segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

CAPÍTULO X — O momento presente é a manifestação do nome de Deus e o advento do Seu reino

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

O ABANDONO À DIVINA PROVIDÊNCIA
pelo

P.J.P de Caussade, S.J

CAPÍTULO X
O momento presente é a manifestação do nome de Deus e o advento do Seu reino 

O momento presente é sempre como um embaixador, que declara a ordem de Deus. O coração pronuncia sempre o fiat. A alma vai deslizando assim para o seu centro e para o seu termo; sem se deter jamais, vai levada de todos os ventos; todos os caminhos e todas as maneiras a fazem igualmente avançar para o largo, para o infinito. Para ela tudo é um meio e um instrumento de santidade, sem nenhuma diferença. O que unicamente lhe é necessário encontra-o sempre no presente. Já não é a oração ou o silêncio, o retiro ou a conversação, o ler ou escrever, as reflexões ou a cessação de pensamentos, a fuga ou a procura dos bens espirituais, a abundância ou a miséria, a vida ou a morte; mas unicamente tudo o que cada momento lhe vai apresentando por dis­posição de Deus. Nisso é que consiste o desprendimento, a abnegação, a re­núncia de tudo o criado para não ser nada por si nem para si, para estar em tudo na ordem de Deus e lhe agradar, tendo como única satisfação e conten­tamento viver o momento presente, como se nada mais tivesse de esperar neste mundo. 

Se tudo o que sucede à alma aban­donada é o unicamente necessário, vê-se claramente que nada lhe falta, nem deve queixar-se jamais; e se o faz, mostra falta de fé, vive da razão e dos sentidos que, como não vêem esta suficiência da graça nunca estão satisfeitos. 

Santificar o nome de Deus, conforme a expressão da Sagrada Escritura, é re­conhecer a santidade de Deus, amá-lO e adorá-lO em todas as coisas. Com efeito as coisas procedem dos lábios de Deus como palavras. O que Deus realiza em cada momento é um pensamento divino significado por uma coisa criada. 

E por isso todas as coisas em que nos intima a sua vontade, são outros tantos nomes e palavras em que nos mostra o Seu desejo. Esta vontade, em si mesma, é só uma, não tem senão um só nome desconhecido e inefável; mas é multi­plicada até ao infinito nos seus efeitos, os quais são todos como outros tantos nomes que vai tomando. 

Santificar o nome de Deus, é conhe­cer, adorar, amar o Ser inefável que este nome exprime; é conhecer, ado­rar e amar a sua adorável vontade a todos os momentos, em todos os seus efeitos, considerando-os a todos como véus, sombras, nomes desta vontade eter­namente santa. Santa em todas as suas obras, santa em todas as suas palavras, santa em todas as maneiras de se ma­nifestar, em todos os nomes que vai tomando. 

Assim é que Jó bendizia o nome de Deus. A desolação universal que a von­tade de Deus lhe significava, bendi­zia-a esse santo homem e chamava-a não uma ruína, mas um nome de Deus, protestando que tal vontade divina signi­ficada pelas aparências mais terríveis, era santa, qualquer que fosse a forma ou o nome que tomasse, David bendizia-a também em todo o tempo e lugar. Por este incessante descobrimento, por esta manifestação e revelação da vontade divina em todas as coisas é que o seu reino está dentro de nós, que Deus faz na terra o que faz no céu, que nos alimenta sem cessar. 

O abandono à divina vontade compreende e contém toda a substância da incomparável oração, ensinada pelo próprio Jesus Cristo. Recitamo-la vocalmente várias vezes ao dia, conforme a ordem de Deus e da Santa Igreja; mas pronunciamo-la a cada momento tio fundo do coração, quando mostramos amor e desejo de sofrer e fazer o que essa divina vontade nos prescreve. O que os lábios não podem pronunciar senão por sílabas, por palavras, em maior ou menor espaço de tempo, pronuncia-o realmente o coração em cada instante. É assim que as almas simples se aplicam a bendizer a Deus no fundo do seu ser. Gemem vendo-se impotentes para O bendizer quanto desejariam, pois é bem verdade que Deus dá a essas al­mas as suas graças e favores por meio daquilo mesmo que mais parece privação desses dons celestes. Mas é nisso que consiste o segredo da sabedoria divina: em empobrecer os sentidos enriquecendo o coração, e em encher a este tanto mais quanto aqueles experimentam um vácuo mais doloroso. 

Aprendamos, portanto, a reconhecer o selo da vontade de Deus e do seu nome adorável, em tudo o que vai sucedendo em cada instante. Este nome é infini­tamente santo. É, pois justo bendizê-lO, tratá-lO como tuna espécie de sacra­mento, que por sua própria virtude san­tifica as almas que lhe não põem obs­táculos. Quem poderá ver o que em si contém este nome augusto, sem o esti­mar infinitamente? É um maná divino que desce do céu, para dar um cresci­mento contínuo na graça. É o pão dos Anjos, que se come na terra e no céu. 

Nada há, portanto, de pequeno nos nos­sos momentos, pois todos encerram te­souros de graça, um alimento angélico. 

Venha pois, Senhor, esse reino ao meu coração, para o santificar, o nutrir, o purificar, e lhe dar a vitória sobre os meus inimigos. Oh, momento precioso! Como és pequeno aos olhos do vulgo, mas como és grandes para os que te vêem iluminados pela fé. Como ter na conta de pequeno, aquilo que é grande aos olhos do meu Pai que reina nos céus? Tudo o que daí vem é excelente; tudo o que daí desce, traz ó divino caráter da sua origem.
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