quarta-feira, 25 de maio de 2016

3.ª Arma: a estima da “vida da graça”

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.



3.ª Arma: a estima da “vida da graça”

Se perguntássemos a um bom número de homens: “quantas espécies de vida há no homem?” olhar-nos-iam muito admirados e responderiam: “Quantas vidas? se bem me recordo, há três: a vida vegetativa, semelhante a das plantas; a vida sensitiva, comum a todos os animais; e a vida intelectual, que nos é própria”.
Responderiam bem, mas não diriam tudo.
Temos uma quarta vida, muito real. Está isto claramente expresso no capítulo IV da Epístola aos de Galácia, no capítulo VIII, Epístola aos Romanos e em S. João relatando o ensinamento do Mestre: “Eu sou a videira, vós sois os sarmentos”.[1]
Os efeitos formais da vida sobrenatural podem reduzir-se a seis:
1.º) O homem possui, em si, uma vida divina. É o que diz o apóstolo S. Pedro: “Vós vos tornais participantes da vida divina”; e o mesmo diz S. João: “Ego sum vitis”.
2.º) O cristão, em estado de graça, é o templo do Espirito Santo.
S. Paulo, por cinco vezes, lembra esta verdade.
De longe correm para visitar as grandiosas basílicas: S. Pedro em Roma, S. Sofia em Constantinopla, o Sagrado Coração em Montmartre. Não deves, porém, esquecer-te de entrar, algumas vezes, no Santuário vivo, neste cenáculo íntimo que se chama teu “coração”.
3.º) Os cristãos, que possuem o tesouro da graça, são filhos de Deus. Não é um simbolismo, mas uma verdade objetiva: “Filii Dei nominemur et simus”. (I Jo. 3-1).

4.º) Como filhos de Deus, temos direito à herança do céu, Sumus filii Dei. Si autem filii et hæredes. Hæredes quidem Dei, cohæredes autem Christi”. (Rom. 3-17). Somos coerdeiros do nosso soberano Irmão, pela humanidade, do nosso irmão Divino Jesus Cristo.
5.º) A alma recebe, com a justificação, a infusão das virtudes teologais. É o Concílio Tridentino que o atesta.[2]
6.º) Pelo fato de ser a alma informada pelo princípio sobrenatural da graça, está claro que, sua atividade fica elevada à ordem meritória. Com outras palavras: todas as ações do cristão, em estado de graça, (excetuando os atos pecaminosos) são meritórias.
Esta vida da graça nos é livremente outorgada por Deus. Não é de modo algum devida ao homem, porquanto o natural jamais merecerá o sobrenatural.
Vinte e quatro Concílios recordam esta verdade, e S. Agostinho, o Doutor da graça, escreve: “Gratia, id est gratis data”. Sendo absolutamente gratuita a mercê divina da vida sobrenatural, não é um complemento de nossa natureza, mas um excesso divino que nos é concedido.
Por que têm então os homens tão pouca estima da vida da graça?
Como vivem e se atascam na matéria, não apreciam senão o sensível!
Ora, a vida da graça é invisível.
Invisível, mas real.
É tão real que J. Cristo não veio ao mundo, senão por causa dela, como testifica S. João: “Para que os homens tenham a vida e tenham abundantemente”.
A minha alma é também invisível, assim o anjo e Deus.
E no entanto, existem realmente.
A vida sobrenatural é real, e nada pode imaginar-se mais sublime. Entre um parisiense de educação refinada, mas privado da graça, e uma pobre aldeã mas em estado de graça, há diferença enorme ou antes, essencial; e esta diferença é favorável à mulher pobre!
Se um rico perdeu a vida sobrenatural e se um pobre a possui; o rico é pobre e o pobre é riquíssimo.
Quem não cogita nesta quarta vida, que nele habita, ou quem a ignora, assemelha-se a um menino nobre que desconhecesse seus títulos autênticos de nobreza, e a sua imensa fortuna!
Como é rico!
E dela cuida tão pouco!
Os homens vangloriam-se de sua ilustre prosápia.
Nobres somos também nós os cristãos.
Há vinte séculos, que a vida superior da graça tem desabrochado maravilhas de santidade! Em vinte séculos, que bela plêiade de mártires e de heróis!
Conheceis alguma família que se possa gloriar de uma ascendência de vinte séculos?
Que ufania, quando ao mostrar-se a sua árvore genealógica, o seu ramo se pode apontar a realeza do seu tronco!
Melhor que uma árvore genealógica real é a nossa de cristãos, porque ela é divina.
É o que, expressamente, nos assegura o divino Mestre: “Eu sou a videira, vós as ramas”.
Sendo assim, “reconhece, ó cristão, diz S. Leão, a tua dignidade e, feito participante da natureza divina, não voltes à tua mísera condição anterior”.[3]
Fidalgo pela graça, não te rebaixes ao plebeísmo, pelo pecado!
Que dirias de um príncipe real, que se metesse por imundos enxurros?
És um príncipe real, “regale genus”, segundo a expressão de S. Pedro.
Mas há mais e melhor ainda.
Se bem compreendeste o que é, em ti, a vida da graça, não deverias perdê-la nem trocá-la por qualquer satisfação mesquinha, pois te assemelharias a um príncipe que, vendesse seus brasões e títulos de nobiliarquia, por um objeto vil de um indigno capricho. Tem presente o que já dissemos: és o templo vivo do Espírito Santo.
Culpado seria quem destruísse um templo.
E isto, contudo, se está dando em ti!
Lembra-te da catedral de Reims.
Caro jovem em estado de graça, a tua alma é maravilha maior do que a catedral de Reims! Esta é de pedra mas tu, és o belo templo do Deus vivo.
Oh! não seja ele nunca profanado e despojado pelo pecado torpe.
“Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é santo e vós é que sois este templo!… Fugi da impudicícia. Qualquer outro pecado que o homem comete, está fora do corpo, mas quem se dá à impureza peca contra o próprio corpo. Não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós e de Deus que recebestes, e que não mais sois de vós mesmos? Glorificai, pois, a Deus em vosso corpo”. (1 Cor. 3-19; 9-18 e seg.).
“O corpo não foi feito para a impudicícia. É para o Senhor… Não sabeis que vossos corpos são os membros de Cristo? Irei eu tomar os membros de Cristo para fazê-los membros de uma pecadora?” (1 Cor. 6-15).



[1]             Belos livros se escreveram sobre este assunto: Le Christ, Vie de l’âme por C. Marmion; Notre vie surnaturelle, por De Smedt; Dieu en nous et dans le Christ Jesus, pelo P. Plus.
[2]             “Unde in ipsa justificatione, haec omnia simul infusa accipit homo: fidem, spem, caritatem”.
[3]             “Agnosce, ó Christiane, dignitatem tuam et divinae consors factus naturae, noli in veterem vilitatem redire!”
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