sábado, 4 de junho de 2016

7.ª Arma: o exame particular

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.



7.ª Arma: o exame particular

Durante a guerra trazíamos, sempre em dia, os nossos mapas geográficos: posições perdidas… posições reconquistadas… terreno abandonado… terreno ganho…
O exame de consciência vem a ser a mesma coisa.
Nos combates da virtude, deveríamos ter a mesma alegria, quando conquistamos alguns redutos e a mesma tristeza, quando sofremos algumas derrotas.
Em várias páginas deste nosso livro, já indicamos os elementos principais deste exame de consciência: a) Semelhança profunda de todos os homens e utilidade de se estudar bem o coração humano: b) o lado pessoal das tentações: c) o diário espiritual: d) “conhece-te a ti mesmo”.
Agora, porém, deixemos de parte o que se relaciona com o exame geral da consciência, para indicar o processo do exame “particular”, tal como o formula S. Inácio: Abrange três tempos e dois exames de consciência, ao dia.

O primeiro tempo é o da manhã. Logo ao despertar, propor manter-se muito cuidadoso e atento contra o pecado ou defeito particular, que desejamos corrigir ou de que nos desejamos ver livres.
O segundo tempo é o da tarde.
Recordar-se quantas vezes se caiu naquele pecado ou defeito particular… Vai-se percorrendo cada uma das horas da manhã, que se poderão também dividir em vários espaços de tempo… marcando tantos pontos quantas vezes se caiu…
O terceiro tempo é à noite. Far-se-á um segundo exame… Em seguida, notam-se tantos pontos quantas vezes se caiu naquele pecado ou defeito particular, que se quer corrigir.
1.ª Adição: consiste em, todas as vezes que se cair no pecado ou defeito que se quer corrigir, se levar a mão ao peito, excitando-se interiormente ao arrependimento. E isto se pode fazer mesmo em presença de outros sem ser notado.[1] É necessário examinar se houve progresso entre a manhã e a tarde, de um dia para o outro, de uma semana para a seguinte. Um caderninho do exame particular, servirá para estas anotações. O exame pode ser feito ao meio-dia e à noite, em poucos minutos.

* * *
“Eis dirão alguns, sorrindo, a tal piedade inaciana inteiramente mecanizada!” e para empregar a linguagem de K. Huysmans em seu livro, A caminho: funde Sto. Inácio a alma, no molde estreito dos seus Exercícios Espirituais.
Não, o exame particular não é um método artificial, mas uma disciplina de vida.
Seu fim é evitar a dispersão do eu e reunir o homem todo, na unidade de um esforço único, convergente, para se adquirir uma determinada virtude e que mais lhe é necessária.
E assim as suas forças não ficarão dispersas mas polarizadas.
Este método é, aliás, recomendado até na formação intelectual, por pensadores modernos, embora irreligiosos, como Payot. Eis como ele se exprime na matéria: “Orientação muito precisa de todos os pensamentos para um mesmo e único fim… subordinação de nossas volições, de nossos sentimentos, de nossas ideias, para uma grande ideia diretriz”. (Payot. Educ. da vont.).
É necessário unificar-se.
A concentração intensa para um determinado ponto, mediante o exame particular, nessas lutas morais, eis o grande princípio estratégico, como o fora na grande luta europeia.
Durante a guerra, devia-se manter, é certo, uma frente de 745 quilômetros; mas era indispensável agrupar nossas reservas, em pontos fracos, onde o inimigo ameaçasse fazer brecha, ou, quando possível, operar uma grande ofensiva, num único e determinado setor.
Manter toda esta frente compete, na vida ascética, ao exame geral de consciência. Assegurar fortemente o ponto fraco, ou operar uma ofensiva, nesse bem determinado setor, compete, na vida espiritual, ao exame particular.
Seja o exame particular, verdadeiramente “particular”: tenha por objetivo um ponto muito prático: tal relação, tal leitura, etc.[2]
Sto. Inácio detestava o difuso e queria que se descesse à precisão concreta das circunstâncias, até mínimas.

* * *
Uma dificuldade se nos apresenta: “especializar”, deste modo, é uma força, mas não será também uma fraqueza? Não será amesquinhar a virtude, reduzi-la assim a um pormenor?
Não, porque a par do exame particular, está o exame geral.
Não, porque a vontade temperada nesta luta, fica mais aguerrida para outros combates, e porque a energia adquirida estende-se ao todo.
Não, porque na realidade das coisas, esta virtude, objeto peculiar dos nossos esforços, não pode ficar isolada das demais.
Tudo no homem se entrelaça e se comunica por meio de raizames complexos.
A razão e a experiência vêm unidas abonar esta verdade, pois na direção das almas, envenenar ou sanear um só ponto, é envenenar ou sanear tudo o mais. Um tóxico ou soro, introduzido no sangue, é levado a toda a corrente circulatória. A percussão forte de um nervo se faz sentir em todo o sistema nervoso. Assim também, na alma, qualquer choque se repercute e se dilata no todo.
Qualquer agente, ou salutífero ou nocivo, tende a atuar, não só sobre a economia especial, por onde começou, mas também a influir em toda a economia geral.


[1]             O que admira é ler-se na vida de Franklin, como este grande sábio americano punha em prática o método de exame particular, nas suas menores particularidades.
[2]             O exame seja sobre faltas reais. Mons. de Ségur diz, com muita graça: “As pessoas, que deixam em paz seus verdadeiros defeitos para combater os que não têm, assemelham-se a Sancho Pança que, numa noite, deu-se fortes golpes de disciplina não, nas costas mas numa árvore, contra a qual se encostara. O pobre do D. Quixote, que de longe ouvia a fúria dos golpes, chorava de compaixão”. (O jovem cristão).
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