quinta-feira, 12 de maio de 2016

As desculpas dos derrotistas - Parte II

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


5.º Pretexto:

Insistem, porém, dizendo: por que há de ser lícito no matrimônio, o que é proibido, com tanto rigor, fora dele? Pode então a mesma realidade ser boa e má, ao mesmo tempo?

Pois não: é possível que dois atos idênticos na ordem material, sejam diversos na ordem moral, porquanto uma mesma coisa pode ser conforme ou oposta à ordem e consequentemente cair sob o domínio de uma lei que a ordena ou proíbe.
Comer carne é permitido na quinta-feira mas é proibido na sexta-feira.
Queimar incenso é excelente, quando neste ato se tem em vista a honra de Deus, é detestável, porém, quando feito em honra de falsas divindades. Um passo adiante torna-se merecedor do céu ou do inferno segundo significar a renúncia ou a adesão à Fé.
Não é, além disto, exato tratar-se de coisas identicamente as mesmas, no matrimônio e na união livre. Esposos cristãos não podem manchar as relações normais com práticas anticonjugais e anticoncepcionais.
O casamento proíbe, em vida de um dos cônjuges, contrair novas núpcias.
Prescreve não simplesmente esta união única mas exige, além disto, que ela seja indissolúvel.
Eleva esta união à dignidade de Sacramento.
Dos dois elementos do amor, o atrativo físico e o atrativo moral, o primeiro domina quase sempre ao princípio; vai-se, porém, pouco a pouco afrouxando, enquanto o segundo pode ir crescendo, e, por vezes, encontram-se esposos, já velhos, entre os quais não mais existe a febre passional mas sim a afeição serena e tranquila, baseada na longa comunidade de alegrias e de trabalhos e na perfeita intimidade dos corações.
O que, ao começo, parecia um tanto duvidoso foi-se depurando e o amor do fim da vida, acha-se todo espiritualizado.
E assim admiramos límpidos regatos, em que a lama se depositou toda deixando ver os seixinhos brancos, no álveo.
E, pelo contrário, nas relações do amor livre, a beleza desaparece e a união é logo quebrada!
É isto, pelo menos, muito frequente e também muito lógico, pois trata-se justamente de amor “livre”.
Combinam esta separação, muito polidamente, de comum acordo e à guisa de consolação, trauteiam esta cantiga:

O amor é — pássaro arisco
Ao qual ninguém domestica;
De cigano o amor é filho,
Qu’a lei sempre avesso fica.

6.º Pretexto:
O mundo não leva em conta estes preconceitos religiosos a respeito do amor livre. E ele, afinal, não é assim tão mau…

— Que erro! O mundo que zomba da moral, acaba por se colocar do lado da moral. Demos a palavra a P. Bourget no seu livro, “O Divórcio”.
Bertha Planat contratou sua união livre. Desde criança ouvia sempre o seu tio, republicano e radical, e o seu mestre socialista, a ridicularizarem o matrimônio religioso. Ora estes mesmos dois homens são os primeiros a reprovarem a moça. “Seu tio, o republicano radical e seu mestre, M. André, o velho professor socialista e, não obstante as suas doutrinas sob as imposturas da Igreja, a consideravam como desonrada”. Ela mesma embora tivesse o espírito impregnado de tais doutrinas, sente no coração o protesto da verdade e do dever desprezados: o que Tertuliano teria chamado: o testemunho da alma, naturalmente cristã.
“As conclusões, mais habilmente deduzidas, nunca chegarão a destruir inteiramente a evidência imanente de algumas leis inscritas, pela natureza, nos recônditos da nossa personalidade moral.
Um pai poderá negar a família; o seu filho, porém, não será, para ele, um homem semelhante aos demais. Um cosmopolita poderá negar a pátria; os horizontes que o viram nascer, nunca, para ele, serão semelhantes aos demais. Do mesmo modo, uma moça poderá ter recebido uma educação imbuída de ideias revolucionárias, estar eivada dos piores paradoxos, ter votado ao desprezo todas as convenções sociais e em particular as relativas ao matrimônio, ter proclamado e, ainda mais, praticado o direito de união livre; bastará o despertar-se, em sua alma, a chama de um amor sincero, o haver-se entregado a outrem, sem Sacramento e sem contrato algum, para sentir em si, uma vergonha inata, como se fosse um pesadelo”. (Cap. IV).

7.º Pretexto:
É necessário deixar passar a mocidade!

— O que seria necessário é que ela nunca passasse.
Será possível?
Sim, mas o único meio de conservar uma perpétua juventude, está exatamente em guardar uma perpétua castidade.
O sacerdote coberto de cãs, cujas mãos, já trêmulas, seguram o cálix sagrado, pode dizer, cada manhã: “Subirei no altar do Senhor que consola a minha juventude”.
A idade verdadeira é a do coração.
Aos oitenta anos, o coração pode ainda sentir vinte, apenas.
E, pelo contrário, para certos devassos, o corpo não conta ainda vinte anos e já o coração, abominavelmente velho, passou dos oitenta.
Meu caro amigo, que tanto te ufanas da tua bela mocidade, não malbarates os teus belos anos, como os deuses do Olimpo malbaratavam, em suas festas, a preciosa ambrosia.
Estás exatamente na idade que decidirá do teu futuro.
A vida do homem não é mais do que a imagem fiel de sua mocidade a realizar-se em sua virilidade. Estás na quadra da existência, em que se semeia, para se recolher o cento, em terra tão fecunda.
Se semeares pouco, pouco recolherás.
Rica semeadura, rica messe.[1]

8.º Pretexto:
Vós já não compreendeis certas coisas.
Permiti dizer-vos: já estais muito velho.

— Tu não compreendes ainda certas coisas. Permite-me que te diga: és ainda muito jovem.
“O juízo habita, ordinariamente, em frontes calvas”.
Pouco decoroso é para ti, que tendo tão farta cabeleira, o teu juízo esteja em razão inversa dos teus cabelos.

9.º Pretexto:
Desejo saber tudo, e por mim mesmo.

— Sim! tudo? Por exemplo a ferroada das vespas ou a mordidela de um cão danado? Já experimentaste o veneno duma cascavel? Não te esqueças de o fazer inocular, em ti, o mais depressa possível!

10.º Pretexto:
Já não sou uma criança.

— Demasiado se deixa ver que falas a pura verdade.
És já um homem, ora por isso mesmo, deves lutar.

11.º Pretexto:
Ninguém saberá nada.

— Deus o saberá.
E tu mesmo te hás de envergonhar de ti próprio.

12.º Pretexto:
Isso não passa de ninharias.

— “Não passam de ninharias, dizes?!… Mas a questão é saber se Deus as terá por ninharias, como tu, e se ao compareceres ante o divino tribunal, as terás ainda por tais”. (Bourdaloue).

13.º Pretexto:
Quero viver à vontade.

— Perfeitamente.
Mas não te esqueças que, verdadeiramente livre, só é o homem casto!
São Paulo escrevia aos Gálatas: “Conservai-vos naquela liberdade que Jesus Cristo tinha em vista, quando vos libertou. Sim, caminhai segundo o espírito e não segundo a carne”.
“Gozamos uma grande liberdade… onde está o Espírito do Senhor aí está a liberdade”. (2 Cor. 3-13 e 17).
“Entregastes vossos membros como escravos à impureza e à injustiça… Éreis escravos do pecado. Que fruto colhíeis vós então, de coisas que agora vos fazem envergonhar? Pois o fim de tais coisas é a morte. Mas agora, libertos do pecado, vos tornastes servos de Deus, e tendes por fruto a santidade e por fim, a vida eterna”. (Rom. 6-19).
Desejo que a nossa alma “se liberte do jugo da corrupção, para ter parte na liberdade gloriosa dos filhos de Deus”. (Rom. 8-20).
O Salmista exclama: “Bendito seja Jeová! Nossa alma, como o pássaro, se libertou dos laços do caçador, o laço se rompeu e nós nos livramos”. (S. 123).
O impudico é escravo da paixão.
Santo Agostinho muito bem o declara em suas Confissões: “A luxúria, semelhante a uma perversa rainha, estendeu sobre mim, seu cetro despótico e eu lhe apresentei as duas mãos para serem manietadas”.
Qual a paixão mais tirânica?
A morfinomania? Não!
A mania de beber? Não!
É a impureza.
O desgraçado, escravo do pecado carnal, acaba por cometer o mal sem prazer, envergonhando-se mais do que gozando.
Rapazes cobertos de vergonha, desesperados, chegam a desejar, como solução covarde, o libertar-se desse pecado, pela morte.
Mastigam e ruminam o rancor por todas as suas sucessivas derrotas.
Os anos vão-se acumulando e o arrocho, mais e mais, se vai apertando.
Já se sentem envelhecidos! e, lugubremente, cobertos de suor frio, se esforçam ainda por “gozar”. “Vamos morrer. Avante! gozemos depressa a vida!”
Costuma dizer-se: o vício é o mais déspota dos déspotas, e como há condenados a trabalhos forçados perpétuos, assim há também prazeres forçados por toda a vida! Compadeçamo-nos deste calceta — o escravo do prazer.
Verdadeiramente, aquele infeliz vendeu-se a um senhor cruel e tirano.
Satanás reina agora na alma daquele voluptuoso.
Na Rússia bolchevista, ergueram uma, estátua a Satanás.
O luxurioso ergue-a, sobre um pedestal no seu coração.

* * *
Se o infeliz não se contenta com pecar consigo mesmo, mas contraiu relações culpáveis, então abdicou mais ainda da sua liberdade.
Psichari, no seu livro, Viagem do Centurião, narra como Maxêncio vencedor, escolheu uma escrava ligando-se a ela.
Ouvi-lhe a apreciação: “Tornou-se escravo desta escrava”.
Para se empregar o termo em voga, o homem entrega-se à sua “patroa”.
Palavra significativa! que vem consequentemente a designar que o homem se tornou um criado.
O Eclesiastes nos põe de sobreaviso:
“A mulher cujo coração e uma armadilha, é um laço,
E cujas mãos são ataduras;
O pecador será enleado por ela”.
As cadeias de flores podem ser mais fortes que as de ferro: e uma mulher é que, falando destas peias do amor, notou que: “quanto mais leve é a cadeia, tanto mais é sólida”. (Cond. de Tramar).
A prisão de varões dourados, é sempre uma prisão!
Compreendeis bem a profundeza deste ditado: o castigo dos que, sendo jovens, amaram mulheres, é de continuar a amá-las sempre.
É a vergonha e o ridículo desses D. Joãos caducos! Semelhante é o caso em Sapho, do artista Potter, fazendo a João Gaussin sua confissão: “O que vedes hoje talvez vos possa servir de lição. Eu, há já vinte anos que vi Rosa: vinte anos há, que, ao voltar da Itália, entrei no hipódromo, uma tarde, e a vi de pé em seu carro, ao regressar da pista, chegando-se a mim com o chicote levantado, com o capacete em pontas de lança e a sua cota de escamas de ouro… Ah! se m’o tivessem dito!…” Sim, lhe tivessem dito que vinte anos depois ainda seria escravo desta escudeira de circo que ele despreza e detesta.




[1]             2 Cor. 9-6: “O que semeia pouco, pouco recolherá; o que semeia abundantemente, colherá abundantemente”.
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