segunda-feira, 25 de abril de 2016

A DERROTA

Nota do blogue: Acompanhe esse Especial AQUI.

A GRANDE GUERRA 
(LE COMBAT DE LA PURETÉ)
PELO
PE. J. HOORNAERT, S.J.


A DERROTA


A derrota!
Palavra amarga!
Como caustica nossos lábios!
Para não sofrê-la, lutamos durante quatro anos.
Durante quatro anos, demos o sangue de nossas veias e sacrificamos nossos destemidos valentes.
Para salvaguardar nossa independência!
Ora o moço, dominado pelo vício impuro, perdeu sua independência, é escravo.
É a derrota!
Palavra muito amarga!
Como caustica nossos lábios!
Ao começar a guerra, vi os jovens belgas conduzidos entre baionetas alemãs. Se vivesse, cem anos (o que seria para lastimar) me lembraria ainda da expressão dolorosa dos seus rostos.
Pungente humilhação!
E, no entanto, aqueles moços não tinham de que envergonhar-se.
Tinham antes o direito de se apresentarem de fronte erguida.
Mas o vencido pela paixão, deve envergonhar-se e andar de cabeça baixa.
Entregou as armas, por covardia, e ao mais desprezível dos vencedores, àquele demônio que Nosso Senhor no Evangelho chama: “homicida desde o começo”.
Um soldado dos arredores de Namur contou-me como o seu “forte” fora tomado. Tinham feito sair todos os belgas e depois, perante eles, quebram-lhes os fuzis nos rails dos carros americanos, que por ali passavam.
E, com a vingança desenhada no rosto, clamava: “Que raiva! quando vi o vencedor quebrar assim o nosso fuzil. Não podereis nunca compreender isso! Não! não sois soldado!…”
Mais uma vez: a humilhação para aquele soldado fora puramente material e de nenhum modo infamante por ser imerecida.
O vencido pelo vício sofreu, pelo contrário, uma derrota infamante e merecida.
É cruel e horrível ser escravo do inimigo.
O vício é também uma escravidão.
E não é raro que os escravos do vício venham dizer, cobertos de vergonha: Oh! é terrível esta tirania do vezo! Como nos prende com pesados grilhões!”
Nenhum carcereiro guardará com maior rigor seus prisioneiros, como o vício guarda suas vítimas.

* * *
Péricles, referindo-se aos jovens caídos em combate, dizia: “O ano perdeu sua primavera!” E isto é ainda mais verdadeiro no sentido moral! Quando a luxúria arruína um povo, “o ano perdeu a sua primavera”.
Lemos no livro, A indisciplina dos costumes, de Bureau: “diariamente se está dando grande carnificina de jovens”. O autor traçava estas linhas negras, durante a guerra, mas não se referia aos jovens mortos em combate, aludia a essa carnificina moral de jovens aos quais a impureza deixa arruinados.
“Uma grande carnificina…”
“O ano perdeu sua primavera…”
Esta mágoa procurei exprimi-la no livro “Os caminhos que sobem” e, queiram desculpar-me por me citar a mim mesmo reproduzindo aqui a página onde, ponho em paralelo os jovens castos e os que o não são.[1]
Como são belos os primeiros! “O’ quam pulchra est casta generatio”.
Cotejai as suas faculdades, uma por uma:
A inteligência: é viva e clara, possuindo o homem, no eu superior, uma dilatação proporcional à restrição imposta ao eu inferior.
A vontade: acha-se retemperada pela própria luta, mediante o esforço, que é para o carácter, uma espécie de peptonato de ferro. Torna-se capaz de uma energia de grande voltagem e forte tensão.
A memória: é geralmente fiel, e por forma, que muita vez, “uma memória feliz é um indício… de pureza”. (Fonssagrives. L’Educ. de la pureté).
O coração: guarda intactas suas reservas de afeição e de frescura de sentimentos que o perfumam. “O jovem que conservou até os vinte anos sua inocência é… o mais amante e o mais amado dos homens”. (J. J. Rousseau. Emile, L. IV).
O corpo: não é raro tornar-se mais elegante em razão de sua pureza. É lógico: o espírito aperfeiçoa o semblante: ele é “o obreiro da sua casa, diz Michelet. Admirai como ele elabora a figura humana em que habita, como lhe compõe ou deforma os traços”.
“A grandeza dos sentimentos íntimos transparece no rosto, acabando por tornar-se sua expressão normal ou caracterizando-lhe a fisionomia”.
“Razão porque o semblante dum homem casto tem, um não sei que de radiante e de sublime”. (Balzac. Ursule Mirouet).
Sendo o rosto o espelho da alma, “o meio de embelezar nossa fisionomia, tanto quanto em nós couber, será de embelezar nossa alma”. (Lavater).
Ora “um belo semblante é o mais belo de todos os espetáculos”. (La Bruyère).
“É impossível ver uma alma virgem, transparecendo num semblante puro, sem nos sentirmos movidos de simpatia, esse misto de ternura e de respeito”. (Lacordaire).
Assim se nos apresenta a bela geração dos castos.
Mas ai! ainda há outra. Contemple-se um moço corrompido, que malbarata seus belos anos, como o insensato que voluntariamente atirasse, uma por uma, ao mar, as suas preciosas peças de ouro.
Aqui, infelizmente, que rebaixamento não vemos!
Retomemos o exame de cada faculdade:
A inteligência: Está, por assim dizer toldada, como se a lama imunda do coração tivesse subido à cabeça. O filósofo Joubert não exagera quando diz: “No mesmo momento em que o moço se inflama para a carne, se extingue para toda e qualquer reflexão séria”.
Platão e, muito tempo depois, de Bonald, enganando-se de certo, mas com muita dignidade, definiram o homem: “uma inteligência servida por órgãos”.
O moço devasso, invertendo esta definição, só vê no homem, órgãos que escravizam a inteligência, fazendo-a trabalhar só para o prazer.
Lacordaire ousou dizer: “A alma se materializa”; e com maior veemência Vinet: “A alma dos impudicos, desfaz-se toda em carne”.
Por vezes, “A alma passando-se para os sentidos, acaba por cair numa espécie de paralisia que se assemelha à imbecilidade”. (Pe. Janvier. Conf.).
Esta degradação é muito notada, sendo admiravelmente recordada nos dois seguintes textos:
“Com a impureza, anda associada a inaptidão para o trabalho e a impotência senil, tratando-se embora de jovens”. (Sertillanges. Nossos verdadeiros inimigos).
“A vida baixou da cabeça aos sentidos… O vício embota a perspicácia intelectual, destrói o gosto das coisas espirituais, torna o homem inapto para aquele esforço de recolhimento e de atenção, que supõe sempre o trato com livros sérios…
Não é possível caminharem a par, a vida dos sentidos e a vida do espírito”. (Guibert. La Pureté).
Vistes por ventura alguma águia numa jaula, o grande rei do azul, entre varas de ferro? Causa pena!
Maior pena causa o estado de uma alma, encarcerada numa prisão carnal…
A vontade: — Está gravemente lesada naquele jovem que não se governa mais.
Repare-se neste círculo vicioso: porque cedeu, debilitou-se a vontade: porque se debilitou a vontade, cede.
A memória: — A memória sensível tem um órgão: o cérebro.
Mas os excessos do vício, abalando o sistema nervoso, atuam sobre o cérebro e, consequentemente, sobre a memória, de um modo desastrado.
O coração: — Coração? o pobre infeliz, por vezes, parece que já não o tem mais. “A impureza, diz o profeta, rouba o coração”. (Oseias 4.11).
O coração? Mas o vício corroeu-lhe as fibras vitais.
Ninguém houve, com maior competência, do que o apóstolo da juventude Pe. Lacordaire, para falar sobre este assunto: “Tenho conhecido em minha vida, diz ele, muitos jovens e vos posso afiançar: Não me foi possível encontrar almas amantes senão entre aquelas que ignoravam o terrível mal, ou que lutavam contra ele”.
“A libertinagem supõe grande entorpecimento da alma”. (Joubert).
Como é mirrado e tapado aquele “esgotado coração de moço libertino”. (P. Bourget. Étape).
Infelizes mães[2] acodem chorosas a nossos locutórios, dizendo: “Meu filho era tão carinhoso, tão bom para os seus irmãos e irmãs. A ternura maternal, penetrava em seus olhos, descia até ao íntimo da sua alma! mas agora dir-se-ia metido num recinto impenetrável onde nem a sua mãe, nem sobretudo a sua mãe, é dado entrar. Meu filho tornou-se duro e grosseiro!…
O que terá ele?
O que tem? pobre mãe!… sofre do terrível mal de moços.
A impureza é a grande roubadora dos corações. Pouco se importa esse filho que as cãs apareçam, prematuras, na cabeça de um pai, ou com o pranto de uma infeliz mãe, pois já lhes não liga mais atenção.
O lírio de amores castos, não vegeta em canteiros onde plantas daninhas lhe absorvem toda a seiva e lhe empobrecem totalmente o solo!
Semelhante egoísta, pode chegar a ter aversão até ao matrimônio. Os prazeres nefandos do vício solitário lhe bastam.
Quando este logrador se torna rapaz velho, não vos iludais quanto à explicação disso. O motivo não é um ideal superior e sim porque já está completamente calejado e gasto. É um egocêntrico.
Um moço vicioso não só deixa de ser afetuoso, mas até chega, por vezes, a tornar-se realmente cruel. Impureza e crueldade, estas duas modalidades da paixão da carne e do sangue, encontram-se emparelhadas nos sinistros recônditos do animal humano.
Lei de contiguidade! Afinidades secretas!
Exigem emoções, cada vez mais fortes, acabando-se em sangue.
Em Roma, o circo onde os gladiadores se matavam, estava perto dos prostíbulos, onde se praticava a devassidão!
“O mesmo instinto… aninha no coração do homem, o vício associado ao sangue.
Todos os cultos impuros, que a história nos recorda, foram sanguinários…
O homem, em todas as épocas, foi sempre profundamente o mesmo. Quando Deus se aparta do homem, vem o bruto a morar nele.
Correndo-se livre pelos vícios, vai-se fatalmente tropeçar no crime…
Um magistrado encarregado das causas criminais infantis, dizia-me um dia: “vi passar pelo meu tribunal 17.000 criminosos, rapazes e moças: eram roubos, assassinatos, parricídios… Não encontrei, porém, entre estes 17 mil culpados um só que não tivesse começado pelos maus costumes”. (Ant. Eymieu. Païens).
Quando a orgia é a rainha, o crime é o rei.
O corpo: — “O vício conduz ao hospital… e por que caminhos!” (L. Veuillot).
A impureza é o pecado do corpo; e é, muita vez, punida no próprio corpo.
Vede aquele rapaz marcado com aquele ferrete significativo: lá vai com o rosto macilento, olheiras fundas, em direção aos lugares onde se perde a honra e a saúde. Chega, por vezes, a ficar atacado de impotência, corre risco do esgotamento, castigo dos seus desatinos, e de contrair doenças vergonhosas.
Começou por festas, e acaba pelo carrinho dos orates ou pela imbecilidade.

* * *
Comparemos ainda, pela última vez, o jovem casto com o impuro.[3]
O primeiro está, permitam-me o termo hierarquizado, porquanto possui uma “alma viril, senhora do corpo, por ela vivificada”. Obedece ao preceito: “sub te erit appetitus tuus et tu dominaberis”.[4] Tu dominarás os teus apetites inferiores.
O segundo é “anárquico”, essencialmente desequilibrado, pois a carne asfixia o espírito.[5]
A besta venceu o anjo. “Logo que a loucura mutila o ser humano, não fica senão a besta”. (Pe. Ant. Eymieu. Païens).
E será para admirar que todo o ser se ressinta de uma tal desordem?
Se os mundos mais diversos estão muitas vezes, ligados por mil íntimas travações, que formam como um que misterioso sistema de vasos comunicantes; com maior razão há de uma perturbação tão profunda, atuar fortemente em todas as faculdades do mesmo individuo, por ser o homem uma unidade perfeita e não um simples agregado de coisas.
As diferentes partes do composto humano estão de tal modo intimamente relacionadas que umas agem e reagem sobre as outras. Nada se separa na vida.
E assim é que o vicioso é o pior dos desequilibrados.
E por isso mesmo, o maior dos desclassificados.
Um desclassificado de ordem moral.
A prova de que o vício é torpe, é que ele tem necessidade de se mascarar.[6]
E quando é força apresentar-se em público, fá-lo a meias e só à força de eufemismos: “vida alegre”, temperamento fogoso… exuberâncias de coração… etc”.
A palavra tenta passar a coisa! e o rótulo dissimula o ordinário da droga!…
Tenhamos a devida coragem de dar o seu verdadeiro nome a estas tristes realidades.
Durante a guerra o inimigo dissimulava as suas ciladas.
O vício impuro faz a mesma coisa.
Desvendemos-lhe pois sua dupla insídia: a da suposta alegria e a de sua poesia.
O pecado: é abertamente oposto à alegria como vamos mostrar: é, por outra, essencialmente triste e vil.



[1]             Neste contraste entre puros e impuros consideramos sobretudo os dois extremos. De mais, e somos os primeiros a reconhecê-lo, os fenômenos observados estão sujeitos a exceções e modificações.
[2]             Quantas mães contemplaram espantadas o vício agigantar-se no coração de seus filhos, corno terrível animal que tudo devora. “E tornou-se leão: e aprendeu a dilacerar sua presa, e devorar homens… Devastou seus palácios, e despovoou as suas cidades e toda a região e tudo o que ela continha, ficou tomado de espanto pelo ruído dos seus rugidos”. (Ex. 19-6 e seg.). Quantos pais pensando na libertinagem que arruinou seus filhos, vão exclamando como o velho Jacó: “Uma fera péssima o devorou… Descerei entre prantos, a ter com meu filho na mansão da morte”. (Gen. 37-33).
[3]             S. Paulo faz este paralelo: “Os que vivem segundo a carne, afeiçoam-se às coisas da carne; mas os que vivem segundo o Espírito, afeiçoam-se às coisas do Espírito. E as afeições da carne, são morte; enquanto que as afeições do espírito, são vida e paz: porque as afeições da carne são inimigas de Deus, pois não se querem submeter à lei divina… Ora, os que vivem na carne não podem agradar a Deus. Vós, porém, não viveis na carne, mas no Espírito… Assim pois, meus irmãos, não somos devedores à carne, para viver segundo a carne. Pois se viverdes segundo à carne morrereis; mas se pelo Espírito fizerdes morrer as obras do corpo, vivereis”. (Rom. 8-5 4 seg.).
[4]             Gen. 4-7.
[5]             “A civilização tem como efeito geral submeter os instintos à vontade”. (Féré. L’inst. sex.).
[6]             Tão evidente é o mérito da virtude que o vício tem que tomar os disfarces dela, para se apresentar em público.
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