sábado, 30 de abril de 2016

O vício é vil

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


O vício é vil

Assim como Baltasar empregava em suas orgias os vasos sagrados do Templo, assim o moço impudico profana seu corpo, que um dos antigos documentos da literatura eclesiástica, a Epístola do pseudo-Barnabé (ano 96-121), chamava “o vaso gracioso da alma”; esse coração que, pela sagrada comunhão, se tornou um cibório vivo de Deus.
A lei eclesiástica exige que o cálix do sacrifício seja dourado. Com maior razão o cálix do teu coração não deve ser desdourado pelo vício.
Grande indignação sentíeis ao saber que, por vezes, durante a guerra, os alemães haviam profanado os nossos sacrários.
Mais grave seria, ó comungante, o manchar-vos a vós mesmos.
O jovem que se rebaixa a cometer o pecado solitário, procura debalde excusar e disfarçar, com pretextos, estes desregramentos nefandos.
Não é bonito!
Não é digno.
“Examinarei a torpeza e a malícia intrínseca do pecado mortal, supondo mesmo que ele não fosse proibido”. (Sto. Inácio).
Santo Agostinho, em suas Confissões, reconhece que nunca, no tempo dos seus desvarios, chegara a iludir-se acerca da sua vergonha moral. “Colocava-me ante os meus próprios olhos para ver como era sórdido, manchado e ulcerado”.
“Constituebam me ante faciem meam, ut viderem quam turpis essem et quam distortus, sordidus et ulcerosus”.
A nossa alma não foi criada para empestar-se com o ar fétido das sentinas mas para, castamente, respirar o ar puro das geleiras.
“O eu divino anseia por sair desta lama”. (Maine de Biran).
A impureza é “a que mais agita os instintos baixos do homem-animal”. (P. Bourget).
É este o termo! Trata-se de uma queda de animal.
Numa triste noite, deu-se a obscenidade seguida de um morno torpor e de um estupor brutal.
É poético isto?
Eminência ou baixeza?
Este desaire não é coisa tanto psicológica, é mais fisiológica.
Insânia!…

* * *
Se, porém, se não trata do mal cometido, a sós, mas de relações culpáveis, o caso é ainda mais grave, porquanto a torpeza é dupla.
Amores ilícitos!
Amores de lama!
Debalde procuram os romancistas e os poetas passá-los por um bom filtro; sempre ficarão amores lodosos, bastando agitá-los um pouco para que as borras, sempre mal depositadas, subam a superfície.
Quando se é jovem, muito jovem, cândido e muito cândido, não se cai na conta do que sejam estas misérias.
Leram-se talvez cenas fantasiadas pela poesia e fica-se imaginando não sei quê!
Sonhos dourados! emoções de confidências que fazem corar, beijos nas faces, em noites de luar, um passeio sentimental, à tardinha, áreas de guitarras como as de Cirano, à noite sob as varandas de Roxanes, algumas conjugações novas (de há vinte séculos!) do verbo amar. Alguns versos para cantar os lábios semelhantes a dois arcos purpúreos e dentes como os de pérolas.
Tudo isto, como vedes, são coisas que se parecem com sentimentos liliáceos, brotando numa alma azul.
Mas, admitida embora a hipótese de que se realizasse este inocente começo, o vício, por natureza, não continuaria, por muito tempo, com tais idílios.
O amor ilícito (só dele aqui falamos) não é esta bela literatura.
É, pelo contrário, o que há de mais grosseiro.
Por que vêm a cair tantas infelizes?
Talvez por teus belos olhos?
És ainda muito simplório, meu lourinho!
Na mor parte dos casos, o móvel verdadeiro, é só o dinheiro!
Completamente prosaico!
“Amor… e cheque!” É nobre, pois não é?
O coração… e venha o embolso.
Amor à vista… e a dinheiro.
É o “de contado” comercial, do que negocia ou (não te iludas) de outro qualquer que desejasse saldar contas.
Mas, haja ou não haja retribuição, o amor proibido será sempre culpa e baixeza.
No caso de tu seres o autor da sedução de uma moça, por ela ser pobre, e prometendo o dinheiro de que ela tem necessidade, como se há de então qualificar esta infâmia de um homem, que abusa da miserável situação de uma infeliz, e lhe compra a honra, para depois lhe atirar com vinte francos, em troca de sua virtude?
“Aquele que corrompe uma mulher.
Não colhe senão úlceras e ignomínias.
E seu opróbrio não se apagará jamais”. (Prov. 6-32).
A libertinagem será sempre uma aventura baixa e degradante.
E sedutora… mas só encarada de longe.
De perto, é horrível!… de perto!…
Mas façamos, muito praticamente, o balanço das consequências desses amores de ocasião: dívidas, porquanto “um vício, no dizer de Franklin, sai mais caro do que o sustento de dois filhos”, certas cenas em família, ciúmes ferozes, o terror dos escândalos, as fraudes, a obstinação importuna das infelizes que não querem largar-vos e se tornam, segundo a expressão de estudantes, “umas carraças”, as vinganças de mulheres abandonadas, fazendo revelações e aduzindo fatos a comprová-los.
Imprudente jogador! eis a quanto te arriscas com esta cartada do amor, que te parecia tão tentadora!
Oh! se a juventude soubesse!…
E depois os dramas e tragédias!… Quantos vitríolos, que de peitos rasgados e de corações traspassados por lâminas de punhais! Por quê?
A mulher “cherchez la femme”.
Pois bem, idílio branco ou drama rubro?
Demos a palavra ao magistrado Luiz Proal:
“Enquanto, por um lado, os romancistas e poetas celebram as virtudes e as belezas do amor, os magistrados, por seu lado, lhe esvurmam as vergonhas, os desesperos, os crimes. Não há paixão que, como esta, desse ocasião a maior número de desesperados, de loucos e de assassinos. Não há paixão que, como esta, conduza tantos infelizes, tantos culpados ao necrotério, ao manicômio e aos tribunais”.
E para confirmação desta tese, apresenta quase 700 páginas de fatos e de estatísticas (Crimes e suicídios passionais).
O mau procedimento de um indivíduo atua sempre sobre a coletividade, de que ele faz parte, em razão da íntima solidariedade humana.
O vício é antissocial.
“As nações são fortes em proporção da sua castidade”. (Saint Methode).
A decadência ou o progresso das nações, estão relacionados com a decadência ou progresso da virtude da castidade.

* * *
Enumerai, se vos é possível, as vezes que na história de amores levianos, a jovem foi afinal atirada ao abandono.
Tomada por capricho!
Abandonada por capricho!
Assim é que P. Bourget, no L’Etape, narra como Rumesnil abandonou a Julia Monneron.
Mas porque a tinha então amado? “Um pouco por fantasia, um pouco por passatempo, um pouco por perversão, um pouco por amor próprio e muito por leviandade”.
Também por grande leviandade é que Lescuyer, o herói do Coupable de Francisco Coppée, se apaixonou por Perrinette que, em seguida, votou-a ao abandono.
“Ah! nem sempre é muito belo o coração humano!… Não existia ajuste algum dele com Perrinette. Houve simplesmente mútua simpatia mas com a certeza de, a qualquer hora, se abandonarem. Bom dia, boa tarde!
Vós, senhor estudante, todo janota, o que faríeis de Perrinette, depois de defender a vossa tese?
— “Escreveu uma cartita e o: “recebe um abraço” seco, escrito num papel envolvido por algumas notas de banco; era pior do que uma bofetada”.
Ainda mais cruel é a carta em que Rodolpho dava o adeus a Emma Bovary; e muitas moças, demasiado crédulas, poderão ver parecenças com o seu caso, na cruel ironia daquela carta. “Não culpeis senão a fatalidade…” Eis uma frase que é sempre de muito efeito, dizia ele consigo mesmo. Adeus! E dava um último adeus mas separado-o em duas palavras: A — Deus! o que julgava um verdadeiro achado. Coitadinha da menina, murmurava Rodolpho! Seria bom irem com esta algumas lágrimas; mas, não sou eu que possa agora chorar: a culpa não é minha. E então, deitando água num copo e metendo nela o dedo, fez pingar sobre o papel uma gota d’água que caindo na tinta, produziu uma nódoa”. (G. Flaubert. Madame Bovary).
E enfim, tenhamos sempre presente que estes desvarios não são simplesmente um drama, entre dois, mas de três personagens.
O terceiro, o filho, que será dele?
Ou muito simplesmente procuram desfazer-se do serzinho molesto, e neste caso, o amor terá começado, por um beijo para terminar por um crime nefando.
Ou então permitem-no viver, mas o pobre inocente, será sempre desconsiderado, levando ligado ao nome o epíteto de ilegítimo e de bastardo.
Por vezes, deixam-no ao abandono atirado aos vaivéns da vida. Ora há de ser terrível e insuportável à consciência, por mais embotada que esteja, pensar que, atirado ao léu, vive um filho sem pai, um filho, vosso filho abandonado, a amaldiçoar os autores de seus dias!
É este pungente remorso que F. Coppée descreve em seu livro, Le Coupable: “Contudo este pensamento o assaltava… ter sido ele… o homem, que abandonara uma pobre moça e que deixara o próprio filho à mercê das aventuras da miséria”.
Oh! tristes e lamentáveis amores, que se não baseiam nos delicados sentimentos da alma, mas totalmente no egoísmo.
“Um egoísmo mal disfarçado! não um egoísmo a dois. Acharam este modo de dizer para esquivar a cruel e humilhante verdade; não passa, porém, de um puro egoísmo; quero dizer, um egoísmo completamente impuro.
Quando Deus não é o amigo comum a quem cada um mais ama; o que então, cada um dos dois mais ama, é a si mesmo!
E tudo isso é miserável, mesquinho, caduco, quase já cadáver. Tudo isso cheira miséria humana. Tudo isto afasta-se de Deus, e afasta Deus”. (L. Veuillot. Çá et lá).
Este egoísmo feroz, esta dureza de coração contraídos no amor carnal, acham-se cinicamente expostos no Aziadé, onde P. Loti se não envergonha de reproduzir as suas cartas ao tenente de marinha Plumkett: “Direis, ser necessário, para chegar até lá, um terrível fundo de egoísmo? Não o nego; mas afinal, cheguei a convencer-me que tudo quanto me pode causar prazer, é bom fazer-se, e que é necessário sempre apimentar, o melhor possível, o insosso guizado da vida (pg. 15). Estas belas amizades para toda a vida até a morte, ninguém melhor que eu lhes saboreou os encantos; mas, bem vedes, são para os dezoito anos; aos vinte e cinco, porém, já não existem e então só sentimos dedicação para nós mesmos! É desolador, o que vos estou dizendo, mas é terrivelmente verdadeiro (pg. 24). Crede-me: o tempo e a devassidão são dois grandes remédios. Não existe Deus, não existe moral, não existe nada que nos ensinaram a respeitar. Há uma vida que passa, a qual, logicamente, se há de pedir a maior soma possível de prazeres, esperando o seu terrível desenlace, a morte. Vou abrir-vos o meu coração, fazer-vos a minha profissão de fé: tenho como norma de minhas ações, fazer sempre o que me agrada, não obstante qualquer moralidade ou convenção social. Não creio em nada, nem em ninguém, não amo ninguém, nem coisa alguma”. (pg. 56).
Quando o simum devasta alguma região, deixa tudo ressequido, queimado.
Quando a paixão devasta um coração, tudo nele fica ressequido, queimado.
Por onde passar o casco do meu cavalo, dizia o feroz Átila, a erva não crescerá jamais.
Por onde passar a égua relinchona da luxúria, calcando tudo com seu duro casco, não mais crescerá a delicada flor de ternas afeições!…

* * *
Receio abusar das citações. Nada há, porém, que possa substituir a eloquência das confissões feitas pelos profissionais da libertinagem. Levai-me pois, a bem, que apresente aos vossos olhares uma última passagem, que admiravelmente resume tudo quanto dissemos neste capítulo da Derrota, e que é muito mais significativa, porque é tirada de um autor chamado Sainte-Beuve! Dum livro chamado Voluptuosidade! O volume tem 400 páginas, mas podemos resumi-lo nestes poucos excertos. “Compreendi profundamente esta palavra dos livros santos: “Ne dederis mulieribus substantiam tuam”: “não atireis às mulheres os vossos frutos e as vossas flores, a vossa virtude e o vosso gênio, a vossa fé e a vossa vontade: o mais precioso da vossa substância”. (pg. 129).
“Reconheci que a volúpia é a transição, a iniciação para outras paixões baixas. Foi ela que me atirou à embriaguez, à glutoneria, porque em noites de desvarios, esfalfado e não saciado, eu, de ordinário sóbrio, penetrava em cafés e pedia algum licor forte, que bebia com sofreguidão”. (pg. 128).
Ai! dir-se-ia que todas as velhacarias vegetam e proliferam, como cogumelos, nestas esterqueiras do vício. Nos terrenos pantanosos da impureza, não vegeta senão a flora pestilencial dos sentimentos imundos.
“Quando as almas delicadas se deixam resvalar para o prazer, para um prazer donde voltam enojadas e desbotadas, ficam profundamente calejadas.
Hão de precatar-se grandemente para não se tornarem insensíveis e cruéis”. (pg. 278).
Causa-nos espanto verificar “os excessos de um ser fraco e os de todos os que transtornam bruscamente a natureza”. (pg. 278).
Mil vezes feliz o moço que sabe impor-se “esses anos castos que são sérias economias poupadas à corrupção da vida”. (pg. 8).
“No libertino há os exteriores de compaixão, umas aparências de lágrimas. Seus olhos banham-se facilmente antes do prazer, cintilam, julgar-se-ia então que vai amar tudo. Mas atentai nele logo que saciou o seu desejo: como se fecha consigo, como se torna tristonho! Enquanto que o homem casto é de uma alegria pura e inocente, o voluptuoso concentra-se em si, ao ver-se bem-sucedido, torna-se arisco, mal assombrado, arredio”. (pg. 286).
“Malbaratou, para o conseguimento de um prazer, o que deveria repartir com os outros; esbanjou de uma só vez, e para um mau fim, seu tesouro de puras alegrias”. (pg. 289).
Os transeuntes, confessa ele, teriam podido observar-me, “à noite com a cabeça baixa, arrastando meus passos, com a alma tão abatida e aniquilada como Xerxes ao passar o Helesponto”. (pg. 287).
“Quem poderia calcular, nas grandes cidades, à tarde e nas horas caladas da noite, quantas energias, verdadeiros tesouros de gênio, de belas e de benéficas obras, lágrimas de ternura, e fecundos ideais se inutilizarem, periodicamente, abortados antes de nascer!
Aquele, nascido talvez para as honras de um monumento de glória, arruinará, no prazer, seu belo e genial fado.
Aqueloutro, em quem belíssima criação do espírito, se desabrocharia sob a guarda de uma severa continência, perderá a ocasião, a passagem do astro, o momento propício da luz, que não mais voltará.
Outro ainda, por natureza, inclinada ao bem, à esmola e a uma encantadora ternura, tornar-se-á covarde, estéril e até cruel.
Um coração que teria amado muito, malbaratará, em caminho, o seu grande dom de sensibilidade. O homem vê-se esfacelado aos vinte anos!” (pg. 133).
O pecado da impureza “corrompe o homem, empobrece-o e vai feri-lo nas suas fontes genuínas e superiores… Estes fatais gozos atacam o centro da vontade”. (pgs. 133 e 248).
“A voluptuosidade foi para vós, na alvorada da vida, um dourado anelo, uma flor orvalhada, um saborosíssimo caxo de uvas, termo ambicionado de vossos desejos. Vossa mocidade colheu este fruto e não sentiu satisfação neste fruto exótico. Conheceis já, prematuramente, o que ela vale e o que, cada vez, vos reserva: amargos desgostos e cruéis remorsos.
Ela apoderou-se de vossa carne. E este foi o vosso grande mal. Dai-vos pressa em vos desembaraçardes dela, meu amigo. É forçoso e podeis fazê-lo, se quiserdes.
Convencei-vos por uma vez e admirareis como é possível a cura. Eu não fui sempre qual agora me vedes… Não vos arreceeis! Sou eu, doente um pouco curado, quem vos fala, a vós doente que desesperais da cura”. (pg. 133 e seg.).
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