terça-feira, 21 de junho de 2016

14.ª Arma: as Obras e os Círculos de estudos

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.

 
 
14.ª Arma: as Obras e os Círculos de estudos

Não é nada banal o sermãozinho aritmético que, acerca do zelo, se lê no livro As almas livres de Luc Miriam.
“1.º ponto: Não sejas um ponto de uma circunferência, mas um centro.
2.º ponto: Não sejas uma parcela de uma soma, mas um fator de uma multiplicação:
5 + 3 = 8; 5 x 3 = 15”.
Sacrifica-te. Não procurar muito longe de ti, a ocasião para praticar o bem: encontra-la-ás, com certeza, em tua própria família, entre teus camaradas: e assim, poderás convidar a passeio aquele colega abandonado, propor alguma repetição àqueloutro, mais atrasado, recrear aquele amigo vítima de alguma aflição.
“Vamos!… nada consola tanto a alma, como tornar uma alma menos triste”. (P. Verlaine. Sabedoria).
Toma parte ativa em alguma conferência de S. Vicente de Paulo: assim, dizia Ozanam, o fundador delas, porás “tua castidade ao abrigo da tua caridade”. Tudo o que for dado a estas obras, será tirado a concupiscência.
Aproxima-te dos pobres!
Mas dirás: “hoje, já não há pobres!”

Haverá menos; seria, porém, ridículo afirmar que os não há.
E, além disto, a pobreza temporal não é a única nem a maior.
Os operários têm hoje o pão alvo mas comem-no na amargura e na revolta. Além de que, o homem não vive só de pão.
Sempre vive miserável quem se não importa com a religião.
Assim é que a pobreza só mudou de aspecto.
Repetes: “não temos mais pobres”, e, no entanto, os pobres se contam por milhares e aos milhões.
Não se há de olhar só para uma espécie de esmola, a do dinheiro, mas para as outras suas multíplices manifestações: a esmola da bondade, do sorriso, da consolação aos enfermos, do bom conselho, etc.
E enfim ainda mesmo quando estas obras não fizessem bem a outrem, fariam-no a ti mesmo. Costuma dizer-se: Quem ensina, aprende. E assim quem prega, prega também para si mesmo. É ele o primeiro a receber o beneficio do próprio sermão; é, por assim dizer, seu primeiro ouvinte. Não quererá limitar-se portanto a ser um piedoso cômico, recomendando aos outros o que, ele mesmo, não pratica. Por uma espécie de lealdade profissional, praticará o que ensina. Ora, as obras sociais te obrigarão falar aos outros de dever, de virtude e assim te ensinarão a nobre dedicação ao próximo.
Desejo que nelas venhas a sofrer um pouco.[1]
Afeiçoamo-nos, muitas vezes, a uma coisa em proporção com o que ela nos custou e, pelo contrário, desinteressamo-nos de uma coisa porque nela não entrou nosso esforço pessoal.[2]
Sacrifica-te por uma bela causa. Ama o que é nobre para não amares o que é vil.
Terás feito uma bela aplicação da tua mocidade, prometendo assim um magnífico emprego de toda a tua vida. “A nossa mocidade!… esta época de efervescência moral, em que se inflama, se extravasa em nós a primeira lava que, mais tarde, resfriada e solidificada, será a base do nosso carácter”. (P. Bourget. O justiceiro!).
As obras arredarão de ti, aquele egoísmo do cínico Dutrécy de Labiche, que disse: “nunca se tem, para si, tanto quanto, é bastante”; elas te impedirão de seres, na terra, um ser inútil,[3] de existência ridícula e sem alcance.

“Tais há que legaram um nome,
De que se pode narrar seus louvores:
Tais há de que não ficou memória,
Morreram como se nunca tivessem existido.
Tiveram uma existência como se nunca a tivessem tido”.
(Ecle. 44-8)

“Perierunt quasi non fuerint, et nati sunt quasi non nati”.
Um poeta moderno aplicou, mui fielmente, esta triste observação a uma jovem vaidosa.

“Não viveu ela, morreu,
Só na aparência viveu”.[4]

Não deves vegetar, mas viver: viver verdadeiramente e não te contentares com as aparências de vida, de uma vida morta!
Convém notar que o ponto não está, de nenhum modo, em saber se tu fazes alguma coisa, mas se fazes tudo o que podes.
“O homem ignora as três quartas partes das suas aptidões e morre sem ter-se servido delas, como morre sem ter logrado a centésima parte das combinações intelectuais, como lhe permitiriam as quase infinitas aptidões do seu fecundo cérebro.
Assemelhamo-nos aos agricultores que vivem de um hectare de cultura, deixando ao abandono quinhentos hectares incultos”. (L. Daudet. Diante da dor).
O mesmo pensamento se encontra em William James (Rev. de Philos. abril de 1907): “Os homens colocam muito aquém de seu verdadeiro poder, as balizas da própria atividade.
A sua vida é muito mais restrita do que a sua capacidade. Este apoucamento do homem, por si mesmo, é muito para lastimar”.
“Este pessimismo… evita-o! Não hás de ser um diminutivo de homem, mas um homem de quem, verdadeiramente, se possa dizer: é um homem”.
Pensaste nesta verdade que, a humanidade conta poucos homens?
Onde há muitas pintarroxas, digamos assim ou maitacas…, poucas senhoras.
Onde há muitos canários, papagaios ou gaviões…, poucos homens.
Meu Deus! quanto bem se poderia fazer hoje em dia! Obras sociais, conferências, patronatos, obras de preservação, de instrução catequética, etc.
O apostolado do leigo pelo leigo é, por vezes, mais frutuoso. O sacerdote não poderia penetrar sem certos meios, desconfiariam estes homens de suas vestes pretas, e a lição sacerdotal, demasiado direta, os afugentaria.
Não é raro acontecer que o conselho vindo por um homem do mundo, de um homem como os demais, produza maior impressão.
Sê apóstolo.
Quando um herói retira alguma pessoa de um incêndio, de um precipício dão-lhe logo o título de “salvador”. Coisa mais bela é ser-se salvador de almas.
Deus pode, evidentemente salvá-las, sem nós. Mas na ordem moral da Providência, a causa primeira serve-se das segundas, e Deus quis que o homem se salvasse pelo homem, que se salvasse socialmente. “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocar Aquele em que não crê? E como crerá n’Aquele de quem não ouviu falar? E como há de ouvir falar, se não houver pregadores?” (Rom. 10-13).
Ora pregador não é somente o que fala do púlpito, com sobrepeliz e estola. Esta pregação é oficial, rara, não abraça senão uma porção diminuta de homens: a melhor.
Em verdade, é a cada homem que Deus confia este glorioso mandamento: cuidar de seu irmão, “Mandavit unicuique de proximo suo”. (Ecl. 17-12).
Dedica-te às obras sociais.
Enquanto andam mendigando dedicações, enquanto outros se sacrificam nesta tarefa, e os velhos lutadores se perguntam ansiosos, quem nos virá substituir, tu ousarias malbaratar a tua mocidade? Oh! como o tempo parece comprido! a gente vive aborrecida!”
Tens vinte anos, meu amigo.
Na cena do mundo, tens que ser ator e não infeliz palhaço, cujo aparecimento e desaparecimento, sem outras consequências, lembram aqueles de uma singela canção:

“Os palhaços dão, dão, dão,
Três voltas, depois se vão”.

Infelizmente, não conhecemos nós tantos palhaços?!

* * *
Além destas obras de misericórdia, deves aplicar-te ao estudo, que é, para o jovem tentado, um poderoso revulsivo.[5]
Deus me livre de querer dizer que todos os preguiçosos sejam imorais, ou que mereçam toda a confiança os que mais se distinguem numa aula, como acredores ao prêmio de excelência e ao de bom comportamento!
O que, porém, pelo menos, notamos em nossos colégios e com muita evidência, é que os preguiçosos estão mais expostos às sugestões do mal e que, pelo contrário, os “primeiros” têm em seu favor a “presunção” de pureza.
“Os jovens contagiados pelo vício, perdem o amor ao estudo. Torna-se este, para eles, como se tudo fosse logaritmos e grego, apenas caem nos engôdos da carne”.[6]
Produz o vício, além disto, uma influência nefasta sobre a memória e sobre a inteligência.
É fatal. Como se opera no organismo uma forte agitação nervosa, o cérebro é que se acha mais diretamente interessado.
Ora o cérebro é o órgão da memória sensível e também da fantasia, que precede todo o pensamento.[7]
A pureza aproveita, geralmente tanto ao entendimento no moço, como ao coração na moça. Dá à inteligência grande vigor e acuidade extraordinárias.
Conceder aos sentidos, é tirar à inteligência.
Subjugar os sentidos, é libertar o pensamento.
E o fato é tão notável que deu origem a este prolóquio (que aliás padece exceções): “o gênio é celibatário”.
“Os grandes guias de homens, os grandes credores de obras notáveis foram sempre castos, pois reservaram, em prol do seu dinamismo cerebral, aquela energia que os incontinentes esbanjam”. Estas palavras não são de um poeta ou de um pregador, senão do Dr. L. Delattré, Inspetor de Higiene, que em 1922 as inseriu em seu Relatório sobre um plano de educação moral e higiênica da vida sexual.
“Desejais ser sábio, perguntava o matemático Cauchy a um dos seus discípulos? Pois bem! antes de tudo, sede casto!”
E Michelangelo recomendava a continência aos artistas dizendo: “A pintura é tão ciumenta que não suporta rivais”.
Coragem, meu caro amigo! Ama as castas delícias do espírito.
“Meu Deus! de quantas alegrias nós nos privamos por causa de nossas intemperanças!…” (Joubert).

* * *
A par dos estudos nos colégios e acadêmias, há o estudo pessoal, o mais atraente, e os círculos de estudos, onde os jovens se encontram.
Bem ideado um círculo de estudos é encantador.
João Vézère o descreve no seu livro, O pecado deles: “É uma alegria doida, uma vivacidade endiabrada, tudo é mocidade, entusiasmo. Agitam os rapazes mais ideias, em dez minutos, do que, durante todo o serão, a sociedade que eu frequento, sociedade onde todos se enfadam!
Estão, fraternalmente, assentados à mesma mesa futuros médicos, futuros advogados e futuros jornalistas.
Não! ninguém se aborrece nesse meio! Vive-se duplamente! Tanto é o encanto que ali reina! Só mais tarde é que se economizam os gracejos. Mas quando se é jovem, é-se tão pródigo! A qualquer recém-chegado se patenteia ingenuamente, tudo quanto se agita e fervilha nesses cérebros e corações: teorias de arte, fantasias humanitárias, concepções filosóficas, brilhantes paradoxos, troças engenhosas, ambições patrióticas, preocupações sociais, projetos de dedicação.
Que bela mocidade! Que sã, que briosa e ativa mocidade!
Ah! esses corações de dezesseis anos, quando prematuramente não estão minados pelo ceticismo e estragados pelo vício, como transbordam de ideais gigantes!”

* * *
“Corações ingênuos, corações pueris sob certos aspectos, e sob outros tão profundos e tão sérios! Não têm eles já o egoísmo da criança, nem são calculistas nem refolhados como os homens. Deles brota uma fonte de vida que procura expandir-se, mais longe possível, pelo mundo.
Os males que nos afligem: pobreza, obstáculos, ruínas e perigos só servem para exaltar-lhes a coragem. Tendo eles toda a vida ao seu dispor, e indo colhê-la, como se colhe satisfeito a saborosa fruta, pendente de um ramo, longe de temerem a morte, estão dispostos a afrontá-la, sorrindo, contanto que seja gloriosa!
Nós raciocinamos sobre o sublime, eles o sentem, e, por vezes, o alcançam nos transportes de sua entusiástica admiração.
A glória impõe-se ao nosso respeito, mas neles desperta o vibrar de fanfarras!
Jovens! Fora mister não ter tido (verdadeiramente) dezesseis anos para não compreender vossa alma encantadora, como tudo o que não está arruinado, vossa alma ainda vivendo entre balbúcies e febres de entusiasmo!
Não vos conhecem, pois brincais como criança, e não sabem que um minuto depois, sois capazes de sacrificar o que de mais precioso tendes, para serdes heróis!”


[1]             As ocasiões não te hão de faltar. Será mister comprá-las com o teu tempo, o teu dinheiro e com tua pessoa. Além disto para te poupares desenganos, deves ter presente que: qualquer obra humana é fecunda em misérias humanas: equívocos, suscetibilidades, atritos, invejas, ingratidões sobretudo. Lados fracos das grandes coisas! Os covardes se descoroçoam; os generosos, sobranceiros ao reconhecimento e a recompensa dos homens, trabalham para Deus somente, que “é fiel” diz S. Paulo. Se te malbaratas por alcançar a gratidão dos homens… és digno de comiseração.
[2]             Por exemplo, quando não é o operário que concorre para os gastos de um retiro, mas são outros, já ele o aprecia e estima muito menos do que quando ele contribuiu com alguma quota, por pequena que fosse.
[3]             Como os de que fala o Evangelho; “Por que estais aqui todo o dia ociosos?”
         “Quid hic statis tota die otiosi?” (Math. 20-6). De tal moço bem se poderia repetir o que o proprietário da árvore estéril dizia: Por que está a ocupar a terra? “Ut quid terram occupat?” (Luc. 13-7). S. Mateus e S. Marcos narram a história da figueira estéril, amaldiçoada por N. Senhor.
[4]             A. de Musset: Estrofes a uma morta. H. Bordeaux desenvolve o seu pensamento em seu livro: O temor de viver.
[5]             “Enganam a fome do coração com as gulodices do espírito”. (G. Droz).
[6]             É demasiado frequente encontrarem-se jovens, vítimas deste tão grande mal (a impureza), que se tornam dissipados e preguiçosos nos seus estudos, ficarem por isso mal nos exames e preferirem uma carreira onde a vida lhes corra tão infecunda como pouco gloriosa. A inaptidão deles para o trabalho, prepara-os para irem engrossar as fileiras dessa raça tão pouco simpatia, a dos moços velhos. (Guibert. A Pureza).
[7]             É certo que o cérebro não produz o pensamento, como pensam os materialistas, mas neles se originam as fantasias de onde procedem (se não cronologicamente, ao menos lógica e entológicamente), o pensamento. Não é possível confundir-se uma causa com a condição, embora absolutamente necessária, da mesma causa.
         “Não podeis, diz o P. Lahr, na sua Psicologia, escrever um poema sem o auxílio de uma pena. E contudo a pena não é um poema”. Não podeis comprar alimentos sem o dinheiro e contudo o dinheiro não é o pão!
         Assim também a fantasia não é a inteligência, muito embora nós não pensemos sem ter formado antes a fantasia. Digo, “nós” pois esta condição não se tem lugar em todos seres, nem é essencialmente pressuposta por todas as inteligências. Deus e os anjos pensam sem o cérebro. Nós mesmos pensaremos sem ele, depois da morte e antes da ressurreição de nossos corpos. Mas esta condição é necessária para o homem na presente contingência do seu ser, unido ao corpo. Dão-se nele estes três fenômenos ou fases: a) Impressão sobre os sentidos: “Nihil est in intellectu, nisi prius fuerit in sensu”. Não se dá o fenômeno intelectual sem que haja o sensitivo; b) Fantasia no cérebro; c) Pensamento da inteligência. Como se realiza a passagem da segunda para a terceira fase? Mistério entre tantos mistérios! Ignoramos o como mas conhecemos o fato: Antes da operação intelectual realiza-se o trabalho cerebral. Por aqui se vê facilmente como, sendo o cérebro atingido por uma comoção, proveniente de excessos do vício impuro, também o pensamento, se ressentirá, porque a atividade do cérebro, que se supõe necessária, fica comprometida. A mesma consequência se nota em todos os casos em que o cérebro é atingido por um traumatismo, por um choque, por um desenvolvimento anormal, pelas fadigas, idade, etc, etc.
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