domingo, 22 de maio de 2016

A Estratégia da defesa / 1.ª Arma: a Comunhão

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


A Estratégia da defesa


Descrevemos a tática do mal, falemos agora da tática do bem.
O arsenal do vício está muito bem provido de terríveis engenhos bélicos.
O arsenal da virtude possui também suas armas defensivas.
Entremos a examiná-las:

1.ª Arma: a Comunhão

O Salutaris Hostia!
Bella premunt hostilia,
Da robur.

Ó hóstia de Salvação!
A guerra nos oprime,
Dai-nos força.


Em tempo de guerra, é necessário empregar as armas mais poderosas, e não se obstinar em querer usar os morteiros antigos, e a velha artilharia de pequeno alcance.
E tu, meu caro amigo, no combate da pureza, bem sabes qual seja a arma das armas: “a Comunhão”.
O demônio vem assaltar-te?
A devoção eucarística será como o fogo de trincheiras, que impede a Satanás chegar-se a ti.
Queres ser valente? Lembra-te que comungar é incorporar, em ti, a coragem no mais elevado grau, é alimentar-te com a Força!
Os primeiros cristãos conheciam isto perfeitamente.
Açulavam contra eles os leões no circo romano, mas eles, “leões a vomitar fogo”,[1] os arrostavam, valorosamente.
Graças a quem? À sagrada Comunhão que recebiam todas as manhãs.
“Não vos admira, exclama o Pe. Van Tricht numa conferência sobre a Eucaristia, não vos entusiasma o sublime espetáculo dos primeiros séculos e das primeiras perseguições da Igreja? Os cristãos de então, corriam para a morte como para uma festa! Retalham-os, atenazam-os; derramam-lhes chumbo pela boca, lançam-os aos ursos, aos tigres, aos leões. Esses homens, essas mulheres, essas donzelas, não recuam”.
A explicação, continua ele, é a Santa Comunhão.
Vós, ó jovens, que também deveis combater, não já em arenas de circos mas na arena de vosso coração, ide procurar o valor na Eucaristia.
O que fez Jesus Cristo para revestir de força o pobre coração humano?
Uniu-o a si, por magníficos laços, como os antigos gauleses, na véspera das batalhas se acorrentavam para melhor se defenderem e juntamente vencerem o inimigo.
“Laços magníficos!…” Melhor ainda: “comunhão” isto é, união íntima, compenetração de Deus e do homem!
Estamos “misturados com Deus”, para repetir a expressão que S. João Crisóstomo usa seis vezes, numa mesma homilia (Hom. 60, ao povo de Antioquia).

* * *
Mantenhamos, para os diferentes meios com os quais purificamos e saneamos nossa alma, a sua própria importância.
A comunhão porém, avantaja-se a todos.
E por que? porque comungar é beber a santidade, não já em alguma derivação ou regato, mas na mesma fonte.
Nada há que mais nos torne perfeitos cristãos do que o mesmo Cristo, em pessoa.
Comungar é como enxertarmo-nos em Cristo,[2] é enraizar a nossa pequena vida humana na grande vida divina.
Não substituas nunca a devoção por excelência por devoções.
Nenhum processo químico poderá, jamais, substituir a vida.
Ora comungar, é receber a vida.
Todas as outras práticas de piedade, todos os outros meios para conservar a inocência da alma, se podem comparar com a devoção eucarística, como não se comparam alguns raios de luz com o grande foco solar.
Será sempre mui glorioso a Pio X ter trazido, ao seu verdadeiro princípio, a vida cristã e ter endireitado seu eixo, que tentava deslocar-se. Pelo grande Pontífice a piedade ficou bem “centralizada”.
Colocai num prato de balança todas as boas obras, todas as mortificações dos monges e em outro, uma única Comunhão, santamente recebida. Nesse segundo prato, tereis colocado um peso muito maior, porque nele depositastes o mesmo Deus.

* * *
A Comunhão é a divina terapêutica, preventiva ou curativa.
Preventiva: ela é, diz um bom sacerdote, ainda vivente: “o soro, que impede os terríveis efeitos dos bacilos impuros”.
Curativa: certas doenças, curam-se com a transfusão do sangue.
Ele, o divino Médico de nossas almas, faz-nos, cada manhã, a magnânima proposta: “Recebei, isto é meu sangue”.
Estás fraco? Bebe, inocula em tuas veias este Sangue divino!
Estás débil? Come! “Ego sum cibus grandium”.
Meu Deus, nesta união, sou eu quem tudo ganha: “Non Tu mutaberis in me, sed ego mutabor in Te”. (S. Agostinho). Vós, Senhor, não ides humanizar-vos, mas sou eu que me vou divinizar.
Opera-se, se assim posso dizer, uma divina osmose.
Comerei, pois, o Pão, este ótimo Pão nosso, o Pão supersubstancial.
E o comerei não uma única vez, mas todos os dias, para que a cura seja radical.
Não desejo ficar meio curado, como o insensato, que diz: “O médico expulsou a tuberculose dos meus gânglios, dos meus rins, de meu fígado. Basta isto.
Sei que existe ainda um foco no pulmão. Pouco importa!”
Comungarei, não porque sou puro mas para sê-lo, não porque esteja em perfeita saúde mas porque busco a saúde.
Quando procuras o médico? Não é quando te sentes bem, mas quando estás doente.
Jesus bondoso, Jesus médico dos corpos e das almas, Vós me haveis de curar.
Nos dias do vosso viver na terra, entre nós, éreis bom, tão bom!
Curastes o pobre leproso (Mat. 8-1).
Que horrível lepra é a impureza!
Curastes um homem, que tinha a mão seca (Marc. 3-1). Eu tenho o coração árido e seco!
Curastes o desventurado cego (Luc. 18-35). Eu também repito o que ele dizia: “Senhor, que eu veja”. Há coisas, que se não distinguem senão com os olhos puros, e eu sinto uma catarata nos olhos!
Curastes aquela pobre mulher que, “havia dezoito anos, andava curvada e não podia olhar para o alto”. (Luc. 13-10).
Há muito tempo que minha alma se acha curvada e não mais pode olhar para o alto!
Curastes aquele paralítico que sofria, havia, trinta e oito anos (Jo. 51-1).
Atentai no mal inveterado de meus tristes hábitos.
Livrastes aquele infeliz de Cafarnaum que se achava “possuído pelo espírito imundo”, e aqueles possessos de Gerasa cujos demônios entraram nos porcos. Ai! o espírito que me atormenta não é mais nobre!
Ressuscitastes os mortos: A filha de Jairo, que acabava de expirar, símbolo das almas que acabam de perder a graça: o jovem de Naim, em caminho para o cemitério, símbolo das almas que, há muito, perderam a graça. A mim, infeliz moço, como aquele jovem deveis dizer: “Surge!” levanta-te!
E Lázaro? “Jam faetet”; símbolo de corações já em adiantado estado de corrupção. E, entretanto, ó Mestre Divino, ordenastes-lhe que saísse do sepulcro, e ele saiu de sua miséria. Estava ainda atado pelas ataduras, ele, porém, soltou-se delas. Possa também eu soltar-me destas terríveis ataduras do vício!
Filho de Davi, se quiserdes salvar-me, podeis fazê-lo.
Ó bom e terníssimo Jesus, seria eu o primeiro que vós deixareis ao abandono!
Jesus! aquele que amais está doente.
Oh! muito doente…
Senhor, quantos tocavam as orlas das vossas vestiduras, uma pontinha apenas, ficavam curados.
E eu que toco vosso corpo, na sagrada Comunhão, não hei de ser curado?
Expulsai, para sempre, o mal de minha alma, alimentada pela Eucaristia.
Abramos a Introdução à Vida Devota (L. II, cap. 20) onde o amável S. Francisco de Sales escreveu: “Comungai muitas vezes e crede-me: os lábios tornam-se cândidos, como nossas montanhas cobertas de neve, no inverno, porque eles não veem e não comem senão a pura neve. À força de adorar e de comer a própria beleza, a bondade e a pureza, neste divino Sacramento, tornar-vos-eis totalmente belos e puros”.
Não deveis rir-vos dos lábios “que se tornam cândidos, porque não veem nem comem senão neve”.
Seria absurdo.
Que a comparação seja um tanto ingênua ou falsa, é absolutamente secundário.
O que importa é o ensinamento moral.
“Porque, continua o Santo, se as mais delicadas frutas e mais sujeitas a apodrecerem como: as cerejas, os damascos e os morangos, se conservam facilmente, por todo ano, em açúcar ou no mel, não é para admirar se nossos corações, embora fracos e imbecis, sejam preservados da corrupção do pecado, quando açucarados e embebidos no mel da carne e do sangue incorruptíveis do Filho de Deus”.
Será purificada e repassada de virgindade a carne nutrida com a carne de Cristo.
A comunhão é, por excelência, o antídoto do pecado impuro.
O vício animaliza.
A comunhão diviniza.



[1]             Palavras dum pseudo-Crisóstomo atribuídas, por engano, a S. João Crisóstomo.
[2]             “Tu que só eras uma oliveira silvestre, fostes enxertado… e feito participante da raiz e da seiva da oliveira… Não és tu que manténs a raiz, mas a raiz que te mantém...” (Rom. 1-17).
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