domingo, 2 de outubro de 2016

CAPÍTULO VII -- A ação divina é tão indignamente tratada por muitos cristãos

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.


O ABANDONO À DIVINA PROVIDÊNCIA
pelo
P.J.P de Caussade, S.J



CAPÍTULO VII
A ação divina é tão indignamente tratada por muitos cristãos, nesta manifestação de cada dia, como Jesus Cristo o foi pelos Judeus em sua própria carne

            Ó quantas infidelidades se encontram no mundo! Ó como se pensa indignamente de Deus, pois sem cessar temos a ousadia de observar à ação divina o que não faríamos com o mais pequeno artista na sua arte. Queremos reduzir a ação de Deus às regras e aos limites imaginados pela nossa débil razão. Que­remos reformá-la! Tudo são queixas, tudo murmurações!
            Surpreende-nos e desperta a nossa indignação o tratamento dado a Jesus pelos judeus. Ó divino amor! ó vontade adorável! ó ação infalível! Como vos consideram! Por ventura a vontade divina pode proceder fora de propósito ou fora de razão? Mas eu tenho um negócio e falta-me tal coisa; tiram-me os meios necessários; este homem atravessa-se em tão santas obras: ora isto não é completamente absurdo? Esta doença apodera-se de mim, sendo que eu não posso absolutamente prescindir da saúde. E eu digo que a vontade de Deus é a única coisa necessária; e assim tudo o que ela não dá é inútil.
            Não, ó queridas almas, nada vos falta. Se vós soubésseis o que são essas coisas que chamais reveses, contratem­pos, contrariedades, onde não vedes senão sem-razões e despropósitos, experimentaríeis extrema confusão; repreen­der-vos-íeis a vós mesmas das vossas murmurações, como de verdadeiras blas­fêmias; mas não pensais nisso. Porém tudo isso não é senão a vontade de Deus; e esta vontade adorável é blasfemada pe­los seus queridos filhos, que a desco­nhecem!


            Ó meu Jesus, quando vivíeis na terra os judeus trataram-vos de energúmeno, chamaram-vos samaritano; e hoje que viveis por todos os séculos, com que olhos é vista a vossa adorável vontade, sempre digna de bênçãos e de louvores! Passou porventura um só momento desde a criação do mundo até àquela em que vivemos, e passará algum até ao dia do juízo final, em que o santo nome de Deus não seja digno de louvores; esse nome que enche todos os séculos e tudo o que vai sucedendo em todos os tempos, nome que toma salutares todas as coi­sas? Pois quê? O que se chama vontade de Deus poderia ser-me nocivo? Have­ria porventura de temer e de fugir do nome de Deus! E onde poderia encontrar alguma coisa de melhor, se receasse a ação divina sobre mim e rejeitasse o efeito da sua divina vontade!


            Como é que devemos escutar a pala­vra que no fundo do nosso coração se nos vem repetindo a cada momento? Se os nossos sentidos e a nossa razão não compreendem e não penetram a amabilidade e a bondade de sua pala­vra, não é isso devido a incapacidade para as verdades divinas? Devo admira-me de que um mistério desconcerte a razão? Deus fala-me, é um mistério. É a morte para os meus sentidos e a minha razão, porque os mistérios são de natureza a imolá-los. O mistério é a vida do coração pela fé; tudo o resto é contradição. A ação divina mortifica e vivifica com um mesmo golpe; quanto o mistério é mais obscuro, maior luz en­cerra. É por isso que a alma simples nada encontra de mais divino do que aquilo que na aparência o é menos. A vida da fé está toda nesta luta contra os sentidos.
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