terça-feira, 26 de abril de 2016

O vício é triste…

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


O vício é triste…

e por sua natureza.
Eis a razão:
“O homem vicioso pede ao prazer que sacie, não simplesmente a limitada necessidade dos órgãos, como o animal, mas o anelo infinito do coração…
Se dá tudo, é para tudo receber; e assim, quanto mais o homem se entrega à paixão tanto mais exige que cresça a ração de prazer, e que cresça ao infinito!…
Mas à medida que a paixão se exalta, também a ração de gozo, é fatalmente, cada vez mais fraca… Porque se o desejo cava, cada vez mais, o abismo insondável do nosso coração, os órgãos, pelo contrário, sendo materiais, ficam sujeitos como toda a matéria, a um limite e a deterioração. Gastam-se: a sua atividade afrouxa-se sobretudo quando o vício os sobrecarrega e os desequilibra. E assim, pouco a pouco, se vai extinguindo o prazer.
Vem, pois o vicioso a cair no seu próprio laço.
Sua fome vai crescendo, à proporção que a sua presa vai diminuindo, e, fatalmente, se vão distanciando, sempre mais, a realidade e os anelos dela.
Ora esta distância, experimentalmente conhecida, a consciência do afastamento entre a realidade e esses desejos irrealizáveis, eis, para o homem, a medida do seu sofrer”. (Pe. A. Eymieu. Païens).
A culpa carnal não é a felicidade mas uma ilusão, muito passageira, da felicidade.
O gozo inebriante é tão rápido que o prazer é menor, no lampejo da satisfação despertada por esta “epilepsia brevis”, que nos antecedentes da culpa.
Depois, imediatamente depois, sobrevém o aborrecimento acabrunhador e o pecado que, nas suas consequências, é essencialmente enfadonho e monótono!
É uma degeneração de tal modo evidente, que ninguém se pode iludir a si mesmo.
É o desprezo de si mesmo,[1] tão pronunciado, que se sente a necessidade de exclamar como o capitão Saint-Avit, na Atlântida, ao ceder à paixão por Antinéa: “Não passo de um vil”.
É enfim o remorso. “Mas então, é só isto? E cai de novo!… Acabou-se!… Que minúscula felicidade… e que me resta agora? Uma depressão física e moral e, quiçá, um hebetismo sensual. Negócio de lorpa, cem vezes recomeçado! Sinto-me lasso, enlameado. Tenho aborrecimento aos outros porque o tenho a mim mesmo. Tudo vem acabar em amargor”.
O pecado deve gerar a tristeza, porquanto, como diz Santo Tomás de Aquino, “um ser consciente, colocado fora da ordem, há de fatalmente sofrer”.
O vicioso é um irregular que conscientemente se colocou em antagonismo com o dever. É um excêntrico, um desnorteado!
Meu amigo, proponho-te esta questão a que responderás com toda a lealdade da tua alma: trouxe-te o pecado impuro a felicidade? Pode ser que o tenhas praticado durante semanas e meses. Neste caso, conheces experimentalmente e muito concretamente o que ele é em si. E depois disto, te achaste mais contente de ti ou provaste aquela náusea íntima, aquele fastio enjoativo proveniente da dupla saciedade, tanto física como psíquica?[2]
Imensa avidez, seguida de um imenso enjoo!
Eterno atrativo, eterna desilusão!
Após o pecado, só restam amarguras: e por centenas são as autoridades com que isto se poderia provar.
“A tristeza anda associada ao prazer, assim como a água doce com a salgada, à embocadura de todos os rios”. (Gabriel d’Annunzio).
“Amar com um amor, em que só dominam os sentidos, é sempre, sempre e sempre sofrer de insaciabilidade”. (P. Bourget. Phys. de l’amour).
O mesmo autor faz dizer ao herói do Discípulo: “Logo após a culpa, senti a prostração da minha alma exaltada e frenética. Experimentei a secura absoluta da minha ternura e a rápida volta ao estado anterior d’alma”.
Que resta então de tudo isto? “Desgostos… e remorsos”. (P. Bourget. Nemesis).
Daniel Rovére, ao depois do seu pecado, se “teria vomitado a si mesmo, de nojo”. (Em. Baumann. L’Immolé).
A volúpia culpável não é o belo ouro sólido e fino da felicidade, mas uma liga ou só pobre palheta d’ouro, que é necessário comprá-la, por caro preço.
A cortesã Thaïs bem reconhece-o! “Não encontrei a felicidade embora me sinta inteiramente exausta”. (A. France. Thaïs).
Outra heroína do mesmo quilate, nos Contos em prosa de Fr. Coppée, confessa: “Não tinha ainda vinte sete anos, mas se soubesses como o meu coração se tinha envelhecido!”
P. Loti narrando a vida desregrada que leva em Istambul, acrescenta:
“Provei mais ou menos de todos os prazeres. Sinto-me mui envelhecido não obstante esta minha juventude física”. (P. Loti. Aziadé).
Quantos, ainda jovens, vivem encarquilhados e já parecem-se com “velhos arruinados”!
É fácil de se adivinhar o porquê!
Quando nos lembramos de tantos textos significativos acerca das supostas felicidades do vício, compreendemos a saída original de Lord Palmerston: “A vida seria suportável, se não fossem os prazeres”.
Mais nos entregamos aos prazeres, mais nos enojamos deles.

* * *
Encaremos o problema mais de perto: todos nós, sem exceção, andamos em busca da mesma coisa; tanto o santo como o pecador, embora por caminhos diversos, buscam um fim idêntico: a felicidade…
Quem a encontra?
A virtude é recompensada, tanto na outra vida, o que é evidente, como cá nesta terra, em que ela nos depara aquela paz, que o mundo não nos pode dar nem roubar.
A santa alegria, é irmã da santa inocência.
A culpa é punida tanto na outra vida, o que é evidente, como cá nesta terra. O pecado deixa em nossa boca o ressaibo de fel do remorso.
Aqueles que consigo lutam, são os mais atilados e os mais seguros de encontrarem a paz.
Jesus Cristo o predisse: aquele que, por uma prudência mal compreendida, quer salvaguardar o próprio interesse, vem a perdê-lo; aquele que o perde é, na realidade quem o ganha.
É o jogo divino do “quem perde ganha”. E Mons. Baunard tem razão quando diz: “Só se guarda o que se deu”, o que a Deus se deu, com generosidade.
Depois de uma vitória alcançada sobre si mesmo, nossa alma sente-se à vontade.
O concerto da alegria, soa no coração que se vai dilatando.
Depois de uma orgia, sente-se a boca amarga e a cruel mágoa daqueles prazeres violentos, donde se saiu como derreado.
Se a virtude parece dificultosa, é sobretudo ao princípio.
Triste entrada, festiva saída.
Para o vício, pelo contrário, belas entradas de leão e saídas de sendeiro.
A entrada dele na alma é pela porta do gozo, e a saída é pela da tristeza.
As rosas do vício muito mal ocultam a morte.
Parecido com isto era, em Roma, o “suplício de flores”.
Convidavam-se para um banquete aqueles que, ignorando, estavam destinados à morte.
O banquete era lauto e suntuoso.
A um dado momento, entreabria-se, no teto, um grande véu de púrpura e deixava-se cair uma chuva, uma branda camada cheirosa e poética de rosas e de verbenas.
No começo reinava, entre os convivas, admiração e todos celebravam o esplendor da festa.
Mas como a chuva continuasse a cair impertinente e ininterrupta, uma sombra de tristeza começava então a aparecer em todas as frontes. Eram realmente demasiados essas flores e perfumes.
E por fim vinham a expirar, asfixiados com tantos perfumes, tendo por lençol mortuário, uma camada de verbenas e de rosas.
O mesmo se dá com o vício impuro.
Convida-nos o vício a tomar parte num esplêndido banquete, onde todos podem beber na taça do prazer, um vinho inebriante, e devorar frutos vedados e por isso mesmo, mais tentadores.
Também eles nos oferecem perfumes e flores.
E, como para os convivas de Roma, tudo são, ao princípio, encantos.
Bem depressa reconhecem, porém, com sobressalto, que aquelas paixões tão suaves e tão atraentes, dão de fato, causa a um tremendo desfalecimento.
E por fim chega a morte.
E de tudo, só resta n’alma um incurável sentimento das coisas que já passaram ao nada e das culpas que se praticaram.
Não se deu somente em Roma este “suplício de flores”!…
Renova-se cada dia, e tantas vezes quantas um jovem cede aos instintos do prazer proibido.[3]

* * *
Nunca digas: será verdade que o prazer tem como remate a melancolia? Se eu me arriscasse a experimentá-lo?
Esta experiência já foi feita, há mais de dois mil anos.
O Eclesiastes fê-la! E o grande desiludido, no-la expõe no seu poema de eterno enfado:
“Disse ao meu coração: Vamos
Saboreia o prazer!
Mas tudo isto, não é mais do que vaidade!…
Fiz vir cantores e cantoras,
Gozei as delícias dos filhos dos homens.
E mulheres sem número…
De tudo quanto meus olhos apeteceram
Coisa alguma lhe neguei,
Não recusei ao meu coração nenhum prazer…
E vi que tudo era vaidade e aflição de espírito.
E nada há de permanente sob o sol”.
(Ecles. 2-1 e seg.).
“Os olhos não se saciaram com o que viram.
Nem os ouvidos com o que ouviram”.
(Idem, 1-7).
Também Santo Agostinho fizera, durante dezessete anos, a experiência dos prazeres proibidos. E o resultado vem exposto no seu livro, As confissões.
“Vós, Senhor, bem sabeis o que eu sofria! “Sciebas quid patiebar”.
Sentia-me roído. “Rodebar”.
Como era infeliz! “Quam miser eram!”
O hábito de querer saciar a insaciável concupiscência, me cruciava.
“Me excruciabat”.
Que tormentos os meus… e que gemidos! “Quæ tormenta… qui gemitus!”
Semelhante vida, podia ainda ter o nome de vida? “Talis vita, numquid vita erat?”
Do meu coração apossara-se uma imensa tristeza. “Maestitudo ingens”.
Senhor, fizestes o nosso coração para vós e ele estará sempre inquieto enquanto não repousar em vós! “Et irrequietum est cor nostrum, donec requiescat in Te”.
É muito exato. Assim como a agulha de uma bússola se move irrequieta e estonteada enquanto não se orienta para o polo, assim o nosso coração vive estonteado até se fixar definitivamente, no rumo do polo divino.
Agostinho ouvira a voz que lhe dizia: toma, lê.
Tomou o livro e leu esta passagem de S. Paulo: “Sigamos pelo caminho da honestidade, como em pleno dia, não nos entregando às orgias, à embriaguez, à luxúria e à impudicícia… mas revesti-vos de Jesus Cristo Nosso Senhor e não regaleis a vossa carne de modo a excitar, em vós, as concupiscências”. (Rom. 13-13).


[1]             Somente existe um ser,
Que eu posso bem e sempre conhecer;
Como eu, dele ninguém juízo deu,
Desprezo esse ser baixo e vil: Sou eu.
(A Musset: Votos estéreis)
No gozo do prazer a que recorro
Sinto tal nojo que quase morro.
             (Id. Esperança em Deus)
Quanto me enojo de mim mesmo.
(P. Bourget. O tribuno)
[2]             Então é que se devem tomar resoluções para o futuro; nesse momento é que se julga bem e não quando se está influenciado pelo apetite desregrado. Aqui tem aplicação o princípio, que Santo Inácio dá, falando da temperança: É necessário prever a maneira como se há de haver “no momento em que o apetite não se faz sentir… para que se possa prevenir qualquer desregramento”.
[3]             “Cada qual é tentado pela própria concupiscência… Em seguida a concupiscência, logo que concebeu, gera o pecado, e o pecado, apenas consumado gera a morte”. (S. Tiago, 1-14).
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