domingo, 5 de junho de 2016

8.ª Arma: a mortificação

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


8.ª Arma: a mortificação

És tentado pelo corpo, forçoso é castigar este mesmo corpo.
Ainda mais um princípio inaciano: tomar o seu contrário, “agere contra”, o que, em linguagem bélica, vale o mesmo que: dar um contra-ataque, mover uma contraofensiva.
Eis como Sto. Inácio termina a sua “2.ª semana”: “É necessário saber-se que o aproveitamento nas coisas espirituais, cresce à medida que o homem se vai despojando do amor de si mesmo, da própria vontade e do próprio interesse”.
Amimar o corpo, é amimar um escravo. Fatalmente se revoltará.
Estas rebeliões devem ser prevenidas pelo enérgico tratamento da penitência. “Sobre esse ponto é bom notar-se que, o privar-se alguém do supérfluo, não é penitência mas temperança. Não há penitência senão quando se corta por alguma coisa, que se pode convenientemente tomar, e assim quanto mais conseguimos cortar, neste particular, tanto maior e mais louvável é a penitência, contanto que não se arruínem as forças nem se altere, notavelmente, a saúde”. (Sto. Inácio).
A Imitação, com o grande bom senso em que sempre se inspira, nos previne: não é cedendo às paixões, mas resistindo-lhes, que acabamos por triunfar.
A doença de que aqui se trata — a impureza, se não cura pela homeopatia e sim pela alopatia.[1]
O verdadeiro remédio é a mortificação, porque ela, como engenhosamente diz Luc Miriam, amarga como o quinino mas é fortificante como ele.
A mortificação é a melhor garantia da castidade, e a vida regalada é o que há de mais contraposto.[2]

No jovem imortificado constata-se, em vez dessa abnegação generosa, indício da pureza, uma inaptidão, uma passividade estéril. Aquele que se acha enervado pelos prazeres, saturado de gulodices e de doces, e que, invertendo a máxima de Santa Teresa, diria satisfeito: “Nec pati, nec mori!” esse jovem tem um corpo “mau condutor” da abnegação.
E, pelo contrário, um jovem severo consigo mesmo, tem um corpo “bom condutor” do sacrifício.
Este princípio é bem compreendido por aquelas jovens que, nas rebeliões da carne, infligem ao corpo alguma dor, fosse embora pequena arranhadura, um beliscão, uma posição incômoda.
Outros (e não são raros) confessaram-me que se impunham não fumar, durante toda a quaresma.
Um jovem generoso encontra, sem dificuldade, ocasiões para, de contínuo, se vencer. Será por exemplo: não se defender, quando facilmente o poderia fazer, suportar pacientemente as impertinências de um irmão, de uma irmã, de um amigo ou alguma repreensão paternal, muito humilhante, por ser feita em público, estudar especialmente alguma disciplina ingrata, abster-se de uma leitura atraente, não ceder à curiosidade, não beber, quando tem sede, ou diferir para mais tarde essa bebida, impor-se alguma privação à mesa, etc.
Esta privação não será quanto à quantidade, o que poderia prejudicar o seu desenvolvimento físico, mas deve recair de preferência sobre a qualidade.
Não vais de certo morrer por tomares uma alimentação pouco temperada, o café com pouco açúcar, menos um doce, uma laranja das inferiores: serve-te também de uma sobremesa, com parcimônia.
Exige-se, às vezes, maior domínio sobre si, para tomar pouco do que para não tomar nada.
Luc Miriam, que conhece bem os jovens, sugere-lhes ainda outras mortificações. “Não te queixes, diz ele ao seu interlocutor, das intempéries das estações, fica algum tempo sem te encostar nas cadeiras ou bancos, mantém o corpo direito, no colégio estuda sem apoiar os cotovelos, brinca com energia, não te impacientes.
Se for preciso ir mais longe, reza à noite uma ou duas dezenas do terço, de joelhos, com os braços em cruz, beija a terra como faziam os santos ou traz, no alto do braço, um bracelete de crinas”.
Vejo que me estás dizendo: “Ora! Ora! Por que não aconselhar de vez a estamenha e o cilício?
Já vejo, há de ser uma vida de S. João da Cruz!
Mas eu não hei de levar vida de monge: falais com um jovem que frequenta salões e não com um cartuxo que vive encerrado em sua cela”.
— Meu amigo, acalma a tua indignação pomposa.
Diz-me: crês então que só o monge e o cartuxo é que devem observar a castidade? É ela certamente mais difícil de se guardar no teu salão do que em uma cela de cartuxo, e o meio mais eficaz de salvaguardá-la, está em saber impor-se um sacrifício.
Não ficas admirado ao ver como todos os santos, sem exceção, foram severos consigo mesmos?
S. Paulo dizia: “Castigo o meu corpo e o tenho em servidão”. (1 Cor. 9-27).
“Trago em minha carne os estigmas de Jesus Cristo; supro em mim o que falta à sua paixão; estou crucificado com ele; não prego senão Jesus Crucificado”.
Mais sublime que o de S. Paulo e o dos Santos é o ensinamento do divino Mestre: “O reino dos céus padece violência… Só os esforçados o conquistam… Carregue cada qual a sua cruz… O caminho é estreito… O que não renunciar o que possui, não pode ser meu discípulo… se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo”. (S. Mat. 16-24).
É digna de nota a expressão “a si mesmo”. A verdadeira mortificação deve estar em nós mesmos. Não consiste em sacrificar uma sobremesa, uma gulodice, o dinheiro. Tudo isto está fora de nós. Ora é exatamente o nosso eu que havemos mister imolar. Não houve quem melhor o dissesse do que S. Gregório o Grande, comentando as palavras de Jesus Cristo: o que deseja seguir-me deve renunciar a si mesmo. “Precedentemente, havia dito que devemos renunciar a nós mesmos. Não é, aliás, muito difícil ao homem renunciar suas riquezas, mas torna-se-lhe dificultoso renunciar a si mesmo. Pouca coisa é despojar-se um do que tem, maior, o renunciar ao que um é”. (S. Greg.).
Nunca será demasiado o insistir sobre esta verdade, que Deus nunca aconselha o negativo como negativo. O que chamamos “mortificação” é o que, em realidade, vivifica. Não buscamos o sofrimento só pelo sofrimento, mas servimo-nos dele como de meio para alcançar um fim positivo e superior.[3]
A mortificação purifica e tonifica a alma; é um exercício viril da vontade, constitui um ato prático de amor de Deus, uma imitação voluntária de Jesus Cristo.
Não é apenas a contradição, mas o contrário ou oposto daquilo que nos sugeria a paixão. “O que a mortificação mata, em nós, não são os princípios de vida mas os gérmens de morte”. (P. Vuillermet).
O covarde considera a mortificação como uma indesejável, ou como o “estrangeiro vestido de luto” de que fala A. de Musset.
O generoso sabe quanto a mortificação retempera e nobilita a alma.
Chega, por vezes, contrair tal hábito desta virtude que, entre duas coisas difíceis, escolhe valorosamente a mais árdua.
Compenetra-se da austera doutrina de Sto. Inácio, no capítulo, os “três graus de humildade”: “O terceiro grau de humildade é muito perfeito… e quer que, no caso de o louvor e a glória da majestade divina serem iguais, para imitar mais perfeitamente a Jesus Cristo N. Senhor e se tornar mais semelhante a Ele, se prefira e se abrace a pobreza com J. Cristo pobre, de preferência às riquezas; se tomem as ignomínias com Jesus Cristo, saturado de opróbrios, de preferências às honras que nos seriam tributadas”.
Poder-se-á, talvez, pensar que este ideal seja demasiadamente elevado para a natureza humana?
Não, não? É praticado (até mesmo fora dos claustros!) pela elite dos fortes, bem mais numerosa do que julgam.
Um exemplo: Em dezembro de 1915 expirava, perto de Vieil-Armand, o general Serret.
Eis o seu testamento:
“Tenho fé! Servi com disciplina. Amei sempre o meu dever. Tive por norma dar a cada esforço do dever de estado, o máximo de vigor e de perfeição. Estou tranquilo.
Tenho fé! Confio plenamente no julgamento de Deus. Dizia a meus oficiais, a meus soldados: “se hesitardes entre dois caminhos, ficai certos que é o mais penoso que haveis de tomar”.[4] Dizia e praticava. Servi-me, de preferência de pessoas ríspidas e difíceis. Minha consciência de nada acusa-me: estou tranquilo.
Tenho fé! Creio na recompensa do céu. Desconfiei da natureza humana e de suas traições. Resisti sempre à moleza, inimiga da alma. Há no livro da Imitação um belo pensamento: se não puderdes sentir a alegria nos sofrimentos, ao menos suportai-os, sem vos queixardes. Não me queixo. Sou até feliz. Estou tranquilo”. (Echo de Paris, 8 de jan. de 1917).



[1]             “O celestial médico opôs a cada vício os remédios apropriados. Pois, como a arte médica cura o quente com o frio e o frio com o quente, assim N. Senhor opôs aos pecados, os medicamentos diretamente opostos, ordenando a castidade aos que são levados pelas coisas lúbricas”. (S. Greg.).
         Sejam ou não exatas, fisiologicamente falando, essas asserções, pouco importa; o princípio moral é, porém, incontestável e verdadeiro.
[2]             Muito atiladamente disse o Dr. Warlomont: “A vida de luxo e de prazer excessivo, como hoje se pratica, em grande escala, deixa o jovem sem defesa contra o aliciamento e as seduções que procuram dar assalto a sua pureza… Permitir ao adolescente, ao jovem ver tudo, ouvir e ler tudo, entregar-se aos prazeres da mesa, em vez de trabalhar para alcançar aquela nobre resistência que lhe preparam tanto o trabalho e a sobriedade como o bom governo dos sentidos, é despertar o fogo no coração, as excitações orgânicas e os estímulos a que fatalmente virá sucumbir. Lastimam-se de que a castidade seja impossível e sem embrago fazem tudo para acelerar-lhe a ruína”. (An. da Soc. Cient. de Brux. 1906).
[3]             “As penitências exteriores fazem-se principalmente por três fins: o primeiro, para satisfazer os pecados cometidos, o segundo para vencer-se a si mesmo, isto é, obrigar a sensualidade a obedecer a razão e a parte inferior da alma a submeter-se, tanto quanto possível a parte superior; o terceiro para alcançar de Deus alguma graça particular, como seria a solução de alguma dúvida”. (Sto. Inácio).
[4]             “O que nos apavora não se há de omitir. Entre dois caminhos, perante os quais se hesita, é mister escolher o que nos faz recuar. O temor está a nos indicar o dever”. (Ch. de Foucauld).
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