, embora às escondidas de meu pai. Era tão em excesso o que nisto me embebia que, se não tivesse livro novo, não tinha - a meu parecer - contentamento.

2. Comecei a enfeitar-me e a querer agradar com a boa aparência, a ter  muito cuidado com as mãos e cabelo, perfumes e todas as vaidades que nisto podia ter, porque eu era muito exigente. Não tinha má intenção, pois não quisera eu que alguém ofendesse a Deus por minha causa. Durou-me muitos anos este muito requinte no demasiado apuro e em coisas que me pareciam não ser nenhum pecado. Agora vejo o mal que devia ser.

Tinha eu uns primos irmãos que tinham entrada em casa de meu pai, que outros não tinham essa sorte, porque o meu pai era muito recatado; e quisera Deus que também o tivesse sido com esses, pois agora percebo o perigo que vem do contato, na idade em que se deve começar a ter virtudes, com pessoas que, não reconhecendo a vaidade do mundo, nos atraem para ela.

Eram quase da minha idade, um pouco mais velhos do que eu. Andávamos sempre juntos. Tinham-me grande amor e, em todas as coisas que lhes dava gosto, eu entretinha conversa com eles. Ouvia os sucessos de suas aspirações e ninharias nadinha boas; e o pior foi a alma abrir-se ao que foi causa de todo o seu mal.

3. Se eu houvesse de aconselhar, diria aos pais que, nesta idade, tivessem grande cuidado com pessoas com quem seus filhos tratam. Daqui vem muito mal, porque o nosso natural mais tende para o pior de que para o melhor.

Assim me aconteceu a mim; tinha uma irmã de muita mais idade do que eu, de cuja honestidade e bondade - que tinha muita - eu nada apanhei, e tomei todo o mal de uma parente que frequentava muito a nossa casa. Sua grande leviandade levara minha mãe a se esforçar muito para afastá-la de casa. Parece que adivinhava o mal que por ela me havia de vir. Mas era tanta a ocasião que havia para ter entrada que nada pôde. Passei a gostar dessa parenta.

Com ela era a minha conversação e práticas, porque me ajudava em todas as coisas de passatempo que eu queria e até me metia nelas e dava parte das suas conversas e vaidades.

Até o momento em que com ela convivi, por volta dos meus catorze anos,ou um pouco mais (quando ela era minha amiga e eu ouvia as suas confidências), não creio, ter me afastado de Deus por algum pecado mortal nem perdido o temor d'Ele, embora fosse mais forte o sentimento da honra.

Este temor teve força para eu não a perder de todo. e tenho a impressão de que nada neste mundo poderia me fazer mudar nesse aspecto, nem o amor de nenhuma pessoa era capaz de me fazer fraquejar quanto a isso. Assim tivesse eu tido fortaleza para não ir contra a honra de Deus, tal como ma dava o meu natural, para não perder no que a mim me parecia estar a honra do mundo! E, no entanto, eu a perdia de tantas outras maneiras!

4. Eu exagerava nesse inútil apego à honra! Dos meios que era mister para a guardar, não usava de nenhum; somente tinha grande cuidado em não me perder de todo. Meu pai e minha irmã sentiam muito esta amizade e dela me repreendiam muitas vezes. Como não podiam evitar que a parenta fosse à nossa casa, foram inúteis os seus esforços, pois era grande minha esperteza para o mal.

Espanta-me, algumas vezes, o dano que faz uma má companhia e, se eu não tivesse passado por isto, não o poderia crer; no tempo da mocidade, em especial, deve ser maior o mal que causa. Eu gostaria que os pais, com o meu exemplo, se acautelassem e observassem bem isso. A verdade é que essa amizade me transformou a tal ponto que quase nada restou da minha inclinação natural para a virtude; e me parece que ela e outra moça, que gostava do mesmo tipo de passatempo, imprimiam em mim maus hábitos.

5. Isso me faz entender o enorme proveito que vem da boa companhia, e estou certa de que, se naquela idade tivesse tido contato com pessoas virtuosas, a minha virtude teria se mantido intacta; porque, se tivesse tido, nessa idade, pessoas que me ensinassem a temer a Deus, a minha alma teria se fortalecido contra a queda. Tendo perdido esse temor de Deus, ficou-me apenas o de perder a honra, o que, em tudo o que eu fazia, me trazia aflição. Pensando que não se teria como descobrir, atrevi-me a fazer coisas contra a honra e contra Deus.

6. A princípio causaram-me dano as ditas coisas segundo me parece. Mas a culpa não devia ser sua senão minha. Porque depois bastou a minha malícia para o mal juntamente com o ter criadas, pois, para todo o mal, encontrava nelas boa ajuda. Se alguma tivesse sido de bom conselho, porventura me tivesse aproveitado; mas cegava-as o interesse e a mim a afeição. No entanto, nunca fui inclinada a muito mal, porque coisas desonestas naturalmente as aborrecia, mas me dedicava a conversas agradáveis - o que não impedia que eu estivesse em perigo, exposta a situações arriscadas, expondo a elas também meu pai e meus irmãos.

De tudo isso Deus me livrou e de um modo que mostrou com clareza estar Ele procurando, até contra a minha vontade, evitar que eu me perdesse por inteiro. Mas o meu proceder não permaneceu tão oculto a ponto de não lançar dúvidas contra a minha honra e criar suspeitas em meu pai. Eu estava envolvida nessas vaidades há uns três meses, quando me levaram a um mosteiro existente no lugar, nele, criavam-se pessoas em condições semelhantes, embora não de costumes tão ruins quanto os meus; e isso de maneira tão discreta, que só eu e um parente o soubemos.

Aguardaram para isso uma ocasião a não parecer estranho: foi o ter-se casado minha irmã e ficar eu só, sem mãe, não parecia bem.

7. Era tão demasiado o amor que meu pai me tinha e a minha muita dissimulação, que não acreditou tanto mal de mim e assim não ficou desagradado comigo. Mas, como esse tempo foi de curta duração, embora algo se tivesse percebido, com certeza, nada se devia ter dito. É que eu, como temia tanto a perda da honra, punha todas as minhas diligências em que fosse secreto e não olhava a que não o podia ser para Quem tudo vê.

Ó Deus meu, que dano causa ao mundo ter isto em pouca conta e pensar que pode haver coisa secreta feita contra Vós! Estou certa de que muitos males seriam evitados se soubéssemos que o importante  não é nos ocultar dos homens, mas evitar descontentar a Vós.

8. Os primeiros oito dias senti-os muito, e mais pela suspeita de que se tivesse percebido a minha vaidade do que por estar ali. Já andava cansada e não deixava de ter grande temor de Deus quando O ofendia, e procurava logo confessar-me. Trazia-me isto tal desassossego que, ao fim de oito dias e creio até menos, estava muito mais contente de que em casa de meu pai. Todas o estavam também comigo, porque, nisto de dar gosto onde quer que estivesse, me dava o Senhor graça e assim era muito querida.

Naquele tempo desgostava-me a idéia de tornar-me monja; apesar disso, eu apreciava ver as boas religiosas daquela casa, muito honestas, fervorosas e recatadas.

Mesmo com tudo isto, não deixava o demónio de me tentar, e procuravam os de fora desassossegar-me com recados. Mas, como a isso se não dava lugar, depressa acabou. Minha alma começou a acostumar-se de novo ao bem da minha primeira infância, e vi a grande mercê que Deus faz àqueles a quem põe em companhia dos bons. Parece-me que Sua Majestade andava a mirar e a remirar por onde e como me podia fazer voltar a Si. Bendito sejais, Vós, Senhor, que tanto me haveis sofrido! Amén.

(Livro da Vida - Santa Teresa de Jesus)
PS: Grifos meus

Deveres dos pais



Deveres dos pais

É dever dos pais instruir os filhos nos bons costumes, ensinar-lhes a vida da santidade com que se salvarão, habituá-los à prática dos deveres religiosos e cívicos, incutir-lhes no coração o amor de Deus, da Pátria e do próximo.

Pensem os jovens quanto isto lhes interessa.

Amanhã serão pais e mães de família, com responsabilidade de deveres que agora precisam aprender. E mesmo atualmente saberão corresponder melhor dos esforços de seus pais, se souberem o eu fazem eles no desempenho de graves obrigações.

Presentes do céu

1 – A finalidade principal do matrimônio é a geração dos filhos. Foi esta a ordem de Deus a nossos primeiros pais: “Crescei e multiplicai-vos” (Gn. 1,22). Importa respeitar esta finalidade, a que não se pode fugir sem pecado.

2 – Os bons cristãos receberam sempre os filhos como presentes do céu.
São os filhos que Deus me deu” (Gn. 33,5). E o salmista diz que os filhos são uma recompensa e uma herança de Deus (Sl. 126,3).

3 – Deus exige que os filhos, que de suas mãos saíram, às mãos voltem. É, pois, bem grande a responsabilidade dos pais.

Dir-se-ia que a cada pai diz o Senhor como a filha do Faraó à mãe de Moisés: “Toma este menino e cria-o para mim: eu te darei a tua recompensa” (Ex. 2,9). Mas parece acrescentar: “Se ele se perder, a tua vida responderá pela dele” (3 Rg. 20,39). Têm os pais para com os filhos graves deveres.

Amor

Os pais devem amar aos filhos com um amor interno, eficaz e ordenado, em que não somente os queiram realmente, de coração, mas lhes procurem o maior bem, quanto possível. Para que seja tal o amor deve ser;

a - Sem fraqueza:
Sem complacência para com os defeitos, sem concessões aos caprichos, sem tréguas aos vícios e às paixões; sem demasiados carinhos, que degeneram em moleza; sem exagerada sensibilidade, que não sabe punir, e por isto se faz cúmplice do mal;

b – Sem egoísmo:
Porque o filho pertence a Deus, antes de tudo, e, só depois, aos pais. Também aqui pode servir de norma o aforismo que devia guiar todo educador: “Tudo para a criança, e a criança para Deus”;

Sem preferências.
Elas seriam:
- Injustas, se baseadas em motivos naturais (a beleza, a inteligência, etc.);
- Perigosas, porque fontes de invejas, rixas e malquerenças entre os irmãos;
- Permitidas, apenas por motivos morais (melhor cumprimento dos deveres, dedicação, etc.).

Educação

1 – Os pais estão obrigados a proporcionar aos filhos a educação religiosa, moral, cívica e física, de acordo com suas posses, a fim de que os filhos possam conseguir toda sorte de bens, mesmo os temporais.

2 – É tanto mais graves o dever da educação moral quanto mais alto o valor da alma sobre o corpo. Nunca devem os pais perder de vista o eterno destino de seus filhos, e, por isto, toda a educação em quatro pontos a educação moral: instrução, vigilância, correção e exemplo.

O futuro das mães

1Em grande parte, têm os pais nas suas mãos o futuro dos filhos. Raro os homens se afastam dos caminhos que aprenderam em pequenos (Lm. 3,27). Importa seriamente cuidar da educação dos filhos. O que eles forem amanhã será preparado hoje pelos pais.

2 – Ao lado dos filhos, que, abandonados, deram maus (os de Heli, o de Davi), podemos apresentar os exemplos de virtudes daqueles que receberam boa educação.

A glória de Samuel (I Livro dos Reis), a felicidade de Tobias e Sara (Tb. 14-17), a coragem dos Macabeus (Livros dos Macabeus), são fruto da educação que receberam. Na vida dos santos, entre os muitos exemplos, é célebre o de Santo Agostinho, Santa Branca, mãe de Luís (rei da França), dizia sempre ao filho preferir vê-lo morto a saber que cometeu um pecado mortal.

3Dando aos filhos um ideal elevado, fazendo-os preferir a virtude ao dinheiro, o caráter às dignidades, a honestidade ao poder; ensinando-lhes o horror ao mal, a estima ao bem; enchendo-lhes o coração das coisas do céu, os pais preparam a felicidade não só para os filhos como para si próprios. Os bons filhos fazem a felicidade dos pais, enquanto que os maus lhes trazem confusão e opróbrio (Sr. 17,6; 22,3).

4 – Por isto, Deus recomenda com muita insistência a educação dos filhos:
Educa bem o teu filho e ele te consolará e será as delícias de tua vida” (Prov. 19,17). “Tens filhos? Educa-os bem, e acostuma-os à sujeição desde a infância” (Sr. 7,25).

E mostra igualmente os males de suma educação descuidada e má:
Um filho deixado à vontade, torna-se insolente” (Sr. 30,8). “Educa o teu filho e trabalha por formá-lo, para que não te desonre com sua vida vergonhosa” (id.13).

E São Paulo acha que “se alguém não cuida dos seus e principalmente dos seus domésticos, negou a fé e é pior do que o infiel” (I Tim. 5,8)

5 – Dos pais culpáveis e negligentes diz o salmista que eles “imolaram seus filhos e suas filhas aos demônios” (105,37). O Espírito Santo chama insensatas as mulheres que educam mal os filhos (Sr. 3,12). E os filhos mal educados não só repetem os mesmos crimes dos seus pais (4 Rg. 17,41), mas os levam mais longe, como disse o Senhor pelo profeta (Jer. 26,11).

De fato: Heli negligente no serviço de Deus, os filhos foram negligentes e sacrílegos; Davi foi adúltero uma vez, por fraqueza, mas os filhos foram por hábito; Salomão foi excessivo no governo, os filhos foram tirânicos.

Para viver a doutrina

1 – Os bons cristãos recebem os filhos que Deus manda, como verdadeiros presentes do céu. Filhos, sendo bem educados, só dão prazer. O livro de Tobias chama ao filho “o arrimo de sua velhice” (5,23). Nem devem ter receios. Nunca falta o necessário a quem teme a Deus: “Nunca vi o justo abandonado, nem a sua descendência mendigando o pão” (Sl. 36,25).

De qualquer maneira, é melhor ter o número de filhos que Deus quiser do que limitá-los e viver em pecado mortal, perdendo a graça de Deus neste mundo e a glória no outro.

2 – Os egoístas fogem até ao amor dos filhos. Há muitas pessoas que não amam os filhos porque eles lhes causam transtornos à vida, aos divertimentos, aos passeios, ao luxo. Sereis mais tarde pais de família. A educação de uma família impõe naturalmente sacrifícios. Só quem se acostuma ao sacrifício é capaz de educar devidamente os filhos.

3 – Os filhos se aborrecem, às vezes, com as medidas que tomam os pais a respeito de sua educação. Mas erradamente. Lembre-se que é para bem. Submetam-se de boa mente. Tudo redundará em benefício. E darão, além do mais, um grande prazer aos pais, cumprindo também o próprio dever.

4 – Melhor farão os filhos se facilitarem a tarefa educativa dos pais, bem árdua por si mesma. Isto farão submetendo-se facilmente aos conselhos e repreensões, ou, ainda melhor, prevenindo faltas por um cuidadoso cumprimento dos deveres.

(O caminho da vida – Pe. Álvaro Negromonte)
PS: Grifos meus.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Quarta Ferida - Dores de Nossa Senhora



Quarta ferida
Encontro de Nossa Senhora com Seu Filho carregando a Cruz

Dezoito anos passados, com Deus na forma humana - tal a feliz sorte de Sua Mãe. Se cristo pôde, em três anos, transformar um publicano como Mateus, que não teria feito, durante trinta anos, a Própria Sabedoria, infusa n'Aquela que era já a Imaculada Conceição?

Passaram três anos de ensino público, durante os quais ouvimos falar de Maria uma vez só. Agora a espada vai penetrar mais fundo. Jesus fá-la entrar na Sua alma: aparece em Cruz, nos Seus ombros. Fá-la penetrar na alma de Sua Mãe, e é Cruz sobre o coração d'Ela. "Jesus levando a Cruz, encontra Sua Mãe."

Simeão predissera que Ele seria um sinal de contradição. Vê Ela agora que esse sinal de contradição era a Cruz. Sinal precursor de tudo que Ela poderia temer de horrível. Dois ramos de árvore cruzados em ângulo reto, faziam-Na pensar no dia em que uma outra árvore se levantaria contra o Seu Criador transformada em Seu leito de morte.

Pregos no soalho da oficina dum carpinteiro, um rapaz estendendo os braços - a formarem, com o corpo, uma cruz - depois de um dia de trabalho, ao sol-posto ..., eram outros tantos sinais que, por antecipação, Lhe faziam imaginar a terrível hora que havia de chegar.

Por mais que imaginemos ver um inocente sofrer pelo culpado, a realidade é sempre mais triste do que o fantasiado. Bem se exercitara Maria para receber esse golpe final, mas tudo Lhe apareceu como se fora inédito, não preparado. Não há duas dores semelhantes: cada uma tem suas características próprias. Ainda que seja a mesma espada, a diferença está na profundidade do golpe; há sempre uma parte que nunca foi tocada.

As feridas,em Maria, Seu Filho Lhas faz. Mas o golpe vibrado em Si próprio, Ele o faz sempre mais profundo. O gume da espada era, para Ele, chamar a Si os pecados do homem e levar a Cruz, mas permitir ainda que Sua Mãe, tão pura, sofresse essa pena com Ele. Longe de ser leve, a Cruz devia parecer-Lhe mais pesada sobre os Seus ombros, quando Sua Mãe Lha viu levar.

Mas quantas vezes Nosso Senhor dissera: "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz e siga-me" (S. Mateus, cap. XVI, v.24). Se o levar a própria Cruz era a expressa condição para ser discípulo de Cristo, então a condição para ser Mãe do Salvador era levar a Cruz do Salvador, Seu Filho.

Os curiosos, que viam passar Jesus a caminho do Calvário, podiam vê-Lo levar a Sua Cruz, mas só ela sabia o fardo que Ela conduzia.

O mundo atual, não sofre apenas do temor do mal iminente - como na profecia de Simeão; do exílio causado pela cólera dum tirano - como na fuga para o Egito; da solidão e da angústia dos pecadores - como nos três dias em que Jesus andou perdido. Sofre também o moderno pesadelo do terror. Inocentes Abéis mortos pelos Caíns soviéticos do Oriente; chineses cristãos que vivem no temor mortal duma execução; multidões sem número assustadas com as injustiças praticadas pelos comunistas - toda essa gente levantaria em vão os olhos para o Céu, se um Homem e uma mulher não tivessem sentido em Si Próprios a amargura desse terror.

E se apenas o "Homem Inocente" tivesse sentido a violência desse terror, que diriam as mulheres? Não devia também estar aí presente uma pessoa do seu sexo, cheia do mesmo terror, de modo a que ela lhes levasse esperança e consolação?

Se Deus, em Sua carne, não tivesse sofrido com paciência os julgamentos mais iníquos, teriam os padres chineses tido, em nossos dias, a coragem de marchar segundo o Seu rastro?

Se uma mulher, de pé, diante da multidão furiosa e sedenta de sangue, não tivesse partilhado dos nossos sustos, se os não tivesse feito Seus, poderia a humanidade dizer que era fácil a um Homem-Deus suportar todo o medo e todo o temor, porque Ele é Deus, ao passo que um homem é simplesmente um homem ... É por isso que Nosso Senhor deve ser novamente a Espada, nesta quarta e dolorosa ferida.

Desta vez, nem uma só palavra foi proferida, porque o terror fez calar a voz. A espada de Cristo mergulhou no Seu Próprio Coração, fez-Lhe verter gotas de sangue que caem, como as contas dum rosário - o Rosário da Redenção - ao longo do caminho, a partir de Jerusalém.

Mas a arma que Ele mergulhou na alma de Maria identificou-A aos Seus sofrimentos redentores, forçou-A a marchar por esse mesmo caminho, impregnado do sangue de seu Filho. As Suas feridas sangraram. As d'Ele, mas não as de Maria.

Quando as mães vêem seus filhos sofrer, gostariam que fosse o seu próprio sangue a ser derramado em vez dos deles. Ora, para Jesus, era bem o sangue de Sua Mãe que Ele derramava. Cada gota desse sangue, cada parcela desse corpo, só Ela Lhas deu, porque Ele não tinha pai humano. De maneira que era sempre sobre o Seu Próprio sangue que Ela caminhava.

Por virtude dessa dor atroz, uma suprema compaixão entrou no coração de Maria - compaixão por todos aqueles que vivem amarfanhados pelo terror. Os santos são a indulgência em pessoa para com o seu próximo, que está longe de lhes pagar em igual moeda. Aqueles que levam uma vida fácil, despreocupada, jamais podem falar a língua dos que vivem no terror. De tal modo estão acima destes infelizes, que nem mesmo os podem ver, ou, se tal acontece, é como condescendência, não com compaixão. Maria, pelo contrário, intromete-se na poeira das nossas vidas humanas, nos medos, nas falsas acusações, nas questões infamantes, em todos os instrumentos de tortura.

A Imaculada misturou-se com a lama, e para com os criminosos não tem nem azedume, nem rancor, mas apenas uma grande piedade, por ver que eles não sabem, não compreendem quanto os ama esse Amor que eles atiram para a morte.

Pela Sua pureza, Maria está no alto da montanha; pela Sua compaixão, está no meio das maldições dos condenados à morte, dos carcereiros, dos carrascos, do sangue. Um criminosos, no desespero da sua falta, pode não encontrar o seu caminho para Deus, para Lhe pedir perdão, mas não pode recusarse a invocar a intercessão da Mãe de Deus, que viu outros criminosos como ele, e para os quais pediu o perdão.

Se uma Mãe absolutamente santa, como Maria, que merecia que A poupassem a todo o mal, pode, pela providência de seu Filho, levar uma cruz, como é que nós - que tão longe nos encontramosda Sua pureza - poderemos escapar às nossas?

"Que fiz eu para merecer isto?" - Grito de orgulho.

Que fizera Jesus?
Que fizera Maria?

Não lamentemos que Deus nos tenha enviado uma cruz, Consideremos que Maria lá está no Seu lugar, para no-la tornar mais leve, mais doce, fazendo-a Sua.

(O primeiro amor do mundo - Arcebispo Fulton J.Sheen)

PS: Grifos meus
Ver também: Feridas anteriores

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A educação do senso crítico



Senso critico

Que conhecimento adquirir

Em plena aprendizagem, os educandos precisam de adquirir conhecimentos, têm tanto que aprender! Mas é erro grave encher-lhes a cabeça de informações fúteis ou superficiais. Há um mínimo indispensável de conhecimentos: os necessários à direção da vida. Além disto, o espírito se enriquece com elementos de cultura geral que o põem em contato com os valores duradouros da humanidade, com elementos profissionais que lhe dão competência para o bom cumprimento dos deveres de estado, com conhecimentos da vida cotidiana do mundo, no que ela tem de valioso para os interesses pessoais e sociais.

Tudo o que desenvolve a inteligência, favorece a seriedade intelectual, serve ao cultivo das letras, ciências e artes, deve ser formentado na educação. Fora disto, é perda de tempo, desperdício de si, quando não resvala por piores caminhos.

"Uma cabeça bem feita"

É lastimável a orientação dos jornais modernos, cheios de informações tão banais, que, quando moralmente inofensivos, servem apenas para afastar o espírito dos temas aproveitáveis.

Ser "um homem bem informado" passou a constituir o elogio, quando o verdadeiro louvor merece o homem bem formado.

... Mais do que armazenar conhecimentos importa formar o senso crítico... O homem sabe, não apenas porque recebeu passivamente os conhecimentos e os pode repetir mecanicamente, mas quando incorporou os conhecimentos, quando os digeriu e assimilou. Para que isto seja judiciosamente feito, há de passar tudo pelo próprio julgamento, a fim de aceitar o que é bom e rejeitar o que é mau.

Ensinar a pensar

O grande trabalho do educador é este: ensinar a pensar, muito mais do que fornecer conhecimentos; formar a inteligência, muito mais do que informá-la. é despertar a capacidade de compreender. É dar uma certa autonomia mental, na medida em que ela é necessária. é preparar para o discernimento. É encaminhar o educando a usar de sua inteligência; a pensar por si; a saber valer-se da cabeça que Deus lhe deu. É fazer "trabalhar com a cabeça" - como expressivamente diz o povo, na sua linguagem viva e pitoresca.

Isto não se faz de uma vez, precipitada ou independentemente. Faz-se aos poucos. A criança precisa da autorizado dos pais e mestres. Mas deve libertar-se dela, intelectualmente em primeiro lugar. O acerto do educador está em ir processando insensivelmente esta libertação, sem choque, à medida do necessário e do razoável.

Com os adolescentes

A tendência hipercrítica da adolescência encontra natural corretivo nesta bem feita educação intelectual. O adolescente explode em independência, mais por causa da compressão que da justa liberdade. Paulatinamente libertado, proporcionadamente entregue a si mesmo, não sentirá tanto gosto na oposição aos "velhos", na demolição dos ídolos. Ademais, formados desde cedo no gosto da objetividade, não terão tanto apego aos próprios juízos. Apenas saberão, quanto lhes permite a idade, examinar os juízos alheios, para aceitá-los ou reformá-los "dominando-os", incorporando-os a si mesmos.

No terreno moral

Não temamos, com isto, formar racionalistas ou dar aos educandos perigosa independência. Esta capacidade de discernir e julgar é básica na vida moral: os que não a tiverem, considerem-se menores (qualquer que lhes seja a idade). Os que não a formarem, estão precipitando os educadores nas mãos de outrem - pois, incapazes de pensar por si, vão ser dirigidos por terceiros, que tanto os podem levar para o bem como, ainda mais facilmente, para o mal.

Longe de ser um erro (como ainda pensam alguns, amedrontados com a liberdade dos menores), não apenas é bem, mas essencial à virtude, como fundamento de toda a vida moral.

Em face da fé

É também perfeitamente compatível com a fé. Nada temos a temer do senso crítico bem formado. Pelo contrário, o fanatismo é o grande perigo. A credulidade tem sido a brecha dos assaltantes da fé católica de nossa gente. A fé é a aceitação do testemunho alheio: dos homens - fé humana; de Deus - fé sobrenatural.

Mas quando o católico aceita a Palavra de Deus e o ensino infalível da Igreja, não o faz cegamente. Não abdica de seu senso crítico, do direito de julgar. Pelo contrário, é firmado nos motivos de crer que ele faz o seu ato de fé.

Não cremos nos mistérios religiosos por julgá-los à luz de nossa razão; mas cremos porque aceitamos um testemunho que, de antemão, sabemos infalível. Assim compreendido, não há qualquer perigo da independência mental em face das verdades reveladas. Antes ela contribuirá para fazer convicções religiosas, tão importantes, decisivas, na formação cristã.

(O que fazer de seu filho - Pe. Álvaro Negromonte)
PS: Negritos meus; itálicos do autor.

Estudante-zangão!


Não é sem motivo que se costuma citar a abelha como um modelo de diligência. A aplicação laboriosa com que ela recolhe o mel, de flôr em flôr, é coisa admirável. A abelha atarefada e o estudante estudioso se assemelham.

Nós outros, homens, - mormente quando ainda estudantes, - devemos tirar de muitos livros, de muitas observações e experiências, os conhecimentos que nos serão necessários na vida, o que reclama de nós uma perseverança  infatigável.

A semelhança, porém, entre a abelha e o estudante vai mais longe. Ambos têm uns parentes nada honrosos. A abelha tem um primo degenerado: o zangão. Ele tem traços comuns com a prima; zumbe exatamente do mesmo modo, e até mais forte; voa também, de flôr em flôr. Às vezes, pousa num rochedo com perfeita seriedade, como se quisesse dizer: "Eu, tiro mel até mesmo da pedra". Mas, ao cabo de um dia todo, de atividade volta sempre sem mel para casa.

Ora, como é que faz o zangão-estudante? Fica sentado diante do livro aberto, exatamente como os camaradas. Folheia-o como eles, e até mais. Arregala os olhos com absoluta seriedade como se também dissesse: "Eu, tiro ciência até da capa do livro". A mamãe acarinha-o compassiva: "Meu pobre filho, você se cansa demais!"

Mas ele apenas finge aplicar-se ao estudo. Porque, se as idéias lhe sucedem na mente, não têm, contudo, na maioria das vezes, relação nenhuma com  a lição ... E isso ainda não seria nada; mas sucede também que imagens e fantasias malsãs achem asilo com o zangão torna-se completa: é no monturo que as larvas desse inseto se desenvolvem quase sempre...

O livro dos Provérbios, do Antigo Testamento, esboça um excelente retrato do homem preguiçoso que "quer e não quer" (13,4), que morre "ferido pelos próprios desejos" (21,35). Pois não é sua vida toda, apenas encadeamento sem fim de suspiros e de desejos infrutíferos?

O preguiçoso nunca pode resolver-se a coisa alguma: enxerga num trabalho dez vezes mais dificuldades do que existem realmente; sente arrepios ante a menor tarefa, e acaba quase sempre por furtar-se a ela. "Um leão está passeando lá fora, poderia estrangular-me na rua!" (22,13), diz ele consigo, arrepiado. "Essa lição de álgebra é horrivelmente difícil; é me impossível aprendê-la", e fecha o livro, antes mesmo de começar.

Tenta tudo; tem uma pequena idéia de tudo; mas não sabe nada seriamente. Parece-se com esses canivetes grossos que, além de lâminas, trazem um sacarrolhas, uma colher minúscula, uma tesoura e um abotoador, ferramenta completa, mas de qualidade inferioríssima.

Como te lastimo, pobre estudante-zangão, que assim perdes os melhores anos da tua juventude!

(O moço de caráter - Dom Tihamér Tóth)
PS: Grifos meus

sábado, 16 de janeiro de 2010

Do incomparável amor da Mãe de Deus Nossa Senhora



Do incomparável amor da Mãe de Deus Nossa Senhora.

Mas em tudo e em toda parte, quando eu faço comparações, não entendo falar da Santíssima Virgem Mãe, Nossa Senhora. Ó Deus! não; pois ela é a filha de incomparável dileção, a toda única pomba, a esposa toda perfeita (Cânt. 6,8). Sobre essa rainha celeste eu pronuncio de todo o meu coração este amoroso mas verdadeiro pensamento, de que ao menos pelo fim dos seus dias mortais a sua caridade excedeu a dos Serafins.

Porquanto, se muitas filhas ajuntaram riquezas, esta as excedeu a todas (Prov 31,29). Todos os Santos e Anjos só são comparados às estrelas, e o primeiro deles à mais bela delas: porém esta é bela como a lua (Cânt 6,9), fácil de ser escolhida e discernida entre todos os Santos, como o sol entre os astros. E, passando mais além, eu ainda penso que, assim como a caridade dessa mãe de amor excede em perfeição a de todos os Santos do céu, assim também ela a excerceu mais excelentemente, digo mesmo nesta vida mortal.

Ela nunca pecou venialmente, como a Igreja o considera. Nunca teve, pois, vicissitude, nem retardamento no progresso do seu amor, antes subiu de amor em amor por um perpétuo adiantamento; nunca sentiu contradição alguma do apetite sensual; e portanto o seu amor, qual verdadeiro Salomão, reinou-lhe pacificamente na alma, e nela fez todos os seus exercícios à vontade.

A virgindade do seu coração e do seu corpo foi mais digna e mais honrosa do que a dos Anjos. Eis por que seu espírito não dividido (I Cor 7, 33-34) nem repartido, como fala São Paulo, estava todo ocupado em pensar nas coisas divinas, em como ela agradaria a seu Deus (Tb.32).

E, enfim, o amor materno, o mais premente, o mais ativo, o mais ardente de todos, amor infatigável e insaciável, que não devia ele fazer no coração de tal Mãe e para o coração de tal Filho?

Oh! por favor, não alegueis, que essa santa Virgem foi, contudo, sujeita ao dormir: não, não me digais isto, Teótimo. Pois não vedes que o seu sono é um sono de amor? de sorte que seu próprio esposo quer que a deixem dormir tanto quanto lhe aprouver. Ah! guardai-vos bem, conjuro-vos, diz ele, de acordar minha bem-amada até que ela o queira (Cânt 2,7).

Sim, Teótimo, essa Rainha Celeste nunca adormecia senão de amor, visto que não dava nenhum repouso ao seu precioso corpo senão para revigorá-lo, a fim de que ele servisse melhor ao seu Deus depois: ato certamente muito excelente de caridade. Porque, como diz o grande Santo Agostinho, ela nos obriga a amar os nossos corpos convenientemente, enquanto são necesários para as boas obras, enquanto formam uma parte da nossa pessoa, e enquanto serão participantes da felicidade eterna.

Certamente, um cristão deve amar seu corpo como uma imagem viva do corpo do Salvador encarnado, como saído da mesma haste com Ele, e por conseguinte pertencendo-Lhe em herança e consanguinidade, mormente depois que renovamos a aliança pela recepção real desse Divino Corpo do Redentor, no adorabilíssimo Sacramento da Eucaristia, e depois que, pelo batismo, confirmação e outros sacramentos, somos dedicados e consagrados à suma bondade.

Mas, quanto à Santíssima Virgem, ó Deus, com que devoção não devia ela amar seu corpo virginal, não somente porque era um corpo manso, humilde, puro, obediente ao santo amor, e que estava embalsamado todo de mil sagradas suavidades, mas também porque era a fonte viva do corpo do Salvador, e lhe pertencia tão estreitamente de uma pertinência incomparável. Era por isso que, quando ela punha seu corpo angélico no repouso do somo, dizia: Ora eia, ó tabernáculo da aliança, arca da santidade, trono da Divindade; aliviai-vos um pouco do vosso cansaço, e reparai as vossas forças por esta doce tranquilidade.

E depois, meu caro Teótimo, não sabeis que os sonhos maus, proporcionados voluntariamente pelos pensamentos depravados do dia, de alguma sorte fazem vezes de pecado, porque são como que dependências e execuções da malícia precedente? Assim, de certo, os sonhos provenientes dos santos afetos da vigília são considerados virtuosos e sagrados.

Meu Deus, Teótimo, que consolação ouvir São Crisóstomo (Hom. X De penitentia) contando um dia ao seu povo a veemência do amor que dedicava a ela!

"Forçando a necessidade do sono as nossas pálpebras, diz ele, a tirania do nosso amor para convosco excita os olhos do nosso espírito; e múltiplas vezes no meio do meu sono pareceu-me que eu vos falava: porque a alma costuma ver em sonho por imaginação o que pensa durante o dia. Assim, não vos vendo com os olhos da carne, nós vos vemos com os olhos da caridade".

Oh! doce Jesus, que devia sonhar Vossa Santíssima Mãe quando dormia e seu coração velava?

Não sonhava ver-Vos ainda dobrado nas suas entranhas, como estiVestes nove meses, ou então pendente dos seus peitos e estreitando-lhe docentemente o seio virginal? Ai! quanta doçura naquela alma!

Talvez ela haja muitas vezes sonhado que, assim como Nosso Senhor outrora lhe dormira muitas vezes sobre o peito, como um cordeirinho na branda ilharga de sua mãe; assim também ela dormia no Seu lado perfurado, como uma branca pomba no buraco de um rochedo seguro (Cânt 2,14).

De tal sorte que o seu dormir era mui semelhante ao êxtase quanto à operação do espírito, embora, quanto ao corpo, fosse um doce e gracioso alívio e repouso. Porém, se, como o antigo José, ela jamais sonhou com a sua grandeza futura, quando no céu fosse revestida do sol, coroada de estrelas, e tendo a lua a seus pés (Gn 32,9; Apoc 12,1), quer dizer, toda circundada da glória de seu Filho, coroada de glória dos santos e com o universo debaixo dos pés; ou se, como Jacob, ela viu o progresso e os frutos da redenção feita por seu Filho em favor dos Anjos e dos homens (Gn 38,12):

Teófilo, quem poderia jamais imaginar a imensidade de tamanhas delícias?
Quantos colóquios com o seu caro Filho! quanta suavidade de todas as partes!

... Em suma, assim como o asbesto (substância mineral filamentosa, incombustível), pedra preciosa, por uma propriedade sem igual conserva para sempre o fogo que concebeu, assim também o coração da Virgem Mãe permaneceu perpetuamente inflamado do santo amor que ela recebeu de seu Filho, mas com esta diferença todavia:

Que o fogo do asbesto, não podendo ser extinto, também não pode ser aumentado; ao passo que as chamas sagradas da Virgem não podendo nem perecer, nem diminuir, nem ficar no mesmo estado, nunca cessaram de tomar incrementos incríveis até o céu, lugar da sua  origem; tanto é verdade que essa Mãe é a mãe de bela dileção (Ecli 24,24), isto é, a mais amável como a mais amante, e a mais amante como a mais amada Mãe desse único Filho, que é também O mais amável, O mais amante e O mais amado Filho dessa única Mãe.

(Excertos do livro: Tratado do amor de Deus - São Francisco de Sales - Livro III)
PS: Grifos meus

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O Calvário e a Missa - 4ª Parte: Consagração


Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
(São Mateus 27,46)

Eis a quarta palavra da Consagração da Missa do Calvário. As três primeiras palavras foram dirigidas aos homens. A quarta, porém, foi dirigida a Deus. Estamos agora na última fase do drama da Paixão. Na quarta Palavra, e em todo o Universo, só existem apenas Deus e Jesus. Esta é a hora das trevas.

Subitamente, o silêncio dessa escuridão é quebrado por um grito – tão terrível e tão inesquecível que até aqueles que não compreenderam a língua em que foi expresso hão de recordar-se sempre do tom estranho em que foi proferido: “Eli, Eli, lamma Sabcthany”.

Sim, embora alguns não pudessem compreender essas palavras da língua hebraica, o tom em que foram ditas não mais lhes esqueceu em toda a sua vida.

As trevas que cobriam a terra naquele momento representam apenas o símbolo exterior da noite escura da alma. O sol pode esconder a sua face perante o terrível crime dos deicidas, mas a verdadeira razão da noite que se estendeu sobre a terra foi a sombra da Cruz que se erguia no Calvário.

Toda a criação ficou imersa nas trevas da dor.

Qual foi, todavia, a razão do grito que partiu da escuridão?
 “Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonastes?”

Esse foi o grito de espanto para o pecado, em que o homem abandonou Deus, em que a criatura esquece o Criador, em que a flor despreza o sol que lhe deu força e beleza. O pecado é uma separação, um divórcio da união com Deus, e do qual derivam todos os divórcios. Desde que Jesus veio à terra para remir os homens dos seus pecados, é certo que Ele sabia que havia de sentir esse abandono, esse apartamento, esse divórcio.

Ele sentiu-o, antes de mais, no íntimo da Sua alma, tal como a base da montanha, se fosse consciente, sentiria o abandono do sol quando uma nuvem descesse sobre ela, embora os seus cumes se conservassem radiosos, banhados de luz.

Não havia sombra de pecado na alma de Jesus, embora Ele quisesse sentir os efeitos do pecado, e a terrível sensação de isolamento e solidão – a solidão do afastamento de Deus.

Renunciando à divina consolação que poderia pertencer-Lhe, Ele quis mergulhar na tremenda solidão da alma que se extraviou de Deus pelo pecado, para expiar a solidão do ateu que nega a existência de Deus e deposita a sua fé nas coisas terrenas, a dor do coração despedaçado de todos os pecadores que sentem a amargura da ausência do seu Criador.

Jesus foi até ao ponto de remir todos aqueles que não crêem e que, na tristeza e na miséria, exclamam, blasfemando: “Por que é que a morte levou tal pessoa?”, “Por que é que perdi aos meus bens?”; “Porque é que hei de sofrer”.

O “Porquê” que Jesus dirigiu a Seu Pai é uma expiação que abrange os “porquês” soltados por aqueles que blasfemam.

Para melhor revelar a sensação de tal abandono, Jesus exteriorizou-o. Porque o homem se apartara de Deus, Ele permitiu que o Seu sangue se separasse do Seu Corpo. O pecado entrara no sangue do homem e, como se os pecados do mundo recaíssem sobre Ele, Jesus deixou derramar o Seu precioso sangue, do cálice do Seu Corpo. Quase que podemos ouvi-Lo dizer:

Pai, este é o Meu Corpo, este é o Meu Sangue. Eles estão separados um do outro, tal como a humanidade se separou de Ti. Esta é a Consagração da Minha Cruz”.

O que aconteceu então no Calvário acontece agora na Missa. Com uma diferença: Na Cruz, o Salvador estava só e, na Missa, está conosco. Nosso Senhor, agora, está no céu, à mão direita de Seu Pai, intercedendo por nós. Já não pode, portanto, sofrer na Sua natureza humana.

Como pode, pois, a Missa ser a renovação do drama da Cruz? Como é que Cristo pode renovar o drama da Cruz?

Ele não pode, realmente, voltar a padecer na Sua natureza, porque está no céu, gozando a divina bem-aventurança, mas pode ainda sofrer nas nossas naturezas humanas.

Ele não pode, de fato, reviver o Calvário no Seu Corpo físico, mas pode renovar os Seus sofrimentos no Seu Corpo Místico que é a Igreja.

O sacrifício da Cruz pode ser renovado, contanto que nós Lhe façamos a oferta do nosso corpo e do nosso sangue, em toda a plenitude. Jesus pode também oferecer-Se novamente a Seu Pai Celestial, pela redenção do Seu Corpo Místico – a Igreja.

Cristo anda no mundo juntando as almas que desejam ser outras tantos Cristos. Para que nos nossos sacrifícios, as nossas tristezas, os nossos calvários, as nossas crucificações, não fiquem isoladas, desunidas, a Igreja reúne-os, junta-os, e o agrupamento, a massa de todos esses sacrifícios humanos reúne-se ao grande sacrifício de Cristo na Cruz, durante a Missa.

Quando assistimos ao Santo Sacrifício da Missa, não somos precisamente apenas criaturas terrenas, nem indivíduos solitários, mas sim parcelas vivas de uma grande ordem espiritual, na qual o Infinito penetra e envolve o finito, e o Eterno penetra no ser temporário e passageiro, e o Espiritual reveste a materialidade.

À face de Deus nada existe sobre a terra de mais solene e que mais respeito infunda do que o momento da Consagração, pois a Missa não é uma oração, nem um hino. – é um Ato Divino com o qual entramos em contato num dado momento do tempo.

A rádio pode oferecer-nos uma ilustração imperfeita, um esboço vago do que acabamos de exprimir. A Missa é um Ato único, divino, singular, com o qual entramos em contato todas as vezes que ela se celebra.

Quando a face da medalha ou da moeda são gravadas, ou cunhadas, qualquer desses objetos é a representação visível de uma idéia espiritual que existiu no espírito do artista. Do original podem fazer-se reproduções inúmeras, desde que em cada peça de metal se grave ou reproduza o original.


Na missa dá-se um fato semelhante. O modelo ou padrão é o Sacrifício de Cristo no Calvário, renovado nas almas que entraram em contato com Ele, no momento da Consagração. A respeito, porém, da multiplicidade da Missa, o Sacrifício é apenas um, e sempre o mesmo. A Missa é a comunicação do Sacrifício do Calvário, sob as espécies de pão e de vinho.

Também nós estamos no altar sob essas aparências, pois ambas representam o alimento da vida. Oferecendo, pois, aquilo que nos dá vida, oferecemo-nos, simbolicamente a nós próprios. Além disso, para se transformar em pão, o grão tem de ser moído, e as uvas têm de ser esmagadas, para se transformarem em vinho e, assim, representam os Cristãos, que são chamados a sofrer com Cristo, para que um dia possam também alcançar o Reino dos céus.

O momento da consagração da Missa que nos aproxima de Nosso Senhor equivale às palavras que Jesus pronunciou: “Tu Maria, vós, João, Pedro e André, dai-Me o vosso corpo, dai-Me o vosso sangue, dai-Me todo o vosso ser. Eu não posso sofrer mais. Passei por todos os padecimentos da Cruz, esgotei todos os sofrimentos que o Meu Corpo físico podia suportar, mas não preenchi a medida dos tormentos necessários ao Meu Corpo Místico, do qual vós fazeis parte. A Missa é o momento em que cada um de vós pode escutar literalmente a minha exortação: ‘Toma a tua cruz e segue-Me’”.

Do alto da Cruz, Nosso Senhor já olhava para todos aqueles que haviam de vir, para todos nós, esperando que algum dia nos entregássemos a Ele no momento da consagração. Assistindo à Santa Missa, realizamos, portanto, a esperança que antecipadamente Jesus pôs em nós.

Quando chega o momento da consagração, em obediência às palavras de Deus Nosso Senhor, “Fazei isto em memória de Mim”, o sacerdote toma o pão e diz: “Este é o Meu corpo”; depois, sobre o cálice que contém o vinho, acrescenta: “Este é o Meu sangue do novo e eterno Testamento”. A consagração do pão e do vinho é feita separadamente, como representação da separação do corpo e do sangue; tal como sucedeu na crucificação, o drama do Calvário repete-se sobre o altar.

Cristo não está, porém, sozinho no nosso altar, pois nós estamos com Ele. Daí o duplo sentido da palavra da consagração que, em primeiro lugar, significam: “Este é o Corpo de Cristo; este é o Sangue de Cristo”. O segundo significado é: “Este é o meu corpo, este é o meu sangue”.

E é esta a finalidade da vida! Reunirmo-nos em união com Cristo, aplicar os Seus méritos às nossas almas, imitando-O em todas as coisas, e até na Sua própria morte sobre a Cruz.

A consagração que Jesus fez no Calvário é repetida por cada um de nós quando assistimos à Santa Missa.

Não existe algo de mais trágico no mundo do que a dor sofrida em vão. Quanto sofrimento existe nos hospitais, entre os pobres e os abandonados, e quantos desses sofrimentos são perdidos! E porquê?
Porque muitas almas, abandonadas, crucificadas, não dizem, unidas a Nosso Senhor, no momento da consagração: “Este é o meu corpo. Tomai-O”.

Nenhum padecimento seria desperdiçado, vão, se todos aqueles que sofrem, dissessem nesses momentos:

Meu Deus, entrego-me nas Vossas mãos. Toma o meu corpo, o meu sangue, a minha alma, a minha vontade, a minha energia, a minha força, os meus bens, a minha saúde. Toma tudo o que eu sou e possuo, pois eu me consagro inteiramente a Vós e em união conVosco, para que o Pai Celestial veja nessa dádiva o Vosso bem-amado Filho.

Àquele em quem Ele pôs todas as Suas complacências. Transmuda o pobre pão da minha vida na Vossa vida divina; transforma o vinho da minha vida desperdiçada no Vosso divino espírito; une o meu coração despedaçado ao Vosso coração; transforma a minha cruz num crucifixo.


Não deixes que a minha dor e o meu abandono se percam, junta os seus fragmentos e, tal como a gota de água é incorporada no vinho, durante o ofertório da missa, deixa que a minha vida se incorpore na Vossa.


Deixa que a minha pequena cruz se reúna à Vossa grande Cruz, para que eu possa obter as alegrias da felicidade eterna, em união conVosco!

Consagra as provações da minha existência, pois elas não serão compensadas, senão por meio da minha união conVosco. Transubstancia-me, tal como o pão que é agora o Vosso corpo, e o vinho que é agora o Vosso sangue, e eu serei inteiramente Vosso.

Não me importa que as aparências permaneçam, tal como sucede ao pão e ao vinho, e que aos olhos da terra eu pareça o mesmo que era antes. A minha permanência no mundo, os meus deveres habituais, o meu trabalho, a minha família – tudo isso representa as espécies da minha vida que continuam inalteradas.

A substância da minha vida, porém, a sua essência, - a minha alma, a minha vontade, o meu espírito, o meu coração – transubstancia-os, transforma-os inteiramente no Vosso serviço, para que todo o meu ser possa saber e sentir toda a doçura do amor de Cristo”. Amém.

(O Calvário e a Missa – Arcebispo Fulton J.Sheen: Consagração)

PS: Grifos meus
PS 2: Um texto que devido a sua profundidade, precisa ser lido com muito recolhimento e meditação, para obter toda a sua substância e graças.
Ver também - Outros textos do mesmo livro (continua...)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Jesus sofre! Alma amada, tome a resolução de consolá-Lo ...


(Figura focando o rosto de São Domingos aos pés da Cruz)
Jesus sofre

Tristis est anima mea usque ad mortem (Mc 14,34)
Minha alma está triste até à morte

Há vinte séculos, quando ninguém pensava ainda em mim, quando ninguém podia ainda suspeitar que um dia eu existiria, um Coração amava, interessava-se pela minha felicidade e se entristecia pelos meus pecados.

Oh! como esse último pensamento me punge a alma de dor e remorso! Jesus entristeceu-se e sofreu por causa de meus pecados e dos de cada homem em particular.

Jesus era Deus. Ele via clara e minuciosamente todos os meus pecados e os crimes do mundo inteiro. Contava-lhes o número e pesava-lhes a gravidade e compreendia a malícia infinita de todos eles. Continuamente Ele tinha diante dos olhos essa montanha de crimes; continuamente pesava no Seu coração a ofensa infinita feita a Deus, ofensa tantas vezes repetida e desejada, de algum modo pela vil criatura humana.

As lágrimas que derramou no presépio foram lágrimas de tristeza à vista de tantas ingratidões. Quando moço, a idéia de todos os sofrimentos e da morte, que o esperavam, jamais o abandonou.

Diz a piedade cristã que, estando Jesus já crescidinho e começando a andar, no vaivém contínuo em torno de São José na sua oficina de operário, tomou dois pedaços de madeira e, dispondo-os em forma de cruz, mostrou-os à santa Virgem. Vendo-os, os olhos da Mãe arrasaram-se de lágrimas e o Coração de Jesus encheu-se de tristeza.

A menor lembrança reabria essa ferida na alma de Jesus e de Maria. A vista de um cordeiro, de uma pomba, a vista de pregos, de um martelo, ou de outros instrumentos da paixão, lembravam os cruéis suplícios que esperavam o inocente Jesus.

Quando Maria revestia seu Filho da pequena túnica, diz Santo Afonso, ela entrevia o dia em que lhe arrancarriam as vestes para flagelá-Lo e crucificá-Lo; quando ela O alimentava com seu leite virginal, pensava no fel e vinagre que Lhe dariam para mitigar-Lhe a sede; quando olhava as mãozinhas que se estendiam para abraçá-la, ela as via perfuradas com grossos cravos e fixadas na Cruz; quando Lhe envolvia em faixas o corpinho, transportava-se em espírito junto ao túmulo onde havia de envolvê-Lo um dia no sudário.

Oh! que amargura para o coração dessa Mãe e desse Filho, que tudo sabiam de antemão!
E a dor aumentava à medida que se aproximava o dia fatal.

Durante a vida pública de seu querido Filho, e sobretudo no último ano, Maria tinha quase sempre os olhos rasos de lágrimas e o pensamento em Jesus, nos Seus sofrimentos, e na Sua morte, não mais a abandonava.

Algumas palavras do Evangelho no-lo dizem quando mesmo não o adivinhassem os nossos corações.

Um dia, atravessando a Galiléia, Jesus disse aos seus discípulos: "O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens que o farão morrer, e, ao terceiro dia, ressuscitará. E os discípulos entristeceram-se profundamente"(Mt 17,21-22). Uma outra vez, indo a Jerusalém, Jesus levou consigo seus doze apóstolos e lhe disse:

"Eis que vamos a Jerusalém e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas e eles o condenarão à morte. E eles o abandonarão aos gentios para ser escarnecido, flagelado, e ao terceiro dia ele ressucitará." (Mt 20,18)

E no dia de sua glória durante a transfiguração no monte Tabor, Moisés e Elias entretêm-se com Ele sobre a cruel morte a que teria de sujeitar-se em Jerusalém (Lc 9,31).

Chega, finalmente, esse dia de suprema tristeza, dia, aliás, tão desejado pelo Amante Redentor.

Jesus despediu-se de sua Mãe, entreteve-se tristemente com ela sobre os dolorosos acontecimentos que deviam seguir, consolou-a com a visão de sua próxima ressurreição e do resgate do gênero humano. Depois abraçou, pela última vez, a pobre Mãe em lágrimas e afastou-se lentamente, o coração partido, para presidir a Última Ceia, que seus discípulos lhe haviam preparado.

Aqui novas tristezas.

Vinte séculos são passados, e nossos corações tão frios enchem-se ainda de piedade ao ler estas palavras do Evangelho:

"Em verdade, em verdade eu vos digo, um de vós há de me entregar". E outras palavras de Jesus a Pedro: "Em verdade, em verdade eu te digo: Não cantará o galo sem que me tenha negado três vezes." (Jo 13,21-38). Eis que vem e já é chegada a hora em que sereis dispersos, cada um de seu lado, e me deixareis só.

O que aflige ainda mais o divino Mestre é deixar seus discípulos como ovelhas sem pastor, os quais, na sua ignorância, não compreendem a desgraça prestes a cair sobre eles. Agora, disse Jesus, vou para aquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: para onde ides? (Jo 16,5)

O bom Jesus, porém, esquecia-se da sua própria dor e, consolando ainda seus discípulos, acrescentou: Agora vós tendes tristeza, mas eu vos tornarei a ver, e vosso coração se há de alegrar, e a vossa alegria ninguém vo-la poderá tirar. (Jo 16,22)

Ao pronunciar estas últimas palavras, Jesus já estava em caminho para o Horto das Oliveiras! Quando lá chegou sentiu-se invadido pela tristeza e pelo tédio e disse: Minha alma está triste até á morte. Ficai aqui e velai comigo. (Mt 26,38) E Jesus foi como que envolvido por mortal angústia, um suor de sangue  cobriu-Lhe todo o corpo e, embebendo-Lhe as vestes, correu até ao chão. (Lc., 22,44).

Oh! quanta tristeza Jesus sofreu pelas nossas ingratidões!

Ele previa então que, de sofrimentos tão intensos, poucos seriam os resultados; que muitos homens passariam indiferentes diante de Sua Cruz, muitos outros recusar-se-iam a conhecê-Lo, mais ainda, haviam de blasfemar e esforçar-se por afastar as almas simples; enfim, um número incalculável de almas jamais ouviriam pronunciar Seu nome.

Oh! como nossos corações se oprimem de tristeza à vista de tanta ingratidão dos homens. Bom Mestre, perdoai as nossas ofensas como perdoastes sobre a Cruz e derramais graças abundantes sobre todos os homens,  afim de que todos sejam forçados a reconhecer-Vos e amar-Vos.

E tu, alma tão amada, toma a resolução de consolar o Coração de Jesus e promete conquistar-Lhe outras almas.

Oh Jesus! como eu desejava estar lá no Horto das Oliveiras! Como agradeço a Verônica ter afrontado as injúrias, os golpes, para tocar com seu véu o Vosso rosto sagrado; como me consola a compaixão das filhas de Jerusalém pela Vossa sorte; como eu teria desejado ainda ajudar Simão a levar Vossa Cruz e aliviar assim Vossos padecimentos, como, sobretudo, agradecer a Vossa pobre Mãe de Vos ter seguido até ao Calvário, de se ter aproximado bem perto de Vosso patíbulo para melhor partilhar dos Vossos sofrimentos, e ter querido com sua heróica fidelidade poupar-Vos a pena que Vos causariam nossas futuras pusilanimidades!

Oh Jesus! eu Vos amo, eu quero consolar-Vos a poder de amor e paciência. Auxiliai-me!

(O Divino Amigo - Pe. Schrijvers)
PS: Grifos meus.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A Sensualidade (natureza/estragos)


"Aqueles que mancham a sua carne... astros errantes aos quais uma tempestade de trevas está reservada por toda a eternidade."
(Mgr. Pichenot)

A natureza da sensualidade

O que é a sensualidade?
É a inclinação desregrada da natureza que nos arrasta aos prazeres dos sentidos: constitue uma chaga profunda, um princípio tristemente fecundo de vícios e de pecados.

A sensualidade vem de Deus?
Deus fez o homem reto, diz o Sábio; e essa retidão consistia em que, estando o espírito perfeitamente submetido a Deus, o corpo também estava perfeitamente submetido ao espírito.

Qual a origem da sensualidade?
"Depois do pecado original, as paixões da carne, por uma justa punição de Deus, tornaram-se tirânicas; o homem foi mergulhar no prazer dos sentidos; e, segundo Santo Agostinho, em vez de, por sua imortalidade primitiva e perfeita submissão do corpo ao espírito, se tornar espiritual, mesmo na carne, tornou-se carnal, mesmo no espírito." (Bossuet)

Qual é a conseqüência desta desordem?
Pelo pecado original perdeu-se o equilíbrio, e o corpo tomou um predomínio aterrador sobre a alma. Daí essa inclinação violenta para o prazer sensual, que faz a tortura das almas castas, que produz a vergonha dos caráteres fracos, e que constitui um dos maiores obstáculos a uma educação séria.

Os estragos da sensualidade

* Qual é o "primeiro" estrago produzido pela sensualidade?
É o de transtornar a ordem estabelecida por Deus.

Qual é a ordem desejada por Deus na criação do homem?
Na ordem desejada por Deus, o homem é o rei da criação. Mas não o é pelo seu corpo: certos animais, a este respeito, superam-no. É, pois, por sua alma; e eis porque a alma deve reinar no homem; ela deve governar a sua vida:

O corpo, como escravo, à obediência é forçado.

Como transtorna a sensualidade este plano?
A sensualidade transtorna esta ordem divina, fazendo dominar o corpo sobre a alma e sujeitando a alma aos sentidos.

* Qual é a "segunda desordem" produzida no homem pela sensualidade?
Faz definhar o corpo e a saúde. Não se ofende impunemente a natureza; a natureza ultrajada vinga-se, e as suas vinganças são terríveis.

Como é que a sensualidade faz definhar o corpo e a saúde?
Ela mina, corrompe e destrói este frágil organismo, que ainda não tem o seu desenvolvimento. O rosto juvenil perde a cor e frescura; os olhos encovam-se e perdem o brilho; a testa fica sulcada de rugas precoses; o vigor gasta-se e extingue-se. A Sagrada Escritura chama a este vício "um fogo devorador" que consome o homem até a medula.

"Que fruto colhestes então das coisas de que hoje vos envergonhais? Porque o fim destas coisas é a morte ... Porque o salário do pecado é a morte."
 (Rom., VI, 21-23)

O vício da luxúria "é como a lepra que, nascida da carne, consome a carne. É um verme roedor, e de todos o mais pernicioso: entra em vós adulando; morde-vos sorrindo, e consome-vos, acariciando-vos; mata-vos, inebriando-vos" (São Bernardo)

"Virá um dia, ou antes uma noite, em que esta paixão se transformará num peso inflamado que acenderá nas vossas entranhas um fogo inextinguível e devorar-vos-á até a medula"
(São Pedro Damiano).

Enquanto conserva a pureza , o adolescente cresce como uma planta vigorosa, cheia de seiva, rica de promessas, exuberante de vida. Logo que o vício toma posse deste florescente arbusto, carcome-o, mina-o, marca-o com o estigma duma crepitude prematura.

Os olhos tão límpidos, tão francos, tão retos, quando refletem a virtude, embaciam-se, velam-se, obliquam-se, como que furtando-se a um olhar que os busca, como se estivessem cheios de imagens vergonhosas que procuram ocultar.

O rosto perdeu essa frescura que dá um sangue vigoroso e puro circulando à flor da pele, essa calma das feições confiantes que espalha sobre a fronte tanta serenidade e em toda a fisionomia tanta graça encantadora...

Os membros tornaram-se trêmulos, o andar incerto e mole, os gestos tímidos, como se o equilíbrio do organismo não pudesse retomar com firmeza a sua posição, em conseqüência das enervantes impressões que lhe infligiram...O coração recebeu terríveis choques, que deixam fendas, tornadas casa vez mais largas...

O cérebro é o que recebe primeiro e mais profundamente os golpes desagradáveis de toda a má ação: as sensações violentas destroem-no como raios; perturbam-no, agitam-no, fazem lhe perder o equilíbrio, enfraquecem-no, acarretam levemente a degenerescência...

A vida assim atingida na sua fonte, definha-se fatalmente, a um organismo, tão maltratado pelo vício, caminha mais rapidamente para a morte do que se tivesse sido preservado pela virtude.
(J. Guibert, a pureza, pág. 35 e seg.)

* Qual é a "terceira" desordem produzida no homem pela sensualidade?
É a perturbação do espírito.

Como acontece tal coisa?
Os prazeres sensíveis impedem o uso da razão de três maneiras: perturbam-na, obscurecem-na, paralisam-na. (São Tomás).

1º - Perturbam-na
A imaginação atormentada por fantasmas impuros, não sabe libertar-se, e arrasta o espírito por sendas vergonhosas.

"A criança sensual é melancólica e distraída; pouco trabalha, pouco se aplica. A alma materializa-se; confunde-se com os orgãos, gastando dessa forma toda a sua atividade física." (R.P.Lacordaire)

2º - Obscurecem-na
A sensualidade "é um fogo que devora; mas não inflama, defuma; não ilumina, cega"
(Pedro de Blois)

3º - Paralisam-na
O espírito, nas práticas vergonhosas da sensualidade "perde a sua energia, o seu vigor, a sua delicadeza e a sua graça; enervado por vis prazeres, merfulhado na lama dos sentidos, embota-se, entorpece-se, atola-se na preguiça e no topor."
(Mgr. Dupanloup)

* Qual é a "quarta" desordem produzida no homem pela sensualidade?
É corromper o coração.

Como acontece tal coisa?
- O vício grosseiro mata o coração daqueles que se lhe entregam. A bondade, a doçura, a amabilidade, a simplicidade, a sinceridade, que faziam o encanto da criança, deram lugar a um humor contristado, caprichoso, extravagante.

- As afeições boas e puras esgotam-se na sua fonte. O reconhecimento já não existe. A sensibilidade generosa e elevada desvaneceu-se
- Com efeito, o sensual é, necessariamente, um egoísta.

"A devassidão não passa dum medonho egoísmo que mata tudo o que há em nós de terno e de elevado." (Lacordaire)

Lacordaire (Na XXII conferência de Notre-Dame), confronta o coração do jovem vicioso com o coração do jovem puro. E diz:

"Um é egoísta, outro generoso; um vive de si, outro fora de si: entre estas duas tendências, uma deve prevalecer... Se a tendência depravada prevalece, o coração murcha pouco a pouco e já não sente as alegrias simples, não se dedica por ninguém, acaba por não pulsar senão para dar curso ao sangue e marcar as horas desse tempo vergonhoso, cuja fuga a devassidão precipita.

A alma do voluptuoso transforma-se toda em carne. As fontes do amor, da misericórdia, secam. O coração, que deu toda a sua vida aos sentidos, esteriliza-se e endurece; o egoísmo feroz penetra nele lentamente e assenta-se sobre o trono das afeições generosas. Os próprios sentimentos da natureza adormecem. Há frio, há trevas, há horrores nessa alma, ao passo que, em volta dela, quero dizer, na carne, tudo se ilumina e se inflama aos olhos da cobiça..."

- A sensualidade destrói a sinceridade, porque é vicioso é dissimulado.

Não se encontram, todavia, crianças sensuais que são dotadas de bom coração?
As crianças sensuais têm, algumas vezes, o ar de possuir um bom coração. Mas isso não passa, muitas vezes, duma vã aparência. Em todo o caso, a sua sensibilidade deve ser estudada: é preciso indagar a origem. Se vem do coração, é um recurso que pode salvar tudo... se vem dos sentidos - é este o caso mais vulgar - é falsa e perigosa.

Como nos devemos comportar com as crianças que são afetuosas apenas por sensualidade?
"É preciso usar de bondade com tais crianças, mas raras vezes de ternura, a não ser com muita gravidade. Só se lhes devem permitir, com uma extrena reserva, as manifestações sensíveis da sua débil ternura; é preciso dispensar-lhes compaixão, mas que esta seja firme e elevada."
(Mgr. Dupanloup)

* Qual a "quinta" desordem produzida no homem pela sensualidade?
É despedaçar a vontade ou, pelo menos, falseá-la.

"O infeliz, vítima do vício ímpuro, está imóvel, enlanguescido, indolente, sem ânimo, rebelde ao esforço; não caminha, arrasta-se; não age, deixa-se levar pelas necessidades do momento; já não é o homem de iniciativa, cinge-se unicamnete ao dever a que se não se pode furtar; e ainda nisso é muito negligente e só tem habilidade para encontrar pretextos de evitar um esforço."
(J. Guibert)

Como acontece tal coisa?
Três elementos dão a vontade a sua força:

- Um ideal que ambicione atingir;
- Um poder de atenção que retenha a imagem eficaz sempre presente ao pensamento;
- Reservas de energia que conservem o organismo sempre em estado se seguir fielmente os impulsos do ideal.

Ora, o homem vicioso destruiu ou gravemente alterou esses três elementos:

- O ideal é para ele um sonho infantil de que zomba.
- A atenção é monopolizada totalmente pelos cuidados dos prazeres.
- A energia já não encontra abrigo no seu organismo esgotado e no seu sistema nervoso fundamentalmente desequilibrado.


Que conclusões se impõem ao educador sério, depois do pequeno estudo que acabamos de fazer?
Ei-las:

- É preciso, a todo o custo, preservar as crianças do terrível flagelo da sensualidade e prendê-las à virtude oposta por todas as energias do seu ser físico e moral. Esta salvanguarda é um dos deveres mais graves da autoridade paternal e maternal.

A incúria e a leviandade seriam neste particular imperdoáveis; nem mesmo se poderiam conceber. E, para nos servirmos duma passagem da Sagrada Escritura, diremos que os pais devem velar pela inocência de seus filhos, como pela menina dos seus olhos.

- É preciso tentar o impossível, para arrancar do mal as crianças que se hajam tornado suas vítimas.

(Catecismo da Educação - Abade René Bethléem)

PS: Grifos meus
PS 2: Em breve: Os meios a empregar para salvaguardar as crianças.