quinta-feira, 12 de maio de 2016

As desculpas dos derrotistas - Parte I

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


As desculpas dos derrotistas 

A covardia, durante a guerra, achou-se representada por três tipos diversos: os emboscados, os desertores e os derrotistas.
Como eles, mesmo assim, veem bem com o restozinho de coração que lhe fica, não ter sido glorioso o que então praticaram por isso tentam apresentar agora suas desculpas.
Pretextos esfarrapados e andrajosos!
A pureza, conta também, entre os seus combatentes: os emboscados, os desertores e os derrotistas.
Também eles procuram desculpas e pretextos.
Ouvi:
1.º Pretexto:
Sem conta são os que assim procedem.

Primeiramente, sabes dizer-me como se qualificam aqueles que praticam uma ação só porque os outros a praticam?
— Um cirano? Não é bem isso.
Quadra-lhes bem o título de carneiro de Panurgo: mé… mé… mé!…
Porventura a velhacaria dos outros desculpará o teu indigno proceder?
Um desertor ficará absolvido, no tribunal militar, só porque houve mais traidores do seu quilate?
Deixará de ser vil, o traidor só porque houve mais traidores como ele?
No juízo final, serás recompensado ou condenado de modo absoluto e não de um modo relativo; quero dizer, conforme o testemunho da tua própria consciência; e Deus não te há de perguntar se teus camaradas praticaram ou deixaram de praticar a virtude.
O teu veredicto nada tem com alheio.

2.º Pretexto:
Existe a moral do prazer: chama-se hedonismo e tem bons defensores.

— Pois não! Foi propugnada por Aristipo de Cirene (380 anos antes de Cristo), por Epicuro, aliás um tanto caluniado… (341-270); no século XVIII pelos enciclopedistas como Helvetius, o barão d’Holbach, Saint-Lambert, no século XIX por Fourier, e no século XX pelos corifeus da “moral independente”.
Os nossos autores modernos só repetem o que já disseram os antigos.
É incrível passar por novo o que já é tão velho!…
A moral do hedonismo é tão velha como as paixões humanas e tão vil como elas.
Terá sempre por defensores os libertinos.
Terá sempre contra ela a consciência humana e a lei divina.

3.º Pretexto:
Diminuto é o número dos jovens que observam a outra moral, — a da castidade.

— Que sabes tu disso?
Um só homem é que poderia julgar com conhecimento de causa: o confessor.
Ora, se ele pudesse falar, dir-te-ia que, a par de muitas misérias, há também muitos heroísmos.
Posso jurar-te: por centenas são os jovens que combatem, vitoriosamente: por centenas são também os que, embora tenham caído, se confessam.
Há, sim, fraquezas, mas há também arrependimentos.
Afinal de contas, há dois modos de ser bom: não cair nunca e levantar-se sempre.
Alguns dentre os moços, que infelizmente sucumbiram, lutaram valentemente por muitas semanas. O homem severo olha simplesmente aquela queda final, o justo Juiz considera as duas fases da crise: a queda, está claro, e também as centenas de vitórias que a precederam.
Nada é mais fácil do que abrir a boca e dizer: “já não há mais virtude”.[1]
É, não há dúvida, um afirmar sem refletir.
O que é verdade é que, o escândalo desperta maior atenção que o bem.
Infelizmente, é sempre assim.
Três infelizes, que se deixaram seduzir pelos alemães, chamam mais atenção do que as noventa e sete que se conservaram nobremente honradas.
Dirão: “Estas últimas só cumpriram com o dever”.
Muito de acordo! Mas cumpriram-no e são numerosas! Ainda é belo e, por vezes, heroico se cumprir com o seu dever! Os mártires, também eles, não fizeram mais que cumprir com o seu dever.
Somos facilmente levados a relembrar a exceção escandalosa, de preferência ao grande número dos que procedem corretamente.
Se o mal assim nos impressiona é por ser ele a perturbação da ordem, enquanto que a virtude é a conformidade com a ordem. O bem pode-se definir: o que deve ser sempre assim.
O anormal provoca mais a curiosidade do que o normal.
Quando um caixeiro foge com os valores que lhe foram confiados, logo os jornais publicam o escândalo.
Nenhum jornal, porém, se lembra de colocar, numa entrelinha qualquer, e anunciar: “Referem-nos que em tal cidade, um caixeiro não fugiu com os dinheiros do patrão!”
Acrescentai que o mal é chocalheiro.
A virtude é discreta.
Um bolchevista que parte os vidros de um mosteiro, produz maior sensação do que dez carmelitas que se imolam, um ano inteiro, no silêncio de suas austeras celas!
Aplicai estas observações ao caso de que nos vamos ocupando: um único “estroina” chama a nossa atenção mais do que vinte e cinco rapazes, que se conservam inocentes e cujo lutar passa despercebido.
A indisciplina dos costumes é mais notada do que a vida moral.

4.º Pretexto:
Onde está o mal? Deus deu-nos os sentidos e as faculdades para nos servirmos delas e não proíbe a satisfação que, por elas, nos possa vir.

Luc Mariam, em seu opúsculo “As almas livres” responde: “Sim, Deus permite usar o nosso corpo, mas de conformidade com a sua lei; e assim não nos é lícito usar de nossa força muscular para atos brutais, para oprimir o nosso semelhante ou para o suicídio. Ora a lei de Deus regula o uso dos órgãos, tendo em vista tanto o bem privado como o bem social. Se estabeleceu que um determinado ato, necessário à vida social, fosse no individuo causa de um prazer, foi para atrair os homens para a realização desse ato, que teriam evitado ou abandonado, se fosse doloroso ou indiferente.
Deus, que permite o prazer, quando este ato pode normalmente produzir o seu efeito social, proíbe-o fora desse caso.
O prazer não é, pois, sempre mau, é algumas vezes até lícito, em razão dos encargos eventuais subsequentes, com ele, relacionados. Mas quando o ser humano se põe em estado que não possa alcançar o efeito normal deste ato, ou o não pode alcançar senão transgredindo as leis santas da família, subverte o plano de Deus; quer o prazer só pelo prazer, o gozo sem os encargos, e assim se põe fora da ordem e em estado de pecado”.



[1]             Não se há de cultivar o ceticismo. Os lábios de vinte anos foram feitos para o belo sorriso, e não para o fel do desalento. Evitai a crítica, lembrando-vos de que ela “é a arma dos covardes”. (La Bruyère).
         Há indivíduos que vivem a deprimir sempre as coisas e as pessoas; estão, por assim dizer, marcados com o sinal algébrico menos”. (L. Daudet). A crítica! essa mania coletiva! Praga do mundo!
         Pois bem! Corrigi-te, sê perfeito e se cada um operasse assim, varrendo a sua testada, o mundo seria excelente. É o conselho profundo de P. Bourget para o francês que anda a chorar os males da sociedade contemporânea: “Cura a França, em ti”.
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