sexta-feira, 22 de abril de 2016

“Escolhe Bem”

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


“Escolhe Bem”

Estuda o carácter daquela que há de ser tua companheira. O casamento é um contrato entre dois e por toda a vida.
M. de la Palisse teria dito, ser verdade mui clara a todos nós. Todavia é sempre oportuno aqui, recordá-lo.
Os esposos, diz com graça A. Daudet, são muita vez uma “baixela desemparelhada”.
A tua “metade” não será de fato uma “fúria”? Esta mulher mundana, ricamente trajada, é uma fúria vestida à última moda. Outros se vêm finalmente a convencer, com espanto, de que se casaram com uma tempestade; e Pailleron tinha razão em dizer: “muito palavreado antes, poucas palavrinhas ao depois, e grandes palavrões por fim”.
Com um mau casamento o homem faz entrar em sua vida uma mulher, perversa, importuna como um pesadelo, movendo-se sobre dois pés.
Bela é a observação de Taine em Th. Graindorge: “Observam-se por três semanas, amam-se por três meses, discutem por três anos, toleram-se por trinta anos… e os filhos recomeçam a comédia”.
Se és prudente, atentamente medita, porque feita a promessa e dado o passo, “já não há meio de se voltar atrás, com arrependimentos. O casamento é a ordem em que se faz a profissão antes do noviciado, e, caso houvesse um ano de provação, como para a profissão nos mosteiros, poucos seriam os professos”. (S. Franc. de Sales).
Não deves procurar tua companheira entre as jovens levianas.
O juízo delas é ainda mais curto do que a saia que usam!
E há nelas tão poucas ideias como a miséria do estofo que cobre-lhe os braços e ombros.
Os seus sentimentos são um tecido tão pouco sólido e resistente qual o das suas meias, como teias de aranha.
Estas pequenas, apenas são grandes, pela altura dos seus tacões, e preciosas só pela quantidade dos seus adereços.
O seu cérebro não é um sino capaz de dar o belo som grave da reflexão, é uma campainha em que só tilinta o badalar das vaidades e do prazer.
Bagatelas, leviandades = 100.
Pensamentos sérios = 0.
Esses seres levianos são tudo o que quiserem: borboletas, colibris… mas mulheres, não, oh não!

* * *
Não cases nunca com uma jovem sem religião.
Dos casamentos desiguais, o pior é o das almas.
Se queres que teu amor perdure, dosa-o com sentimentos divinos.
Imita os esposos de Caná: convida Cristo às tuas núpcias.
Outros para presidi-lo, convidariam a Baco.
Hão de um dia penitenciarem-se.
Em lares sem religião, que de vidas se apresentam unidas, e que são apenas paralelas!…
Paralelas: lembra-te de tuas aulas de geometria?… São duas linhas que nem ao infinito se encontram!
Naquele belo par, que em público continua a dar-se o braço, de há muito nele houve o divórcio das almas.
Uma abertura profunda se fez entre aquelas duas existências assim como, nos Alpes, uma fenda de cem metros, separa duas geleiras cujas bordas parecem, à primeira vista, estar em contato.
O cavalheiro e a senhora são estas duas geleiras.
Estão um do outro tão perto e tão longe!
Oh céus! que de suspiros, que de soluços, por vezes, se ocultam por trás de elegantes frontarias e em dourados salões?
À mesa, em presença dos convivas, sorriem-se.
No quarto, por cima, engalfinham-se!…
“O mundo gloria-se de que, entre pessoas educadas, a querela é comedida. O mundo mente. Quantas, aliás belas, tão delicadas com o rosto no pavimento ou sobre os tapetes, sem ousar sequer dar um grito, foram arrastadas pela seda dos seus cabelos!” (Sainte-Beuve. Volupté).

* * *
A psicologia masculina e feminina nesta questão que estudamos, da escolha, não andam inteiramente emparelhados. O conceito é duplo e a propensão é divergente. Aquele atrativo, que no homem excita grande paixão, não a compreende a mulher, e vice-versa.
Em verdade, cada um dos sexos busca no outro aquilo de que carece: procuram por assim dizer o seu ângulo complementar.
A jovem procura, sobretudo, no homem o que ela não tem: a força. O homem procura, sobretudo, na mulher aquilo de que se acha desprovido: o encanto, a graça.
Este é sobretudo[1] sensível à beleza.
É legítimo, é normal encantar-se na beleza daquela com quem queres casar-te. Todavia não deves olhar unicamente ao encanto das linhas e à gentileza do corpo.
Por volta dos quarenta anos e às vezes mais cedo, perde-se o ar de gentileza e de frescor, e só ficam as qualidades sérias.
A eterna primavera cantam-na sempre, e não se realiza jamais.
Um dia o espelho lhe dirá que está velha.
E saberá ela o que é o espelho?
Até aos trinta anos: um “conselheiro de encantos”.
De trinta a cinquenta: um “juiz severo”.
A partir dos cinquenta: uma “testemunha penalizada”.
Oxalá que ele soubesse, ao menos quando vê a sua psiché a refleti-la, refletir também consigo…
Foi ela boneca ou foi mulher?
Soube ser mãe? quis ser mãe? e, se teve um filho (um!…), só viu nele um brinquinho?…

* * *
Quando um jovem pensa no casamento, a quem deverá ele escolher para esposa?
Uma mulher.
Uma mulher, repito. E não é inútil relembrá-lo, porquanto hoje em dia menospreza-se isto, para esposar brasões ou um cofre cheio de ouro.
O casamento não deve ser uma acumulação de dotes, mas uma união de corações.
Muito moderna devia ser aquela jovem, que ao dizer-lhe o noivo: conto levar-vos uma boa soma de “juros”, respondeu-lhe com este trocadilho: espero receber não só os “juros” senão também o “capital”.
Amarga ilusão, o dinheiro não é sinônimo de felicidade!
Ah, se pudéssemos falar!…
Manda, por outra parte, a prudência que, com tino, penses no futuro e examines se as fontes de renda (realizadas ou razoavelmente descontadas) somadas com as da futura esposa, vos darão para viver e para viverem os filhos.
Aos vinte anos há sempre muito lirismo:
“Uma choupana e o teu coração!”
É muito belo para uma canção, meu galante!
Mas a realidade da vida diz ser isso suportável (por algum tempo…), somente quando o inverno não é muito inclemente e quando não chova pelas fendas da sobredita choupana, pois o amor tiritando de frio, o amor molhado, dá pena: e um bandolim consola pouco, quando os dedos estão gelados ou quando a água goteja do teto.
O amor, diga-se o que se quiser, não vive lá muito à vontade numa choupana, quando beleguins se apresentam à porta e os credores vêm fazer cenas.


[1]             Sobretudo, não porém exclusivamente e nem sempre.
         “Uma mulher feia pode ser sedutora, enquanto uma bonita será olhada com a mais absoluta indiferença e assim também uma mulher poderá sentir-se atraída por um homem insignificante e muito feio”. (Cond. de Tramar. Brev. de la femme).
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