domingo, 10 de janeiro de 2010

Remédios para as tentações contra a pureza



Remédios para as tentações contra a pureza

Os Santos foram tentados e não se queixavam. Resistiam. Se, após algumas escaramuças, vos declarais fatigada, achando a luta dura demais e demasiado longa, é que nunca compreendestes esta palavra tão enérgica do apóstolo: “Na vossa luta contra o pecado ainda não resististes até o sangue!”

Sob a dentada das tentações, sabeis o que faziam os santos? Flagelavam-se, dilaceravam-se com cilícios e pontas de ferro, mergulhavam-se em tanques gelados, rolavam-se nos espinhos ou em carvões ardentes!
Eis aí, consoante a história, a que grau de heroísmo levavam eles a luta contra tentações terríveis. Deus não pede mortificações semelhantes.

Pelo menos podeis reconhecer que o que Ele reclama da vossa fidelidade é bem pouca coisa em face de tais combates. Sucede, ainda, que esse pouco não se deve regateá-lo, e que o perigo aí está sempre para exigi-lo. Se importa não aumentá-lo exagerando-o, também não se deve desconhecê-lo ao ponto de descurar os meios de vencê-lo.

O inimigo aí está; ronda incessantemente para empolgar a presa que ele cobiça. O esforço humano é insuficiente para triunfar dele sozinho, a vitória só de Deus pode vir.

Quais são, pois, nessa luta, os meios a que devereis recorrer e que, como auxílio divino sempre oferecido, assegurarão a derrota do inimigo?

a) Pedir a Deus

Sem o amparo especial da sua graça não se pode conservar a pureza. Esta virtude, mais ainda do que outras, está acima das puras forças humanas. Por isso é preciso pedi-la Àquele em quem tudo podemos quando Ele nos vem fortificar.

Durante a tentação, esquecer-se de rezar é parecer-se com o soldado que vai para o combate sem armas.

Quanto mais tentada vos sentirdes, tanto mais deveis rezar. Se a criança cai, é porque recusa a mão do pai; se o cristão sucumbe, é porque não rezou. Ninguém é jamais vencido senão por sua culpa.

Minha graça te basta”, dizia Deus a São Paulo, e esta palavra Ele a repete a todos os que são tentados. E, no entanto, muitas almas, ao invés de recorrerem instintivamente a essa arma soberana, deixam-na cair por causa da sua perturbação!

b) Vigiar os próprios olhares

Como Jeremias falando das horrendas calamidades da sua nação, a respeito dos males que a vista ocasiona, tem-se repetido muitas vezes que “a morte entrou pelas janelas”. Esta figura é muito expressiva, mas Santo Agostinho nos assinala o mesmo perigo de maneira mais direta. Escreve ele:

Aquele que não guardar os olhos não poderá guardar o coração. O olhar produz o pensamento, que pode provocar o desejo, o consentimento, o hábito, a necessidade e a morte”.

Isto ajuda a compreender a reflexão de um homem que tinha ficado cego:
 “Perdi meus dois maiores inimigos!”.

A beleza atrai antes de emocionar, solicita os olhos. Holofernes foi preso pelos olhos em contemplando a beleza de Judite, David foi perdido por um olhar...Mas para que invocar testemunhos? Interrogai a vossa consciência... Acaso a maior parte das vossas tentações não foram provocadas por um olhar imprudente?

c) Conservar uma grande calma

Quando sentirdes vir o ataque, ficai bem na posse de vós mesma e nada exagereis. Sobretudo, não vos perturbeis! Lembrai-vos, então, de que Deus vos vê e vos protege, de que Ele não permitirá que sejais tentada acima das vossas forças, e, com rápido movimento do coração, recorrei a Ele com confiança, a fim de lhe atrairdes o socorro. Ele é o Deus da paz; então, sobretudo, ficai bem em paz, pensando em que Ele a isto vos convida por este doce incentivo: “Eu estou contigo, sou eu, fica sem receio!”

d) Mudar de ocupação

De lugar se possível, sair, distrair-se, criar uma diversão qualquer, ou então fixar com mais intensidade a atenção na ocupação presente. Será essa uma forma de resistência. E São Tiago disse: “Resisti ao demônio, e vê-lo-eis fugir”.

e) Fugir da ocasião

A única força humana, na circunstância, é ter medo de si. À beira do precipício, recuar é avançar. Escutai São Francisco de Assis: “Eu sei o que deveria fazer, mas não sei o que faria, se estivesse exposto à ocasião!...”
E haveríeis de ir, vós, deliberadamente lá onde sabeis que o perigo vos espera, vos ameaça?

f) Não brinqueis com a tentação

Não se brinca com o fogo. Não podeis ficar indiferente ante o aparecimento da imaginação que acarretaria a idéia maléfica. Ceder um pouco é enfraquecer-se a si mesma, não é enfraquecer a tentação. Mister se faz, pois, sem se perturbar, enxotar o mau pensamento assim que se apresenta.

Se o deixarmos penetrar sem reagirmos suficientemente, aos poucos ele desce ao coração, opera no organismo, causando nele uma moleza deprimente; é, se, mormente por causa de faltas precedentes, ele aí achar terreno propício, pode então ser preciso um rude trabalho para expulsá-lo!

Diz o Pe. Antonino Eymieu:

É mais fácil afastar o primeiro pensamento do que lhe suprimir as conseqüências. É mais fácil não semear a glande do que arrancar o carvalho. A idéia é o desfiladeiro por onde passa tudo o que entra na nossa consciência; é, pois, aí que cumpre estabelecer o controle e, se preciso, oferecer batalha. É o ponto estratégico a ocupar para ficar senhor de si”.

O inimigo pede-vos apenas um segundo de atenção, insinua que tem só uma palavra a vos dizer; mas essa palavra seria a faísca numa fogueira, quiçá numa pólvora. Atenção! E sede intratável para com ele desde o início...

...Vigilância, pois! Que não penetre em vós “a água impura!” há tarefas cuja última marca e cuja influência funesta sobre a vida nunca se podem suprimir, mesmo quando foram apagadas pela misericórdia divina!

g) A humildade

A tentação é uma humilhação. Aceitemo-la de bom grado, ela nos fará bem. A este respeito, eis os graciosos conselhos de Santa Teresa do Menino Jesus:

A cada nova ocasião de combate comporto-me como brava: sabendo que é uma covardia o bater-se em duelo, viro as costas ao meu adversário sem nunca o olhar de frente. Porque procurardes colocar-vos acima da tentação? Passai por baixo, mui simplesmente. É bom para as grandes almas voar acima das nuvens, quando ronca a tempestade; quanto a nós, temos apenas que suportar pacientemente os aguaceiros. Tanto melhor se ficarmos um pouco molhados, enxugar-nos-emos em seguida ao sol do amor”.

Desde que o demônio enganou nossos primeiros pais por estas palavras: “Sereis como deuses”, um orgulho instintivo faz o fundo de toda natureza humana.

Nós crescemos numa adoração inconsciente de nós mesmos, e fazemos fumegar diante do nosso próprio ídolo um incenso que nos cega. Por isso, aos poucos Deus se retira... depois se vinga entregando-nos às enfermidades da nossa própria carne. A impureza é o castigo providencial do orgulho, como, contrariamente, a pureza é a flor natural da humildade. Pode-se, pois, estabelecer uma inegável correlação entre a humildade e a pureza”. (Tissier)

Há uma vaidade tola, um desejo de agradar, uma necessidade de aparecer e de se fazer notar, que podem arrastar a donzela a certas leviandades, e mesmo mais longe...

Menina, sede bem humilde, e permanecereis sempre bem pura. Em compensação, se sentirdes em vós o orgulho, tremei!...

Alguém perguntava ao demônio, que falava pela boca de um possesso, por que era que ele nunca tentava uma alma de virtude exemplar. E ele respondeu: “Ela é orgulhosa demais da sua pureza para que eu lhe perturbe o orgulho!...”

h) A alegria

Oh sim! A alegria, porque um caráter alegre, ou que procura sê-lo por virtude, é mais apto que outro para a luta. Os tristes são e serão sempre uns tristes santos. A tristeza habitual oferece um campo incrível à tentação. Se essa tristeza, qualquer que lhe seja a causa, não for combatida, se for alimentada, se for cultivada, a alma não tem mais impulsos, um nada pode fazê-la soçobrar.

Tende, pois, e alimentai em vós a todo transe essa santa alegria de que falaremos mais adiante. Ela é uma força, um dever; “nascida, um dia, do sorriso de Deus”, ela enflora a vida e facilmente se torna um poder incrível.

i) Conservar a confiança

Apesar de tudo, mesmo se a tentação devesse ser longa e dolorosa! Porque:

- Deus circunscreve o terreno da luta. A vossa liberdade permanecerá sempre inviolável e inviolada. Pode o demônio bater à porta de uma alma, só penetra nela se ela o deixar entrar.

- Deus fiscaliza as operações; como assegura o apóstolo, podeis estar firmemente convencida de que Deus não vos deixará tentar além das vossas forças, e a sua graça corresponderá sempre ao grau da tentação.

- Ele vos protege pelos seus anjos e especialmente pela Rainha dos anjos, e finalmente Ele próprio intervém.

Lembrai-vos sempre de que, atacando-vos, o demônio tem mais em vista Deus. É a obra da Redenção que ele quer destruir atraindo-vos ao pecado. Deus deve, pois, a si mesmo defender-vos.

j) Desprezar a tentação

Um teólogo dá o conselho seguinte:

"Por que não opor mui simplesmente às provocações dessas moscas importunas a indiferença do asco e do desdém? Eis aí um bom remédio: a indiferença, o desprezo. Deixai passar, sem atentar nela, a onda de escuma lodosa que a corrente da vida arrasta.

Nada vale tanto como esta atitude. O demônio é todo orgulho. O seu maior suplício será a humilhação pela qual uma criatura humana o esmagará com seu desprezo. Quando uma gota de água vos salta na roupa ou uma mosca vos vem ao rosto, não tendes essas cóleras, esses desesperos, essas angústias que acompanham às vezes a resistência às tentações. Enxugais a água com um reverso de mão, enxotais tranqüilamente a mosca, e está acabado."

São Francisco de Sales dá o mesmo conselho:

Combater um inimigo é sinal de que se faz caso dos seus ataques e da sua força; mas, quando o desdenhamos, sinal é de que o temos por vencido. Para o diabo, nada o enxota tanto como o desprezo, pois o seu orgulho não pode sofrer ser desprezo, pois o seu orgulho não pode sofrer ser desprezado. Ele persegue os que o temem e foge dos que o desprezam”.

Fazei grande caso deste conselho, que pode ser dos mais úteis quando a tentação for facilmente superável. É esse um meio muito prático, quer de fazer cessar o ataque, quer de não vos expordes a lhe agravar a intensidade. Porque, se a gente se ocupa da tentação e, sobretudo, se com ela se preocupa de maneira excessiva, ela redobra, ao passo que o vigor da resistência se enfraquece.

Aplicai-vos, entretanto, a só empregar esse meio seriamente e com oportunidade. É mister precatar-se de confundi-lo com uma espécie de apatia, de indiferença ou de displicência, que produziriam como que fatalmente uma triste derrota, ou que já poderiam constituir o consentimento culposo, por falta de resistência positiva no caso de perigo sério.

Além disso, cumpre notar que as tentações impuras podem às vezes apresentar um caráter de violência que as formam bem penosas em certas horas, nas quais a alma fica como que afogada num oceano de trevas; ela sente, por assim dizer, a lama subir a tal ponto, que só a extrema ponta da alma sobrenada, podendo dar asilo à vontade que resiste a que não quer ser vencida.

A vossa liberdade diz Mons. Gay, está nesse ponto. Esse cimo tem a saliência requerida para que o doure o sol divino, tem a extensão suficiente para que Jesus ponha nele o pé”.

Nesse caso, a tentação já não é mais a mosca importuna que um gesto pode enxotar, é uma verdadeira tempestade. Só Jesus poderá reconduzir a calma à vossa alma. Caí, pois, de joelhos aos pés desse divino Salvador, orai-lhe com fé, com essa confiança que o toca mais do que tudo, e logo sentireis a pobre barquinha da vossa alma flutuar na calma e na tranqüilidade.

(A formação da Donzela – Pe. José Baeteman)
PS: Grifos meus

Ver também:  A pureza - Beleza desta virtude
                     As tentações contra a pureza

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A alma amante imola-se com Jesus



A alma amante imola-se com Jesus

Mortui sumus cum Christo (Rom., 6,8)
Mortos somos com Cristo.

... O Cristianismo ... é a religião por excelência do sacrifício. Tudo converge para o altar. Todos os benefícios descem da cruz. A Santa Igreja mesma com seus canais de graça, os sacramentos, nasce do Coração transpassado de Jesus.

Todas as cerimônias começam e terminam pela cruz, todas as consagrações, todas as bênçãos se fazem com o sinal da cruz, todas as grandes solenidades, quer religiosas, quer profanas, são marcadas com o sinal da cruz. E quanto mais se penetra nesse pórtico da Igreja, na sua vida íntima, na alma que a move, tanto mais se percebe o sacrifício.

Milhares de mártires fecundam-se com seu sangue em todas as partes do mundo, e esta imolação, que não cessou em nossos dias, abrange todas as idades e todas as condições.

Perseguições intermítentes, lutas internas, cismas, heresias, apostasias, conservam sempre aberta, no seio da Igreja, a chaga que lhe fizeram os tiranos dos primeiros séculos.... Não há ninguém no mundo que possa escapar à dor. O sofrimento, seja físico, ou moral, espreita todas as criaturas sem distinção. Deus quer, na sua justiça e misericórdiosa bondade, que todos, bons e maus, tenham sua parte na medida e proporção prevista por sua infinita sabedoria.

Sobre a cruz, o bom e o mau ladrão sofriam o mesmo suplício. Um representava a humanidade impenitente, descrente e proferindo blasfêmias; o outro, a humanidade reconquistada por Jesus e arrependida de suas faltas.

Mas Jesus quer continuar, de um modo particular nas almas que lhe pertencem, sua vida e sua paixão. Quanto mais a alma O ama, mais Jesus a ama e por sua vez, a atrai, identifica-Se com ela e manifesta nela Sua vida divina. Quanto mais a alma se abandona a Jesus e aceita o cálice do Mestre, tanto mais ela se deliciará com o desejo de sofrer ainda mais e de ser co-redentora.

Enfim, quanto mais veemente é esse desejo, mais também Jesus salva por elas as almas e lhe dá influência sobre a marcha da humanidade e sobre os acontecimentos da história.

O sacrifício, amorosamente aceito em união com Jesus Imolado, é a essência da vida espiritual de cada alma, como é o ponto central da Igreja, como é o resumo da vida de Jesus.

Se assim é, minha alma, podes recusar amar a cruz e entregar-te a Jesus?

Um dia, Santa Lutgarda pedia a Jesus que a deixasse morrer, para que ela pudesse unir-se-Lhe depressa no Céu. Apareceu-lhe, porém, Jesus coberto de chagas e sangue e disse-lhe: Lutgarda, ajuda-me, pois a salvar os pecadores.

Nós temos a eternidade para gozar de Deus, mas não temos senão alguns anos para sofrer e imolar-nos.

Não te assustes diante dessa perspectiva de uma vida de imolação. Ser vítima com Jesus não é positivamente estar sujeito a grandes tribulações ou suportar angústias extraordinárias. Não! é estar sempre pronto a aceitar, de Sua mão, o doce e o amargo, as coisas agradáveis como as penosas, a saúde como as moléstias, a consolação como as dores interiores.

Ser vítima, é prestar-se por amor a todas as exigências de Jesus: a colher, de antemão, não importa que gênero de sofrimentos, que espécie de tribulação interior ou vexames exteriores, que doença ou gênero de morte, e nem o momento.

Ser vítima, enfim, é imolar-se todos os dias, em mil circunstâncias, acontecimentos, contratempos, diversidades de temperamento ou de caracteres, diferenças de vistas ou de opiniões. É estar sempre contente com tudo, sempre meigo e paciente, sempre sorridente, por amor da Grande Vítima, que, enquanto A maltratavam, enquanto A imolavam, nem sequer abriu os lábios.

Toda alma amante pode e deve ser assim vítima de amor, prolongamento de Jesus e co-redentora.

Ó alma vítima! tua vida na sua simplicidade é sublime. Passaste inteiramente ao serviço de Jesus. Sem sofrer mais do que outros, és contantemente imolada pelo amor. Sem interrupção, celebras com o Sacerdote Eterno o Sacrifício do Calvário. Tua vida é uma Missa contínua e tua morte será o último golpe que imolará a vítima.

Então virá o triunfo. De teu túmulo brotará para milhares de pecadores a vida, a ressurreição, e tu mesma, purificada em teu próprio sacrifício, irás aumentar o número desses bem-aventurados que São João viu no Céu, revestidos de vestes brancas e trazendo palmas nas mãos (Apoc., 7,9)

(Excertos do livro: O Divino Amigo - Pe. Schrijvers)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Poesia de Santa Teresa de Jesus



(Para una profesion)

Todos los que militáis
Debajo desta bandera,
Ya no durmáis, ya no durmáis,
Pues que no hay paz en la tierra.


Si como capitán fuerte
Quiso nuestro Dios morir,
Comencémosle a seguir
Pues que le dimos la muerte,
Oh qué venturosa suerte
Se le siguió desta guerra;
Ya no durmáis, ya no durmáis,
Pues Dios falta de la tierra.


Con grande contentamiento
Se ofrece a morir en cruz,
Por darnos a todos luz
Con su grande sufrimiento.
¡Oh, glorioso vencimiento!
¡Oh, dichosa aquestra guerra!
Ya no durmáis, ya no durmáis,
Pues Dios falta de la tierra.


No haya ningún cobarde,
Aventuremos la vida,
Pues no hay quien mejor la guarde
Que el que la da por perdida.
Pues Jesús es nuestra guía,
Y el premio de aquesta guerra;
Ya no durmáis, ya no durmáis,
Porque no hay paz en la tierra.


Ofrezcámonos de veras
A morir por Cristo todas
Y en las celestiales bodas,
Estaremos placenteras;
Sigamos estas banderas,
Pues Cristo va en delatera,
No hay que temer, no durmáis,
Pues que no hay paz en la tierra.

(Retirada das Obras Completas de Sta.Teresa de Jesus)
PS: Ver também: O diálogo das carmelitas (vídeo)

A nobreza da alma



A nobreza da alma

Esta nobreza não passará, talvez de uma qualidade meramente humana, nada tendo de virtude, porquanto entre um dom natural e uma virtude sobrenatural, não há somente uma diferença de nível, mas distinçao essencial.

Todavia esta nobreza, será para a alma uma preparação (remota ou negativa) á virtude. Ela nos impedirá de ir dar nos parceis do descaramento.

De que modo?

O que é plebeu está exposto a seguir a chateza, seja qual for, por exemplo: a do vício. Nós não fomos criados como comportas estanques... Estudastes as leis da transmissão dos sons e vibrações moleculares. Dá-se o mesmo com o coração humano: o menor ruído tende propagar-se e os movimentos ondulatórios alcançam, pouco a pouco, todo o conjunto.

Destarte a vulgaridade, necessariamente, tende difundir-se. E vice-versa, também a nobreza é difusiva, e todo aquele que a conserva, será levado a cultivá-la, sob todas as formas, inclusive a da virtude.

... Assim o jovem, habituado a olhar para as coisas nobres e elevadas, será menos tentado a baixá-los para as torpezas do vício. Poderá enganar-se, mas serão seus passos dados, em falso, pelas elevações ou por largas estradas, nunca, porém, serão quedas nos pantanos do pecado.

Acostumou-se a esta vida de grandes e ao proceder cavalheiroso.
Tomou a divisa de Santo Inácio: "Insignis", sê insigne!

Numa palavra, compreendeu que a vida, sem a virtude, é falha, mutilada, maneta, que o homem não é, está claro, um puro espírito mas que tem afinal um espírito nobre e não é uma simples coleção de vísceras reunidas numa caixa toráxica, ou num abdomem cheio!

Nada tanto se opõe ao ideal como a impureza.
O ideal é a tendência para o alto.
O vício é a tendência para o baixo, é sempre rasteiro.
O primeiro é o cume.
O segundo, o atoleiro.

"A vida está em subir e não em descer".

O vício, já o definimos tantas vezes, primeiro é uma grande chateza, depois grande laxidão. E nada mais é.
O ideal se extingue com a impudicícia, tal qual um facho atirado á lama. Há duas espécies de chamas que correspondem a duas espécies de jovens: os puros... e os outros!

A chama dos segundos é a chama baixa e fumegante das concupiscências; só se alimenta de matérias pútridas. A chama dos primeiros é brilhante e elevada, tão alta que se ateia até as estrelas.

Somente o puro é entusiasta, e a virgindade secunda, admiravelmente, os impulsos do belo e do bem.

... Procura ter um coração magnânimo e elevado e não um pobre e mesquinho coração, todo encarquilhado pelo egoísmo e pela vulgaridade. Torna-te, no melhor sentido da expressão, uma "alma-princesa". Não queiras avilanar-te com o vulgacho, já que podes viver com a aristocracia dos sentimentos generosos e da virtude.

São Paulo disse nobremente:

"Procurai as coisas do alto; amai as coisas do alto e não as coisas da terra".
(Cor 3,2).

Sê nobre: nobre nos teus gostos, nas tuas leituras, nas tuas fadigas intelectuais, nos teus misteres de arte, na escolha dos teus amigos, e digo mais, até no teu falar, no trajar, nos ornatos do quarto, pois o homem depende muito do ambiente em que vive.

Tu estás na idade em que é forçoso tomar partido e concretizar o teu modo de vida. Alguns concretizam-na em coisas vis. Tu deves orientá-la para o que é belo e nobre, para o Nobre soberano, que é Deus.

Não receies ter um ideal demasiado elevado.
Meu Deus! e tal há de ser necessariamente para que possa elevar-se esta pesada matéria humana!

Não vás também cuidar que o ideal seja uma palavra vã, uma bela fantasia de poeta, que esquece o mundo real para voar pelas regiões etéreas, de modo que, em vez de pés, se sirva de asas.

Atento: o ideal é mais verdadeiro do que a realidade, pois é a realidade desembaraçada de tudo o que a avilta. É o ser sem as deficiências do ser, o ser inteiramente belo, porque é todo completo.

O Pe. Antonino Eymieu explica admiravelmente este aparente paradoxo:

"O ideal é essencialmente verdadeiro. Não apresenta contradição alguma: tomastes todos os seus elementos de realidade, combinastê-los, respeitando todas as relações essenciais, todas as leis, suprimindo tudo quanto poderia alterá-los e dando-lhes o que poderia engrandecê-los. e quando vos encontrares ante um ser, de carne e osso, que se aproxima desse ideal, embora não possa igualá-lo, exclamais: 'Eis um homem! aquele, sim, é verdadeiramente um homem'!

Os outros também , os que realizam uma idéia específica, são homens, mas tendes razão ao dizerdes que, aquele que se aproxima do ideal, é um homem mais verdadeiro. Assim é que há: um ideal do jovem, da donzela, do pai de família, da mãe, do magistrado, do político, do general, etc.; e mais o seres concretos se aproximam desse ideal, mais são verdadeiros magistrados, verdadeiros pais, etc., pela simplícissima razão que, a verdade de um ser está na sua mais perfeita conformidade com o seu modelo.

O ideal não é simplesmente a verdade, mas é a verdade na sua plenitude, a verdade-limite para o qual tende um ser, em seu completo desenvolvimento".

(A Grande Guerra - Pe. Hoornaert)
PS: Grifos meus

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

As tentações contra a pureza



As tentações contra a pureza

Se esta virtude é bela, é também particularmente atacada. O mundo e o demônio se aliam, mobilizando contra ela todas as suas potências e todas as suas seduções.

... Vós jovem cristã, agarrai-vos à Cruz de Jesus e, quando vier a tentação, haurireis na Cruz a força para resistir e a coragem para a vencer. Porque tereis de lutar! a tentação ai está que vos espreita e vos espera. Sobre esse assunto tão delicado, universalmente prático e ao mesmo tempo tão grave, precisais de idéias bem claras.

Nessas horas críticas produz-se, geralmente, um emaranhado de pensamentos, de desejos, de lutas, de êxitos, de desfalecimentos, em que os sentidos, a imaginação, o coração, a vontade intervêm alternativamente; nesse labirinto aparentemente inextricável de atividades interiores convergentes ou opostas, muitos não sabem como se orientar, como se julgar, como conservar ou retomar a serenidade interior.

Em lendo estas linhas, e mais tarde quando a tentação vier agitar-vos, pairai pois acima desse campo de batalha íntimo; vereis melhor o papel que nele desempenha a vontade, e o que deve ser posto à conta da consciência nesses múltiplos assaltos.

a) Não vos admireis das tentações.

Raras são as almas que escapam a essa humilhante tortura; é como que uma inexóral necessidade. Coisa curiosa; temos vergonha de confessar essas misérias; imaginamos que os outros nunca tiveram de sentir essas dentadas dolorosas, e que basta sermos assaltado por uma tentação para ficarmos manchado!

... Escutai São Paulo:
"Infeliz homem que sou, quem me livrará deste corpo de morte? Com medo de que a grandeza das minhas revelações não me ensoberbecesse, foi-me dado o estímulo da carne, o anjo de Satã esbofeteou-me!"

E Santo Agostinho:
"Ó volúpia infernal, de ti vêm quase todos os males que enchem o mundo!"
Falando das lutas que teve de sustentar no momento da sua conversão, diz ainda ele:
"Minhas velhas paixões comprimiram-se em volta de mim, pegavam-me pela minha veste de carne, e procuravam arrastar-me ao mal!..."

Ah! Quem é então que não tem a sua veste de carne, esse manto de chumbo, essa túnica de fogo?

E São Jerônimo, que se condenara a viver nos desertos, é aí perseguido pelas imagens voluptuosas da cidade de Roma; vê-as protejar-se nas paredes da gruta onde, no ardor da luta, ele se mortificava batendo no peito com uma pedra!

Como então vos admirardes de que a tentação vos aflija também? Não! as pobres misérias ambulantes deste mundo farão bem em evitar esta loucura de um amor-próprio ferido.

b) Não vos pertubeis nas tentações.

Ficai calma! Quando o demônio pode lançar a perturbação num coração, aproveita-se disso para rebodrar seus assaltos. Mons. de Ségur escrevia a uma alma atormentada:

"Despreza essas imaginações más que tomas falsamente por pensamentos culpados; o pecado dos maus pensamentos não consiste em ter na mente o pensamento do mal, mas em se representar voluntariamente ações más como as fazendo e tomando nelas um prazer voluntário. Todas essas faíscas que o demônio te espalha diante dos olhos são simples fogos fátuos com que não te deves incomodar."

E, depois, que é que prova a sanha do demônio senão que o vosso adversário ainda não ganhou nada?
Não se assedia uma cidade tomada! não se ataca um inimigo que se rende! toda derrota põe fim à luta, e a paz, uma triste paz, é adquirida pelos vencidos!

Demais, não esqueçais que não só a vós que o demônio ataca; é é o próprio Jesus Cristo que ele persegue em vós! Tal como sois, só desprezo podeis inspirar a esse gênio infernal; não se vê porque razão lhe podereis inspirar ódio!

Sim, é a Deus que ele ataca em vós! Deus Padre, de quem sois a imagem e filha; Jesus, que é e se diz vosso irmão; o Espírito Santo, de quem sois o templo! Eis o que lhe provoca a inveja, a cólera e o ódio. Assim sendo, acreditais que Deus possa desinteressar-se de uma causa que se tornou a sua? Pode Ele ficar impassível, indiferente a uma luta que sustentais por Ele?

Ah! se este pensamento vos estivesse bem presente na hora da tentação, nunca seríeis vencida nem ficariéis perturbada! "Há muito mais gente conosco do que com eles", dizia Eliseu ao seu servo espantado de ver um exército inteiro em perseguição do seu amo. E o discípulo do profeta viu então, a montanha coberta de cavaleiros celestes e de carros de fogo.

Durante a tentação, o céu inteiro está convosco, invisível mas real! Que força então! porque,
"Se Deus está conosco, quem estará contra nós?".

c) Não vos queixeis nas tentações.

A calmaria podre deixa brotrar virtudes franzinhas, magras, delicadas, que a menor borrasca carrega. Os grandes choques e as grandes lutas robustecem a alma e forjam o caráter. As almas que não têm às vezes sobressaltos não são, comumente, grandes almas. Na Escritura há sobre isto palavras bem consoladoras:
"O Senhor vos tenta para saber se o amais de todo o coração!"
 (Deut. 13,3).
 E estoutra:
"Porque eras agradável a Deus, necessário se fazia que a tentação viesse experimentar-te!"
(Tob 12,13).

Depois disso, como nos queixarmos? Aliás, se o demônio se encarniça contra vós, é bom sinal, não se ataca um morto!

d) Muitas vezes a tentação é um grande bem.

- Torna-voa aguerrida;
- Dá-vos ensejo de provar a Deus o vosso amor;
- Leva-vos a fazer sacrifícios;
- Torna-vos, enfim, mais humildes e fortalece-vos na virtude.

É como um pé de vento que fez cair os galhos mortos e arraiga ainda mais a árvore vigorosa. Demais, toda resistência é um ato de vontade, de fé, de esperança e de amor.

e) Sentir não é consentir.

Diz São Francisco de Sales:

"É preciso ter grande coragem nas tentações, e não se julgar vencido enquanto elas desagradarem; porque sentir não é consentir, e pode a gente senti-las embora elas desagradem."

f) Nosso coração é como um espelho, diz São Francisco de Sales.

O vidro do espelho representa ingenuamente a coisa que a ele está oposta, mas essa coisa não está no espelho. O mesmo se dá com o nosso coração. É um espelho onde o diabo pode representar tudo o que há de mais infame, mas só a nossa vontade é que pode abrir a porta e bele fazer entrar essas execrações. Faça, pois, o diabo tantas caretas quanto quiser, forme diante de vosso coração as imagens mais horrendas , tudo isso não vos torna culpado.

g) Mas a minha tentação durou muito tempo, direi vós!

Que importa! devesse ela durar a nossa vida toda, nem por isso seria um pecado. Há santos que foram tentados até à morte sem trégüa e sem repouso.

h) Receio ter consentido.

"O consentimento, diz São Francisco de Sales, presume uma aquiescência da alma tão plena e uma determinação tão absoluta, que eu não quisera pôr o pecado capital senão numa aceitação da vontade que não deixa após si dúvida alguma. Enquanto a tentação vos desagradar, nada há a temer; porquanto, porque é que ela vos desagrada, senão porque não a quereis?"

i) Quando é que há pecado mortal?

Quanto a saber e a decidir por vós mesma, na dúvida, se pecastes gravemente ou não, isso às vezes pode-vos ser impossível, e a investigação inquieta a este respeito nunca é oportuna.

Para uma alma que não é escrupulosa, uma dúvida verdadeira supõe ter havido uma negligência bastante notável, de que é preciso pedir perdão a Deus, sem repisar mais nisso. Para uma alma habitualmente piedosa, a dúvida exclui o consentimento formal e deliberado, e portanto também o pecado mortal; porquanto, nessa alma, o consentimento que produzisse o pecado mortal não passaria despercebido.

"Em muitos casos, diz Santo Agostinho, é dificílimo, e mesmo perigoso, procurar esse discernimento."

São Tomás e Santo Afonso Maria de Ligório usam da mesma linguagem.
Aí ainda, escutemos São Francisco de Sales:

"Quando não sabemos discernir se somos culpados, devemos-nos humilhar, pedir mais luz para outra vez, e esquecer inteiramente o que se passou; porque uma curiosa e solícita investigação vem do amor-próprio. Demais, à força de querermos investigar se, como e até onde havemos consentido, tornamos a tentação ainda mais perigosa, alimentando-a quando não mais deveríamos pensar nela."

(Formação da Donzela - Pe. José Baeteman)

PS: Grifos meus
PS2: Continua com o post: Remédios para as tentações

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Vida reta e não belas palavras



Vida reta e não belas palavras

Alexandre Magno tinha um soldado covarde que, por acaso, também se chamava Alexandre. O imperador o chamou e lhe disse: "Amigo, ou mudas de conduta ou mudas de nome". O mesmo se poderia dizer de muitos jovens que se dizem cristãos, mas que, por suas vidas, conduta e leviandade, envergonham o nome de "cristão".

Que vale uma fé a que não corresponde uma vida condigna? Terá valor gabar-se alguém do seu cristianismo, se seu modo de pensar, suas palavras, atos, sua vida enfim, desmentem a religião cristã?

Belas palavras, mas vida indigna! De que valem então as belas frases? Neste particular tem a sociedade muito a pesar-lhe na consciência.

... Muitos jovens, infelizmente, não chegam a tanto (vida reta por conhecer a religião). Por isso há tão grande número deles com fraca vontade e fé escassa; esqueceram de tirar, do estudo da religião, desprendimentos, vida de sacrifício, vida religiosa.

Além disso, o nome "cristão" está ligado a sérias obrigações. Obriga-nos a uma vida sobrenatural, a que a alma aspire a coisas mais elevadas. "Sede santos, pois eu sou santo!" (Lev. 11,44) ordena o Senhor. "Sede perfeitos, como vosso Pai no céu é perfeito" (Mat. 5,48), diz o Salvador.

Atenção, meu filho, não comprometas o cristianismo! Não envergonhes a Jesus Cristo; não desonre tua alma! Muita gente é hoje de tal modo absorvida pelos cuidados cotidianos que não tem tempo para mais nada. Também para sua alma falta o tempo. Pobre alma que é como um inseto preso ao visgo; assim ela está presa aos interesses terrenos, ao dinheiro, ao passo que Deus quisera tivesse ela o vôo altaneiro duma águia!

Que escolhes?

A serviço de quem queres colocar tua força juvenil e animosa?
... De um lado está todo o mundo, o material, os homens sem Deus, mirando fins que a Igreja deve condenar, ou que querem gozar tudo o que uma super-civilização lhes oferece. Aí estão os homens do industrialismo insaciável, que operam com as forças brutais da economia, como se os atingidos por elas não fossem homens.

Há porém igualmente, uma multidão de instintos vandálicos, que se inebria com frases demagógicas, pois quer inverter toda a ordem do universo. No outro campo se reunem...os defensores do trabalho espiritual... o símbolo da Cruz.

Lá, contra Deus; aqui com Deus.
A que partido te filias?
Que pergunta!Não é?

"Com Deus! Com a Cruz! Com o catolicismo!"

Hoje, infelizmente, há muitos "batizados" apenas, mas pouco cristãmente católicos, isto é, que não levam vida realmente religiosa.

... Meu ideal é um jovem que, no caminho da vida, olha sempre as estrelas, sem contudo cair no valado; um jovem que sabe que toda cultura exige primeiro a cultura da alma. Meu ideal é o adulto em cuja vida a religião não é apenas um sentimento de domingo um acontecimento espiritual, um quadro sem moldura, um termo de festa, e sim a mais profunda potência que sustenta toda a sua vida, a embebe e a norteia.

Não é verdade, meu filho, quando fores adulto, também serás um homem que ama sua religião, observa seus mandamentos e é um católico consciente?

E se topasses com a incompreensão ao redor de ti?
E se, em teu círculo, não encontrasses um único exemplo de religião que te transmitisse tua convicção religiosa?

Ainda assim!
Sozinho? Não! Deus e eu, isso representa o maior poder. E se minha religião for atacada, defende-la-ei tanto mais animosamente!

Senhor, quero ser a cítara, que haveis de tanger!
Senhor, quero ser o fogo, e Vosso amor  arderá em mim!
Senhor, quero ser o vaso de cristal, que Vossa graça replene!
Senhor, quero ser o espelho, que retrate a Vossa beleza!
Senhor, quero ser o roble, sustentado pelo Vosso vigor!
Senhor, quero ser o oceano, cheio de Vossa imensidade!

Quando um sorriso de alegria expandir meu rosto, meus lábios exultantes falarão de Vós; se a dor inundar de lágrimas os meus olhos, cada gota há de cair em vossas mãos!

Permiti, Senhor, que eu seja sempre e em tudo um Vosso filho puro, obediente e feliz!
Dai, Senhor, que eu aprenda, viva e pratique a verdadeira Religião em minha juventude!

(A Religião e a Juventude - Mons.Tihamér Tóth)
PS: Grifos meus

A Pureza - Beleza desta virtude



A Pureza

Beleza desta virtude

A) "Bem-aventurados os corações puros!"

A gente se sente imediatamente empolgado por esta palavra. Só um Deus podia usar semelhante linguagem. Ouvindo estas palavras divinas, a alma delicada sente em si a necessidade de realizar essa bem-aventurança. Ver a Deus! sim, ver a Deus de algum modo, mesmo desde este mundo! e é essa a recompensa prometida aos que são puros!

"Bem-aventurados os corações puros, porque verão a Deus." Como dizer a beleza dessa virtude celestial, semelhante ao lírio branco, embalsama os que a possuem e espalha em volta deles  um perfume indefinível.

Ela é bela! porque dá à fisionomia um não sei quê que cativa, que atrai, que subjuga, que faz nascer uma simpatia respeitosa.
É bela! O Próprio Deus sente-lhe o encanto. Ele chama a alma pura sua "Amiga": "Sois toda bela, ó minha bem-amada, e em vós não há mancha!" Chama-a "sua esposa": "Vem, minha Esposa, vem, serás coroada!"

É bela! Jesus quis achá-la na terra. Aparecendo na terra, enveredou por uma trilha de humilhação e de opróbrios; mas, do começo ao fim, arrogou-se, como uma compensação, a pureza que sempre o cercou.

Assim, para se encarnar, Ele prepara para si um tabernáculo; Maria lá está! Ele não a deixa antes da idade de trinta anos ... e ainda assim será só para encontrar outra alma pura: São João! E essas duas almas virgens segui-Lo-ão até ao pé da Cruz. Quando Ele quiser morrer, quando tudo Lhe faltar, até mesmo a consolação de se sentir objeto das complacências de seu Pai, nos seus derradeiros instantes, a pureza estará e ficará perto Dele!

É bela! É a virtude trazida por Jesus! Só Ele podia fazê-la florescer nos lodos humanos. Semeou-a na terra e, depois, legiões de virgens vieram embalsamar o nosso exilio.

É bela! No Céu tem ela um lugar à parte. As almas virgens, diz o Apocalipse, "seguem o Cordeiro aonde quer que Ele vá!" E São João contempla a legião delas triunfante, cantando um cântico novo que ninguém mais pode aprender.

É bela! A própria impiedade não pode deixar de aplaudi-la. Quantos remorsos, quantas tristezas a vida da pureza não lança no coração das vítimas do prazer! E, enquanto o mundo repele com desprezo aquelas a quem polui, olha com olhos de inveja as nobres almas que atravessam a lama sem se macularem.

B) É a virtude mais bem recompensada! E isso não somente no céu, mas já na terra.

Ela dá ao semblante uma modéstia serena que tem qualquer coisa de angélico.
Dá ao olhar uma limpidez encantadora.
Dá a fisionomia um esplender que irradia, põe o mais belo brilho numa fronte jovem; supre assim os esquecimentos da natureza, e reveste a pessoa de uma beleza especial que faz pensar no céu.
Dá ao coração uma ternura, uma chama sagrada que só ela pode alimentar. Que dedicação, que sensibilidade num coração puro!
Dá à vontade um poder notável pela luta contínua que exige. Quando conseguimos vencer-nos a nós mesmo, são fáceis as outras vitórias.
Dá à vontade um poder tanto maior quanto, vivendo numa luta contínua, ela haure aí uma energia viril só conhecida dos que souberam vencr-se a si mesmos.
Dá à inteligência esses remígios, esses olhares de águia que confundem. "Bem-aventurados os corações puros, porque verão a Deus."
Dá ao próprio corpo, cujas energias conserva, esse vigor especial cuja causa Ricardo Coração de leão assim explicava aos Sarreacenos admirados: "Sou forte porque sou puro."

Enfim, dá a liberdade e a alegria.

A liberdade, porque um coração mordido pelo vício carrega grilhões; esses grilhões podem ser floridos, mas nem por isso deixam de fazer um escravo.
A alegria também, porque, quando se cede à paixão má, acaba-se por ficar triste, tremer e desanimar.

A pureza, que não se adquire senão por uma série de lutas vitoriosas, dilata o coração e dá-lhe um alegre surto. O vício quebra as asas; a virtude fá-las abrir-se, trazendo arrojo e confiança.

Conservai, pois, filha, a todo custo, apesar de tudo, apesar das lutas e quiçá das agonias do coração, essa virtude tão preciosa, esse "encanto desconhecido de que ninguém se defende".

Na Idade Média dizia-se: "Deus só fez duas coisas perfeitas neste mundo: a rosa quando é fresca, e a donzela quando é pura!"

Não percais esse encanto único, ele não se torna a achar mais! Se o corpo se torna o senhor, ainda que só um instante, é a subversão da ordem moral. A todo custo evitai situar-vos entre os seres descoroados!

C) É uma virtude angélica.

Com esta diferença, entretanto, que aquilo que os anjos são por natureza, a alma pura o é por virtude. Os anjos não têm lutas a sustentar, ao passo que vós vos conservais pura com  a condição de serdes vitoriosa no combate.

D) É um triunfo.

Triunfo da Fé; porquanto a luta nas obscuridades da terra só é sustentada pela esperança das recompensas futuras. Triunfo do amor. Do amor de Deus primeiro, do qual as almas puras são as "jóias"; do amor humano também, pois só os corações puros sabem amar. O amor repousa-lhes no fundo da alma como uma gota de orvalho do cálice de uma flor; a alma tem o brilho, o perfume e a preciosa virtude dessa gota de orvalho.

(A formação da Donzela - Pe. José Baeteman)

PS: Continua...com o post : As tentações contra a pureza.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Donzela cristã e a obediência


“E foi com eles (os pais) para Nazaré e era-lhes submisso” (Lucas 2,51).

Não podem desenvolver-se boas qualidades morais uma moça, que perde seu tempo com vaidades fúteis multiplicando consultas ao espelho. Há, todavia um espelho, no qual as moças deveriam contemplar-se sem perigo de descambar em devaneios fúteis, antes, encontrando na imagem refletida o ideal da virtude.

É o sublime espelho de virtudes do Divino Salvador, de quem está escrito:

“E foi com eles (os pais) para Nazaré e era-lhes submisso” (Lucas 2,51).

Eis aqui um bom espelho, um elevado modelo para ti. Ensina-te a obediência. Se isto aprenderes profundamente, grande vantagem terás logrado para a tua vida futura; poder-se-á dizer que ficarás livre de noventa por cento das penas e aflições a que estão sujeitas as filhas de Eva.

1º A obediência tem uma grande significação

Significação universal e geral: Não pode o universo físico perdurar sem a obediência: estabelecer-se-ia uma confusão brutal e devastação monstruosa; não desapareceria a harmonia maravilhosa se os astros não observassem as leis e não seguissem com precisão órbita que lhes traçou o Criador?

Não pode o mundo doméstico subsistir sem a obediência. De fato, que será de uma família, se a mulher não obedece ao marido, se os filhos não obedecem aos pais, se os criados não obedecem aos patrões?! Isto causará, sem dúvida, um desajuste, uma completa desorganização da família.

O mundo político e social tampouco pode subsistir sem a obediência. No dia em que os cidadãos recusarem obediência aos seus superiores e os funcionários aos seus chefes, estalará a revolução e tudo entrará em confusão e desordem.

... Disto decorre que toda salvação e prosperidade da ordem física, moral, social e religiosa repousam sobre a obediência; sem esta não pode subsistir nenhuma sociedade. Mas a obediência tem também, e, sobretudo, grande significação para ti mesma, jovem cristã. Ela te proporciona primeiro a exata compreensão da vida e dos deveres.

De ordinário, que sabe a jovem a respeito da vida e das suas obrigações? Que sabe das emboscadas do mundo perverso, dos perigos que lhe ameaçam a inocência? Que sabe das enganadoras falsidades dos elogios e da ignomínia do vício?

Transcorre, por assim dizer, de olhos fechados, os anos da sua mocidade e dificilmente percebe as pedras que lhe embaraçam o caminho, e os profundos abismos que se alongam à margem. Mister se faz ter um guia sábio que ela transponha, com felicidade, os perigos!

Não será a obediência e a confiança nos pais e superiores que lhe facilitará a verdadeira compreensão e a protegerá eficazmente contra os numerosos perigos?

A obediência, além disso, educa e robustece a tua vontade.

A hera é uma planta delicada; incapaz de manter-se ereta; se lhe falta apoio, cairá por terra. Quando se arrima, porém, ao vigoroso carvalho, participa da agigantada força deste e com ele desafia as mais violentas tempestades.

Dá-se também o mesmo com a jovem, cuja vontade é ainda fraca e inexperiente. Quando pretende apoiar-se em si mesma, então se quebrará como frágil caniço; mas, se ela se arrima sobre a obediência aos pais ou aos superiores participará da robusta vontade da força que eles adquiriram no combate da vida.

Os pais ou superiores serão para ela como o médico fortalecendo-lhe a fraqueza por meio de um medicamento eficiente, e que, lançarão mão de todos os meios para despertar-lhe as forças adormecidas, como a águia perita que instrui os filhotes para vôos arrojados. Assim, pouco a pouco se robustece à vontade no bem e torna-se apta para resistir à atração do pecado e à tempestade das paixões.

A obediência te ajudará a quebrar o capricho.

O inimigo que com maior obstinação arma ciladas ao homem, que mais o excita ao pecado e lhe enche o coração de descontentamento e desgostos, é o capricho. Ora, a obediência combate-o do modo mais eficiente. Persegue-o por toda parte, não lhe dá tréguas, enquanto não consegue subjugá-lo.
Diz Hamon, com acerto:

“A obediência corrige muito bem o desregramento do capricho. Este é falso e enganador; tudo considera sob o prisma da paixão e do interesse, que ofuscam a visão. É inconstante e leviano: o que hoje deseja, amanhã desprezará; é irresoluto e indeciso: não sabe que posição tomar; é extravagante, age sem motivo razoável e sensato; é obstinado, não quer ceder; a cada contradição mais teimoso se torna; é imperioso e arrogante e não quer concordar com ninguém, mas dominar a todos; é rude e precipitado, torna-se impaciente, queixa-se e se enfurece, quando se lhe não satisfaz imediatamente a vontade”.

Ora, a obediência remedia todas estas faltas. Ao alucinado ela fornece o verdadeiro conhecimento; firmeza, ao indeciso; determinação ao irresoluto; abate o arrogante; acalma o violento; faz retroceder o perverso ou leva-o a melhor caminho.

O obediente lança por terra o inimigo capital, o porta-bandeira e triunfa em toda a linha.
“O homem obediente cantará vitórias”. (Prov., 21,28).

A obediência é uma fonte de alegrias e felicidade.


Se fores obediente, saberás pôr-te de acordo com Deus e teus superiores...em qualquer hipótese, portanto, poderás ficar tranqüila e satisfeita, e esta alegre disposição contribuirá, de modo favorável, para o teu trabalho e adiantamento.

2º Como deverá ser a obediência, para atingir a perfeição?

Há de ser, antes de tudo, sobrenatural; deves como Cristo, exercitar a tua obediência por um movimento sobrenatural; obedecerás por amor de Deus. Cumpre que não obedeças com o fim de granjear a benevolência dos teus superiores, ou por te proporcionar outras vantagens; mas simplesmente para satisfazer a vontade de Deus: é por amor de Deus que deverás ser obediente.

Esta obediência sobrenatural é de grande valia aos olhos de Deus, e alcança-te grande benemerência. Se a possuíres, não te deixarás jamais induzir a executar uma ordem que se oponha os mandamentos de Deus. Obrarás, então, sempre de acordo com aquela palavra:

“É preciso antes obedecer a Deus que aos homens”. (Atos 5,29)

Em segundo lugar, há de ser alegre e pronta.

A alegria aumenta o mérito da obediência, torna-a mais suave e mais agradável a Deus e aos homens. A isto se aplica também as palavras do grande Apóstolo: “Deus ama a quem dá com alegria”. (II Cor., 9,7)

Um presente, que nos fazem de má vontade e com rabugem, causa-nos pouco prazer. Assim também, não agrada um ato de obediência, que se pratica de má catadura.

Obedece, pois, sempre de coração e com prazer; não sejas como a criança mal habituada, que só atende à vontade e a ordem dos pais quando estes lhe acenam com uma remuneração, um prazer ou algum presente. Já não é isto obediência, e sim desprezível satisfação do tresloucado amor próprio.

A obediência servil opõe-se ao espírito cristão. Obedece sempre com ânimo alegre e sereno, de modo que se possa reconhecer que, não constrangida, antes por amor de Deus, presta obediência.
Nem tampouco obedeças de mau humor, como um escravo; que só por violência e temor do castigo, executa, externamente, a ordem do senhor, mas no seu íntimo murmura e enfada-se, e, percebendo que não é vigiado, tudo despreza e faz apenas o que bem lhe apraz.

Obedece, também, com singeleza e pontualidade, ainda quando longe das vistas de teus pais e superiores: não sejas bajuladora.

Se for alegre tua obediência, será conseqüentemente pronta. Sim, obedece à primeira palavra, até ao mais leve aceno. Quando te ordenarem alguma coisa, reflete: é vontade de Deus que eu obedeça, é como se Deus me chamasse; mas, quando Deus chama, não se deve contemporizar.

Tua obediência há de ser, em terceiro lugar, geral.

Presta obediência em todas as coisas que não sejam pecaminosas, mesmo naquelas que não se adaptam ao teu temperamento, ou que te parecem difíceis e árduas. Já jovens que obedecem pontualmente, quando lhe ordenam algo de que gostam, porque sentem por aquilo certa predileção; mostram-s, porém contrariadas e só obedecem murmurando, ou desobedecem, quando se lhes ordena o eu lhes não convém, ou não condiz com o seu temperamento.

Cumprir alegremente ordens agradáveis não é coisa extraordinária, não denota grande virtude: até o pagão pode fazê-lo. Pelo contrário, nos encargos e ordens desagradáveis, combater com valor a repugnância interna e obedecer com diligência é coisa perfeita, sinal de verdadeira virtude.

Seja, enfim, tua obediência constante e duradoura.

Há jovens que obedecem conforme o seu capricho. Quando alegres e bem dispostas, não opõem a menor dificuldade em matéria de obediência; se, porém, no seu interior não reinar bom tempo, se estiverem agastadas e melancólicas, não permitem uma só palavra contra o seu capricho; fazem, pelo contrário o que bem entendem.

Outras há que, até aos quinze ou dezesseis anos, ainda aceitam alguma observação, mas, depois querem ter plena autonomia. E, no entanto, é justamente nestes anos que começa aquela quadra da vida em que a direção se lhes torna, sobremodo, salutar e necessária; fase, em que abandonadas a si mesmas, poderão cometer os mais graves deslizes e ser vítimas funestos enganos.

O barquinho da vida de muitas jovens precisamente nesta fase é destroçado, por desgraça, em ásperos rochedos. Por isso, no tempo da tua mocidade, enquanto estiveres sob o domínio de teus pais ou de outros superiores, mostra-te sempre obediente e aceita de bom grado os conselhos que te derem.

Nesta fase da vida uma boa orientação te seria benéfica. Ofereceu-te o Divino Salvador um magnífico exemplo. Foi obediente não até aos quinze ou dezesseis anos, mas durante a sua mocidade toda, até o começo do seu ministério público. A todos estes anos se aplica o texto de são Lucas:

“Foi com eles a Nazaré, e era-lhes submisso”. (Lc., 2,51)

Segue este modelo divino e atrairás sobre ti a prosperidade e as bênçãos de Deus.

(Donzela cristã - Pe. Matias de Bremscheid )
PS: Grifos meus

sábado, 2 de janeiro de 2010

Terceira Ferida – Dores de Nossa Senhora



Terceira Ferida – Perda e o reencontro do Menino Jesus

Os três dias de ausência do Divino Menino foram a terceira ferida de Maria. Um dos gumes da Espada feriu a alma de Jesus, quando Ele se escondia de Sua Mãe e de Seu pai adotivo para Lhes lembrar, como Ele disse, que se devia ocupar das coisas de Seu Pai.

Mas se é certo que o Céu também pode jogar às escondidas, o outro gume da espada era, para Maria, a dor de ter perdido Seu Filho e procura-lo. Era Seu – e por isso que Ela O procurava. Ele ocupava-Se da Redenção, e é por isso que Ele A deixava, e ia ao Templo. Não ia nisso apenas uma perda física, mas também uma provação espiritual.

Ficou o Menino Jesus em Jerusalém sem que Seus Pais O advertissem (São Lucas 2,43)

Nosso Senhor disse: Para que me buscáveis? Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de meu Pai? E eles não entenderam o que lhes disse” (São Lucas 2, 49-50).

Mas tarde um outro período de três dias se devia registrar, durante o qual o Corpo de Jesus repousaria num túmulo. Esta primeira perda era um prelúdio da segunda, como que a sombra dos três anos de separação que foram a Sua vida pública – em relação à Virgem.

Alguma coisa era agora oculta a Maria, no sentido de que a não compreendia. Não se tratava de uma simples ignorância negativa, mas de uma privação, um propósito deliberado de Seu Filho em Lhe ocultar a plenitude dos Seus desejos. No Egito, teve Ela “a sombria noite” do corpo; era preciso que tivesse a “sombria noite” da alma, em Jerusalém. A noite espiritual e a desolação da alma andaram sempre juntas nas provações enviadas por Deus aos místicos.

A princípio, é o Seu corpo e o Seu sangue que são ocultos a Maria; agora é a Luz e a Verdade. Se a segunda ferida faz d’Ela a companheira de todos os refugiados errando pelas entradas do Mundo, esta terceira ferida iria levantá-La À companhia dos santos. A sombra da Cruz começava a projetar-se na Sua alma! Não é apenas o Seu Corpo virginal que devia pagar caro o privilégio da Sua Imaculada Conceição; também a Sua alma sofreria para vir a ser a “Sede da Sabedoria”.

A espada de dois gumes atinge as duas almas, no doce bater de um mesmo ritmo. Certo dia, no Gólgota, chamando Cristo a Si os pecados dos homens, sentirá o pessimismo do ateu, o desespero do pecador, a solidão do egoísta, e reunirá todas as dores do isolamento, num grande grito: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” Também Maria deve experimentar essa solidão e abandono – não apenas na perda física de Cristo, mas ainda na obnubilação de todas as consolações.

Assim como, na Cruz, Ele privará a Sua natureza humana de toda a alegria que Lhe podia vir da Sua divindade, assim também privará Sua Mãe de todas as alegrias relativas às coisas de Seu Pai. Se o gume da espada, reservado a Cristo, era o abandono, o d’Ela era a noite.

Diz o Evangelho que caiu a noite sobre a Terra, quando Ele, na Cruz, ergueu às alturas o Seu grito supremo; agora, é a noite que invade o espírito de Maria, porque o Seu Próprio Filho quis esse eclipse do Sol.

É quase uma pergunta que Ele Lhe faz, ao dizer-Lhe: “Por que me buscáveis?” (São Lucas, 2,49). Suspenso, mais tarde, na Cruz, entre a Terra e o Céu, devia Jesus sentir-Se abandonado por Deus e repelido pelos homens. Assim, Maria, por uma só palavra da Divina Espada, é abandonada por Aquele que é, ao mesmo tempo, Deus e Homem.

A sombria noite dos santos não é igual à noite dos pecadores. Nos primeiros, não há luz, mas há amor. É muito provável que essa noite mística, que a espada fazia então entrar na alma de Maria, desse lugar, n’Ela, a atos de tal modo heróicos de amor que eles A elevaram a novos tabores, nunca anteriormente entrevistos.

Pode a luz ser, por vezes, tão brilhante que nos cegue. A incompreensão de Maria, ouvindo a palavra de Jesus, era menos devida a uma falta de clareza do que a um excesso de luz.

A razão humana, chegada a certo ponto, nem sempre pode descrever o que se passa no coração. O próprio amor humano, nos seus mais altos momentos de êxtase, não se pode exprimir com palavras. A razão pode compreender palavras, mas não o Verbo.

Ora, diz-nos o Evangelho que aquilo que Maria não compreendia era o que dizia o Verbo. Como é difícil de compreender a palavra, quando ela se divide em palavras! Maria não compreendia porque é que o Verbo A elevava acima do abismo da razão e A arrastava por sobre esse outro abismo incomensurável que é o Espírito de Deus.

A uma tal distância, a Sabedoria Divina, na sua expressão humana, pode dizer o Seu segredo, do mesmo modo que São Paulo não podia contar a sua visão do terceiro Céu. As palavras eram incapazes de exprimir inteiramente, por si, a significação do Verbo.

Para provar que essa noite não era de ignorância, acrescenta o Evangelho:

“E Sua Mãe conservava todas estas coisas no Seu coração” (São Lucas, 2, 51).

A Sua alma guardaria a Palavra, e o Seu coração as palavras. Ele que, por Suas palavras, parecia renegá-La, une-A, agora, a Si Próprio, não apenas por ter depositado o mel da Sua mensagem na colméia do Coração d’Ela, mas também porque volta a Nazaré com Ela, submetendo-se-Lhe.

Cristo não se serve de instrumentos humanos, como Simeão ou Herodes, para brandir a Espada Divina sobre Sua Mãe. Aos doze anos, tem força bastante para a utilizar Ele mesmo. Nessa dor, ambas as Naturezas d’Ele se fixam sobre Ela para fazer d’Ela a co-Redentora: a Sua natureza humana na perda física, a Sua natureza divina na noite sombria da alma.

Na Anunciação, Ela perguntara ao Anjo: Como pode isso ser, se não conheço varão?” Hoje, dirige-Se ao Próprio Homem-Deus, chamando-Lhe “Filho” e pedindo-Lhe que Se explique, que justifique o que fez. Maria tem consciência de ser Mãe de Deus. Onde quer que haja santidade há familiaridade com Deus. E essa familiaridade é maior ainda na dor do que na alegria.

Certos, santos, favorecidos com revelações de Nosso Senhor, declaravam que essa dor de Maria custou a Jesus extraordinários sofrimentos. Ali, como sempre, trespassou Ele, o Seu Próprio coração, antes de trespassar o de Sua Mãe, como o propósito de ser o primeiro a conhecer essa provação. A dor, que mais tarde iria sofrer, de abandonar Sua Mãe, depois das três horas de agonia na Cruz, era então antecipada por esses três dias de separação.

Aqueles que pecam sem fé não podem sentir a angústia dos que pecam com fé. Possuir a Deus, ocultar-Se daqueles que estavam no propósito de jamais abandona-Lo, tal foi a ferida de Jesus, causada pela mesma espada. Ambos sentiram os efeitos do pecado, de maneira diferente, mas em igual noite de alma: ela por O ter perdido; Ele por se ter perdido. Se a dor de Maria foi um inferno, a agonia de Lha infligir era a dor de Jesus.

A Santíssima Virgem tornou-se o Refúgio dos pecadores por ter aprendido o que é perder Deus e tornar a encontrá-Lo. Cristo tornou-se o Redentor dos pecadores por ter conhecido a malícia, a vontade deliberada daqueles que ferem os seres a quem amam! Sentiu o que pode sentir a criatura, ao perder a criatura. Maria perdeu Jesus na noite mística da alma, e não na noite moral de um mau coração. A Sua perda era a ocultação da face d’Ele.

Ela não Lhe fugia. Mas mostra-nos Ela que, quando perdemos a Deus, não devemos limitar-nos a esperar que Ele volte. Devemos ir procura-Lo, e é Ela que, para alegria da nossa alma, sabe onde O podemos encontrar!

(O Primeiro amor do Mundo – Arcebispo Fulton J.Sheen)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Alma ou corpo? (Eduque o seu filho de forma cristã)



Antes de tudo, leitora e mãe, é teu filho uma alma. Hoje acentua-se demais o corpo e se deixa esquecida a alma da criança. Os pedagogos escandalizam-se com descuidos que prejudicam a saúde e o desenvolvimento do corpo. E bem pouco se impressionam com os erros que prejudicam os interesses e os destinos da alma. Paganismo moderno, leitora!

A pedagogia que vai da alma ao corpo, do espiritual para o material, do pensamento para o prazer, é também uma pedagogia que traz vantagens aos interesses do corpo. A mulherzinha do povo que segue a pedagogia da alma é uma educadora, ao passo que o mestre que segue a do corpo jamais será um educador. É apenas um cunhador de moedas falsas. Para respeitar esta ordem mais se necessita de coragem do que de ciência.

Por isso, leitora, convence teu filho do seguinte: Um esforço intelectual, a descoberta de uma verdade, um ato de vontade, o domínio de um apetite, valem todos os facéis prazeres do corpo. Porque? Porque o menor progresso da alma é infinitamente superior aos mais vastos proveitos materiais.

Essa alma, mais nobre do que o corpo, está vivificada por uma vida sobrenatural. Teu filho é também, pelo batismo, filho de Deus. De ti recebeu a vida do corpo. Dele recebeu a vida divina da graça. Há, portanto, em teu filho duas vidas, distintas nas suas qualidades, mas tão unidas que a primeira (recebida de ti) sem a segunda (vinda de Deus) não passa de uma grande nódoa, de uma grande chaga, perdendo-se no abismo de condenação.

... Digna de todo o respeito torna-se a criança que, com a graça do batismo, é herdeira divina. Teu filho não nasceu ainda, leitora, e já deves preparar-lhe esta vida. Durante os nove meses de vida comum, que poderosa irradiação propaga no corpo e na alma da criança a presença eucarística de Jesus Cristo no coração da mãe, que é piedosa na assiduídade à Comunhão!

... A graça há de existir e também crescer na alma do teus. Ela não pode ser unicamente objeto de um culto. Há de reinar sobre as paixões e impor-lhes ordem e harmonia. Como na orquestra cada instrumento concorre para o colorido da sinfonia, assim, sob a regência da graça, os impulsos da natureza hão de se unir e ordenar harmoniosamente. Mônica, a santa progenitora de Agostinho, acreditava que quase nada diria o nome de mãe, se não desse aos filhos, juntamente com a mísera vida do tempo, a vida infinitamente bela e preciosa da eternidade.

Por causa desse parto sofria dores mais vivas e longas do que pelo primeiro, com o qual pôs no mundo uma vida mortal. Aludindo a isto, afirmava Agostinho ser ele "o filho de torrentes de lágrimas".

Não podem acertar na educação de um cristão os pais que não sabem preferir para os filhos a vida sobrenatural à vida natural. Só educa que, sabe respeitar a escala de valores nas várias culturas. Se os hábitos adquiridos não elevam o espírito; se a inteligência e a vontade não reinam sobre os apetites; se as faculdades espirituais não são governadas pela graça - a educação é mutilada. Tão gravemente é tal, que, provavelmente, a vida será um fracasso.

O futuro de uma criança é coisa viva, animada, ameaçada por mil quedas e que, sobretudo, depende da altura da alma. Antes de tomar uma resolução, leitora e mãe, antes de regular os hábitos mais caseiros, perguntarás a ti mesma:

"Tendes minha palavra, meu ato, a respeitar a hierárquia dos valores? A formação que vou dando aos meus, neste ou naquele caso, prefere os bens do espírito aos bens do corpo, os sonbrenaturais aos bens do espírito, a verdade infinita aos reflexos dela, Deus às criaturas?"

Exercitarás teu filho não somente a sentir, mas a bem sentir; não somente a pensar, mas a bem pensar; não somente a pensar acertadamente, mas também a julgar acertadamente, não tomando as criaturas pelo que não são. Toda idolatria é um erro de juízo prático sobre o valor dos seres. Sobretudo ensinarás os teus a analisar tudo sob clarões da fé e da eternidade, sob a aprovação ou reprovação de Deus.

Finalmente, depois de ensiná-los a sentir, pensar, julgar com acerto, trabalharás para que amem acertadamente, dominando as paixões pelo amor a Deus e ao próximo.

Assim sendo, a criança é um meio de santificação para a mãe. Pois é impossível apontar e dirigir para o ideal, sem com o tempo a mãe tornar-se uma apaixonada pelo ideal. O guia dos Alpes sobe cada vez mais, à medida que faz subir os guiados...

(Excertos do livro: As três chamas do lar - Pe. Geraldo Pires de Sousa)
PS: Grifos meus

El Modelo de Nazaret (Pio XII e a família)


El Modelo de Nazaret (Pio XII e a família)
10 de Abril de 1940

Al acogeros junto a Nos, queridos recién casados, ¿cómo podría nuestro pensamiento no dirigirse hacia San José, castísimo esposo de la Virgen María, patrono de la Iglesia universal, cuya solemnidad celebra hoy la sagrada liturgia?

Si todos los cristianos tienen motivo para confiar en la protección de este glorioso patriarca, vosotros tenéis ciertamente un título especial para tal gracia.

Todos los cristianos son hijos de la Iglesia. Esta santa y dulcísima Madre, da a las almas, con el Bautismo, aquella misteriosa participación en la naturaleza divina, que se llama la gracia, y después de haberlos de este modo engendrado a la vida sobrenatural, no les abandona, sino que les procura, mediante los sacramentos, el alimento que mantendrá y desarrollará su vida.

Así se la puede comparar con María, Nuestra Señora, de la cual tomó el Verbo la naturaleza humana, y que luego sostuvo y alimentó la vida de éste con sus cuidados maternos.

Ahora bien, en cada uno de los hijos de la Iglesia debe estar formado Cristo, y todos deben tender a crecer “in virum perfectum, in mensuram ætatis plenitudinis Christi”, hasta ser hombres perfectos, a la medida de la edad plena de Cristo.

Mas ¿quién velará sobre esta Madre y sobre este Jesús? Ya lo habéis comprendido; aquel que hace veinte siglos fue llamado a ser el Esposo de María, el Padre legal de Jesús, el Jefe de la Sagrada Familia.

¡Y qué solicitud puso en cumplir una misión tan sublime!

Bien quisiéramos saber sus más menudas circunstancias; pero este predilecto de la confianza divina, que debía servir como de velo al doble misterio de la Encarnación del Verbo y de la Maternidad virginal de María, parece quedar en su vida terrena como envuelto en una sombra.

Sin embargo, los raros y breves pasajes en los que el Evangelio habla de él, bastan para mostrar qué cabeza de familia fue San José, qué modelo y qué patrono especial es, por lo tanto, para vosotros, jóvenes esposos.

Custodio fidelísimo del precioso depósito confiado a él por Dios, María y su Divino Hijo, él velaba, ante todo, sobre, su vida material. Cuando, para obedecer al edicto de Augusto, partió para hacerse inscribir sobre el registro del censo en la ciudad de David llamada Belén, no quiso dejar sola en Nazaret a su esposa Virgen, a punto de ser madre de Dios.

A falta de más particularidades en los textos evangélicos, las almas piadosas gustan de imaginarse más íntimamente los cuidados que entonces le prodigó a Ella y después al Niño recién nacido. Le ven levantar la pesada puerta del albergue ya lleno; dirigirse después en vano a parientes y amigos; y en fin, rechazado de todos, esforzarse por poner al menos un poco de orden y de limpieza en la cueva. Ya lo tenemos sosteniendo entre sus manos viriles las manecitas, temblorosas de frío, del pequeño Jesús, para calentarlo.

Un poco más tarde, habiendo oído del ángel que su tesoro estaba amenazado, “tomó de noche al Niño y a su Madre”, y por arenosos caminos, apartando del sendero zarzas y peñascos, los condujo a Egipto. Allí trabajó duramente para alimentarlos.

Siguiendo una nueva orden del cielo, probablemente dos años después, los volvió a conducir, a costa de las mismas fatigas, a Galilea, a la ciudad de Nazaret. Aquí enseñaba a Jesús, divino aprendiz, el manejo de la sierra y el cepillo, salía al trabajo fuera del techo familiar y volvía a él por la tarde para ver de nuevo a los dos seres queridos que le esperaban en el umbral con una sonrisa, y con los cuales se sentaba en torno a la pequeña mesa para la frugal comida.

Asegurar a la esposa y a los hijos el pan cotidiano, es el cuidado más urgente del padre de familia. ¡Oh, qué tristeza ver perecer a aquellos a quienes se ama, por que no hay nada en la alacena, nada en el bolsillo!

Pero la Providencia que condujo de la mano al antiguo José cuando, entregado y vendido por sus hermanos, fue primero esclavo para venir a ser luego el superintendente y señor de toda la tierra de Egipto y nutricio de su familia; la Providencia que guió al segundo José en aquel mismo país a donde llegó privado de todo, sin conocer ni los habitantes, ni las costumbres, ni la lengua, y de donde, no obstante todo esto, retornó sano y salvo con María, siempre activa, y Jesús que crecía en sabiduría, en edad y en gracia; la Providencia, ¿no tendrá hoy la misma compasiva bondad, el mismo ilimitado poder?

Ah, tememos muchas veces que los hombres olviden las palabras de Nuestro Señor en el Evangelio: “Buscad en primer lugar el reino de Dios y su justicia, y todo lo demás se os dará por añadidura”, dad a Dios animosa y lealmente lo que Él tiene derecho a esperar de vosotros: todo el esfuerzo personal posible, la obediencia que se le debe como a Señor supremo, la confianza hacia Él como hacia el mejor de los padres. Entonces podréis contar con lo que esperáis de Él, y que Él prometió cuando dijo: “mirad los pájaros del cielo, mirad los lirios del campo; y no tengáis cuidado por el día de mañana”.

Saber pedir a Dios lo que se necesita, es el secreto de la oración y de su poder, y es también una enseñanza que os da San José. El Evangelio, es verdad, no nos dice expresamente cuáles eran las plegarias que se hacían en la casa de Nazaret.

Pero la fidelidad de la Sagrada Familia a la observancia de las prácticas religiosas, nos ha sido explícitamente atestiguada, aunque no había ninguna necesidad de ello, cuando por ejemplo San Lucas nos cuenta que Jesús iba con María y José al templo de Jerusalén por la Pascua, según la costumbre de aquella fiesta.

Es, pues, fácil y dulce representarnos esta Sagrada Familia en Nazaret, a la hora de la acostumbrada oración. En el alba dorada o el violáceo crepúsculo de Palestina, sobre la pequeña terraza de su casita blanca, vueltos hacia Jerusalén, Jesús, María y José, están de rodillas; José, como cabeza de familia, recita la oración; pero es Jesús quien la inspira, y María une su dulce voz a la grave del santo patriarca.

¡Futuros cabezas de familia! Meditad e imitad este ejemplo, que muchos hombres de hoy olvidan. En el recurso confiado a Dios encontraréis no solamente las bendiciones sobrenaturales, sino la mejor seguridad de aquel “pan cotidiano”, tan ansiosamente, tan laboriosamente, y a veces tan vanamente buscado.

Como delegados y representantes del Padre que está en los Cielos y “de quien toda familia en el cielo y en la tierra toma nombre”, pedidle que, como os ha dado algo de su ternura, os dé también algo de su poder, para llevar el grato, pero muchas veces grave peso de los cuidados familiares.

(Retirado do blog: Signum Magnum)