sábado, 23 de abril de 2016

Depois da escolha

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


Depois da escolha

O teu coração escolheu. Di-lo aos teus pais.
Porque ocultar-lhes? Eles passaram também por aí. Vamos, e hão de ouvir com ternura a tua bela confidência.
Não dilates muito o teu noivado.
Durante este tempo ama a tua “predileta” sincera e corretamente.
Sinceramente: se Deus elevou o matrimônio a dignidade de sacramento, quis também o prelúdio para o casamento, que se chama o noivado e, durante o noivado, o amor. Tudo isto está logicamente encadeado. Ama pois com tua alma, a tua eleita.
Corretamente: os noivos podem dar-se provas normais de recíproca afeição.
Dever-se-á seguir a seguinte norma: proceder como procederiam se fossem observados?[1]
Não, porque estes sentimentos delicados são íntimos, de modo que se não podem manifestar perante pessoas estranhas.
Seria preferível a norma já acima indicada para os bailes: não farei o que mais tarde, não permitiria ao meu filho, em circunstâncias idênticas.
Ou ainda: Antevendo o momento em que aquela que, agora é minha noiva, será minha esposa, procederei de modo que não tenha que envergonhar-me, mais tarde, diante dela.
Independentemente mesmo de qualquer consideração religiosa, e colocando-se unicamente sob o ponto de vista dessa amizade recíproca, sempre os noivos ganham em proceder corretamente.
Desgraçados os que, ao se conhecerem, pecaram.
Neles subsistirá por toda a vida, como um quadro-negro a importuna lembrança duma queda que, apesar dos impulsos da paixão, lhes exprobará a vileza da culpa.
O respeito entre ambos, esvaiu-se. Acabou-se. Ambos se reconhecerão mutuamente covardes e desprezíveis.
Não mais se amarão pelos nobres sentimentos d’alma. Pecaram não só contra a religião mas também contra o amor!
Sim, contra o amor, que ficou conculcado por aquelas coisas vis.
Dirás: “é ainda amor!”
Não: é antes “concupiscência”.
Em todo caso, é amor conspurcado, rebaixado de sua dignidade.
Um fruto tocado é ainda um fruto, mas bichado.

* * *
As moças pensam, por vezes, tornar mais forte o afeto de um moço para com elas, dando-lhe provas ilícitas de amor. Infelizes! muitas vezes punidas pelo completo abandono do moço para o qual o casamento não traria nada de novo, a não ser o peso de uma cadeia indissolúvel.
Conta-se no 2.º livro de Samuel que Amnon tinha por Tamar amor ilícito, e tão violento que “o atormentava a ponto de ficar doente”. Ora apenas ele saciou a sua paixão péssima, “o amor de Amnon por Tamar se trocou em grande aversão, e mais forte do que fora o amor.
Retira-te, diz-lhe ele.
Ao mal que me causaste, tornou-lhe ela, não acrescentes mal maior, o de expulsar-me. Mas ele, sem dar-lhe ouvidos, chamou o criado e disse-lhe: Atira esta mulher para fora de casa e fecha-lhe a porta.
Pô-la fora o criado de Amnon, fechando-lhe a porta. Então Tamar, rasgando o longo vestido, foi-se, dando gritos de desespero”.
Nem mesmo os próprios jovens casquilhos apreciam as moças levianas.
As moças, dizem eles, pelo temor de ficarem para sempre tias imaginam que lhes iremos pedir a mão só porque têm, para conosco, complacências exageradas.
Puro engano! Nós distinguimos perfeitamente entre a dançante de uma noite, a quem só se pede nos seja engraçadinha, e a jovem que nós resolvemos seja a nossa mulher e a mãe de nossos futuros filhos.
Aquela é pouco circunspecta e por isso nos inspira pouca confiança. “Ela fora já fisgada naquele divertimento perigoso. Dera ao sedutor aquele direito, que muito facilmente serve de pretexto para o desprezo”. (P. Bourget).
E reciprocamente, bem veem as moças que um jovem, logrador, oferece garantias pouco sérias para o futuro.
Pelo menos, é o que pensam as moças em geral…
Algumas há, porém, que obedecem ao néscio preconceito de que é mister escolher um moço já “precisando de barrela”.[2]
Senhorinha, não sois cristã dando esta recompensa a transviados.
Não sois prudente preferindo um jovem de coração arruinado e, quiçá também de corpo contaminado.
Não sois realmente pundonorosa em vos contentardes só com os restos.
Não sois ajuizada imaginando que para ser bom, é necessário ter sido antes mau. Como se o vício fosse a melhor garantia da virtude!
Desconfiai, pelo contrário, daquele que, havendo provado antes de se casar o fruto de amores proibidos, não relutará em prová-lo também, ao depois de casado.


[1]             Não se há de dar também esta regra às crianças como meio para distinguirem as ações honestas das desonestas. Há ações honestas, necessárias que, no entanto, se conservam reservadas pelo instinto do pudor natural.
[2]             É o que se chama “moral dupla” do mundo, desculpando a culpa no rapaz e condenando-a na mulher.
         Com que direito se baseará semelhante distinção? “Qui non habetis uxorem et ducere vultis, integros vos ad eas servate, sicut integras vultis invenire”. (Santo Agostinho). Rapazes, conservai-vos íntegros para aquelas que, no vosso casamento, desejais encontrá-las íntegras.