segunda-feira, 23 de maio de 2016

2.ª Arma: a Confissão - 1.ª Parte

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


2.ª Arma: a Confissão

Os soldados feridos nos combates eram transportados para as ambulâncias.
Apresentavam-se, ali, num como confuso cenário de sofrimentos.
Certos peitos atados com bandas rubras a modo de lúgubre “grão cordão” da Legião de Honra.
Imagine-se que um médico descobrisse um mágico preparado capaz de, num minuto, refazer aquelas carnes, cicatrizar aquelas horríveis chagas, restituir a integridade daquelas forças perdidas…
“Que estranha suposição!” dirás…
Não é suposição. É pura verdade.
Corações de milhares de jovens estão feridos mortalmente pelo pecado.
Para curá-los, Deus inventou um remédio maravilhoso, infalível: a Confissão.
O confessionário é a ambulância onde se curam os corações feridos, a boa “cruz vermelha” das almas…
“Meu Deus! murmuras, não tendes coisa mais nova para apresentar do que a confissão? Como é velho esse remédio!…
Já é coisa arcaica”.

É verdade: mas que importa, se o remédio é bom e infalível?
Deverias também dizer: “É remédio já velho cortar a febre com o quinino”.
Se não encontramos coisa melhor, forçoso é empregar o processo clássico!
Para combater a morte, comemos todos os dias; para reparar as fadigas, dormimos. Muito antigo é este duplo remédio! Vais pô-lo de parte a pretexto de ser uma velharia?
A confissão é também um remédio muito antigo pois já conta dois mil anos!… Mas foi descoberto pelo divino Médico.
Esta velha cura continua sendo a melhor ainda hoje, como o prova P. Bourget naquele livro, em que resume todas as experiências da alma humana: “Um drama no mundo”.

* * *
Pecaste gravemente. É preciso portanto desinfetar a alma e, para empregar a expressão, um tanto realista, de Huysmans, é mister “o cloro das orações e o sublimado dos Sacramentos!”
É forçoso. Enquanto o não fizeres, serás inimigo de Deus. Se, de noite, te surpreender a morte, despertarás no inferno; nem uma só das tuas obras será meritória, estás como ferido de esterilidade; perdestes mais de um milhão, mais de um bilhão, perdeste o infinito, porque perdeste Deus; e, filho deserdado, nenhum direito terás ao céu.
Como és pobre!
Meu infeliz irmão, não tens mais do que uma “alma toda de andrajos!”[1]
Prouvera a Deus que ainda fosse só de andrajos! Ela já está morta.
Pecado “mortal” quer dizer: o que rouba ao homem a vida sobrenatural. Não te iludas dizendo: “Eu morto! mas se eu rio e canto! e passeio pelas ruas e danço em salões! Portanto estou muito bem vivo!”
Realmente fazes tudo isto… és, porém, um falso vivente: “conservas as aparências de vida, mas estás realmente morto”. (Apoc. 3-1), porque não mais tens a vida da graça, que é a vida verdadeira.
Deixa-te de fanfarronadas e vãs imposturas.
Santo Inácio te lembra a tua triste realidade na “Meditação sobre os próprios pecados”! “Pesarei meus pecados, isto é: considerarei a hediondez e a malícia intrínsecas do pecado mortal, supondo mesmo que não fosse proibido. Considerar-me-ei como uma úlcera, como um abscesso donde brotam tantos pecados…
E depois rompe no grito de espanto, de uma alma profundamente comovida.
“Indagarei a todas as criaturas perguntando-lhes como me pouparam a vida, como concorreram para m’a conservarem. Perguntarei aos anjos, que são a espada da justiça divina, como puderam suportar-me e guardar-me, como puderam mesmo pedir por mim e também aos santos, como intercederam ou rogaram por mim?!
Admirar-me-ei como os céus, o sol, a lua, as estrelas, os elementos, os frutos da terra, os pássaros, os peixes e os animais e todas as criaturas continuaram a servir-me, e não se levantaram contra mim, como a terra não se abriu para engolir me?”
“Como hei de preparar-me a comparecer, ao tribunal da penitência, diante do Deus a quem ofendi? Excitando-me a vergonha de meus tão grandes e tão numerosos pecados, e me proporei algumas comparações: por exemplo a de um fidalgo infiel que se achasse diante de seu rei e de sua corte, coberto de vergonha e de confusão por ter recebido dele muitos benefícios e assinalados favores e correspondido assim tão mal”. (Exerc. Espir.).
Este é também o sentimento expresso em um drama moderno, “a Filha de Roland”. Lede a cena que descreve Ganelão ao comparecer perante Carlos Magno ou também a passagem de Radberto:

“… … eu sou Ganelão!
Ganelão sou, o Judas traidor, o vilão!
Três dias lá fiquei. No íntimo, nojo tinha
Do meu crime passado e da vergonha minha”.

Todo o pecador é um Ganelão.
Que pelo menos se arrependa, detestando seu crime e sua passada vergonha.
Vamos, meu amigo, dá o passo!
Apenas cinco minutos de nobre coragem para te lançares aos pés de um sacerdote, do mesmo modo que Ganelão, aos pés do monge; e a absolvição será tão completa que teu confessor, como o de Ganelão, poderá, se lhe disseres ter sido um traidor, responder-te:

“E agora podereis daquele homem falar,
Como de estranho alguém se acaso o nomear”.

Rende-te, confessa-te o vencido de Deus. Há muito que te insurges contra a graça e bem conheces “que é, para ti, bem duro recalcitrar contra o aguilhão”. (At. Ap. 9-5).
Cinco minutos de coragem e sentirás a alma inundada daquela paz que te fugira do coração.
Recomeçarás uma vida nova, sob a impressão deliciosa de seres outro homem.
Cinco minutos de coragem! e depois, (dizem-no por experiência todos os penitentes) que bem estar, que alívio! Todo o enorme peso dos pecados, arredado do teu coração! Todas as manchas da tua alma canceladas e cândida como o armínio, leve como uma pluma!
Outrora, escreveu Retté no seu livro Do diabo a Deus, nada mais pavoroso do que aproximar-me do confessor… Mas depois da minha confissão, caminhava alegremente pela rua! Cem aleluias me soavam no coração e sentia-me rejuvenescido de dez anos”.
A confissão é uma sessão de pacificação e de alegria.

* * *
Que a tua confissão seja sincera.
Pode-se imaginar pecado mais absurdo do que uma confissão mal feita?
Nos outros pecados, procuras sempre alguma satisfação: a do orgulho, a da gula, a do amor próprio ou do amor impuro; este prazer é, aliás, efêmero e proibido, mas afinal é uma realidade: lograste sempre alguma coisa. Mas pela confissão sacrílega, nada alcançaste, e não só as tuas faltas alcançaram o perdão, se não que lhes acrescentaste mais um pecado mortal.
Sê leal! É a bela qualidade de tua alma. Sê franco.
Oh! se soubesses que deverias comparecer ao tribunal de Deus, como a tua última confissão seria bem-feita! Por que não farás todas como esta?
Seja de tal forma que, depois de cada uma delas, a situação fique liquidada e assim possas voltar, tranquilamente esta página da tua vida. Não deves reservar para a morte um passado de inquietações e de remorsos.
É mister poder dizer: “Tive fraquezas mas, ao menos, não deverei mais ir além da minha última confissão. Cada confissão foi, na minha vida, um ato em que me mostrei verdadeiro”.
No Juízo Final, será apresentado o livro de que fala o “Dies iræ”.

“Liber scriptus proferetur
In quo totum continetur”.

Este livro, para a nossa vida, tem uma dupla folha: a dos méritos e a das culpas. Em cada confissão, Deus nos põe nas mãos esse volume, esse relatório do nosso juízo e nos diz: podes apagar, raspar as linhas das responsabilidades, rasgar as folhas da acusação e guardar apenas as belas páginas, em branco.
Onde e quando já se viu um juiz da terra, usar de tal magnanimidade para com o réu, nas vésperas do seu julgamento?

* * *
Além da sinceridade do passado, exige-se a lealdade para o futuro.
Não basta simplesmente a acusação, é também necessário o firme propósito.
Não seria contraditório dizer: arrependo-me de minhas culpas, mas estou decidido a recomeçá-las?
A confissão, se não exigisse o propósito, seria um estímulo para novas quedas.
Tens de acusar os pecados, e até deves, tratando-se de pecados mortais, determinar, quanto possível, o seu número e a espécie.
Deus, porém, não se contenta com esta exatidão material, semelhante a uma operação de matemática com responsabilidades de alguma sociedade bancária. O confessionário não é o escritório onde basta um gesto físico, para saldar uma conta.
Pressupõe a “conversão”, a dupla sinceridade: a da contrição para o que se praticou, e a da boa vontade para o que se houver de fazer.
A prova que Deus exige desta lealdade de coração é que, não impõe a acusação numérica e específica dos pecados mortais, no caso de haver impossibilidade, absoluta ou moral, de o fazer; ao passo que o arrependimento das culpas, afirma o Concílio de Trento, é sempre necessário para se alcançar o perdão dos pecados. “Fuit, quovis tempore, ad impetrandam veniam peccatorum hic contritionis motus necessarius”. (Ses. 15-4).
Se caíste em pecado, confessa-te quanto antes.
Que em ti, como dizia o Sto. Cura d’Ars, “o Cristo esteja despregado”.
Esta ideia de se confessar imediatamente será, além disso, um freio salutar.
Não deixes que a culpa apodreça em tua alma. Hás de ter verificado que o pecado não é celibatário. O pecado é sempre pai de pecados.
Acresce ainda que, poderias fazer o seguinte abjeto raciocínio: “Tanto me custará confessar dez pecados mortais quanto um”.
Logo que cometeste um pecado mortal lá estás já desanimado, rendido, e as quedas se sucedem, como por séries. Tais há que resistem durante dois meses, quatro meses, se, porém, caírem uma vez, caem logo depois cinco, dez vezes. Dir-se-ia que se rompeu o encanto! “Nada mais tenho que perder pois já não possuo o estado de graça”.
Sim, tens ainda muito a perder.
Será por ventura a mesma coisa ter uma ou ter dez manchas no corpo? uma ou dez chagas? O pecado mortal é a nódoa da alma…
Além disto, fica sendo mais difícil ao pecador endurecido, ter a contrição verdadeira e a graça da conversão.
Enfim, está claro, que seremos mais punidos no inferno por dez pecados do que por um somente, como seremos mais recompensados, no céu, por dez atos de virtude do que por um só.
Pensas tu que um perseguidor da Igreja não será mais castigado do que aquele que cometeu um só pecado mortal? ou que no céu um ermitão não terá uma coroa mais bela do que o convertido da última hora?
A graduação da felicidade ou da infelicidade é proporcional (e é justo) aos méritos ou aos deméritos de cada um.
Do inferno, como do céu, pode-se repetir aquelas palavras de N. Senhor: há muitos andares e muitos degraus. “Mansiones sunt multae”. E, digamo-lo de passagem, tu hás de salvar-te, não tacanhamente, “nem mais um nadinha”, mas ricamente, esplendidamente, segundo o ideal de Santa Teresa que diz: “Aceitaria todos os padecimentos do mundo, para adquirir um grau de glória, a mais, para a eternidade do céu”.

* * *
Não te contentes com ter um confessor: deves tomar também um diretor. Absolutamente falando, poderias confiar a tua alma ao primeiro confessor que encontrasses, assim como poderias confiar teu corpo, doente, ao primeiro médico que te aparecesse. Mas tu naturalmente preferes o médico da família, conhecedor como é de teus antecedentes, do teu temperamento e que, por esta razão, com maior segurança, pode formular tua diátese e proceder a investigação das causas que comumente, chamam a “etiologia”.
Na linguagem cristã, este médico peculiar, chama-se diretor espiritual. Por muitas vezes auscultou tua alma, e assim o seu diagnóstico será mais perfeito e a cura a mais adaptada.

* * *
Escolhe como teu diretor, quem for da tua livre vontade. A confiança não se impõe, e ninguém tem o direito de te impor este ou aquele. Aqui, és totalmente livre. É coisa sagrada.
Preferirás, sem dúvida, um sacerdote que compreenda os jovens e que saiba incutir mais coragem.
Deves gostar mais, está claro, de um diretor muito misericordioso mas também muito firme e de uma direção ativa. Deve ele sobretudo no que diz respeito à castidade, ser exigente e manter uma atitude de domínio. O concessionismo, o “latitudinarismo” seriam desastrosos. Quando se trata da direção em matéria de pureza, a severidade é caridade e a brandura é crueldade.[2]
Não se há de procurar um diretor para se receberem adulações, como não procuras um médico para que te prescreva confeitos mas para que rasgue os abscessos e cure as tuas chagas.
Para que ele, porém, cure as chagas, é mister descobri-las. Ao médico nada se oculta. Ao teu diretor, dirás tudo também. Não sejas mudo ou monossilábico: expõe claramente o teu caso.[3]
O simples ato de revelar uma tentação é já metade da cura moral. O demônio é uma serpente que não gosta que lhe retirem a pedra sob a qual ele se esconde e que o exponham à luz.
Declara abertamente, ó meu amigo, tuas dúvidas. Porquanto não te poderias valer, aqui, da teoria do “probabilismo” se, voluntariamente, ficasses numa ignorância vencível ou numa dúvida prática, facilmente solúvel.
Não te acanhes pois em pedir conselhos aos mais anciãos. Até mesmos os mais idosos, que perfeitamente aconselham os outros, muita vez, não veem claro nos casos que lhes são próprios. “Nemo judex in causa propria”.
O fato não é raro, pois há diretores de almas, já encanecidos no ministério, que se veem na contingência de consultarem seus irmãos no sacerdócio, quando se trata de si mesmos; Deus liga a luz e a sua graça a este ato de humilhação.
Ele gosta desta simplicidade.
Mas o diabo tem-lhe horror!
Santo Inácio explica-no-lo na sua “XIII regra do discernimento dos espíritos”. O procedimento do demônio “é o de um sedutor: pede segredo, e nada teme como ser descoberto. Um sedutor que solicita a filha de um pai honesto, ou a mulher de um homem honrado, quer que as suas insinuações e suas falas fiquem secretas. Teme sempre que a jovem descubra tudo ao pai, ou a senhora ao seu marido, as suas palavras enganadoras e a sua intenção perversa; bem vê que, deste modo, não poderia alcançar seus culpáveis desígnios. Semelhantemente, quando o inimigo do gênero humano quer enganar uma alma justa, com marchas e artifícios, deseja e exige que ela ouça e guarde silêncio. Mas se esta alma descobre tudo a um confessor esclarecido ou a alguma pessoa espiritual, que conheça os enganos e as astúcias do inimigo, recebe com isto imenso desgosto, pois reconhece que toda a sua malícia nada poderá, do momento que as suas tentações forem descobertas e trazidas a público”.
Lembra-te destas palavras da Escritura: “todo aquele que ama a iniquidade odeia a luz”. (Jo. 3-20).


[1]             Luc Miriam: Les âmes libres.
[2]             É a tradução um pouco livre de Santo Afonso, eis o que ele diz: “Quanto magis rigorem cum poenitente adhibebit, tanto magis ejus saluti proderit; et contra, tanto magis cum illo immanis erit, quanto magis benignus erit in permittendo ut ille in occasione maneat aut se immitat”.
[3]             Vai procurar teu diretor e confessar-te até mesmo em seu quarto, se te for mais cômodo e ele o permitir; autoriza-o a isso o Direito Canônico (Can. 910).
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