sexta-feira, 20 de maio de 2016

A VITÓRIA - Para remediar a derrota

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


A VITÓRIA

Para remediar a derrota 

Um vencedor terá experimentado os seus revezes momentâneos.
Mas não capitulou jamais entregando as armas.
No combate da castidade, é de máxima importância guardar sempre intacta a confiança em si.
Qual é o maior perigo para quem já experimentou essas frequentes fraquezas da carne? É o dizer: “já é muito tarde!” O pobre desalentado chora dizendo: Sou um daqueles que os teólogos chamam de consuetudinários ou habituados.

Procurei levantar-me e, novamente, cai. Depois daquele retiro, daquela confissão, conservei-me casto durante três semanas, um mês. Depois o vício tornou-me de novo. Oh! como é cruel o tal vício! O que ele escraviza, ser-lhe-á sempre escravo. Não há mais a quem apelar. Meu confessor não se cansa de animar-me: está bem no seu papel, mas vejo que a emenda me é impossível.
Meu caro amigo, é o “piú non posso”, o não posso mais, das almas cansadas de que fala Dante em seu “Purgatório” (X. terc. 44).
Já tinhas dito: “é impossível conservar-me casto”.
Agora dizes: “é impossível reaver a castidade”.
Não, não e não! Tantas vezes não, quantas são as letras deste livro.
Já refutamos a tua objeção, meu fracalhão.
A palavra impossível não é francesa (nem portuguesa), garante-no-lo um vulgar prolóquio.
Ah, sim, o heroico “valor nacional”, por vezes, fraqueou ante a superioridade numérica ou ao troar de possante artilharia.
Mas a palavra “impossível”, não é cristã.
Deus não fez, nem podia ter feito que o erguer-se depois da queda, fosse coisa impraticável.
E além disso a sentença filosófica é evidente: A existência de uma coisa é a melhor prova da sua possibilidade! “Ab esse ad posse valet illatio”. Ora existe esta prova de ressurgimento moral!
Lê, com atenção, as Confissões de S. Agostinho e a vida de S. Maria Madalena.
Quantos se libertaram das suas misérias, das suas abominações e reformaram admiravelmente sua alma!
Há puros e também purificados.
Pensas acaso, que és o primeiro moço a quem tocou tão grande desgraça? Por centenas e centenas se contam os que, hoje, são castos mas que outrora assim não foram.
Na Igreja há os limpos mas há também os chamuscados: há os intactos mas também os cicatrizados.
Muitos poderiam repetir como o poeta:
“… Do longo combater, que maculou minha alma.
A cor perdi, não a vitória!” (V. Hugo).
Querer é poder! “Possuímos com a vontade, grande força de adaptar, de recompor e de refundir sem, por vezes, percebermos sua alta importância. Chamo aplicação da vontade, não ao fato de se repetir: “eu quero” serrando os dentes e apertando os punhos, mas ao exercício quotidiano, forte, preciso, dirigido a determinado fim. A assiduidade e a atenção são dois endireitas de primeira ordem”. (L. Daudet: Diante da dor).

* * *
O principal remédio para o doente (ou para o vencido) é a esperança.
O Dr. Dubois, de Berne, publicou um livro inteiro “As psiconevroses” para mostrar como entre os psiconervosos, não é bem o poder de execução que entra em jogo, mas a idealização ou volição, e por isso o remédio deve ser uma cura radical de sugestão e a convicção, lentamente infiltrada na alma, da possibilidade da cura.
Tem-se abusado da cura medicamentosa, assegura aquele médico, e tem-se desprezado a cura psíquica. A confiança representa o dinamofânico.
Note-se bem o termo: não dinamogênico (gerador do poder) mas dinamofânico (revelador do poder que em nós existia, em estado latente).
Este estado latente é uma realidade que é preciso engodar e despertar.
“Indivíduos há, cuja incapacidade já é inveterada, mas acontece reaverem uma alma vigorosa só com uma conversação psicoterapêutica”. (Eymieu).[1]
Avante, pois!
“Em questão de energia, ousa escrever P. Bourget, valemos mais ou menos tanto quanto nos julgamos valer”.[2]
E, pelo contrário, tornamo-nos realmente impotentes, na proporção do juízo que formamos da nossa impotência: incapacidade por autossugestão!
Napoleão I, prático em artes de vencer, afirmava: “A confiança é, sem dúvida, a metade do triunfo”.
Se isto se verifica nos campos de batalha, em que tudo necessariamente está dependente do número de baionetas e de canhões, com maior razão há de verificar-se nas lutas interiores da virtude, porque a sorte delas só depende do poder da vontade.
O axioma de Napoleão I foi retomado pelo Napoleão moderno, Foch, que o amoldou nos moldes de aço duma equação: “vitória=vontade”.
Tem presente, meu caro amigo, estes dois princípios:
Toda a derrota facilita a subsequente derrota.
Toda a vitória facilita a subsequente vitória.
“A castidade diz o Dr. Hyrtl de Viena, é difícil. Cessa porém de o ser, à medida que é observada”.
Por quê? Porque tanto no mundo moral como no físico, se realiza a teoria de Lavoisier: “Nada se cria, nada se perde”.
Assim, o triunfo não se opera de súbito em nós; sempre algo de fraco há de ficar.
Mas se uma vitória interessa às demais, é necessário levar, em muito boa conta, a importância especial dos primeiros sucessos.
Deu-se uma associação de imagens entre a tentação impura e a queda.
Pois bem! quebre-se esta soldadura, e obter-se-á a desassociação delas.[3]
Alcançou-se portanto a consciência de que é praticamente possível sair-se vencedor.
Porque não hás de então notar este resultado?
“Hoje resisti, resistirei também amanhã”.
Guardas então a prova escrita da tua generosidade, e assim a convicção entra, por assim dizer, em ti pelos dedos que escreveram esta fórmula concreta.
Assim Stanley, andando em busca de Levingstone, pela África, escrevia, nas tardes de seus abatimentos morais, esta sentença forte e altiva: “Hei de encontrá-lo, sairei deste estado miserável. Quero-o”.
Escrevia isto para reaver a coragem servindo-se para isso do processo verbo-visual e verbo-motor.
Escreve tu também: “Deixarei minhas misérias. Quero-o”.
Tinhas gravada em ti a convicção da tua derrota.
Deves substituí-la pela convicção contrária, a da tua vitória. Hás de gravar no pensamento esta segunda ideia fixa, que desalojará a primeira, do mesmo modo que “um prego expele outro prego”.

* * *
O ponto está em começar.
Em muitos sanatórios fazem, hoje, esta experiência curiosa.
Há pensionistas que ou por efeito dalguma nevrose, proveniente da guerra, ou por qualquer comoção violenta, julgam-se tomados de paralisia. Na verdade não há senão um imperceptível ponto de incapacidade, em meio de uma forte dose de autossugestão de impotência. Mas tamanha é a reação do psíquico sobre o físico, que o paciente torna-se realmente paralítico.
Coloca-se então o doente diante de uma mesa, onde, mui a propósito, deposita-se alguma coisa que ele muito apetece.
É coisa sabida ter cada um de nós o seu fraco: licores, cigarros… doces… guloseimas… para o qual o livre arbítrio naturalmente descai… O médico, naturalmente averiguou qual fosse a tal propensão do doente.
O objeto apetecível será colocado pertinho do doente, a um centímetro apenas distante de suas mãos.
Contemplai este quadro! O doente vai pensando: É triste, realmente, estar assim paralítico! Não posso, nem ao menos, tomar esses docinhos de que tanto gosto!… Mas tão grande é a cobiça que afinal consegue fazer o esforço ingente deste único centímetro e assim alcançar o que deseja.
Ter vencido este espaço de um centímetro, é um verdadeiro esforço, é enorme!
No dia seguinte, afastam o objeto a dois centímetros. O mesmo desfalecimento, a princípio e o mesmo sucesso final.
És bastante inteligente para adivinhar o que depois se dará: o objeto sucessivamente colocado a três, dez, vinte centímetros, afinal, é sempre alcançado.
O pseudoparalítico está curado.
Quando se trata da virtude e sobretudo da castidade, quantos pseudoparalíticos! “Eu não poderei mais tomar pelo caminho da generosidade! Sinto-me tomado de uma forte paralisia ou, pelo menos, é uma hemiplegia”.
Fá-lo este esforço inicial e então compreenderás a verdade do prolóquio: “o ponto está em começar”.
A este propósito, eis o que um médico, professor da Universidade de Lund (Suécia) o Dr. Seved Ribbing, traz em seu livro:[4] “Recebi muitas confidências de jovens estudantes… Censuraram-me não ter insistido mais, sobre a facilidade com que os desejos dos sentidos, podem ser dominados”.

* * *
O fim poderá alcançar-se imediatamente?
Isto exclusivamente, de ti, depende.
A vontade, auxiliada pela graça, pode libertar-te radical e definitivamente dos hábitos, até mesmo, inveterados.
Para outros a emenda será progressiva. “A vontade tem de robustecer-se até dominar esta nossa mole e fraca natureza, como a Holanda conquistou ao mar o seu território, palmo a palmo e dia a dia.[5]
O estio vence o inverno por uma ascensão lenta e certa, não obstante perdas parciais e recuos.
A verdadeira coragem é ter paciência.
Todos precisam dela: o santo, o sábio, o gênio, o prisioneiro, o soldado.
O santo: é necessário muita paciência com todo o gênero de pessoas! mas a pessoa com quem se há de ter mais paciência é consigo mesmo! Assim fala S. Francisco de Sales.
O sábio: perguntaram a Newton, como lhe fora possível encontrar a lei da atração universal. Respondeu: “Pensando sempre nela”.
O gênio: É “uma longa paciência”.
E a virtude então?
Nada se improvisa. É princípio muito conhecido: uma obra tanto vale quanto sacrifício representa.
Coisa prematura, coisa precária, pois o tempo não costuma respeitar o que se fez sem ele.
Jesus Cristo no-lo afirma na parábola do semeador: os grãos que germinaram depressa, secaram-se depressa, pois não tinham raízes: “Quia non habebant radicem, aruerunt”. (Mat. 13-6).
A flor da santidade não cresce senão em terra lentamente amanhada e que o subsolo seja rico para que possam penetrar suas raízes.
O prisioneiro: quando não pode romper, de uma vez, suas cadeias, vai limando-as. Aplica-te este princípio: “Lenta limadura na falta de quebradura”.
O soldado: Nossos valentes jovens alcançaram sem fadigas a vitória? Durante quatro anos, foram ganhando palmo a palmo o terreno (quando o ganhavam!…) uma trincheira por vez, quando não era apenas uma polegada de terreno!
Ao princípio, pode ser que não avance mais do que se avançava no Yser. E, que queres? há inimigos que só se vencem “roendo-os”.
Rói, meu amigo, rói sempre!
O rato de Lafontaine, que assim roía, acabou por desfazer as malhas da rede.
Assim tu também te desembaraçarás de outras redes… e que por serem de seda ou de ouro, não deixam por isso de ser redes!…

* * *
O importante é alimentar a confiança.
Por que a perdem?
Pela simples razão de se prever demais. “Como? Hei então de lutar pela pureza amanhã, e no outro dia, na semana seguinte e por todo o mês, e cada ano, e por todo o sempre?”
Não há mais nocivo à coragem do que tornar presentes, todas juntas, as dificuldades do futuro.
Imagina o que seria se tivéssemos previsto toda a longa duração da guerra! Muita gente se teria suicidado.
E, contudo, conseguiram manter-se firmes. Viveram com muita economia, viveram de esperanças e de rutabagas; mas afinal viveram.
Desculpa-me uma comparação, muito familiar. Se um homem pudesse contemplar por um instante tudo quanto ele deviria comer por toda a vida, ficaria espantado! Comboios de víveres! “Hei de digerir tudo isto?” E quanto à bebida? ficaria consternado: “Mas afinal eu não sou um tonel nem um sorvedouro!”
Paciência!
Será muito feliz, almoçando pela manhã e jantando ou ceando depois.
No seguinte dia, sentirá a mesma necessidade de se nutrir; e afinal a prodigiosa quantidade de pão, carne, legumes, etc. terá sido toda ela assimilada.
Mas tudo isso, pouco a pouco, despachado a retalho! bocado por bocado! Assim sucede com o enorme conjunto das dificuldades.
Não prevejas demasiadamente!
Essas dificuldades irão aparecendo, pouco a pouco com as graças do estado correspondente, que vós ainda não possuis.
Obedece ao conselho do divino mestre: “A cada dia basta o seu trabalho”.
Vejamos! não alcançarias manter-te casto até amanhã de manhã? Amanhã, cedo farás nova comunhão que será um novo viático para um novo caminho!
Sê puro, dia por dia!
Conserva a castidade durante vinte e quatro horas!
Corta a dificuldade e sairás vencedor! “Divide et impera!”
Este segredo da vitória está exposto numa história da guerra, escrita por R. Bazin.
Uma francesa viu seu marido deportado, seu filho morto e sua casa saqueada. Todas juntas estas desgraças, como assim?
Mas manteve-se sempre forte.
R. Bazin perguntou-lhe: Que remédio para alcançar tão grande coragem?
E ela, a boa filha de França, respondeu-lhe: “Recebo cada dia o pão que necessito pedindo a Deus que vem morar em mim: dai-me a coragem por espaço de vinte e quatro horas! e amanhã a mesma coisa”.
Deves imitá-la, meu caro amigo.
Recebe cada dia o Pão que te é necessário, dizendo a Nosso Senhor que vem morar em ti: “Necessito de coragem, meu Senhor, por vinte e quatro horas! e amanhã a mesma coisa”.




[1]             Sobre esta revelação de energia, sobre esta transição do virtual ao atual, acrescenta o mesmo autor: “Há pessoas que, por algum tempo, se tornam espirituosas quando se embriagam. Será o álcool realmente capaz de nos dar faculdades, que não existiam em nós? Não! Ele só suprime os obstáculos, nossa timidez, nosso desejo de mantermo-nos corretos e reservados. Se sob a influência do álcool, do café, do entontecimento que resulta da alegria, um homem se apresenta espirituoso, podeis estar certo de que ele, de ordinário, se não manifestava é porque se achava inibido por estados concomitantes d’alma que se opunham à exteriorização destas faculdades nativas… Uma animação provoca essa renovação de potência”. (Eymieu).
[2]             Falando deste modo, nada mais fazia do que repetir o que já dizia Virgílio: “Possunt quia posse videntur”. (En. L. V).
[3]             Seja-me permitido indicar duas aplicações especiais, mas muito sugestivas, do mesmo princípio. Na escola de aviação quando o piloto sofreu algum acidente, ao ascender ou aterrar obrigam-no, se está em condições de o fazer, a recomeçar a experiência. Tem isto por fim quebrar, no começo, a associação de imagens que se faria na sua imaginação impressionável entre o tal exercício e o acidente ocorrido. Até mesmo para amansar animais se emprega idêntico processo. Quando um cavalo se espanta numa passagem perigosa ou ante qualquer obstáculo, obrigam-no no mesmo instante repassar aquele lugar, sem o que se formaria na memória dele (pois os animais têm como nós a memória sensível) uma associação de imagens entre o lugar e o pavor que o fez recuar e saltar.
[4]             L’Hygiène sex. et ses conseq. morales.
[5]             Citado por Luc Miriam: Les âmes libres.
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