sábado, 28 de maio de 2016

6.ª Arma: a ideia-força

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.



6.ª Arma: a ideia-força

“Uma ideia assemelha-se, no homem, a estaca de ferro que os escultores metem dentro da estátua; serve-lhe de tutor e de amparo”. (Taine. Th. Graindorge).
É uma armação interior.
Serão necessários muitos princípios? Não tantos.
Com o volver dos anos, dá-se em nossa vida intelectual, um fenômeno de simplificação, não por empobrecimento mas por coordenação. Tudo se reduz a alguns princípios diretivos.
Os grandes gênios serviram-se geralmente de poucos princípios mas tão ricos, que todo o seu sistema nele se compendiava e todos os corolários derivavam-se, logicamente, desses poucos teoremas.
Deus é o ato único de um pensamento, de um só, mas infinitamente fecundo.
Para o verdadeiro sábio, as investigações que, ao princípio, não eram senão simples seixinhos, ao fim se aglomeraram tão fortemente que formaram um bloco único.
Do mesmo modo, na ordem moral, se há de operar uma síntese semelhante.
Os santos foram, por vezes, homens de uma só ideia, de uma só máxima.
Tu mesmo não deves sobrecarregar tua vida espiritual.
Não permitas em ti a dispersão.
Os fariseus complicavam a vida religiosa; Jesus, simplificava-a.
Os fariseus esmagavam a boa vontade sob o acervo de inúmeras e pequeninas observâncias.
Jesus reduzia tudo a alguns grandes princípios que são: espírito e vida.
Toda a lei e todos os profetas se resumem, dizia Ele, nestes dois preceitos: ama a Deus de todo o teu coração e o próximo como a ti mesmo.
Que riqueza de aplicações práticas nestas duas regras, muito simples e fáceis de se compreender!
Santo Inácio compenetrou-se tão bem deste espírito do Evangelho, que desde a segunda anotação, que precede os Exercícios, declara que o alimento espiritual de uma alma, deve consistir em algumas verdades substanciais, não muito numerosas: “Não é a abundância do saber que sacia a alma e a satisfaz, mas sim o sentimento e o gosto interior das verdades, que ele medita”.
Não é a abundância de alimentos que sacia… Passas faminto diante de um armazém de viveres, embora tenha amostradores ricamente providos. A vista simplesmente de tanta abundância é pouco nutritivo!
O que é de proveito é escolher um alimento, um só, se quiseres, e assimilá-lo bem.
Assim também, deves assimilar uma verdade e renunciar a curiosidade de querer provar de tudo.
Tomar um pouco de tudo, equivale a não tomar nada.
A observação é muito prática, em tempo de fortes tentações.
Quando a crise alcança o seu apogeu,[1] quando já se não trata de uma escaramuça mas de um grande assalto, em que o inimigo ataca, em colunas cerradas, não é de certo o momento oportuno de perder-se em longas considerações.
Quer-se um único princípio, curto, que corte rente.
Qual? Não sei. Depende isto das disposições dos indivíduos.
Cada um de nós tem uma ideia própria, um princípio que fortemente o impressiona: a ele, a ele se há de apelar, naquele momento crítico.[2]
As ideias-forças, as mais salutares, são geralmente as grandes verdades da religião. Santo Inácio desejava que o puro amor de Deus fosse o único móvel a atuar nas almas generosas. Hesitou até, por muito tempo, em impor regras à sua Ordem.
Ora o mesmo Santo, conhecendo a humana fragilidade, é de opinião que se há de inspirar ao homem tentado o temor, seja muito embora, o temor servil.
“Embora, seja para desejar, diz ele, que os homens sirvam a Deus Nosso Senhor pelo único motivo de amor, devemos contudo louvar muito o temor da majestade divina; pois não só o temor filial é piedoso e santo, mas até mesmo o temor servil. Quando o homem não se eleva a alguma coisa melhor e mais útil, esse temor ajuda-o muito a deixar o pecado mortal. Quando o tiver deixado, alcançará facilmente o temor filial, que é muito agradável e caro a Deus”.
O mesmo Santo lembra, em seus exercícios, algumas destas terríveis verdades.
Na meditação sobre o Inferno, eis como ele se exprime:
“O segundo prelúdio é pedir a graça que se quer alcançar.
Neste ponto, pedirei o sentimento interior das penas que sofrem os condenados para que, se minhas culpas me fizeram esquecer o amor de meu eterno Senhor, ao menos o temor das penas eternas me auxiliem a não mais recair em pecado”.
Outro dogma terrível: o Juízo.
“Considerarei, com atenção, quais serão os meus pensamentos no dia do Juízo… O caminho que então desejaria ter seguido, será o que agora hei de tomar”. “Considerarei o que pensaria no dia de Juízo… Que caminho desejaria ter seguido? É exatamente o que agora hei de seguir”.
A impureza, esta culpa que se compraz com as trevas, será desmascarada no dia do Juízo final, segundo a profecia de Nosso Senhor: “Tudo o que estiver oculto será revelado, tudo o que for segredo será descoberto”. (Mat. 10-26).
Desejas evitar a vergonha do Juízo e as penas do Inferno? Evita o pecado.
Considera ainda, com Santo Inácio, quanto a culpa é ridiculamente insolente: “Considerarei o que sou, esforçando-me mediante várias comparações, por, me tornar sempre mais desprezível a meus olhos. Primeiramente o que sou eu, comparando-me com todos os homens?
Em segundo lugar, o que são todos os homens comparados com todos os anjos e santos do céu? Em terceiro logar, o que são todas as criaturas se as compararmos com Deus?
Portanto o que sou eu afinal, sozinho?”
É forçoso voltar sempre ao que é o princípio e fundamento dos Exercícios: “O homem foi criado para louvar, honrar e servir ao Senhor e, por este meio, salvar a própria alma.
As demais criaturas da terra foram criadas para o homem, e para o auxiliarem no conseguimento do fim que Deus tinha em vista, ao criá-lo”.
E, sempre inflexivelmente lógico, acrescenta: “Donde se segue que o homem deve fazer uso das criaturas, quando o auxiliarem ao conseguimento do fim, e deve abandoná-las, se desse fim o afastarem”.
Desejamos operar bem? Vejamos qual seria o conselho que daríamos aos outros. “Porei diante de meus olhos um homem completamente desconhecido e, como ele se desejasse avantajar, em muita perfeição, examinarei o que eu lhe aconselharia que escolhesse… Em seguida, dando a mim mesmo estes conselhos, farei o que eu lhe teria dito que fizesse”.
Estas palavras foram tiradas do capítulo da Eleição. Eis ainda outros princípios de Santo Inácio, que nos auxiliam a fazer uma escolha com prudência. “Considerarei com atenção, por um lado: a utilidade e vantagem que se seguirão, para mim, em aceitá-los… relativamente à salvação da minha alma e, por outro lado, considerarei também os inconvenientes e perigos. Em seguida examinarei com a mesma diligência, em primeiro lugar: a utilidade e as vantagens, depois os inconvenientes e perigos em recusar… Depois de haver examinado a questão sob os diversos aspectos, considerarei de que lado a razão mas se inclina e seguindo suas luzes, sem consultar em coisa alguma os sentidos, fixarei a minha escolha”.
Segue o método de Santo Inácio, quando deves optar entre a pureza e a impureza: em duas colunas escreve os prós e os contras.
Na coluna a favor dela, nada podes notar exceto se contares, por alguma coisa, o miserável prazer da paixão, este rápido gosto que, em todo o caso, hás de forçosamente lastimar, neste ou no outro mundo.
Na coluna dos contras notarás tudo quanto perdes: a amizade de Deus, a estima dos homens, a alegria e, quiçá, a perda da Fé, pois o luxurioso procura sempre pretextos contra a religião que o incomoda.
Nem freios, nem empecilhos!
Se tantos jovens se afastam da Igreja, não é certamente por causa do Símbolo dos Apóstolos, mas por causa dos dez Mandamentos de Deus, ou mais simplesmente, por causa do Sexto!
E agora que os elementos estão dados para fazer-se o balanço: compara as duas colunas: a dos lucros e a das despesas.
Mas de todas as ideias forças, a mais eficaz será sempre a da morte. “Considerarei, como se estivesse a braços com a morte, a maneira e o cuidado com que desejaria ter procedido… e regulando-me pelo que então desejaria haver feito, fielmente procurarei fazê-lo agora”. E, variando um pouco os termos, repete ainda Sto. Inácio: “Examinarei, como se estivesse a morrer, o modo como desejaria ter procedido… e regulando-me pelo que então desejaria ter feito, pô-lo-ei, desde já, em prática”.
Não te arrisques ao irreparável perigo de uma morte desapercebida.
Quantos homens, pela manhã, foram encontrados mortos no próprio leito!
Jesus nos preveniu: “Como um ladrão, hei de vir”.
Um ladrão não tem por costume, que eu saiba, mandar aviso e marcar o dia e a hora em que vai dar o seu assalto.
O Mestre lealmente nos avisa: Virei, também eu, de improviso, como quem, de noite, perfura a muralha.
Hora terrível há de ser aquela em que Deus surpreenderá o libertino, para lhe arrancar, através da muralha do corpo, aquela alma pútrida!
Seja de improviso ou não, o certo é que havemos de morrer: tu, eu, todos. Quando? Talvez daqui a um ano, quem sabe, daqui a cinquenta. Cinquenta anos é amanhã…[3]
Ora se nos achássemos no leito de morte, como desejaríamos ter vivido? Colocados entre o tempo que acaba e a eternidade que começa, compreenderemos ser necessário julgar aquele em relação com esta.
Era exatamente o grande princípio de S. Luís de Gonzaga, o angélico protetor da mocidade: “Quid hoc ad aeternitatem?” O que vale isto comparado com a eternidade?
Semelhantemente encarava este ponto Tomás Moro, chanceler da Inglaterra, quando fora ameaçado de morte por Henrique VIII, se recusasse reconhecê-lo por chefe da igreja anglicana.
“Quantos anos, refletia ele consigo, poderei ainda eu viver? Quando muito vinte. E hei de arriscar a minha eternidade por estes vinte anos?
Se se tratasse de vinte mil anos, a minha loucura teria ainda alguma aparência de desculpa. E no entanto, mesmo assim, seria sempre insensato, pois é grande demência sacrificar uma eternidade por vinte mil anos”.
Subiu ao cadafalso, preferindo perder a vida por não perder a eternidade.
Meu jovem estonteado pelo pecado impuro, queres então arriscar a tua eternidade, não por vinte mil anos ou por vinte anos, mas talvez por vinte minutos (ou vinte segundos apenas) de torpe prazer?[4]

* * *
H. Bordeaux, em seu livro Os olhos que se abrem, traz este singular diálogo:
“Não tendes ainda os olhos abertos!
— Eu? tornou-lhe Philippe.
— Sim! a mor parte dos homens só os abrem uma vez!
— Uma só vez?
— Sim, no momento da morte”.
Como havemos de ver, claramente, as coisas naquele terrível momento!
Desde que o mundo é mundo, houve porventura alguém que, naquele momento supremo, se arrependesse de ter sido generoso?
Milhões de homens choram, amargamente, não terem tido esta generosidade.
Todos chegam a esta mesma conclusão: uma única coisa perdura, é a religião! Força é trabalhar pela eternidade.
Tu mesmo chegarás também a esta conclusão: bem o sabes.
Por que, pois, viver agora de tal modo que, estás certo disto, te será forçoso deplorá-lo depois? Por que trocar o que é sério pelo que é vaidade?
A morte arrebatará as ninharias humanas, todas essas ninharias humanas, desde o colar de miçangas da mulher selvagem até ao diadema e o cetro da realeza.
O Profeta Isaías enumerava, num rol ridículo, as frioleiras que Jeová arrancaria às filhas de Israel: “A exuberante cabeleira das filhas de Sião, as imagens dos sóis e dos crescentes, os brincos das orelhas, os braceletes e as sedas, os diademas, cordões, os cinturões, as caçoulas de perfumes, os ricos mantos, as gazes ligeiras, os espelhos, os turbantes, as mantilhas…[5] Jeová lhes arrancará todos estes tesouros, todas estas joias”. (Is. 13-16).
O que se disse com relação às vaidades femininas, tem muito boa aplicação às muitas vaidades masculinas.
Naquele terrível momento, como apreciarás tu, ó jovem, certas festas, aqueles salões iluminados?
E tu, ó donzela, como julgarás certos serões, certos enfeites e adornos, este teu modo inverecundo de trajar?
Em 1921 morria, narra a Croix uma jovem francesa vestida, ou melhor, desvestida segundo é a moda, vítima de uma constipação, contraída quando assistia uma corrida hípica.
No leito de morte, falou assim ao Padre F.
— Meu Pai, grande prazer me causa a vossa caridosa visita… Necessito de perdão. Sou uma das muitas vítimas da moda… As corridas… o desejo de me exibir, me ocasionaram a morte… Estou arrependida…
— Pobre filha!…
— Sim, arrependo-me de haver dado escândalo… Fora bem-educada, era piedosa, filha de Maria… Perdão! É horrível…
E grossas lágrimas lhe corriam pelas faces.
— Sou culpada, muito culpada…
A princípio, era ingênua em trajar daquela forma. Ao depois, já não o era… sabia perfeitamente que praticava o mal… Procurava olhares apaixonados, era objeto de culpáveis curiosidades… Desejo reparar o mal…
— Por estes vossos sofrimentos. Aceitai-os pois resignadamente e até mesmo, a morte, se assim aprouver a Deus…
— Já fiz este meu sacrifício, mas isto não é bastante… Pequei publicamente… Desejo arrepender-me e expiar publicamente. Peço-vos, meu Padre, que digais às minhas colegas, às jovens e por toda a parte, que: “Germana Duverseau morre vítima da moda indecente… e lhes suplica, neste momento, em que vai comparecer no tribunal de Deus, que não sejam também elas causa de escândalo, trajando inconvenientemente”.
No dia seguinte, foi a infeliz moça levada ao cemitério, acompanhando-a grande multidão.
De boca em boca, era transmitido o salutar testamento.
Pedira ela que cobrissem seu corpo com seu véu da primeira comunhão e que lhe pusessem ao colo, sua fita de filha de Maria, como protesto contra as loucuras do seu trajar mundano.
Dissera à mãe, ao expirar: — “Digne-se Nosso Senhor, ao ver estes meus últimos trajes, esquecer os outros… que me perderam, e fazer com que sejam estas as minhas vestes no céu”.



[1]             Dois conselhos de Santo Inácio para os tais momentos de crise: a) “Convém… não alterar coisa alguma, mas permanecer constante nas tuas resoluções e determinações anteriores”. Quando tu vias claro, deliberaste escolher tal caminho; não vás mudá-lo agora que as trevas te rodeiam e soa: “meia-noite em tua alma” (Hello). Não é no desencarcerar-se da tempestade que se há de tomar por um caminho desconhecido. Durante a tentação não dês lugar à discussão, mas diz logo: já não vejo mais. b) Na tempestade, se há de prever a bonança que sobrevirá e na bonança convém prever-se à tempestade. É de prudência elementar não se deixar tomar de chofre pela tentação. Quando o inimigo já está nas fronteiras é que se há de cuidar de munições, de construir arsenais, e de equipar soldados?
[2]             A divisa de Guynemer, era: “fazer face!”
[3]             Nos dias que precederam o dilúvio, os homens comiam e bebiam, casavam-se e casavam suas filhas… até ao dia em que o dilúvio os surpreendeu destruindo a todos. (Mat. 24-38).
[4]             “Non dubito asserere, ob hoc unum impudicitiæ peccati vitium, aut saltem non sine eo, omnes dam nari, quicumque damnantur”. (S. Afonso).
[5]             Veja-se na Nova Floresta do P. Bernardes a curiosa comparação da nau com a mulher.
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