quinta-feira, 26 de maio de 2016

4.ª Arma: a oração

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.



4.ª Arma: a oração

Crês no Evangelho? Pois então medita estas palavras: “Este gênero de demônios só se vence pela oração e pelo jejum”; ou ainda estas: “Vigiai e orai para que não entreis em tentação”. O espírito está pronto, mas a carne é fraca”. (Mar. 14-38).
Quando mesmo houvesses expulsado Satanás do coração, por uma generosa confissão, não vás pensar que ele se dê, tão facilmente, por vencido: “Quando o imundo espírito tem saído do homem, anda por lugares secos, buscando repouso e não acha. Então diz: voltarei para minha casa donde saí. E vindo ele a acha desocupada, asseada e ornada. Então vai e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele…” (Mat. 12-43).
Não confies pois em tuas próprias forças, quero dizer: em tua fraqueza!

Põe ao lado de tua fragilidade, o máximo coeficiente, que é o socorro do alto. Que tuas deficiências sejam reparadas pela abundância divina!
O homem não é mais do que uma frágil cana. Introduz, porém, no âmago dela uma varinha de aço e logo ela participará da resistência do aço. Assim deves tu também colocar tua débil natureza sob a salvaguarda do poder divino.
Retempera tua alma na oração.
Os antigos imaginavam que um homem quando se banhava no rio Estige se tornava invulnerável![1]
Fábula no paganismo! Realidade no cristianismo.
O homem mergulhado no rio da graça e da oração, resistirá a todos os dardos do inimigo.
E pelo contrário, quem é que sempre fica ferido nos combates da virtude?
O imprudente, que não se robusteceu com a virtude do alto, que não se armou com a couraça da oração, ou que, pouco a pouco, a abandonou, a semelhança do soldado que se foi despojando de suas armaduras de combate.
E por que não rezou? Porque não teve humildade. Não compreendeu que: “o homem só é grande quando está de joelhos”.
O maior número de quedas, na impureza, é devido ao pecado do orgulho.
Deus permitindo ao homem cair tão baixo, parece dizer: “Ah! eras tão orgulhoso… contempla, agora, a vergonha da tua queda”.
Os filósofos orgulhosos, de que fala S. Paulo, desvairaram-se em seus pensamentos e conspurcaram seus corpos em toda a sorte de ignomínias.
A presunção de espírito é punida pelas loucuras da carne.
Julgam-se super-homens!… e rebaixam-se contudo a condição de brutos, soltando as rédeas a todos os desejos animais!

* * *
Orar durante a tentação é estar em comunicação com Deus; é estar durante a batalha, em comunicação com o posto central de socorros, para pedir os necessários reforços.
Estes reforços chamam-se, em linguagem teológica: graças atuais.
“Pela graça habitual, Deus põe uma guarnição em nós, e pelas graças atuais, envia constantemente reforços de tropas frescas”. — Esta comparação original, é de Luc Miriam (As almas livres).
Orar, é atuar, sobre a causa primeira donde as causas segundas recebem a própria eficácia.
Orar, é não ficar isolado, não ficar só, é pôr de seu lado um poder infinito.
Qual era, durante a guerra, a maior preocupação das nações?
Procurar aliados!
Opera por igual forma, nesta luta da castidade.
Teme ficar só! “Vae soli”. Procura, pela oração, um incomparável aliado: Deus.
É o desejo tantas vezes iterado pelo sacerdote, durante a missa: “Dominus vobiscum!”

* * *
Não vás, contudo, julgar que a oração te dispensará do combate e da ação.
“É necessário orar, dizia Sto. Inácio, como se tudo dependesse de Deus, mas trabalhar como se tudo dependesse de nós”.
Ora e trabalha: “Ora et labora”.
Como o calor se converte em movimento, assim o teu coração, achando-se abrasado pela oração, tendo feito boa provisão de calorias divinas, passará a trabalhar deveras.

* * *
Nossa oração deve ser um ato de máxima seriedade.
Não seja ela simplesmente um sussurro de lábios, um movimento mecânico de passar pelos dedos as contas do rosário, mas seja um impulso da alma.
Deus não se assemelha a um rei, que se dá por quite, quando são observadas certas etiquetas e praxes de corte.
As orações aprovadas, que se encontram pelos livros, não convêm a todos, por não se ajustarem perfeitamente a qualquer sorte de pessoas: parecem-se ao sentimento verdadeiro do coração como a flor dum herbário, se parece com a flor dum jardim.
Como dar-lhe a seiva, o matiz e o perfume?
Se um de meus amigos viesse, no primeiro dia de janeiro ou no dia de meus anos, ler-me uma composição, extraída de algum “Manual de felicitações”, eu lhe diria: “Amigo, fecha esse mau livro! Diz-me alguma coisa de sincero”. O fraseado será menos literário, talvez incorreto; pouco se me dá disso! Será, porém, tudo teu, não serão uns parabéns de outros, mas serão os teus.
Assim Deus quer de preferência alguma coisa nossa, um sentimento do nosso coração mais do que a recitação de belas elucubrações… feitas por outrem.
Se, porém, não tiveres capacidade para orar sem o auxílio de um formulário ou dalguma oração vocal, precisas, está claro, recorrer a este expediente. É menos perfeito, em si, mas vale sempre mais do que nada.
Escolhe bem este livro, este formulário.
Não te esqueças que a primeira oração do cristão, a oração tipo, é o Pai-Nosso, pois foi composta pelo mesmo Deus. Quando lhe pediram: “Mestre, como havemos de rezar?” Ele respondeu: “Quando rezares direis…”
E, quando o rezares, meu jovem tentado, insiste nas palavras finais:
“E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”.

* * *
Psichari, depois da sua conversão, tinha adotado esta breve oração: “Senhor, que eu seja lógico!”
Tudo está nisto!
Quando se é sinceramente cristão e se compreende o que é o amor de Jesus Cristo, o que é o pecado mortal, quando se crê no inferno e no céu, o mais é questão somente de uma boa lógica.
Não basta somente conhecer a verdade, é necessário fazê-la viver, intensamente, em nós.
No Juízo Final, o Senhor não perguntará simplesmente se cremos, mas se fomos consequentes com a nossa Fé. Ele disse: “O que crê e pratica será salvo”. E o seu santo Apóstolo Tiago, repete o mesmo ensinamento: “Rejeitando toda a imundície, recebei com doçura a palavra, que pode salvar vossas almas, e esforçai-vos por praticá-la e não vos contenteis só com ouvi-la, enganando-vos a vós mesmos. Que vale a um homem dizer que tem Fé se não tem as obras? Pode esta Fé salvá-lo? A Fé, sem obras, é morta… Crês que há um só Deus? Fazes bem! os demônios também creem… Oh! homem estulto, a Fé sem as obras, é vã… o homem é justificado pelas obras e não pela Fé… Do mesmo modo que o corpo, sem a alma, está morto, assim a Fé sem as obras está morta”. (S. Tia. 1-2).
Concedei-me, Senhor, ser não só um crente, mas um praticante.
Se não sinto ainda esta disposição generosa, procurarei, ao menos, como dizia Santo Inácio, desejar o querer e ter desejo desse desejo.

* * *
Sursum Corda! Que a oração nos eleve acima das misérias humanas!
O homem para subir precisa duas asas: a da oração e a da pureza d’alma.
Sim, são as duas asas do arrojado biplano, que nos eleva às estrelas e, tão alto, que se chega a Deus!
Durante a guerra, a telegrafia sem fio representou um papel importante.
Pela oração estabelecemos a comunicação mais depressa e mais longe ainda; não só de um a outro ponto do globo, mas da terra ao céu.
As ondas hertzianas não são tão maravilhosas como o fluido admirável da oração, que será sempre a incomparável T. S. F. ligando o céu à terra.



[1]             Aquiles, quando criança, nele foi mergulhado pela própria mãe, tendo-se tornado invulnerável exceto no calcanhar por onde a mãe o segurava.